sexta-feira, 28 de março de 2014

OS DISFARCES DO TEMPO NA LÍRICA DE NINA RIZZI



A duração do deserto, de Nina Rizzi (São Paulo: Patuá, 2014), lançado recentemente no I Festival Poesia Nova, realizado no Centro Cultural São Paulo, é o segundo título da autora, que reside em Fortaleza e também publicou Tambores pra n’zinga (Rio de Janeiro: Multifoco, 2012). Em ambos volumes, a lírica narrativa de matiz modernista soma-se a outras referências, como a fotografia, o cinema, a estética do fragmento e a cultura afrobrasileira (“as coisas continuam a me morrer / do barro se seca água, um todo imóvel, vodun”, lemos na composição candomblé pra nanã). Neste segundo livro, o leque é ainda mais plural, incorporando, de maneira bastante pessoal, ecos do futurismo russo e da paisagem expressionista, poemas construídos na forma de e-mail e casidas que dialogam com Federico Garcia Lorca. Todas essas referências revelam uma poeta culta, que dialoga com a tradição literária e os temas culturais, porém, sem afetação acadêmica ou pretensão erudita: o intertexto, na poesia de Nina Rizzzi, é um índice sentimental, uma pista da relação amorosa com o seu repertório de afinidades eletivas e uma exteriorização de seu imaginário, que dispensa citações e notas de rodapé. A voz da autora é lúdica e quase sempre com um timbre bem-humorado, irreverente, embora seja capaz também da solenidade da elegia, como no poema Na estrada de Sintra, dedicado ao jovem poeta Raul Macedo, falecido num desastre de automóvel.

A diversidade de estilemas, temas e timbres de A duração do deserto faz pensar – a princípio – na ausência de um foco narrativo, de uma unidade estrutural, mas a impressão se desfaz após uma convivência maior com esses poemas, que podem ser lidos como um diário cujo leitmotiv é o tempo, explícito já no título da obra.  A anotação epistolar (além do diário, podemos notar aqui a presença da carta, do e-mail) é mais evidente nos poemas lacônicos, que assumem por vezes a forma de dístico, como nesta composição: “lançar meu corpo ao cimo / e alcançar teu nome, abismo” (poema impossível, dionises variegada), um dos mais belos do volume, ou ainda nesta peça, que justifica o título da obra: “água e sal são meus olhos, / deserto é te esperar” (te amar, assombro). Impossível não recordar a microlírica de Safo, a poeta de Lesbos, especialmente a Safo dos poemas mais condensados, como este: “A lua já se pôs, / as Plêiades também: / meia-noite; foge o tempo, / e estou deitada sozinha” (tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos).

Em outra peça, a imagética surpreende o leitor como uma fotografia de Man Ray: “era uma vez uma folha atrás da orelha: / a pedra e a fala, araruama / toró, olvido” (cantilena). Simplicidade, economia verbal, imagens inusitadas de alto impacto. Assim também nesta peça: “solidão tem tamanho não, sinhô / vem da terra que a corcunda põe a olhar / até a única cor que não alcança o céu / azul” (solo pra rabeca e trompete). Os poemas mais ambiciosos do livro, porém, são os mais longos: Escrita aos ímpares (“Pedra ontem, pedra hoje e nunca”) e Contrapoema ao homem de meu tempo (“o homem do meu tempo em se punir, manso, me estrangula e ri”), que remete ao lirismo de Carlos Drummond de Andrade, ao mesmo tempo individual e cósmico. A poesia de Nina Rizzzi é um palimpsesto onde, camada após camada, lemos os diferentes disfarces assumidos pelo cruel deus do Tempo.

A FÁBULA DISSONANTE DE DELMO MONTENEGRO




Recife no hay, de Delmo Montenegro (Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 2013), uma das obras vencedoras do I Prêmio Pernambuco de Literatura, é o terceiro título publicado do autor, que lançou também Os jogadores de cartas, em 2003, e Ciao cadáver, em 2005. Nesta nova obra, o autor pernambucano investe ainda mais na ironia, no sarcasmo, no humor negro, já presentes em seus livros anteriores, com língua ferina e precisa: “poetas são como / dinossauros / todos vão ser extintos / de uma hora / pra outra, todos / sem exceção”. Desafiando o lirismo, Delmo Montenegro cria uma dicção anarcopunk, habitada por pesadelos de Salvador Dali ou fantasmas de Franz Kafka: “vamos para a praia dos nervos / para as geleiras / infames / desossar orquídeas / montar na prancha dos assassinos / o grande / kahuna / espera / por / nós”. A linguagem concisa, recortada, com a incorporação do espaço em branco da página e a utilização dos sinais de pontuação como elementos rupestres leva-nos a pensar na influência da Poesia Concreta (mais evidente em Ciao cadáver), mas a construção de metáforas crítico-irônicas como “necrose de corais”, “intelectuais sifilíticos”, “clitóris vermelho / flamingo-fogo” aproximam-se de uma outra vertente da poesia brasileira, aquela freqüentada por transgressores como Roberto Piva, Glauco Mattoso e Sebastião Nunes. A divisão espacial das palavras e linhas, nos poemas de Delmo Montenegro, não é apenas uma elaboração visual, mas funciona como a notação em uma partitura musical, indicando pausas, ênfases, mudanças de timbre, que se materializam na oralização. A dimensão sonora é justamente o aspecto mais elaborado nesse livro de poemas, que se destaca na produção pernambucana contemporânea pela ousadia e criatividade – presente também nas obras de poetas como Micheliny Verunschk, Bruno Monteiro, Fábio Andrade, para citarmos poucos nomes (um panorama abrangente da nova poesia pernambucana pode ser consultado nos dois volumes da antologia Invenção Recife, organizada pelo próprio Delmo, em parceria com Pietro Wagner). Por fim – ao menos, nesta nota breve – um outro aspecto que chama a antenção, em Recife no hay, são as narrativas poéticas, a meio fio entre a fabulação e o canto dissonante, como por exemplo nesta peça, de alto impacto: “sim, seremos amantes / solte sua voz / valvulada / durma comigo / seja meu cadáver esta noite / depois / ponha / os cílios postiços / e / desapareça / sem amor, sem paradas cardíacas / sejamos / apenas / dóceis animais empalhados / -- ouça agora, revolva agora -- / meu / nome /é / cão / -- abra meu zíper // / palhas”.

quinta-feira, 27 de março de 2014

O NÃO-LUGAR NA POESIA DE NYDIA BONETTI



“Onde a montanha encontra a água / nasce a flor”, diz a peça de abertura do livro Sumi-ê, de Nydia Bonetti (São Paulo: Patuá, 2014), coleção de poemas que dialogam com a pintura tradicional japonesa, que remonta ao século XIV. Assim como outras artes inspiradas pelo zen-budismo – a técnica de arranjos florais (ikebana), a caligrafia (shodo), a cerimônia do chá (cha-no-yu), o tiro com arco (kyudo) –, o sumi-ê valoriza a leveza, o despojamento, a concisão, a espontaneidade, a precisão que cria o movimento. Todos esses elementos são verificáveis nos poemas de Nydia, que conciliam sensibilidade, delicadeza e notável delineamento formal: “há um jardim qualquer / em qualquer / canto / onde uma flor qualquer / brotou / de qualquer / cor / de qualquer forma, flor / e eu a oferto / a quem souber cuidar”, diz uma composição sem título que remete à deliberada imprecisão e ao ocultamento presentes em haicais de mestres japoneses como Shiki: “No meio do mato / a flor branca / seu nome desconhecido” (tradução: Maurício Arruda Mendonça). É inevitável fazermos uma aproximação entre a poesia de Nydia e um princípio essencial da filosofia da arte japonesa, o yugen, palavra geralmente traduzida como “charme sutil”. Os dois ideogramas que compõem essa palavra significam, respectivamente, mistério e obscuridade. Segundo Darci Yasuco Kusano, “yugen possui um significado além das aparências (...). Os fatores primordiais que constituem o yugen são a beleza e a elegância, aliadas à suavidade; o refinamento físico e espiritual (...). São igualmente expressões de yugen a beleza ideal, sublime, com uma aura de mistério”. Um haicai tem yugen se ele consegue abordar um assunto de maneira inusitada, mas com sutileza, sem ostentação ou vulgaridade. Assim, neste belíssimo micropoema de Nydia: “agora vazios – os campos de algodão / depois do vento”, que podemos comparar com um haicai de Nenpuku Sato: “sementes de algodão / agora são de vento / as minhas mãos” (tradução: Maurício Arruda Mendonça). Em ambas composições, o universo laboral está presente, em harmonia com o ritmo das estações e com os estados de espírito despertados pela condição sazonal, tópico imprescindível no terceto tradicional japonês, onde são incluídas palavras que fazem alusão às estações --  “vento de primavera”, “lua de outono” etc. Claro: Nydia não escreveu um livro apenas com haicais, nem pretende fazer um diálogo “exótico”, superficial, com a cultura japonesa: o que nos surpreende é a maneira como ela incorpora elementos desse repertório e os reelabora em sua poética minimalista, com graça e simplicidade.  O olho imagista ocidental, que alimentou a fanopeia de Ezra Pound, está presente aqui: “no imenso jardim povoado de verdes / uma só / flor / que de tão só – vermelha / destoa”, em que os espaços em branco entre as linhas e a composição exclusiva em caixa baixa reforçam a visualidade do texto, assim como a palavra “flor” isolada no meio do poema, denotando solitude. Há na poesia de Nydia – nascida em Piracaia, no interior de São Paulo – uma presença viva das paisagens da infância, que constroem pensamentos, lembranças e sensações, numa espécie de diário imagético: “tronco / retorcido em securas / restam / folhas miúdas / num cacho / único / flores rosas / pendem / e denunciam: -- a vida / resiste”. Em outra composição, a temática existencial se apresenta de forma ainda mais enigmática: “o não lugar – onde habita / a não / vida / e o não sonhar – morada / de tantos”. Extrema economia formal, reforçada pela linguagem substantiva e pela sintaxe fraturada, elíptica, que se adensa nas últimas peças do volume, culminando na necessária quietude: “peço silêncio / há uma flor: -- se abrindo / no jardim”.

quarta-feira, 26 de março de 2014

ZUNÁI, DEZ ANOS (II)


Zunái, Revista de Poesia e Debates, comemora dez anos de guerrilha virtual no ciberespaço. Criada em 2003 por Rodrigo de Souza Leão (1965-2009), Ana Peluso e por mim, a revista teve 26 edições eletrônicas em sua “primeira dentição” (www.revistazunai.com) e publicou alguns dos mais expressivos nomes da poesia, do teatro, do romance, do ensaio e das artes visuais brasileiras.   

Estiveram presentes, nas páginas da Zunái, autores como Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Arnaldo Antunes, Armando Freitas Filho, Josely Vianna Baptista, Claudia Roquette-Pinto, Gerald Thomas, Wilson Bueno, Evandro Affonso Ferreira, Nelson de Oliveira, Luiz Costa Lima, João Alexandre Barbosa, Regina Silveira, Leda Catunda e Guto Lacaz, para citarmos poucos nomes. 

Desde o início, a revista assumiu uma posição de voluntária parcialidade crítica (seguindo a lição de Baudelaire), exteriorizando os seus critérios de escolha e interferindo de maneira desafiadora no cenário cultural brasileiro, sem fazer concessões a estéticas mumificadas. 

Zunái 
assumiu o compromisso de publicar trabalhos de maior inventividade formal, em campos como o da poesia visual, da poesia sonora, da poesia digital, do texto poético experimental, sem filiar-se, porém, a nenhuma tendência literária específica, a nenhum programa normativo redutor: sua vocação é a de ampliar diferentes graus de ruído e dissonância, para desafinar a melodia única dos contentes. Esta pluralidade de radicalismos possíveis se manifestou em nosso interesse pela poesia neobarroca de José Kozer, Reynaldo Jiménez, Victor Sosa, León Félix Batista, mas também pelo minimalismo de André Dick e Virna Teixeira e pela escrita inclassificável de Jean Paul Michel, Edmond Jabès, Contador Borges, Abreu Paxe, Antônio Moura e Erin Moure. 

Nossa representação geométrica sempre foi o círculo, dentro do qual se movimentam infinitas linhas concêntricas, aproximando-se, distanciando-se, provocando colisões, ruídos e atritos criativos, em constante ebulição e metamorfose.

A Zunái sempre se recusou a fazer um mapeamento convencional da poesia brasileira – tarefa sempre incompleta e efêmera das revistas e antologias – mas, ao contrário, optou por iluminar autores que ficaram à margem do cânone rumoroso promovido pela mídia, organizado por critérios poucas vezes éticos ou estéticos. Publicamos autores jovens de violenta novidade formal e temática, que estão entre as vozes mais consistentes da nova poesia, como Contador Borges, Antônio Moura, Adriana Zapparoli, Andréia Carvalho, Marceli Andresa Becker, que trazem propostas de desestruturação da lírica coloquial-cotidiana do Modernismo (tão incensada por críticos midiáticos que nada sabem de poesia) e de reorquestração das palavras e frases em outras combinações possíveis, ampliando o léxico, renovando a sintaxe, dialogando com repertórios infrequentes, num sopro de renovação e desafio. 

Rompendo com o mimetismo colonizado das poéticas praticadas nos grandes centros econômicos, Zunáiestabeleceu novas parcerias, divulgando poetas de Angola, Moçambique, África do Sul, Síria, Cuba, México, Peru, República Dominicana, Venezuela, entre outras nações de poesia. O link Galeria publicou mostras virtuais de alguns dos mais conceituados artistas visuais brasileiros, como Regina Silveira, Guto Lacaz, Leda Catunda, Elida Tessler, Nino Cais e Eduardo Frota, enquanto o link de matérias especiais enfocou temas culturais mais amplos, envolvendo diferentes linguagens artísticas, como o teatro de Gerald Thomas, o cinema de Werner Herzog e Peter Greenaway, a prosa de Wilson Bueno, os 50 anos da Poesia Concreta e o debate sobre a crítica literária brasileira, em textos como "Muito além da academídia: poesia brasileira hoje", de Rodrigo Garcia Lopes, e "Pensando a poesia brasileira em cinco atos", de Claudio Daniel. 

Os editores de Zunái nunca tiveram o propósito de estabelecer ou defender uma suposta “estética única”, o que pode ser verificado facilmente na própria revista, onde publicamos desde haicais e poemas sonoros até composições concretistas e surrealistas; a inovação, para nós, nunca foi rua de mão única ou questão teológica ou metafísica. O que recusamos no ecletismo nunca foi a diversidade, mas a concessão sem critérios a estéticas frágeis, que não apresentam nenhuma novidade temática ou formal. A defesa intransigente da pesquisa estética, do experimentalismo, da inovação, em nenhum momento foi entendido por nós como nova torre de marfim, alheia aos acontecimentos no mundo – muito ao contrário. 

O design da capa da Zunái foi criado por Ana Peluso e por mim com o propósito de representar o conflito entre barbárie e cultura: os links, dispostos de maneira circular, incorporaram imagens de obras de arte da Antiguidade do Museu Nacional de Cabul, destruídas pelo Talebã sob a acusação de paganismo e idolatria. Na página do Expediente da revista, inserimos a imagem de uma obra de arte desaparecida do Museu de Bagdá, saqueado com a cumplicidade das tropas de ocupação norte-americanas. 

Zunái sempre se posicionou contra as guerras de rapina do império estadunidense no Oriente Médio e criou, no link Opinião, os Cadernos da Palestina, onde publicamos regularmente textos e fotos de denúncia da ocupação ilegal dos territórios palestinos pela entidade sionista. 

Durante o Fórum Social Mundial Palestina Livre, ocorrido em 2012, em Porto Alegre, Zunái esteve presente e distribuiu a plaquete Poemas para a Palestina, com peças escritas por autores como Glauco Mattoso, Marcelo Ariel, Lígia Dabul, Andréia Carvalho, Nina Rizzi, entre outros poetas brasileiros e portugueses (o texto original da plaquete, ampliado com a inclusão de novos poemas, foi publicado em 2014, na forma de livro, pela editora Patuá, do bravo Eduardo Lacerda). 

A revista também colaborou na organização da exposição fotográfica dedicada aos 30 anos do massacre de Sabra e Chatila, exposta no mesmo ano na Biblioteca Alceu Amoroso Lima. Zunái sempre acreditou que o engajamento estético não se opõe ao engajamento político, mas, ao contrário, é a sua contraparte dialética, como bem sabia André Breton, ao propor unir o “mudar a vida” de Rimbaud ao “mudar o mundo” de Marx (equação em que está implícita o “mudar a arte” de Lautréamont). 

O aniversário de dez anos da revista foi comemorado com um recital organizado pelo poeta Rubens Jardim, na Casa das Rosas, que contou com a participação de Frederico Barbosa, Claudio Willer, Alfredo Fressia, E. M. de Melo e Castro, Abreu Paxe, Nydia Bonetti, Andréia Carvalho, Edson Cruz, Luiz Ariston, Edson Bueno de Carvalho, Diogo Cardoso e Fabrício Slaviero. Uma festa de poesia. Em março deste ano será publicada uma antologia impressa de poemas e textos divulgados na Zunái ao longo da última década, com o apoio generoso da Lumme Editor. 

Agradecemos a todos aqueles que sempre apoiaram a revista, e em especial a Ana Peluso e Mariza Lourenço, responsáveis pelo design e atualização da “primeira dentição” da Zunái, e a Andréia Carvalho, editora de multimídia do novo site da revista.

Ave, Zunái!

São Paulo, a horrível / fins de 2013



segunda-feira, 24 de março de 2014

ZUNÁI, DEZ ANOS




Caros, na terça-feira, dia 25 de março, a partir das 20h30, acontecerá o Recital da Caixa Preta, na Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo. Na ocasião, haverá o lançamento de uma edição impressa da Zunái, comemorativa dos dez anos de existência da revista, além de leituras poéticas com a participação de Claudio Willer, Horácio Costa, Abreu Paxe, Dirceu Villa, Elson Fróes, Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, Francesca Cricelli, Roberta Ferraz, Alex Dias, Luiz Ariston, Chiu Yi Chih, Edson Bueno de Camargo, Claudio Daniel, Rubens Jardim, Marcelo Ariel, Célia Abila, Maria Alice Vasconcelos, Karine Kelly Pereira e Doroty B J Dimolitsas. Aguardo vocês lá!

domingo, 23 de março de 2014

A LÍRICA IMPREVISTA DE ALICE RUIZ



Alice Ruiz pertence a uma geração de poetas brasileiros que conviveu com a tradição literária do modernismo, a contracultura, o concretismo e a tropicália, num momento histórico de crise do regime autoritário e de retomada das lutas políticas e sociais que desaguariam na campanha por eleições diretas já, em 1984, marco da reconquista das liberdades democráticas, após duas décadas de arbítrio. O diálogo com a música popular, a linguagem publicitária, a história em quadrinhos, o zen-budismo e os temas do feminismo e da diversidade sexual está presente em diversas obras publicadas por poetas dessa geração, como Polonaises, de Leminski, Zil, de Duda Machado, Memórias de um pueteiro, de Glauco Mattoso e os poemas de Antonio Risério, publicados esparsamente em revistas independentes como Código, Raposa e Muda (a poesia de Risério seria reunida em livro apenas na década de 1990, com Fetiche e Brasibraseiro, este último escrito em parceria com Frederico Barbosa). O livro de estreia de Alice Ruiz, Navalhanaliga, publicado em 1980, está inserido nesse caldeirão cultural, mas já revela uma voz bastante singular, pelo alto impacto de suas imagens poéticas e referências biográficas e da realidade social da época. O próprio título do livro já indica uma operação de violência contra o lirismo e a sentimentalidade atribuídos por muito tempo à poesia de autoria feminina: Alice Ruiz reivindica, como símbolo de sua poética, nada menos que uma navalha, arma branca usada por garotas de programa para sua segurança pessoal. A subversão poética da autora, se recusa a ingenuidade romântica, investe, ao mesmo tempo, em composições de grande intensidade emocional, como a peça de abertura do volume: “não era ainda pessoa / e já sonhava / não é mais pessoa / e ainda sonha”, poema composto em homenagem ao filho Miguel Ângelo Leminski, falecido com apenas nove anos de idade. Esta peça, assim como outras de Navalhanaliga, utiliza recursos visuais, como a inserção de desenhos, fotos e símbolos de notação musical, com evidente ressonância da poesia concreta, mas sem dependência epigônica: a estratégia criativa de Alice Ruiz está mais próxima de um certo brutalismo que nos faz pensar nas Antologias mamalucas de Sebastião Nunes e nos poemas visuais do Jornal Dobrábil de Glauco Mattoso.  Em outra composição, em que as palavras, dispostas verticalmente, são escritas em branco sobre fundo negro (“elo / entre / olho / e / olho // espelho / rebelde / reflete / o / estranho”), podemos pensar nos labirintos visuais do barroco português e também na escrita ideográfica japonesa. Navalhanaliga, aliás, apresenta diversos haicais, gênero poético que a autora vem praticando, com extrema originalidade, em todos os seus livros publicados, especialmente Haitropicai (I985), escrito em parceria com Paulo Leminski, Desorientais (1996), Yuuca (2004) e o recente Jardim de haijin (2010). O haicai de Alice Ruiz descende da dicção intimista e bem-humorada de Kobayashi Issa (1763-1827), mas não se limita aos temas tradicionais, relacionados às estações da natureza, investindo, também, na denúncia política: “nesse país sem greve / só o relógio / faz o que deve” e no imaginário e vocabulário da cultura popular brasileira (“presente de vênus / primeira estrela que vejo / satisfaça o meu desejo”). Além de notável haicaísta, aliás, Alice Ruiz realizou traduções de poetas japonesas como Chiyo-Ni e Chine-Jo, reunidas no volume Dez haicais, impresso em Santa Catarina pela editora Noa Noa de Cleber Teixeira. Um belo poema que testemunha o seu amor pela forma poética nipônica é esta composição: “Francisco conseguia / entender / o que a ave dizia / Bashô enxergava / a lágrima / no olho do peixe”.

UMA ERÓTICA DO INUSITADO

Paixão xama paixão, o segundo livro de Alice Ruiz, publicado em 1983, incursiona em releituras da lírica camoniana e dos mitos bíblicos, de modo paródico e irreverente, e ainda no poema-piada, recorrente na produção dos autores da chamada Poesia Marginal, em versos como estes: “a gente é só amigo / e de repente / eu bem podia / ser essa mosca / perto do teu umbigo”, em que a coloquialidade e informalidade somam-se a uma imagética própria dos mestres japoneses. Em outra composição, que se avizinha do non sense, lemos: “o formigueiro que você olhava / voltou / ao seu lugar // você volta / a ver as formigas / no meu olhar”. A paixão, na lírica de Alice Ruiz, está sempre associada ao imprevisto, ao excêntrico, ao inusitado, expressando-se em hipérboles (“noite / cadelas no cio / disputam a primavera”), paradoxos (“a folha faz barulho / tenha ou não tenha letras // já o silêncio faz ver / todas as coisas pretas”) e jogos de palavras (“sem saudade de você / sem saudade de mim / o passado passou enfim”), trabalhados com aparente leveza e simplicidade. Esta dicção insubmissa e inventiva atinge plena maturidade no livro Pelos pelos (1984), cujo título evidencia, no trocadilho entre pelos (substantivo) e pelos (preposição), a conjunção entre o amor e a liberdade poética. Os poemas desse livro, de extrema fluência e musicalidade (“você fica / muito louco / muito branco / muito magro // o pó da estrada / que se afasta / é muito amargo // me sobra pouco / mas esse amar / eu sempre trago”), já denunciam a letrista de música popular, que compôs canções em parceria com músicos como Arnaldo Antunes, Alzira Espíndola e Itamar Assumpção (seu livro Poesia pra tocar no rádio, de 1999, reúne as letras e poemas musicados de todas as suas parcerias). Notamos nesta obra, apesar de sua erótica implícita, uma maior incidência de poemas logopaicos, aspecto menos comentado da poesia de Alice Ruiz: “minha voz / não chega aos seus ouvidos // meu silêncio / não toca teus sentidos // sinto muito / mas isso é tudo que sinto”. Claro: a reflexão amorosa ou existencial sempre é expressa com indisfarçada ironia e coloquialidade, com o uso freqüente da rima, que não é acessória, mas um elemento musical que reforça o sentido do texto: “quero fazer um verso / com todos os elementos / meus encantos / meus lamentos / que atravesse / ares e mares / e te alcance / e te arranque / de todos os pensamentos”. A poesia completa de Alice Ruiz (além dos títulos referidos, devemos acrescentar o volume Vice versos, de 1988) foi reunida no volume Dois em um (2008), publicado pela editora Iluminuras, iniciativa que não pode ser pouco elogiada, por colocar à disposição dos leitores de agora uma obra coerente e inventiva, de uma autora que está entre as vozes mais originais da poesia brasileira contemporânea.    

(Artigo publicado na edição de março da revista CULT, na coluna RETRATO DO ARTISTA.)


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

PROGRAMAÇÃO DE MARÇO DA CURADORIA DE LITERATURA E POESIA DO CENTRO CULTURAL SÃO PAULO



I Festival Poesia Nova

O Festival Poesia Nova é um evento anual da Curadoria de Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo que tem a proposta de divulgar autores brasileiros, jovens ou consagrados, que trabalham com novas tecnologias poéticas – como a poesia visual, sonora, digital, o poema-objeto, o poema-instalação, entre outras modalidades. O Festival incluirá também mesas de debates, recitais, performances, lançamentos de livros e revistas, com entrada franca. Com o objetivo de mostrar que o diálogo entre a poesia e as outras linguagens artísticas está presente mesmo em manifestações tradicionais da cultura popular brasileira, incluímos, nesta primeira edição do evento, apresentações de grupos de cordelistas da cidade de São Paulo. 


Terça-feira, 11 de março

Abertura da Mostra Videopoéticas II, nas dez telas de plasma espalhadas no Centro Cultural São Paulo.

17h Encontro de cordelistas, ao ar livre, na entrada principal do CCSP.

20h30 Performances de Lúcio Agra, Paulo Hartmann, Marcelo Sahea; apresentação das revistas eletrônicas Zunái e Mallarmargens.

SALA ADONIRAN BARBOSA


Quarta-feira, 12 de março

17h Encontro de cordelistas

19h Mesa A poesia e os meios eletrônicos, com Ernesto Melo e Castro, Omar Khouri, Jorge Luís Antônio

Mediação: Edson Cruz

20h30 Performance de Nina Rizzi e recital com Claudio Willer, Rubens Jardim, Victor Sosa, Estrela Ruiz Leminski, Edson Cruz, Andréia Carvalho, Nuno Rau, Diogo Cardoso, Daniel Faria, Karine Kelly, Roberta Ferraz, Fabrício Slaviero, Claudio Daniel, Andréa Catrópa, Edson Bueno de Camargo, Thiago Ponce de Moraes, Natália de Barros, Luiz Ariston Dantas, Greta Benitez.

Lançamento do livro A duração do deserto, de Nina Rizzi.

SALA ADONIRAN BARBOSA


Quinta-feira, dia 13 de março

20h30 recital com Antônio Moura, Adriana Zapparoli, Chiu Yi Chih, Mariela Mei, Marcelo Ariel, Alexandre Pedro, Luiz Ariston Dantas, Alex Dias, Rubens Zárate, Rosana Piccolo e Adriana Brunstein.

SALA DE DEBATES


Poemas à Flor da Pele

Sarau poético realizado pelo grupo Poemas à Flor da Pele, com a participação de músicos e atores. Haverá também o lançamento de livros de poesia de novos autores.

Sexta-feira, dia 14/03/14, das 19h às 20h30  

Sala Adoniran Barbosa


Cantos da leitura: vozes da resistência

Recital poético organizado por Patrícia Romiti com textos de autores que tematizam os “negros verdes anos” do período da ditadura militar no Brasil, como Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Ferreira Gullar, Haroldo de Campos e Paulo Leminski.

Terça-feira, dia 18/03/14, das 20h30 às 22h 

Sala Adoniran Barbosa

Seminário sobre Clóvis Moura

Evento em homenagem ao poeta Clóvis Moura, dez anos após o seu falecimento.

Sábado, 22 de março, das 14h às 19h

Sala de Debates


Recital da Caixa Preta

Recital poético com a participação de Adriana Zapparoli, Mariela Mei, Edson Bueno de Camargo, Rubens Jardim, Marcelo Ariel, Chiu Yi Chih, Fabrício Clemente, Luiz Ariston, Célia Abila, Fabrício Slaviero, Celso Vegro, Maria Alice Vasconcelos, Karine Kelly, Maria Fátima, Dora Dimolitsas, Charles Gentil, Shirleyde Valença. Haverá lançamentos de revistas literárias e livros de poesia.

Terça-feira, 25 de março, das 19h30 às 22h

Sala Adoniran Barbosa


Poesia dos 4 Cantos: Noite Árabe

Poesia dos Quatro Cantos é uma atividade mensal dedicada à divulgação da poesia internacional, num formato que inclui a leitura com danças e músicas típicas de cada país, nos intervalos das leituras. Em março, será feita a apresentação de uma Noite Árabe com os poetas Paulo Daniel Farah, Khaled Mohassen, Yunes Chami e Claudio Daniel, que lerão poemas de autores árabes contemporâneos, com a participação dos músicos Claudio Kairouz, Rogério de Queiroz, William Bordokan, Semi el Khouri Bordokan e da dançarina Cristina Antoniadis Bordokan.

Quarta, 26 de março, das 20h30 às 22h

Sala Adoniran Barbosa


UMA CONVERSA COM EMIR SADER

O sociólogo Emir Sader fará um depoimento sobre o golpe de estado de 1964 e o significado das mudanças democráticas que aconteceram no país nas últimas décadas. Em seguida, responderá a perguntas do público, num bate-papo informal.

Sábado, 29 de março, das 15h às 17h

Sala Paulo Emílio Salles Gomes 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

CADERNOS BESTIAIS (VI)


TEU VERDE
Todas as mulheres são tigres desenhados em teus olhos.
* * *
Há um vocabulário do verde,
inumeráveis ecos do teu verde
que se desdobram na noite estrelada:
olhos-pés, olhos-mãos, olhos-boca, olhos-peitos, olhos-nada.
Cada letra de teu nome tem a sua própria cabeleira,
denso alfabeto que incita à iniciação no segredo de teu segredo.
Tua sombra segue minha sombra em cada passo mínimo.

2014

domingo, 16 de fevereiro de 2014

CADERNOS BESTIAIS (V)


CONTRA A ENTRANHA

Contra a entranha —
multiplica o medo
no borrão desfigurado;

unhas enegrecidas,
maxilares arrancados,
miuçalha de carcaças.

Nenhuma língua enterrada
na fossa onde caranguejos
copulam com capulhos;

mistério ou talvez corrosão
de ácidos na decapagem
para a despossessão de tudo.

Retrátil, contra teu sangue,
a exaustão do que esfiapa
o símile do pensamento.

Esta pele, tua pele, nenhuma pele:
tudo é número e o número
é legião; meu nome é legião.

(Poema escrito por ocasião dos 50 anos do golpe de 01 de abril de 1964.)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

POEMAS PARA A PALESTINA


Poemas para a Palestina, antologia que reúne textos de 21 poetas brasileiros de diferentes gerações e estilos que enfocam a história recente do povo palestino, desde a Nakba ("catástrofe" em árabe) de 1948, que levou 750 mil palestinos ao exílio, até o drama vivido hoje pelas populações de Gaza e Cisjordânia sob a ocupação sionista. Os poemas reunidos neste volume são ao mesmo tempo um registro histórico, um depoimento humano e uma manifestação de solidariedade pela palavra poética. Lançamento previsto para MARÇO, aguardem!

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

GENERAL MANDÍBULA ATACA GOTHAM CITY: A POESIA DE ADEMIR ASSUNÇÃO


 


A voz do ventríloquo (São Paulo: Edith, 2012, que recebeu o Prêmio Jabuti no ano passado), é o quarto volume de poemas de Ademir Assunção, que também publicou LSD nô (1994), Zona branca (2000) e  A musa chapada (2008, em parceria com Antônio Vicente Seraphim Pietroforte e o artista visual Carlos Carah), além dos volumes de prosa experimental  A máquina peluda (1997), Cinemitologias (1998), Adorável criatura Frankenstein (2003) e dos CDs de música e poesia Rebelião na zona fantasma (2005) e Vira-latas de Córdoba (2013). Os títulos de seus livros já deixam explícito o diálogo do autor com o universo das histórias em quadrinhos, do cinema, da música pop, da contracultura, das mitologias pré-colombianas e do Oriente — diálogo já bem comentado na fortuna crítica do autor.

Estas referências são comuns a outros poetas de sua geração, como Maurício Arruda Mendonça, Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes, que compartilham ainda o interesse pela poesia e concepção de vida dos poetas beats norte-americanos, como Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti e Allen Ginsberg. A poesia de Ademir Assunção, no entanto, não se esgota em tais referências: sua temática é mais ampla, incluindo o retrato alegórico da cidade, com ênfase nos que estão situados à margem, como as prostitutas, traficantes, menores abandonados e moradores de rua, a reinvenção de mitos indígenas, gregos e bíblicos (Ulisses na tormenta, Na cova dos leões), a sensação de deslocamento e incomunicabilidade num mundo cada vez mais dominado pelo mercado e pela mídia, a loucura belicista, a busca do amor como a utopia possível, para citar alguns temas recorrentes.

Sua técnica literária pouco tem a ver com a prosódia beat: basta compararmos um poema de Allen Ginsberg, como o Uivo, com seu jorro discursivo que se aproxima da prosa, com O pântano, um dos mais belos poemas de A voz do ventríloquo: “Há uma serpente enrodilhada nas ramagens / do poema: / cauda verde-turquesa, escamas / mitológicas, cabeça / de névoa”. Este poema se aproxima da estética neobarroca, não apenas pela riqueza imagética e metafórica, mas sobretudo pela colagem de referências de diferentes repertórios culturais, como “um cemitério de aviões de caça da Segunda Guerra” e “uma rainha que trepa / com o próprio filho” (Jocasta?), “prostitutas chinesas” e “um monstro de folhagens / e couro cru de crocodilo”. Claro: a montagem ou justaposição de cenas é uma técnica narrativa do cinema, que está presente em quase toda a obra de Ademir Assunção, em especial nos livros Cinemitologias e Zona branca, mas também aqui, na Voz do ventríloquo, assim como o diálogo criativo com o jazz (Billie Holiday na porta dos fundos), a pintura (O grito) e a televisão (A vida em tecnicolor). Não se trata de mera exibição de citações cultas, fetichismo que muito afetou a poesia da década de 1990, mas de releituras que o poeta faz das coisas que fazem sentido para a sua sensibilidade e compreensão de si mesmo e do mundo, de seus medos, vivências e obsessões.

Podemos dizer que a poesia de Ademir Assunção tem um alto grau de sinceridade, mas que não é confessional, como boa parte da literatura beat – os poemas amorosos de Allen Ginsberg e os romances de Jack Kerouac, por exemplo, onde são nítidos os traços autobiográficos. A sinceridade na escrita, é bom ressaltar, não significa o registro imediato de sensações, o lirismo espontâneo, herdeiro da escrita automática dos surrealistas (a frase zen-budista “Primeira ideia, melhor ideia” era uma das favoritas de Ginsberg). Ademir Assunção visa justamente o contrário, desautomatizar a escrita e o pensamento, para tornar mais afiadas as palavras da tribo: “eu sou poeta e sigo em frente / em linhas tortas / eu não lido com palavras mortas”, diz ele no poema Orfeu nos quintos dos infernos.

A imaginação poética – melhor dizendo, a máquina de fabricar mitologias – de Ademir Assunção caminha de mãos dadas com a informalidade de Paulo Leminski, Roberto Piva e Torquato Neto, três de seus ícones culturais – por isso mesmo já chamei essa poesia, em outro artigo, valendo-me de um oxímoro, de “formalismo informal”, característica que acompanha o autor desde o seu primeiro título publicado, LSD Nô (1994), em que é mais evidente a influência da Poesia Concreta, na escolha da tipologia de letras, espacialização das palavras e linhas e outros recursos que realçam a visualidade. Notáveis são os haicais que Ademir Assunção – estudioso e praticante do zen-budismo – inclui no final desse livro, entre eles “a chuva / molha / uma lágrima” e “cachorro sem dono / chuva fria / de outono”.

A paródia é um dos recursos mais usados pelo poeta, seja a glosa satírica do discurso quinhentista, em Máquina peluda, seja a reapropriação crítica da linguagem e técnica narrativa das histórias em quadrinhos, em Zona branca e A voz do ventríloquo, onde aparecem personagens como o General Mandíbula, O Anjo do Ácido Elétrico e Mister P., inventados pelo autor, ao lado de Orfeu, Ulisses, Heráclito, Iemanjá, o Coringa e King Kong.  A própria Poesia, e o seu irmão Prosa, comparecem nas páginas do Diário do Ventríloquo, inserções de prosa narrativa com fundo preto e as letras em cor branca que aparecem em várias seções do livro, como se fosse uma narrativa paralela, um canto dialogado. A organização dos poemas e textos em prosa obedece a um princípio não-linear, mimetizando, no próprio corpo semântico, o caos e a fragmentação do mundo a nossa volta. O fio condutor do livro talvez esteja no próprio título do volume: é a voz invisível do ventríloquo, esse eu lírico que percorre as ruas de Gotham City “enquanto o Coringa injeta no braço esquálido / a última gota da ampola”.  Convém destacar o trabalho de Ademir Assunção com a oralidade, presente sobretudo em seus CDs, Rebelião na zona fantasma e Viralatas de Córdoba, em que os poemas não são cantados, nem recitados com intenção retórica, mas declamados com fina sensibilidade; o poeta explora a dimensão melódica e emotiva de cada palavra, com silêncios, ênfases e variações de timbre, dialogando com as intervenções sonoras da banda Fracasso da Raça, numa unidade estética entre palavra e música. 


(Artigo publicado na edição de fevereiro da revista CULT, na coluna Retrato do Artista.)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

CADERNOS BESTIAIS (IV)

  

ANTIMÍDIA (I)

Tunisiano de cabeça nervurada assenhora-se
da unha mínima
da história
enfurece letras que são bichos
de um minucioso horror
quando a morte engole manápulas
e adensa paisagens-vértebras
daqueles que não têm nome daqueles que
não têm nome nenhum nada além
de ninguém
tudo é um jogo desjogado de lacraus
letras que são bichos no escuro letras que
são lepras de lorpas no escuro
tateando entre os tufos da fome tateando
entre os húmus da usura tateando entre
assemelhar-se anfíbio
assemelhar-se reptante no asco
da rachadura no asco do desvão
em que se obliteram as anfetaminas
da desmemória
linhas incisivas num crescendo menos o focinho
menos a mandíbula menos as
tíbias esmagadas no
fosso monocromático do não –
há uma caixa torácica que canta
sozinha no deserto de Mojave
onde marines enrabam desvestidas traqueias
antes de matarem qualquer coisa viva – 
dentes-de-leão ressonam numa tarde esfumada de setembro
em que um poeta (tunisiano?) soletra a sub-reptícia
sombra da vivissecção.

2014 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

1964 NUNCA MAIS!




O Centro Cultural São Paulo realizará em 2014 diversas atividades para recordar os 50 anos do golpe civil-militar de 01 de abril de 1964, que mergulhou o Brasil num dos períodos mais sombrios de toda a sua história, e também os 30 anos da campanha popular pelas Diretas-Já, que levou ao fim do ciclo autoritário e ao começo de uma nova jornada em direção à democracia. Nos meses de fevereiro e março, a Curadoria de Literatura e Poesia do CCSP realizará palestras, debates e recitais alusivos ao tema, além de promover a distribuição de panfletos poéticos, com textos de autores que denunciaram o clima de violência e opressão de nossos “negros verdes anos”. Convidamos a todos vocês para que prestigiem a nossa programação! 


DEMOCRACIA E MÍDIA

Debate com o blogueiro Altamiro Borges, o jornalista José Carlos Ruy e o escritor Jeosafá Fernandes sobre as relações entre os veículos de comunicação tradicionais e a democracia, ontem e hoje.

Sexta-feira, dia 14/02/14, das 20h30 às 22h 

Sala Adoniran Barbosa 


CANTOS DA LEITURA: VOZES DA RESISTÊNCIA

Recital poético organizado por Patrícia Romiti com textos de autores que tematizam os anos do período da ditadura militar no Brasil, como Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Ferreira Gullar, Haroldo de Campos e Paulo Leminski.

Terça-feira, dia 18/03/14, das 20h30 às 22h 

Sala Adoniran Barbosa



UMA CONVERSA COM EMIR SADER

O sociólogo Emir Sader fará um depoimento sobre o golpe de estado de 1964 e o significado das mudanças democráticas que aconteceram no país nas últimas décadas. Em seguida, responderá a perguntas do público, num bate-papo informal. 

Sábado, 29 de março, das 15h às 17h

Sala Paulo Emílio Salles Gomes 


PANFLETOS POÉTICOS


Serão distribuídos em diferentes pontos da cidade “panfletos poéticos” editados pela Curadoria de Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo, com textos de autores como Glauco Mattoso, Haroldo de Campos e Paulo Leminski

domingo, 26 de janeiro de 2014

CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS



A burguesia brasileira já nasceu associada ao latifúndio e ao grande capital internacional. Ela soube conviver com a monarquia, a escravidão, as oligarquias rurais e por fim com a ditadura militar, que financiou e apoiou desde o início. Sua incompetência é histórica: foi incapaz de realizar uma revolução democrática nos moldes das grandes revoluções européias, preferindo sempre firmar pactos com outros setores hegemônicos para transições conservadoras que mantiveram intactos o latifúndio e os privilégios das minorias. A república burguesa no Brasil privou as mulheres, os negros, os pobres e analfabetos de seus de direitos políticos (incluindo o direito de voto) até o curto período democrático de 1945 e 1964, e manteve a mulher em posição de segunda classe no Código Civil até a redemocratização do país, na década de 1980 (antes, a mulher era considerada, na legislação em vigor, “relativamente incapaz”, ao lado dos índios, das crianças e dos doentes mentais). Hoje, essa mesma burguesia, que sempre se acovardou frente ao capital internacional, resgata os mais toscos preconceitos possíveis – contra negros, pobres, nordestinos, homossexuais – e usa os meios de comunicação e o poder judiciário numa cruzada reacionária, para tentar frear as mudanças sociais ocorridas nos últimos dez anos, com Lula e Dilma. Ela não tem nenhum projeto de país – nunca teve --, não tem propostas, nem mesmo uma ideologia clara, além da enfática defesa do lucro desmedido e da exclusão social. Uma classe tão medíocre, tão mesquinha, tão covarde, merecerá o destino que a história lhe reserva.

UM POEMA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



NUDEZ


Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.

Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.

Nem era dor aquilo que doía:
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)

Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.

Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.

Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

CADERNOS BESTIAIS (III)


CABEÇA DE NÃO

Cabeça de negro – não entra –

cabeça de branco –

entra – cabeça de pobre –

não entra – cabeça de nobre –

entra – cabeça de pardo –

não entra – cabeça de podre –

entra – cabeça de cobre –

não entra, nem cabeça,

nem pés, nem mãos,

nem joelhos, nem nada –

não entra, neste passeio;

não entra, neste passado;

se é preto ou pardo;

por isso, o poeta contesta,

por isso o poeta protesta,

por isso o poeta desafia,

por isso o poeta desafina,

se alinha junto a esses e a essas,

por isso, por aquilo, por tudo, por nada.

2014

domingo, 12 de janeiro de 2014

CADERNOS BESTIAIS (II)



BREVE HISTÓRIA DO FABRICANTE DE CERVEJA

Cabeça com tentáculos de harpia,
obeso como grávido
escaravelho,
despreza (deliberadamente)
as leis
que o desagradam.
Contrata paraguaios, chilenos, peruanos,
hondurenhos, guatemaltecos,
haitianos
para trabalharem
em sua fábrica,
sem identidade, passaporte
ou carteira de trabalho.
Tudo é número
no anguloso inferno fabril.
Multiplica as horas
para a moagem do malte,
a maceração,
a fervura do mosto,
a adição dos lúpulos de aroma,
a decantação.
Com olhar imóvel de um porco morto,
contabiliza os ganhos
de sua rapinagem
clandestina,
como quem conta cordeiros
ou estrelas.
Um dia, cinco musculosos haitianos
pegaram o pilantra
pelas orelhas,
surraram-no
e jogaram-no
no meio da fervura.
Após o expediente,
reuniram todo o pessoal
no quintal da fábrica
e beberam muita, muita cerveja.


PAISAGEM

Árvores saqueiam o arco-íris.

Três banqueiros atiram-se
ao rio e morrem afogados.

Nuvens piscam o olho para o sol,
que enfurece os dentes-de-leão.

Ninguém me oferece uma estrela.

Quando eu morrer, me enterrem
na tua voz.


JUIZ

Cabeça de fungo 
reptilizada
olho-de-corvo
e coluna inclinada
calvo como um imperador
romano, sorriso áspero
e lustrosos sapatos italianos
toga escura como o medo
(enterra-te no escuro,
enterra-te no medo).

  
JUIZ (II)

“Tu, pessoa nefasta”
— Gilberto Gil

Fúria,
palavras afiadas 
em fúria, para fustigar 
a esfarrapada justiça
e sua voz estorricada 
que absolve os roubos dos ricos
e condena os insubordinados, 
ladrando trevas.


sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

CADERNOS BESTIAIS



ANÔNIMOS
Há um louco solto na rua.
(Os livros dos uigures foram escritos para serem esquecidos.) 
Um policial pede os seus documentos.

(Há três ou quatro especialistas em língua suméria.) 

O louco entrega-lhe um tijolo.

(Uma tribo na Ásia Central escreve seus livros sagrados nos ventres de mulheres-anãs.)

O policial fica furioso porque queria um sapato.

(Um miniaturista persa escreveu um longo poema épico numa pena de faisão.)
Eles começam a discutir e logo aparece uma mulher gorda que entra na confusão.

(Sobre o que conversam as abelhas?)

O louco declara o seu amor pelos incêndios.

(Nuvens serão letras de um alfabeto cabalístico?)

O policial é apaixonado por boxeadores e telepatas.

 (Os melhores poemas ainda não foram escritos, disse para mim um asceta tuaregue.)

A mulher gorda ataca o louco com a sola de um sapato.

(Quem conhece um grande romancista da Lituânia?)

O cinegrafista do Grande Telejornal filma todo o episódio para exibir no horário nobre. 

(Há indícios de vogais e consoantes em teus pequenos lábios.)

 Logo surgem legiões de publicitários, jornaleiros e vendedores de apólices de seguros e tem início uma pancadaria.

(Poucos são capazes de ler as mensagens ocultas no interior das nozes.)


FIM DO MUNDO

À memória de Jakob van Hoddis

Loba ensandecida rumina vermes de escuro escárnio.
Alguém-ninguém atravessa a rua
e em todos os cantos 
ouvem-se gritos 
feito guinchos
de um porco amarelo.
Cai um aguaceiro
na cidade esquálida
e os bairros alagados atingem as estrelas. 
Banqueiros obesos caem do telhado 
e se despedaçam.
Numa placa de rua, 
lemos: cuidado.
Quase todos têm secreções nasais;
os ônibus correm nas avenidas 
a toda velocidade,
entram nos viadutos
e se chocam contra as paredes.

Todas as palavras não são mais que uma superfície de cacos de vidro à entrada de uma cidade maldita.


JAMAIS

Para Fabrício Slaviero

bichos de verde-muco proliferam
nos entalhes do tapume;
antiaranhas deslizam
nas ramagens,
tramam teias e resíduos
de uma dor vermelha,
recíproca.
há um plasma em cada fenda,
em cada vão
de madeira apodrecida.
há um acre açafrão
em cada veio
do reboco, com seu ácido.
tateiam algo, quem, aqui –
ou apenas arrulhos, crostas, escaras,
ninguém com óculos de aro fino,
breve gravata lilás e uma refinadíssima
sensibilidade no olfato; não, ninguém,
nunca houve, jamais.


ARAMES, RETALHOS

esqueletos do nunca
onde o áspero da palavra,
brutais de dezembro.
porque esta não é a minha língua:
retorcidos de mistério,
caranguejo onagro.
onde se desdobra a pedra, onde se
desdobra o nojo desse nunca,
que se anuncia indesejoso:
são palavras em seu verde, em seu asco;
são vértebras de escárnio,
entulhos-de-orelhas à procura da mulher-dos-gatos.
porque nada faz sentido, eu sei,
neste reverso em que me falas,
primitiva, reverberante,
com a nudez que me calam os arames, os retalhos;
com a nudez de um estuque de plantas,
ruidosa, em expansão — e só me resta confessar
os fumos de aranha, inconcluso,
quando indagas sobre o meu labirinto.


FIM DE CASO

depois da separação
embora eu me dissuadisse
que a memória esfumaçada
era apenas resíduo efêmero,
a pele escandida recusava 
toda tentativa de esquecimento,
amealhava cenas e palavras
descoloridas, mas ainda cruéis,
quadros que gritam na exposição,
quadros vivos que se assenhoram
de cada minuto, de cada silêncio,
de cada pálpebra, sem cautério:
cansado de lutar com a dor,
convidei-a para dormir comigo.


CANTIGA

Penso em você eroticamente.
Até a fabulação
de outra margem,
na estranha habitação onde os números,
pares e ímpares, enlouquecem.

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Um minúsculo leão branco habita a sua fenda.


***

A ferocidade
no limiar da noite,
quando a pele —
desmedida, irremissível,
se projeta em outra pele:
nenhum destino além do nervo tumultuário.


(Poemas inéditos de Claudio Daniel)