segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

CADERNOS BESTIAIS (V)











 ANÔNIMOS
Há um louco solto na rua.

(Os livros dos uigures foram escritos para serem esquecidos.) 

Um policial pede os seus documentos.

(Há três ou quatro especialistas em língua suméria.) 

O louco entrega-lhe um tijolo.

(Uma tribo na Ásia Central escreve seus livros sagrados nos ventres de mulheres-anãs.)

O policial fica furioso porque queria um sapato.

(Um miniaturista persa escreveu um longo poema épico numa pena de faisão.)

Eles começam a discutir e logo aparece uma mulher gorda que entra na confusão.

(Sobre o que conversam as abelhas?)

O louco declara o seu amor pelos incêndios.

(Nuvens serão letras de um alfabeto cabalístico?)

O policial é apaixonado por boxeadores e telepatas.

 (Os melhores poemas ainda não foram escritos, disse para mim um asceta tuaregue.)

A mulher gorda ataca o louco com a sola de um sapato.

(Quem conhece um grande romancista da Lituânia?)

O Cinegrafista do Grande Telejornal filma todo o episódio para exibir no horário nobre.

(Há indícios de vogais e consoantes em teus pequenos lábios.)

 Logo surgem legiões de publicitários, jornaleiros e vendedores de apólices de seguros e tem início uma pancadaria.

(Poucos são capazes de ler as mensagens ocultas no interior das nozes.)

s/d

CADERNOS BESTIAIS (IV)











FIM DO MUNDO
À memória de Jakob van Hoddis

Loba ensandecida rumina vermes de escuro escárnio.
Alguém-ninguém atravessa a rua
e em todos os cantos 
ouvem-se gritos 
feito guinchos
de um porco amarelo.
Cai um aguaceiro
na cidade esquálida
e os bairros alagados atingem as estrelas. 
Banqueiros obesos caem do telhado 
e se despedaçam.
Numa placa de rua, 
lemos: cuidado.
Quase todos têm secreções nasais;
os ônibus correm nas avenidas 
a toda velocidade,
entram nos viadutos
e se chocam contra as paredes.
Todas as palavras não são mais que uma superfície de cacos de vidro à entrada de uma cidade maldita.

2014


PAISAGEM
Árvores saqueiam o arco-íris.
Três banqueiros atiram-se
ao rio e morrem afogados.
Nuvens piscam o olho para o sol,
que enfurece os dentes-de-leão.
Ninguém me oferece uma estrela.
Quando eu morrer, me enterrem
na tua voz.

2014


CADERNOS BESTIAIS (III)



















CANTIGA

Je n’était que son ombre

Tristan Tzara

Penso em você eroticamente.
Até a fabulação
de outra margem,
na estranha habitação onde os números,
pares e ímpares, enlouquecem.

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Um minúsculo leão branco habita a sua fenda.


***

a ferocidade
no limiar da noite,
quando a pele —
desmedida, irremissível,
se projeta em outra pele:
nenhum destino além do nervo tumultuário.


* * *

todas as mulheres
são tigres desenhados
em teus olhos, que se desdobram
na noite estrelada: olhos pés, olhos-mãos,
olhos-boca, olhos-peitos, olhos-nada


***
cada letra
de teu nome
tem sua própria cabeleira,
denso alfabeto que incita à iniciação
no segredo de teu Segredo.
tua sombra segue minha sombra
em cada passo mínimo.


* * *

há uma letra
em cada pétala,
mas nenhuma
para traduzir estrela.
há uma pétala em cada seio,
e um seio em cada lábio
que morde cicatrizes.


* * *

há uma cicatriz
em cada imagem que
não cala, em cada memória
que recusa o esquecimento.


* * *

porém,a delícia
de caminharmos lado a lado,
sem destino, nessa terra ignorada,
quando lagartos devoram cicatrizes.
e então, mais uma vez,
você é para mim um anjo, e eu a sua sombra.


Poema dedicado a Juliana Brittes 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

CADERNOS BESTIAIS (II)




















SERPENTINATA

I

Já que não desprezo nenhuma palavra,
encanta-me pergaminho
onde estranhos cães
da fala.


Nuvens de parietais
dizem a lavoura
obsessiva dos cutelos:


excessiva porque necessária,
investe mamífero mamífero
ante o lacerado pelo púbico


— molusco esse desprezo
que se faz habitação.


A mobilidade das estruturas aquáticas
desorienta solidez de partículas,
(numeração da língua)
desentranhadas até o

ignorado.


Cresce nas axilas,
nos limbos, cremalherias,
nos estudos para voz:
é o seu inexorável destino.


Antiesquelética nebulosa
redefine o tempo e suas cavilações
no jogo permutatório
dos contrários.


(Estes são os meus instrumentos,
minhas paisagens estratégicas
para violar tuas orelhas,
tuas cavidades,


que se recusam à minuciosa
cabala de meu olhar.)


(Encanta-me tua letra, esqueleto de meu canto,
voz que acende estranhos cães.)


A revelação está na língua
que incita ao asbesto da orgia,
à mais temporária das peles,


quando vemos pégasos de outro sonho
e nossa incapacidade de laçá-los.
  

II
estranha mulher intercambiáveis
folhas de outono
ou lâminas de aço

sem corrosão

relaminadas fina a frio,
ou apenas murmúrio
sem jardins nem quintais

só o alinhamento do corte:

o pensar do coração – alto carbono
em conformidade
com a memória – 

(nua entre fósforos acesos)

um adeus e o carboneto de vanádio
em oposição ao cromo –
decapadas, expandidas, minimizadas

palavras entre tuas perplexas peles:

a resistência mecânica do substrato aço
– retalhos, chapas, tubos, barras
e sucatas de ferrosos, para fundição

2012


sábado, 15 de novembro de 2014

CADERNOS BESTIAIS














ANTIMÍDIA X

Quelle est ma langue?

Ionesco

GRUNHE repetindo-se repetindo-se rasura ou réplica de réptil fardos que são palavras farpas de um animal samsárico (repetindo-se repetindo-se) fanhos replicantes repousada em úmeros: caveira neanderthal cor de prata sobre fundo negro (ganchos guinchos repetindo-se) horror social belphagor iniquidade: todo um catálogo de demônios repetindo-se balam belial asmodeus astaroth bicos-de-papagaio encurvados lascas de madeira na boca repicadas repicantes sobre fundo negro letras rúnicas inscritas no crânio antiesfíngicas ruminando cólera astarté ruminando Deutschland über alles, / Über alles in der Welt barão neoliberal bebe urina com os ratos na hora da gárgula na hora vermelha da gárgula na hora do maçarico quando garotos racistas de São Paulo ateiam fogo na mendiga refugos de rastilhos de rebotalhos neste açougue onde repartem carne humana Tíbias são dejetos olhos são dejetos orelhas são dejetos nesta terra de ninguém que a terra há de comer Caso esfiapasse essa pele caso esfiapasse se não fosse hidra se não fosse ira se não fosse asco se não fossem imponderáveis urros no arame da pobre diaba arpejo de pupila em seu desnudamento de planta em seu desnudamento de carne estirada em ganchos balam belial asmodeus astaroth todo um catálogo de demônios repetindo-se em guaches em guantes Tudo queima ela disse Lucidez nenhuma que os dissuadisse nesta terra de ninguém que a terra há de comer

2014














ANTIMÍDIA IX


O Diretor da Grande Revista Semanal
coleciona armas de caça austríacas,
máscaras rituais balinesas,
tapeçarias do Azerbaidjão.
Em sua casa de praia em Búzios,
preserva manuscritos (autênticos)
do Mar Morto, tânagras sumérias,
miniaturas chinesas em terracota,
uma espineta húngara.
Sua verdadeira obsessão:
cachimbos italianos do século XVIII,
pela delicadeza dos entalhes,
composição cromática e a fálica ironia
dos formatos. É incontestável (diz ele,
entre colheres de sopa de ervilha,
aromatizada pelo funcho dos Açores):
— Há corrupção nos governos do PT,
o que não houve nunca, nunca, jamais
na história deste país. Tudo isso
é obra dos Vermelhos, para solapar
as instituições. Veja o Lesbianismo
(por exemplo), o consumo de canabis,
os casamentos interraciais. A estranha
proliferação de corvos na Croácia
é resultado dos governos petistas;
a escassez do lúpulo nas Ilhas Seychelles;
as decapitações de infiéis na Síria
pelos mercenários islâmicos – tudo é culpa
do PT.  Faltou azeitona na minha empada;
as rosas crescem no canteiro dos lírios;
o monte Fuji se declarou em estado de greve
— tudo isso acontece por orientação
da Senhora Presidenta Búlgara,
do Peão Nove Dedos e do Foro de São Paulo.
O que fazer — regurgita o ignívomo —
para deter a sanha insana dos bolivarianos?
(Haveria aqui lugar para a irremissível
conjuração conspiratória, não fosse a hora
ruminante dos aspargos, o precioso instante
para um cálice de Artemisia absinthium,
esses pequenos prazeres singelos
ainda não abolidos pelo petismo-bolchevismo).

2014

















ANTIMÍDIA VIII

A Colunista do Grande Jornal Diário
equilibra-se
nos indispensáveis
saltos Christian Louboutin
para analisar os fatos políticos
com distanciamento crítico
e objetividade jornalística.
Ela é jovem, moderna, sofisticada,
usa vestidos Patrícia Bonaldi
e bolsa cor de prata Hermès
(Mercúrio é a divindade que rege
as comunicações). Em seu twitter,
dispara o último grito
dos bastidores do Congresso,
com senso de humor peculiaríssimo
e a mais apurada reflexão.
Entre um e outro gole de cherry brandy,
folheia, na revista novaiorquina,
as últimas criações de Domenico Dolce
e Stefano Gabbana, inimagináveis
nessa selva selvagem de mortos de fome.
Vivemos no pior dos mundos possíveis,
diz ao seu personal trainer,
o último círculo do ínfero Hades,
onde desfilam hordas de africanos,
índios, pederastas, crianças ramelentas,
estudantes bolcheviques. Massa mal-cheirosa,
escura, ignara, que nunca leu Paulo Coelho,
Afonso Arinos, Fernando Henrique Cardoso.
É impossível viver com essa gente,
pondera com a sua manicure ucraniana,
é preciso dividir o Brasil em bantustões,
para que a raça branca tenha um futuro possível.
Ela acredita na Divina Providência,
no Destino, nas Forças Vivas da Nação.
E aplica suavemente gotas aromáticas
(Ralph Lauren) em sua nuca,
enquanto espera pela Vinda do seu Fuhrer.

2014
   

















ANTIMÍDIA VII


O Apresentador do Grande Telejornal
sofre de terríveis
dores estomacais.
Tosse.
É impotente.
E peida muito.
O Apresentador do Grande Telejornal
tem dispnéia paroxística noturna.
É cardíaco.
Asmático.
Psicótico.
O Apresentador do Grande Telejornal
foi acometido
de taquicardia supraventricular
ou taquicardia patológica
(há divergência
entre os especialistas).
É obeso.
Diabético.
Tem tremores nas mãos.
O Apresentador do Grande Telejornal
sofre de erisipela,
eritema ab igne,
pênfigo
e dermatite herpetiforme.
O Apresentador do Grande Telejornal
tem câncer no reto.

2014

ANTIMÍDIA VI

JORNAIS APOIARAM A DITADURA MILITAR.



















ANTIMÍDIA V

Contra a entranha —
multiplica o medo
no borrão desfigurado;

unhas enegrecidas,
maxilares arrancados,
miuçalha de carcaças.

Nenhuma língua enterrada
na fossa onde caranguejos
copulam com capulhos;

mistério ou talvez corrosão
de ácidos na decapagem
para a despossessão de tudo.

Retrátil, contra teu sangue,
a exaustão do que esfiapa
o símile do pensamento.

Esta pele, tua pele, nenhuma pele:
tudo é número e o número
é legião; meu nome é legião.

2014

















ANTIMÍDIA IV

desentranha.
voz que vem da carne;
adensamento da voz
que recusa ser centaura.
desmultiplicada,
limítrofe da afasia.
no antilabirinto:
fugitiva do Limbo.
que ninguém escuta:
hermafrodita, hermafrodita.
onde queimam fetais:
é absurda, quimérica.
fala para si, solipsista,
como jargão 
de ofícios militares; 
soa tantálica, prometeica, 
como se saísse
de uma boca costurada;
como ressurgido mugido 
de um mamute siberiano.
como se não fosse nenhum
som humano.

2014












ANTIMÍDIA III

Voici le temps des assassins
Rimbaud

Qual é a palavra mais terrível
para definir
essa fragilidade,
essa corrosão?
Em qual aterro
acumulam-se,
entre estrumes,
as multifaces de Rávana?
Ferros oxidados,
oleosidade, madeiras,
feldspato;
arame retorcido,
betume,
secas cabeças
de cogumelos.
Nenhuma hipótese
de lucidez
nessa máquina
para a produção do medo;
nenhuma hipótese
além do imponderável
e sua rude sequência
de mutilações.
Jogos obscenos
como incendiar abrigos
— esta é a estranha
anatomia do precário,
cor difusa que atravessa
todas as letras da epiderme.
Pensamento-ciclope
no comando da sanha
assassina: é assim
que a sociedade de classes
decuplica o abismo em abismos,
com sua raiva infecta,
raiva refugo, raiva corroída,
que mata às cegas.

2014
















ANTIMÍDIA II

Fundo escuro
esta rua de infernais
fungos-de-papiro
onde se espraiam
corpos deformados
— Anúbis enfurecido
ante o massacre.
Tempo caveira
desenterra
escaravelhos ao contrário
onde abismais
esqueletos do nunca
fornicam trevas.
Esta é a cidade esfíngica
onde passos trilhados
ao avesso da membrana.
Esta é a cidade esfíngica
onde a desrazão
navega a insanidade.
Porco burguês.
Porca burguesa.
Chafurdam na mídia pré-histórica,
colecionando cifras.
Onde, nesse caos aritmético,
há lugar para o infinito?
(Tudo é número
nessa configuração
de lamentos:
até os fios de teu cabelo
estão contados,
e assim os anos de tua
breve trajetória.)
Mumifica a pele retesada,
em sarcófagos de cólera:
recolhidas em vasos
(canopos), tuas vísceras,
sob um céu ferruginoso
e o estrondo mudo
de uma pistola de 9mm.
Onde, nesse caos aritmético,
há lugar para o infinito?
Tua face, deserto em miniatura.
Tua voz, imagem-terracota.
Tuas mãos, alfabeto do escarro.

2014














 ANTIMÍDIA I

Tunisiano de cabeça nervurada assenhora-se
da unha mínima
da história
enfurece letras que são bichos
de um minucioso horror
quando a morte engole manápulas
e adensa paisagens-vértebras
daqueles que não têm nome daqueles que
não têm nome nenhum nada além
de ninguém
tudo é um jogo desjogado de lacraus
letras que são bichos no escuro letras que
são lepras de lorpas no escuro
tateando entre os tufos da fome tateando
entre os húmus da usura tateando entre
assemelhar-se anfíbio
assemelhar-se reptante no asco
da rachadura no asco do desvão
em que se obliteram as anfetaminas
da desmemória
linhas incisivas num crescendo menos o focinho
menos a mandíbula menos as
tíbias esmagadas no
fosso monocromático do não –
há uma caixa torácica que canta
sozinha no deserto de Mojave
onde marines enrabam desvestidas traqueias
antes de matarem qualquer coisa viva – 
dentes-de-leão ressonam numa tarde esfumada de setembro
em que um poeta (tunisiano?) soletra a sub-reptícia
sombra da vivissecção.

2014

RETRATO DO ARTISTA


O CINEMA PARA CICLOPES DE ANDREIA CARVALHO

 Andreia Carvalho pesquisa tradições mitológicas ocidentais e orientais, incorporadas em sua poesia de maneira bastante criativa, ao lado de referências das artes visuais, da música e do cinema. A escrita poética da autora curitibana revela uma sensibilidade e um imaginário que nos fazem pensar em certa poesia simbolista de Santa Catarina e do Paraná, especialmente em autores ainda não devidamente incorporados ao cânone, como Ernani Rosas (1886-1955), Dario Vellozo (1869-1937) e Gilka Machado (1893-1980), mais afeitos à dicção demoníaca de um Rimbaud e à escrita cifrada de um Mallarmé do que à suavidade melódica de Verlaine. A ressonância do inquieto signo luciferino permeia a obra da autora, especialmente em seu livro de estreia, A cortesã do infinito transparente (2011), onde encontramos inusitadas sinestesias, como estas: “Mineralizar a lágrima / Fazer-se rútilo // Vibrar além da tua sangria / Pelas ervas, pelas especiarias / Com a estatura do musgo, / dos fermentos, / do sedimento”. Em outra composição, escrita na forma do poema em prosa (gênero inaugurado por Baudelaire), lemos uma quase profissão de fé, entre imagens da mais excêntrica teratologia: “Tenho visões com miríades de seres que pulsam do imaginário. Vegetais, minerais e animais caminham pelo sangue. Entram pela retina e saem pelas mãos: letras e imagens. Depois que sangram não se sabe onde está o mineral, o vegetal e o animal. Carregam no ventre a sagrada comunhão das ossaturas fantásticas, com plasma de ninfa e sílica e olhos andróginos”. A alquimia verbal da autora prossegue em seu segundo título publicado, Camafeu escarlate (2012), que apresenta um título deliberadamente arcaico, como se ela intentasse buscar um timbre que remetesse à segunda metade do século XIX, aos insólitos logradouros onde Baudelaire e Jeanne Duval degustavam ópio ou absinto. A voluntária imersão nesse universo cultural não significa que a poesia de Andréia Carvalho seja passadista ou paródica, no sentido do pós-moderno, muito ao contrário: ela não imita formas literárias clássicas, como o soneto, não escreve versos metrificados ou rimados nem utiliza um vocabulário anacrônico, elementos visíveis na poesia de outros autores que dialogam como o simbolismo, como o carioca Alexei Bueno. Andreia Carvalho pratica, nesse conjunto de poemas, uma escrita concisa, emprega quase sempre letras em caixa baixa e elimina os sinais de pontuação, recursos frequentes nos poetas jovens mais próximos da arquitetura minimalista. No poema de abertura de Camafeu escarlate, por exemplo, lemos estas linhas: “onde estavas / quando eu / afundava a terra / no lago de nadas //na ejaculação dos signos rútilos / nos fósseis auto-retratos // não espelhos, vidros / sentenças do convalescente átrio / não arco-íris, serpente / e vitrais de escamas / a água coagulada”. Notável, nesta peça, a descrição do ausente por uma sucessão de negações, que avançam até surgir “um rosto sobre o abismo / de trevas”. A lírica da negatividade, associada aos temas da solidão, da memória, da angústia, da infância e do sonho atravessa o livro, construindo as mais inusitadas imagens e metáforas, como lemos nestas linhas: “há a criança / vermelha / no sótão coágulo / da memória / (...) / onde não volto mais / escorpiões / vagueiam pelos dentes do leão”, que nos faz pensar na fúria semântica da melhor poesia portuguesa da atualidade, a vertente hermética de um Herberto Helder, outra referência marcante na lírica da autora. Grimório de Gavita (2014), seu livro mais recente, reúne poemas em prosa escritos antes das peças que integram seus dois primeiros livros publicados e apresenta, já no título, a presença do livro de magia (grimório), associado ao nome da esposa de Cruz e Sousa, vítima da miséria e da loucura. Em todas as composições dessa obra encantatória, o registro sinestésico e metafórico e o recurso da compressão semântica (“estrela-trator”, “sapatos-de-lótus”, “dama-oriax”) criam uma quase nova língua, regida por uma lógica visual e sonora. Andreia Carvalho realiza, nesse conjunto de invocações ao lúcifer-da-linguagem, uma das obras mais perturbadoras e belas da novíssima poesia brasileira.

(Artigo publicado na edição de novembro/2014 da revista CULT.)

domingo, 26 de outubro de 2014

POEMA INÉDITO DE CLAUDIO DANIEL



UMA CHAMA QUE COMEÇA NO PUNHO[1]

(Poema para celebrar a vitória de Dilma)

I

estupor,
algo que cresce
por dentro
do punho
até as estrelas;

tinge o céu
noturno
de vermelho,

cor-
tumultuária

ou facho
de luz

com seu dialeto
açafrão,

com sua astúcia
de minério
e de flor.

II

música estranha
que invade
os ossos
e a pele,

se espraia
da nuca
aos tornozelos

COM A MAIS TONITRUANTE EUFORIA,

de fogo-fátuo
ou íbis
totêmico,

amor amarelo
ou explosão
do sol.

Claudio Daniel



[1] O título deste poema é uma linha da narrativa poética Nadja, de André Breton.  

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

COM A FORÇA DO POVO, É DILMA DE NOVO!


VAMOS COMPARAR?


REMÉDIO DE AÉCIO NEVES PARA A ECONOMIA SERÁ CATASTRÓFICO, DIZ PROFESSOR DA UNICAMP



Em artigo publicado no site Brasil Debate, o economista Eduardo Fagnani, que é professor do Instituto de Economia da Unicamp, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho (CESIT) e coordenador da rede Plataforma Política Social, diz que o remédio já divulgado por Aécio Neves (PSDB) para o Brasil será catastrófico para a economia do país.

Para ele, o conhecido “culto da austeridade” penalizou o Brasil nos anos 90 e a Europa sofre deste problema desde 2008. Fagnani também ressalta que  redução da inflação, ajuste fiscal e abertura comercial entre outros recursos da receita liberal amentarão as desigualdades sociais e o desemprego.

O professor também relembra a herança de Armínio Fraga, economista cultuado pelo PSDB e que deverá ser o ministro de Aécio Neves: “É bom lembrar aos mais jovens que Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central no segundo mandato de FHC, deixou o Brasil (2002) com inflação quase três vezes acima da meta (12,5%), juros Selic superiores a 23% ao ano, dívida líquida quase duas vezes maior que a atual (em proporção do PIB), vulnerabilidade externa preocupante (reservas cambiais equivalentes a cerca de 10% do patamar de 2014) e taxa de desemprego mais que o dobro da vigente”, anota.

Veja abaixo o artigo:

Retrocesso conservador, Estado Mínimo e “desinformados” 

A volta do Estado Mínimo é apenas um dos retrocessos previsíveis no projeto neoliberal e anti-desenvolvimentista de Aécio Neves. Não há nada mais velho e antissocial do que o enganoso “culto da austeridade”, remédio clássico seguido no Brasil dos anos de 1990 e aplicado na Europa desde 2008 com resultados catastróficos.

Política econômica e política social são faces da mesma moeda. Não há como conciliar política econômica que concentre a renda e política social que promova a inclusão social.

O projeto de Aécio Neves é neoliberal, anti-desenvolvimentista e antissocial. Armínio Fraga (ministro da Fazenda de um eventual governo do PSDB) partilha da visão de que “a atual meta de inflação é muito alta”.

Prega a redução gradativa da meta atual (4,5% ao ano), Banco Central independente, gestão ortodoxa do “tripé macroeconômico”, forte ajuste fiscal, desregulação econômica, abertura comercial e câmbio flutuante. Essa opção aprofundará as desigualdades sociais.

A redução da meta de inflação requer juros elevados (no governo FHC, atingiu mais de 40% ao ano). A primeira consequência é a recessão econômica, afetando a geração de emprego e a ampliação da renda do trabalho – a mais efetiva das políticas de inclusão social e redução da desigualdade.

O ajuste recessivo implícito ampliará o desemprego e inviabilizará o processo em curso de valorização gradual do salário mínimo, reduzindo a renda dos indivíduos, o que realimentará ciclo perverso da recessão.

A segunda consequência da alta dos juros é a explosão da dívida pública (como ocorreu nos anos de 1990, quando passou de 30% para 60% do PIB em apenas oito anos). Os gastos para pagar parte dos juros poderão retornar para patamares obscenos (chegou a 9% do PIB nos anos de 1990), exigindo ampliação do superávit primário, o que restringirá o gasto social, agravando o ajuste recessivo.

Essa receita clássica é incompatível com políticas sociais universais que garantam direitos de cidadania, cujo patamar de gastos limita o ajuste fiscal. Promessas de campanha não serão cumpridas e novas rodadas de reformas para suprimir esses direitos voltarão para o centro do debate. A única “política social” possível é a focalização nos “mais pobres”, cerne do Estado Mínimo.

Para essa corrente, o “desenvolvimento social” prescinde da geração de emprego, renda do trabalho, valorização do salário mínimo e políticas sociais universais. Sequer o crescimento da economia é necessário. Apenas políticas focalizadas são suficientes para alcançar o “bem-estar” social.

Essa suposta opção pelos pobres escamoteia o que, de fato, está por trás de objetivos tão nobres: políticas dessa natureza são funcionais para o ajuste macroeconômico ortodoxo. As almas caridosas do mercado reservam 0,5% do PIB para a promoção do “bem-estar”.

Para os adeptos do Estado Mínimo, ao Estado cabe somente cuidar da educação básica (“igualdade de oportunidades”) da população que se encontra “abaixo da linha de pobreza”, arbitrada pelos donos da riqueza. Os que “saíram da pobreza” devem buscar no mercado privado a provisão de bens e serviços de que necessitam.

Essa “estratégia única” abre as portas para a privatização e mercantilização dos serviços sociais. Não causa surpresa que um conhecido economista do PSDB defenda que a universidade pública deve ser paga.

A volta do Estado Mínimo é apenas um dos retrocessos facilmente previsíveis. Não há nada mais velho e antissocial do que o enganoso “culto da austeridade”, remédio clássico seguido no Brasil dos anos de 1990 e que está sendo aplicado na Europa desde 2008 com resultados catastróficos (na opinião de Paul Krugman, crítico insuspeito).

Tem razão o economista Ha-Joon Chang (Cambridge University) quando afirma que a “a crise financeira global de 2008 tem sido um lembrete brutal que não podemos deixar a nossa economia para economistas profissionais e outros tecnocratas.”

É bom lembrar aos mais jovens que Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central no segundo mandato de FHC, deixou o Brasil (2002) com inflação quase três vezes acima da meta (12,5%), juros Selic superiores a 23% ao ano, dívida líquida quase duas vezes maior que a atual (em proporção do PIB), vulnerabilidade externa preocupante (reservas cambiais equivalentes a cerca de 10% do patamar de 2014) e taxa de desemprego mais que o dobro da vigente.


Na primeira década do século 21, o Brasil logrou importantes progressos sociais. Os fatores determinantes para alcançar aqueles progressos foram o crescimento da economia e a melhor conjugação entre objetivos econômicos e sociais.

Após mais de duas décadas, o crescimento voltou a ter espaço na agenda macroeconômica, com consequências na impulsão do gasto social e do mercado de trabalho, bem como na potencialização dos efeitos redistributivos da Seguridade Social fruto da Constituição de 1988.

Essa melhor articulação de políticas econômicas e sociais contribuiu para a melhora dos indicadores de distribuição da renda do trabalho, mobilidade social, consumo das famílias e redução da miséria extrema.

De forma inédita, conciliou-se crescimento do PIB (e da renda per capita) com redução da desigualdade social. O Brasil saiu do Mapa da Fome e mais de 50 milhões de “desinformados” (na visão do ex-presidente FHC) deixaram a pobreza extrema.

Em suma, o que está em jogo é uma disputa entre: o retrocesso ou o aprofundamento das conquistas sociais recentes; a concentração da riqueza ou o enfrentamento das múltiplas faces da crônica questão social brasileira; os interesses dos gênios da política ou dos “desinformados”, historicamente deserdados. (Brasil Debate)

FONTE: http://cartacampinas.com.br/2014/10/para-professor-da-unicamp-remedio-de-aecio-neves-sera-catastrofico-para-a-economia/