Meu pai, Orlando, era um técnico eletrônico com segundo grau
incompleto, leitor de Shakespeare e Homero, que trabalhou a vida toda em
fábricas de caldeiras e equipamentos eletrônicos. Minha mãe, Lazara, era
secretária nas Indústrias Reunidas F. Matarazzo. Cursei o ensino fundamental e
o médio num colégio particular, adventista, no bairro de Moema – minha mãe
conseguiu uma bolsa de estudos de quase 100% para mim –, frequentado por filhos
da elite paulistana. Ela acreditava que, em tal instituição, eu receberia uma
boa formação educacional. As lembranças que eu tenho das aulas são péssimas:
ensino superficial, com método pedagógico defasado, voltado para o “mercado” –
por minha sorte, tive formação autodidata, devorando livros de história,
literatura, filosofia, política. Se pouco aprendi com os professores, muito
aprendi com meus colegas, filhos da mais ilustre burguesia paulistana: aprendi
o que era preconceito de classe, de etnia, de gênero, de orientação sexual e
até estética: obesos são discriminados? Magros também. Fui alvo de bullyng por
anos, mas nunca fui adepto da resistência pacífica, e espanquei sem dó vários
filhinhos de papai. Aos 16 anos, depois de conviver tanto tempo com a
doutrinação religiosa adventista (meus pais, aliás, eram católicos) e todo o
discurso ideológico de meus colegas – admiradores confessos da ditadura –,
passei a declarar-me ateu e marxista-leninista revolucionário, do que tenho
muito orgulho até os dias de hoje.
segunda-feira, 6 de abril de 2015
POEMAS DE MÁRIO FAUSTINO
ROMANCE
Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhando já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena
Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.
SOLILÓQUIO
- Tudo o que importa é ser maravilhoso.
A maravilha: gesto de inocência.
E do aceno o milagre a renascença
de deslumbrados olhos infantil espaço
e primavera – o homem volta ao homem;
o inefável gera enfim o mal sublime
no coração deserto; e da terna doença
a rosa azul desponta e levanto-me rei.
- Eu mesmo sou o encantador do mundo!
Seres e estrelas brotam de meus lábios…
e morro deste belo sofrimento
de ser maravilhoso!
– Ah, quem pudesse
gritar à noite e ao tempo essas palavras
e partir pelo vento semeando versos
e terminando a criação da terra…
VIDA TODA LINGUAGEM
Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará – oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias
Vida toda linguagem –
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno,
/ contra a chuva,
tenta fazê-la eterna – como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.
Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará – oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias
Vida toda linguagem –
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno,
/ contra a chuva,
tenta fazê-la eterna – como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.
BALADA
(Em memória de uma poeta suicida)
Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmos sangrento e a alma pura.
Porém, não se dobrou perante o fato
Da vitória do caos sobre a vontade
Augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mais intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura),
Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim
Para afirma-se além de seus tormentos
De monstros cegos contra um só delfim,
Frágil porém vidente, morto ao som
De vagas de verdade e de loucura.
Bateu-se delicado e fino, com
Tanta violência, mas tanta ternura!
Cruel foi teu triunfo, torpe mar.
Celebrara-te tanto, te adorava
De fundo atroz à superfície, altar
De seus deuses solares - tanto amava
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou
No mergulho fatal com que mostrou
Tanta violência, mas tanta ternura!
Envoi
Senhor, que perdão tem o meu amigo
Por tão clara aventura, mas tão dura?
Não está mais comigo. Nem conTigo.
Tanta violência. Mas tanta ternura.
(Em memória de uma poeta suicida)
Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmos sangrento e a alma pura.
Porém, não se dobrou perante o fato
Da vitória do caos sobre a vontade
Augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mais intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura),
Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim
Para afirma-se além de seus tormentos
De monstros cegos contra um só delfim,
Frágil porém vidente, morto ao som
De vagas de verdade e de loucura.
Bateu-se delicado e fino, com
Tanta violência, mas tanta ternura!
Cruel foi teu triunfo, torpe mar.
Celebrara-te tanto, te adorava
De fundo atroz à superfície, altar
De seus deuses solares - tanto amava
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou
No mergulho fatal com que mostrou
Tanta violência, mas tanta ternura!
Envoi
Senhor, que perdão tem o meu amigo
Por tão clara aventura, mas tão dura?
Não está mais comigo. Nem conTigo.
Tanta violência. Mas tanta ternura.
SINTO QUE O MÊS
PRESENTE ME ASSASSINA
Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre homens nus ao sul de luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos
O tempo na verdade tem domínio,
Amém, amém vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.
(Do livro O Homem e sua Hora e Outros Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002)
Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre homens nus ao sul de luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos
O tempo na verdade tem domínio,
Amém, amém vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.
(Do livro O Homem e sua Hora e Outros Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002)
domingo, 5 de abril de 2015
RETRATO DO ARTISTA
Confiram meu artigo sobre a poesia de
Horácio Costa na edição de abril da revista CULT, na coluna RETRATO DO ARTISTA.
Em maio, será a vez de Antonio Risério, e em junho, de Duda Machado.
BREVE REFLEXÃO SOBRE A DEMOCRACIA BRASILEIRA
A ditadura militar caiu em 1985, pela
mobilização de centenas de milhares de pessoas que foram às ruas por eleições
diretas já, no maior movimento popular de nossa história. Apesar da pressão das
ruas, a mudança de regime aconteceu via negociação entre as elites, que
conseguiram eleger, por via indireta, Tancredo Neves (PMDB) e o seu vice, José
Sarney (PFL, atual DEM), dando início à chamada "Nova República". Com
a morte de Tancredo, pouco tempo após assumir a presidência da república,
Sarney assume o cargo no Palácio do Planalto e inicia algumas ações de
democratização do estado: convoca uma Assembleia Nacional Constituinte, revoga
a maioria das leis de exceção, como a lei de censura (a Lei de Segurança Nacional
permanece até os dias de hoje), legaliza os Partidos Comunistas. O antigo
Código Civil, que considerava a mulher um "ser relativamente incapaz"
(ao lado das crianças, dos índios e dos loucos) tem o seu conteúdo revisado.
O
processo de democratização, porém, é acompanhado de corrupção intensa, inflação
elevada, desemprego, recessão. Sarney termina o mandato com elevada porcentagem
de descontentamento popular e é sucedido por Fernando Collor de Mello, em 1989,
numa eleição em que a mídia -- especialmente a Rede Goebbels -- colaborou e
muito para a derrota de Lula, atribuindo ao PT o sequestro do empresário Abílio
Diniz e apresentando na televisão uma versão editada do debate entre Lula e
Collor, para favorecer este último. Collor não avança um milímetro na
democratização do estado iniciada por Sarney, confisca a poupança de milhões de
brasileiros e inicia a política neoliberal que teria continuidade na gestão de
Itamar Franco (vice de Collor, que assumiu a presidência após o impeachment do
titular do cargo) e nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB):
privatização de empresas estatais, aplicação de medidas econômicas recessivas,
arrocho salarial, submissão ao monitoramento de nossa economia pelo FMI (que já
acontecia nos governos militares).
A
vitória de Lula nas eleições presidenciais em 2002 iniciou uma nova fase em
nossa história política, marcada por profundas transformações sociais: ao longo
de doze anos, nas duas gestões de Lula e no primeiro mandato de Dilma, mais de
30 milhões de brasileiros saíram da situação de miséria e 40 milhões
ingressaram na classe média. Os programas sociais implementados pelo governo
federal tiraram o Brasil do mapa da fome, garantindo a segurança alimentar à
população mais carente, ampliaram o acesso ao ensino técnico e à educação
superior, com a construção de mais de 400 escolas técnicas, 18 universidades e
a adoção de programas como o ProUni e o FIES. Outros programas federais, como o
Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos, o crédito do BNDS para a agricultura
familiar e os microempresários, entre outras ações, elevaram o padrão de vida
das classes populares. O Brasil pagou a sua dívida com o FMI e deixou de ter
sua economia monitorada por essa instituição, manteve a estabilidade da moeda
implementada por Itamar Franco – o Plano Real – e conseguiu gerar 22 milhões de
empregos no período.
A
política exterior brasileira, pela primeira vez em nossa história recente,
afastou-se da agenda norte-americana: o Brasil reconheceu o Estado da Palestina,
condenou as agressões contra a Líbia e a Síria, fortaleceu as relações
econômicas e políticas com a América Latina, participando de instituições de
integração e cooperação regional como o Mercosul, a Unasul e a Celac (que
excluem a participação dos Estados Unidos), além de integrar os BRICs. Com a
descoberta das jazidas de pré-sal, Dilma consegue aprovar no Congresso Nacional
que 75% dos royalties (além de 10% do PIB) sejam aplicados na educação e 25% na
saúde, atendendo às reivindicações das manifestações populares de julho de
2013. O governo federal, nos governos Lula e Dilma, deixou de ser um carrasco
dos trabalhadores e dos estudantes, dialogando constantemente com as centrais
sindicais – legalizadas durante o governo de Lula –, os movimentos de trabalhadores rurais sem
terra, as entidades estudantis e populares, criou políticas de cotas para
afrodescendentes e de defesa dos direitos das mulheres. Apesar de todos estes
avanços, porém, a democratização do estado e da sociedade não se aprofundou –
os Conselhos Populares defendidos pelo governo federal foram vetados pelo
Congresso Nacional, a Reforma Política e a Reforma Tributária, com a taxação
das grandes fortunas, não saíram do papel (a Reforma do Judiciário sequer foi
cogitada) e o projeto para o fim do financiamento empresarial das campanhas
políticas foi engavetado por Gilmar Mendes.
A
eleição de um Congresso Nacional extremamente conservador, com bancadas que
defendem interesses de empreiteiras, bancos privados, grandes proprietários de
terras, empresas de comunicação, seitas evangélicas e outros setores
reacionários ameaça impor uma agenda de retrocesso ao país: redução da
maioridade penal, revisão da lei relativa ao aborto, para a sua total
proibição, restrições aos direitos de mulheres e homossexuais, fim do regime de
partilha para a exploração do pré-sal, extinção do programa Mais Médicos –
responsável pelo atendimento médico a uma população estimada em 50 milhões de
pessoas – entre outros projetos esdrúxulos, incluindo o próprio impeachment da
presidenta Dilma. A situação política atual é de crise, confronto, acirramento
da luta de classes, estimulados pela mídia, e ainda não é possível prever o seu
desfecho, para o qual será de importância fundamental a atuação dos movimentos
sociais nas ruas, respondendo à burguesia e pressionando o Congresso Nacional.
Quais
foram os grandes erros cometidos pelo PT ao longo destes 12 anos? 1) O mais
grave de todos: não ter politizado a sociedade. Não basta reduzir a miséria e
elevar o grau de consumo dos cidadãos sem um investimento correspondente na
elevação de sua consciência política, o que abriu brechas para o crescimento de
evangélicos e da extrema direita. 2) não ter pressionado o Congresso Nacional,
já nos mandatos de Lula, pela aprovação de uma lei de regulamentação dos
veículos de comunicação; 3) não ter investido na criação de emissoras públicas
de rádio, televisão, jornais e revistas com conteúdo diferente do discurso
único da mídia golpista; 4) não ter esclarecido a população, nas campanhas
políticas das últimas quatro eleições presidenciais, sobre a necessidade de
eleger grandes bancadas de deputados e senadores progressistas, para a
continuidade dos avanços sociais; 5) não ter enfrentado, politicamente, a
questão do suposto “mensalão”, permitindo que a mídia criminalizasse o partido
– situação que perdura até hoje; 6) ter realizado concessões excessivas ao
PMDB, recebendo em troca a infidelidade desse partido no Congresso Nacional; 7)
não ter chamado os movimentos sociais em apoio ao governo federal ANTES que a
crise política chegasse ao atual ponto de ebulição.
É
possível reverter esse quadro? Sim, é possível, mas o PT só poderá dar
continuidade ao projeto democrático-popular iniciado por Lula se tiver a
coragem de aprofundar, por todos os meios, a democratização do estado e da
sociedade brasileira. A outra alternativa é a do retrocesso e do caos.
sábado, 4 de abril de 2015
POEMAS DE OSWALD DE ANDRADE
CÂNTICO DOS CÂNTICOS PARA FLAUTA E VIOLÃO
Saibam quantos este meu verso
virem
Que te amo
Do amor maior
Que possível for
canção e calendário
Sol de montanha
Sol esquivo de montanha
Felicidade
Teu nome é
Maria Antonieta d' Alkmin
No fundo do poço
No cimo do monte
No poço sem fundo
Na ponte quebrada
No rego da fonte
Na ponta da lança
No monte profundo
Nevada
Entre os crimes contra mim
Maria Antonieta d' Alkmin
Felicidade forjada nas trevas
Entre os crimes contra mim
Sol de montanha
Maria Antonieta d'Alkmin
Não quero mais as moreninhas de Macedo
Não quero mais as namoradas
Do senhor poeta
Alberto d'Oliveira
Quero você
Não quero mais
Crucificadas em meus cabelos
Quero você
Não quero mais
A inglesa Elena
Não quero mais
A irmã da Nena
Não quero mais
A bela Elena
Anabela
Ana Bolena
Quero você
Toma conta do céu
Toma conta da terra
Toma conta do mar
Toma conta de mim
Maria Antonieta d'Alkmin
E se ele vier
Defenderei
E se ela vier
Defenderei
E se eles vierem
Defenderei
E se elas vierem todas
Numa guilanda de flechas
Defenderei
Defenderei
Defenderei
Cais de minha vida
Partida sete vezes
Cais de minha vida quebrada
Nas prisões
Suada nas ruas
Modelada
Na aurora indecisa dos hospitais
Bonançosa bonança.
Sol esquivo de montanha
Felicidade
Teu nome é
Maria Antonieta d' Alkmin
No fundo do poço
No cimo do monte
No poço sem fundo
Na ponte quebrada
No rego da fonte
Na ponta da lança
No monte profundo
Nevada
Entre os crimes contra mim
Maria Antonieta d' Alkmin
Felicidade forjada nas trevas
Entre os crimes contra mim
Sol de montanha
Maria Antonieta d'Alkmin
Não quero mais as moreninhas de Macedo
Não quero mais as namoradas
Do senhor poeta
Alberto d'Oliveira
Quero você
Não quero mais
Crucificadas em meus cabelos
Quero você
Não quero mais
A inglesa Elena
Não quero mais
A irmã da Nena
Não quero mais
A bela Elena
Anabela
Ana Bolena
Quero você
Toma conta do céu
Toma conta da terra
Toma conta do mar
Toma conta de mim
Maria Antonieta d'Alkmin
E se ele vier
Defenderei
E se ela vier
Defenderei
E se eles vierem
Defenderei
E se elas vierem todas
Numa guilanda de flechas
Defenderei
Defenderei
Defenderei
Cais de minha vida
Partida sete vezes
Cais de minha vida quebrada
Nas prisões
Suada nas ruas
Modelada
Na aurora indecisa dos hospitais
Bonançosa bonança.
convite
imemorial
Saíram dos borralhos
incompreendidos
Que tua boca ansiosa
De criança repetia
Sem saber
Teus passos subiam
Das barrocas desesperadas
Do desamor
Trazias nas mãos
Alguns livros de estudante
E os olhos finais de minha mãe
alerta
Lá vem o lança-chamas
Pega a garrafa de gasolina
Atira
Eles querem matar todo amor
Corromper o pólo
Estancar a sede que eu tenho doutro ser
Vem do flanco, de lado
Por cima, por trás
Atira
Atira
Resiste
Defende
De pé
De pé
De pé
O futuro será de toda a humanidade.
Lá vem o lança-chamas
Pega a garrafa de gasolina
Atira
Eles querem matar todo amor
Corromper o pólo
Estancar a sede que eu tenho doutro ser
Vem do flanco, de lado
Por cima, por trás
Atira
Atira
Resiste
Defende
De pé
De pé
De pé
O futuro será de toda a humanidade.
fabulário familiar
Se eu perdesse a vida
No mar
Não podia hoje
T'a ofertar
Os nevoeiros, as forjas, os Baependis
Os nevoeiros, as forjas, os Baependis
acalanto
Acuado pelos moços de forcado
Flibusteiro
Te descobri
Muitas vezes pensei que a
felicidade sentasse à minha mesa
Que me fosse dada no locutório dos
confessionários
Na hipnose das bestas-feras
No salto mortal das rodas-gigantes
Ela vinha intacta, silenciosa
Nas bandas de música
Que te anunciavam para mim
Maria Antonieta d'Alkmin
Quando a luta sangrava
Nas feridas que sangrei
C'o alfinete na cabeça te deixei
Adormecida
No bosque
T'embalei
Agora te acordei
relógio
As coisas são
As coisas vêm
As coisas vão
As coisas
Vão e vêm
Não em vão
As horas
Vão e vêm
Não em vão
compromisso
Comprarei
O pincel
Do Douanier
Pra te pintar
Levo
Pro nosso lar
O piano periquito
E o Reader's Digest
Pra não tremer
Quando morrer
E te deixar
Eu quero nunca te deixar
Quero ficar
Preso ao teu amanhecer
dote
T'ensinarei
o segredo onomatopaico do mundo
Te apresentarei
Thomas Morus
Federico García Lorca
A sombra dos enforcados
O sangue dos fuzilados
Na calçada das cidades
inacessíveis
Te mostrarei meus cartões postais
O velho e a criança dos Jardins
Públicos
O tou-tou de dançarina sobre um
táxi
Escapados ambos da batalha de
Marne
O jacaré andarilho
A amadora de suicídios
A noiva mascarada
A tonta do teatro antigo
A metade da Sulamita
A que o palhaço carregou no
carnaval
Enfim, as dezessete luas mecânicas
Que precederam teu uno arrebol
marcha
Todos virão para teu cortejo
nupcial
A princesa Patoreba
Coroada de foguetes
A Senhora Dona Sancha
Que todos querem ver
O tagolomango
E seus mortos mastigados
Nas laboriosas noites
processionais
Todos comparecerão
O camarada barbudo
O bobo-alegre
O salvado de diversos pavorosos
incêndios
O frade mau
O corretor de cemitérios
E onde estiver
O Pinta-Brava
Meu irmão
Tatá, Dudu, Popó, Sici, Lelé
Não quero sombra de cera
Nem noite branca de reza
Quero o velório pretoriano
De Sócrates
Não o bestiário
De Casanova
Não quero tochas
Não quero vê-las
Tatá, Dudu, Popó, Sici, Lelé
O tio da América
A igreja da Aparecida
O duomo de Milão
O trem, a canoa, o avião
Tudo darei às mesas anatômicas
Do mastigador d'entranhas
himeneu
Para teu corpo
Construirei o dossel
Abrirei a porta submissa
Ligarei o rádio
Amassarei o pão
black-out
Girafas tripulantes
Em paraquedas
A mão do jaburu
Roda a mulher que chora
O leão dá trezentos mil rugidos
Por minuto
O tigre não é mais fera
Nem borboletas
Nem açucenas
A carne apenas
A carne apenas
Das anêmonas
Na espingarda
Do peixe-espada
Transcontinental ictiossauro
Lambe o mar
Voa, revoa
A moça enastra
Enforca, empala
À espera eterna
Do Natal
mea culpa, lear
Na hora do fantasma
Entre corujas
Jocasta soluçou
O palácio de fósforo
Múltiplas janelas
Desmaiou
-Por que calaste o sino
Meu filho, filho meu!
-Dei, dei, dei
-Onde puseste os reinos e as
vitórias
Que minha estranha
serenidade prometia?
-Era usurpação. Paguei
-Passaste fome?
-Muitas vezes comi as marés de meu
cérebro
encerramento e gran-finale
Nada te sucederá
Porque inerme deste o teu afeto
No soco do coração
Te levarei
Nas quatro sacadas fechadas
Do coração
Deixarei de ser o desmemoriado das
idades de ouro
O mago anterior a toda cronologia
O refém de Deus
O poeta vestido de folhagem
De cocos e de crânios
Alba
Alfaia
Rosa dos Alkmin
Dia e noite do meu peito que
farfalha
Ao teu lado
Terei o mapa-múndi
Em minhas mãos infantes
Quero colher
O fruto crédulo das semeaduras
Darei o mundo
A um velho de juba
A seu procurador mongol
E a um amigo meu
Com quem pretenderam
Encarcerar o sol
Viveremos
O corsário e o porto
Eu pra você
Você pra mim
Maria Antonieta d'Alkmin
Para lá da vida imediata
Das tripulações de trincheira
Que hoje comigo
Com meus amigos redivivos
Escutam os assombrados
Brados da vitória
De Stalingrado
São Paulo, dezembro de 1942.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
CINCO POEMAS DE MÁRIO DE ANDRADE
O
TROVADOR
Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras...
As primaveras do sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal...
Intermitentemente...
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo...
Cantabona! Cantabona!
Dlorom...
dos homens das primeiras eras...
As primaveras do sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal...
Intermitentemente...
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo...
Cantabona! Cantabona!
Dlorom...
Sou um tupi tangendo um alaúde!
O CORTEJO
Monotonias das minhas retinas...
Serpentinas de entes frementes a se desenrolar...
Todos os sempres das minhas visões! "Bom giorno, caro."
Horríveis as cidades!
Vaidades e mais vaidades...
Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria!
Oh! Os tumultuários das ausências!
Paulicéia - a grande boca de mil dentes;
e os jorros dentre a língua trissulca
de pus e de mais pus de distinção...
Giram homens fracos, baixos, magros...
Serpentinas de entes frementes a se desenrolar...
Estes homens de São Paulo,
Todos iguais e desiguais,
Quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos,
Parecem-me uns macacos, uns macacos.
Serpentinas de entes frementes a se desenrolar...
Todos os sempres das minhas visões! "Bom giorno, caro."
Horríveis as cidades!
Vaidades e mais vaidades...
Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria!
Oh! Os tumultuários das ausências!
Paulicéia - a grande boca de mil dentes;
e os jorros dentre a língua trissulca
de pus e de mais pus de distinção...
Giram homens fracos, baixos, magros...
Serpentinas de entes frementes a se desenrolar...
Estes homens de São Paulo,
Todos iguais e desiguais,
Quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos,
Parecem-me uns macacos, uns macacos.
A ESCALADA
( Maçonariamente.)
-Alcantilações!... Ladeiras sem conto!...
Estas cruzes, estas crucificações da honra!...
-Não há ponto final no morro das ambições.
As bebedeiras do vinho dos aplaudires...
Champanhações... Cospe os fardos!
(São Paulo é trono.) – E as imensidões das escadarias!...
-Queres te assentar no píncaro mais alto? Catedral?...
-Estas cadeias da virtude!...
-Tripinga-te! (Os empurrões dos braços em segredo.)
Principiarás escravo, irás a Chico-Rei!
-Queres te assentar no píncaro mais alto? Catedral?...
-Estas cadeias da virtude!...
-Tripinga-te! (Os empurrões dos braços em segredo.)
Principiarás escravo, irás a Chico-Rei!
(Há fita de série no Colombo.
“O Empurrão na Escuridão”. Filme nacional.)
-Adeus lírios do Cubatão para os que andam sozinhos!
(Sono tre tustune per i ragazzini.)
-Estes mil quilos da crença!...
-Tripinga-te! Alcançarás o sólio e o sol sonante!
Cospe os fardos! Cospe os fardos!
Vê que facilidades as tais asas?...
(Toca a banda do Fieramosca: Pa, pa, pa, pum!
Toca a banda da polícia: Ta, ra, ta, tchim!)
És rei! Olha o rei nu!
Que é dos teus fardos, Hermes Pança?!
“O Empurrão na Escuridão”. Filme nacional.)
-Adeus lírios do Cubatão para os que andam sozinhos!
(Sono tre tustune per i ragazzini.)
-Estes mil quilos da crença!...
-Tripinga-te! Alcançarás o sólio e o sol sonante!
Cospe os fardos! Cospe os fardos!
Vê que facilidades as tais asas?...
(Toca a banda do Fieramosca: Pa, pa, pa, pum!
Toca a banda da polícia: Ta, ra, ta, tchim!)
És rei! Olha o rei nu!
Que é dos teus fardos, Hermes Pança?!
— Deixei-os lá nas margens das escadarias,
onde nas violetas corria o rio dos olhos de minha mãe...
— Sossega. És rico, és grandíssimo, és monarca!
Alguém agora t’os virá trazer.
(E ei-lo na curul do vesgo Olho-na-Treva.)
PAISAGEM N.1
Minha Londres das neblinas finas!
Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas.
Há neve de perfumes no ar.
Faz frio, muito frio...
E a ironia das pernas das costureirinhas
parecidas com bailarinas...
O vento é como uma navalha
nas mãos dum espanhol. Arlequinal!...
Há duas horas queimou Sol.
Daqui a duas horas queima Sol.
Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas.
Há neve de perfumes no ar.
Faz frio, muito frio...
E a ironia das pernas das costureirinhas
parecidas com bailarinas...
O vento é como uma navalha
nas mãos dum espanhol. Arlequinal!...
Há duas horas queimou Sol.
Daqui a duas horas queima Sol.
Passa um São Bobo, cantando, sob os plátanos,
um tralálá... A guarda cívica! Prisão!
Necessidade a prisão
para que haja civilização?
Meu coração sente-se muito triste...
Enquanto o.cinzento das ruas arrepiadas
dialoga um lamento com o vento...
um tralálá... A guarda cívica! Prisão!
Necessidade a prisão
para que haja civilização?
Meu coração sente-se muito triste...
Enquanto o.cinzento das ruas arrepiadas
dialoga um lamento com o vento...
Meu coração sente-se muito alegre!
Este friozinho arrebitado
dá uma vontade de sorrir!
Este friozinho arrebitado
dá uma vontade de sorrir!
E sigo. E vou sentindo,
à inquieta alacridade da invernia,
como um gosto de lágrimas na boca...
à inquieta alacridade da invernia,
como um gosto de lágrimas na boca...
ODE AO BURGUÊS
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampeões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos:
e gemem sangues de alguns milreis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam o “Printemps” com as unhas!
Os barões lampeões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos:
e gemem sangues de alguns milreis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam o “Printemps” com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
“-Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
-Um colar... -Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!”
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
“-Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
-Um colar... -Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!”
Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas venta!s oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas venta!s oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burguês!...
P.S.: Pauliceia Desvairada, de Mário de Andrade, me encanta pelas imagens brutalistas ("a
grande boca de mil dentes", "o homem-curva! o homem-nádegas!",
"Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!", "Cospe os
fardos!"), pela sutileza do verso harmônico ("Traje de losangos... /
Cinza e ouro... / Luz e bruma"), pelas metáforas inusitadas ("O vento
é uma navalha nas mãos de um espanhol", “Minha alma corcunda como a
avenida São João”), pela forte oralidade da dicção ("Eu insulto o
burguês!"), pelo uso de palavras ásperas ("intermitentemente"), pelos
neologismos (“sempiternamente”, “maçonariamente”, “algarismam”) pelo conteúdo
político crítico ("se punham a pastar / rente ao palácio do senhor
presidente!"), pelas evocações ("Oh minhas alucinações!",
"Minha Londres das neblinas finas") e muitas outras coisas... é o
melhor livro de poemas de Mário, em minha opinião.
quarta-feira, 1 de abril de 2015
QUATRO POEMAS DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
ÁPORO
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se
PERGUNTAS EM
FORMA DE CAVALO-MARINHO
para medir-nos?
Que forma é nossa
e que conteúdo?
Contemos algo?
Somos contidos?
Dão-nos um nome?
Estamos vivos?
Somos contidos?
Dão-nos um nome?
Estamos vivos?
A que aspiramos?
Que possuímos?
Que relembramos?
Onde jazemos?
Que possuímos?
Que relembramos?
Onde jazemos?
(Nunca se finda
nem se criara.
Mistério é o tempo
inigualável.)
nem se criara.
Mistério é o tempo
inigualável.)
SEGREDO
A poesia é incomunicável.
Fique quieto no seu canto.
Não ame.
Fique quieto no seu canto.
Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
Ê a revolução? o amor?
Não diga nada.
ao alcance do nosso corpo.
Ê a revolução? o amor?
Não diga nada.
Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.
TARDE DE MAIO
Como esses primitivos que carregam por toda
parte o
maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh’alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.
maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh’alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.
Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e
chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto e passa…
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto e passa…
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.
Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se era um
préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.
Nunca há testemunhas. Há desatentos. Curiosos,
muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.
(Poemas incluídos na Antologia poética de CDA. Rio de Janeiro: Record, 2010.)
EM DEFESA DA DEMOCRACIA E DO MANDATO DE DILMA!
A Plenária Nacional dos Movimentos Populares por Mais Democracia, Mais Direitos e Combate à Corrupção aconteceu hoje, terça-feira, a partir das 18h, na quadra do Sindicato dos Bancários, na rua Tabatinguera, em São Paulo. Estiveram presentes cerca de 2 mil pessoas, entre militantes e dirigentes dos movimentos sindical, estudantil e popular, incluindo representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Movimento dos Sem-Terra (MST), União Nacional dos Estudantes (UNE), União da Juventude Socialista (UJS), Partido dos Trabalhadores (PT), Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Partido da Causa Operária (PCO), Partido Comunista Marxista-Leninista (PCML), Cebrapaz, entidades de mulheres, negros e trabalhadores sem teto. Os temas principais abordados pelos oradores foram a defesa do mandato da presidenta Dilma Rousseff e da democracia, contra a articulação golpista orquestrada pela mídia e pelos tucanos, o combate à corrupção, sem criminalizar as empresas públicas e a engenharia nacional, a necessidade da reforma política, da regulamentação da mídia e a defesa da Petrobrás e das conquistas sociais obtidas pelos trabalhadores nos últimos treze anos de governos democráticos e populares. Bebel, representante da Apeoesp, iniciou os discursos informando que 70% dos professores da rede pública estadual estão hoje em greve por melhores salários e condições de ensino, por uma educação pública de qualidade, lembrando que o desgovernador tucano Geraldo Alckmin (P$DB) fechou nada menos que 3.390 salas de aula em todo o estado, levando à superlotação das escolas, sem condições mínimas de trabalho – hoje faltam desde papel higiênico até pasta de dentes nas unidades de ensino.
Altamiro
Borges, do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, destacou a
necessidade da regulamentação dos meios de comunicação, monopolizados por
apenas seis famílias, que constituem hoje um sério risco para a democracia no
Brasil, “inculcando o ódio fascista na sociedade brasileira”. Conclamou também
a militância a ocupar as redes sociais, divulgando os blogues e sites
progressistas, como contraposição à influência da mídia hegemônica, e recordou
que no dia 26 de abril, quando a Rede Globo completará 50 anos, haverá uma
“descomemoração” em todo o país, realizado pelos movimentos sociais, sendo
saudado pelos presentes com o coro: “O povo não é bobo, fora a Rede Globo!”.
Renato
Rabelo, presidente nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), lembrou as
semelhanças entre o atual movimento golpista – que acontece no Brasil,
Argentina e Venezuela – e aquele articulado pelos setores reacionários em 1964
e conclamou a unidade da esquerda e de todos os setores democráticos em defesa
do mandato de Dilma e da democracia, bem como a necessidade do fim do
financiamento empresarial das campanhas políticas, como medida necessária para
o combate eficaz à corrupção.
Rui Falcão,
presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), reforçou o apelo para a
formação de uma ampla frente democrática em defesa do mandato de Dilma e
anunciou que a bancada do PT apresentou dois projetos no Congresso Nacional: um
para a tributação das grandes fortunas e outro que garanta o direito de
resposta nos meios de comunicação, considerando que “não existe projeto de
Brasil sem reforma tributária, sem reforma agrária e sem a regulamentação da
mídia”.
Victoria
Barros, presidente da União Nacional dos Estudantes, recordou as lutas
históricas dos estudantes brasileiros na campanha do “Petróleo é nosso” e na
defesa do mandato de João Goulart e deixou claro que a juventude está ao lado
do povo brasileiro na defesa dos direitos sociais obtidos com Lula e Dilma. Gilmar, representando
o Movimento dos Sem-Terra (MST), afirmou em seu discurso que “não haverá golpe
neste país sem resistência de massas nas ruas”, porque “os movimentos sociais
não formaram covardes”, sendo bastante aplaudido pela militância.
Luís Inácio
Lula da Silva, em seu discurso de encerramento, comparou as manchetes dos
jornais durante os seus oito anos de governo com as manchetes publicadas hoje
na mídia, mostrando que o conteúdo é o mesmo, porém, hoje com muito mais
agressividade. Segundo Lula, a burguesia não perdoa a redução das desigualdades
e a ascensão social obtidas pelas camadas mais pobres da população nos últimos
treze anos e usa a corrupção para manipular a opinião pública, condenando
previamente os acusados nos jornais, antes mesmo da apuração dos fatos e do
devido processo legal, com amplo direito de defesa. “As elites estão fomentando
a luta de classes de cima para baixo”, declarou, porém, “ninguém mexerá nas
conquistas do povo brasileiro que elegeu um operário e depois uma mulher para a
presidência da república”.
No final do
ato, foi apresentado o calendário de lutas dos movimentos sociais: no dia 01 de
abril, atos pelo fim da Rede Globo em todo o país; em 07 de abril, Dia Nacional
de Lutas, com mobilização da militância em frente ao Congresso Nacional contra
a votação da PL 4330, relativa à terceirização do trabalho, e contra as medidas
provisórias 664 e 665; e em Primeiro de Maio, Dia Mundial dos Trabalhadores, a
realização de atos unificados reunindo as centrais sindicais, entidades de mulheres
e da juventude com o lema da defesa da democracia e dos direitos dos
trabalhadores.
sábado, 28 de março de 2015
AVISO AOS NAVEGANTES
Quem quiser adquirir meus últimos títulos de poesia -- ESQUELETOS DO NUNCA e CADERNOS BESTIAIS (volume I), recém-publicados pela Lumme Editor, pode encomendá-los na Livraria Cultura, Livraria da Vila ou diretamente junto ao editor Francisco dos Santos, pelo e-mail vendas@lummeeditor.com.
quinta-feira, 26 de março de 2015
O LIVRO NEGRO DO CAPITALISMO
Apenas entre
1945 e 2015, os Estados Unidos mataram 220 mil pessoas em Hiroshima e Nagasaki,
utilizando armas de destruição em massa, quatro milhões de coreanos e um milhão
de chineses, na Guerra da Coreia, três milhões de vietnamitas e dois milhões de
cambojanos e laocianos, na Guerra do Vietnã, entre 500 mil e dois milhões de
indonésios, após o golpe de estado de Suharto, apoiado pelos EUA, entre 400 mil
e um milhão de iraquianos, na Guerra do Golfo, para citarmos apenas alguns
números.
ESTADO ISLÂMICO -- OPS., ESTADO EVANGÉLICO
James Cimino
Do UOL, em São Paulo
25/03/2015
Charge do cartunista Vitor Teixeira sobre os
Gladiadores do Altar, da Igreja Universal do Reino de Deus
A assessoria
jurídica da Igreja Universal do Reino de Deus pressionou extrajudicialmente o
cartunista Vitor Teixeira e retirar de sua página no Facebook uma charge que,
segundo ela, incita a intolerância religiosa.
A charge,
segundo seu autor, era uma crítica aos Gladiadores do Altar, grupo de fieis da
igreja que apareceram recentemente em diversos vídeos divulgados nas redes
sociais marchando, batendo continência e usando uniformes análogos aos do
Exército Brasileiro.
O grupo virou
alvo de críticas e de denúncias ao Ministério Público por ter sido visto como
análogo a uma organização paramilitar. A Universal nega as acusações e diz que
o grupo tem como objetivo "pregar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus
Cristo".
Na
notificação, a advogada frisa que o grupo promove atividades "culturais,
sociais e esportivas para auxiliar no resgate e amparo de populações de rua,
viciados, jovens carentes e em conflito com a lei".
No desenho
feito por Teixeira, um homem com capacete de gladiador e uma camiseta com o
símbolo da Universal enfia uma espada em uma mãe de santo.
"Minha
intenção foi denunciar uma empresa que, a meu ver, está endossando a criação de
uma suposta milícia. E não sou apenas eu que acho isso, tanto que o assunto foi
levado ao Ministério Público. Estou debatendo a iniciativa de uma empresa, com
sede internacional, com um poderoso grupo de mídia por trás de si e com uma
assessoria jurídica que usou todo seu poder contra um cartunista independente.
Eles dizem que não irão me processar porque retirei a charge 'voluntariamente',
mas que opção eu tinha?"
Teixeira
disse ainda que a imagem da mãe de santo foi usada devido ao tratamento que a
igreja dá às religiões de matriz africana. Em 2007, o bispo Edir Macedo,
fundador da Universal, sofreu processo do Ministério Público e teve seu livro
"Orixás, Caboclos e Guias, deuses ou demônios?" retirado
temporariamente de circulação. No entanto o TRF da 1ª região entendeu que a
obra, apesar de conter expressões e mensagens preconceituosas, deveria voltar a
circular no intuito de prevalecer a liberdade de expressão, garantida pelo
artigo 5º da Constituição.
"Quando
vi os vídeos daqueles gladiadores, pensei que se existia um grupo que seria
alvo deles certamente seriam as religiões africanas, que já são atacadas em
seus cultos", disse o cartunista. Na notificação, a Universal nega que
incite ódio contra essas religiões. Diz apenas que "não concorda" com
elas.
Liberdade de Expressão
Logo após o
cartunista divulgar em seu perfil no Facebook a notificação que recebera, a
assessoria jurídica da igreja enviou outra correspondência dizendo que a
Universal "não trabalha nem nunca trabalhou baseada em ameaças" e que
"a pretexto da liberdade de expressão, não é admissível a incitação ao
ódio religioso".
Procurada
pela reportagem do UOL sobre o caso, a assessoria de imprensa
Igreja Universal do Reino de Deus respondeu:
"O autor
produziu e publicou uma ilustração acusando a Universal assassinar, ou de
pretender matar praticantes de religiões de matriz africana. Incitar o ódio é
crime. Acusar falsamente de cometer um crime, também é crime. No estado de
direito, a liberdade de expressão não autoriza ou legitima absurdos como tal
imagem horrenda, veiculada de modo irresponsável. Voluntariamente, o chargista
apagou a postagem, certamente por reconhecer o erro que cometeu. A Universal
respeita e defende as liberdades constitucionais de crença, de culto e de
opinião. Mas jamais aceitará calada ataques delinquentes de preconceito e
rancor. Casos semelhantes terão tratamento igual perante a Justiça."
quarta-feira, 25 de março de 2015
HERBERTO HELDER E A REFABULAÇÃO DO ORIENTE
Claudio Daniel
Herberto
Helder (1930-2015) publicou no Jornal de
Letras e Artes de Lisboa, em janeiro de 1963, artigos sobre a poesia
japonesa, e posteriormente dedicou-se à tradução de haicais de Bashô e seus
discípulos para o português, que reuniria mais tarde na antologia O bebedor nocturno, lançada em 1968,
que teve sucessivas edições, sendo a mais recente a de 2010. Comentaremos neste
artigo o trabalho tradutório de HH e a presença de elementos da poesia japonesa
em sua obra criativa, como o princípio da analogia e a linguagem paradoxal dos koans (公案). Conforme Maria Estela Guedes, o fascínio de Helder por
diferentes discursos étnicos – dos haicais à poesia esquimó, dos textos orais
dos peles-vermelhas aos hieróglifos egípcios, dos cantos mitológicos
pré-colombianos ao Cântico dos cânticos
do Antigo Testamento – acompanha o
escritor desde o início de seu trabalho literário e se manifesta em diversos
outros livros, como As magias, Oulof e Poemas ameríndios.
“Ao verter para o português textos próprios das culturas e mesmo das liturgias de outros povos”, escreve Maria Estela Guedes, “HHelder busca uma ancestralidade literária, uma parentela que não pertence ao foro do DNA, e sim ao da imaginação criadora, ou do sonho, como lhe chama Alexandrian[1]”. Fascinado pelo aspecto mágico ou encantatório das línguas antigas, realçado pelos jogos sonoros aliterativos, pelas repetições e permutações de vocábulos, Helder irá pesquisar o artesanato semântico de várias literaturas, para incorporar procedimentos em seu próprio fazer poético. Conforme Maria Estela Guedes, “as sonoridades das línguas estranhas, por vezes apreendidas independentemente de significado, contando mais com o ritmo e a surpresa provocados pelos sons, aproximam-se da música” (idem, 44) e também dos “jogos infantis[2]”, próximos a certas experiências dadaístas e surrealistas, como as praticadas por Antonin Artaud. “Glossolalias e fenômenos fonéticos com o mesmo impacto estão presentes n’As magias, em títulos de obras, como Eloi Lelia Doura e Oulof, e até em textos jornalísticos”, observa a autora[3]. Em Photomathon & vox (1979), por exemplo, Helder cria insólitas palavras abstratas como LGOGERYCHWYRNDROBWLLLLANTYSILIOGOGOGOCH.
Poeta obscuro[4] como Heráclito, Helder se relaciona “com o misterioso, o mágico, a Esfinge[5]” e faz da tradução uma forma de máscara dramática ou heteronímia. Ou ainda, como diz Maria Estela Guedes: “O poeta, mediante a tradução, participa diretamente na cultura a que pertence o poema tribal, apropriando-se dela. Essa apropriação tem consequências intelectuais e estéticas[6]” que são diferentes do enfoque colonialista, que banaliza ou descaracteriza a cultura do Outro, seja ele africano, oriental ou ameríndio, para dominá-lo. O diálogo estabelecido por Herberto Helder com as culturas não-ocidentais vai em sentido diverso: “No momento em que o poeta assimila o elemento exótico, hibridando-o com o endótico, contraria a tendência colonialista e simultaneamente cria algo de novo, no plano artístico[7]”.
“Ao verter para o português textos próprios das culturas e mesmo das liturgias de outros povos”, escreve Maria Estela Guedes, “HHelder busca uma ancestralidade literária, uma parentela que não pertence ao foro do DNA, e sim ao da imaginação criadora, ou do sonho, como lhe chama Alexandrian[1]”. Fascinado pelo aspecto mágico ou encantatório das línguas antigas, realçado pelos jogos sonoros aliterativos, pelas repetições e permutações de vocábulos, Helder irá pesquisar o artesanato semântico de várias literaturas, para incorporar procedimentos em seu próprio fazer poético. Conforme Maria Estela Guedes, “as sonoridades das línguas estranhas, por vezes apreendidas independentemente de significado, contando mais com o ritmo e a surpresa provocados pelos sons, aproximam-se da música” (idem, 44) e também dos “jogos infantis[2]”, próximos a certas experiências dadaístas e surrealistas, como as praticadas por Antonin Artaud. “Glossolalias e fenômenos fonéticos com o mesmo impacto estão presentes n’As magias, em títulos de obras, como Eloi Lelia Doura e Oulof, e até em textos jornalísticos”, observa a autora[3]. Em Photomathon & vox (1979), por exemplo, Helder cria insólitas palavras abstratas como LGOGERYCHWYRNDROBWLLLLANTYSILIOGOGOGOCH.
Poeta obscuro[4] como Heráclito, Helder se relaciona “com o misterioso, o mágico, a Esfinge[5]” e faz da tradução uma forma de máscara dramática ou heteronímia. Ou ainda, como diz Maria Estela Guedes: “O poeta, mediante a tradução, participa diretamente na cultura a que pertence o poema tribal, apropriando-se dela. Essa apropriação tem consequências intelectuais e estéticas[6]” que são diferentes do enfoque colonialista, que banaliza ou descaracteriza a cultura do Outro, seja ele africano, oriental ou ameríndio, para dominá-lo. O diálogo estabelecido por Herberto Helder com as culturas não-ocidentais vai em sentido diverso: “No momento em que o poeta assimila o elemento exótico, hibridando-o com o endótico, contraria a tendência colonialista e simultaneamente cria algo de novo, no plano artístico[7]”.
Os textos japoneses traduzidos por
Herberto Helder em O bebedor noturno
estão divididos em três seções: Poemas
zen, conjunto de 16 dísticos sem informação sobre autoria ou procedência; Canções de camponeses do Japão, quatro
peças breves traduzidas na forma do quarteto; e Quinze haikus japoneses, seleção de poemas de Bashô, Kikaku,
Kyorai, Shikô, Buson, Issa e Ransetsu. Conforme observa Maria Estela Guedes,
“uma vez que raramente identifica as suas fontes, vamos partir do princípio que
verte do castelhano, do francês e do inglês[8]”
(segundo Jorge Souza Braga, a maioria dos poemas traduzidos por Herberto Helder
em O bebedor nocturno baseia-se na antologia
Trésors de la poésie universelle ,de Roger Caillois). Helder
não reivindica a tradução como transposição rigorosa do sentido de uma língua
para a outra, não adiciona notas explicativas, referências bibliográficas ou
ensaios críticos para expor o seu método tradutório; o seu diálogo com a poesia
japonesa não é o trabalho de um erudito, mas de um poeta que acredita na
capacidade imaginativa, na intertextualidade e na mestiçagem para evocar
rutilâncias dos textos originais. Em seus “poemas mudados para o português”
(subtítulo de O bebedor nocturno),
Helder realiza “uma apropriação da cultura transportada no texto étnico, e
seguidamente uma recriação de tais elementos na língua-mãe. Quer isso dizer que
o resultado é sempre um texto mestiço[9]”.
A prática tradutória de Helder afasta-se da historicidade e da busca de uma pureza original, da tentação ilusória de restabelecer uma suposta verdade de um determinado passado, sugerindo mesmo “a impossibilidade de resgatar o passado acumulado”, conforme diz Izabela Leal no ensaio Da memória à tradução: o erro das musas distraídas[10]. Segundo a autora, “no caso da tradução, há de fato uma limitação, que é a impossibilidade de recuperar o que está dito no texto original. A tradução nos faz ver o caráter fragmentário da linguagem, já que as línguas se diferenciam entre si ao mesmo tempo em que são aparentadas”[11]. A tradução literária, de acordo com a autora, revela não apenas “a distância entre aquilo que é visado e o que se atinge de fato” mas também o fato de que “não há incompletude apenas na relação entre texto original e texto traduzido”, porque “o próprio original já é portador de um princípio de estranheza, pois apresenta uma dessemelhança em relação a si próprio[12]”.
A partir destas considerações, Izabela Leal define a arte tradutória de Herberto Helder como “prática deformadora e violadora da língua materna” e como “desvio”, uma vez que recusa ser “reprodução do original” para se firmar como “vitalidade e esplendor[13]”. O ponto de partida da recriação helderiana é o “erro”, mas um erro criativo, que se converte em “erro feliz”, que “transforma o lugar do erro por meio de uma ‘invenção de movimento’, de passos em volta, e então ‘acerta (...) com a potência natural da poesia[14]”. O signo do erro, da errância, do deslocamento rege toda a poética helderiana, e em particular a sua poética da tradução, mas nem por isso devemos deduzir que o poeta, em suas criativas versões dos haicais japoneses para o português, cai no puro espontaneísmo, na variação aleatória ou em intuições divorciadas do espírito da cultura com que dialoga. Podemos observar o extremo cuidado com que Helder recria em português a concisão, visualidade e imaginário da poética japonesa nestes dois poemas, também “reimaginados” por Casimiro de Brito em seu livro Poemas orientais:
A prática tradutória de Helder afasta-se da historicidade e da busca de uma pureza original, da tentação ilusória de restabelecer uma suposta verdade de um determinado passado, sugerindo mesmo “a impossibilidade de resgatar o passado acumulado”, conforme diz Izabela Leal no ensaio Da memória à tradução: o erro das musas distraídas[10]. Segundo a autora, “no caso da tradução, há de fato uma limitação, que é a impossibilidade de recuperar o que está dito no texto original. A tradução nos faz ver o caráter fragmentário da linguagem, já que as línguas se diferenciam entre si ao mesmo tempo em que são aparentadas”[11]. A tradução literária, de acordo com a autora, revela não apenas “a distância entre aquilo que é visado e o que se atinge de fato” mas também o fato de que “não há incompletude apenas na relação entre texto original e texto traduzido”, porque “o próprio original já é portador de um princípio de estranheza, pois apresenta uma dessemelhança em relação a si próprio[12]”.
A partir destas considerações, Izabela Leal define a arte tradutória de Herberto Helder como “prática deformadora e violadora da língua materna” e como “desvio”, uma vez que recusa ser “reprodução do original” para se firmar como “vitalidade e esplendor[13]”. O ponto de partida da recriação helderiana é o “erro”, mas um erro criativo, que se converte em “erro feliz”, que “transforma o lugar do erro por meio de uma ‘invenção de movimento’, de passos em volta, e então ‘acerta (...) com a potência natural da poesia[14]”. O signo do erro, da errância, do deslocamento rege toda a poética helderiana, e em particular a sua poética da tradução, mas nem por isso devemos deduzir que o poeta, em suas criativas versões dos haicais japoneses para o português, cai no puro espontaneísmo, na variação aleatória ou em intuições divorciadas do espírito da cultura com que dialoga. Podemos observar o extremo cuidado com que Helder recria em português a concisão, visualidade e imaginário da poética japonesa nestes dois poemas, também “reimaginados” por Casimiro de Brito em seu livro Poemas orientais:
Libélula vermelha.
Tira-lhe as asas:
um pimentão.
Kikaku (1661-1707)
Pimentão vermelho.
Põe-lhe umas asas:
Libélula
Bashô (1644-1694)[15]
Tradução: Herberto Helder
A réplica de Bashô ao poema de seu discípulo Kikaku não é
apenas um exercício imaginativo ou estético, mas uma afirmação da piedade
budista, que se manifesta por todos os seres vivos, inclusive a libélula[16].
Em vez de mutilar o inseto para transformá-lo em algo semelhante ao pimentão,
Bashô faz a operação inversa, para transformar o pimentão em símile da
libélula. Casimiro de Brito assim traduziu estes poemas:
Uma libélula vermelha.
Tirai-lhe as asas:
Oh! Um pimento!...
(Kikaku)
Um pimento vermelho.
Daí-lhe umas asas:
Oh! Uma libélula!...
(Bashô)[17]
Tradução: Casimiro de Brito
As versões
criativas de Herberto Helder obtêm força e consistência no idioma português
pela extrema economia sintática, elemento essencial da arte poética japonesa, e
pela espacialização das linhas, que dão mobilidade aos poemas e mimetizam a
visualidade da escrita caligráfica. Casimiro de Brito, por sua vez, introduz interjeições
e reticências que enfatizam de maneira exagerada o sentido da surpresa, já
contido na própria referencialidade, e utiliza um vocábulo de uso pouco
corrente (pimento) em vez da forma
mais popular (pimentão).
Coloquialidade, jogos verbais, compaixão budista e imaginário do universo
infantil são recorrentes na poesia de Kobayashi Issa, também traduzido por
Helder em seu pequeno caderno japonês:
Caracol,
lento, lento, lento – sobe
o Fuji.
Um cuco
cuja voz se arrasta
sobre as águas[18].
Tradução: Herberto Helder
O primeiro
poema acentua ainda mais a visualidade como elemento essencial para a
construção do sentido, com a palavra “caracol” isolada na primeira linha,
sugerindo solidão, e a tripla ocorrência
da palavra “lento” na linha seguinte, a mais longa do poema, indicando na
própria fisionomia semântica a vagarosa caminhada até o monte Fuji. O segundo
poema, de construção sintática e visual mais simples, materializa a força
metafórica pela extrema concisão, em medidas métricas ainda mais condensadas –
Helder usou versos de 2-5-3 sílabas, em vez de 5-7-5, frequentes no haicai
tradicional. A escolha dos poemas japoneses “mudados para o português” em O bebedor nocturno favoreceu as composições de caráter fanopaico, talvez por
afinidade eletiva do tradutor, ele próprio um cultor da imagem rara, insólita,
herdeiro da tradição de Lautréamont e Reverdy. Assim, encontramos haicais com
imagens de alto impacto, como estes:
Crescente lunar.
O tubarão esconde a cabeça
debaixo das vagas.
(Shikô)
A lua deitou sobre as coisas
uma toalha de prata.
Azáleas brancas[19].
(Shikô)
Casa sob as flores brancas.
Onde bater?
Mancha sombria da porta[20]
(Kyorai)
Ao mudar
poemas japoneses para o português, Helder veste a máscara dramática de um autor
clássico do século XVII, desenvolvendo temas e técnicas presentes em sua
própria poesia – imagens desmesuradas, metáforas imprevistas – e recursos quase
ausentes em sua lírica, como a escrita concisa, substantiva, com alta resolução
e precisão de contornos. Ao contrário de Casimiro de Brito, não escreveu
haicais, mas encontramos em sua escrita criativa a presença do koan, tipo de fábula ou pergunta
enigmática que perturba a lógica
rotineira pela construção inesperada e inusitada do discurso. Conforme o
físico austríaco Fritjof Capra, “os koans
são enigmas absurdos, cuidadosamente preparados com o fito de fazer com que o
estudante do Zen se aperceba, do modo mais dramático, das limitações da lógica
e do raciocínio[21]”
.
O caráter irracional, paradoxal desses enigmas, prossegue o autor, “torna impossível a sua decifração através do pensamento. Os koans são elaborados precisamente para parar o processo do pensamento e, dessa forma, preparar o estudante para a experiência não-verbal da realidade[22]”. “O koan pode ser descrito como um problema apresentado pelo mestre a seu discípulo”, diz o pesquisador brasileiro Georges da Silva. “Consiste numa frase, às vezes ilógica e risível; é um exercício especial, cuja finalidade é ativar a mente, pela qual o discípulo chega à compreensão intuitiva da verdade[23]”. Em seu livro Bashô, a lágrima do peixe, Paulo Leminski escreve a respeito: “há centenas de koans, reunidos em grandes coleções, com os ditos e feitos dos mestres mais famosos[24]”. Nos mosteiros zen-budistas, esse tipo de enigma verbal era transmitido pelo mestre a seu discípulo, para que este “concentre-se, durante um tempo que pode ser longo, trabalhando mentalmente sobre ele, absorvendo sua ‘outra lógica[25]”. Como ilustração dessa singular variante da parábola, que recorda os ensinamentos dos filósofos cínicos gregos, Leminski cita o seguinte koan:
O caráter irracional, paradoxal desses enigmas, prossegue o autor, “torna impossível a sua decifração através do pensamento. Os koans são elaborados precisamente para parar o processo do pensamento e, dessa forma, preparar o estudante para a experiência não-verbal da realidade[22]”. “O koan pode ser descrito como um problema apresentado pelo mestre a seu discípulo”, diz o pesquisador brasileiro Georges da Silva. “Consiste numa frase, às vezes ilógica e risível; é um exercício especial, cuja finalidade é ativar a mente, pela qual o discípulo chega à compreensão intuitiva da verdade[23]”. Em seu livro Bashô, a lágrima do peixe, Paulo Leminski escreve a respeito: “há centenas de koans, reunidos em grandes coleções, com os ditos e feitos dos mestres mais famosos[24]”. Nos mosteiros zen-budistas, esse tipo de enigma verbal era transmitido pelo mestre a seu discípulo, para que este “concentre-se, durante um tempo que pode ser longo, trabalhando mentalmente sobre ele, absorvendo sua ‘outra lógica[25]”. Como ilustração dessa singular variante da parábola, que recorda os ensinamentos dos filósofos cínicos gregos, Leminski cita o seguinte koan:
Po-chang tinha tantos alunos que se viu obrigado a abrir outro
mosteiro. Para achar alguém apto a ser mestre na nova casa, juntou seus monges
e colocou um cântaro na frente deles, dizendo:
— Sem o chamarem de cântaro, me digam o que é isso.
— Você não pode chamá-lo um pedaço de lenha, disse o monge principal.
Nesta altura, o cozinheiro do mosteiro derrubou o cântaro com um
pontapé e afastou-se.
Po-chang deu a direção do novo mosteiro ao cozinheiro[26].
O koan era
transmitido de mestre a discípulo na escola zen-budista Rinzai, introduzida nas
ilhas japonesas por Eisai (1141-1251), que encontrou grande aceitação por parte
da aristocracia guerreira. Outro exemplo clássico de koan é referido por Ricardo M. Gonçalves em seu livro Textos budistas e zen-budistas: “Você
pode ouvir o ruído de suas duas mãos batendo uma na outra; ouça agora o ruído
de uma só mão[27]”.
Ao receber um koan como este, o
discípulo, no início, busca “uma solução lógica e racional[28]”,
mas “as tentativas nesse sentido são sumariamente rechaçadas pelo instrutor.
Afinal, cansado de esgrimir inutilmente com suas armas habituais, a mente do
praticante abre-se para o despertar do conhecimento intuitivo[29]”. O espírito do koan está presente numa notável composição de Helder publicada
inicialmente nos Cadernos de Poesia
Experimental e incluída posteriormente em seu único livro de prosa
ficcional, Os passos em volta (1963):
TEORIA DAS CORES
Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranqüilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir – digamos – de dentro. Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.
O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos fatos e punham-se por uma ordem, a saber:
1) peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor;
2) peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
A fábula helderiana desarticula o raciocínio linear, de
matriz cartesiana, e compõe uma outra lógica, intuitiva, que nasce da percepção
da impermanência, ou contínuo vir-a-ser dos fenômenos, que HH nomeia como “lei
da metamorfose”. Este é um princípio caro ao pensamento budista, que considera
a realidade material desprovida de identidade estável, uma vez que está sujeita
às incessantes mutações e condicionamentos espaço-temporais. A impermanência, desse
modo, é o mesmo que a vacuidade, ou ausência de um “eu” separado do mundo: na
filosofia budista, tudo e todos estão relacionados num sistema de
interdependência, cuja face visível é o universo material (samsara) e a face invisível, o vazio (sunyata). O peixe vermelho que se torna negro e por fim é
representado como amarelo é uma metáfora pictórica dessa “lei da metamorfose”
que permeia todo o texto, construído numa forma híbrida entre a fábula e o
poema em prosa. No
texto Comunicação acadêmica, de 1963,
HH radicaliza a “lei da metamorfose”, aplicando a técnica de tema e variações,
própria da música ouvida em concerto (recordemos que a variação é uma forma musical em que a melodia é repetida ao longo
da composição com mudanças em seu ritmo, compasso, tonalidade, modo,
harmonização, arabesco etc., “com a única e imperiosa condição de permitir que
o ouvinte sempre possa reconhecer mais ou menos distintamente o tema original”[1]):
Gato dormindo debaixo de um pimenteiro: gato amarelo folhas verdíssimas pimentos vermelhos: sono redondo: sombras pequenas de pimentos: no sono do gato: folhas sombrias dentro do amarelo: pimentos dormindo num gato vermelho: verdes redondos no sono do pimenteiro: o amarelo: da cabeça do gato nascem pimentos verdíssimos de sono verdíssimo debaixo de um pimenteiro amarelo: a sombra do gato dando folhas redondas sonhando amarelo sobre dormindo os pimentos: água: secura sombria do gato vermelho: o sonho da água dorme no pimenteiro: a sombra da cal das paredes secas dorme no gato de água amarela: a cal dá pimentos que sonham nas folhas do gato: o sono da cal dá sombras redondas no gato enrolado no vermelho: a água é uma sombra o gato é uma folha o sono é um pimenteiro: a cal é o verdíssimo do sono seco dando sombra no amarelo: pimenteiro redondo: pimentos de cal enrolados no sonho do silêncio amarelo: o silêncio dá gatos que sonham pimentos que dão sono na cal que dá sombra nas folhas que dão água na secura do tempo vermelho: o tempo enrola-se debaixo da cabeça do pimenteiro que se enrola no gato de cal do sono amarelo: o sono de dentro dos pimentos debaixo do redondo verdísssimo enrolado no sonho: e dorme o pimenteiro com as sombras do gato redondo enrolando-se nas folhas: silêncio de sonho sono de tempo: tudo amarelo: noite do pimenteiro sono da cal folha do gato sonho das sombras do verdíssimo vermelho: secura da noite: noite do gato na noite da cal com a noite das folhas dentro da noite do verdíssimo debaixo da noite do sonho diante da noite do pimenteiro após a noite da água conforme a noite debaixo com a noite enrolada contra a noite do amarelo desde a noite das sombras consoante a noite redonda para a noite de dentro durante a noite do vermelho detrás da noite dos tempos debaixo da noite sem à frente do com da noite conforme a noite conforme: a noite dos tempos: um gato de dentro desaparecendo num pimenteiro: pimenteiro desaparecendo: a cal morrendo no sonho das folhas pequenas: o silêncio de tudo no mundo inteiro:
TEORIA DAS CORES
Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranqüilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir – digamos – de dentro. Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.
O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos fatos e punham-se por uma ordem, a saber:
1) peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor;
2) peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora
em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá dentro do
aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer
notar que existia apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da
imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de
fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo[30].
Gato dormindo debaixo de um pimenteiro: gato amarelo folhas verdíssimas pimentos vermelhos: sono redondo: sombras pequenas de pimentos: no sono do gato: folhas sombrias dentro do amarelo: pimentos dormindo num gato vermelho: verdes redondos no sono do pimenteiro: o amarelo: da cabeça do gato nascem pimentos verdíssimos de sono verdíssimo debaixo de um pimenteiro amarelo: a sombra do gato dando folhas redondas sonhando amarelo sobre dormindo os pimentos: água: secura sombria do gato vermelho: o sonho da água dorme no pimenteiro: a sombra da cal das paredes secas dorme no gato de água amarela: a cal dá pimentos que sonham nas folhas do gato: o sono da cal dá sombras redondas no gato enrolado no vermelho: a água é uma sombra o gato é uma folha o sono é um pimenteiro: a cal é o verdíssimo do sono seco dando sombra no amarelo: pimenteiro redondo: pimentos de cal enrolados no sonho do silêncio amarelo: o silêncio dá gatos que sonham pimentos que dão sono na cal que dá sombra nas folhas que dão água na secura do tempo vermelho: o tempo enrola-se debaixo da cabeça do pimenteiro que se enrola no gato de cal do sono amarelo: o sono de dentro dos pimentos debaixo do redondo verdísssimo enrolado no sonho: e dorme o pimenteiro com as sombras do gato redondo enrolando-se nas folhas: silêncio de sonho sono de tempo: tudo amarelo: noite do pimenteiro sono da cal folha do gato sonho das sombras do verdíssimo vermelho: secura da noite: noite do gato na noite da cal com a noite das folhas dentro da noite do verdíssimo debaixo da noite do sonho diante da noite do pimenteiro após a noite da água conforme a noite debaixo com a noite enrolada contra a noite do amarelo desde a noite das sombras consoante a noite redonda para a noite de dentro durante a noite do vermelho detrás da noite dos tempos debaixo da noite sem à frente do com da noite conforme a noite conforme: a noite dos tempos: um gato de dentro desaparecendo num pimenteiro: pimenteiro desaparecendo: a cal morrendo no sonho das folhas pequenas: o silêncio de tudo no mundo inteiro:
et caeteramente vosso inteiro:
herberto helder:
em janeiro:
mil novecentos e sessenta e três
A insólita composição helderiana, construída a partir da combinação e permutação de poucos elementos semânticos – recurso empregado também na poesia oral de diferentes etnias africanas e indígenas[33], na poesia visual do barroco português e nas experiências de autores contemporâneos como Ana Hatherly – ao mesmo tempo que esvazia o sentido habitual das palavras, convertidas em termos quase abstratos, constroi novos significados, realçando a força sugestiva de termos como “amarelo”, “gato”, “água”, “verdíssimo”, “pimenteiro”. As próprias conjunções, preposições e sinais de pontuação (no caso, os dois pontos) funcionam como elementos rítmicos, em construções que já não obedecem à sintaxe regular, mas sim à fluência melódica de cada frase.
O caráter híbrido desse texto, desenvolvido num jorro contínuo, é ainda mais acentuado que o da Teoria das cores, com a disposição espacial das últimas linhas sugerindo analogias com a poesia espacial de Mallarmé, em contraste com a prosa blocada das linhas anteriores. A poeticidade do texto é reforçada, sobretudo, pelas estranhas combinações imagéticas – “sono redondo”, “silêncio amarelo”, “verdíssimo vermelho” – e pelas ações inusitadas derivadas dessa alquimia semântica: “a cal dá pimentos que sonham nas folhas do gato”, “dorme o pimenteiro com as sombras do gato redondo”, “um gato de dentro desaparecendo num pimenteiro” etc., que recordam poemas infantis ou os jogos praticados pelos surrealistas franceses. À maneira do koan, o texto de HH não apresenta qualquer conclusão redutora, mas explicita a ambiguidade, a mutabilidade e impermanência da linguagem e do mundo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAPRA, Fritjof. O tao da
física. São Paulo: ed. Pensamento, 1989.
GUEDES, Maria Estela. A obra ao rubro de Herberto Helder. São
Paulo: Escrituras, 2010.
HELDER, Herberto. O bebedor
nocturno. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.
__________. Os passos em volta. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005.
JACOTO, Lílian, e MAFFEI, Luís (org.). Soldado aos laços das constelações. Bauru: Lumme Editor, 2011.
LEMINSKI, Paulo. Bashô, A lágrima do peixe. São Paulo: ed.
Brasiliense, 1983.
[2] Idem, 45.
[3] Idem, 44.
[4] “Vamos relembrar: algures, n’Os passos em volta, o poeta suspira: Meu Deus, faz com que eu seja sempre
um poeta obscuro.” (GUEDES, 2010: 46)
[5] Idem,
45.
[6] Idem,
52.
[7] Idem,
52-53.
[8] Idem, 50.
[9] Idem.
[11] Idem.
[12] Idem.
[13] Idem.
[14] Idem,
33.
[15] HELDER, 2010: 136.
[16] Wenceslau de Moraes escreve o seguinte comentário: “Bashô
era extremamente bondoso para com todos os animais, não admitindo que os
maltratassem, mesmo por pensamento. Em certa ocasião, jornadeava ele campos
fora, em companhia de Kikaku, seu discípulo. Este, dando fé de um tira-olhos
escarlate, exclamou em verso:
Aka tombo
Hane wo tottara
To-garashi
que
quer dizer: -- Arranquem as asas a um tira-olhos escarlate; ficará um pimento.
– Esperava o discípulo, talvez, do mestre um cumprimento. Mas Bashô repreendeu-o
vivamente, por tão cruel brincadeira; e, corrigindo os versos, proferiu:
To-garashi
Hane wo tsuketara
Aka tombo
que
quer dizer: -- Juntem asas a um pimento; ficará um tira-olhos escarlate.”
(MORAES, 1926: 198-199)
[17] BRITO, 1962: 20.
[18] HELDER, 2010: 138.
[19] Idem, 137.
[20] Idem.
[21] CAPRA, 1989: 44.
[22] Idem.
[23] SILVA, Georges, e HOMENKO, Rita: 1993, 236.
[25] Idem.
[26] Idem, 72.
[27] in GONÇALVES, 1999: 24.
[28] Idem,
25.
[29] Idem.
[30] HELDER, 2004:
21.
[31] HOLLANDA, 1986: 1754.
[32] HELDER, 2004: 181.
[33] No livro As magias,
que reúne poemas de diferentes tradições e culturas de caráter iniciático,
encontramos peças como esta, recolhida da literatura oral dos pigmeus: “O
animal corre, e passa, e morre. E é o grande frio. / É o grande frio da noite,
é a escuridão. / O pássaro voa, e passa, e morre. E é o grande frio. / É o
grande frio da noite, é a escuridão. / O peixe nada, e passa, e morre. E é o
grande frio. / O homem come, e dorme, e morre. E é o grande frio” (HELDER,
1987: 26). Em outro poema oral, este dos iugures, lemos: “Ao negro mar
ressoante possas tu chegar. / Possas chegar e três vezes abrir a porta negra. /
Ao ressoante mar amarelo possas tu chegar. / Pela tempestade amarela que sopra
possas tu chegar. / Possas chegar montado num cavalo amarelo. / Empunhando um
dardo amarelo possas tu chegar. / Possas chegar ao ressoante mar vermelho. /
Pela tempestade vermelha que sopra possas tu chegar. / Possas chegar com as
mãos cheias de preciosas pedras vermelhas. / Vestido de bárbaros couros
vermelhos possas tu chegar” (idem, 25
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