quarta-feira, 7 de maio de 2014

DIÁRIO DE BORDO (III)


"No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise." Dante Alighieri

segunda-feira, 5 de maio de 2014

DIÁRIO DE BORDO (II)


É CLARO que já havia linchamentos e execuções, especialmente de jovens negros, antes da declaração da jornazista CheiraNazi na televisão, em defesa dos pitboys que espancaram e prenderam um adolescente negro em um poste, numa imagem que recorda os antigos pelourinhos. Porém, quando uma suposta "comunicadora" usa a mídia para "justificar" a violência, é óbvio que isso tem consequências na sociedade. Não é possível continuarmos sem uma lei de regulamentação de mídia, que defina critérios de conduta éticos para os meios de comunicação. Isto não é censura, mas responsabilidade. Censura é o que já existe hoje na mídia, em que os jornalistas são obrigados a escrever suas matérias de acordo a opinião dos proprietários dos meios de comunicação, sem nunca ouvir o outro lado.

DIÁRIO DE BORDO


Lula declarou, no encontro nacional do PT, que é preciso apresentar à juventude uma "nova utopia". Concordo com ele e acrescentaria: é preciso convocar a juventude brasileira para uma nova Revolução Cultural, contra o racismo, o machismo, o fascismo, a homofobia e em defesa de uma visão mais pluralista, generosa e solidária de comunidade. Que passa, obviamente, por um projeto político. A reforma política, a democratização do judiciário e a regulamentação da mídia são pilares essenciais para esse projeto democrático, popular e socialista.

domingo, 4 de maio de 2014

sexta-feira, 2 de maio de 2014

EDIÇÃO ESPECIAL DE ZUNÁI, REVISTA DE POESIA & DEBATES



A edição impressa comemorativa dos dez anos da revista Zunái pode ser solicitada à Lumme Editor pelo e-mail contato@fgranciscodossantos.com.brO volume inclui artigos, entrevista, poemas, traduções e contos de autores como Augusto de Campos, Wilson Bueno, Maria Esther Maciel, Josely Vianna Baptista, Horácio Costa, Ricardo Corona, Frederico Barbosa, Abreu Paxe, Rodrigo Garcia Lopes, Ademir Assunção, Micheliny Verunschk, Nelson de Oliveira, Marcelino Freire, Gregory Corso, Peter Greenaway, Gerald Thomas, T. S. Eliot, entre outros.

NOITE PALESTINA


No dia 14 de maio, a partir das 19h, acontecerá o recital poético NOITE PALESTINA no espaço cultural Hussardos, situado na rua Araújo, 154, segundo andar, próximo à estação República do metrô. O evento, dedicado ao povo palestino, será realizado no mês em que se rememora a NAKBA ("catástrofe" em árabe), operação de "limpeza étnica" realizada pelas Forças Armadas de Israel entre 1948 e 1949 nos territórios ocupados que levou 750 mil palestinos para o exílio (hoje, são cerca de 5 milhões, proibidos pela entidade sionista de retornarem a suas terras e casas). Durante o recital haverá o relançamento do livro POEMAS PARA A PALESTINA, organizado por Claudio Daniel e Khaled Maahassen. 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

RELATÓRIO DE GESTÃO


A Curadoria de Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo foi criada em dezembro de 2010 com a proposta de realizar atividades de divulgação de autores brasileiros e do cenário internacional, pautando-se pelos critérios da qualidade estética, respeito ao pluralismo de estilos e tendências, democratização do espaço público e do acesso à produção cultural de qualidade – todas nossas atividades são gratuitas.

Neste sentido, ao longo de pouco mais de três anos, realizamos recitais, palestras, debates, performances, festivais de poesia, além do programa Poesia pra tocar no rádio e da coleção Poesia viva, atualmente com tiragem de três mil exemplares e distribuição gratuita ao público, nos guichês da biblioteca e na Central de Informações do CCSP e na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. Foram publicados na coleção autores novos e consagrados, de diferentes estilos, como Armando Freitas Filho, Horácio Costa, Glauco Mattoso, Alice Ruiz S., Estrela Ruiz Leminski, Micheliny Verunschk, Donizete Galvão, Rubens Jardim, Mônica Simas, Susanna Busato, Adriana Zapparoli, Moacir Amâncio, Marceli Andresa Becker, Luiz Ariston Dantas e Casé Lontra Marques.

Entre 2011 e 2012 realizamos 51 eventos, destacando-se o festival performático ibero-americano 2011 poetas por km2, organizado em parceria com o Centro Cultural da Espanha e com apoio dos consulados do México e do Peru, o espetáculo Poesia dos 4 Cantos: Noite Indiana, recital de poesia com música e dança típicas assistido por um público de 368 pessoas, e o I Simpósio de Ação Poética, realizado em parceria com a Casa das Rosas.

O I Simpósio de Ação Poética reuniu 44 poetas, críticos literários, músicos e editores, que se apresentaram em recitais, mesas de debates e apresentações artísticas, no CCSP e na Casa das Rosas. Participaram do simpósio alguns dos mais expressivos poetas brasileiros da atualidade, como Claudia Roquette-Pinto, Ricardo Aleixo, Rodrigo Garcia Lopes, Ademir Assunção, Claudio Willer, Frederico Barbosa e Ricardo Corona.

Em 2013, mantivemos e ampliamos nossa programação regular, que inclui eventos periódicos como o ciclo de palestras Poetas de cabeceira, os recitais da série Poesia dos 4 cantos (que inclui declamação, música e dança), além do ciclo Dois dedos de prosa, que trouxe ao CCSP alguns dos mais notáveis ficcionistas brasileiros, como Evandro Affonso Ferreira, Marcelino Freire, Luiz Ruffato, Nelson de Oliveira, Fernando Bonassi e Marcelo Mirisola, e do programa Poesia pra tocar no rádio, realizado em parceria com nossa rádio web, que veiculou entrevistas com poetas e músicos como Péricles Cavalcante, Alice Ruiz, Arrigo Barnabé, Ademir Assunção, Cid Campos, Edvaldo Santana, Ricardo Corona, Marcelo Montenegro e Rodrigo Garcia Lopes.

A Curadoria de Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo nasceu com a vocação de incentivar exposições e eventos de poesia visual, sonora, eletrônica, performática e outras modalidades que exploram as novas linguagens eletrônicas, que permitem a integração entre som, imagem, palavra e movimento, e em 2014 realizamos o I Festival Poesia Nova, que incluiu performances, leituras, debates e a mostra VIDEOPOÉTICAS, com curadoria de Elson Fróes.

Em descomemoração aos 50 anos do golpe civil-militar de 1964, realizamos também uma série de atividades, incluindo palestra do sociólogo Emir Sader, debate sobre mídia e democracia com Altamiro Borges, José Carlos Ruy e Jeosafá Fernandes, o recital Vozes da resistência e a distribuição de panfletos poéticos. Apenas no mês de março de 2014 tivemos um público superior a 500 pessoas, sendo que apenas o recital Poesia dos 4 cantos: noite árabe foi assistido por 168 pessoas.  

Infelizmente, em 16 de abril de 2014 soube de minha exoneração do cargo de curador, em função de desentendimentos administrativos. Saio do Centro Cultural São Paulo com a consciência tranqüila de ter realizado, ao longo de 40 meses, sem secretária, assistente ou remuneração compatível, um trabalho de qualidade e à altura do desafio que representa uma das mais importantes instituições culturais do país e da América Latina.

Sairei do cargo com apenas 15 dias de salário e ¼ de décimo-terceiro, uma vez que a contratação, não sendo em CLT, não permite que eu receba FGTS, aviso prévio ou seguro-desemprego.

Seguirei como professor de literatura portuguesa na UNIP, editor da Zunái e colunista da revista CULT.

Agradeço a todos que estiveram ao meu lado ao longo dessa jornada.

Claudio Daniel

17 de abril de 2014

         

sábado, 5 de abril de 2014

POEMAS DE CONTADOR BORGES


DAS LEVES TORTURAS

Bata de leve com os dedos
e acorde o amor sob a pele
depois aperte com as unhas
até marcar os mamilos
com pés de pavão que dançam
em desvario para a lua
ou folhas azuis de lótus
sobre as ancas e o peito
como ensina o Kama Sutra
na arte de usar as unhas
como preciosas garras de tigre
com o polegar por baixo
fazendo o que em música
é função do baixo contínuo
e os outros para cima
comprimindo bem devagar
e depois com firmeza
até que linhas curvas
se formem no umbigo
e meias-luas reluzam
como tochas ao céu do Oriente
e por fim o corpo pareça
um jardim de hematomas
pois quem planta amor
entre dores suplanta
os espinhos da rosa


VERÃO

Aperta com força o pescoço
até sair pela boca meu cálido Oriente
pois não sei se estou vivo
de tão espumante ou morto
(esvaído?) nas areias do gozo

Não que o Fujiyama seja pequeno
ou teu empenho não o alcance
mas quem se conduz na arte
de aumentar pela dor o prazer
dos sentidos morre um pouco

Morre dsempre de não poder
morrer de uma vez mais repleto
que antes e por dissolver-se
no gozo da própria nudez
renasce como se fosse outro

E em pleno sol ou nas sombras
da tarde enquanto o vento
atravessa o verão de teus olhos
me verás tão vivo e feliz
que borboletas sairão pela boca

(Poemas do livro Augustinas & franciscanas. Bauru: Lumme Editor, 2014)

sexta-feira, 4 de abril de 2014

GALERIA: DZIGA VERTOV (IV)


POEMAS DE ANA PELUSO


Existem fatores preponderantes
para que eu pense que o mundo
é um jogo de WAR gigante
onde o exército majoritário
pertence a quem não devia
e o filho da mãe só tira seis
cinco e seis
nos dados vermelhos
e nos amarelos também


* * *

Os olhos dele
os olhos dele pareciam dois gritos
os olhos dele pareciam dois gritos na noite
os olhos dele pareciam dois gritos na noite de lua cheia
e ela, sereia no dia da santa
ela, matreira de olho na santa
, cabreira sem o aval da santa
Ignora


* * *

Um Ás pirante rodopia de mão em mão
sem encontrar o seu destino
fechar uma canastra limpa

até cair em mãos canalhas
que pirando o Ás de vez
batem com um coringa


* * *

Aprendeu a empacotar o tempo
vendia em saquinhos de cinco minutos
quando morreu,
suas vendas contabilizavam milênios

* * *

Admirei a coragem do homem que voava
em frente ao Grand Canyon
vestido de inseto
com a esperança de um inseto
diante de um inseto
quando caiu

* * *

Eu não quero um Mercador de Sereias
para presidente
eu quero um Encantador de Serpentes


(Do livro 70 Poemas. São Paulo: Patuá, 2014.)

quarta-feira, 2 de abril de 2014

GALERIA: DZIGA VERTOV (III)


POEMAS DE MARIZE CASTRO

  
já vivi aqui, já morri aqui
estes destroços me reconhecem

belos rapazes sem pátria
dançam em ruínas que se erguem

sou mãe, irmã, mulher de cada um deles
híbridos e tristes, seduzem-se

jamais esquecem:
a morte é logo
ali


* * *

lenta, ela espera
voraz, ultrapassa-se

atravessa linóleos
em céus dissolve-se

espelhos gigantes
observam

percorre o fio sem cair

um jovem vulcão ecoa
entre suas pernas

antiga mulher, qual sua oferta?


* * *

quando retornou estava velha
ao meu redor dançava quase cega

quis tudo que me pertencia

o filho que permanece em mim
o corpo que não libertei
o céu que jamais foi meu

pensei: tão louca e tão bela
qual dor lhe habita?

eu a olhava, ela me invadia
renove, renove
— repetia

(eu tão concha, ela tão éter)

invadida esqueci de qual
mais raro artefato
perdi

muito mais tarde
por amor
entre folhagens
li em distante lápíde:

Gôngula sem rota, falsa esfinge sem asas
sempre em vigília, sempre à margem



(Poemas do livro Habitar teu nome. Natal: Uma, 2013)

RITO DA FALA AO ESPELHO: UMA LEITURA DE RICARDO CORONA


O cinema é a construção de uma realidade imaginada, como o sonho, que não é menos real (ou ilusório) do que a existência cotidiana, como na parábola de Chuang Tzu. O cinema é menos um espelho, um eco do real do que uma metáfora ou conceito do mundo. Olhar uma cena ou paisagem, de certo modo, é inventá-la; é dar nome às coisas, como Adão. O sujeito cria o mundo e é criado por ele. Viver é navegar entre paradoxos, e saber quem olha, quem é visto não é o menor de todos. Estas são as impressões que me ocorrem ao reler o livro Cinemaginário, de Ricardo Corona, publicado inicialmente em 1998 pela Iluminuras e relançado neste ano pela Patuá. O autor é um poeta do olhar, fotógrafo de imagens raras. Assim, por exemplo, em Ventos e uma alucinação, talvez o melhor poema do livro: “sol tórrido no/ aljazar/ (lascas de zinco refletindo)/ sol batendo/ no sal”. Em outra seção desta peça, mais uma jóia: “atrás das pálpebras/ o olho dá forma ao sol/ : bola vermelha/ (um vento mantra passa)/ a íris fosforesce/ aureolando as pupilas em brasa”. Aqui, revela-se a influência da fanopeia de Pound e dos flashes inusitados do haicai, como em Bashô (“a água/ escorre do teto/ pelo ninho de vespas”, na tradução de Paulo Leminski, outra referência destacada em seu processo formativo). Ricardo Corona não é um voyeur de paisagens tranqüilas, mas um cultor da imagem tensa, cortante, cicatriz à flor da pele.

Em seu cinema do imaginário, usa técnicas de cortes, closes, montagens, como em Narayama: “põe/ a meia-lua dos pés na mudez das pedras/ corpo e alma no chakra da encosta/ a fronte na fonte fresca/ lava a saúva das costas”, poema inspirado no filme A balada de Narayama, de Shohei Imamura. Vale a pena ressaltar, aqui, a presença do cinema em outros autores que começaram a publicar na década de 1990, como Ricardo Aleixo (Cineolho), Ademir Assunção (Cinemitologias) e Rodrigo Garcia Lopes (Nômada). No caso de Ricardo Corona, a influência da linguagem fílmica mescla-se a uma miscelânea de outras referências, tão heterogêneas como o barroco, a melopéia grega, a lírica beat e a cultura pop. Em Ondas na lua cheia, por exemplo, a presença do mar homérico: “A lua que tudo assiste/ agora incide/ O mar/ — sob efeito — ergue-se/ crispado de ondas espumantes/ Sua língua de sal/ lambe e provoca/ as escrituras da areia firme/ Ondas deslizantes/ redesenham/ onde outras ondas ainda/ desredesenharão/ fluindo/ no fluxo/ da influência/ Sob efeito lunar,/ o mar muda/ e a lua,/ antes toda,/ agora, mínima/ e quem com ela muda?”. Há outros aspectos na poesia de Ricardo Corona que merecem também ser levados em consideração: a musicalidade, de leveza própria da balada, da canção popular, como no poema Nascem flores com o tempo ("sentir, eu sei, tem seu preço"); as referências mitológicas, da Grécia a Iemanjá; o uso do humor, por vezes próximo ao non sense ("meses ímpares/ de um ano par/ que passou"); e a diversidade léxica, que inclui o uso da gíria, do coloquial, ao lado de termos eruditos e de nomes da parafernália tecnológica. Por vezes, Ricardo subverte mesmo o sentido usual de substantivos e adjetivos, criando híbridos como “galáxia canibal” e “céu anfíbio”. Na variedade de recursos e técnicas usadas neste volume, afins ao cinema e à pintura, a colagem está presente em peças de destaque, como A lua finge mas já reflete sóis: "lascas de zinco refletindo/ um sopro quente passa/ do solo sobe um hálito quente/ um vento mantra passa/ o rubro horizonte nubla de repente/ um peixe roça a pele da pedra/ a lua finge mas já reflete sóis", poema construído a partir de versos recortados, "roubados", de outras peças do livro, numa espécie de mini-antologia, resumo de si mesmo. 

A poesia conversa com o som e a imagem
O diálogo com as artes visuais acontece de forma mais intensa em Tortografia (2003), trabalho realizado em parceria com a artista plástica Eliana Borges composto de poemas visuais e caligráficos que exploram diferentes texturas, grafias e relações entre imagem e palavra, situadas num campo experimental diverso daquele praticado pela Poesia Concreta: há um grau maior de indeterminação, acaso e ruído nesses trabalhos, que escapam à funcionalidade construtivista. Deusconhecido, por exemplo, é um poema cinético composto de uma única palavra, que aparece modificada em várias páginas, até se converter em borrão, numa voluntária abolição de som e sentido. A radicalidade inventiva de Ricardo Corona está presente também em seu trabalho com a dimensão sonora da palavra, registrado nos CDs Ladrão de fogo (2001) e Sonorizador (2007), em que o poeta subverte a forma da canção, em busca de outras possibilidades criativas, incorporando recursos da música eletrônica e das técnicas narrativas das histórias em quadrinhos. A pesquisa de formas vivas de comunicação poética realizada por Ricardo Corona recupera a tradição oral xamânica, especialmente das tribos indígenas brasileiras, como verificamos na leitura do livro Corpo sutil (2005) e sobretudo de Curare (2011), que faz um interessante diálogo entre o imaginário da etnia xetá e a herança das poéticas experimentais, investindo na espacialização do texto para realçar a oralidade, as variações rítmicas e as mudanças de dicção. Curare desconsidera as fronteiras entre prosa e poesia e sintetiza canto, narração e intervenção pictórica, utilizando os sinais de pontuação como se fossem inscrições rupestres. A variação tipológica e gráfica dá movimento às sentenças no livro, pensadas como frases sonoras de uma partitura; neste sentido, o autor potencializa o suporte livro, explorando suas possibilidades comunicativas. Curare é – entre outras coisas – uma reflexão sobre o livro, numa época em que as tecnologias eletrônicas colocam esse tema na ordem do dia. Claro: não se trata de reivindicar a morte do livro, mas sim de repensarmos o conceito e a estrutura do objeto, levando em consideração as mudanças na sensibilidade do leitor contemporâneo, operadas pela navegação no ciberespaço.
(Artigo publicado na edição de abril da revista CULT, na coluna RETRATO DO ARTISTA.)

domingo, 30 de março de 2014

GALERIA: DZIGA VERTOV (II)


POEMAS DE ARTURO GAMERO


As unhas crescendo na parede
das casas, os pássaros saindo
pela boca com o sexo das
sombras tocando
na vidraça,
a urina nas cadeiras
penduradas pelo entardecer.


* * *


Eu toco a página do livro com a
mão e a aridez do pensamento
dobrando seus espelhos
é o barulho do ar
batendo nas palavras.



* * *


A palavra escava a madeira,
entra na água, relâmpago enterrado no
ar castanho, palmas esculpidas,
banho de osso e lentamente extrai
a dádiva dos seios macilentos, ímã
dos fogos assimétricos. Vozes mer-
gulhadas mansamente no amarelo.



* * *


áspera do amor roendo a carne
numa liturgia de naufrágios mer-
gulha a cama nas paredes, janelas
penduradas como um paraíso.


* * *


Dissecar a pedra, o sopro, aperta
o labirinto de um único erspelho.



(Poemas do livro Favo. Bauru: Lumme Editor, 2013)

GALERIA: DZIGA VERTOV (I)


POEMAS DE ADALBERTO DE OLIVEIRA SOUZA


QUASE SEMPRE

rematando calúnias e possibilidades


dela não se sabe o vil calendário


que a move


avidamente


METAMORFOSES


Muito escapa.



Pouco se livra.



Muito subtrai-se.



Tudo se esvai.


AGORA

Um zumbido estridente chegou a uma distância
considerável.



VEJO AS PAISAGENS

e, no entanto,
não é do mesmo modo
que acontece.


FATO

De qualquer forma,
sabe-se do ocorrido,
pode-se opinar ou
não.


MEUS OUVIDOS AINDA CHEIOS DE SUA VOZ

Em companhia, a alegria cinzenta do rosto.


A eterna presença sem enigma.


 (Poemas do livro Corrosão. São Paulo: Maçã de vidro edições, 2014)

sexta-feira, 28 de março de 2014

OS DISFARCES DO TEMPO NA LÍRICA DE NINA RIZZI



A duração do deserto, de Nina Rizzi (São Paulo: Patuá, 2014), lançado recentemente no I Festival Poesia Nova, realizado no Centro Cultural São Paulo, é o segundo título da autora, que reside em Fortaleza e também publicou Tambores pra n’zinga (Rio de Janeiro: Multifoco, 2012). Em ambos volumes, a lírica narrativa de matiz modernista soma-se a outras referências, como a fotografia, o cinema, a estética do fragmento e a cultura afrobrasileira (“as coisas continuam a me morrer / do barro se seca água, um todo imóvel, vodun”, lemos na composição candomblé pra nanã). Neste segundo livro, o leque é ainda mais plural, incorporando, de maneira bastante pessoal, ecos do futurismo russo e da paisagem expressionista, poemas construídos na forma de e-mail e casidas que dialogam com Federico Garcia Lorca. Todas essas referências revelam uma poeta culta, que dialoga com a tradição literária e os temas culturais, porém, sem afetação acadêmica ou pretensão erudita: o intertexto, na poesia de Nina Rizzzi, é um índice sentimental, uma pista da relação amorosa com o seu repertório de afinidades eletivas e uma exteriorização de seu imaginário, que dispensa citações e notas de rodapé. A voz da autora é lúdica e quase sempre com um timbre bem-humorado, irreverente, embora seja capaz também da solenidade da elegia, como no poema Na estrada de Sintra, dedicado ao jovem poeta Raul Macedo, falecido num desastre de automóvel.

A diversidade de estilemas, temas e timbres de A duração do deserto faz pensar – a princípio – na ausência de um foco narrativo, de uma unidade estrutural, mas a impressão se desfaz após uma convivência maior com esses poemas, que podem ser lidos como um diário cujo leitmotiv é o tempo, explícito já no título da obra.  A anotação epistolar (além do diário, podemos notar aqui a presença da carta, do e-mail) é mais evidente nos poemas lacônicos, que assumem por vezes a forma de dístico, como nesta composição: “lançar meu corpo ao cimo / e alcançar teu nome, abismo” (poema impossível, dionises variegada), um dos mais belos do volume, ou ainda nesta peça, que justifica o título da obra: “água e sal são meus olhos, / deserto é te esperar” (te amar, assombro). Impossível não recordar a microlírica de Safo, a poeta de Lesbos, especialmente a Safo dos poemas mais condensados, como este: “A lua já se pôs, / as Plêiades também: / meia-noite; foge o tempo, / e estou deitada sozinha” (tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos).

Em outra peça, a imagética surpreende o leitor como uma fotografia de Man Ray: “era uma vez uma folha atrás da orelha: / a pedra e a fala, araruama / toró, olvido” (cantilena). Simplicidade, economia verbal, imagens inusitadas de alto impacto. Assim também nesta peça: “solidão tem tamanho não, sinhô / vem da terra que a corcunda põe a olhar / até a única cor que não alcança o céu / azul” (solo pra rabeca e trompete). Os poemas mais ambiciosos do livro, porém, são os mais longos: Escrita aos ímpares (“Pedra ontem, pedra hoje e nunca”) e Contrapoema ao homem de meu tempo (“o homem do meu tempo em se punir, manso, me estrangula e ri”), que remete ao lirismo de Carlos Drummond de Andrade, ao mesmo tempo individual e cósmico. A poesia de Nina Rizzzi é um palimpsesto onde, camada após camada, lemos os diferentes disfarces assumidos pelo cruel deus do Tempo.

A FÁBULA DISSONANTE DE DELMO MONTENEGRO




Recife no hay, de Delmo Montenegro (Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 2013), uma das obras vencedoras do I Prêmio Pernambuco de Literatura, é o terceiro título publicado do autor, que lançou também Os jogadores de cartas, em 2003, e Ciao cadáver, em 2005. Nesta nova obra, o autor pernambucano investe ainda mais na ironia, no sarcasmo, no humor negro, já presentes em seus livros anteriores, com língua ferina e precisa: “poetas são como / dinossauros / todos vão ser extintos / de uma hora / pra outra, todos / sem exceção”. Desafiando o lirismo, Delmo Montenegro cria uma dicção anarcopunk, habitada por pesadelos de Salvador Dali ou fantasmas de Franz Kafka: “vamos para a praia dos nervos / para as geleiras / infames / desossar orquídeas / montar na prancha dos assassinos / o grande / kahuna / espera / por / nós”. A linguagem concisa, recortada, com a incorporação do espaço em branco da página e a utilização dos sinais de pontuação como elementos rupestres leva-nos a pensar na influência da Poesia Concreta (mais evidente em Ciao cadáver), mas a construção de metáforas crítico-irônicas como “necrose de corais”, “intelectuais sifilíticos”, “clitóris vermelho / flamingo-fogo” aproximam-se de uma outra vertente da poesia brasileira, aquela freqüentada por transgressores como Roberto Piva, Glauco Mattoso e Sebastião Nunes. A divisão espacial das palavras e linhas, nos poemas de Delmo Montenegro, não é apenas uma elaboração visual, mas funciona como a notação em uma partitura musical, indicando pausas, ênfases, mudanças de timbre, que se materializam na oralização. A dimensão sonora é justamente o aspecto mais elaborado nesse livro de poemas, que se destaca na produção pernambucana contemporânea pela ousadia e criatividade – presente também nas obras de poetas como Micheliny Verunschk, Bruno Monteiro, Fábio Andrade, para citarmos poucos nomes (um panorama abrangente da nova poesia pernambucana pode ser consultado nos dois volumes da antologia Invenção Recife, organizada pelo próprio Delmo, em parceria com Pietro Wagner). Por fim – ao menos, nesta nota breve – um outro aspecto que chama a antenção, em Recife no hay, são as narrativas poéticas, a meio fio entre a fabulação e o canto dissonante, como por exemplo nesta peça, de alto impacto: “sim, seremos amantes / solte sua voz / valvulada / durma comigo / seja meu cadáver esta noite / depois / ponha / os cílios postiços / e / desapareça / sem amor, sem paradas cardíacas / sejamos / apenas / dóceis animais empalhados / -- ouça agora, revolva agora -- / meu / nome /é / cão / -- abra meu zíper // / palhas”.