quarta-feira, 25 de março de 2015

HERBERTO HELDER E A REFABULAÇÃO DO ORIENTE
















Claudio Daniel

Herberto Helder (1930-2015) publicou no Jornal de Letras e Artes de Lisboa, em janeiro de 1963, artigos sobre a poesia japonesa, e posteriormente dedicou-se à tradução de haicais de Bashô e seus discípulos para o português, que reuniria mais tarde na antologia O bebedor nocturno, lançada em 1968, que teve sucessivas edições, sendo a mais recente a de 2010. Comentaremos neste artigo o trabalho tradutório de HH e a presença de elementos da poesia japonesa em sua obra criativa, como o princípio da analogia e a linguagem paradoxal dos koans (公案). Conforme Maria Estela Guedes, o fascínio de Helder por diferentes discursos étnicos – dos haicais à poesia esquimó, dos textos orais dos peles-vermelhas aos hieróglifos egípcios, dos cantos mitológicos pré-colombianos ao Cântico dos cânticos do Antigo Testamento – acompanha o escritor desde o início de seu trabalho literário e se manifesta em diversos outros livros, como As magias, Oulof e Poemas ameríndios

“Ao verter para o português textos próprios das culturas e mesmo das liturgias de outros povos”, escreve Maria Estela Guedes, “HHelder busca uma ancestralidade literária, uma parentela que não pertence ao foro do DNA, e sim ao da imaginação criadora, ou do sonho, como lhe chama Alexandrian[1]”. Fascinado pelo aspecto mágico ou encantatório das línguas antigas, realçado pelos jogos sonoros aliterativos, pelas repetições e permutações de vocábulos, Helder irá pesquisar o artesanato semântico de várias literaturas, para incorporar procedimentos em seu próprio fazer poético. Conforme Maria Estela Guedes, “as sonoridades das línguas estranhas, por vezes apreendidas independentemente de significado, contando mais com o ritmo e a surpresa provocados pelos sons, aproximam-se da música” (idem, 44) e também dos “jogos infantis[2]”, próximos a certas experiências dadaístas e surrealistas, como as praticadas por Antonin Artaud. “Glossolalias e fenômenos fonéticos com o mesmo impacto estão presentes n’As magias, em títulos de obras, como Eloi Lelia Doura e Oulof, e até em textos jornalísticos”, observa a autora[3]. Em Photomathon & vox (1979), por exemplo, Helder cria insólitas palavras abstratas como LGOGERYCHWYRNDROBWLLLLANTYSILIOGOGOGOCH

Poeta obscuro[4] como Heráclito, Helder se relaciona “com o misterioso, o mágico, a Esfinge[5]” e faz da tradução uma forma de máscara dramática ou heteronímia. Ou ainda, como diz Maria Estela Guedes: “O poeta, mediante a tradução, participa diretamente na cultura a que pertence o poema tribal, apropriando-se dela. Essa apropriação tem consequências intelectuais e estéticas[6]” que são diferentes do enfoque colonialista, que banaliza ou descaracteriza a cultura do Outro, seja ele africano, oriental ou ameríndio, para dominá-lo. O diálogo estabelecido por Herberto Helder com as culturas não-ocidentais vai em sentido diverso: “No momento em que o poeta assimila o elemento exótico, hibridando-o com o endótico, contraria a tendência colonialista e simultaneamente cria algo de novo, no plano artístico[7]”.

Os textos japoneses traduzidos por Herberto Helder em O bebedor noturno estão divididos em três seções: Poemas zen, conjunto de 16 dísticos sem informação sobre autoria ou procedência; Canções de camponeses do Japão, quatro peças breves traduzidas na forma do quarteto; e Quinze haikus japoneses, seleção de poemas de Bashô, Kikaku, Kyorai, Shikô, Buson, Issa e Ransetsu. Conforme observa Maria Estela Guedes, “uma vez que raramente identifica as suas fontes, vamos partir do princípio que verte do castelhano, do francês e do inglês[8]” (segundo Jorge Souza Braga, a maioria dos poemas traduzidos por Herberto Helder em O bebedor nocturno baseia-se na antologia Trésors de la poésie universelle ,de Roger Caillois). Helder não reivindica a tradução como transposição rigorosa do sentido de uma língua para a outra, não adiciona notas explicativas, referências bibliográficas ou ensaios críticos para expor o seu método tradutório; o seu diálogo com a poesia japonesa não é o trabalho de um erudito, mas de um poeta que acredita na capacidade imaginativa, na intertextualidade e na mestiçagem para evocar rutilâncias dos textos originais. Em seus “poemas mudados para o português” (subtítulo de O bebedor nocturno), Helder realiza “uma apropriação da cultura transportada no texto étnico, e seguidamente uma recriação de tais elementos na língua-mãe. Quer isso dizer que o resultado é sempre um texto mestiço[9]”. 

A prática tradutória de Helder afasta-se da historicidade e da busca de uma pureza original, da tentação ilusória de restabelecer uma suposta verdade de um determinado passado, sugerindo mesmo “a impossibilidade de resgatar o passado acumulado”, conforme diz Izabela Leal no ensaio Da memória à tradução: o erro das musas distraídas[10]. Segundo a autora, “no caso da tradução, há de fato uma limitação, que é a impossibilidade de recuperar o que está dito no texto original. A tradução nos faz ver o caráter fragmentário da linguagem, já que as línguas se diferenciam entre si ao mesmo tempo em que são aparentadas”[11]. A tradução literária, de acordo com a autora, revela não apenas “a distância entre aquilo que é visado e o que se atinge de fato” mas também o fato de que “não há incompletude apenas na relação entre texto original e texto traduzido”, porque “o próprio original já é portador de um princípio de estranheza, pois apresenta uma dessemelhança em relação a si próprio[12]”. 

A partir destas considerações, Izabela Leal define a arte tradutória de Herberto Helder como “prática deformadora e violadora da língua materna” e como “desvio”, uma vez que recusa ser “reprodução do original” para se firmar como “vitalidade e esplendor[13]”. O ponto de partida da recriação helderiana é o “erro”, mas um erro criativo, que se converte em “erro feliz”, que “transforma o lugar do erro por meio de uma ‘invenção de movimento’, de passos em volta, e então ‘acerta (...) com a potência natural da poesia[14]”. O signo do erro, da errância, do deslocamento rege toda a poética helderiana, e em particular a sua poética da tradução, mas nem por isso devemos deduzir que o poeta, em suas criativas versões dos haicais japoneses para o português, cai no puro espontaneísmo, na variação aleatória ou em intuições divorciadas do espírito da cultura com que dialoga. Podemos observar o extremo cuidado com que Helder recria em português a concisão, visualidade e imaginário da poética japonesa nestes dois poemas, também “reimaginados” por Casimiro de Brito em seu livro Poemas orientais:

Libélula vermelha.
Tira-lhe as asas:
um pimentão.

Kikaku (1661-1707)


Pimentão vermelho.
Põe-lhe umas asas:
Libélula

Bashô (1644-1694)[15]

Tradução: Herberto Helder

A réplica de Bashô ao poema de seu discípulo Kikaku não é apenas um exercício imaginativo ou estético, mas uma afirmação da piedade budista, que se manifesta por todos os seres vivos, inclusive a libélula[16]. Em vez de mutilar o inseto para transformá-lo em algo semelhante ao pimentão, Bashô faz a operação inversa, para transformar o pimentão em símile da libélula. Casimiro de Brito assim traduziu estes poemas:


Uma libélula vermelha.
Tirai-lhe as asas:
Oh! Um pimento!...

(Kikaku)

Um pimento vermelho.
Daí-lhe umas asas:
Oh! Uma libélula!...

(Bashô)[17] 

Tradução: Casimiro de Brito

As versões criativas de Herberto Helder obtêm força e consistência no idioma português pela extrema economia sintática, elemento essencial da arte poética japonesa, e pela espacialização das linhas, que dão mobilidade aos poemas e mimetizam a visualidade da escrita caligráfica. Casimiro de Brito, por sua vez, introduz interjeições e reticências que enfatizam de maneira exagerada o sentido da surpresa, já contido na própria referencialidade, e utiliza um vocábulo de uso pouco corrente (pimento) em vez da forma mais popular (pimentão). Coloquialidade, jogos verbais, compaixão budista e imaginário do universo infantil são recorrentes na poesia de Kobayashi Issa, também traduzido por Helder em seu pequeno caderno japonês:

Caracol,
lento, lento, lento – sobe
o Fuji.


Um cuco
cuja voz se arrasta
sobre as águas[18].

Tradução: Herberto Helder

O primeiro poema acentua ainda mais a visualidade como elemento essencial para a construção do sentido, com a palavra “caracol” isolada na primeira linha, sugerindo  solidão, e a tripla ocorrência da palavra “lento” na linha seguinte, a mais longa do poema, indicando na própria fisionomia semântica a vagarosa caminhada até o monte Fuji. O segundo poema, de construção sintática e visual mais simples, materializa a força metafórica pela extrema concisão, em medidas métricas ainda mais condensadas – Helder usou versos de 2-5-3 sílabas, em vez de 5-7-5, frequentes no haicai tradicional. A escolha dos poemas japoneses “mudados para o português” em O bebedor nocturno favoreceu as composições de caráter fanopaico, talvez por afinidade eletiva do tradutor, ele próprio um cultor da imagem rara, insólita, herdeiro da tradição de Lautréamont e Reverdy. Assim, encontramos haicais com imagens de alto impacto, como estes:

Crescente lunar.
O tubarão esconde a cabeça
debaixo das vagas.

(Shikô)


A lua deitou sobre as coisas
uma toalha de prata.
Azáleas brancas[19].

(Shikô)


Casa sob as flores brancas.
Onde bater?
Mancha sombria da porta[20]

(Kyorai)

Ao mudar poemas japoneses para o português, Helder veste a máscara dramática de um autor clássico do século XVII, desenvolvendo temas e técnicas presentes em sua própria poesia – imagens desmesuradas, metáforas imprevistas – e recursos quase ausentes em sua lírica, como a escrita concisa, substantiva, com alta resolução e precisão de contornos. Ao contrário de Casimiro de Brito, não escreveu haicais, mas encontramos em sua escrita criativa a presença do koan, tipo de fábula ou pergunta enigmática que perturba a lógica rotineira pela construção inesperada e inusitada do discurso. Conforme o físico austríaco Fritjof Capra, “os koans são enigmas absurdos, cuidadosamente preparados com o fito de fazer com que o estudante do Zen se aperceba, do modo mais dramático, das limitações da lógica e do raciocínio[21]” . 

O caráter irracional, paradoxal desses enigmas, prossegue o autor, “torna impossível a sua decifração através do pensamento. Os koans são elaborados precisamente para parar o processo do pensamento e, dessa forma, preparar o estudante para a experiência não-verbal da realidade[22]”. “O koan pode ser descrito como um problema apresentado pelo mestre a seu discípulo”, diz o pesquisador brasileiro Georges da Silva. “Consiste numa frase, às vezes ilógica e risível; é um exercício especial, cuja finalidade é ativar a mente, pela qual o discípulo chega à compreensão intuitiva da verdade[23]”. Em seu livro Bashô, a lágrima do peixe, Paulo Leminski escreve a respeito: “há centenas de koans, reunidos em grandes coleções, com os ditos e feitos dos mestres mais famosos[24]”. Nos mosteiros zen-budistas, esse tipo de enigma verbal era transmitido pelo mestre a seu discípulo, para que este “concentre-se, durante um tempo que pode ser longo, trabalhando mentalmente sobre ele, absorvendo sua ‘outra lógica[25]”. Como ilustração dessa singular variante da parábola, que recorda os ensinamentos dos filósofos cínicos gregos, Leminski cita o seguinte koan:

Po-chang tinha tantos alunos que se viu obrigado a abrir outro mosteiro. Para achar alguém apto a ser mestre na nova casa, juntou seus monges e colocou um cântaro na frente deles, dizendo:

— Sem o chamarem de cântaro, me digam o que é isso.

— Você não pode chamá-lo um pedaço de lenha, disse o monge principal.

Nesta altura, o cozinheiro do mosteiro derrubou o cântaro com um pontapé e afastou-se.

Po-chang deu a direção do novo mosteiro ao cozinheiro[26].

O koan era transmitido de mestre a discípulo na escola zen-budista Rinzai, introduzida nas ilhas japonesas por Eisai (1141-1251), que encontrou grande aceitação por parte da aristocracia guerreira. Outro exemplo clássico de koan é referido por Ricardo M. Gonçalves em seu livro Textos budistas e zen-budistas: “Você pode ouvir o ruído de suas duas mãos batendo uma na outra; ouça agora o ruído de uma só mão[27]”. Ao receber um koan como este, o discípulo, no início, busca “uma solução lógica e racional[28]”, mas “as tentativas nesse sentido são sumariamente rechaçadas pelo instrutor. Afinal, cansado de esgrimir inutilmente com suas armas habituais, a mente do praticante abre-se para o despertar do conhecimento intuitivo[29]”.  O espírito do koan está presente numa notável composição de Helder publicada inicialmente nos Cadernos de Poesia Experimental e incluída posteriormente em seu único livro de prosa ficcional, Os passos em volta (1963): 


TEORIA DAS CORES 

Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranqüilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir – digamos – de dentro. Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.

O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos fatos e punham-se por uma ordem, a saber:

1) peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor;

2) peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.

 Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existia apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo[30]. 


A fábula helderiana desarticula o raciocínio linear, de matriz cartesiana, e compõe uma outra lógica, intuitiva, que nasce da percepção da impermanência, ou contínuo vir-a-ser dos fenômenos, que HH nomeia como “lei da metamorfose”. Este é um princípio caro ao pensamento budista, que considera a realidade material desprovida de identidade estável, uma vez que está sujeita às incessantes mutações e condicionamentos espaço-temporais. A impermanência, desse modo, é o mesmo que a vacuidade, ou ausência de um “eu” separado do mundo: na filosofia budista, tudo e todos estão relacionados num sistema de interdependência, cuja face visível é o universo material (samsara) e a face invisível, o vazio (sunyata). O peixe vermelho que se torna negro e por fim é representado como amarelo é uma metáfora pictórica dessa “lei da metamorfose” que permeia todo o texto, construído numa forma híbrida entre a fábula e o poema em prosa. No texto Comunicação acadêmica, de 1963, HH radicaliza a “lei da metamorfose”, aplicando a técnica de tema e variações, própria da música ouvida em concerto (recordemos que a variação é uma forma musical em que a melodia é repetida ao longo da composição com mudanças em seu ritmo, compasso, tonalidade, modo, harmonização, arabesco etc., “com a única e imperiosa condição de permitir que o ouvinte sempre possa reconhecer mais ou menos distintamente o tema original”[1]): 


Gato dormindo debaixo de um pimenteiro: gato amarelo folhas verdíssimas pimentos vermelhos: sono redondo: sombras pequenas de pimentos: no sono do gato: folhas sombrias dentro do amarelo:  pimentos dormindo num gato vermelho:  verdes redondos no sono do pimenteiro:  o amarelo:  da cabeça do gato nascem pimentos verdíssimos de sono verdíssimo debaixo de um pimenteiro amarelo:  a sombra do gato dando folhas redondas sonhando amarelo sobre dormindo os pimentos:  água:  secura sombria do gato vermelho:  o sonho da água dorme no pimenteiro:  a sombra da cal das paredes secas dorme no gato de água amarela:  a cal dá pimentos que sonham nas folhas do gato:  o sono da cal dá sombras redondas no gato enrolado no vermelho:  a água é uma sombra o gato é uma folha o sono é um pimenteiro:  a cal é o verdíssimo do sono seco dando sombra no amarelo:  pimenteiro redondo:  pimentos de cal enrolados no sonho do silêncio amarelo:  o silêncio dá gatos que sonham pimentos que dão sono na cal que dá sombra nas folhas que dão água na secura do tempo vermelho:  o tempo enrola-se debaixo da cabeça do pimenteiro que se enrola no gato de cal do sono amarelo:  o sono de dentro dos pimentos debaixo do redondo verdísssimo enrolado no sonho:  e dorme o pimenteiro com as sombras do gato redondo enrolando-se nas folhas:  silêncio de sonho sono de tempo:  tudo amarelo:  noite do pimenteiro sono da cal folha do gato sonho das sombras do verdíssimo vermelho: secura da noite:  noite do gato na noite da cal com a noite das folhas dentro da noite do verdíssimo debaixo da noite do sonho diante da noite do pimenteiro após a noite da água conforme a noite debaixo com a noite enrolada contra a noite do amarelo desde a noite das sombras consoante a noite redonda para a noite de dentro durante a noite do vermelho detrás da noite dos tempos debaixo da noite sem à frente do com da noite conforme a noite conforme:  a noite dos tempos:  um gato de dentro desaparecendo num pimenteiro:  pimenteiro desaparecendo:  a cal morrendo no sonho das folhas pequenas:  o silêncio  de tudo no mundo inteiro:
  
et caeteramente vosso inteiro:


herberto helder:      

em janeiro:
mil novecentos e sessenta e três
 

A insólita composição helderiana, construída a partir da combinação e permutação de poucos elementos semânticos – recurso empregado também na poesia oral de diferentes etnias africanas e indígenas[33], na poesia visual do barroco português e nas experiências de autores contemporâneos como Ana Hatherly – ao mesmo tempo que esvazia o sentido habitual das palavras, convertidas em termos quase abstratos, constroi novos significados, realçando a força sugestiva de termos como “amarelo”, “gato”, “água”, “verdíssimo”, “pimenteiro”. As próprias conjunções, preposições e sinais de pontuação (no caso, os dois pontos) funcionam como elementos rítmicos, em construções que já não obedecem à sintaxe regular, mas sim à fluência melódica de cada frase. 

O caráter híbrido desse texto, desenvolvido num jorro contínuo, é ainda mais acentuado que o da Teoria das cores, com a disposição espacial das últimas linhas sugerindo analogias com a poesia espacial de Mallarmé, em contraste com a prosa blocada das linhas anteriores. A poeticidade do texto é reforçada, sobretudo, pelas estranhas combinações imagéticas – “sono redondo”, “silêncio amarelo”, “verdíssimo vermelho” – e pelas ações inusitadas derivadas dessa alquimia semântica: “a cal dá pimentos que sonham nas folhas do gato”, “dorme o pimenteiro com as sombras do gato redondo”, “um gato de dentro desaparecendo num pimenteiro” etc., que recordam poemas infantis ou os jogos praticados pelos surrealistas franceses. À maneira do koan, o texto de HH não apresenta qualquer conclusão redutora, mas explicita a ambiguidade, a mutabilidade e impermanência da linguagem e do mundo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAPRA, Fritjof. O tao da física. São Paulo: ed. Pensamento, 1989.

GUEDES, Maria Estela. A obra ao rubro de Herberto Helder. São Paulo: Escrituras, 2010.

HELDER, Herberto. O bebedor nocturno. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.

__________. Os passos em volta. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005.

JACOTO, Lílian, e MAFFEI, Luís (org.). Soldado aos laços das constelações. Bauru: Lumme Editor, 2011.

LEMINSKI, Paulo. Bashô, A lágrima do peixe. São Paulo: ed. Brasiliense, 1983.



[1] GUEDES, 2010: 53
[2] Idem, 45.

[3] Idem, 44.

[4] “Vamos relembrar: algures, n’Os passos em volta, o poeta suspira: Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro.” (GUEDES, 2010: 46)

[5] Idem, 45.

[6] Idem, 52.

[7] Idem, 52-53.
[8] Idem, 50.

[9] Idem.

[10] In JACOTO, 2011: 32.
[11] Idem.

[12] Idem.

[13] Idem.

[14] Idem, 33.
[15] HELDER, 2010: 136.

[16] Wenceslau de Moraes escreve o seguinte comentário: “Bashô era extremamente bondoso para com todos os animais, não admitindo que os maltratassem, mesmo por pensamento. Em certa ocasião, jornadeava ele campos fora, em companhia de Kikaku, seu discípulo. Este, dando fé de um tira-olhos escarlate, exclamou em verso:

Aka tombo
Hane wo tottara
To-garashi

que quer dizer: -- Arranquem as asas a um tira-olhos escarlate; ficará um pimento. – Esperava o discípulo, talvez, do mestre um cumprimento. Mas Bashô repreendeu-o vivamente, por tão cruel brincadeira; e, corrigindo os versos, proferiu:

To-garashi
Hane wo tsuketara
Aka tombo

que quer dizer: -- Juntem asas a um pimento; ficará um tira-olhos escarlate.” (MORAES, 1926: 198-199)

[17] BRITO, 1962: 20.

[18] HELDER, 2010: 138.

[19] Idem, 137.

[20] Idem.

[21] CAPRA, 1989: 44.

[22] Idem.

[23] SILVA, Georges, e HOMENKO, Rita: 1993, 236.

[24] LEMINSKI, 1983: 73.

[25] Idem.

[26] Idem, 72.

[27] in GONÇALVES, 1999: 24.

[28] Idem, 25.

[29] Idem.
[30] HELDER, 2004: 21.

[31] HOLLANDA, 1986: 1754.

[32] HELDER, 2004: 181.

[33] No livro As magias, que reúne poemas de diferentes tradições e culturas de caráter iniciático, encontramos peças como esta, recolhida da literatura oral dos pigmeus: “O animal corre, e passa, e morre. E é o grande frio. / É o grande frio da noite, é a escuridão. / O pássaro voa, e passa, e morre. E é o grande frio. / É o grande frio da noite, é a escuridão. / O peixe nada, e passa, e morre. E é o grande frio. / O homem come, e dorme, e morre. E é o grande frio” (HELDER, 1987: 26). Em outro poema oral, este dos iugures, lemos: “Ao negro mar ressoante possas tu chegar. / Possas chegar e três vezes abrir a porta negra. / Ao ressoante mar amarelo possas tu chegar. / Pela tempestade amarela que sopra possas tu chegar. / Possas chegar montado num cavalo amarelo. / Empunhando um dardo amarelo possas tu chegar. / Possas chegar ao ressoante mar vermelho. / Pela tempestade vermelha que sopra possas tu chegar. / Possas chegar com as mãos cheias de preciosas pedras vermelhas. / Vestido de bárbaros couros vermelhos possas tu chegar” (idem, 25

terça-feira, 24 de março de 2015

APONTAMENTOS DE LEITURA: HELDER E CELAN












Claudio Daniel

A composição poética do português Herberto Helder baseia-se numa lógica da metamorfose: as imagens poéticas são alinhadas não como simples metáforas, ou como descrições objetivas das coisas, mas como sucessão instável de figuras, que perturbam a normalidade da representação e da leitura. A realidade aparece aqui não como um fato a ser descrito ou narrado, mas como matéria plástica, construída por analogias, signos que se movimentam em constante mutação. Essa filosofia compositiva utiliza o discurso para perturbar o discurso, valendo-se inclusive de recursos como a elipse e o fragmento, seguindo a estratégia de criar uma realidade própria na escritura: o poema não representa uma coisa, ele é esta coisa. As linhas funcionam como notações musicais, definidas pela intenção melódica e rítmica que organiza as palavras na página-partitura. Assim, por exemplo, no poema Joelhos, salsa, lábios, mapa (que evidencia, já no título, o recurso de aproximação das palavras sem um nexo lógico ou sintático aparente): “Abrindo no escuro, durante toda a neve, / os copos, os vestidos, os mapas. / E dentro de mim, rompendo peixes, / uma noite sensível cor de martelos. / Esse grito, essa vírgula, esse amor, esse / martelo louco / nas borboletas. Então o meu cabelo / respirava — cabelo quente, telha / molhada. / Neve, borboleta, vírgula, estátua”. Esta organização semântica, em aparente desordem, sem dúvida nos faz lembrar a escrita automática dos surrealistas, em seu fascínio pelo imprevisto e pelo inverossímil; remete também a Dadá, a Lautréamont e aos simbolistas franceses, inclusive o último Mallarmé, que no prefácio do Lance de Dados reivindica uma estrutura poética similar à da música ouvida em concerto. Helder pertence à confraria dos autores excêntricos; assim como seus irmãos espirituais, ele se insurgiu contra o verso clássico, a retórica, a hegemonia da clareza e da objetividade, optando por uma imprecisão (ou abstração) voluntária. A preferência pelo obscuro, hermético ou paradoxal aproxima o poeta português do romeno de língua alemã Paul Celan, autor de versos como estes: “Verde-bolor é a casa do esquecimento. / Diante de cada portão flutuante azuleia o teu músico decapitado. / Bate o tambor feito de musgo e amargo pêlo púbico; / Com o dedo do pé ulcerado desenha a tua sobrancelha na areia. / Desenha-a, maior do que era, e o vermelho dos teus lábios. / Tu enches aqui as urnas e alimentas o teu coração.” (Tradução: João Barrento.) A princípio, uma leitura comparada dos dois poetas pode causar espécie: enquanto o romeno é dramático, por vezes trágico, orientado por um demiurgo tanático, o português é epifânico, celebratório, animado pelo princípio de Eros (embora um Eros travesso, que não exclui a deformação e a crueldade). Celan está embebido de história, geografia e da saga do povo judeu; Helder movimenta-se fora de planos reconhecíveis de espaço e tempo, erguendo fronteiras imaginárias (fazendo lembrar o Rimbaud de Uma Estação no Inferno: “Jamais pertenci a este povo; jamais fui cristão; sou da raça que cantava no suplício”, na tradução de Ledo Ivo). Se há uma religiosidade ou mitologia em Helder, ela está mais próxima do orfismo, da jornada simbólica ao Hades em busca de Eurídice (“Beberei sua boca, para depois cantar a morte / e a alegria da morte”). No campo semântico, porém, é possível traçarmos um paralelo entre os dois poetas, começando pela similaridade de temas ou palavras-chave, extraídas da tradição romântica: noite, cegueira, loucura, sangue, morte. O uso da analogia e das imagens poéticas (compreendidas aqui conforme o conceito de Réverdy) também é nítido, especialmente, na primeira fase de ambos (Papoula e Memória, de Celan, e O Amor em Visita, de Helder). Objetos retirados do cotidiano, elementos da natureza, instrumentos musicais, estados de espírito, partes do corpo humano ou substâncias orgânicas são combinados de maneira inusitada com outros materiais, concretos ou abstratos, em versos de deliberada alquimia: “crê no escaravelho dentro do feto”; “amamo-nos como papoila e memória”  (Celan, em tradução de João Barrento); “a morte sobe pelos dedos, navega o sangue”; “a paisagem regressa ao ventre, o tempo / se desfibra” (Helder). Apesar dessa convergência, é preciso traçar uma distinção fundamental entre as duas poéticas: em Celan, a imagem é um dos elementos constitutivos do discurso, que tem uma respiração meditativa, um andamento quase litúrgico (ecoando, não raro, o hino bíblico); em Helder, ela é a base estrutural; todo o poema se desencasula a partir de entrecruzamentos de símbolos. A evolução posterior de ambos irá evidenciar outras diferenças essenciais: enquanto no português há um crescente desregramento, um fluxo incessante de figuras e percepções, no romeno revela-se maior equilíbrio, síntese e concentração; essa disciplina severa é responsável por linhas lacunares, de teor quase oracular, pela concisão e obscuridade.

A experiência imagética é mais evidente na lírica erótico-amorosa destes poetas, onde a mulher assume dimensão sobrenatural, ela é a origem da Criação, o Universo e cada uma de suas manifestações: “As coisas nascem de ti / como as luas nascem dos campos fecundos, / os instantes começam da tua oferenda / como as guitarras tiram seu início da música nocturna” (Helder);  “Projecta a sua luz ao longe sobre o mar, / desperta as luas no estreito e ergue-as sobre mesas de espuma” (Celan, traduzido por João Barrento). Sem dúvida, essa hipérbole permite diferentes interpretações, de cunho teológico, metafísico ou psicanalítico; ficando apenas no campo poético, podemos dizer que essa idealização do feminino motiva o romeno e o português a uma visualidade radical, a uma estética do excessivo, da saturação simbólica, de um Eros que fecunda e multiplica os vocábulos, até a abstração (assim como ocorre nas passagens mais densas do Paraíso de Dante).  Na seara tanática, outra obsessão de ambos, há um corte radical: em Helder, a morte é um acontecimento simbólico; em Celan, um espectro que ronda sua carne, que ameaça seu povo de extinção (um registro exemplar é o conhecido poema Fuga da Morte: “… a morte é um mestre que veio da Alemanha / arranquem tons mais escuros dos violinos depois feitos fumo subireis aos céus”, na versão de Barrento). Para evocar o genocídio, promovido pela mãe de seu idioma, Celan assume um tom mais sombrio, incorporando à sua voz outras vozes, de poetas que também passaram pelo flagelo da guerra, como Georg Trakl. Não por acaso, há nesse poema um diálogo intertextual com o poeta austríaco, vítima de consumo excessivo de entorpecentes, após presenciar os horrores de Grodek: “Na casa vive um homem que brinca com serpentes” (Celan); “Na sua cova o mago branco brinca com suas cobras” (Trakl, no poema Salmo, aqui traduzido por Paulo Quintela). Nesta peça, Madame La Mort é uma visitante da história, que traz consigo a cultura que produziu Goethe e Auschwitz. Celan, embora estrangeiro (sendo romeno, judeu e exilado em Paris), é um herdeiro desse território simbólico e cultural, não apenas pelo idioma como pelo diálogo com a tradição da literatura alemã.  Helder, que também é um estrangeiro em seu isolamento voluntário, cria para si uma tradição, escolhe a sua origem, incorporando à língua materna referências de outros âmbitos culturais. Sob essa mirada, Helder encontra-se mais próximo de Sá-Carneiro (outro étranger espiritual) do que de Fernando Pessoa, que em Mensagem intentou uma fabulação mítico-poética de Portugal, com a utopia visionária de um Quinto Império, que sucederia os anteriores (“Grécia, Roma, Europa, Cristandade…”). Em Celan, há o desespero da história; em Helder, a refundação da história, por meio da escritura.


BIBLIOGRAFIA

CELAN, Paul. Sete Rosas Mais Tarde (trad. João Barrento).  Lisboa: Ed. Cotovia, 1993.

CELAN, Paul. A Morte é uma Flor (trad. João Barrento).  Lisboa: Ed. Cotovia,1997.

HELDER, Herberto. O Corpo O Luxo A Obra. São Paulo: Ed. Iluminuras, 2000.

LAUTRÉAMONT. Obras Completas (trad. Claudio Willer). São Paulo: Ed. Iluminuras, 2ª. ed., 2005.

RIMBAUD, Arthur. Uma Temporada no Inferno e Iluminações (trad. Ledo Ivo). Rio de Janeiro: Ed. Francisco Alves, 1982.

TRAKL, Georg. Poemas (trad. Paulo Quintela).  Porto: Ed. O Oiro do Dia, 1981.


TOPOGRAFIAS NÔMADES EM HERBERTO HELDER
















Claudio Daniel

A palavra lugar, segundo o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, deriva do latim locale e significa, entre outras acepções: “1. Espaço ocupado; sítio. 2. Espaço. 3. Sítio ou ponto referido a um fato. 4. Espaço próprio para determinado fim. 5. Ponto de observação, posição, posto. 6. Esfera, roda, ambiente.” (HOLLANDA, 1986: 1051). O poema Lugar, de Herberto Helder, incluído no livro de mesmo título publicado em 1962, anula qualquer delimitação de território, numa aparente rarefação do sentido referencial: não existe aqui nenhuma indicação geográfica ou temporal, próprias da representação mimética. O espaço do poema é o próprio poema, seu tempo é o da recitação ou leitura silenciosa e as ações desencadeadas nesta longa composição, dividida em sete partes, são os constantes deslocamentos de sentido das palavras, que se aproximam de uma voluntária abstração semântica: o poema é arquitetado como se fosse uma obra plástica, em que importam mais a escolha das cores, linhas, volumes e planos do que a descrição figurativa. O principal recurso usado por Helder para atingir esse grau de indeterminação na escritura é o esvaziamento semântico, que o próprio autor assim descreve na prosa narrativa curta intitulada O Estilo, que integra o volume Os passos em volta:

Às vezes, uso o processo de esvaziar as palavras. Sabe como é? Pego numa palavra fundamental. Palavras fundamentais, curioso... Pego numa palavra fundamental: Amor, Doença, Medo, Morte, Metamorfose. Digo-a baixo vinte vezes. Já não significa. É um modo de alcançar o estilo. (HELDER, 2005: 13).

A primeira parte do poema, que começa com o verso “Uma noite encontrei uma pedra”, já apresenta algumas das palavras fundamentais inseridas pelo autor ao longo da composição e que funcionam como os motivos condutores numa obra musical: noite, pedra, sino, árvore, sono, sangue, entre outras. Estas palavras, comuns ao repertório da poesia simbolista e mesmo romântica, são dispostas em diferentes combinações e permutações ao longo do texto: elas não têm sentido fixo, mas sugerem uma pluralidade de possíveis interpretações, numa espécie de mandala caleidoscópica que o poeta propõe a seus leitores. A palavra cidade, por exemplo, que aparece na seção IV do poema, em cada estrofe é acompanhada de outras unidades semânticas que contaminam, ampliam e alteram o seu significado, numa aparente livre associação de imagens e camadas referenciais que se aproximam de um deliberado caos: cidades cor de pérola, cidades absolutas, cidades esquecidas, cidades femininas, cidades doces, cidade voltada para dentro e outras variações que atravessam o poema, em “movimentos de repetição e deslocamento (que) delimitam uma zona ou fronteira simbólica que nos permite restabelecer, ainda que provisoriamente, uma nova ordem do mundo”, nas palavras de Lilian Jacoto, em ensaio publicado sobre A máquina lírica no livro Soldado ao laço das constelações: Herberto Helder (JACOTO, 2011: 62). Ou seja: as palavras fundamentais, na poesia de Helder, criam um novo lugar semântico, “rebatizando seus elementos e atribuindo-lhes novas e sempre outras funções.” (idem).

A combinação e permutação de elementos, assim como a criação de novos conteúdos ou imagens do mundo, são operações de uma lógica distinta daquela da invenção mimética tradicional, em que o discurso poético desenha cenários perceptíveis pelos cinco sentidos: na poesia de Helder vigora uma lei da metamorfose, que o próprio poeta cita em Teoria das cores, fábula breve que também integra o volume Os passos em volta. A história é bem conhecida: um pintor se propõe a retratar um peixe vermelho, mas, numa súbita violação das leis naturais, este se transforma num peixe negro, acontecimento que motiva o artista a refletir sobre o caráter mágico e mutável das coisas: “existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose” (HELDER, 2005: 21-22). Esta palavra é um talismã e uma das chaves de leitura essenciais para a compreensão de sua obra, oferecendo a possibilidade de aproximações com Camilo Pessanha, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa (Ele Mesmo) e o Surrealismo, além das evidentes relações com o pensamento hermético. No caso específico de Helder, metamorfose é sinônimo de hibridismo, conforme diz Maria Estela Guedes: “É a transmutação do corpo em espelho, em metal ou em vegetal; é a transmutação da noite em matéria orgânica; é a transmutação do poema em animal” (GUEDES, 2011: 19). A palavra híbrido, recorda a autora, deriva do grego hybris, que significa “excesso, paixão, orgulho, transgressão dos limites, violação das leis naturais, prole resultante do cruzamento de indivíduos que pertencem a espécies diferentes” (idem, 15), e é exatamente o seu significado na biologia que nos parece mais pertinente para a discussão da poética helderiana, onde os “seres de linguagem (...) são criados por cruzamento de imagens oriundas de diversas espécies de real” (idem). A criação de monstros verbais, similares ao Minotauro, às sereias ou à Medusa, é inevitável nesta insólita engenharia genética, em que não há limites de ordem racional: o poeta trabalha com a “impossibilidade natural absoluta: nem a cobra é raiz nem a rosa tem guelras. Em termos de estética, estamos completamente fora do vínculo ao real próprio dos realismos” (idem, 17).

A fascinação pelo monstruoso, irregular ou disforme, evidente nas vanguardas históricas, e em especial o cubismo e o surrealismo, corresponde, segundo Izabela Leal, a “um projeto da modernidade que tem como objetivo tomar o corpo como possibilidade de desumanização” (LEAL, 2009). A estratégia de intervenção artística pela metamorfose e deformação teve certamente os seus antecessores na poesia do século XIX, e em especial nos autores que leram Charles Baudelaire, como o Cesário Verde de Num bairro moderno (“descobria uma cabeça numa melancia/ e nuns repolhos seios injetados”) e o Lautréamont de Cantos de Maldoror, obra inclassificável nos gêneros literários tradicionais que apresenta figuras híbridas meio humanas, meio animais, meio sobrenaturais, como o homem com cabeça de pelicano, “belo como os dois longos filamentos tentaculiformes de um inseto” (LAUTRÉAMONT: 1997, 28).

O processo da metamorfose, em Helder como em Lautréamont, está atrelado “a um desejo de levar às últimas consequências a compreensão da criação poética como uma operação de desestabilização do sentido”: ao desfigurar – ou refabular – palavra e mundo, o poeta cria novas realidades, realidades estéticas, usando como principal recurso criativo a inusitada associação de imagens. Conforme escreveu Pierre Reverdy, a imagem poética “não pode nascer de uma comparação, mas da aproximação de duas realidades mais ou menos afastadas. Quanto mais as relações das duas realidades forem distantes e justas, tanto mais a imagem será forte, mais força emotiva e realidade poética ela terá” (in PIVA, 2005: 150-51). Esta ideia, que é central no surrealismo e também no futurismo – Marinetti afirmou que “a analogia é nada mais do que o amor profundo que associa coisas distantes, aparentemente diversas e hostis” – (PERLOFF, 1993: 117) deriva do Maneirismo e do Barroco, como bem observou Gustav Hocke em seu livro Homo ludens. A lírica transtornada de Herberto Helder pertence a essa estranha família composta de artistas e poetas para quem “o que importa não é a representação da realidade, mas sim a criação de uma realidade nova que se produz através de uma transfiguração dos objetos, da perda de seu sentido usual”, (Leal, 2009). É a partir destes vetores conceituais que iremos agora comentar o poema Lugar, de Herberto Helder.

A primeira parte da composição, que inicia com o verso “Uma noite encontrei uma pedra”, simula a narrativa de um caminhante noturno, que descreve aquilo que experimenta ao longo de uma jornada solitária, num “grande silêncio para se habitar só em gestos”. Porém, ao contrário do narrador de O sentimento dum ocidental, de Cesário Verde, este sujeito, que nunca é nomeado, não observa edifícios, chaminés, a via férrea, carpinteiros, mas encontra objetos de contorno e substância imprecisos, submetidos a constantes metamorfoses, como esta pedra encontrada no meio do caminho, ora verde, ora azul: “Uma pedra / sem folhas, um sino / sem pensamento”, que irá percorrer todas as seções do poema, não raro em situações contrárias à lógica natural (“Às mulheres amadas darei as pedras voantes”). A abstração da paisagem é realçada pelo uso arbitrário de adjetivos, fora da qualquer acepção dicionarizada (“flor hipnotizada”, “abstrata violência”, “viola tenazmente taciturna”), e de pronomes indefinidos em construções como “Alguma coisa dessas coisas da imobilidade”, “Alguma coisa subida de raízes mais milagrosas” e “Algo não levantado inteiramente da obscuridade”.

O enigma, o paradoxo, a ambiguidade, são os gênios tutelares dessa escritura, onde, de modo similar ao princípio mallarmeano, não importa pintar a coisa, mas o efeito que ela produz – que será eficiente na medida de sua fluidez, imprecisão e pluralidade de rotas de leitura. Helder é um parente espiritual de Camilo Pessanha, sobretudo do Pessanha mais obscuro do que melódico, como no soneto de Clepsidra que começa com o verso “Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas”, cuja atmosfera onírica, com imagens de alto impacto estético (“Fulgurações azuis, vermelhas, de hemoptise”, “Abortos que pendeis as frontes de cidra”), antecipam as insólitas arquiteturas helderianas (bem como as de Mário de Sá-Carneiro, em versos como “Idade acorde de Inter-sonho e Lua, / Onde as horas corriam sempre jade”, do poema Distante Melodia, do livro Indícios de Ouro).

A imprecisão voluntária do enunciado, na primeira parte do poema de Helder, é obtida também pela alteridade, em versos como “Som ou degrau que eu beijaria”, “Ou então era alta, ou esmagada, ou degolada, / no meio de um silêncio global”. A conjunção ou, que oferece ao mesmo tempo alternativa e exclusão, cria uma instabilidade no discurso: pode ser isto, pode ser aquilo, não temos um solo firme, uma delimitação de contornos, mas uma abertura para várias possíveis maneiras de imaginarmos o sentido, num desejado caos sensorial da escrita. A transgressão da lógica rotineira manifesta-se ainda pelo uso contínuo de partículas negativas, que simulam a afirmação de algo por sucessivas recusas de caráter enigmático: “Encontrei uma pedra pedra / que não era uma colina com o mês de março em volta / Nem era a boca materna aberta / debaixo dos rios lisos. (...) / Encontrei algo que não andava / pelos montes nem seria atravessado / por uma flecha. E não sangrava. / Que não se ouvia se cantava”. As estranhas afirmações pela negação, de ritmo anafórico e estrutura próxima à da enumeração caótica, combinam-se ao uso de advérbios para aprofundar ainda mais o grau de incerteza e instabilidade do discurso: “Talvez fosse fria / ou vivesse abrasada sobre a ilusão”, “aldeias inteiras cantando sua pureza quase louca”. A palavra-chave que se repete nesta seção do poema, estruturando o ritmo e corporificando a alucinação, é o verbo encontrar, conjugado na primeira pessoa (“Encontrei em mim essa clareira”, “Encontrei um animal desconhecido”, “Encontrei ondas e ondas contra mim”), que conduz as estrofes, num crescendo, até o final de aparente referencialidade, onde nos deparamos com o amor, a morte, o silêncio (“palavras fundamentais”, logo, esvaziadas de sentido) e enfim este verso ambíguo, quase chave de ouro: “ — Se era uma pedra, um sino. Uma vida verdadeira”, que retoma duas imagens recorrentes no texto, a pedra e o sino, em associação com a palavra vida, num jogo entre concreto e abstrato, pessoal e impessoal, vida e linguagem.

O verso, de sintaxe fragmentada, pode ser lido de várias maneiras, por exemplo, a partir da hipótese de ocultamento da conjunção ou: “ — Se era uma pedra, ou um sino. / Ou uma vida verdadeira”, que numa leitura superficial indicaria uma relação antitética entre existência e representação, natureza e artifício. Sem dúvida, toda construção estética é artificial, seja pelos materiais utilizados em sua consecução, seja pela aplicação de técnicas específicas no processo criativo ou pelo artefato artístico em si, mas o trabalho do poeta ou artista não exclui a participação do universo sensorial, como aliás qualquer trabalho humano. O verso poderia ser lido também pelas lentes do fingidor de Fernando Pessoa: esta “vida verdadeira”, com toda a força retórica trazida pelo adjetivo, seria uma ficção semântica, exatamente por se apresentar como algo tão diverso da construção metafórica, que é o recurso formal dominante em todo o poema; negar a metáfora, fazer uma oposição entre ela e a vida, seria uma negação do próprio texto poético. A ambiguidade do verso de Helder, que não se resume a estas duas interpretações, é justamente a sua riqueza, por não constituir um “final” grandiloquente, no espaço onde o leitor aguarda uma conclusão, uma “mensagem”, que o alivie da dura tarefa do entendimento. Sem apresentar nenhuma verdade universal que nos tranquilize e deixando o poema aberto à múltiplas decodificações, este verso pode nos levar a outra discussão, ainda que breve, sobre os diálogos entre subjetividade e artifício na poética helderiana.

Fernando Pessoa, nos Apontamentos para uma estética não-aristotélica, diz: “Toda arte parte da sensibilidade, e nela realmente se baseia” (PESSOA, 1976: 92). Porém, enquanto o artista aristotélico “subordina a sua sensibilidade à sua inteligência, para poder tornar essa sensibilidade humana e universal, ou seja, para a poder tornar sensível e agradável, e assim poder captar os outros”, o artista não-aristotélico (e podemos pensar aqui em Camilo Pessanha, no próprio Pessoa, em Sá-Carneiro e, claro, em Helder) “subordina tudo à sua sensibilidade”, tornando-a “abstrata como a inteligência (sem deixar de ser sensibilidade)” (idem). O texto, datado de 1907 e assinado por Álvaro de Campos, aponta ainda outra importante ruptura com a estética aristotélica: enquanto nesta há uma exigência de que “o indivíduo generalize ou humanize a sua sensibilidade, necessariamente particular e pessoal”, na teoria proposta por Pessoa / Álvaro de Campos “o percurso indicado é inverso: é o geral que deve ser particularizado, o humano que se deve pessoalizar, o ‘exterior’ que se deve tornar ‘interior’ ” (idem, 90). A invenção dos heterônimos por Pessoa é uma leitura pessoal do mundo e da tradição literária, ao mesmo tempo que constitui uma intervenção crítica, mas o autor de Mensagem ainda se viu comprometido com a ideia aristotélica da verossimilhança, e assim cria, para as suas muitas vozes, nomes, biografias, datas e dicções particulares; Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, são personagens dramáticos, querem nos convencer de sua existência. Herberto Helder, ao contrário, embora escreva em primeira pessoa, em tom conversacional, não nomeia a si mesmo, não apresenta uma cronologia, não descreve ações reconhecíveis, não conta uma história, de si ou do mundo; ele expressa a sua subjetividade na construção da linguagem, ela própria um corpo feito de palavras. “Se o poema emerge do corpo e é o próprio corpo, seremos levados a considerar que a criação é algo da ordem de uma experiência sensível, que se produz a partir da transformação daquilo ou daquele que lhe dá origem” (LEAL, 2009). Herberto Helder é um poeta fingidor, mas o seu teatro é interno, abstrato, e ele não deseja convencer o leitor da existência de uma realidade linear da qual ele próprio duvida. O eu lírico que aparece em seus poemas é um narrador cético, que faz do próprio poema a sua biografia, artesanato e lugar imaginativo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DAL FARRA, Maria Lúcia. A alquimia da linguagem: leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder. Lisboa: Imprensa Nacional, 1986.

GUEDES, Maria Estela. A obra em rubro. São Paulo: Escrituras, 2011.

HELDER, Herberto. O Corpo O Luxo A Obra. São Paulo: Ed. Iluminuras, 2000.

HELDER, Herberto. Ou o poema contínuo. São Paulo: Perspectiva, 2006.

HELDER, Herberto. Os passos em volta. Rio de Janeiro: Azougue Edirorial, 2004.

HOLLANDA, Aurélio Buarque de. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

JACOTO, Lilian, e MAFFEI, Luís. Soldado aos laços das constelações: Herberto Helder. Bauru: Lumme Editor, 2011.

JÚDICE, Nuno. As máscaras do poema. Lisboa: Arion, 1998.

LAUTRÉAMONT. Obras Completas (trad. Claudio Willer). São Paulo: Ed. Iluminuras, 2ª. ed., 2005.

MARINHO, Maria de Fátima: Herberto Helder, a obra e o homem. Lisboa: Arcádia, 1982.

PERLOFF, Marjorie. O momento futurista. São Paulo: Edusp, 1993.

PIVA, Roberto. Um estrangeiro na legião. São Paulo: Globo, 2005.

Na internet:

BORGES, Contador. Herberto Helder: a razão da loucura. http://www.revistazunai.com/ensaios/contador_borges_herberto_helder.htm

DANIEL, Claudio. Apontamentos de leitura: Helder e Celan, artigo publicado na revista eletrônica Zunái, http://www.revistazunai.com/ensaios/claudio_daniel_apontamentos.htm

LEAL, Izabela. Corpo, sangue e violência na poesia de Herberto Helder. http://www.revistazunai.com/ensaios/izabela_leal_herberto_helder.htm


WILLER, Claudio. Herberto Helder e a grande poesia portuguesa contemporânea, artigo publicado na revista eletrônica Agulha em 2000, http://www.jornaldepoesia.jor.br/ag9helder.htm

WILLER, Claudio. Conversa sobre Herberto Helder, depoimento publicado no site Triplo V em 2009, http://www.triplov.com/willer/2009/HH.html.

WILLER, Claudio. A obra em aberto: Herberto Helder por Maria Estela Guedes, artigo publicado no site Cronópios em 18/02/2011,
http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=4907

segunda-feira, 23 de março de 2015

A CHINA VOLTOU AO CAPITALISMO?














Não exatamente. Haroldo Lima, no livro “China: 50 anos de república popular” (São Paulo: Ed. Anita Garibaldi, 1999) escreve: “O papel dirigente do plano na economia manifesta-se na manutenção de 14.400 empresas estatais, de grande ou médio porte, plantadas nos setores estratégicos do país. Essas empresas contribuem com 52% das rendas do Estado. Asseguram o rumo geral socialista da economia, puxando um cortejo de centenas de milhares de iniciativas empresariais de variados tipos”. O estado chinês detém o monopólio de todas as terras – que podem ser arrendadas para exploração privada, mas permanecem propriedade estatal --, do petróleo, riquezas do subsolo, sistema financeiro, vias de transporte e meios de comunicação, além de controlar diversas indústrias de grande porte. Há serviços públicos e gratuitos de saúde para atender à população, embora também haja instituições privadas. A economia chinesa, desde as resoluções do XIII Congresso do Partido Comunista Chinês (PCCh), é uma “economia mercantil planificada socialista”, em que coexistem “múltiplas formas de propriedade dos meios de produção”, incluindo a privada e a estrangeira, sob “o predomínio da propriedade social”, escreve Haroldo Lima. 

Graças a esse novo modelo, introduzido por Deng Xiao Ping, a China conseguiu desenvolver suas forças produtivas, a ponto de tornar-se a maior economia do planeta, superando os Estados Unidos e a Europa, investir em ciência, tecnologia e na erradicação da miséria do país. A inspiração dos comunistas chineses é a Nova Política Econômica (NEP) implementada por Lênin na União Soviética, na década de 1920, que visava os mesmos objetivos: 1) manter o poder político nas mãos do partido da classe operária; e 2) usar mecanismos de mercado, investimentos estrangeiros e a propriedade individual para desenvolver em pouco tempo o país, submetendo esses mecanismos e formas de propriedade às necessidades da planificação estatal da economia. 

Marx e Engels consideravam o socialismo como a conseqüência lógica do desenvolvimento capitalista em seu mais alto grau, quando haveria uma contradição radical entre as relações de produção e o modo de produção. Rússia e China, que realizaram revoluções socialistas antes mesmo de passarem por um período de pleno desenvolvimento capitalista, foram obrigadas a acenarem ao capital privado como condição para criarem as bases materiais, científicas e tecnológicas necessárias para a construção do socialismo. Ao mesmo tempo, a adoção de mecanismos de mercado visa tornar as empresas estatais mais dinâmicas, ágeis, competitivas, produtivas. Conforme diz Lima: “um estudo mostra que cerca de 11 mil grandes e médias empresas industriais estatais chinesas, que representam 2,9% do número total das empresas industriais do país, contribuem com quase 50% do valor da produção nacional e pagam, em benefícios e impostos, 67% do que o Estado arrecada. Elas controlam artérias vitais da economia chinesa, como os setores energéticos básicos, de transporte, de eletricidade, de maquinaria pesada, de siderurgia e de produtos químicos”. 

Há pouco menos de cem anos, a China era um país semicolonial, semifeudal, com o seu território retalhado pela Inglaterra, Alemanha, França, Japão, Portugal, Rússia e Estados Unidos (um cartaz colocado pelos franceses em um parque público tinha os seguintes dizeres: "É proibida a entrada de cães e de chineses"). A imensa maioria da população camponesa vivia em situação de miséria e analfabetismo e as mulheres não tinham os mesmos direitos que os homens. A China exportava alimentos e matérias-primas e importava quase tudo, inclusive ópio, que os ingleses introduziram no país asiático para obter imensos lucros com o tráfico de drogas legal (o ópio, proibido na Inglaterra, era cultivado pelos ingleses na Índia e exportado para a China e outros países). Após se libertar da ocupação imperialista japonesa na Segunda Guerra Mundial, em que morreram 20 milhões de chineses, e a vitória da Revolução Socialista em 1949, organizada pelo Partido Comunista Chinês, liderado por Mao Tsé Tung, a China tornou-se um país soberano, independente, unificado, expropriou os senhores feudais, recuperou a maioria de seus territórios ocupados pelas potências estrangeiras, como Macau, Hong Kong e o Tibete (permanecem irresolvidas as questões de Taiwan, Quemoy e Matsu, tutelados pelos EUA) e reconheceu a igualdade de direitos entre homens e mulheres, o casamento civil, os direitos ao divórcio e ao aborto. 

Nas décadas de 1950-1960, a China realizou a reforma agrária e lançou um ambicioso plano de industrialização do país, inspirado no modelo soviético de planos quinqüenais, que permitiu ao país, em poucos anos, produzir aviões à jato, foguetes, satélites e até a bomba atômica (feitos que seriam impossíveis sem uma indústria moderna e diversificada e domínio científico e tecnológico). O Grande Salto para a Frente, implementado no final da década de 1950, porém, não atingiu todos os resultados esperados e a situação do país tornou-se caótica com a Revolução Cultural, que desorganizou a economia, o partido e quase levou o país à guerra civil. Após a morte de Mao Tsé Tung e a ascensão de Deng Xiao Ping a China voltou a investir nas bases necessárias para a construção socialista: desenvolvimento das forças produtivas, da tecnologia, eliminação da pobreza e inserção no plano internacional, fazendo frente ao imperialismo – por exemplo, colaborando para a criação do banco dos BRICs, realizando acordos de parceria com a Rússia e os países do MERCOSUL, defendendo a soberania da Síria, da Venezuela, da Coréia do Norte e de outros países ameaçados pelos Estados Unidos e também colaborando em projetos para o desenvolvimento de países africanos. A China é hoje a primeira economia do mundo, possui 1/4 da população do planeta e o êxito de sua estratégia de criação de novos caminhos de cooperação internacional é essencial para a superação da hegemonia norte-americana e o início de uma nova era multipolar.

domingo, 22 de março de 2015

CDA



















"Entendo que a poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser a mercê de inspirações fáceis, dóceis às modas e compromissos." (Carlos Drummond de Andrade)

UM POEMA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


NUDEZ


Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.

Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.

Nem era dor aquilo que doía:
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)

Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.

Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.

Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.

sexta-feira, 20 de março de 2015

LIVRO DOS ORIKIS













TERMINEI DE ESCREVER O LIVRO DOS ORIKIS, com 18 poemas ao todo, cada um dedicado a um orixá: Exu, Iansã, Ogum, Oxum, Xangô, Iemanjá, Omolu, Oxóssi, Nanã, Ewá, Logunedé, Oxumaré, Ossain, Orunmilá, Oxalá, Iroko, Obá e Ibeji. Agora, falta revisar o glossário, que incluí no final do volume, com breves explicações sobre os nomes e palavras em iorubá. Escrevi este livro em menos de dois meses, foi quase uma "possessão", sem fazer nenhuma concessão estética, bem ao contrário: busquei "africanizar" o português e explorar todas as possibilidades de som e imagem, dialogando com os textos orais da tradição iorubá, mas também com os recursos da poesia de vanguarda. Se fui bem-sucedido ou não nesse trabalho, não cabe a mim avaliar, posso dizer apenas uma coisa: senti enorme alegria -- e também enorme angústia -- durante todo o processo criativo. 

O oriki é um poema ritual da tradição nagô-ioruba, cantado até hoje nos terreiros de umbanda e candomblé, celebrando deuses, reis e herois lendários. Quem introduziu o oriki no Brasil foi Antonio Risério em seu belíssimo livro Oriki orixá, publicado pela editora Perspectiva na coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos. Nesse livro, Risério apresenta aos leitores um excelente ensaio crítico e traduções de alguns desses textos orais. Ricardo Aleixo publicou orikis de sua autoria num belo livro, A roda do mundo. Ricardo Corona, Fabiano Calixto e Frederico Barbosa também escreveram bons orikis. Minha pesquisa nesse campo procura manter elementos do oriki tradicional -- os nomes e epítetos dos orixás, seus mitos, atribuições e atributos, com uma visada crítica contemporânea, incorporando temas da situação política e social do país. Todos os poemas que compõem este livro foram escritos entre fevereiro e março de 2015, com exceção do Oriki de Orunmilá, redigido em 2006. As linhas apresentadas em itálico no interior dos poemas são citações de “pontos” cantados nos rituais em diversos terreiros no Brasil. No final do volume, apresentamos um glossário com as palavras em iorubá que aparecem nos poemas.

ORIKI DE IBEJI



 













Primeiro ponto

Mamãe
me dê
cocada.

Mamãe
me dê
cuscuz.

O erê, o erê,
onde está
o erê?

Mamãe
me dê
queijada.

Mamãe
me dê
caruru.

O erê, o erê,
onde está
o erê?

Mamãe
me dê
refresco.

Mamãe
me dê
manjar.

O erê, o erê,
onde está
o erê?

Orixá Erê —
Bejiróó!

Segundo ponto

Feitiço
de orixá
Ibeji
sabe fazer.

Feitiço
de orixá
Ibeji
vai desfazer.

Feitiço
de Ibeji
ninguém
vai desfazer.

Orixá Erê —
Bejiróó!

 Terceiro ponto

Sem Ibeji
não tem
terreiro.

Sem Ibeji
não tem
axé.

Ibeji é um
e dois.

Ele ouve
os homens.

Ele ouve
os orixás.

B’eji B’eji’re
B’eji B’eji’la
B’eji B’ejiwo Iba
Omo ire Àse.

Orixá Erê —
Bejiróó!

2015

quarta-feira, 18 de março de 2015

CADERNOS BESTIAIS




















No dia 27 de março (sexta-feira), a partir das 19h, na Casa Guilherme de Almeida (rua Macapá, 187, próxima ao metrô Sumaré), estarei lançando dois novos livros de poemas -- Cadernos bestiais (volume 1, com a série de dez poemas antimídia) e Esqueletos do Nunca, e também a plaquete Gama cromática, realizada em parceria com Ana Cristina Joaquim, carimbada e impressa manualmente, publicada pela Editora Córrego. Na ocasião, haverá um recital poético com a participação de Chiu Yi Chih, Célia Abila, Maíra Varela Calixto de Freitas, Donny Correia, Edson Cruz , Gabriel Rath Kolyniak e Ana Cristina Joaquim.

AVISO: quem não reside em São Paulo pode adquirir os livros junto ao editor, pelo e-mail vendas@lummeeditor.com, ou encomendá-los na Livraria da Vila ou na Livraria Cultura.

















terça-feira, 17 de março de 2015

ORIKI DE OSSAIN


Babá Ewé
senhor-de-
todas-as-
folhas-da-
mata-
Babá Ewé
sopra-
palavras-
de-força-
em-cada-
folha-da-
mata-
Ossanhê
senhor-de-
todas-as-
flores-
da-mata-
Ossanhê
aquele-que-
canta-e-
encanta-
todos-os
cantos-
da-mata-
Obá-Offá
aquele-que-
dança-com-
uma-única-
perna-
Obá-Offá
aquele-que-
canta-e-
encanta-
com-uma-
única-perna-
Katendê
aquele-que-
come-quem-
tem-duas-
pernas.
Katendê
aquele-que-
vem-está-
vindo-já-foi
com-uma-
única-perna-
Ewé ó!

2015 

ORIKI DE EWÁ



















Primeiro ponto

Antes de a cobra
parir
Ewá já sabe.

Antes de o vento
parar
Ewá já sabe.

Antes de a unha
cair
Ewá já sabe.

Antes de o olho
cegar
Ewá já sabe.

Antes que a girafa
acasale
Ewá já sabe.

Antes de a faca
cortar
Ewá já sabe.

Ìyá Wa Yewá
o que já foi
Ewá conhece.

Ìyá Wa Yewá
o que será
Ewá conhece.

Ìyá Wa Yewá
orixá que dança
com espada e ofá.

Ìyá Wa Yewá
dança ilu
dança aguerê.

Ìyá Wa Yewá
filha-esposa
de Oxumaré.

Ri Ro Ewá!

Segundo ponto

Ìyá Wa Yewá
dona do rio
de água escura.

Ìyá Wa Yewá
dona da mata
inexplorada.

Ìyá Wa Yewá
dona da dança
inalcançável.

Ri Ro Ewá!

2015

domingo, 15 de março de 2015

SOBRE HOJE

O que está em curso no país não é apenas a tentativa de um golpe de estado para depor Dilma e empossar Michel Temer. Trata-se de uma contrarrevolução semelhante àquela que acontece na Venezuela, conduzida pela burguesia, insatisfeita com a ascensão social dos mais pobres. É uma revolta contra a inclusão social na universidade, contra a redução da fome e da miséria, contra a democratização do acesso aos serviços médicos, contra a distribuição de renda, contra a regulamentação da mídia, contra a liberdade sindical e de organização partidária, enfim: é uma guerra contra os trabalhadores. Precisamos voltar às ruas e manter um calendário de lutas, com manifestações periódicas, a nível nacional, em defesa do mandato de Dilma, da democracia e dos direitos sociais duramente conquistados. Vivemos um acirramento da luta de classes no Brasil, a situação mais delicada que o país já enfrentou desde 1964 mas NÓS VAMOS VENCER!

MASCARADOS SEM MÁSCARAS















Quem estava por trás da máscara em 2013? A burguesia branca, racista e fascista de São Paulo.