
Claudio Daniel
A palavra
lugar, segundo
o
Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, deriva do latim
locale
e significa, entre outras acepções: “1. Espaço ocupado; sítio. 2. Espaço. 3. Sítio
ou ponto referido a um fato. 4. Espaço próprio para determinado fim. 5. Ponto
de observação, posição, posto. 6. Esfera, roda, ambiente.” (HOLLANDA, 1986:
1051). O poema
Lugar, de Herberto Helder, incluído no livro de mesmo
título publicado em 1962, anula qualquer delimitação de território, numa
aparente rarefação do sentido referencial: não existe aqui nenhuma indicação
geográfica ou temporal, próprias da representação mimética. O espaço do poema é
o próprio poema, seu tempo é o da recitação ou leitura silenciosa e as ações
desencadeadas nesta longa composição, dividida em sete partes, são os
constantes deslocamentos de sentido das palavras, que se aproximam de uma
voluntária abstração semântica: o poema é arquitetado como se fosse uma obra
plástica, em que importam mais a escolha das cores, linhas, volumes e planos do
que a descrição figurativa. O principal recurso usado por Helder para atingir
esse grau de indeterminação na escritura é o esvaziamento semântico, que o
próprio autor assim descreve na prosa narrativa curta intitulada
O Estilo,
que integra o volume
Os passos em volta:
Às vezes, uso o processo de esvaziar as
palavras. Sabe como é? Pego numa palavra fundamental. Palavras fundamentais,
curioso... Pego numa palavra fundamental: Amor, Doença, Medo, Morte,
Metamorfose. Digo-a baixo vinte vezes. Já não significa. É um modo de alcançar
o estilo. (HELDER, 2005: 13).
A primeira parte do poema, que começa com o verso “Uma noite encontrei uma
pedra”, já apresenta algumas das palavras fundamentais inseridas pelo autor ao
longo da composição e que funcionam como os motivos condutores numa obra
musical: noite, pedra, sino, árvore, sono, sangue, entre outras. Estas
palavras, comuns ao repertório da poesia simbolista e mesmo romântica, são
dispostas em diferentes combinações e permutações ao longo do texto: elas não
têm sentido fixo, mas sugerem uma pluralidade de possíveis interpretações, numa
espécie de mandala caleidoscópica que o poeta propõe a seus leitores. A palavra
cidade, por exemplo, que aparece na seção IV do poema, em cada estrofe
é acompanhada de outras unidades semânticas que contaminam, ampliam e alteram o
seu significado, numa aparente livre associação de imagens e camadas
referenciais que se aproximam de um deliberado caos: cidades cor de pérola,
cidades absolutas, cidades esquecidas, cidades femininas, cidades
doces, cidade voltada para dentro e outras variações que
atravessam o poema, em “movimentos de repetição e deslocamento (que) delimitam
uma zona ou fronteira simbólica que nos permite restabelecer, ainda que
provisoriamente, uma nova ordem do mundo”, nas palavras de Lilian Jacoto, em
ensaio publicado sobre A máquina lírica no livro Soldado ao laço das
constelações: Herberto Helder (JACOTO, 2011: 62). Ou seja: as palavras
fundamentais, na poesia de Helder, criam um novo lugar semântico, “rebatizando
seus elementos e atribuindo-lhes novas e sempre outras funções.” (idem).
A combinação e permutação de elementos, assim como a criação de novos conteúdos
ou imagens do mundo, são operações de uma lógica distinta daquela da invenção
mimética tradicional, em que o discurso poético desenha cenários perceptíveis
pelos cinco sentidos: na poesia de Helder vigora uma lei da metamorfose,
que o próprio poeta cita em Teoria das cores, fábula breve que também
integra o volume Os passos em
volta. A história é bem conhecida: um pintor se propõe a
retratar um peixe vermelho, mas, numa súbita violação das leis naturais, este
se transforma num peixe negro, acontecimento que motiva o artista a refletir
sobre o caráter mágico e mutável das coisas: “existia apenas uma lei abrangendo
tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose”
(HELDER, 2005: 21-22). Esta palavra é um talismã e uma das chaves de leitura
essenciais para a compreensão de sua obra, oferecendo a possibilidade de
aproximações com Camilo Pessanha, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa (Ele
Mesmo) e o Surrealismo, além das evidentes relações com o pensamento hermético.
No caso específico de Helder, metamorfose é sinônimo de hibridismo,
conforme diz Maria Estela Guedes: “É a transmutação do corpo em espelho, em
metal ou em vegetal; é a transmutação da noite em matéria orgânica; é a
transmutação do poema em animal” (GUEDES, 2011: 19). A palavra híbrido,
recorda a autora, deriva do grego hybris, que significa “excesso,
paixão, orgulho, transgressão dos limites, violação das leis naturais, prole
resultante do cruzamento de indivíduos que pertencem a espécies diferentes”
(idem, 15), e é exatamente o seu significado na biologia que nos parece mais
pertinente para a discussão da poética helderiana, onde os “seres de linguagem
(...) são criados por cruzamento de imagens oriundas de diversas espécies de
real” (idem). A criação de monstros verbais, similares ao Minotauro, às sereias
ou à Medusa, é inevitável nesta insólita engenharia genética, em que não há
limites de ordem racional: o poeta trabalha com a “impossibilidade natural
absoluta: nem a cobra é raiz nem a rosa tem guelras. Em termos de estética,
estamos completamente fora do vínculo ao real próprio dos realismos” (idem,
17).
A fascinação pelo monstruoso,
irregular ou disforme, evidente nas vanguardas históricas, e em especial o
cubismo e o surrealismo, corresponde, segundo Izabela Leal, a “um projeto da
modernidade que tem como objetivo tomar o corpo como possibilidade de
desumanização” (LEAL, 2009). A estratégia de intervenção artística pela
metamorfose e deformação teve certamente os seus antecessores na poesia do
século XIX, e em especial nos autores que leram Charles Baudelaire, como o
Cesário Verde de Num bairro moderno (“descobria uma cabeça numa
melancia/ e nuns repolhos seios injetados”) e o Lautréamont de Cantos de
Maldoror, obra inclassificável nos gêneros literários tradicionais que
apresenta figuras híbridas meio humanas, meio animais, meio sobrenaturais, como
o homem com cabeça de pelicano, “belo como os dois longos filamentos
tentaculiformes de um inseto” (LAUTRÉAMONT: 1997, 28).
O processo da metamorfose, em Helder como em Lautréamont, está atrelado “a um
desejo de levar às últimas consequências a compreensão da criação poética como
uma operação de desestabilização do sentido”: ao desfigurar – ou refabular –
palavra e mundo, o poeta cria novas realidades, realidades estéticas, usando
como principal recurso criativo a inusitada associação de imagens. Conforme
escreveu Pierre Reverdy, a imagem poética “não pode nascer de uma comparação,
mas da aproximação de duas realidades mais ou menos afastadas. Quanto mais as
relações das duas realidades forem distantes e justas, tanto mais a imagem será
forte, mais força emotiva e realidade poética ela terá” (in PIVA, 2005:
150-51). Esta ideia, que é central no surrealismo e também no futurismo –
Marinetti afirmou que “a analogia é nada mais do que o amor profundo que
associa coisas distantes, aparentemente diversas e hostis” – (PERLOFF, 1993:
117) deriva do Maneirismo e do Barroco, como bem observou Gustav Hocke em seu
livro Homo ludens. A lírica transtornada de Herberto Helder pertence a
essa estranha família composta de artistas e poetas para quem “o que importa
não é a representação da realidade, mas sim a criação de uma realidade nova que
se produz através de uma transfiguração dos objetos, da perda de seu sentido
usual”, (Leal, 2009). É a partir destes vetores conceituais que iremos agora
comentar o poema Lugar, de Herberto Helder.
A primeira parte da composição,
que inicia com o verso “Uma noite encontrei uma pedra”, simula a narrativa de
um caminhante noturno, que descreve aquilo que experimenta ao longo de uma
jornada solitária, num “grande silêncio para se habitar só em gestos”. Porém,
ao contrário do narrador de O sentimento dum ocidental, de Cesário
Verde, este sujeito, que nunca é nomeado, não observa edifícios, chaminés, a
via férrea, carpinteiros, mas encontra objetos de contorno e substância
imprecisos, submetidos a constantes metamorfoses, como esta pedra
encontrada no meio do caminho, ora verde, ora azul: “Uma pedra / sem
folhas, um sino / sem pensamento”, que irá percorrer todas as seções do poema,
não raro em situações contrárias à lógica natural (“Às mulheres amadas darei as
pedras voantes”). A abstração da paisagem é realçada pelo uso
arbitrário de adjetivos, fora da qualquer acepção dicionarizada (“flor
hipnotizada”, “abstrata violência”, “viola tenazmente taciturna”), e de
pronomes indefinidos em construções como “Alguma coisa dessas coisas da
imobilidade”, “Alguma coisa subida de raízes mais milagrosas” e “Algo não
levantado inteiramente da obscuridade”.
O enigma, o paradoxo, a
ambiguidade, são os gênios tutelares dessa escritura, onde, de modo similar ao
princípio mallarmeano, não importa pintar a coisa, mas o efeito que ela produz
– que será eficiente na medida de sua fluidez, imprecisão e pluralidade de
rotas de leitura. Helder é um parente espiritual de Camilo Pessanha, sobretudo
do Pessanha mais obscuro do que melódico, como no soneto de Clepsidra
que começa com o verso “Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas”, cuja
atmosfera onírica, com imagens de alto impacto estético (“Fulgurações azuis,
vermelhas, de hemoptise”, “Abortos que pendeis as frontes de cidra”), antecipam
as insólitas arquiteturas helderianas (bem como as de Mário de Sá-Carneiro, em
versos como “Idade acorde de Inter-sonho e Lua, / Onde as horas corriam sempre
jade”, do poema Distante Melodia, do livro Indícios de Ouro).
A imprecisão voluntária do
enunciado, na primeira parte do poema de Helder, é obtida também pela
alteridade, em versos como “Som ou degrau que eu beijaria”, “Ou então
era alta, ou esmagada, ou degolada, / no meio de um silêncio
global”. A conjunção ou, que oferece ao mesmo tempo alternativa e
exclusão, cria uma instabilidade no discurso: pode ser isto, pode ser aquilo,
não temos um solo firme, uma delimitação de contornos, mas uma abertura para
várias possíveis maneiras de imaginarmos o sentido, num desejado caos sensorial
da escrita. A transgressão da lógica rotineira manifesta-se ainda pelo uso
contínuo de partículas negativas, que simulam a afirmação de algo por
sucessivas recusas de caráter enigmático: “Encontrei uma pedra pedra / que não
era uma colina com o mês de março em volta / Nem era a boca materna
aberta / debaixo dos rios lisos. (...) / Encontrei algo que não andava
/ pelos montes nem seria atravessado / por uma flecha. E não
sangrava. / Que não se ouvia se cantava”. As estranhas afirmações pela
negação, de ritmo anafórico e estrutura próxima à da enumeração caótica,
combinam-se ao uso de advérbios para aprofundar ainda mais o grau de incerteza
e instabilidade do discurso: “Talvez fosse fria / ou vivesse abrasada
sobre a ilusão”, “aldeias inteiras cantando sua pureza quase louca”. A
palavra-chave que se repete nesta seção do poema, estruturando o ritmo e
corporificando a alucinação, é o verbo encontrar, conjugado na
primeira pessoa (“Encontrei em mim essa clareira”, “Encontrei um animal
desconhecido”, “Encontrei ondas e ondas contra mim”), que conduz as estrofes,
num crescendo, até o final de aparente referencialidade, onde nos deparamos com
o amor, a morte, o silêncio (“palavras
fundamentais”, logo, esvaziadas de sentido) e enfim este verso ambíguo, quase
chave de ouro: “ — Se era uma pedra, um sino. Uma vida verdadeira”, que retoma
duas imagens recorrentes no texto, a pedra e o sino, em
associação com a palavra vida, num jogo entre concreto e abstrato,
pessoal e impessoal, vida e linguagem.
O verso, de sintaxe fragmentada, pode ser lido de várias maneiras, por exemplo,
a partir da hipótese de ocultamento da conjunção ou: “ — Se era uma pedra, ou
um sino. / Ou uma vida verdadeira”, que numa leitura
superficial indicaria uma relação antitética entre existência e representação,
natureza e artifício. Sem dúvida, toda construção estética é artificial, seja
pelos materiais utilizados em sua consecução, seja pela aplicação de técnicas
específicas no processo criativo ou pelo artefato artístico em si, mas o
trabalho do poeta ou artista não exclui a participação do universo sensorial,
como aliás qualquer trabalho humano. O verso poderia ser lido também pelas
lentes do fingidor de Fernando Pessoa: esta “vida verdadeira”, com toda a força
retórica trazida pelo adjetivo, seria uma ficção semântica, exatamente por se
apresentar como algo tão diverso da construção metafórica, que é o recurso
formal dominante em todo o poema; negar a metáfora, fazer uma oposição entre
ela e a vida, seria uma negação do próprio texto poético. A ambiguidade do
verso de Helder, que não se resume a estas duas interpretações, é justamente a
sua riqueza, por não constituir um “final” grandiloquente, no espaço onde o
leitor aguarda uma conclusão, uma “mensagem”, que o alivie da dura tarefa do
entendimento. Sem apresentar nenhuma verdade universal que nos tranquilize e
deixando o poema aberto à múltiplas decodificações, este verso pode nos levar a
outra discussão, ainda que breve, sobre os diálogos entre subjetividade e
artifício na poética helderiana.
Fernando Pessoa, nos Apontamentos
para uma estética não-aristotélica, diz: “Toda arte parte da sensibilidade,
e nela realmente se baseia” (PESSOA, 1976: 92). Porém, enquanto o artista
aristotélico “subordina a sua sensibilidade à sua inteligência, para poder
tornar essa sensibilidade humana e universal, ou seja, para a poder tornar
sensível e agradável, e assim poder captar os outros”, o artista
não-aristotélico (e podemos pensar aqui em Camilo Pessanha,
no próprio Pessoa, em Sá-Carneiro e, claro, em Helder) “subordina tudo à sua
sensibilidade”, tornando-a “abstrata como a inteligência (sem deixar de ser
sensibilidade)” (idem). O texto, datado de 1907 e assinado por Álvaro de
Campos, aponta ainda outra importante ruptura com a estética aristotélica:
enquanto nesta há uma exigência de que “o indivíduo generalize ou humanize a
sua sensibilidade, necessariamente particular e pessoal”, na teoria proposta
por Pessoa / Álvaro de Campos “o percurso indicado é inverso: é o geral que
deve ser particularizado, o humano que se deve pessoalizar, o ‘exterior’ que se
deve tornar ‘interior’ ” (idem, 90). A invenção dos heterônimos por Pessoa é
uma leitura pessoal do mundo e da tradição literária, ao mesmo tempo que
constitui uma intervenção crítica, mas o autor de Mensagem ainda se viu
comprometido com a ideia aristotélica da verossimilhança, e assim cria, para as
suas muitas vozes, nomes, biografias, datas e dicções particulares; Ricardo
Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, são personagens dramáticos, querem nos
convencer de sua existência. Herberto Helder, ao contrário, embora escreva em
primeira pessoa, em tom conversacional, não nomeia a si mesmo, não apresenta
uma cronologia, não descreve ações reconhecíveis, não conta uma história, de si
ou do mundo; ele expressa a sua subjetividade na construção da linguagem, ela
própria um corpo feito de palavras. “Se o poema emerge do corpo e é o próprio
corpo, seremos levados a considerar que a criação é algo da ordem de uma
experiência sensível, que se produz a partir da transformação daquilo ou
daquele que lhe dá origem” (LEAL, 2009). Herberto Helder é um poeta fingidor,
mas o seu teatro é interno, abstrato, e ele não deseja convencer o leitor da
existência de uma realidade linear da qual ele próprio duvida. O eu lírico que
aparece em seus poemas é um narrador cético, que faz do próprio poema a sua
biografia, artesanato e lugar imaginativo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
DAL
FARRA, Maria Lúcia. A alquimia da linguagem: leitura da cosmogonia poética
de Herberto Helder. Lisboa: Imprensa Nacional, 1986.
GUEDES, Maria Estela. A obra em rubro. São Paulo: Escrituras, 2011.
HELDER, Herberto. O Corpo O Luxo A Obra. São Paulo: Ed. Iluminuras,
2000.
HELDER, Herberto. Ou o poema contínuo. São Paulo: Perspectiva, 2006.
HELDER, Herberto. Os passos em
volta. Rio de Janeiro: Azougue Edirorial, 2004.
HOLLANDA, Aurélio Buarque de. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
JACOTO, Lilian, e MAFFEI, Luís. Soldado aos laços das constelações: Herberto
Helder. Bauru: Lumme Editor, 2011.
JÚDICE, Nuno. As máscaras do poema. Lisboa: Arion, 1998.
LAUTRÉAMONT. Obras Completas (trad. Claudio Willer). São Paulo: Ed.
Iluminuras, 2ª. ed., 2005.
MARINHO, Maria de Fátima: Herberto Helder, a obra e o homem. Lisboa:
Arcádia, 1982.
PERLOFF, Marjorie. O momento futurista. São Paulo: Edusp, 1993.
PIVA, Roberto. Um estrangeiro na legião. São Paulo: Globo, 2005.
Na internet:
WILLER, Claudio. Herberto Helder e a grande poesia portuguesa contemporânea,
artigo publicado na revista eletrônica Agulha em 2000, http://www.jornaldepoesia.jor.br/ag9helder.htm
WILLER, Claudio. Conversa sobre Herberto Helder, depoimento publicado no
site Triplo V em 2009, http://www.triplov.com/willer/2009/HH.html.