terça-feira, 5 de maio de 2015

POEMAS DE BERTOLT BRECHT


















EPITÁFIO

Escapei aos tigres
Nutri os percevejos
Fui devorado
Pela mediocridade


REMAR, CONVERSA

Noite. Passam deslizando
dois barcos. Dentro
dois jovens. Torsos
nus. Lado a lado remando
conversam. Conversando
remam lado a lado.


HOLLYWOOD

Toda manhã, para ganhar meu pão
Vou ao mercado, onde se compram mentiras.
Cheio de esperança
alinho-me entre os vendedores.


MANHÃ MALIGNA

O álamo branco, famosa beldade local
hoje uma velha bruxa. O lago
um charco de águas de lavagem. Não agitar!
As fúcsias junto à boca-de-leão — baratas e fúteis.
Por quê?
À noite em sonho eu vira dedos que me apontavam
como a um leproso. Dedos rotos
dedos mortos.

Ignorantes! gritei
cheio de culpa.


A MÁSCARA DO MAL

Na minha parede, a máscara de madeira
de um demônio maligno, japonesa —
ouro e laca.
Compassivo, observo
as túmidas veias frontais, denunciando
o esforço de ser maligno.


SOBRE UM LEÃO CHINÊS DE RAIZ DE CHÁ

Os maus temem tuas garras.
Os bons alegram-se com teu garbo.
O mesmo
quero ouvir
de meus versos.

Traduções: Haroldo de Campos


AS MOÇAS SOB AS ÁRVORES DA ALDEIA

Escolhem os namorados.
A morte
Também.


É NOITE

Os casais
Deitam-se nos leitos. As mulheres
Parirão órfãos.


NA MANHÃ DO NOVO DIA

Na manhã do novo dia, ainda na aurora
Os abutres se levantarão em negras nuvens
Em costas distantes
Em voo silente
Em nome da ordem.


ALÉM DESSA ESTRELA

Além dessa estrela, pensei, nada existe
E ela está tão devastada
Ela somente é nosso abrigo, e
Olha o aspecto dele.


A FUMAÇA

A pequena casa entre árvores no lago.
Do telhado sobe fumaça
Sem ela
Quão tristes seriam
Casa, árvores e lago.

Traduções: Paulo César de Souza

MAIO É O MÊS DE LEMBRARMOS A NAKBA















O judaísmo é uma religião e um conjunto de costumes e tradições, não define uma nacionalidade ou grupo étnico-linguístico específico -- há comunidades judaicas chinesas, indianas, persas, eslavas, africanas, que descendem de povos convertidos à religião judaica nos primeiros séculos da era cristã, como relata o historiador israelense Shlomo Sand, da Universidade de Jerusalém, no ótimo livro "A invenção do povo judeu" (São Paulo: Benvirá, 2011). O sionismo é uma ideologia política nacionalista criada no século XIX por Theodor Herzl, refutada em seu tempo pelos rabinos ortodoxos, que a consideravam uma heresia (a Torá profetiza que a criação do reino de Israel aconteceria apenas com a vinda do Messias) e rejeitada por intelectuais e artistas judeus, que não reivindicavam outra nacionalidade além daquela de seus países de origem. O pensamento sionista se tornou hegemônico nas comunidades judaicas apenas a partir do final da II Guerra Mundial, em que a maioria dos judeus assimilados -- anarquistas, comunistas, socialistas, democratas, liberais -- foi morta nos campos de extermínio nazistas. A Palestina, nessa época, possuía apenas 5% de judeus e 95% de árabes cristãos e muçulmanos. A criação de Israel em 1947 foi possível pela imigração de milhões de judeus EUROPEUS para a Palestina e pelo apoio dos Estados Unidos ao novo estado, planejado para ser uma base militar e política estratégica para a defesa dos interesses imperialistas no Oriente Médio. Cerca de 750 mil palestinos foram expulsos de suas casas e terras, numa operação de limpeza étnica conhecida como NAKBA ("catástrofe" em árabe). Hoje, o número de palestinos que vivem no exílio, proibidos pelos sionistas de voltarem a seus lares, é de cinco milhões de pessoas. No mês de maio, lembramos o aniversário da NAKBA, uma das principais datas do calendário de solidariedade ao povo palestino. Defender os direitos da comunidade palestina ao seu próprio estado, independente, soberano, com suas próprias leis, governo, fronteiras seguras e outras prerrogativas de um estado nacional não significa ser contra os judeus, e sim contra a intransigência de um regime fascista e colonialista instalado em Tel Aviv, que impõe aos palestinos a mais brutal política de segregação racial dos tempos atuais, só comparável ao apartheid da antiga Africa do Sul -- aliás, e não por acaso, um dos grandes aliados da entidade sionista. VIVA A LUTA DO POVO PALESTINO!

segunda-feira, 4 de maio de 2015

POEMAS DE AUGUST STRAMM



  

















RECORDAÇÃO

mundos emudecem para fora de mim
mundos mundos
negror e palor e cor!
luz na luz!
arder flamejar chamejar
agitar flutuar viver
acercar-se caminhar
caminhar
todos os dorido-esvaídos desejos
todas as acre-escorridas lágrimas
todas as áspero-escarnecidas ânsias
todos os frios fogos sufocados
através da fervitorrente de meu sangue
através do incêndio de meus nervos
através do pensamento-labareda
tempestuam tempestuam
rompem rampam
rodoviam
a ti
a via
a via
a via
para mim!
a ti
a via
meclamorosa
a ti
a via
flamirrasgada
a ti
a via
impercorrida
nunca
encontrada
via
para
mim!


CASA DE PRAZER

Luzes meretrizam nas janelas
A doença
Roja-se à porta
E conclama gemidos de mulher!
Almas femininas enrubescem risadas agudas!
Colos de mães bocejam filhos mortos!
O não nascido
Fantasmabuleia
Volátil
Pelo espaço!
Medrosa
Num canto
Envergonrevolroída
Esconde-se
A espécie!


INCONSTÂNCIA

Meu buscar busca!
Mil vezes me transformo
Me apalpo
E tateio-te
E te apanho!
Anseio-me!
E a ti, a ti, tu
Mil vezes tu
E sempre tu
Multívia tu
Nosfusão
Confusão
Circunfusa
Cada vez mais difusa
Através da
Ambifusão
Tu
Te
Me!


LUAR

Lívidos langues
Lábeis flexíveis
Gatos odoram
Flores fremem
Águas lambem
Ventos soluçam
A luz desnuda seios agudos
O tacto geme em minha mão


Traduções: Haroldo de Campos

sábado, 2 de maio de 2015

BREVE REFLEXÃO SOBRE A SITUAÇÃO POLÍTICA


A situação política brasileira evolui de maneira rápida e imprevisível. Qualquer análise que se faça hoje é parcial e temporária, pela velocidade com que surgem novos fatos. Até há poucas semanas, o governo federal estava acuado pelas marchas organizadas pela extrema-direita nas principais capitais brasileiras e pela mais violenta campanha difamatória já organizada pelos empresários que controlam os meios de comunicação no Brasil, só comparável às conspirações midiáticas contra Getúlio Vargas e João Goulart.

A ofensiva conservadora, apoiada por partidos como o PSDB, PPS, DEM, pela maioria patronal no Congresso e até por setores reacionários do próprio aparelho do estado, em especial no Ministério Público, Judiciário e Polícia Federal, visa incriminar a presidenta Dilma Rousseff no caso da Operação Lava à Jato – ainda que sem nenhuma evidência material ou argumento jurídico para um impeachment, conforme parecer de Miguel Reale – e ainda mais: envolver o ex-presidente Lula, provável candidato às eleições presidenciais em 2018, cassar o registro do PT e colocar na ilegalidade os pequenos partidos de esquerda, como o PSOL e o PCdoB, por meio da manobra para a aprovação do voto distrital.

Ou seja: o objetivo é esmagar a representação política dos trabalhadores, quem sabe até atingindo as centrais sindicais, sobretudo a CUT e CTB, e movimentos sociais como o MST.

Estimulada por sua excessiva autoconfiança e explorando a fragilidade defensiva do governo federal, a burguesia brasileira jogou uma cartada de alto risco: o projeto de terceirização do trabalho, apresentado por Eduardo Cunha (PMDB) na Câmara Federal, que na prática revoga os direitos trabalhistas garantidos pela CLT, precarizando as relações de trabalho, o movimento sindical e instituindo uma nova organização social de natureza neoliberal, muito mais violenta do que nos Estados Unidos e na Europa Ocidental.

Outros projetos apresentados no Congresso, como o da redução da maioridade penal – que significa, caso seja aprovado, a criminalização dos adolescentes pobres e negros da periferia –, o da revogação do programa Mais Médicos, que beneficia mais de 60 milhões de brasileiros nas regiões mais pobres do país e o da mudança do regime de partilha para a exploração do pré-sal para o regime de concessão, que favorece o capital internacional, são igualmente nefastas. Alimentada pela campanha difamatória da mídia golpista, a direita começa a defender, sem nenhum pudor, a privatização da Petrobrás e dos serviços públicos.

Em resposta à ofensiva reacionária, os movimentos sociais realizaram protestos em todo o país, que apenas em São Paulo levaram 40 mil pessoas às ruas, obrigando Eduardo Cunha a adiar a votação na Câmara. Após a aprovação do projeto, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), reuniu-se com as centrais sindicais e declarou que, do modo como o projeto foi formulado, não seria aprovado no Senado. A presidenta Dilma Rousseff, em discurso veiculado nas redes sociais no dia Primeiro de Maio, declarou-se favorável à regulamentação das relações de trabalho dos 12 milhões de terceirizados que já existem no país, mas contrária à terceirização das atividades-fim, que colocam em risco todas as conquistas sociais das últimas décadas.

As centrais sindicais, por sua vez – em especial a CUT, CTB, Intersindical e Conlutas – declararam sua firme oposição ao projeto e a disposição de promoverem uma greve geral no país por tempo indeterminado, em caso de aprovação. A proposta de terceirização amedrontou mesmo setores de classe média que antes estavam engajados na campanha pelo impeachment de Dilma, e uma consequência desse temor foi o fracasso da marcha fascista realizada em abril, que reuniu apenas ¼ do total de manifestantes do mês de março, sendo inexpressiva em quase todas as capitais brasileiras, com exceção de São Paulo, Brasília, Curitiba e Porto Alegre.  O próprio PSDB resolveu adiar a apresentação da moção de impeachment no Congresso, não obtendo parecer jurídico e apoio popular suficiente para desfechar o golpe de estado civil.

Ao mesmo tempo, as greves se multiplicam no país, inclusive em estados governados por tucanos, como é o caso da greve dos professores, que acontece em São Paulo, Paraná, Pará e também em outros estados brasileiros. No Paraná, onde 60 mil professores já foram às ruas contra a política antipopular do governador Beto Richa, houve violenta repressão policial, com a utilização de helicópteros que jogaram bombas de gás lacrimogênio contra os manifestantes, além das balas de borracha, spray de pimenta e até cães pitt bulls. O saldo da violência foi o de centenas de feridos (213 segundo a mídia, 500 segundo o sindicato dos professores) e intensa comoção nacional, graças às redes sociais, que divulgaram fotos e vídeos ocultados pelos meios de comunicação.

A forte repressão, porém, não desmotivou os professores paranaenses, que permanecem em greve, e ainda incentivou um movimento pelo impeachment do governador do PSDB, que já ouve críticas até mesmo de parlamentares do PMDB na Assembléia Legislativa, onde a maioria da situação não é tranquila e pode mudar, de acordo com a evolução dos acontecimentos. Em São Paulo, outro estado governado pelo PSDB, os professores estão em greve há mais de 50 dias, enfrentando a postura de Geraldo Alckmin de não dialogar ou negociar com o movimento. A paralisação pode se estender por meses, levando ao desgaste político do governador, que já enfrenta críticas pela crise hídrica, no estado que é a principal base de apoio da extrema-direita golpista. Em Minas Gerais, onde o candidato tucano foi derrotado pelo PT nas eleições estaduais de 2014, o PSDB sofre novo revés, com a revelação dos escândalos de corrupção que aconteceram nas gestões tucanas, inclusive – ou sobretudo – a de Aécio Neves.

É impossível prever os desdobramentos da crise política, mas com certeza a direita já não tem hoje o mesmo fôlego que tinha há poucas semanas e o avanço das lutas dos trabalhadores pode não apenas impedir a ofensiva golpista, como também infligir sérias derrotas aos tucanos nos poucos estados onde ainda têm influência junto à opinião pública. Cabe aos partidos de esquerda – PT e PCdoB, sobretudo – , junto a parlamentares progressistas de outras legendas, como o PDT o PSOL e mesmo do PMDB, às centrais sindicais, movimentos de mulheres, negros, juventude, LGTB, trabalhadores sem teto e sem terras organizarem uma ampla frente em defesa da democracia, dos direitos sociais e da Petrobrás, para garantirmos novos avanços e conquistas.


Claudio Daniel

quinta-feira, 30 de abril de 2015

POEMA DE CADERNOS BESTIAIS (volume II, inédito)




  


HINO À POLÍCIA

Toca o terror —
cabeças de arimãs

reverberam féretros
assanha-se histérica

turba de behemoths
damballas beherits

capacetes visores
escudos tonfas

vidro moído ferro
esturricado pneus

incendiados entre
balas de borracha

rasgando rasgando
vielas entrevértebras

fantoches toscos
fantoches-ferrabrás

com fuzis automáticos
de mira telescópica

escarnecidos espectros
em carros blindados

para a contra-insurgência
nas avenidas furiosas

de meu próprio país.

POEMA DE CADERNOS BESTIAIS (volume I)



 

















ANTIMÍDIA X

Quelle est ma langue?

Ionesco

GRUNHE repetindo-se repetindo-se rasura ou réplica de réptil fardos que são palavras farpas de um animal samsárico (repetindo-se repetindo-se) fanhos replicantes repousada em úmeros: caveira neanderthal cor de prata sobre fundo negro (ganchos guinchos repetindo-se) horror social belphagor iniquidade: todo um catálogo de demônios repetindo-se balam belial asmodeus astaroth bicos-de-papagaio encurvados lascas de madeira na boca repicadas repicantes sobre fundo negro letras rúnicas inscritas no crânio antiesfíngicas ruminando cólera astarté ruminando Deutschland über alles, / Über alles in der Weltbarão neoliberal bebe urina com os ratos na hora da gárgula na hora vermelha da gárgula na hora do maçarico quando garotos racistas de São Paulo ateiam fogo na mendiga refugos de rastilhos de rebotalhos neste açougue onde repartem carne humana Tíbias são dejetos olhos são dejetos orelhas são dejetos nesta terra de ninguém que a terra há de comer Caso esfiapasse essa pele caso esfiapasse se não fosse hidra se não fosse ira se não fosse asco se não fossem imponderáveis urros no arame da pobre diaba arpejo de pupila em seu desnudamento de planta em seu desnudamento de carne estirada em ganchos balam belial asmodeus astaroth todo um catálogo de demônios repetindo-se em guaches em guantes Tudo queimaela disse Lucidez nenhuma que os dissuadisse nesta terra de ninguém que a terra há de comer

2014

quarta-feira, 29 de abril de 2015

POEMA DE FIGURAS METÁLICAS




















PORQUE A HORA É VIOLENTA

Porque a hora é violenta e tudo esmaga, abrir cabeças
de serpente.
Há o verde sonoro
de metais;
há o roxo
da flor
cujo nome
ignoramos.
Dedos rugem
escura perplexidade;
arcos rebentam
bicos
de pássaro.
Sou anfíbio,
e calo
o que me apavora.
Onde viajar outros dias possíveis?
Como
extirpar
essa desolação?
Eis o inevitável
campo
de batalha;
eis a letra inverossímil, vermelho
decapita
amarelo.
Sinceramente,
confesso
meu pesar:
quando ponteiros corroem pulsos,
povoar
mandíbulas
para corvos.
A hora é violenta e o medo em escamas
arranha
a pele
da voz.
Explodir palavras-de-argila;
degolar
leões
de pedra
(ignotos);
mutilar
a escura epiderme,
em chuva
azul-
de-agonia.
Tudo
por um
nada
soando crânios e trompetes,
cortando (súbito)
o branco-
cinza
da manhã.
Sri Baghavan uvaca:
Yam hi na
vyathayanty ete
purusam
purusarsabha
sama-duhkha-sukham dhiram
so ‘mrtavaya
kalpate.


2002

POEMA DE A SOMBRA DO LEOPARDO

 












POROS

Um silêncio verde
— Paul Celan


O
verde,
sua pele
ácida. Tocar
os poros
do verde, florir
metálico. Ouvir
sua voz de asa
e sombra.
Olhos, faisões
de cegueira.
Jóias de irada
divindade.
Abelhas e lagostas
amam-se, odeiam-se,
tulipas caem
na goela
do tempo.
Tuas mãos tateiam
a nervura imprecisa
da cicatriz
e não há mar,
nem pão, nem página.
Alucino-te
ao mirar-me
no silêncio
de uma laranja
quadrada.
Aqui, nada mais viceja.
Lacraias afogam-me
em tua lágrima
e se fecha a porta
esquerda. Toda palavra
me fere com sua cor.
Quando cessa
o canto, calados,
ouvimo-nos
em um corte
azul.
1999

LETRA NEGRA (fragmento)



 













XXIX

esta é a maneira de sermos brutais,
com a aspereza
de quem caminha
pelas ruas,
mascando lascas.

não preciso dar explicações
com palavras de madeira,
porque sou impuro
e espontâneo
como a fera.

esta é minha sombra magra, confesso,
estes, os meus passos desordenados.

nenhuma estrela para definir o dramatismo da noite
ao longo da jornada,
nem os ramos
de uma árvore inclinada.

quem considere imprecisa a descrição,
que escreva o seu próprio
rascunho,
com a fúria
violeta
do escaravelho.

sem contar nove vezes
menos um eco,
sigo minha jornada bípede,
de energúmeno.

nada aqui faz sentido para os meus lábios
vociferantes;

e como não venero
deuses de esterco,
nem as clausuras
cíclicas da história,

sigo andando
com minhas omoplatas,
minhas axilas,
meu caralho,

minha testa
desenhada
com símbolos alquímicos,

e um poema
escrito para ninguém
nas linhas torcidas
de meus pulsos.

2009


quinta-feira, 23 de abril de 2015

ZUNÁI, REVISTA DE POESIA E DEBATES






  














www.zunai.com.br

Volume II, n. II, abril / 2015

Topografias nômades em Herberto Helder

A teoria estética de Hans Robert Jauss e a recepção das crônicas rosianas de guerra no século XX

Entrevista com Márcia Denser

Poemas de Antonio Risério, Claudio Daniel, Jorge Lúcio de Campos, Adriana Zapparoli, Luiz Ariston, Ricardo Portugal, Valério Oliveira, Alexandre Guarnieri, Filipe Marinheiro, Fabrício Clemente, Fernando Lopes, Lilian Aquino, Vivian de Moraes, W. B. Lemos,

Galeria: exposição virtual de Isadora Reimão, poemas visuais de Elson Fróes e Mário Alex Rosa

Traduções de Nicanor Parra, Stefan George, Paul Celan, Gottfried Benn, Edmond Jabès, Bertolt Brecht, Giuseppe Ungaretti, Anize Koltz, Uljana Wolf, Steffen Popp, Richard Anders, Mark Strand, Thomas Transtromer, Heiner Muller,

Prosa: Márcia Barbieri, Patrícia Rameiro, Isabel Mendes Ferreira, Ronie Von Rosa Martins

Opinião / Cadernos da Palestina: o cotidiano da ocupação em textos e imagens

Especial: Revisitando Lupe Cotrim (ensaio, poemas, entrevista a Carlos Drummond de Andrade)



Endereço eletrônico: www.zunai.com.br

Onde encontrar: no ciberespaço, essa “gran cualquierparte” (Vallejo)

Preço: Inefável. Inconcebível.

domingo, 19 de abril de 2015

POEMAS DE MAX MARTINS



















O ESTRANHO

Alheio – contudo tão próximo.
Em ti busco a dor que me corrige
na tarde
em um a um dos teus perigos
que reduzo em flor para meu uso
particular, estranho.
O teu grotesco
na impossibilidade de me deter
já me consola.
Ajusto as botas que me levam ímpar
calejado,
de gravata e triste.


1958

Aéreatarde naufragava
em chumbo
e a rubra ponta das folhas
se partia:
O outono
autônomo se despregava
das paredes.
Sobre a mesa
o Ás e a alma
embaralhos
jazem.


A NOVA FLOR

A nova flor se chama
-- no rio defunto – A ALMA
É uma flor de escamas,
pluma de espuma e borra.

A cor é baça
talvez de chumbo
ou de fumaça.

Quando de tarde
a bolha espoca
as larvas fervem
dentro do pólen
azedo e mole.

A COISA

Lá do olhar a cúpula
lunar que tece
esfera e gaze
a coisa insone
de suor e incenso
a arquejar dobrada
mais do que fruta
ou pétala ou luta
quase morrer
submersa nasce
em tempo e brasa
massa
saliva áspera: o nome.



O ANIMAL SORRI

O animal sorri. Seus dentes
são rochas
e ruínas
por onde a noite
sem memória desce
sua demência.

Teu corpo (ainda leve)
-- indelével sombra
Sobra
duma remota juventude
está de volta.
Ninguém te segue, e cega
a ave fere a tarde
te denuncia
às febres deste dia.
Rios se desesperam
pedras agonizam
se torturam
se procuram.

(Virás à jaula
Deste animal remanescente
Do fogo e do Dilúvio?)
Atraiçoado
oco
ex-
posto em praça pública
para os olhos
das crianças, dos fotógrafos?
EU-COBERTO-DE-PÊLOS: virás me ver
atrás das grades?)


OS CHAMADOS DO TIGRE ME ATRAVESSAM

Os chamados do tigre me atravessam. Ardem 
e medram em sangue sob escombros, plasmam 
a carne do meu fruto flamejando-o
Quem defende o meu corpo deste incêndio 
desta palavra corpo se afogando? 
E quem sou eu para guardar um nome de sua noite? Quem 
das grades dessa noite, a pele majestosa, tenso 
vibra seus punhos contra a neve?
                                                              Tu 
que não me dizes nem me sabes, tu 
que do topo dos topos da metáfora me alivias 
                                                                      vê:
Do fundo de meus olhos cego-deslumbrados 
obscuros laivos de ternura me procuram



NEGRO E NEGRO

Sem tom nem som
-- não tonsurada
Oculta de si própria
e de seu nome
cega


no seu ovo a letra-
aranha sonha
sabe:

Guarda o silêncio
antes do incêndio


SANGRADO DE TI

                            À minha mãe
Teu, meu corpo
sangrado de ti
Osso doloroso
Aureolado de ti

Nos confins de mim
tua sede ressoa infinita
se o nome nos cala faminto:

Eu, rico de sombras desertas
Tu, coberta de sombras sonâmbulas.


PEDRA DE MÚSICA

Os sons da água
nas bocas da pedra
Gozos da água
nos dentros da pedra.


VELUDO DE SOMBRA

O amor cresceu para dentro.
Uma noite cobre o coração.
Teu veludo de sombra.


AO LUAR

Um ramo de loucura.


ELA,

a rosa de Celan
e de ninguém             Estrela
tumular de Trakl        Irmã
azul do fogo tremula
de sigilos
signos

solidão 

terça-feira, 14 de abril de 2015

O OVO DA SERPENTE

O crescimento do ódio, da intolerância, do racismo, da homofobia e de outros sintomas da paranoia coletiva que ameaça a democracia brasileira, em minha opinião, tem várias causas: 1) o enfraquecimento da Teologia da Libertação durante os papados de John-Paul II e do Fuhrer Ratzinger, que afastaram a Igreja Católica da população mais pobre e abriram o caminho para as seitas evangélicas caça-níqueis; 2) a política de comunicação dos governos Lula e Dilma, que não implementaram a regulamentação da mídia nem criaram jornais, emissoras de rádio e televisão em contraposição ao discurso único da mídia golpista; 3) a ausência de ações permanentes dos partidos de esquerda -- em especial o PT -- para mobilização e politização da sociedade, ao longo dos últimos 12 anos. Não basta investir no crescimento do consumo da classe trabalhadora sem educá-la politicamente; 4) um sistema educacional falido, especialmente no ensino fundamental e no médio -- de responsabilidade dos governos estaduais e municipais. Se quisermos uma revolução social no país, é urgente começarmos uma verdadeira Revolução Cultural.

A THING OF BEAUTY IS A JOY FOREVER


domingo, 12 de abril de 2015

CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS (IV)








Aos 28 anos de idade, assisti a mudanças políticas que criaram uma nova situação no Brasil e no campo internacional. Nas eleições de 1989, a candidatura de Lula a presidente da república pela Frente Brasil Popular (PT-PCdoB-PSB-PCB), com um programa abertamente de esquerda, é derrotada nas urnas pelo candidato da direita, Fernando Collor de Mello, após intensa campanha midiática que culpava o PT pelo sequestro do empresário Abílio Diniz. A Rede Goebbels editou o debate entre Lula e Collor, para favorecer este último, e todos os jornais diários alinharam-se explicitamente em favor do candidato dos ricos. Foi um grande revés para os movimentos sociais, agravado pela derrota dos sandinistas na Nicarágua (após dez anos de bloqueio econômico e intervenção militar indireta dos Estados Unidos, que apoiavam os contrarrevolucionários), pela queda do Muro de Berlim e posterior desaparecimento do campo socialista na Europa Oriental. Esta derrota histórica colocou a esquerda numa situação de defensiva estratégica, que permanece até os dias de hoje (apesar da vitória de candidatos progressistas na América Latina e da formação dos BRICs: o imperialismo ainda mantém a supremacia militar, promove golpes de estado, intervenções armadas, impõe sanções contra a Rússia e trava uma luta discreta contra a China).

Em 1990, fui demitido, juntamente com toda a equipe de redação, da empresa onde trabalhava – a Editora Universo, que fazia parte do Grupo Abril, e com a indenização resolvi sair da casa de meus pais e morar sozinho, em um apartamento no bairro do Bexiga. Viajei até o Espírito Santo, onde passei uma semana no mosteiro zen-budista em Morro da Vargem, onde pratiquei meditação e estudei haicai. De volta a São Paulo, convencido de que não tinha vocação para ser monge, fui trabalhar, como revisor free-lancer, na VEJA (!!!) e no antigo jornal Diário Popular, onde conheci Regina, com quem casei poucos meses depois, e que foi minha companheira por duas décadas.  Nessa época, praticava Tai Chi Chuan, fazia terapia lacaniana e dediquei-me à leitura intensa de poetas que falavam mais à minha sensibilidade e inclinação estética: João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos, Rimbaud, Mallarmé, Blake, Bashô, Pound, Cummings, Maiakovski, Khlébnikov. Estudava também várias filosofias místicas do Oriente – além do zen-budismo, o vedanta indiano, o taoísmo, o sufismo.

O resultado desse caldo de desencantamento político, mudanças na vida pessoal, luta pela sobrevivência, leituras e estudo de poetas e místicos foi o meu primeiro livro de poesia, Sutra, em 1992, que custeei por conta própria. O livro passou despercebido, não recebeu nenhuma resenha ou nota nos jornais, mas foi bem recebido por alguns poetas, como José Paulo Paes, Claudio Willer, Augusto de Campos. Relendo este livro hoje, não me reconheço nos temas, mas na linguagem: acredito que toda a minha poesia posterior seja consequência das experiências com a palavra que realizei nesse primeiro caderno de estudos poéticos.

O meu desencanto com a política foi longo, motivado, possivelmente, pela ausência de uma interpretação marxista aprofundada, naquela época, sobre o que estava acontecendo no mundo: os trotsquistas saudavam o fim da URSS como sendo a tão propalada “revolução política” defendida pela IV Internacional, que destruiria a “burocracia stalinista” para fazer avançar a “revolução proletária mundial”, bobagem ideológica que logo revelou ser o que realmente era: verniz “ultra-esquerdista” para encobrir o compromisso de tais organizações com a reação e com o imperialismo (vale a pena recordar o recente apoio de Luciana Genro ao golpe de estado pró-nazista na Ucrânia, com as mesmas palavras e argumentos com que os trotsquistas saudaram o fim do campo socialista na Europa Oriental). Outros setores, como boa parte do antigo PCB, então liderado por Roberto Freire, resolveram adotar o discurso ideológico do “fim da história”, aceitaram a hegemonia do neoliberalismo e da democracia burguesa e mudaram o nome do partido para PPS, hoje fiel escudeiro do PSDB no Congresso Nacional. O PT saiu enfraquecido e amargou divisões e derrotas até a vitória de Lula, em 2002, que inaugurou um novo ciclo político no país, que trouxe diversas conquistas importantes para os trabalhadores, mas com desdobramentos ainda incertos.

No período entre 1990-2007, privilegiei a vida familiar – meu filho, Iúri, nasceu em 2000 –, a atividade profissional e o trabalho com a poesia (que comentarei em outra confissão), afastado de qualquer atividade militante. Foi um período de grandes dúvidas, incertezas e confusão pessoal, que seria depois superado por uma reconciliação com os meus ideais de juventude e o posterior ingresso no Partido Comunista do Brasil, motivo de imenso orgulho para mim.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

VENCER O RETROCESSO!












O Congresso Nacional, sob o comando de Renan Calheiros e Eduardo Cunha, ambos do PMDB, apresenta um projeto político claro: realizar um governo paralelo, em oposição à presidenta da república, e impor uma pauta conservadora: flexibilização das leis trabalhistas (a lei relativa à terceirização é apenas o começo), redução dos direitos sociais -- maioridade penal aos 16 anos, revisão da lei sobre o aborto para a sua total proibição, aprovação de projetos homofóbicos (como a proposta de Eduardo Cunha de um "Dia de Orgulho Hétero"), revisão da lei partilha para a exploração do pré-sal, entre outras medidas antinacionais e antipopulares. Bloco conservador mantém Dilma na posição de refém, com a ameaça de votação da proposta de impeachment. Agora, a guerra está clara: cabe aos movimentos sociais, centrais sindicais, entidades estudantis, de mulheres, negros e LGTBs organizarem uma grande greve geral no país e mobilização de massas permanente para pressionarmos o Congresso Nacional. É preciso mudarmos a correlação de forças no país, para impedirmos o maior retrocesso político da história do Brasil desde o golpe de 1964.

terça-feira, 7 de abril de 2015

CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS (III)



Cometi a insensatez de ingressar no curso de Jornalismo, na remota década de 1980, por acreditar ingenuamente, naquela época, que o jornalismo era uma trincheira necessária para a “batalha das ideias” e para a democratização da sociedade. A decisão foi tomada num tempo em que havia pluralidade ideológica nos jornais: a FALHA de São Paulo, por exemplo, publicava artigos de Luiz Carlos Prestes, Florestan Fernandes, Marilena Chauí, ao lado de “pérolas” de Plínio Correia de Oliveira – guru da TFP --, Jorge Boaventura e outros próceres do fascismo caboclo. Havia reportagens investigativas sérias, como as de Ricardo Kotscho e Clóvis Rossi (naquela época, um ser pensante melhor do que é hoje). Havia correspondentes internacionais nas principais capitais do mundo e bons suplementos de cultura, tanto na FALHA quanto no ESGOTÃO. A partir de 1983-4, quando me formei, porém, as coisas começaram a mudar: os grandes jornais diários informatizaram as redações, demitiram os revisores (o que explica o péssimo português da mídia impressa), demitiram gradualmente os velhos jornalistas e correspondentes internacionais, passando a publicar, exclusivamente, press releases das agências de notícias norte-americanas. Os cadernos de cultura foram sendo fechados, um a um, e os cadernos de “variedades” passaram a dar prioridade ao mundo do entretenimento e da “literatura de mercado”. O pluralismo ideológico desapareceu após o fim da ditadura: os jornais tiraram a máscara de “defensores da liberdade e da democracia” e assumiram o discurso único, regido pelos valores do neoliberalismo, que perdura até os dias atuais.

O que fazer, com o diploma de jornalista debaixo do braço e a necessidade de ingressar no mercado de trabalho? Meu primeiro posto profissional foi na antiga Editora Universo (uma empresa do Grupo Abril, responsável pela edição da versão brasileira da Enciclopédia Larousse). Havia um clima bastante descontraído e irreverente na redação, flexibilidade de horários e pouca pressão da diretoria, ao contrário do que acontece hoje. Como redator da enciclopédia, fiz algumas traquinagens: criei um verbete para Ivan Iakovlev Templiakov, suposto matemático, filósofo, poeta e astrofísico soviético, autor da teoria da biocinética estelar, que faleceu aos 101 anos em Miami, nos braços de sua amante, Dorothy Grace, de 18 aninhos. Construí o verbete com tal secura e precisão de informações que ele permaneceu em todas as futuras edições da enciclopédia, gerando inclusive artigos, livros e dossiês sobre tão proeminente sábio do século XX (os autores de tais trabalhos, evidentemente, conheciam a farsa). O que escrevi como brincadeira, de certo modo, reflete minha opinião sobre a mídia: não importa a “verdade” ou “mentira” de um fato, se é noticiado, passa a ser considerado, pela maioria das pessoas, como “realidade”. Aprendi, por experiência própria, que o jornalismo é exatamente isso, a produção ideológica de uma suposta “realidade”, com o objetivo de influenciar a sociedade, de acordo com interesses específicos (em meu caso, o da sátira).

Em 1988, a CUT convocou uma greve geral contra a política recessiva de Sarney. Fui de mesa em mesa, convoquei meus colegas para uma assembléia, defendi a proposta da paralisação e ela foi apoiada por imensa maioria. Resultado: tive a honra de organizar a única greve em uma das empresas do Grupo Abril naquele período. No ano seguinte, criamos na redação um comitê informal de apoio à candidatura de Lula, pela Frente Brasil Popular (PT-PCdoB-PCB-PSB), fato que hoje seria impossível em qualquer redação da grande mídia. Organizamos bocas-de-urna, distribuímos panfletos e, sobretudo, convencíamos os colegas a votarem em Lula. Nossa alegria terminou com a vitória discutível de Fernando Collor de Mello nas eleições presidenciais (a partir do boato de que o empresário Abílio Diniz teria sido sequestrado pelo PT,  além da edição pela Rede Goebbles do debate entre Lula e Collor, para favorecer este último, entre muitas outras ações da mídia golpista, no sentido de fabricar uma realidade que prejudicasse a vitória de Lula). Fomos demitidos, todos nós, em 1990, após a conclusão dos trabalhos da Enciclopédia, e o que aconteceu depois comentarei em outro capítulo desta emocionante novela. 

CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS (II)



Minha primeira namorada fumava maconha, ouvia rock pesado, bebia cachaça com limão, conversava com bêbados e prostitutas, gostava de revólveres, lenços de seda indiana, livros de Jung. Em cada encontro, ela fazia algo inusitado. Uma de suas transgressões favoritas era jantar em restaurantes caros e sair sem pagar a conta. Outro passatempo predileto era o de roubar livros. Eu era um rapaz tímido, bem-comportado, ficava assustado com as suas traquinagens – como disparar uma bala no meio da rua, de madrugada – e fascinado. Após dois anos de relacionamento, ela se apaixonou por um estudante de medicina – muito, muito, muito mais careta do que eu – e fiquei sem ter notícias dela por duas décadas. Imaginava coisas terríveis: que ela tinha sido morta pelo marido, ou cometido suicídio (seu espírito de autodestruição era considerável). Encontrei-a novamente, por acaso, há cerca de dois anos: continuava linda, apesar de contar 50 anos e das duas gestações. Permanecia casada com o mesmo sujeito, hoje um bem-sucedido clínico, gordo, careca e rico. Trocamos mensagens românticas, marcamos um encontro, para recordarmos os velhos tempos (ela estava insatisfeita com o casamento). Antes do grande dia, porém, leio suas postagens: um imenso festival de preconceitos de toda ordem, com os inevitáveis “Fora Dilma!” “abaixo o bolsa-miséria”, “vai pra Cuba”, “fora o Foro de São Paulo”. Desmarquei o encontro no mesmo instante, bloqueei a criatura e espero nunca mais revê-la. Realmente: aquela garota que conheci na juventude tinha morrido.