quinta-feira, 22 de maio de 2014
domingo, 18 de maio de 2014
GRAFIA DE ASSOMBROS: A POESIA DE SIMONE HOMEM DE MELLO
Uma jornada em busca do inusitado. Ao longo do
percurso, a paisagem é retalhada, recriada, formas dispersas e caóticas são
combinadas em estranha tessitura. Distante de qualquer princípio de
linearidade, o discurso é emaranhado como um novelo, em espirais de som e
sentido. Sim: estou falando de Périplos, livro de estreia de Simone
Homem de Mello, publicado em 2005, que traz pequenas narrativas recortadas por
deslocamentos e aproximações de registros de viagens, citações e notas pessoais
que habitam o imaginário da autora, paulistana que viveu por quase duas décadas
em Berlim, onde trabalhou como tradutora e libretista de ópera. Sua voz é
elíptica, estilhaçada, tem ritmo imprevisto, beirando a prosa – o que atribui
certa vivacidade metálica aos monólogos e recitativos. A trama fabulatória, se
está distante das crônicas do cotidiano, em sua previsível banalidade,
aproxima-se do andamento e montagem de certos filmes: podemos pensar, talvez,
em algumas sequências expressionistas alemãs da década de 1920, como as
películas de Pabst, estreladas por Louise Brooks. O tecido fônico revela um
meticuloso artesanato de aliterações, assonâncias, rimas imprevistas, numa
sintaxe (fraturada) que não é abolida, mas reinventada, numa crítica do próprio
discurso. A mescla de abstração e figurativismo, de melodia e ruído, em
sucessivas camadas semânticas, indica bem a inquietação formal da autora, que
não se contenta com a rotina do dizer poético. Seus poemas longos surpreendem
pelo acabamento de estrutura, pelo encaixe pertinente de todos os elementos,
como num cubo mágico ou jogo de quebra-cabeças. Assim, por exemplo, na
composição De um postal do paraíso de Creuzfelder, extraviado nas águas do Piegnitz, um dos mais belos poemas do
livro: “À guisa da serpente, / ela seduz, sibilina, / ou simula traduzir / ao
invento (Adão atenta) / o intento do artífice. (...) / Em mímica ambígua, / diz
e dissimula, / inocula, precisa, / a dúvida, finca / a presa, desnuda / a
falácia da língua / dita adamítica”. A aparente leveza do poema, construída
pela fluência melódica e ambígua sensualidade, não oculta as referências
intertextuais, como a referência a Walter Benjamin, que no conhecido ensaio A tarefa do tradutor apresenta a hipótese de uma
suposta língua primordial ou “adamítica”. Em outra composição, mais áspera (Pas de deux), Simone Homem de Mello revela sua vocação barroquista,
filtrada pelo atonalismo: “só um corpo / dilacerado / entre objetos díspares, /
escafandros corais candelabros clásticos / máscaras de esgrima ímãs facas
vidraças / enviesado, / em híbrido jardim / de inverno, / primavera plena de
gritos óticos”. Nesta enumeração caótica, os elementos são transformados
(“jardim híbrido”, “gritos óticos”), adquirindo contornos cada vez mais
sombrios, culminando na “dor afilada a bisturi / na tatuagem forjada / sobre a
minha pele. / cicatriz / de um abismo / a dois”.
A
opacidade da linguagem
“A
trajetória poética de Simone Homem de Mello entre dois idiomas – português e
alemão – influenciou sua opção pelo ruído e pela opacidade da linguagem como
condição do fazer poético”, lemos na quarta-capa de Périplos. Esta opinião talvez
já não se sustente, ao menos em relação a seu segundo livro, Extravio marinho, publicado em
2010. O artesanato rigoroso da linguagem permanece nesta leitora de Paul Celan,
João Cabral de Melo Neto e da Poesia Concreta, mas ela já se permite a
delicadeza e o intimismo de composições como acrônico,
in loco: “o antes os traiu / tardaram nudez / vespertina / como se fosse
hoje / e ofegaram distâncias / vítreas / em seu pertencer-se siamês”. Em outra peça, de acentuada
dicção minimalista, lemos: “róseo se esquece cego / (tudo entre um cristal) /
ferido por olhos, eros / abisma-se íris, cílios / e no susto só pulso” (eros
e psiquê). A intertextualidade permanece, mas a poeta aproxima-se,
inclusive, de certo humor: “Após sete noites / (ou seria melhor contar em
luas?) / Apollinaire continua não tendo razão. / E do Sena, resta ainda rio a
correr?” (Le Pont Mirabeau,
missiva). Com sutileza e refinado controle da técnica, Simone Homem de
Mello constroi um poema de intenso lirismo, um dos mais belos do livro: “algo
-- / foi sangria, foi granizo contra o vidro, / foi grito, foi -- / o que fez
esquecer o tinteiro aberto, fez / ausente no mata-borrão / o verso / da
escrita, seu duplo / que raro: eu / rastreara / alheio aposento / em meu
próprio” (seu duplo, meu próprio). O tema do “duplo” ou doppelganger, diga-se de
passagem, é tradicional na literatura alemã e despertou a atenção de autores
tão diferentes como Gerard de Nerval, Chamisso e Jorge Luis Borges. A peça mais
ambiciosa do livro, e que se situa exatamente no final do volume, é terrenos dísticos (para poucas
vozes), em que a autora cria um barroco sutil, concentrado, em linhas
concisas e elípticas, que aglutinam lirismo e paisagem em construções insólitas
como estas linhas: “ora azul de labareda, língua / de fogo, outra cor sem corpo
/ (um azul esfumaçado, pois o esfumaçado / confere às coisas contornos mais
tênues) / (...) / prescrevera um azul de fundo / e a textura, de que adiantaria
/ o tecido índigo se intangível / como essas mãos ao alcance / de lábios e
longe leva o tormes / o que não se traduz em corpo”. Simone Homem de Mello é,
sem sombra de dúvida, uma das autoras mais talentosas da poesia brasileira
contemporânea, que venceu o desafio de superar a diluição do Modernismo para
alçar voo em direção a outros territórios poéticos.
(Artigo publicado na edição de maio da revista CULT)
DIÁRIO DE BORDO (VI)
O Brasil é o segundo maior produtor de alimentos do mundo, o
quarto maior produtor naval, o segundo maior produtor de energia hidroelétrica,
o quarto país com maior força de trabalho e a sexta maior economia do planeta.
Nossa burguesia, porém, aparece em primeiro lugar como a mais estúpida e
reacionária do mundo.
DIÁRIO DE BORDO (V)
QUAL É O PAÍS SONHADO PELA DIREITA? Um país em que os
programas de erradicação da miséria foram abolidos, com o inevitável
crescimento dos bolsões de pobreza, da fome e da evasão escolar. A culpa pela
pobreza é atribuída aos pobres. Um país em que se privilegia o mercado
financeiro em vez da produção, o combate à inflação por meio das privatizações,
do arrocho salarial, do desemprego e do fim de direitos trabalhistas, inclusive o seguro-desemprego --
"coisa de vagabundo". Um país em que as religiões afrobrasileiras
foram postas na ilegalidade, os casais gays são proibidos de manifestarem
carinho no espaço público e os negros são vítimas constantes de violência, com
a cumplicidade da polícia e do estado.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
DIÁRIO DE BORDO (IV)
A Curadoria de Literatura e Poesia do Centro Cultural São
Paulo foi criada em 2010 -- trinta anos após a inauguração do CCSP -- como
apêndice da Divisão de Bibliotecas, sem autonomia ou orçamento próprio. Eu
lutei contra isso desde o início, conquistei independência em relação às
bibliotecas e verba própria para fazer uma programação de qualidade que incluía
entrevistas na rádio web, festivais de poesia, publicação de plaquetes,
palestras, debates e recitais. Após minha saída, fiquei calado, pois não
desejava prejudicar a instituição ou eventual sucessor, mas não posso disfarçar
a tristeza ao saber que o sr. Ricardo Resende, diretor do CCSP nomeado por
Kassab e tucano de carteirinha, resolveu ressuscitar o projeto antigo, que
subordina a curadoria de literatura à Divisão de Bibliotecas. Este é um imenso
retrocesso e colabora apenas para que seja perdido o trabalho anterior numa
inexpressiva rotina burocrática. Lamentável.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
ÀS CEGAS
Voici le temps des assassins
Rimbaud
Estranha anatomia do precário.
Uma cor difusa que atravessa
todas as membranas do medo.
Pensamento-ciclope deformado
no comando da sanha assassina:
é assim que a sociedade de
classes
decuplica o abismo em abismos,
com sua raiva infecta, raiva
refugo,
raiva corroída, que mata às
cegas.
2014
quarta-feira, 7 de maio de 2014
DIÁRIO DE BORDO (III)
"No inferno os lugares mais quentes são reservados
àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise." Dante Alighieri
segunda-feira, 5 de maio de 2014
DIÁRIO DE BORDO (II)
É CLARO que já havia linchamentos e execuções, especialmente
de jovens negros, antes da declaração da jornazista CheiraNazi na televisão, em
defesa dos pitboys que espancaram e prenderam um adolescente negro em um poste,
numa imagem que recorda os antigos pelourinhos. Porém, quando uma suposta
"comunicadora" usa a mídia para "justificar" a violência, é
óbvio que isso tem consequências na sociedade. Não é possível continuarmos sem uma lei de regulamentação
de mídia, que defina critérios de conduta éticos para os meios de comunicação.
Isto não é censura, mas responsabilidade. Censura é o que já existe hoje na
mídia, em que os jornalistas são obrigados a escrever suas matérias de acordo a
opinião dos proprietários dos meios de comunicação, sem nunca ouvir o outro
lado.
DIÁRIO DE BORDO
Lula declarou, no encontro nacional do PT, que é preciso
apresentar à juventude uma "nova utopia". Concordo com ele e
acrescentaria: é preciso convocar a juventude brasileira para uma nova
Revolução Cultural, contra o racismo, o machismo, o fascismo, a homofobia e em
defesa de uma visão mais pluralista, generosa e solidária de comunidade. Que
passa, obviamente, por um projeto político. A reforma política, a
democratização do judiciário e a regulamentação da mídia são pilares essenciais
para esse projeto democrático, popular e socialista.
domingo, 4 de maio de 2014
sexta-feira, 2 de maio de 2014
EDIÇÃO ESPECIAL DE ZUNÁI, REVISTA DE POESIA & DEBATES
A edição impressa comemorativa dos dez anos da revista Zunái
pode ser solicitada à Lumme Editor pelo e-mail contato@fgranciscodossantos.com.br. O volume inclui artigos, entrevista, poemas, traduções e
contos de autores como Augusto de Campos, Wilson Bueno, Maria Esther Maciel,
Josely Vianna Baptista, Horácio Costa, Ricardo Corona, Frederico Barbosa, Abreu
Paxe, Rodrigo Garcia Lopes, Ademir Assunção, Micheliny Verunschk, Nelson de
Oliveira, Marcelino Freire, Gregory Corso, Peter Greenaway, Gerald Thomas, T.
S. Eliot, entre outros.
NOITE PALESTINA
No dia 14 de maio, a partir das 19h, acontecerá o recital
poético NOITE PALESTINA no espaço cultural Hussardos, situado na rua Araújo,
154, segundo andar, próximo à estação República do metrô. O evento, dedicado ao
povo palestino, será realizado no mês em que se rememora a NAKBA
("catástrofe" em árabe), operação de "limpeza étnica"
realizada pelas Forças Armadas de Israel entre 1948 e 1949 nos territórios
ocupados que levou 750 mil palestinos para o exílio (hoje, são cerca de 5 milhões,
proibidos pela entidade sionista de retornarem a suas terras e casas). Durante
o recital haverá o relançamento do livro POEMAS PARA A PALESTINA, organizado
por Claudio Daniel e Khaled Maahassen.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
RELATÓRIO DE GESTÃO
A Curadoria de
Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo foi criada em dezembro de 2010
com a proposta de realizar atividades de divulgação de autores brasileiros e do
cenário internacional, pautando-se pelos critérios da qualidade estética, respeito
ao pluralismo de estilos e tendências, democratização do espaço público e do
acesso à produção cultural de qualidade – todas nossas atividades são
gratuitas.
Neste sentido,
ao longo de pouco mais de três anos, realizamos recitais, palestras, debates,
performances, festivais de poesia, além do programa Poesia pra tocar no rádio
e da coleção Poesia viva, atualmente
com tiragem de três mil exemplares e distribuição gratuita ao público, nos
guichês da biblioteca e na Central de Informações do CCSP e na Casa das Rosas –
Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. Foram publicados na coleção autores
novos e consagrados, de diferentes estilos, como Armando Freitas Filho, Horácio Costa, Glauco Mattoso, Alice Ruiz S., Estrela Ruiz Leminski, Micheliny Verunschk, Donizete Galvão, Rubens Jardim, Mônica Simas, Susanna Busato, Adriana Zapparoli, Moacir Amâncio, Marceli
Andresa Becker, Luiz Ariston Dantas e Casé Lontra Marques.
Entre 2011 e
2012 realizamos 51 eventos, destacando-se o festival performático ibero-americano
2011 poetas por km2, organizado em
parceria com o Centro Cultural da Espanha e com apoio dos consulados do México
e do Peru, o espetáculo Poesia dos 4 Cantos: Noite Indiana, recital de poesia
com música e dança típicas assistido por um público de 368 pessoas, e o I Simpósio
de Ação Poética, realizado em parceria com a Casa das Rosas.
O I Simpósio
de Ação Poética reuniu 44 poetas, críticos literários, músicos e editores, que
se apresentaram em recitais, mesas de debates e apresentações artísticas, no
CCSP e na Casa das Rosas. Participaram do simpósio alguns dos mais expressivos
poetas brasileiros da atualidade, como Claudia Roquette-Pinto, Ricardo Aleixo,
Rodrigo Garcia Lopes, Ademir Assunção, Claudio Willer, Frederico Barbosa e
Ricardo Corona.
Em 2013,
mantivemos e ampliamos nossa programação regular, que inclui eventos periódicos
como o ciclo de palestras Poetas de
cabeceira, os recitais da série Poesia
dos 4 cantos (que inclui declamação, música e dança), além do ciclo Dois dedos de prosa, que trouxe ao CCSP
alguns dos mais notáveis ficcionistas brasileiros, como Evandro Affonso
Ferreira, Marcelino Freire, Luiz Ruffato, Nelson de Oliveira, Fernando Bonassi
e Marcelo Mirisola, e do programa Poesia pra tocar no rádio, realizado em
parceria com nossa rádio web, que veiculou entrevistas com poetas e músicos
como Péricles Cavalcante, Alice Ruiz, Arrigo Barnabé, Ademir Assunção, Cid Campos,
Edvaldo Santana, Ricardo Corona, Marcelo Montenegro e Rodrigo Garcia Lopes.
A Curadoria de
Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo nasceu com a vocação de
incentivar exposições e eventos de poesia visual, sonora, eletrônica,
performática e outras modalidades que exploram as novas linguagens eletrônicas,
que permitem a integração entre som, imagem, palavra e movimento, e em 2014
realizamos o I Festival Poesia Nova, que incluiu performances, leituras,
debates e a mostra VIDEOPOÉTICAS, com curadoria de Elson Fróes.
Em descomemoração
aos 50 anos do golpe civil-militar de 1964, realizamos também uma série de
atividades, incluindo palestra do sociólogo Emir Sader, debate sobre mídia e
democracia com Altamiro Borges, José Carlos Ruy e Jeosafá Fernandes, o recital Vozes da resistência e a distribuição de
panfletos poéticos. Apenas no mês de março de 2014 tivemos um público superior
a 500 pessoas, sendo que apenas o recital Poesia
dos 4 cantos: noite árabe foi assistido por 168 pessoas.
Infelizmente,
em 16 de abril de 2014 soube de minha exoneração do cargo de curador, em função
de desentendimentos administrativos. Saio do Centro Cultural São Paulo com a consciência
tranqüila de ter realizado, ao longo de 40 meses, sem secretária, assistente ou
remuneração compatível, um trabalho de qualidade e à altura do desafio que
representa uma das mais importantes instituições culturais do país e da América
Latina.
Sairei do
cargo com apenas 15 dias de salário e ¼ de décimo-terceiro, uma vez que a contratação,
não sendo em CLT, não permite que eu receba FGTS, aviso prévio ou
seguro-desemprego.
Seguirei como
professor de literatura portuguesa na UNIP, editor da Zunái e colunista da revista CULT.
Agradeço a
todos que estiveram ao meu lado ao longo dessa jornada.
Claudio Daniel
17 de abril de 2014
sábado, 5 de abril de 2014
POEMAS DE CONTADOR BORGES
DAS LEVES TORTURAS
Bata de leve com os dedos
e acorde o amor sob a pele
depois aperte com as unhas
até marcar os mamilos
com pés de pavão que dançam
em desvario para a lua
ou folhas azuis de lótus
sobre as ancas e o peito
como ensina o Kama Sutra
na arte de usar as unhas
como preciosas garras de tigre
com o polegar por baixo
fazendo o que em música
é função do baixo contínuo
e os outros para cima
comprimindo bem devagar
e depois com firmeza
até que linhas curvas
se formem no umbigo
e meias-luas reluzam
como tochas ao céu do Oriente
e por fim o corpo pareça
um jardim de hematomas
pois quem planta amor
entre dores suplanta
os espinhos da rosa
VERÃO
Aperta com força o pescoço
até sair pela boca meu cálido Oriente
pois não sei se estou vivo
de tão espumante ou morto
(esvaído?) nas areias do gozo
Não que o Fujiyama seja pequeno
ou teu empenho não o alcance
mas quem se conduz na arte
de aumentar pela dor o prazer
dos sentidos morre um pouco
Morre dsempre de não poder
morrer de uma vez mais repleto
que antes e por dissolver-se
no gozo da própria nudez
renasce como se fosse outro
E em pleno sol ou nas sombras
da tarde enquanto o vento
atravessa o verão de teus olhos
me verás tão vivo e feliz
que borboletas sairão pela boca
(Poemas do livro Augustinas & franciscanas. Bauru:
Lumme Editor, 2014)
sexta-feira, 4 de abril de 2014
POEMAS DE ANA PELUSO
Existem fatores preponderantes
para que eu pense que o mundo
é um jogo de WAR gigante
onde o exército majoritário
pertence a quem não devia
e o filho da mãe só tira seis
cinco e seis
nos dados vermelhos
e nos amarelos também
* * *
Os olhos dele
os olhos dele pareciam dois
gritos
os olhos dele pareciam dois
gritos na noite
os olhos dele pareciam dois
gritos na noite de lua cheia
e ela, sereia no dia da santa
ela, matreira de olho na santa
, cabreira sem o aval da santa
Ignora
* * *
Um Ás pirante rodopia de mão em mão
sem encontrar o seu destino
fechar uma canastra limpa
até cair em mãos canalhas
que pirando o Ás de vez
batem com um coringa
* * *
Aprendeu a empacotar o tempo
vendia em saquinhos de cinco
minutos
quando morreu,
suas vendas contabilizavam milênios
* * *
Admirei a coragem do homem que
voava
em frente ao Grand Canyon
vestido de inseto
com a esperança de um inseto
diante de um inseto
quando caiu
* * *
Eu não quero um Mercador de Sereias
para presidente
eu quero um Encantador de Serpentes
(Do livro 70 Poemas. São Paulo: Patuá, 2014.)
quarta-feira, 2 de abril de 2014
POEMAS DE MARIZE CASTRO
já vivi aqui, já morri aqui
estes destroços me reconhecem
belos rapazes sem pátria
dançam em ruínas que se erguem
sou mãe, irmã, mulher de cada um
deles
híbridos e tristes, seduzem-se
jamais esquecem:
a morte é logo
ali
* * *
lenta, ela espera
voraz, ultrapassa-se
atravessa linóleos
em céus dissolve-se
espelhos gigantes
observam
percorre o fio sem cair
um jovem vulcão ecoa
entre suas pernas
antiga mulher, qual sua oferta?
* * *
quando retornou estava velha
ao meu redor dançava quase cega
quis tudo que me pertencia
o filho que permanece em mim
o corpo que não libertei
o céu que jamais foi meu
pensei: tão louca e tão bela
qual dor lhe habita?
eu a olhava, ela me invadia
renove, renove
— repetia
(eu tão concha, ela tão éter)
invadida esqueci de qual
mais raro artefato
perdi
muito mais tarde
por amor
entre folhagens
li em distante lápíde:
Gôngula sem rota, falsa esfinge
sem asas
sempre em vigília, sempre à
margem
(Poemas do livro Habitar teu nome. Natal: Uma, 2013)
RITO DA FALA AO ESPELHO: UMA LEITURA DE RICARDO CORONA
O cinema é a
construção de uma realidade imaginada, como o sonho, que não é menos real (ou
ilusório) do que a existência cotidiana, como na parábola de Chuang Tzu. O
cinema é menos um espelho, um eco do real do que uma metáfora ou conceito do
mundo. Olhar uma cena ou paisagem, de certo modo, é inventá-la; é dar nome às
coisas, como Adão. O sujeito cria o mundo e é criado por ele. Viver é navegar
entre paradoxos, e saber quem olha, quem é visto não é o menor de todos. Estas
são as impressões que me ocorrem ao reler o livro Cinemaginário, de Ricardo Corona, publicado inicialmente em 1998 pela Iluminuras e relançado neste
ano pela Patuá. O autor é um poeta do olhar, fotógrafo de imagens raras. Assim,
por exemplo, em Ventos e uma alucinação,
talvez o melhor poema do livro: “sol tórrido no/ aljazar/ (lascas de zinco
refletindo)/ sol batendo/ no sal”. Em outra seção desta peça, mais uma jóia:
“atrás das pálpebras/ o olho dá forma ao sol/ : bola vermelha/ (um vento mantra
passa)/ a íris fosforesce/ aureolando as pupilas em brasa”. Aqui, revela-se a
influência da fanopeia de Pound e dos flashes inusitados do haicai, como em
Bashô (“a água/ escorre do teto/ pelo ninho de vespas”, na tradução de Paulo
Leminski, outra referência destacada em seu processo formativo). Ricardo Corona
não é um voyeur de paisagens
tranqüilas, mas um cultor da imagem tensa, cortante, cicatriz à flor da pele.
Em seu cinema do
imaginário, usa técnicas de cortes, closes,
montagens, como em Narayama: “põe/ a
meia-lua dos pés na mudez das pedras/ corpo e alma no chakra da encosta/ a fronte na fonte fresca/ lava a saúva das
costas”, poema inspirado no filme A
balada de Narayama, de Shohei Imamura. Vale a pena ressaltar, aqui, a presença
do cinema em outros autores que começaram a publicar na década de 1990, como
Ricardo Aleixo (Cineolho), Ademir
Assunção (Cinemitologias) e Rodrigo
Garcia Lopes (Nômada). No caso de
Ricardo Corona, a influência da linguagem fílmica mescla-se a uma miscelânea de
outras referências, tão heterogêneas como o barroco, a melopéia grega, a lírica
beat e a cultura pop. Em Ondas na lua cheia, por exemplo, a
presença do mar homérico: “A lua que tudo assiste/ agora incide/ O mar/ — sob
efeito — ergue-se/ crispado de ondas espumantes/ Sua língua de sal/ lambe e
provoca/ as escrituras da areia firme/ Ondas deslizantes/ redesenham/ onde
outras ondas ainda/ desredesenharão/ fluindo/ no fluxo/ da influência/ Sob
efeito lunar,/ o mar muda/ e a lua,/ antes toda,/ agora, mínima/ e quem com ela
muda?”. Há outros aspectos na poesia de Ricardo Corona que merecem também ser
levados em consideração: a musicalidade, de leveza própria da balada, da canção
popular, como no poema Nascem flores com
o tempo ("sentir, eu sei, tem seu preço"); as referências
mitológicas, da Grécia a Iemanjá; o uso do humor, por vezes próximo ao non sense ("meses ímpares/ de um
ano par/ que passou"); e a diversidade léxica, que inclui o uso da gíria,
do coloquial, ao lado de termos eruditos e de nomes da parafernália
tecnológica. Por vezes, Ricardo subverte mesmo o sentido usual de substantivos
e adjetivos, criando híbridos como “galáxia canibal” e “céu anfíbio”. Na
variedade de recursos e técnicas usadas neste volume, afins ao cinema e à
pintura, a colagem está presente em peças de destaque, como A lua finge mas já reflete sóis:
"lascas de zinco refletindo/ um sopro quente passa/ do solo sobe um hálito
quente/ um vento mantra passa/ o rubro horizonte nubla de repente/ um peixe
roça a pele da pedra/ a lua finge mas já reflete sóis", poema construído a
partir de versos recortados, "roubados", de outras peças do livro,
numa espécie de mini-antologia, resumo de si mesmo.
A poesia conversa com o som e a imagem
O diálogo com as artes visuais acontece de forma mais
intensa em Tortografia (2003),
trabalho realizado em parceria com a artista plástica Eliana Borges composto de
poemas visuais e caligráficos que exploram diferentes texturas, grafias e
relações entre imagem e palavra, situadas num campo experimental diverso
daquele praticado pela Poesia Concreta: há um grau maior de indeterminação,
acaso e ruído nesses trabalhos, que escapam à funcionalidade construtivista. Deusconhecido, por exemplo, é um poema
cinético composto de uma única palavra, que aparece modificada em várias
páginas, até se converter em borrão, numa voluntária abolição de som e sentido.
A radicalidade inventiva de Ricardo Corona está presente também em seu trabalho
com a dimensão sonora da palavra, registrado nos CDs Ladrão de fogo (2001) e Sonorizador
(2007), em que o poeta subverte a forma da canção, em busca de outras
possibilidades criativas, incorporando recursos da música eletrônica e das
técnicas narrativas das histórias em quadrinhos. A pesquisa de formas vivas de
comunicação poética realizada por Ricardo Corona recupera a tradição oral
xamânica, especialmente das tribos indígenas brasileiras, como verificamos na
leitura do livro Corpo sutil (2005) e
sobretudo de Curare (2011),
que faz um interessante diálogo entre o imaginário da etnia xetá e a herança
das poéticas experimentais, investindo na espacialização do texto para realçar
a oralidade, as variações rítmicas e as mudanças de dicção. Curare desconsidera as fronteiras entre
prosa e poesia e sintetiza canto, narração e intervenção pictórica, utilizando
os sinais de pontuação como se fossem inscrições rupestres. A variação
tipológica e gráfica dá movimento às sentenças no livro, pensadas como frases
sonoras de uma partitura; neste sentido, o autor potencializa o suporte livro,
explorando suas possibilidades comunicativas. Curare é – entre
outras coisas – uma reflexão sobre o livro, numa época em que as tecnologias
eletrônicas colocam esse tema na ordem do dia. Claro: não se trata de
reivindicar a morte do livro, mas sim de repensarmos o conceito e a estrutura
do objeto, levando em consideração as mudanças na sensibilidade do leitor
contemporâneo, operadas pela navegação no ciberespaço.
(Artigo publicado na edição de abril da revista CULT, na coluna RETRATO DO ARTISTA.)
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