terça-feira, 24 de março de 2015

TOPOGRAFIAS NÔMADES EM HERBERTO HELDER
















Claudio Daniel

A palavra lugar, segundo o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, deriva do latim locale e significa, entre outras acepções: “1. Espaço ocupado; sítio. 2. Espaço. 3. Sítio ou ponto referido a um fato. 4. Espaço próprio para determinado fim. 5. Ponto de observação, posição, posto. 6. Esfera, roda, ambiente.” (HOLLANDA, 1986: 1051). O poema Lugar, de Herberto Helder, incluído no livro de mesmo título publicado em 1962, anula qualquer delimitação de território, numa aparente rarefação do sentido referencial: não existe aqui nenhuma indicação geográfica ou temporal, próprias da representação mimética. O espaço do poema é o próprio poema, seu tempo é o da recitação ou leitura silenciosa e as ações desencadeadas nesta longa composição, dividida em sete partes, são os constantes deslocamentos de sentido das palavras, que se aproximam de uma voluntária abstração semântica: o poema é arquitetado como se fosse uma obra plástica, em que importam mais a escolha das cores, linhas, volumes e planos do que a descrição figurativa. O principal recurso usado por Helder para atingir esse grau de indeterminação na escritura é o esvaziamento semântico, que o próprio autor assim descreve na prosa narrativa curta intitulada O Estilo, que integra o volume Os passos em volta:

Às vezes, uso o processo de esvaziar as palavras. Sabe como é? Pego numa palavra fundamental. Palavras fundamentais, curioso... Pego numa palavra fundamental: Amor, Doença, Medo, Morte, Metamorfose. Digo-a baixo vinte vezes. Já não significa. É um modo de alcançar o estilo. (HELDER, 2005: 13).

A primeira parte do poema, que começa com o verso “Uma noite encontrei uma pedra”, já apresenta algumas das palavras fundamentais inseridas pelo autor ao longo da composição e que funcionam como os motivos condutores numa obra musical: noite, pedra, sino, árvore, sono, sangue, entre outras. Estas palavras, comuns ao repertório da poesia simbolista e mesmo romântica, são dispostas em diferentes combinações e permutações ao longo do texto: elas não têm sentido fixo, mas sugerem uma pluralidade de possíveis interpretações, numa espécie de mandala caleidoscópica que o poeta propõe a seus leitores. A palavra cidade, por exemplo, que aparece na seção IV do poema, em cada estrofe é acompanhada de outras unidades semânticas que contaminam, ampliam e alteram o seu significado, numa aparente livre associação de imagens e camadas referenciais que se aproximam de um deliberado caos: cidades cor de pérola, cidades absolutas, cidades esquecidas, cidades femininas, cidades doces, cidade voltada para dentro e outras variações que atravessam o poema, em “movimentos de repetição e deslocamento (que) delimitam uma zona ou fronteira simbólica que nos permite restabelecer, ainda que provisoriamente, uma nova ordem do mundo”, nas palavras de Lilian Jacoto, em ensaio publicado sobre A máquina lírica no livro Soldado ao laço das constelações: Herberto Helder (JACOTO, 2011: 62). Ou seja: as palavras fundamentais, na poesia de Helder, criam um novo lugar semântico, “rebatizando seus elementos e atribuindo-lhes novas e sempre outras funções.” (idem).

A combinação e permutação de elementos, assim como a criação de novos conteúdos ou imagens do mundo, são operações de uma lógica distinta daquela da invenção mimética tradicional, em que o discurso poético desenha cenários perceptíveis pelos cinco sentidos: na poesia de Helder vigora uma lei da metamorfose, que o próprio poeta cita em Teoria das cores, fábula breve que também integra o volume Os passos em volta. A história é bem conhecida: um pintor se propõe a retratar um peixe vermelho, mas, numa súbita violação das leis naturais, este se transforma num peixe negro, acontecimento que motiva o artista a refletir sobre o caráter mágico e mutável das coisas: “existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose” (HELDER, 2005: 21-22). Esta palavra é um talismã e uma das chaves de leitura essenciais para a compreensão de sua obra, oferecendo a possibilidade de aproximações com Camilo Pessanha, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa (Ele Mesmo) e o Surrealismo, além das evidentes relações com o pensamento hermético. No caso específico de Helder, metamorfose é sinônimo de hibridismo, conforme diz Maria Estela Guedes: “É a transmutação do corpo em espelho, em metal ou em vegetal; é a transmutação da noite em matéria orgânica; é a transmutação do poema em animal” (GUEDES, 2011: 19). A palavra híbrido, recorda a autora, deriva do grego hybris, que significa “excesso, paixão, orgulho, transgressão dos limites, violação das leis naturais, prole resultante do cruzamento de indivíduos que pertencem a espécies diferentes” (idem, 15), e é exatamente o seu significado na biologia que nos parece mais pertinente para a discussão da poética helderiana, onde os “seres de linguagem (...) são criados por cruzamento de imagens oriundas de diversas espécies de real” (idem). A criação de monstros verbais, similares ao Minotauro, às sereias ou à Medusa, é inevitável nesta insólita engenharia genética, em que não há limites de ordem racional: o poeta trabalha com a “impossibilidade natural absoluta: nem a cobra é raiz nem a rosa tem guelras. Em termos de estética, estamos completamente fora do vínculo ao real próprio dos realismos” (idem, 17).

A fascinação pelo monstruoso, irregular ou disforme, evidente nas vanguardas históricas, e em especial o cubismo e o surrealismo, corresponde, segundo Izabela Leal, a “um projeto da modernidade que tem como objetivo tomar o corpo como possibilidade de desumanização” (LEAL, 2009). A estratégia de intervenção artística pela metamorfose e deformação teve certamente os seus antecessores na poesia do século XIX, e em especial nos autores que leram Charles Baudelaire, como o Cesário Verde de Num bairro moderno (“descobria uma cabeça numa melancia/ e nuns repolhos seios injetados”) e o Lautréamont de Cantos de Maldoror, obra inclassificável nos gêneros literários tradicionais que apresenta figuras híbridas meio humanas, meio animais, meio sobrenaturais, como o homem com cabeça de pelicano, “belo como os dois longos filamentos tentaculiformes de um inseto” (LAUTRÉAMONT: 1997, 28).

O processo da metamorfose, em Helder como em Lautréamont, está atrelado “a um desejo de levar às últimas consequências a compreensão da criação poética como uma operação de desestabilização do sentido”: ao desfigurar – ou refabular – palavra e mundo, o poeta cria novas realidades, realidades estéticas, usando como principal recurso criativo a inusitada associação de imagens. Conforme escreveu Pierre Reverdy, a imagem poética “não pode nascer de uma comparação, mas da aproximação de duas realidades mais ou menos afastadas. Quanto mais as relações das duas realidades forem distantes e justas, tanto mais a imagem será forte, mais força emotiva e realidade poética ela terá” (in PIVA, 2005: 150-51). Esta ideia, que é central no surrealismo e também no futurismo – Marinetti afirmou que “a analogia é nada mais do que o amor profundo que associa coisas distantes, aparentemente diversas e hostis” – (PERLOFF, 1993: 117) deriva do Maneirismo e do Barroco, como bem observou Gustav Hocke em seu livro Homo ludens. A lírica transtornada de Herberto Helder pertence a essa estranha família composta de artistas e poetas para quem “o que importa não é a representação da realidade, mas sim a criação de uma realidade nova que se produz através de uma transfiguração dos objetos, da perda de seu sentido usual”, (Leal, 2009). É a partir destes vetores conceituais que iremos agora comentar o poema Lugar, de Herberto Helder.

A primeira parte da composição, que inicia com o verso “Uma noite encontrei uma pedra”, simula a narrativa de um caminhante noturno, que descreve aquilo que experimenta ao longo de uma jornada solitária, num “grande silêncio para se habitar só em gestos”. Porém, ao contrário do narrador de O sentimento dum ocidental, de Cesário Verde, este sujeito, que nunca é nomeado, não observa edifícios, chaminés, a via férrea, carpinteiros, mas encontra objetos de contorno e substância imprecisos, submetidos a constantes metamorfoses, como esta pedra encontrada no meio do caminho, ora verde, ora azul: “Uma pedra / sem folhas, um sino / sem pensamento”, que irá percorrer todas as seções do poema, não raro em situações contrárias à lógica natural (“Às mulheres amadas darei as pedras voantes”). A abstração da paisagem é realçada pelo uso arbitrário de adjetivos, fora da qualquer acepção dicionarizada (“flor hipnotizada”, “abstrata violência”, “viola tenazmente taciturna”), e de pronomes indefinidos em construções como “Alguma coisa dessas coisas da imobilidade”, “Alguma coisa subida de raízes mais milagrosas” e “Algo não levantado inteiramente da obscuridade”.

O enigma, o paradoxo, a ambiguidade, são os gênios tutelares dessa escritura, onde, de modo similar ao princípio mallarmeano, não importa pintar a coisa, mas o efeito que ela produz – que será eficiente na medida de sua fluidez, imprecisão e pluralidade de rotas de leitura. Helder é um parente espiritual de Camilo Pessanha, sobretudo do Pessanha mais obscuro do que melódico, como no soneto de Clepsidra que começa com o verso “Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas”, cuja atmosfera onírica, com imagens de alto impacto estético (“Fulgurações azuis, vermelhas, de hemoptise”, “Abortos que pendeis as frontes de cidra”), antecipam as insólitas arquiteturas helderianas (bem como as de Mário de Sá-Carneiro, em versos como “Idade acorde de Inter-sonho e Lua, / Onde as horas corriam sempre jade”, do poema Distante Melodia, do livro Indícios de Ouro).

A imprecisão voluntária do enunciado, na primeira parte do poema de Helder, é obtida também pela alteridade, em versos como “Som ou degrau que eu beijaria”, “Ou então era alta, ou esmagada, ou degolada, / no meio de um silêncio global”. A conjunção ou, que oferece ao mesmo tempo alternativa e exclusão, cria uma instabilidade no discurso: pode ser isto, pode ser aquilo, não temos um solo firme, uma delimitação de contornos, mas uma abertura para várias possíveis maneiras de imaginarmos o sentido, num desejado caos sensorial da escrita. A transgressão da lógica rotineira manifesta-se ainda pelo uso contínuo de partículas negativas, que simulam a afirmação de algo por sucessivas recusas de caráter enigmático: “Encontrei uma pedra pedra / que não era uma colina com o mês de março em volta / Nem era a boca materna aberta / debaixo dos rios lisos. (...) / Encontrei algo que não andava / pelos montes nem seria atravessado / por uma flecha. E não sangrava. / Que não se ouvia se cantava”. As estranhas afirmações pela negação, de ritmo anafórico e estrutura próxima à da enumeração caótica, combinam-se ao uso de advérbios para aprofundar ainda mais o grau de incerteza e instabilidade do discurso: “Talvez fosse fria / ou vivesse abrasada sobre a ilusão”, “aldeias inteiras cantando sua pureza quase louca”. A palavra-chave que se repete nesta seção do poema, estruturando o ritmo e corporificando a alucinação, é o verbo encontrar, conjugado na primeira pessoa (“Encontrei em mim essa clareira”, “Encontrei um animal desconhecido”, “Encontrei ondas e ondas contra mim”), que conduz as estrofes, num crescendo, até o final de aparente referencialidade, onde nos deparamos com o amor, a morte, o silêncio (“palavras fundamentais”, logo, esvaziadas de sentido) e enfim este verso ambíguo, quase chave de ouro: “ — Se era uma pedra, um sino. Uma vida verdadeira”, que retoma duas imagens recorrentes no texto, a pedra e o sino, em associação com a palavra vida, num jogo entre concreto e abstrato, pessoal e impessoal, vida e linguagem.

O verso, de sintaxe fragmentada, pode ser lido de várias maneiras, por exemplo, a partir da hipótese de ocultamento da conjunção ou: “ — Se era uma pedra, ou um sino. / Ou uma vida verdadeira”, que numa leitura superficial indicaria uma relação antitética entre existência e representação, natureza e artifício. Sem dúvida, toda construção estética é artificial, seja pelos materiais utilizados em sua consecução, seja pela aplicação de técnicas específicas no processo criativo ou pelo artefato artístico em si, mas o trabalho do poeta ou artista não exclui a participação do universo sensorial, como aliás qualquer trabalho humano. O verso poderia ser lido também pelas lentes do fingidor de Fernando Pessoa: esta “vida verdadeira”, com toda a força retórica trazida pelo adjetivo, seria uma ficção semântica, exatamente por se apresentar como algo tão diverso da construção metafórica, que é o recurso formal dominante em todo o poema; negar a metáfora, fazer uma oposição entre ela e a vida, seria uma negação do próprio texto poético. A ambiguidade do verso de Helder, que não se resume a estas duas interpretações, é justamente a sua riqueza, por não constituir um “final” grandiloquente, no espaço onde o leitor aguarda uma conclusão, uma “mensagem”, que o alivie da dura tarefa do entendimento. Sem apresentar nenhuma verdade universal que nos tranquilize e deixando o poema aberto à múltiplas decodificações, este verso pode nos levar a outra discussão, ainda que breve, sobre os diálogos entre subjetividade e artifício na poética helderiana.

Fernando Pessoa, nos Apontamentos para uma estética não-aristotélica, diz: “Toda arte parte da sensibilidade, e nela realmente se baseia” (PESSOA, 1976: 92). Porém, enquanto o artista aristotélico “subordina a sua sensibilidade à sua inteligência, para poder tornar essa sensibilidade humana e universal, ou seja, para a poder tornar sensível e agradável, e assim poder captar os outros”, o artista não-aristotélico (e podemos pensar aqui em Camilo Pessanha, no próprio Pessoa, em Sá-Carneiro e, claro, em Helder) “subordina tudo à sua sensibilidade”, tornando-a “abstrata como a inteligência (sem deixar de ser sensibilidade)” (idem). O texto, datado de 1907 e assinado por Álvaro de Campos, aponta ainda outra importante ruptura com a estética aristotélica: enquanto nesta há uma exigência de que “o indivíduo generalize ou humanize a sua sensibilidade, necessariamente particular e pessoal”, na teoria proposta por Pessoa / Álvaro de Campos “o percurso indicado é inverso: é o geral que deve ser particularizado, o humano que se deve pessoalizar, o ‘exterior’ que se deve tornar ‘interior’ ” (idem, 90). A invenção dos heterônimos por Pessoa é uma leitura pessoal do mundo e da tradição literária, ao mesmo tempo que constitui uma intervenção crítica, mas o autor de Mensagem ainda se viu comprometido com a ideia aristotélica da verossimilhança, e assim cria, para as suas muitas vozes, nomes, biografias, datas e dicções particulares; Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, são personagens dramáticos, querem nos convencer de sua existência. Herberto Helder, ao contrário, embora escreva em primeira pessoa, em tom conversacional, não nomeia a si mesmo, não apresenta uma cronologia, não descreve ações reconhecíveis, não conta uma história, de si ou do mundo; ele expressa a sua subjetividade na construção da linguagem, ela própria um corpo feito de palavras. “Se o poema emerge do corpo e é o próprio corpo, seremos levados a considerar que a criação é algo da ordem de uma experiência sensível, que se produz a partir da transformação daquilo ou daquele que lhe dá origem” (LEAL, 2009). Herberto Helder é um poeta fingidor, mas o seu teatro é interno, abstrato, e ele não deseja convencer o leitor da existência de uma realidade linear da qual ele próprio duvida. O eu lírico que aparece em seus poemas é um narrador cético, que faz do próprio poema a sua biografia, artesanato e lugar imaginativo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DAL FARRA, Maria Lúcia. A alquimia da linguagem: leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder. Lisboa: Imprensa Nacional, 1986.

GUEDES, Maria Estela. A obra em rubro. São Paulo: Escrituras, 2011.

HELDER, Herberto. O Corpo O Luxo A Obra. São Paulo: Ed. Iluminuras, 2000.

HELDER, Herberto. Ou o poema contínuo. São Paulo: Perspectiva, 2006.

HELDER, Herberto. Os passos em volta. Rio de Janeiro: Azougue Edirorial, 2004.

HOLLANDA, Aurélio Buarque de. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

JACOTO, Lilian, e MAFFEI, Luís. Soldado aos laços das constelações: Herberto Helder. Bauru: Lumme Editor, 2011.

JÚDICE, Nuno. As máscaras do poema. Lisboa: Arion, 1998.

LAUTRÉAMONT. Obras Completas (trad. Claudio Willer). São Paulo: Ed. Iluminuras, 2ª. ed., 2005.

MARINHO, Maria de Fátima: Herberto Helder, a obra e o homem. Lisboa: Arcádia, 1982.

PERLOFF, Marjorie. O momento futurista. São Paulo: Edusp, 1993.

PIVA, Roberto. Um estrangeiro na legião. São Paulo: Globo, 2005.

Na internet:

BORGES, Contador. Herberto Helder: a razão da loucura. http://www.revistazunai.com/ensaios/contador_borges_herberto_helder.htm

DANIEL, Claudio. Apontamentos de leitura: Helder e Celan, artigo publicado na revista eletrônica Zunái, http://www.revistazunai.com/ensaios/claudio_daniel_apontamentos.htm

LEAL, Izabela. Corpo, sangue e violência na poesia de Herberto Helder. http://www.revistazunai.com/ensaios/izabela_leal_herberto_helder.htm


WILLER, Claudio. Herberto Helder e a grande poesia portuguesa contemporânea, artigo publicado na revista eletrônica Agulha em 2000, http://www.jornaldepoesia.jor.br/ag9helder.htm

WILLER, Claudio. Conversa sobre Herberto Helder, depoimento publicado no site Triplo V em 2009, http://www.triplov.com/willer/2009/HH.html.

WILLER, Claudio. A obra em aberto: Herberto Helder por Maria Estela Guedes, artigo publicado no site Cronópios em 18/02/2011,
http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=4907

segunda-feira, 23 de março de 2015

A CHINA VOLTOU AO CAPITALISMO?














Não exatamente. Haroldo Lima, no livro “China: 50 anos de república popular” (São Paulo: Ed. Anita Garibaldi, 1999) escreve: “O papel dirigente do plano na economia manifesta-se na manutenção de 14.400 empresas estatais, de grande ou médio porte, plantadas nos setores estratégicos do país. Essas empresas contribuem com 52% das rendas do Estado. Asseguram o rumo geral socialista da economia, puxando um cortejo de centenas de milhares de iniciativas empresariais de variados tipos”. O estado chinês detém o monopólio de todas as terras – que podem ser arrendadas para exploração privada, mas permanecem propriedade estatal --, do petróleo, riquezas do subsolo, sistema financeiro, vias de transporte e meios de comunicação, além de controlar diversas indústrias de grande porte. Há serviços públicos e gratuitos de saúde para atender à população, embora também haja instituições privadas. A economia chinesa, desde as resoluções do XIII Congresso do Partido Comunista Chinês (PCCh), é uma “economia mercantil planificada socialista”, em que coexistem “múltiplas formas de propriedade dos meios de produção”, incluindo a privada e a estrangeira, sob “o predomínio da propriedade social”, escreve Haroldo Lima. 

Graças a esse novo modelo, introduzido por Deng Xiao Ping, a China conseguiu desenvolver suas forças produtivas, a ponto de tornar-se a maior economia do planeta, superando os Estados Unidos e a Europa, investir em ciência, tecnologia e na erradicação da miséria do país. A inspiração dos comunistas chineses é a Nova Política Econômica (NEP) implementada por Lênin na União Soviética, na década de 1920, que visava os mesmos objetivos: 1) manter o poder político nas mãos do partido da classe operária; e 2) usar mecanismos de mercado, investimentos estrangeiros e a propriedade individual para desenvolver em pouco tempo o país, submetendo esses mecanismos e formas de propriedade às necessidades da planificação estatal da economia. 

Marx e Engels consideravam o socialismo como a conseqüência lógica do desenvolvimento capitalista em seu mais alto grau, quando haveria uma contradição radical entre as relações de produção e o modo de produção. Rússia e China, que realizaram revoluções socialistas antes mesmo de passarem por um período de pleno desenvolvimento capitalista, foram obrigadas a acenarem ao capital privado como condição para criarem as bases materiais, científicas e tecnológicas necessárias para a construção do socialismo. Ao mesmo tempo, a adoção de mecanismos de mercado visa tornar as empresas estatais mais dinâmicas, ágeis, competitivas, produtivas. Conforme diz Lima: “um estudo mostra que cerca de 11 mil grandes e médias empresas industriais estatais chinesas, que representam 2,9% do número total das empresas industriais do país, contribuem com quase 50% do valor da produção nacional e pagam, em benefícios e impostos, 67% do que o Estado arrecada. Elas controlam artérias vitais da economia chinesa, como os setores energéticos básicos, de transporte, de eletricidade, de maquinaria pesada, de siderurgia e de produtos químicos”. 

Há pouco menos de cem anos, a China era um país semicolonial, semifeudal, com o seu território retalhado pela Inglaterra, Alemanha, França, Japão, Portugal, Rússia e Estados Unidos (um cartaz colocado pelos franceses em um parque público tinha os seguintes dizeres: "É proibida a entrada de cães e de chineses"). A imensa maioria da população camponesa vivia em situação de miséria e analfabetismo e as mulheres não tinham os mesmos direitos que os homens. A China exportava alimentos e matérias-primas e importava quase tudo, inclusive ópio, que os ingleses introduziram no país asiático para obter imensos lucros com o tráfico de drogas legal (o ópio, proibido na Inglaterra, era cultivado pelos ingleses na Índia e exportado para a China e outros países). Após se libertar da ocupação imperialista japonesa na Segunda Guerra Mundial, em que morreram 20 milhões de chineses, e a vitória da Revolução Socialista em 1949, organizada pelo Partido Comunista Chinês, liderado por Mao Tsé Tung, a China tornou-se um país soberano, independente, unificado, expropriou os senhores feudais, recuperou a maioria de seus territórios ocupados pelas potências estrangeiras, como Macau, Hong Kong e o Tibete (permanecem irresolvidas as questões de Taiwan, Quemoy e Matsu, tutelados pelos EUA) e reconheceu a igualdade de direitos entre homens e mulheres, o casamento civil, os direitos ao divórcio e ao aborto. 

Nas décadas de 1950-1960, a China realizou a reforma agrária e lançou um ambicioso plano de industrialização do país, inspirado no modelo soviético de planos quinqüenais, que permitiu ao país, em poucos anos, produzir aviões à jato, foguetes, satélites e até a bomba atômica (feitos que seriam impossíveis sem uma indústria moderna e diversificada e domínio científico e tecnológico). O Grande Salto para a Frente, implementado no final da década de 1950, porém, não atingiu todos os resultados esperados e a situação do país tornou-se caótica com a Revolução Cultural, que desorganizou a economia, o partido e quase levou o país à guerra civil. Após a morte de Mao Tsé Tung e a ascensão de Deng Xiao Ping a China voltou a investir nas bases necessárias para a construção socialista: desenvolvimento das forças produtivas, da tecnologia, eliminação da pobreza e inserção no plano internacional, fazendo frente ao imperialismo – por exemplo, colaborando para a criação do banco dos BRICs, realizando acordos de parceria com a Rússia e os países do MERCOSUL, defendendo a soberania da Síria, da Venezuela, da Coréia do Norte e de outros países ameaçados pelos Estados Unidos e também colaborando em projetos para o desenvolvimento de países africanos. A China é hoje a primeira economia do mundo, possui 1/4 da população do planeta e o êxito de sua estratégia de criação de novos caminhos de cooperação internacional é essencial para a superação da hegemonia norte-americana e o início de uma nova era multipolar.

domingo, 22 de março de 2015

CDA



















"Entendo que a poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser a mercê de inspirações fáceis, dóceis às modas e compromissos." (Carlos Drummond de Andrade)

UM POEMA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


NUDEZ


Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.

Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.

Nem era dor aquilo que doía:
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)

Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.

Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.

Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.

sexta-feira, 20 de março de 2015

LIVRO DOS ORIKIS













TERMINEI DE ESCREVER O LIVRO DOS ORIKIS, com 18 poemas ao todo, cada um dedicado a um orixá: Exu, Iansã, Ogum, Oxum, Xangô, Iemanjá, Omolu, Oxóssi, Nanã, Ewá, Logunedé, Oxumaré, Ossain, Orunmilá, Oxalá, Iroko, Obá e Ibeji. Agora, falta revisar o glossário, que incluí no final do volume, com breves explicações sobre os nomes e palavras em iorubá. Escrevi este livro em menos de dois meses, foi quase uma "possessão", sem fazer nenhuma concessão estética, bem ao contrário: busquei "africanizar" o português e explorar todas as possibilidades de som e imagem, dialogando com os textos orais da tradição iorubá, mas também com os recursos da poesia de vanguarda. Se fui bem-sucedido ou não nesse trabalho, não cabe a mim avaliar, posso dizer apenas uma coisa: senti enorme alegria -- e também enorme angústia -- durante todo o processo criativo. 

O oriki é um poema ritual da tradição nagô-ioruba, cantado até hoje nos terreiros de umbanda e candomblé, celebrando deuses, reis e herois lendários. Quem introduziu o oriki no Brasil foi Antonio Risério em seu belíssimo livro Oriki orixá, publicado pela editora Perspectiva na coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos. Nesse livro, Risério apresenta aos leitores um excelente ensaio crítico e traduções de alguns desses textos orais. Ricardo Aleixo publicou orikis de sua autoria num belo livro, A roda do mundo. Ricardo Corona, Fabiano Calixto e Frederico Barbosa também escreveram bons orikis. Minha pesquisa nesse campo procura manter elementos do oriki tradicional -- os nomes e epítetos dos orixás, seus mitos, atribuições e atributos, com uma visada crítica contemporânea, incorporando temas da situação política e social do país. Todos os poemas que compõem este livro foram escritos entre fevereiro e março de 2015, com exceção do Oriki de Orunmilá, redigido em 2006. As linhas apresentadas em itálico no interior dos poemas são citações de “pontos” cantados nos rituais em diversos terreiros no Brasil. No final do volume, apresentamos um glossário com as palavras em iorubá que aparecem nos poemas.

ORIKI DE IBEJI



 













Primeiro ponto

Mamãe
me dê
cocada.

Mamãe
me dê
cuscuz.

O erê, o erê,
onde está
o erê?

Mamãe
me dê
queijada.

Mamãe
me dê
caruru.

O erê, o erê,
onde está
o erê?

Mamãe
me dê
refresco.

Mamãe
me dê
manjar.

O erê, o erê,
onde está
o erê?

Orixá Erê —
Bejiróó!

Segundo ponto

Feitiço
de orixá
Ibeji
sabe fazer.

Feitiço
de orixá
Ibeji
vai desfazer.

Feitiço
de Ibeji
ninguém
vai desfazer.

Orixá Erê —
Bejiróó!

 Terceiro ponto

Sem Ibeji
não tem
terreiro.

Sem Ibeji
não tem
axé.

Ibeji é um
e dois.

Ele ouve
os homens.

Ele ouve
os orixás.

B’eji B’eji’re
B’eji B’eji’la
B’eji B’ejiwo Iba
Omo ire Àse.

Orixá Erê —
Bejiróó!

2015

quarta-feira, 18 de março de 2015

CADERNOS BESTIAIS




















No dia 27 de março (sexta-feira), a partir das 19h, na Casa Guilherme de Almeida (rua Macapá, 187, próxima ao metrô Sumaré), estarei lançando dois novos livros de poemas -- Cadernos bestiais (volume 1, com a série de dez poemas antimídia) e Esqueletos do Nunca, e também a plaquete Gama cromática, realizada em parceria com Ana Cristina Joaquim, carimbada e impressa manualmente, publicada pela Editora Córrego. Na ocasião, haverá um recital poético com a participação de Chiu Yi Chih, Célia Abila, Maíra Varela Calixto de Freitas, Donny Correia, Edson Cruz , Gabriel Rath Kolyniak e Ana Cristina Joaquim.

AVISO: quem não reside em São Paulo pode adquirir os livros junto ao editor, pelo e-mail vendas@lummeeditor.com, ou encomendá-los na Livraria da Vila ou na Livraria Cultura.

















terça-feira, 17 de março de 2015

ORIKI DE OSSAIN


Babá Ewé
senhor-de-
todas-as-
folhas-da-
mata-
Babá Ewé
sopra-
palavras-
de-força-
em-cada-
folha-da-
mata-
Ossanhê
senhor-de-
todas-as-
flores-
da-mata-
Ossanhê
aquele-que-
canta-e-
encanta-
todos-os
cantos-
da-mata-
Obá-Offá
aquele-que-
dança-com-
uma-única-
perna-
Obá-Offá
aquele-que-
canta-e-
encanta-
com-uma-
única-perna-
Katendê
aquele-que-
come-quem-
tem-duas-
pernas.
Katendê
aquele-que-
vem-está-
vindo-já-foi
com-uma-
única-perna-
Ewé ó!

2015 

ORIKI DE EWÁ



















Primeiro ponto

Antes de a cobra
parir
Ewá já sabe.

Antes de o vento
parar
Ewá já sabe.

Antes de a unha
cair
Ewá já sabe.

Antes de o olho
cegar
Ewá já sabe.

Antes que a girafa
acasale
Ewá já sabe.

Antes de a faca
cortar
Ewá já sabe.

Ìyá Wa Yewá
o que já foi
Ewá conhece.

Ìyá Wa Yewá
o que será
Ewá conhece.

Ìyá Wa Yewá
orixá que dança
com espada e ofá.

Ìyá Wa Yewá
dança ilu
dança aguerê.

Ìyá Wa Yewá
filha-esposa
de Oxumaré.

Ri Ro Ewá!

Segundo ponto

Ìyá Wa Yewá
dona do rio
de água escura.

Ìyá Wa Yewá
dona da mata
inexplorada.

Ìyá Wa Yewá
dona da dança
inalcançável.

Ri Ro Ewá!

2015

domingo, 15 de março de 2015

SOBRE HOJE

O que está em curso no país não é apenas a tentativa de um golpe de estado para depor Dilma e empossar Michel Temer. Trata-se de uma contrarrevolução semelhante àquela que acontece na Venezuela, conduzida pela burguesia, insatisfeita com a ascensão social dos mais pobres. É uma revolta contra a inclusão social na universidade, contra a redução da fome e da miséria, contra a democratização do acesso aos serviços médicos, contra a distribuição de renda, contra a regulamentação da mídia, contra a liberdade sindical e de organização partidária, enfim: é uma guerra contra os trabalhadores. Precisamos voltar às ruas e manter um calendário de lutas, com manifestações periódicas, a nível nacional, em defesa do mandato de Dilma, da democracia e dos direitos sociais duramente conquistados. Vivemos um acirramento da luta de classes no Brasil, a situação mais delicada que o país já enfrentou desde 1964 mas NÓS VAMOS VENCER!

MASCARADOS SEM MÁSCARAS















Quem estava por trás da máscara em 2013? A burguesia branca, racista e fascista de São Paulo.

quinta-feira, 12 de março de 2015

ORIKI DE OMOLU



OMOLU

Primeiro ponto

Xapanã
tem olhos
terríveis
dança opanijé
Atotoó
Obaluaê
com sua dança
espalha seu poder

Xapanã
tem dentes
terríveis
dança opanijé
Atotoó
Obaluaê
com sua dança
espalha seu poder

Xapanã
tem poderes
terríveis
dança opanijé
Atotoó
Obaluaê
com sua dança
espalha seu poder

Xapanã
nunca mostra
o rosto
dança opanijé
Atotoó
Obaluaê
com sua dança
espalha seu poder

Xapanã
senhor de todos
os mistérios
dança opanijé
Atotoó
Obaluaê
com sua dança
espalha seu poder

Atotoó Obaluaê!

Segundo ponto

Omolu
Omolu Obaluaê
filho de Nanã
Buruku
senhor de olhos
faiscantes
fustiga o fascista
com flechas de flama
Omolu
Omolu Obaluaê
filho de Nanã
Buruku
senhor de olhos
faiscantes
cura os pobres
de todas doenças

Omolu
Omolu Obaluaê
filho de Nanã
Buruku
senhor de olhos
faiscantes
castiga os ricos
com todas doenças

Omolu
Omolu Obaluaê
filho de Nanã
Buruku
senhor de olhos
faiscantes
alivia a fome
de teus filhos

Omolu
Omolu Obaluaê
filho de Nanã
Buruku
senhor de olhos
faiscantes
multiplica a fome
dos ricos infames.

Atotoó Obaluaê!

Terceiro ponto

Obaluaê
senhor das palhas
aquele que dança
vestido de palhas

Obaluaê
senhor dos feitiços
aquele que dança
fazendo feitiços

Obaluaê
senhor dos exus
fulmina fascistas
na roda de exus

Obaluaê
senhor das caveiras
devora burgueses
da tíbia às caveiras

Obaluaê
senhor das palhas
esteja conosco
em nossa batalha.

Atotoó Obaluaê!

2015

O QUE ESTÁ ACONTECENDO NO BRASIL?





















Claudio Daniel

 O Brasil vive hoje uma situação de grave crise política. Após a vitória de Dilma Rousseff, candidata de uma coligação liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) nas eleições diretas presidenciais realizadas em 2014, setores da oposição, capitaneados pelo Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), derrotado nas urnas, promovem um movimento pelo impeachment da presidente, acusada de responsabilidade em atos de corrupção cometidos por executivos da Petrobrás, maior empresa do país e uma das maiores petroleiras do mundo. As acusações, amplamente veiculadas pelos principais jornais diários, emissoras de rádio e televisão do país, controlados por seis famílias de grandes empresários, são baseadas em delações – sem provas materiais – de ex-funcionários e diretores da empresa, entre eles Pedro Barusco, ex-gerente da corporação, que admitiu receber propinas desde 1997, quando o país era governado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB). A oposição conseguiu aprovar no Congresso Nacional – liderado, no Senado e na Câmara Federal, por parlamentares conservadores do PMDB, partido da base de sustentação de Dilma Rousseff, mas que ensaia uma composição com a bancada oposicionista – uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar atos de corrupção na empresa entre 2002 e 2014, ou seja, o período dos governos petistas, excluindo da investigação o período em que o país era governado por Cardoso.

Objetivo da oposição é tentar vincular diretamente Dilma e seu predecessor, Luís Inácio Lula da Silva, também do PT, nos atos de corrupção, para a partir daí votar no Congresso Nacional – o mais conservador desde 1964 – o impeachment da presidente, com apoio de setores reacionários do Poder Judiciário, em especial os juízes Gilmar Mendes e Rosa Weber, alinhados com o PSDB. Para reforçar essa manobra, a oposição convoca manifestações de rua para o dia 15 de março, amplamente divulgadas pelos meio de comunicação, com o objetivo de levar milhares de pessoas às ruas, em apoio ao golpe civil – similar ao realizado, em anos recentes, no Paraguai e em Honduras, que derrubaram governos de centro-esquerda. Como resposta antecipada a essa tática golpista, as centrais sindicais, entidades estudantis, de trabalhadores sem terras e sem teto, apoiados pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) convocaram atos em defesa da Petrobrás, da democracia e do mandato de Dilma para o dia 13 de marços, em todas as capitais brasileiras. A polarização é sentida na sociedade e o clima é de ansiedade, nervosismo, intolerância e medo pelos possíveis desdobramentos da situação política.

Recentemente, o procurador-geral da república, Rodrigo Janot, divulgou uma lista de nomes de parlamentares envolvidos no escândalo da Petrobrás, que inclui os nomes de Renan Calheiros, líder do Senado, e de Eduardo Cunha, presidente da Câmara Federal, ambos do PMDB, e de dezenas de políticos de diversos partidos políticos brasileiros, como o PP, PT e PSDB. Dilma Rousseff não foi citada, mas Pedro Barusco acusa – sem provas – o tesoureiro do PT de ter recebido doações ilegais na campanha presidencial de 2010, numa tentativa de envolver a presidente no escândalo. A situação é instável e os seus desdobramentos, imprevisíveis.

O fato, porém, não é isolado: há tentativas golpistas em curso também na Argentina e na Venezuela, países que, como o Brasil, possuem reservas de petróleo e estão alinhados em entidades de cooperação regional – Unasul, Mercosul, Celac – que excluem a participação dos Estados Unidos. O Brasil também integra os BRICs, ao lado da Rússia, China, Índia e África do Sul, grupo de nações emergentes que ameaça a hegemonia norte-americana, apontando para a direção de um mundo multipolar – e passos importantes de acordo com essa estratégia são a criação de um banco dos BRICs e a realização de transações comerciais em moedas locais, não mais em dólar. O pivô da crise é político e também econômico e geoestratégico.

O Brasil possui imensas reservas de pré-sal, que pela legislação vigente é explorado com a participação de capital estrangeiro sob o regime de partilha, que garante a maior parte dos lucros para o estado brasileiro, conforme regras contratuais (75% dos royalties do petróleo são destinados à educação e 25% para a saúde, segundo decreto assinado por Dilma Rousseff e aprovado no Congresso Nacional). A oposição, liderada pelo PSDB, defende a privatização da Petrobrás e o fim do regime de partilha, com a volta da concessão da exploração de nossas reservas de petróleo para as companhias internacionais – o que já foi defendido abertamente por dois senadores do PSDB, Aloysio Nunes e José Serra, que também manifestaram apoio aos protestos do dia 15 de março. As duas questões – a mobilização pelo impeachment e a articulação no Congresso pelo fim do regime de partilha e pela privatização da Petrobrás – estão intimamente ligadas. Qual será o futuro do país? Qualquer previsão realizada hoje será arbitrária e temerária, mas com certeza a correlação de forças nas ruas, nos atos chamados pela oposição e pelos apoiadores de Dilma, terá forte peso na definição desse futuro.  

Claudio Daniel é poeta, doutor em literatura portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), editor da revista Zunái e colunista da CULT.

quarta-feira, 11 de março de 2015

ORIKI DE OBÁ



Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
lutou
com Oyá
venceu
Oyá.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
lutou
com Oxalá
venceu
Oxalá.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
lutou
com Exu
venceu
Exu.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
cortou
a orelha
por intriga
d’Oxum.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
cortou
a orelha
por amor
de Oba-
Orungá.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
protege
aquele
que ama.
Obá Obá
protege
aquele
que luta.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.

Obà Siré!

2015 

segunda-feira, 9 de março de 2015

ORIKI DE IROKO


















Iroko Issó
é-menor-
do-que-a-
casca-da-
ervilha.

Iroko Issó
é-maior-
do-que-a-
sombra-
do-sol.

Iroko Issó
é-mais-sutil-
do-que-a-
curva-do-
vento.

Iroko Issó
é-mais-espesso-
do-que-o-
pêlo-da-
jumenta.

Iroko Issó
move-a-mão-
esquerda-
e-o-deserto-
vira-mar.

Iroko Issó
move-a-mão-
direita-
e-o-mar-
vira-deserto.

Irokô Issó
o-que-veio-
primeiro-
antes-do-rio-
e-da-estrela.

Irokô Issó
o-que-veio-
primeiro-
antes-da-lua-
e-da-gazela.

Irokô Issó
senhor-
do-tempo-
que-nunca-
começa.

Irokô Issó
senhor-
do-tempo-
que-nunca-
termina.

Iroko Issó!
Eró! Iroko Kissilé!

2015 

INVENTÁRIO DE ABISMOS


















Priscila Merizzio, autora jovem de Curitiba, publicou em 2014, pela editora Patuá, um livro que se destaca na poesia brasileira recente: Minimoabismo, que reúne poemas divulgados inicialmente em blogues e revistas de literatura na internet, como Germina, Mallarmargens e Zunái. A escrita poética de Priscila Merizzio situa-se num campo diverso daquele incensado por uma parcela da crítica literária, que valoriza a dicção coloquial-ingênua e a temática cotidiana, derivadas de uma releitura redutora do Modernismo. A autora curitibana joga os dados mais longe, ampliando o leque de referências temáticas e semânticas: é possível observar, em sua poesia, traços do expressionismo cruel de um Gottfried Benn (“debaixo das unhas / tenho terra de cemitério’), imagens poéticas à maneira de Lautréamont (“Piazzola é triturado por uma máquina irlandesa de chope”), a lógica da metamorfose de Herberto Helder e Roberto Piva, que modifica ou amplia o sentido das palavras (“gárgula gelatinosa”, “anca-amálgama”) e o recorte elíptico das narrativas, construídas pela sobreposição de diferentes camadas textuais, numa estética assimétrica, dissonante, excessiva. O lirismo de Priscila Merizzio é doloroso, melancólico, sem cair, porém, no sentimentalismo: a autora faz o retrato alegórico de sua própria subjetividade sem economia de recursos lúdicos e irônicos, recordando, por vezes, a língua ferina da poeta romena Aglaja Veteranyi: “o pouco de amor ao próximo que me resta / gira enlouquecido num liquidificador”; “sou feita de ossos funerários”; “meu coração: cemitério de elefantes” e ainda “filhos que não tive ou que doei ao circo”. Os personagens de seus poemas podem ser mitológicos (“Perséfone analisa / a cor da urina dos convidados”, “Netuno puxa a tampa do ralo”), históricos (“Rasputin degola o títere com um machado mongol” e “sodomiza a duquesa”), literários (“agora pulsa em meu peito / o espectro de Frankenstein”), extraídos dos contos de fadas (“Branca de Neve em nado sicronizado”), do cinema (Jane Birkin, Hitchcock, Truffaut), das ciências ocultas (Aleister Crowley) ou das artes (Paul Klee, Miles Daves), que funcionam, muitas vezes, como máscaras dramáticas da própria autora. O pastiche e a paródia são recursos frequentes nesta poesia que não faz distinção entre o repertório “culto” – jazz, cinema europeu, pintura de vanguarda – e as ressonâncias do universo poprock and roll, histórias em quadrinhos, filmes de terror. As referências ao universo zoológico são constantes em Minimoabismo (“animais de rua seguem-me como a uma andarilha”), em que encontramos moluscos, lobos, serpentes, porcos, bois, cães, jabutis, sempre nas situações mais inusitadas, em que não faltam humor, ironia e imagens monstruosas, quase surrealistas, como acontece na composição intitulada Emergências: “fêmeas de lagartos da família Teiidae / trepam com os próprios cromossomos”. O retrato crítico da realidade comparece em Minimoabismo, especialmente nos poemas que tratam da cena undergroud de Curitiba (“michês queimam crack nas araucárias”), mas nunca na forma de poemas-crônicas, que mimetizam a linguagem jornalística: Priscila Merizzio cria pequenas alegorias em que os cenários, personagens e objetos exteriores traduzem o seu desencanto com a história, pesadelo do qual James Joyce desejava acordar. Um exemplo dessa lírica cética é o poema Refúgio, em que lemos versos como este: “na abóbada / longe das trincheiras da revolução francesa / homens verdes urinam”. O timbre grotesco, teratológico, está presente inclusive nas peças de temática erótica do volume, como no curioso poema Ondina emascula Heracles, que diz em seu dístico final: “alforria rumo ao centro cirúrgico: Eva arrancando / com os próprios dentes os pomos de Adão”. A poesia corrosiva de Priscila Merizzio é um saudável antídoto à docilidade milkshake da cena contemporânea.

(Artigo de Claudio Daniel publicado na edição de março/2015 da revista CULT, na coluna RETRATO DO ARTISTA.) 

domingo, 8 de março de 2015

MISOGINIA MIDIÁTICA

FALHA de S. Paulo publica editorial, em sua edição de 07/03, criticando a proposta de lei relativa ao feminicídio, já aprovada no Congresso Nacional e que aguarda apenas ser sancionada pela presidenta Dilma Rousseff. Jornaleco de Otávio Frias Filho -- que emprestou veículos da empresa para o DOI-CODI durante o regime militar -- se esquece de que o Brasil é o sétimo país do mundo com maior índice de homicídio de mulheres, numa lista de 84 nações, crimes em geral praticados por seus parceiros. No Brasil ocorrem também cerca de 50 mil estupros anualmente, muitos dos quais seguidos de assassinato. Jornal da família de Otávio Frias Filho -- aquela que apoiou a ditadura militar -- sempre está ao lado dos opressores.

quinta-feira, 5 de março de 2015

ORIKI DE LOGUNEDÉ





















Para Gilberto Gil

Logunedé
leopardo-menino-
aquele-que-nasceu-
numa-pétala-
de-flor-
Logunedé
leopardo-menino-
beleza-preta-
senhor-de-toda-
a-beleza-
Logunedé
leopardo-menino-
filho-d’Oxum-
pesca-nas-águas-
d’Oxum-
Logunedé
leopardo-menino-
filho d’Oxóssi-
caça-nas matas-
d’Oxossi-
Logunedé
leopardo-menino-
sabe-todos-os
feitiços-
Logunedé
leopardo-menino-
sabe-feitiço-
que-mata-
Logunedé
leopardo-menino-
sabe-fetiço-
que-cura-
Logunedé
leopardo-menino-
o-que-foi-mudado-
em-cavalo-
marinho-
Logunedé
leopardo-menino-
muda-de-forma
em-todas-as-
formas-
Logunedé
leopardo-menino-
vira-lua-pavão-
e-água-do-rio-
Logunedé
leopardo-menino-
vira-onça-
poesia-estrela-
tempestade-
Logunedé
leopardo-menino-
senhor-de-todas-
as-surpesas-
Logunedé
leopardo-menino-
faz-o-baobá-
virar-formiga-
e-a-formiga-
virar-centelha-
Logunedé
leopardo-menino-
o-que-veste-saia-
no-palácio-
d’Oxum-
Logunedé
leopardo-menino-
castra-aquele-
que-estupra-
Logunedé
leopardo-menino-
protege-as-suas-
três-muitas-
rainhas-
Logunedé
leopardo-menino-
protege-todas-
as moças-
todas-as-moças-
são-rainhas-
Alaketo-ê
Ala Ni Mala
Ala Ni Mala
okê

Logun ô akofá!

2015

terça-feira, 3 de março de 2015

ORIKI DE NANÃ


















Igbá Nanã
aquela-que-vem-
vestida-de-roxo-

Igbá Nanã
aquela-que-vem-
dançando-de-roxo-

Igbá Nanã
aquela-que-vem-
vestida-de-sangue-

Igbá Nanã
aquela-que-vem-
dançando-de-sangue-

Igbá Nanã
aquela-que-leva-
-sempre-o-cajado-

Igbá Nanã
mãe-terrível-que-
nos-apavora-

Igbá Nanã
mãe-terrível-que-
nos-consola-

Igbá Nanã
aquela-que-mata-
e-come-carne-crua-

Igbá Nanã
mãe-terrível-que-
nos-apavora-

Igbá Nanã
mãe-terrível-que-
nos-consola-

Igbá Nanã
aquela-que-é-dona-
da-lagoa-escura-

Igbá Nanã
mãe-terrível-que-
nos-apavora-

Igbá Nanã
mãe-terrível-que-
nos-consola-

Igbá Nanã
aquela-que-sabe-
quem-nasce-

Igbá Nanã
aquela-que-sabe-
quem-morre-

Igbá Nanã
mãe-terrível-que-
nos-apavora-

Igbá Nanã
mãe-terrível-que-
nos-consola-

Igbá Nanã
aquela-que-
protege-o-avô-

Igbá Nanã
aquela-que-
protege-a-avó-

Igbá Nanã
mãe-terrível-que-
nos-apavora-

Igbá Nanã
mãe-terrível-que-
nos-consola-

Salubá Nanã, axé!

2015