Lula declarou, no encontro nacional do PT, que é preciso
apresentar à juventude uma "nova utopia". Concordo com ele e
acrescentaria: é preciso convocar a juventude brasileira para uma nova
Revolução Cultural, contra o racismo, o machismo, o fascismo, a homofobia e em
defesa de uma visão mais pluralista, generosa e solidária de comunidade. Que
passa, obviamente, por um projeto político. A reforma política, a
democratização do judiciário e a regulamentação da mídia são pilares essenciais
para esse projeto democrático, popular e socialista.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
domingo, 4 de maio de 2014
sexta-feira, 2 de maio de 2014
EDIÇÃO ESPECIAL DE ZUNÁI, REVISTA DE POESIA & DEBATES
A edição impressa comemorativa dos dez anos da revista Zunái
pode ser solicitada à Lumme Editor pelo e-mail contato@fgranciscodossantos.com.br. O volume inclui artigos, entrevista, poemas, traduções e
contos de autores como Augusto de Campos, Wilson Bueno, Maria Esther Maciel,
Josely Vianna Baptista, Horácio Costa, Ricardo Corona, Frederico Barbosa, Abreu
Paxe, Rodrigo Garcia Lopes, Ademir Assunção, Micheliny Verunschk, Nelson de
Oliveira, Marcelino Freire, Gregory Corso, Peter Greenaway, Gerald Thomas, T.
S. Eliot, entre outros.
NOITE PALESTINA
No dia 14 de maio, a partir das 19h, acontecerá o recital
poético NOITE PALESTINA no espaço cultural Hussardos, situado na rua Araújo,
154, segundo andar, próximo à estação República do metrô. O evento, dedicado ao
povo palestino, será realizado no mês em que se rememora a NAKBA
("catástrofe" em árabe), operação de "limpeza étnica"
realizada pelas Forças Armadas de Israel entre 1948 e 1949 nos territórios
ocupados que levou 750 mil palestinos para o exílio (hoje, são cerca de 5 milhões,
proibidos pela entidade sionista de retornarem a suas terras e casas). Durante
o recital haverá o relançamento do livro POEMAS PARA A PALESTINA, organizado
por Claudio Daniel e Khaled Maahassen.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
RELATÓRIO DE GESTÃO
A Curadoria de
Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo foi criada em dezembro de 2010
com a proposta de realizar atividades de divulgação de autores brasileiros e do
cenário internacional, pautando-se pelos critérios da qualidade estética, respeito
ao pluralismo de estilos e tendências, democratização do espaço público e do
acesso à produção cultural de qualidade – todas nossas atividades são
gratuitas.
Neste sentido,
ao longo de pouco mais de três anos, realizamos recitais, palestras, debates,
performances, festivais de poesia, além do programa Poesia pra tocar no rádio
e da coleção Poesia viva, atualmente
com tiragem de três mil exemplares e distribuição gratuita ao público, nos
guichês da biblioteca e na Central de Informações do CCSP e na Casa das Rosas –
Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. Foram publicados na coleção autores
novos e consagrados, de diferentes estilos, como Armando Freitas Filho, Horácio Costa, Glauco Mattoso, Alice Ruiz S., Estrela Ruiz Leminski, Micheliny Verunschk, Donizete Galvão, Rubens Jardim, Mônica Simas, Susanna Busato, Adriana Zapparoli, Moacir Amâncio, Marceli
Andresa Becker, Luiz Ariston Dantas e Casé Lontra Marques.
Entre 2011 e
2012 realizamos 51 eventos, destacando-se o festival performático ibero-americano
2011 poetas por km2, organizado em
parceria com o Centro Cultural da Espanha e com apoio dos consulados do México
e do Peru, o espetáculo Poesia dos 4 Cantos: Noite Indiana, recital de poesia
com música e dança típicas assistido por um público de 368 pessoas, e o I Simpósio
de Ação Poética, realizado em parceria com a Casa das Rosas.
O I Simpósio
de Ação Poética reuniu 44 poetas, críticos literários, músicos e editores, que
se apresentaram em recitais, mesas de debates e apresentações artísticas, no
CCSP e na Casa das Rosas. Participaram do simpósio alguns dos mais expressivos
poetas brasileiros da atualidade, como Claudia Roquette-Pinto, Ricardo Aleixo,
Rodrigo Garcia Lopes, Ademir Assunção, Claudio Willer, Frederico Barbosa e
Ricardo Corona.
Em 2013,
mantivemos e ampliamos nossa programação regular, que inclui eventos periódicos
como o ciclo de palestras Poetas de
cabeceira, os recitais da série Poesia
dos 4 cantos (que inclui declamação, música e dança), além do ciclo Dois dedos de prosa, que trouxe ao CCSP
alguns dos mais notáveis ficcionistas brasileiros, como Evandro Affonso
Ferreira, Marcelino Freire, Luiz Ruffato, Nelson de Oliveira, Fernando Bonassi
e Marcelo Mirisola, e do programa Poesia pra tocar no rádio, realizado em
parceria com nossa rádio web, que veiculou entrevistas com poetas e músicos
como Péricles Cavalcante, Alice Ruiz, Arrigo Barnabé, Ademir Assunção, Cid Campos,
Edvaldo Santana, Ricardo Corona, Marcelo Montenegro e Rodrigo Garcia Lopes.
A Curadoria de
Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo nasceu com a vocação de
incentivar exposições e eventos de poesia visual, sonora, eletrônica,
performática e outras modalidades que exploram as novas linguagens eletrônicas,
que permitem a integração entre som, imagem, palavra e movimento, e em 2014
realizamos o I Festival Poesia Nova, que incluiu performances, leituras,
debates e a mostra VIDEOPOÉTICAS, com curadoria de Elson Fróes.
Em descomemoração
aos 50 anos do golpe civil-militar de 1964, realizamos também uma série de
atividades, incluindo palestra do sociólogo Emir Sader, debate sobre mídia e
democracia com Altamiro Borges, José Carlos Ruy e Jeosafá Fernandes, o recital Vozes da resistência e a distribuição de
panfletos poéticos. Apenas no mês de março de 2014 tivemos um público superior
a 500 pessoas, sendo que apenas o recital Poesia
dos 4 cantos: noite árabe foi assistido por 168 pessoas.
Infelizmente,
em 16 de abril de 2014 soube de minha exoneração do cargo de curador, em função
de desentendimentos administrativos. Saio do Centro Cultural São Paulo com a consciência
tranqüila de ter realizado, ao longo de 40 meses, sem secretária, assistente ou
remuneração compatível, um trabalho de qualidade e à altura do desafio que
representa uma das mais importantes instituições culturais do país e da América
Latina.
Sairei do
cargo com apenas 15 dias de salário e ¼ de décimo-terceiro, uma vez que a contratação,
não sendo em CLT, não permite que eu receba FGTS, aviso prévio ou
seguro-desemprego.
Seguirei como
professor de literatura portuguesa na UNIP, editor da Zunái e colunista da revista CULT.
Agradeço a
todos que estiveram ao meu lado ao longo dessa jornada.
Claudio Daniel
17 de abril de 2014
sábado, 5 de abril de 2014
POEMAS DE CONTADOR BORGES
DAS LEVES TORTURAS
Bata de leve com os dedos
e acorde o amor sob a pele
depois aperte com as unhas
até marcar os mamilos
com pés de pavão que dançam
em desvario para a lua
ou folhas azuis de lótus
sobre as ancas e o peito
como ensina o Kama Sutra
na arte de usar as unhas
como preciosas garras de tigre
com o polegar por baixo
fazendo o que em música
é função do baixo contínuo
e os outros para cima
comprimindo bem devagar
e depois com firmeza
até que linhas curvas
se formem no umbigo
e meias-luas reluzam
como tochas ao céu do Oriente
e por fim o corpo pareça
um jardim de hematomas
pois quem planta amor
entre dores suplanta
os espinhos da rosa
VERÃO
Aperta com força o pescoço
até sair pela boca meu cálido Oriente
pois não sei se estou vivo
de tão espumante ou morto
(esvaído?) nas areias do gozo
Não que o Fujiyama seja pequeno
ou teu empenho não o alcance
mas quem se conduz na arte
de aumentar pela dor o prazer
dos sentidos morre um pouco
Morre dsempre de não poder
morrer de uma vez mais repleto
que antes e por dissolver-se
no gozo da própria nudez
renasce como se fosse outro
E em pleno sol ou nas sombras
da tarde enquanto o vento
atravessa o verão de teus olhos
me verás tão vivo e feliz
que borboletas sairão pela boca
(Poemas do livro Augustinas & franciscanas. Bauru:
Lumme Editor, 2014)
sexta-feira, 4 de abril de 2014
POEMAS DE ANA PELUSO
Existem fatores preponderantes
para que eu pense que o mundo
é um jogo de WAR gigante
onde o exército majoritário
pertence a quem não devia
e o filho da mãe só tira seis
cinco e seis
nos dados vermelhos
e nos amarelos também
* * *
Os olhos dele
os olhos dele pareciam dois
gritos
os olhos dele pareciam dois
gritos na noite
os olhos dele pareciam dois
gritos na noite de lua cheia
e ela, sereia no dia da santa
ela, matreira de olho na santa
, cabreira sem o aval da santa
Ignora
* * *
Um Ás pirante rodopia de mão em mão
sem encontrar o seu destino
fechar uma canastra limpa
até cair em mãos canalhas
que pirando o Ás de vez
batem com um coringa
* * *
Aprendeu a empacotar o tempo
vendia em saquinhos de cinco
minutos
quando morreu,
suas vendas contabilizavam milênios
* * *
Admirei a coragem do homem que
voava
em frente ao Grand Canyon
vestido de inseto
com a esperança de um inseto
diante de um inseto
quando caiu
* * *
Eu não quero um Mercador de Sereias
para presidente
eu quero um Encantador de Serpentes
(Do livro 70 Poemas. São Paulo: Patuá, 2014.)
quarta-feira, 2 de abril de 2014
POEMAS DE MARIZE CASTRO
já vivi aqui, já morri aqui
estes destroços me reconhecem
belos rapazes sem pátria
dançam em ruínas que se erguem
sou mãe, irmã, mulher de cada um
deles
híbridos e tristes, seduzem-se
jamais esquecem:
a morte é logo
ali
* * *
lenta, ela espera
voraz, ultrapassa-se
atravessa linóleos
em céus dissolve-se
espelhos gigantes
observam
percorre o fio sem cair
um jovem vulcão ecoa
entre suas pernas
antiga mulher, qual sua oferta?
* * *
quando retornou estava velha
ao meu redor dançava quase cega
quis tudo que me pertencia
o filho que permanece em mim
o corpo que não libertei
o céu que jamais foi meu
pensei: tão louca e tão bela
qual dor lhe habita?
eu a olhava, ela me invadia
renove, renove
— repetia
(eu tão concha, ela tão éter)
invadida esqueci de qual
mais raro artefato
perdi
muito mais tarde
por amor
entre folhagens
li em distante lápíde:
Gôngula sem rota, falsa esfinge
sem asas
sempre em vigília, sempre à
margem
(Poemas do livro Habitar teu nome. Natal: Uma, 2013)
RITO DA FALA AO ESPELHO: UMA LEITURA DE RICARDO CORONA
O cinema é a
construção de uma realidade imaginada, como o sonho, que não é menos real (ou
ilusório) do que a existência cotidiana, como na parábola de Chuang Tzu. O
cinema é menos um espelho, um eco do real do que uma metáfora ou conceito do
mundo. Olhar uma cena ou paisagem, de certo modo, é inventá-la; é dar nome às
coisas, como Adão. O sujeito cria o mundo e é criado por ele. Viver é navegar
entre paradoxos, e saber quem olha, quem é visto não é o menor de todos. Estas
são as impressões que me ocorrem ao reler o livro Cinemaginário, de Ricardo Corona, publicado inicialmente em 1998 pela Iluminuras e relançado neste
ano pela Patuá. O autor é um poeta do olhar, fotógrafo de imagens raras. Assim,
por exemplo, em Ventos e uma alucinação,
talvez o melhor poema do livro: “sol tórrido no/ aljazar/ (lascas de zinco
refletindo)/ sol batendo/ no sal”. Em outra seção desta peça, mais uma jóia:
“atrás das pálpebras/ o olho dá forma ao sol/ : bola vermelha/ (um vento mantra
passa)/ a íris fosforesce/ aureolando as pupilas em brasa”. Aqui, revela-se a
influência da fanopeia de Pound e dos flashes inusitados do haicai, como em
Bashô (“a água/ escorre do teto/ pelo ninho de vespas”, na tradução de Paulo
Leminski, outra referência destacada em seu processo formativo). Ricardo Corona
não é um voyeur de paisagens
tranqüilas, mas um cultor da imagem tensa, cortante, cicatriz à flor da pele.
Em seu cinema do
imaginário, usa técnicas de cortes, closes,
montagens, como em Narayama: “põe/ a
meia-lua dos pés na mudez das pedras/ corpo e alma no chakra da encosta/ a fronte na fonte fresca/ lava a saúva das
costas”, poema inspirado no filme A
balada de Narayama, de Shohei Imamura. Vale a pena ressaltar, aqui, a presença
do cinema em outros autores que começaram a publicar na década de 1990, como
Ricardo Aleixo (Cineolho), Ademir
Assunção (Cinemitologias) e Rodrigo
Garcia Lopes (Nômada). No caso de
Ricardo Corona, a influência da linguagem fílmica mescla-se a uma miscelânea de
outras referências, tão heterogêneas como o barroco, a melopéia grega, a lírica
beat e a cultura pop. Em Ondas na lua cheia, por exemplo, a
presença do mar homérico: “A lua que tudo assiste/ agora incide/ O mar/ — sob
efeito — ergue-se/ crispado de ondas espumantes/ Sua língua de sal/ lambe e
provoca/ as escrituras da areia firme/ Ondas deslizantes/ redesenham/ onde
outras ondas ainda/ desredesenharão/ fluindo/ no fluxo/ da influência/ Sob
efeito lunar,/ o mar muda/ e a lua,/ antes toda,/ agora, mínima/ e quem com ela
muda?”. Há outros aspectos na poesia de Ricardo Corona que merecem também ser
levados em consideração: a musicalidade, de leveza própria da balada, da canção
popular, como no poema Nascem flores com
o tempo ("sentir, eu sei, tem seu preço"); as referências
mitológicas, da Grécia a Iemanjá; o uso do humor, por vezes próximo ao non sense ("meses ímpares/ de um
ano par/ que passou"); e a diversidade léxica, que inclui o uso da gíria,
do coloquial, ao lado de termos eruditos e de nomes da parafernália
tecnológica. Por vezes, Ricardo subverte mesmo o sentido usual de substantivos
e adjetivos, criando híbridos como “galáxia canibal” e “céu anfíbio”. Na
variedade de recursos e técnicas usadas neste volume, afins ao cinema e à
pintura, a colagem está presente em peças de destaque, como A lua finge mas já reflete sóis:
"lascas de zinco refletindo/ um sopro quente passa/ do solo sobe um hálito
quente/ um vento mantra passa/ o rubro horizonte nubla de repente/ um peixe
roça a pele da pedra/ a lua finge mas já reflete sóis", poema construído a
partir de versos recortados, "roubados", de outras peças do livro,
numa espécie de mini-antologia, resumo de si mesmo.
A poesia conversa com o som e a imagem
O diálogo com as artes visuais acontece de forma mais
intensa em Tortografia (2003),
trabalho realizado em parceria com a artista plástica Eliana Borges composto de
poemas visuais e caligráficos que exploram diferentes texturas, grafias e
relações entre imagem e palavra, situadas num campo experimental diverso
daquele praticado pela Poesia Concreta: há um grau maior de indeterminação,
acaso e ruído nesses trabalhos, que escapam à funcionalidade construtivista. Deusconhecido, por exemplo, é um poema
cinético composto de uma única palavra, que aparece modificada em várias
páginas, até se converter em borrão, numa voluntária abolição de som e sentido.
A radicalidade inventiva de Ricardo Corona está presente também em seu trabalho
com a dimensão sonora da palavra, registrado nos CDs Ladrão de fogo (2001) e Sonorizador
(2007), em que o poeta subverte a forma da canção, em busca de outras
possibilidades criativas, incorporando recursos da música eletrônica e das
técnicas narrativas das histórias em quadrinhos. A pesquisa de formas vivas de
comunicação poética realizada por Ricardo Corona recupera a tradição oral
xamânica, especialmente das tribos indígenas brasileiras, como verificamos na
leitura do livro Corpo sutil (2005) e
sobretudo de Curare (2011),
que faz um interessante diálogo entre o imaginário da etnia xetá e a herança
das poéticas experimentais, investindo na espacialização do texto para realçar
a oralidade, as variações rítmicas e as mudanças de dicção. Curare desconsidera as fronteiras entre
prosa e poesia e sintetiza canto, narração e intervenção pictórica, utilizando
os sinais de pontuação como se fossem inscrições rupestres. A variação
tipológica e gráfica dá movimento às sentenças no livro, pensadas como frases
sonoras de uma partitura; neste sentido, o autor potencializa o suporte livro,
explorando suas possibilidades comunicativas. Curare é – entre
outras coisas – uma reflexão sobre o livro, numa época em que as tecnologias
eletrônicas colocam esse tema na ordem do dia. Claro: não se trata de
reivindicar a morte do livro, mas sim de repensarmos o conceito e a estrutura
do objeto, levando em consideração as mudanças na sensibilidade do leitor
contemporâneo, operadas pela navegação no ciberespaço.
(Artigo publicado na edição de abril da revista CULT, na coluna RETRATO DO ARTISTA.)
domingo, 30 de março de 2014
POEMAS DE ARTURO GAMERO
As unhas crescendo na parede
das casas, os pássaros saindo
pela boca com o sexo das
sombras tocando
na vidraça,
a urina nas cadeiras
penduradas pelo entardecer.
* * *
Eu toco a página do livro com a
mão e a aridez do pensamento
dobrando seus espelhos
é o barulho do ar
batendo nas palavras.
* * *
A palavra escava a madeira,
entra na água, relâmpago enterrado no
ar castanho, palmas esculpidas,
banho de osso e lentamente extrai
a dádiva dos seios macilentos, ímã
dos fogos assimétricos. Vozes mer-
gulhadas mansamente no amarelo.
* * *
áspera do amor roendo a carne
numa liturgia de naufrágios mer-
gulha a cama nas paredes, janelas
penduradas como um paraíso.
* * *
Dissecar a pedra, o sopro, aperta
o labirinto de um único erspelho.
(Poemas do livro Favo. Bauru: Lumme Editor, 2013)
POEMAS DE ADALBERTO DE OLIVEIRA SOUZA
QUASE SEMPRE
rematando calúnias e possibilidades
dela não se sabe o vil calendário
que a move
avidamente
METAMORFOSES
Muito escapa.
Pouco se livra.
Muito subtrai-se.
Tudo se esvai.
AGORA
Um zumbido estridente chegou a uma distância
considerável.
VEJO AS PAISAGENS
e, no entanto,
não é do mesmo modo
que acontece.
FATO
De qualquer forma,
sabe-se do ocorrido,
pode-se opinar ou
não.
MEUS OUVIDOS AINDA CHEIOS DE SUA VOZ
Em companhia, a alegria cinzenta do rosto.
A eterna presença sem enigma.
(Poemas do livro Corrosão. São Paulo: Maçã de vidro edições,
2014)
sexta-feira, 28 de março de 2014
OS DISFARCES DO TEMPO NA LÍRICA DE NINA RIZZI
A duração do deserto, de Nina Rizzi (São
Paulo: Patuá, 2014), lançado recentemente no I Festival Poesia Nova, realizado
no Centro Cultural São Paulo, é o segundo título da autora, que reside em Fortaleza e também publicou
Tambores pra n’zinga (Rio de Janeiro: Multifoco, 2012). Em ambos volumes, a
lírica narrativa de matiz modernista soma-se a outras referências, como a
fotografia, o cinema, a estética do fragmento e a cultura afrobrasileira (“as
coisas continuam a me morrer / do barro se seca água, um todo imóvel, vodun”,
lemos na composição candomblé pra nanã).
Neste segundo livro, o leque é ainda mais plural, incorporando, de
maneira bastante pessoal, ecos do futurismo russo e da paisagem expressionista,
poemas construídos na forma de e-mail e casidas que dialogam com Federico Garcia
Lorca. Todas essas referências revelam uma poeta culta, que dialoga com a
tradição literária e os temas culturais, porém, sem afetação acadêmica ou
pretensão erudita: o intertexto, na poesia de Nina Rizzzi, é um índice
sentimental, uma pista da relação amorosa com o seu repertório de afinidades
eletivas e uma exteriorização de seu imaginário, que dispensa citações e notas
de rodapé. A voz da autora é lúdica e quase sempre com um timbre bem-humorado,
irreverente, embora seja capaz também da solenidade da elegia, como no poema Na estrada de Sintra, dedicado ao jovem
poeta Raul Macedo, falecido num desastre de automóvel.
A diversidade de estilemas, temas e timbres de A duração do deserto faz pensar – a princípio – na ausência de um foco narrativo, de uma unidade estrutural, mas a impressão se desfaz após uma convivência maior com esses poemas, que podem ser lidos como um diário cujo leitmotiv é o tempo, explícito já no título da obra. A anotação epistolar (além do diário, podemos notar aqui a presença da carta, do e-mail) é mais evidente nos poemas lacônicos, que assumem por vezes a forma de dístico, como nesta composição: “lançar meu corpo ao cimo / e alcançar teu nome, abismo” (poema impossível, dionises variegada), um dos mais belos do volume, ou ainda nesta peça, que justifica o título da obra: “água e sal são meus olhos, / deserto é te esperar” (te amar, assombro). Impossível não recordar a microlírica de Safo, a poeta de Lesbos, especialmente a Safo dos poemas mais condensados, como este: “A lua já se pôs, / as Plêiades também: / meia-noite; foge o tempo, / e estou deitada sozinha” (tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos).
Em outra peça, a imagética surpreende o leitor como uma fotografia de Man Ray: “era uma vez uma folha atrás da orelha: / a pedra e a fala, araruama / toró, olvido” (cantilena). Simplicidade, economia verbal, imagens inusitadas de alto impacto. Assim também nesta peça: “solidão tem tamanho não, sinhô / vem da terra que a corcunda põe a olhar / até a única cor que não alcança o céu / azul” (solo pra rabeca e trompete). Os poemas mais ambiciosos do livro, porém, são os mais longos: Escrita aos ímpares (“Pedra ontem, pedra hoje e nunca”) e Contrapoema ao homem de meu tempo (“o homem do meu tempo em se punir, manso, me estrangula e ri”), que remete ao lirismo de Carlos Drummond de Andrade, ao mesmo tempo individual e cósmico. A poesia de Nina Rizzzi é um palimpsesto onde, camada após camada, lemos os diferentes disfarces assumidos pelo cruel deus do Tempo.
A diversidade de estilemas, temas e timbres de A duração do deserto faz pensar – a princípio – na ausência de um foco narrativo, de uma unidade estrutural, mas a impressão se desfaz após uma convivência maior com esses poemas, que podem ser lidos como um diário cujo leitmotiv é o tempo, explícito já no título da obra. A anotação epistolar (além do diário, podemos notar aqui a presença da carta, do e-mail) é mais evidente nos poemas lacônicos, que assumem por vezes a forma de dístico, como nesta composição: “lançar meu corpo ao cimo / e alcançar teu nome, abismo” (poema impossível, dionises variegada), um dos mais belos do volume, ou ainda nesta peça, que justifica o título da obra: “água e sal são meus olhos, / deserto é te esperar” (te amar, assombro). Impossível não recordar a microlírica de Safo, a poeta de Lesbos, especialmente a Safo dos poemas mais condensados, como este: “A lua já se pôs, / as Plêiades também: / meia-noite; foge o tempo, / e estou deitada sozinha” (tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos).
Em outra peça, a imagética surpreende o leitor como uma fotografia de Man Ray: “era uma vez uma folha atrás da orelha: / a pedra e a fala, araruama / toró, olvido” (cantilena). Simplicidade, economia verbal, imagens inusitadas de alto impacto. Assim também nesta peça: “solidão tem tamanho não, sinhô / vem da terra que a corcunda põe a olhar / até a única cor que não alcança o céu / azul” (solo pra rabeca e trompete). Os poemas mais ambiciosos do livro, porém, são os mais longos: Escrita aos ímpares (“Pedra ontem, pedra hoje e nunca”) e Contrapoema ao homem de meu tempo (“o homem do meu tempo em se punir, manso, me estrangula e ri”), que remete ao lirismo de Carlos Drummond de Andrade, ao mesmo tempo individual e cósmico. A poesia de Nina Rizzzi é um palimpsesto onde, camada após camada, lemos os diferentes disfarces assumidos pelo cruel deus do Tempo.
A FÁBULA DISSONANTE DE DELMO MONTENEGRO
Recife no hay, de Delmo Montenegro
(Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 2013), uma das obras vencedoras do I
Prêmio Pernambuco de Literatura, é o terceiro título publicado do autor, que
lançou também Os jogadores de cartas,
em 2003, e Ciao cadáver, em 2005.
Nesta nova obra, o autor pernambucano investe ainda mais na ironia, no
sarcasmo, no humor negro, já presentes em seus livros anteriores, com língua
ferina e precisa: “poetas são como / dinossauros / todos vão ser extintos / de
uma hora / pra outra, todos / sem exceção”. Desafiando o lirismo, Delmo
Montenegro cria uma dicção anarcopunk, habitada por pesadelos de Salvador Dali
ou fantasmas de Franz Kafka: “vamos para a praia dos nervos / para as geleiras
/ infames / desossar orquídeas / montar na prancha dos assassinos / o grande /
kahuna / espera / por / nós”. A linguagem concisa, recortada, com a
incorporação do espaço em branco da página e a utilização dos sinais de
pontuação como elementos rupestres leva-nos a pensar na influência da Poesia
Concreta (mais evidente em Ciao cadáver),
mas a construção de metáforas crítico-irônicas como “necrose de corais”,
“intelectuais sifilíticos”, “clitóris vermelho / flamingo-fogo” aproximam-se de
uma outra vertente da poesia brasileira, aquela freqüentada por transgressores
como Roberto Piva, Glauco Mattoso e Sebastião Nunes. A divisão espacial das
palavras e linhas, nos poemas de Delmo Montenegro, não é apenas uma elaboração visual, mas funciona como a notação em uma partitura musical, indicando
pausas, ênfases, mudanças de timbre, que se materializam na oralização. A
dimensão sonora é justamente o aspecto mais elaborado nesse livro de poemas,
que se destaca na produção pernambucana contemporânea pela ousadia e
criatividade – presente também nas obras de poetas como Micheliny Verunschk,
Bruno Monteiro, Fábio Andrade, para citarmos poucos nomes (um panorama
abrangente da nova poesia pernambucana pode ser consultado nos dois volumes da
antologia Invenção Recife, organizada
pelo próprio Delmo, em parceria com Pietro Wagner). Por fim – ao menos, nesta
nota breve – um outro aspecto que chama a antenção, em Recife no hay, são as narrativas poéticas, a meio fio entre a
fabulação e o canto dissonante, como por exemplo nesta peça, de alto impacto:
“sim, seremos amantes / solte sua voz / valvulada / durma comigo / seja meu
cadáver esta noite / depois / ponha / os cílios postiços / e / desapareça / sem
amor, sem paradas cardíacas / sejamos / apenas / dóceis animais empalhados / --
ouça agora, revolva agora -- / meu / nome /é / cão / -- abra meu zíper // /
palhas”.
quinta-feira, 27 de março de 2014
O NÃO-LUGAR NA POESIA DE NYDIA BONETTI
“Onde a
montanha encontra a água / nasce a flor”, diz a peça de abertura do livro Sumi-ê, de Nydia Bonetti (São Paulo: Patuá,
2014), coleção de poemas que dialogam com a pintura tradicional japonesa, que
remonta ao século XIV. Assim como outras artes inspiradas pelo zen-budismo – a
técnica de arranjos florais (ikebana),
a caligrafia (shodo), a cerimônia do
chá (cha-no-yu), o tiro com arco (kyudo) –, o sumi-ê valoriza a leveza, o despojamento, a concisão, a
espontaneidade, a precisão que cria o movimento. Todos esses elementos são
verificáveis nos poemas de Nydia, que conciliam sensibilidade, delicadeza e
notável delineamento formal: “há um jardim qualquer / em qualquer / canto /
onde uma flor qualquer / brotou / de qualquer / cor / de qualquer forma, flor /
e eu a oferto / a quem souber cuidar”, diz uma composição sem título que remete
à deliberada imprecisão e ao ocultamento presentes em haicais de mestres
japoneses como Shiki: “No meio do mato / a flor
branca / seu nome desconhecido” (tradução: Maurício Arruda Mendonça). É
inevitável fazermos uma aproximação entre a poesia de Nydia e um princípio
essencial da filosofia da arte japonesa, o yugen, palavra geralmente
traduzida como “charme sutil”. Os dois ideogramas que compõem essa palavra
significam, respectivamente, mistério e obscuridade. Segundo Darci Yasuco
Kusano, “yugen possui um significado além das aparências (...). Os fatores
primordiais que constituem o yugen são a beleza e a elegância, aliadas à
suavidade; o refinamento físico e espiritual (...). São igualmente expressões
de yugen a beleza ideal, sublime, com uma aura de mistério”. Um haicai tem yugen se ele consegue
abordar um assunto de maneira inusitada, mas com sutileza, sem ostentação ou
vulgaridade. Assim, neste belíssimo micropoema de Nydia: “agora vazios – os
campos de algodão / depois do vento”, que podemos comparar com um haicai de
Nenpuku Sato: “sementes de algodão / agora são de vento / as minhas mãos” (tradução: Maurício Arruda Mendonça). Em ambas
composições, o universo laboral está presente, em harmonia com o ritmo das
estações e com os estados de espírito despertados pela condição sazonal, tópico
imprescindível no terceto tradicional japonês, onde são incluídas palavras que
fazem alusão às estações -- “vento de
primavera”, “lua de outono” etc. Claro: Nydia não escreveu
um livro apenas com haicais, nem pretende fazer um diálogo “exótico”,
superficial, com a cultura japonesa: o que nos surpreende é a maneira como ela
incorpora elementos desse repertório e os reelabora em sua poética minimalista,
com graça e simplicidade. O olho
imagista ocidental, que alimentou a fanopeia de Ezra Pound, está presente aqui:
“no imenso jardim povoado de verdes / uma só / flor / que de tão só – vermelha
/ destoa”, em que os espaços em branco entre as linhas e a composição exclusiva
em caixa baixa reforçam a visualidade do texto, assim como a palavra “flor”
isolada no meio do poema, denotando solitude. Há na poesia de Nydia – nascida
em Piracaia, no interior de São Paulo – uma presença viva das paisagens da
infância, que constroem pensamentos, lembranças e sensações, numa espécie de
diário imagético: “tronco / retorcido em securas / restam / folhas miúdas / num
cacho / único / flores rosas / pendem / e denunciam: -- a vida / resiste”. Em
outra composição, a temática existencial se apresenta de forma ainda mais
enigmática: “o não lugar – onde habita / a não / vida / e o não sonhar – morada
/ de tantos”. Extrema economia formal, reforçada pela linguagem substantiva e
pela sintaxe fraturada, elíptica, que se adensa nas últimas peças do volume,
culminando na necessária quietude: “peço silêncio / há uma flor: -- se abrindo
/ no jardim”.
quarta-feira, 26 de março de 2014
ZUNÁI, DEZ ANOS (II)
Zunái, Revista de Poesia e
Debates, comemora
dez anos de guerrilha virtual no ciberespaço. Criada em 2003 por Rodrigo de
Souza Leão (1965-2009), Ana Peluso e por mim, a revista teve 26 edições
eletrônicas em sua “primeira dentição” (www.revistazunai.com) e publicou alguns
dos mais expressivos nomes da poesia, do teatro, do romance, do ensaio e das
artes visuais brasileiras.
Estiveram presentes, nas páginas da Zunái, autores como Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Arnaldo Antunes, Armando Freitas Filho, Josely Vianna Baptista, Claudia Roquette-Pinto, Gerald Thomas, Wilson Bueno, Evandro Affonso Ferreira, Nelson de Oliveira, Luiz Costa Lima, João Alexandre Barbosa, Regina Silveira, Leda Catunda e Guto Lacaz, para citarmos poucos nomes.
Desde o início, a revista assumiu uma posição de voluntária parcialidade crítica (seguindo a lição de Baudelaire), exteriorizando os seus critérios de escolha e interferindo de maneira desafiadora no cenário cultural brasileiro, sem fazer concessões a estéticas mumificadas.
Zunái assumiu o compromisso de publicar trabalhos de maior inventividade formal, em campos como o da poesia visual, da poesia sonora, da poesia digital, do texto poético experimental, sem filiar-se, porém, a nenhuma tendência literária específica, a nenhum programa normativo redutor: sua vocação é a de ampliar diferentes graus de ruído e dissonância, para desafinar a melodia única dos contentes. Esta pluralidade de radicalismos possíveis se manifestou em nosso interesse pela poesia neobarroca de José Kozer, Reynaldo Jiménez, Victor Sosa, León Félix Batista, mas também pelo minimalismo de André Dick e Virna Teixeira e pela escrita inclassificável de Jean Paul Michel, Edmond Jabès, Contador Borges, Abreu Paxe, Antônio Moura e Erin Moure.
Nossa representação geométrica sempre foi o círculo, dentro do qual se movimentam infinitas linhas concêntricas, aproximando-se, distanciando-se, provocando colisões, ruídos e atritos criativos, em constante ebulição e metamorfose.
A Zunái sempre
se recusou a fazer um mapeamento convencional da poesia brasileira – tarefa
sempre incompleta e efêmera das revistas e antologias – mas, ao contrário,
optou por iluminar autores que ficaram à margem do cânone rumoroso promovido
pela mídia, organizado por critérios poucas vezes éticos ou estéticos.
Publicamos autores jovens de violenta novidade formal e temática, que estão
entre as vozes mais consistentes da nova poesia, como Contador Borges, Antônio
Moura, Adriana Zapparoli, Andréia Carvalho, Marceli Andresa Becker, que trazem
propostas de desestruturação da lírica coloquial-cotidiana do Modernismo (tão
incensada por críticos midiáticos que nada sabem de poesia) e de reorquestração
das palavras e frases em outras combinações possíveis, ampliando o léxico,
renovando a sintaxe, dialogando com repertórios infrequentes, num sopro de
renovação e desafio.
Rompendo com o mimetismo colonizado das poéticas praticadas nos grandes centros econômicos, Zunáiestabeleceu novas parcerias, divulgando poetas de Angola, Moçambique, África do Sul, Síria, Cuba, México, Peru, República Dominicana, Venezuela, entre outras nações de poesia. O link Galeria publicou mostras virtuais de alguns dos mais conceituados artistas visuais brasileiros, como Regina Silveira, Guto Lacaz, Leda Catunda, Elida Tessler, Nino Cais e Eduardo Frota, enquanto o link de matérias especiais enfocou temas culturais mais amplos, envolvendo diferentes linguagens artísticas, como o teatro de Gerald Thomas, o cinema de Werner Herzog e Peter Greenaway, a prosa de Wilson Bueno, os 50 anos da Poesia Concreta e o debate sobre a crítica literária brasileira, em textos como "Muito além da academídia: poesia brasileira hoje", de Rodrigo Garcia Lopes, e "Pensando a poesia brasileira em cinco atos", de Claudio Daniel.
Os editores de Zunái nunca tiveram o propósito de estabelecer ou defender uma suposta “estética única”, o que pode ser verificado facilmente na própria revista, onde publicamos desde haicais e poemas sonoros até composições concretistas e surrealistas; a inovação, para nós, nunca foi rua de mão única ou questão teológica ou metafísica. O que recusamos no ecletismo nunca foi a diversidade, mas a concessão sem critérios a estéticas frágeis, que não apresentam nenhuma novidade temática ou formal. A defesa intransigente da pesquisa estética, do experimentalismo, da inovação, em nenhum momento foi entendido por nós como nova torre de marfim, alheia aos acontecimentos no mundo – muito ao contrário.
O design da capa da Zunái foi criado por Ana Peluso e por mim com o propósito de representar o conflito entre barbárie e cultura: os links, dispostos de maneira circular, incorporaram imagens de obras de arte da Antiguidade do Museu Nacional de Cabul, destruídas pelo Talebã sob a acusação de paganismo e idolatria. Na página do Expediente da revista, inserimos a imagem de uma obra de arte desaparecida do Museu de Bagdá, saqueado com a cumplicidade das tropas de ocupação norte-americanas.
Zunái sempre se posicionou contra as guerras de rapina do império estadunidense no Oriente Médio e criou, no link Opinião, os Cadernos da Palestina, onde publicamos regularmente textos e fotos de denúncia da ocupação ilegal dos territórios palestinos pela entidade sionista.
Durante o Fórum Social Mundial Palestina Livre, ocorrido em 2012,em Porto Alegre , Zunái esteve
presente e distribuiu a plaquete Poemas para a Palestina, com
peças escritas por autores como Glauco Mattoso, Marcelo Ariel, Lígia Dabul,
Andréia Carvalho, Nina Rizzi, entre outros poetas brasileiros e portugueses (o
texto original da plaquete, ampliado com a inclusão de novos poemas, foi
publicado em 2014, na forma de livro, pela editora Patuá, do bravo Eduardo
Lacerda).
A revista também colaborou na organização da exposição fotográfica dedicada aos 30 anos do massacre de Sabra e Chatila, exposta no mesmo ano na Biblioteca Alceu Amoroso Lima. Zunái sempre acreditou que o engajamento estético não se opõe ao engajamento político, mas, ao contrário, é a sua contraparte dialética, como bem sabia André Breton, ao propor unir o “mudar a vida” de Rimbaud ao “mudar o mundo” de Marx (equação em que está implícita o “mudar a arte” de Lautréamont).
O aniversário de dez anos da revista foi comemorado com um recital organizado pelo poeta Rubens Jardim, na Casa das Rosas, que contou com a participação de Frederico Barbosa, Claudio Willer, Alfredo Fressia, E. M. de Melo e Castro, Abreu Paxe, Nydia Bonetti, Andréia Carvalho, Edson Cruz, Luiz Ariston, Edson Bueno de Carvalho, Diogo Cardoso e Fabrício Slaviero. Uma festa de poesia. Em março deste ano será publicada uma antologia impressa de poemas e textos divulgados na Zunái ao longo da última década, com o apoio generoso da Lumme Editor.
Agradecemos a todos aqueles que sempre apoiaram a revista, e em especial a Ana Peluso e Mariza Lourenço, responsáveis pelo design e atualização da “primeira dentição” da Zunái, e a Andréia Carvalho, editora de multimídia do novo site da revista.
Rompendo com o mimetismo colonizado das poéticas praticadas nos grandes centros econômicos, Zunáiestabeleceu novas parcerias, divulgando poetas de Angola, Moçambique, África do Sul, Síria, Cuba, México, Peru, República Dominicana, Venezuela, entre outras nações de poesia. O link Galeria publicou mostras virtuais de alguns dos mais conceituados artistas visuais brasileiros, como Regina Silveira, Guto Lacaz, Leda Catunda, Elida Tessler, Nino Cais e Eduardo Frota, enquanto o link de matérias especiais enfocou temas culturais mais amplos, envolvendo diferentes linguagens artísticas, como o teatro de Gerald Thomas, o cinema de Werner Herzog e Peter Greenaway, a prosa de Wilson Bueno, os 50 anos da Poesia Concreta e o debate sobre a crítica literária brasileira, em textos como "Muito além da academídia: poesia brasileira hoje", de Rodrigo Garcia Lopes, e "Pensando a poesia brasileira em cinco atos", de Claudio Daniel.
Os editores de Zunái nunca tiveram o propósito de estabelecer ou defender uma suposta “estética única”, o que pode ser verificado facilmente na própria revista, onde publicamos desde haicais e poemas sonoros até composições concretistas e surrealistas; a inovação, para nós, nunca foi rua de mão única ou questão teológica ou metafísica. O que recusamos no ecletismo nunca foi a diversidade, mas a concessão sem critérios a estéticas frágeis, que não apresentam nenhuma novidade temática ou formal. A defesa intransigente da pesquisa estética, do experimentalismo, da inovação, em nenhum momento foi entendido por nós como nova torre de marfim, alheia aos acontecimentos no mundo – muito ao contrário.
O design da capa da Zunái foi criado por Ana Peluso e por mim com o propósito de representar o conflito entre barbárie e cultura: os links, dispostos de maneira circular, incorporaram imagens de obras de arte da Antiguidade do Museu Nacional de Cabul, destruídas pelo Talebã sob a acusação de paganismo e idolatria. Na página do Expediente da revista, inserimos a imagem de uma obra de arte desaparecida do Museu de Bagdá, saqueado com a cumplicidade das tropas de ocupação norte-americanas.
Zunái sempre se posicionou contra as guerras de rapina do império estadunidense no Oriente Médio e criou, no link Opinião, os Cadernos da Palestina, onde publicamos regularmente textos e fotos de denúncia da ocupação ilegal dos territórios palestinos pela entidade sionista.
Durante o Fórum Social Mundial Palestina Livre, ocorrido em 2012,
A revista também colaborou na organização da exposição fotográfica dedicada aos 30 anos do massacre de Sabra e Chatila, exposta no mesmo ano na Biblioteca Alceu Amoroso Lima. Zunái sempre acreditou que o engajamento estético não se opõe ao engajamento político, mas, ao contrário, é a sua contraparte dialética, como bem sabia André Breton, ao propor unir o “mudar a vida” de Rimbaud ao “mudar o mundo” de Marx (equação em que está implícita o “mudar a arte” de Lautréamont).
O aniversário de dez anos da revista foi comemorado com um recital organizado pelo poeta Rubens Jardim, na Casa das Rosas, que contou com a participação de Frederico Barbosa, Claudio Willer, Alfredo Fressia, E. M. de Melo e Castro, Abreu Paxe, Nydia Bonetti, Andréia Carvalho, Edson Cruz, Luiz Ariston, Edson Bueno de Carvalho, Diogo Cardoso e Fabrício Slaviero. Uma festa de poesia. Em março deste ano será publicada uma antologia impressa de poemas e textos divulgados na Zunái ao longo da última década, com o apoio generoso da Lumme Editor.
Agradecemos a todos aqueles que sempre apoiaram a revista, e em especial a Ana Peluso e Mariza Lourenço, responsáveis pelo design e atualização da “primeira dentição” da Zunái, e a Andréia Carvalho, editora de multimídia do novo site da revista.
Ave, Zunái!
São Paulo, a horrível / fins de 2013
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