Caros, na terça-feira, dia 25 de março, a partir das 20h30, acontecerá o Recital da Caixa Preta, na Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo. Na ocasião, haverá o lançamento de uma edição impressa da Zunái, comemorativa dos dez anos de existência da revista, além de leituras poéticas com a participação de Claudio Willer, Horácio Costa, Abreu Paxe, Dirceu Villa, Elson Fróes, Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, Francesca Cricelli, Roberta Ferraz, Alex Dias, Luiz Ariston, Chiu Yi Chih, Edson Bueno de Camargo, Claudio Daniel, Rubens Jardim, Marcelo Ariel, Célia Abila, Maria Alice Vasconcelos, Karine Kelly Pereira e Doroty B J Dimolitsas. Aguardo vocês lá!
segunda-feira, 24 de março de 2014
domingo, 23 de março de 2014
A LÍRICA IMPREVISTA DE ALICE RUIZ
Alice Ruiz pertence a uma
geração de poetas brasileiros que conviveu com a tradição literária do
modernismo, a contracultura, o concretismo e a tropicália, num momento
histórico de crise do regime autoritário e de retomada das lutas políticas e
sociais que desaguariam na campanha por eleições diretas já, em 1984, marco da reconquista
das liberdades democráticas, após duas décadas de arbítrio. O diálogo com a
música popular, a linguagem publicitária, a história em quadrinhos, o
zen-budismo e os temas do feminismo e da diversidade sexual está presente em diversas
obras publicadas por poetas dessa geração, como Polonaises, de Leminski, Zil,
de Duda Machado, Memórias de um pueteiro,
de Glauco Mattoso e os poemas de Antonio Risério, publicados esparsamente em
revistas independentes como Código,
Raposa e Muda (a poesia de
Risério seria reunida em livro apenas na década de 1990, com Fetiche e Brasibraseiro,
este último escrito em parceria com Frederico Barbosa). O livro de estreia de
Alice Ruiz, Navalhanaliga, publicado em 1980, está inserido nesse
caldeirão cultural, mas já revela uma voz bastante singular, pelo alto impacto
de suas imagens poéticas e referências biográficas e da realidade social da
época. O próprio título do livro já indica uma operação de violência contra o
lirismo e a sentimentalidade atribuídos por muito tempo à poesia de autoria
feminina: Alice Ruiz reivindica, como símbolo de sua poética, nada menos que uma
navalha, arma branca usada por garotas de programa para sua segurança pessoal.
A subversão poética da autora, se recusa a ingenuidade romântica, investe, ao
mesmo tempo, em composições de grande intensidade emocional, como a peça de
abertura do volume: “não era ainda pessoa / e já sonhava / não é mais pessoa /
e ainda sonha”, poema composto em homenagem ao filho Miguel Ângelo Leminski,
falecido com apenas nove anos de idade. Esta peça, assim como outras de Navalhanaliga, utiliza recursos visuais,
como a inserção de desenhos, fotos e símbolos de notação musical, com evidente
ressonância da poesia concreta, mas sem dependência epigônica: a estratégia
criativa de Alice Ruiz está mais próxima de um certo brutalismo que nos faz
pensar nas Antologias mamalucas de Sebastião
Nunes e nos poemas visuais do Jornal
Dobrábil de Glauco Mattoso. Em outra
composição, em que as palavras, dispostas verticalmente, são escritas em branco
sobre fundo negro (“elo / entre / olho / e / olho // espelho / rebelde /
reflete / o / estranho”), podemos pensar nos labirintos visuais do barroco
português e também na escrita ideográfica japonesa. Navalhanaliga, aliás, apresenta diversos haicais, gênero poético
que a autora vem praticando, com extrema originalidade, em todos os seus livros
publicados, especialmente Haitropicai (I985),
escrito em parceria com Paulo Leminski, Desorientais
(1996), Yuuca (2004) e o recente Jardim de haijin (2010). O haicai de
Alice Ruiz descende da dicção intimista e bem-humorada de Kobayashi Issa
(1763-1827), mas não se limita aos temas tradicionais, relacionados às estações
da natureza, investindo, também, na denúncia política: “nesse país sem greve /
só o relógio / faz o que deve” e no imaginário e vocabulário da cultura popular
brasileira (“presente de vênus / primeira estrela que vejo / satisfaça o meu
desejo”). Além de notável haicaísta, aliás, Alice Ruiz realizou traduções de
poetas japonesas como Chiyo-Ni e Chine-Jo,
reunidas no volume Dez haicais,
impresso em Santa
Catarina pela editora Noa Noa de Cleber Teixeira. Um belo
poema que testemunha o seu amor pela forma poética nipônica é esta composição:
“Francisco conseguia / entender / o que a ave dizia / Bashô enxergava / a
lágrima / no olho do peixe”.
UMA ERÓTICA DO
INUSITADO
Paixão xama paixão, o segundo livro de Alice Ruiz, publicado em 1983, incursiona
em releituras da lírica camoniana e dos mitos bíblicos, de modo paródico e
irreverente, e ainda no poema-piada, recorrente na produção dos autores da
chamada Poesia Marginal, em versos como estes: “a gente é só amigo / e de
repente / eu bem podia / ser essa mosca / perto do teu umbigo”, em que a
coloquialidade e informalidade somam-se a uma imagética própria dos mestres
japoneses. Em outra composição, que se avizinha do non sense, lemos: “o formigueiro que você olhava / voltou / ao seu
lugar // você volta / a ver as formigas / no meu olhar”. A paixão, na lírica de
Alice Ruiz, está sempre associada ao imprevisto, ao excêntrico, ao inusitado, expressando-se
em hipérboles (“noite / cadelas no cio / disputam a primavera”), paradoxos (“a
folha faz barulho / tenha ou não tenha letras // já o silêncio faz ver / todas
as coisas pretas”) e jogos de palavras (“sem saudade de você / sem saudade de
mim / o passado passou enfim”), trabalhados com aparente leveza e simplicidade.
Esta dicção insubmissa e inventiva atinge plena maturidade no livro Pelos pelos (1984), cujo título
evidencia, no trocadilho entre pelos
(substantivo) e pelos (preposição), a
conjunção entre o amor e a liberdade poética. Os poemas desse livro, de extrema
fluência e musicalidade (“você fica / muito louco / muito branco / muito magro
// o pó da estrada / que se afasta / é muito amargo // me sobra pouco / mas
esse amar / eu sempre trago”), já denunciam a letrista de música popular, que
compôs canções em parceria com músicos como Arnaldo Antunes, Alzira Espíndola e
Itamar Assumpção (seu livro Poesia pra
tocar no rádio, de 1999, reúne as
letras e poemas musicados de todas as suas parcerias). Notamos nesta obra,
apesar de sua erótica implícita, uma maior incidência de poemas logopaicos,
aspecto menos comentado da poesia de Alice Ruiz: “minha voz / não chega aos
seus ouvidos // meu silêncio / não toca teus sentidos // sinto muito / mas isso
é tudo que sinto”. Claro: a reflexão amorosa ou existencial sempre é expressa
com indisfarçada ironia e coloquialidade, com o uso freqüente da rima, que não
é acessória, mas um elemento musical que reforça o sentido do texto: “quero
fazer um verso / com todos os elementos / meus encantos / meus lamentos / que
atravesse / ares e mares / e te alcance / e te arranque / de todos os
pensamentos”. A poesia completa de Alice Ruiz (além dos títulos referidos,
devemos acrescentar o volume Vice versos,
de 1988) foi reunida no volume Dois em
um (2008),
publicado pela editora Iluminuras, iniciativa que não pode ser pouco elogiada,
por colocar à disposição dos leitores de agora uma obra coerente e inventiva, de
uma autora que está entre as vozes mais originais da poesia brasileira
contemporânea.
(Artigo publicado na edição de março da revista CULT, na coluna RETRATO DO ARTISTA.)
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
PROGRAMAÇÃO DE MARÇO DA CURADORIA DE LITERATURA E POESIA DO CENTRO CULTURAL SÃO PAULO
O Festival Poesia Nova é um evento anual
da Curadoria de Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo que tem a
proposta de divulgar autores brasileiros, jovens ou consagrados, que trabalham
com novas tecnologias poéticas – como a poesia visual, sonora, digital, o
poema-objeto, o poema-instalação, entre outras modalidades. O Festival incluirá
também mesas de debates, recitais, performances, lançamentos de livros e revistas,
com entrada franca. Com o objetivo de mostrar que o diálogo entre a poesia e as
outras linguagens artísticas está presente mesmo em manifestações tradicionais
da cultura popular brasileira, incluímos, nesta primeira edição do evento,
apresentações de grupos de cordelistas da cidade de São Paulo.
Terça-feira,
11 de março
Abertura da Mostra Videopoéticas
II, nas dez telas de plasma espalhadas no Centro Cultural São Paulo.
17h Encontro de cordelistas, ao ar livre, na entrada principal
do CCSP.
20h30 Performances de Lúcio Agra, Paulo Hartmann, Marcelo Sahea;
apresentação das revistas eletrônicas Zunái
e Mallarmargens.
SALA
ADONIRAN BARBOSA
Quarta-feira,
12 de março
17h Encontro de cordelistas
19h Mesa A poesia e os meios
eletrônicos, com Ernesto Melo e Castro, Omar Khouri, Jorge Luís Antônio
Mediação: Edson Cruz
20h30 Performance de Nina Rizzi e recital com Claudio Willer,
Rubens Jardim, Victor Sosa, Estrela Ruiz Leminski, Edson Cruz, Andréia
Carvalho, Nuno Rau, Diogo Cardoso, Daniel Faria, Karine Kelly, Roberta Ferraz,
Fabrício Slaviero, Claudio Daniel, Andréa Catrópa, Edson Bueno de Camargo,
Thiago Ponce de Moraes, Natália de Barros, Luiz Ariston Dantas, Greta Benitez.
Lançamento do livro A duração do deserto, de Nina Rizzi.
SALA
ADONIRAN BARBOSA
Quinta-feira, dia
13 de março
20h30 recital com Antônio Moura, Adriana Zapparoli, Chiu Yi Chih,
Mariela Mei, Marcelo Ariel, Alexandre Pedro, Luiz Ariston Dantas, Alex Dias,
Rubens Zárate, Rosana Piccolo e Adriana
Brunstein.
SALA
DE DEBATES
Poemas à Flor da Pele
Sarau poético realizado pelo grupo Poemas à Flor da Pele,
com a participação de músicos e atores. Haverá também o lançamento de livros de
poesia de novos autores.
Sexta-feira, dia 14/03/14, das 19h às
20h30
Sala Adoniran Barbosa
Cantos da leitura: vozes da resistência
Recital
poético organizado por Patrícia Romiti com textos de autores que tematizam os
“negros verdes anos” do período da ditadura militar no Brasil, como Carlos
Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Ferreira Gullar, Haroldo de Campos e
Paulo Leminski.
Terça-feira,
dia 18/03/14, das 20h30 às 22h
Sala Adoniran Barbosa
Seminário sobre Clóvis Moura
Evento
em homenagem ao poeta Clóvis Moura, dez anos após o seu falecimento.
Sábado, 22 de março, das 14h às 19h
Sala de Debates
Recital da Caixa Preta
Recital
poético com a participação de Adriana Zapparoli, Mariela Mei, Edson Bueno de Camargo, Rubens
Jardim, Marcelo Ariel, Chiu Yi Chih, Fabrício Clemente, Luiz Ariston, Célia
Abila, Fabrício Slaviero, Celso Vegro, Maria Alice Vasconcelos, Karine Kelly,
Maria Fátima, Dora Dimolitsas, Charles Gentil, Shirleyde Valença. Haverá lançamentos de
revistas literárias e livros de poesia.
Terça-feira, 25 de março, das 19h30 às 22h
Sala Adoniran Barbosa
Poesia dos 4 Cantos: Noite Árabe
Poesia
dos Quatro Cantos é uma atividade mensal dedicada à divulgação da poesia
internacional, num formato que inclui a leitura com danças e músicas típicas de
cada país, nos intervalos das leituras. Em março, será feita a apresentação de
uma Noite Árabe com os poetas Paulo Daniel Farah, Khaled Mohassen, Yunes Chami e Claudio Daniel, que
lerão poemas de autores árabes contemporâneos, com a participação dos músicos Claudio Kairouz, Rogério de Queiroz, William Bordokan, Semi
el Khouri Bordokan e da dançarina Cristina
Antoniadis Bordokan.
Quarta, 26 de março, das 20h30 às 22h
Sala Adoniran Barbosa
UMA CONVERSA COM EMIR SADER
O
sociólogo Emir Sader fará um depoimento sobre o golpe de estado de 1964 e o
significado das mudanças democráticas que aconteceram no país nas últimas
décadas. Em seguida, responderá a perguntas do público, num bate-papo informal.
Sábado, 29 de março, das 15h às 17h
Sala Paulo Emílio Salles Gomes
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
CADERNOS BESTIAIS (VI)
TEU VERDE
Todas as mulheres são tigres desenhados em teus olhos.
* * *
Há um vocabulário do verde,
inumeráveis ecos do teu verde
que se desdobram na noite estrelada:
olhos-pés, olhos-mãos, olhos-boca, olhos-peitos, olhos-nada.
Cada letra de teu nome tem a sua própria cabeleira,
denso alfabeto que incita à iniciação no segredo de teu segredo.
Tua sombra segue minha sombra em cada passo mínimo.
2014
domingo, 16 de fevereiro de 2014
CADERNOS BESTIAIS (V)
CONTRA A ENTRANHA
Contra a entranha —
multiplica o medo
no borrão desfigurado;
unhas enegrecidas,
maxilares arrancados,
miuçalha de carcaças.
Nenhuma língua enterrada
na fossa onde caranguejos
copulam com capulhos;
mistério ou talvez corrosão
de ácidos na decapagem
para a despossessão de tudo.
Retrátil, contra teu sangue,
a exaustão do que esfiapa
o símile do pensamento.
Esta pele, tua pele, nenhuma pele:
tudo é número e o número
é legião; meu nome é legião.
(Poema escrito por ocasião dos 50 anos do golpe de 01 de abril de 1964.)
Contra a entranha —
multiplica o medo
no borrão desfigurado;
unhas enegrecidas,
maxilares arrancados,
miuçalha de carcaças.
Nenhuma língua enterrada
na fossa onde caranguejos
copulam com capulhos;
mistério ou talvez corrosão
de ácidos na decapagem
para a despossessão de tudo.
Retrátil, contra teu sangue,
a exaustão do que esfiapa
o símile do pensamento.
Esta pele, tua pele, nenhuma pele:
tudo é número e o número
é legião; meu nome é legião.
(Poema escrito por ocasião dos 50 anos do golpe de 01 de abril de 1964.)
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
POEMAS PARA A PALESTINA
Poemas para a Palestina, antologia que reúne textos de 21 poetas
brasileiros de diferentes gerações e estilos que enfocam a história recente do
povo palestino, desde a Nakba ("catástrofe" em árabe) de 1948, que
levou 750 mil palestinos ao exílio, até o drama vivido hoje pelas populações de
Gaza e Cisjordânia sob a ocupação sionista. Os poemas reunidos neste volume são
ao mesmo tempo um registro histórico, um depoimento humano e uma manifestação
de solidariedade pela palavra poética. Lançamento previsto para MARÇO, aguardem!
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
GENERAL MANDÍBULA ATACA GOTHAM CITY: A POESIA DE ADEMIR ASSUNÇÃO
A voz do ventríloquo (São
Paulo: Edith, 2012, que recebeu o Prêmio Jabuti no ano passado), é o quarto
volume de poemas de Ademir Assunção, que também publicou LSD nô (1994), Zona branca (2000) e A musa chapada (2008, em parceria com Antônio Vicente
Seraphim Pietroforte e o artista visual Carlos Carah), além dos volumes de
prosa experimental A máquina peluda (1997), Cinemitologias (1998), Adorável criatura Frankenstein (2003) e dos CDs de música e poesia Rebelião na zona fantasma (2005) e Vira-latas de Córdoba (2013). Os títulos de seus livros já deixam
explícito o diálogo do autor com o universo das histórias em quadrinhos, do
cinema, da música pop, da contracultura, das mitologias pré-colombianas e do
Oriente — diálogo já bem comentado na fortuna crítica do autor.
Estas referências são comuns a
outros poetas de sua geração, como Maurício Arruda Mendonça, Marcos Losnak e
Rodrigo Garcia Lopes, que compartilham ainda o interesse pela poesia e
concepção de vida dos poetas beats norte-americanos, como Gregory Corso,
Lawrence Ferlinghetti e Allen Ginsberg. A poesia de Ademir Assunção, no
entanto, não se esgota em tais referências: sua temática é mais ampla,
incluindo o retrato alegórico da cidade, com ênfase nos que estão situados à
margem, como as prostitutas, traficantes, menores abandonados e moradores de
rua, a reinvenção de mitos indígenas, gregos e bíblicos (Ulisses na
tormenta, Na cova dos leões), a sensação de deslocamento e
incomunicabilidade num mundo cada vez mais dominado pelo mercado e pela mídia,
a loucura belicista, a busca do amor como a utopia possível, para citar alguns
temas recorrentes.
Sua técnica literária pouco tem a
ver com a prosódia beat: basta compararmos um poema de Allen Ginsberg, como o Uivo, com seu jorro discursivo
que se aproxima da prosa, com O
pântano, um dos mais belos poemas de A
voz do ventríloquo: “Há uma serpente enrodilhada nas ramagens / do poema: /
cauda verde-turquesa, escamas / mitológicas, cabeça / de névoa”. Este poema se
aproxima da estética neobarroca, não apenas pela riqueza imagética e
metafórica, mas sobretudo pela colagem de referências de diferentes repertórios
culturais, como “um cemitério de aviões de caça da Segunda Guerra” e “uma
rainha que trepa / com o próprio filho” (Jocasta?), “prostitutas chinesas” e
“um monstro de folhagens / e couro cru de crocodilo”. Claro: a montagem ou
justaposição de cenas é uma técnica narrativa do cinema, que está presente em
quase toda a obra de Ademir Assunção, em especial nos livros Cinemitologias e Zona
branca, mas também aqui, na Voz
do ventríloquo, assim como o diálogo criativo com o jazz (Billie Holiday
na porta dos fundos), a pintura (O grito) e a televisão (A vida
em tecnicolor). Não se trata de mera exibição de citações cultas,
fetichismo que muito afetou a poesia da década de 1990, mas de releituras que o
poeta faz das coisas que fazem sentido para a sua sensibilidade e compreensão
de si mesmo e do mundo, de seus medos, vivências e obsessões.
Podemos dizer que a poesia de
Ademir Assunção tem um alto grau de sinceridade, mas que não é confessional,
como boa parte da literatura beat – os poemas amorosos de Allen Ginsberg e os
romances de Jack Kerouac, por exemplo, onde são nítidos os traços
autobiográficos. A sinceridade na escrita, é bom ressaltar, não significa o
registro imediato de sensações, o lirismo espontâneo, herdeiro da escrita
automática dos surrealistas (a frase zen-budista “Primeira ideia, melhor ideia”
era uma das favoritas de Ginsberg). Ademir Assunção visa justamente o
contrário, desautomatizar a escrita e o pensamento, para tornar mais afiadas as
palavras da tribo: “eu sou poeta e sigo em frente / em linhas tortas / eu não
lido com palavras mortas”, diz ele no poema Orfeu
nos quintos dos infernos.
A imaginação poética – melhor
dizendo, a máquina de fabricar mitologias – de Ademir Assunção caminha de mãos
dadas com a informalidade de Paulo Leminski, Roberto Piva e Torquato Neto, três
de seus ícones culturais – por isso mesmo já chamei essa poesia, em outro
artigo, valendo-me de um oxímoro, de “formalismo informal”, característica que
acompanha o autor desde o seu primeiro título publicado, LSD Nô (1994), em que é mais evidente a influência da Poesia
Concreta, na escolha da tipologia de letras, espacialização das palavras e
linhas e outros recursos que realçam a visualidade. Notáveis são os haicais que
Ademir Assunção – estudioso e praticante do zen-budismo – inclui no final desse
livro, entre eles “a chuva / molha / uma lágrima” e “cachorro sem dono / chuva
fria / de outono”.
A paródia é um dos recursos mais
usados pelo poeta, seja a glosa satírica do discurso quinhentista, em Máquina peluda, seja a
reapropriação crítica da linguagem e técnica narrativa das histórias em quadrinhos,
em Zona branca e A voz do ventríloquo, onde
aparecem personagens como o General Mandíbula, O Anjo do Ácido Elétrico e
Mister P., inventados pelo autor, ao lado de Orfeu, Ulisses, Heráclito,
Iemanjá, o Coringa e King Kong. A própria Poesia, e o seu irmão Prosa,
comparecem nas páginas do Diário
do Ventríloquo, inserções de prosa narrativa com fundo preto e as letras em
cor branca que aparecem em várias seções do livro, como se fosse uma narrativa
paralela, um canto dialogado. A organização dos poemas e textos em prosa
obedece a um princípio não-linear, mimetizando, no próprio corpo semântico, o
caos e a fragmentação do mundo a nossa volta. O fio condutor do livro talvez
esteja no próprio título do volume: é a voz invisível do ventríloquo, esse eu
lírico que percorre as ruas de Gotham City “enquanto o Coringa injeta no braço
esquálido / a última gota da ampola”. Convém destacar o trabalho de
Ademir Assunção com a oralidade, presente sobretudo em seus CDs, Rebelião na zona fantasma e Viralatas de Córdoba, em que os poemas
não são cantados, nem recitados com intenção retórica, mas declamados com fina
sensibilidade; o poeta explora a dimensão melódica e emotiva de cada palavra,
com silêncios, ênfases e variações de timbre, dialogando com as intervenções
sonoras da banda Fracasso da Raça, numa unidade estética entre palavra e
música.
(Artigo publicado na edição de fevereiro da revista CULT, na coluna Retrato do Artista.)
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
CADERNOS BESTIAIS (IV)
Tunisiano de cabeça nervurada assenhora-se
da unha mínima
da história
enfurece letras que são bichos
de um minucioso horror
quando a morte engole manápulas
e adensa paisagens-vértebras
daqueles que não têm nome
daqueles que
não têm nome nenhum nada além
de ninguém
tudo é um jogo desjogado de
lacraus
letras que são bichos no escuro
letras que
são lepras de lorpas no escuro
tateando entre os tufos da fome
tateando
entre os húmus da usura tateando
entre
assemelhar-se anfíbio
assemelhar-se reptante no asco
da rachadura no asco do desvão
em que se obliteram as anfetaminas
da desmemória
linhas incisivas num crescendo
menos o focinho
menos a mandíbula menos as
tíbias esmagadas no
fosso monocromático do não –
há uma caixa torácica que canta
sozinha no deserto de Mojave
onde marines enrabam desvestidas traqueias
antes de matarem qualquer coisa
viva –
dentes-de-leão ressonam numa
tarde esfumada de setembro
em que um poeta (tunisiano?)
soletra a sub-reptícia
sombra da vivissecção.
2014
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
1964 NUNCA MAIS!
O Centro Cultural São Paulo realizará em 2014
diversas atividades para recordar os 50 anos do golpe civil-militar de 01 de
abril de 1964, que mergulhou o Brasil num dos períodos mais sombrios de toda a
sua história, e também os 30 anos da campanha popular pelas Diretas-Já, que
levou ao fim do ciclo autoritário e ao começo de uma nova jornada em direção à
democracia. Nos meses de fevereiro e março, a Curadoria de Literatura e Poesia
do CCSP realizará palestras, debates e recitais alusivos ao tema, além de promover a distribuição de panfletos poéticos, com textos
de autores que denunciaram o clima de violência e opressão de nossos “negros
verdes anos”. Convidamos a todos vocês para que prestigiem a nossa programação!
DEMOCRACIA E MÍDIA
Debate com o blogueiro Altamiro Borges, o
jornalista José Carlos Ruy e o escritor Jeosafá Fernandes sobre as relações
entre os veículos de comunicação tradicionais e a democracia, ontem e hoje.
Sexta-feira, dia 14/02/14, das 20h30 às 22h
Sala Adoniran Barbosa
CANTOS DA LEITURA: VOZES DA RESISTÊNCIA
Recital poético organizado por Patrícia Romiti com
textos de autores que tematizam os anos do período da ditadura militar no
Brasil, como Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Ferreira Gullar,
Haroldo de Campos e Paulo Leminski.
Terça-feira, dia 18/03/14, das 20h30 às 22h
Sala Adoniran Barbosa
UMA CONVERSA COM EMIR SADER
O sociólogo Emir Sader fará um depoimento sobre o
golpe de estado de 1964 e o significado das mudanças democráticas que
aconteceram no país nas últimas décadas. Em seguida, responderá a perguntas do
público, num bate-papo informal.
Sábado, 29 de março, das 15h às 17h
Sala Paulo Emílio Salles Gomes
PANFLETOS POÉTICOS
Serão distribuídos em
diferentes pontos da cidade “panfletos poéticos” editados pela Curadoria de
Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo, com textos de autores como
Glauco Mattoso, Haroldo de Campos e Paulo Leminski
domingo, 26 de janeiro de 2014
CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS
A burguesia brasileira já nasceu associada ao latifúndio e ao grande capital internacional. Ela soube conviver com a monarquia, a escravidão, as oligarquias rurais e por fim com a ditadura militar, que financiou e apoiou desde o início. Sua incompetência é histórica: foi incapaz de realizar uma revolução democrática nos moldes das grandes revoluções européias, preferindo sempre firmar pactos com outros setores hegemônicos para transições conservadoras que mantiveram intactos o latifúndio e os privilégios das minorias. A república burguesa no Brasil privou as mulheres, os negros, os pobres e analfabetos de seus de direitos políticos (incluindo o direito de voto) até o curto período democrático de 1945 e 1964, e manteve a mulher em posição de segunda classe no Código Civil até a redemocratização do país, na década de 1980 (antes, a mulher era considerada, na legislação em vigor, “relativamente incapaz”, ao lado dos índios, das crianças e dos doentes mentais). Hoje, essa mesma burguesia, que sempre se acovardou frente ao capital internacional, resgata os mais toscos preconceitos possíveis – contra negros, pobres, nordestinos, homossexuais – e usa os meios de comunicação e o poder judiciário numa cruzada reacionária, para tentar frear as mudanças sociais ocorridas nos últimos dez anos, com Lula e Dilma. Ela não tem nenhum projeto de país – nunca teve --, não tem propostas, nem mesmo uma ideologia clara, além da enfática defesa do lucro desmedido e da exclusão social. Uma classe tão medíocre, tão mesquinha, tão covarde, merecerá o destino que a história lhe reserva.
UM POEMA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
NUDEZ
Não cantarei amores que não
tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.
Ou sabe? Algo de nós acaso
se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.
Nem era dor aquilo que doía:
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)
Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.
Amador de serpentes, minha
vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.
Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
CADERNOS BESTIAIS (III)
CABEÇA DE NÃO
Cabeça de negro – não entra –
cabeça de branco –
entra – cabeça de pobre –
não entra – cabeça de nobre –
entra – cabeça de pardo –
não entra – cabeça de podre –
entra – cabeça de cobre –
não entra, nem cabeça,
nem pés, nem mãos,
nem joelhos, nem nada –
não entra, neste passeio;
não entra, neste passado;
se é preto ou pardo;
por isso, o poeta contesta,
por isso o poeta protesta,
por isso o poeta desafia,
por isso o poeta desafina,
se alinha junto a esses e a
essas,
por isso, por aquilo, por tudo,
por nada.
2014
domingo, 12 de janeiro de 2014
CADERNOS BESTIAIS (II)
Cabeça com tentáculos de harpia,
obeso como grávido
escaravelho,
despreza (deliberadamente)
as leis
que o desagradam.
Contrata paraguaios, chilenos, peruanos,
hondurenhos, guatemaltecos,
haitianos
para trabalharem
em sua fábrica,
sem identidade, passaporte
ou carteira de trabalho.
Tudo é número
no anguloso inferno fabril.
Multiplica as horas
para a moagem do malte,
a maceração,
a fervura do mosto,
a adição dos lúpulos de aroma,
a decantação.
Com olhar imóvel de um porco morto,
contabiliza os ganhos
de sua rapinagem
clandestina,
como quem conta cordeiros
ou estrelas.
Um dia, cinco musculosos haitianos
pegaram o pilantra
pelas orelhas,
surraram-no
e jogaram-no
no meio da fervura.
Após o expediente,
reuniram todo o pessoal
no quintal da fábrica
e beberam muita, muita cerveja.
Árvores saqueiam o arco-íris.
Três banqueiros atiram-se
ao rio e morrem afogados.
Nuvens piscam o olho para o sol,
que enfurece os dentes-de-leão.
Ninguém me oferece uma estrela.
Quando eu morrer, me enterrem
na tua voz.
JUIZ
Cabeça de fungo
reptilizada
olho-de-corvo
e coluna inclinada
calvo como um imperador
romano, sorriso áspero
e lustrosos sapatos italianos
toga escura como o medo
(enterra-te no escuro,
enterra-te no medo).
Cabeça de fungo
reptilizada
olho-de-corvo
e coluna inclinada
calvo como um imperador
romano, sorriso áspero
e lustrosos sapatos italianos
toga escura como o medo
(enterra-te no escuro,
enterra-te no medo).
JUIZ (II)
“Tu, pessoa nefasta”
— Gilberto Gil
Fúria,
palavras afiadas
em fúria, para fustigar
a esfarrapada justiça
e sua voz estorricada
que absolve os roubos dos ricos
e condena os insubordinados,
ladrando trevas.
“Tu, pessoa nefasta”
— Gilberto Gil
Fúria,
palavras afiadas
em fúria, para fustigar
a esfarrapada justiça
e sua voz estorricada
que absolve os roubos dos ricos
e condena os insubordinados,
ladrando trevas.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
CADERNOS BESTIAIS
ANÔNIMOS
Há um louco solto na rua.
(Os livros dos uigures
foram escritos para serem esquecidos.)
Um policial pede os seus
documentos.
(Há três ou quatro especialistas em língua suméria.)
O louco entrega-lhe um tijolo.
(Uma tribo na Ásia Central escreve seus livros sagrados nos ventres de mulheres-anãs.)
O policial fica furioso porque queria um sapato.
(Um miniaturista persa escreveu um longo poema épico numa pena de faisão.)
(Há três ou quatro especialistas em língua suméria.)
O louco entrega-lhe um tijolo.
(Uma tribo na Ásia Central escreve seus livros sagrados nos ventres de mulheres-anãs.)
O policial fica furioso porque queria um sapato.
(Um miniaturista persa escreveu um longo poema épico numa pena de faisão.)
Eles começam a discutir e logo aparece uma mulher gorda
que entra na confusão.
(Sobre o que conversam as abelhas?)
O louco declara o seu amor pelos incêndios.
(Nuvens serão letras de um alfabeto cabalístico?)
O policial é apaixonado por boxeadores e telepatas.
(Os melhores poemas ainda não foram escritos, disse para mim um asceta tuaregue.)
A mulher gorda ataca o louco com a sola de um sapato.
(Quem conhece um grande romancista da Lituânia?)
O cinegrafista do Grande Telejornal filma todo o episódio para exibir no horário nobre.
(Há indícios de vogais e consoantes em teus pequenos lábios.)
Logo surgem legiões de publicitários, jornaleiros e vendedores de apólices de seguros e tem início uma pancadaria.
(Poucos são capazes de ler as mensagens ocultas no interior das nozes.)
(Sobre o que conversam as abelhas?)
O louco declara o seu amor pelos incêndios.
(Nuvens serão letras de um alfabeto cabalístico?)
O policial é apaixonado por boxeadores e telepatas.
(Os melhores poemas ainda não foram escritos, disse para mim um asceta tuaregue.)
A mulher gorda ataca o louco com a sola de um sapato.
(Quem conhece um grande romancista da Lituânia?)
O cinegrafista do Grande Telejornal filma todo o episódio para exibir no horário nobre.
(Há indícios de vogais e consoantes em teus pequenos lábios.)
Logo surgem legiões de publicitários, jornaleiros e vendedores de apólices de seguros e tem início uma pancadaria.
(Poucos são capazes de ler as mensagens ocultas no interior das nozes.)
FIM DO MUNDO
À memória de Jakob van Hoddis
Loba ensandecida rumina vermes de escuro escárnio.
Alguém-ninguém atravessa a rua
e em todos os cantos
ouvem-se gritos
feito guinchos
de um porco amarelo.
Cai um aguaceiro
na cidade esquálida
e os bairros alagados atingem as estrelas.
Banqueiros obesos caem do telhado
e se despedaçam.
Numa placa de rua,
lemos: cuidado.
Quase todos têm secreções nasais;
os ônibus correm nas avenidas
a toda velocidade,
entram nos viadutos
e se chocam contra as paredes.
Todas as palavras não são mais que uma superfície de cacos de vidro à entrada de uma cidade maldita.
À memória de Jakob van Hoddis
Loba ensandecida rumina vermes de escuro escárnio.
Alguém-ninguém atravessa a rua
e em todos os cantos
ouvem-se gritos
feito guinchos
de um porco amarelo.
Cai um aguaceiro
na cidade esquálida
e os bairros alagados atingem as estrelas.
Banqueiros obesos caem do telhado
e se despedaçam.
Numa placa de rua,
lemos: cuidado.
Quase todos têm secreções nasais;
os ônibus correm nas avenidas
a toda velocidade,
entram nos viadutos
e se chocam contra as paredes.
Todas as palavras não são mais que uma superfície de cacos de vidro à entrada de uma cidade maldita.
JAMAIS
Para Fabrício Slaviero
bichos de verde-muco proliferam
nos entalhes do tapume;
antiaranhas deslizam
nas ramagens,
tramam teias e resíduos
de uma dor vermelha,
recíproca.
há um plasma em cada fenda,
em cada vão
de madeira apodrecida.
há um acre açafrão
em cada veio
do reboco, com seu ácido.
tateiam algo, quem, aqui –
ou apenas arrulhos, crostas, escaras,
ninguém com óculos de aro fino,
breve gravata lilás e uma refinadíssima
sensibilidade no olfato; não, ninguém,
nunca houve, jamais.
ARAMES, RETALHOS
esqueletos do nunca
onde o áspero da palavra,
brutais de dezembro.
porque esta não é a minha língua:
retorcidos de mistério,
caranguejo onagro.
onde se desdobra a pedra, onde se
desdobra o nojo desse nunca,
que se anuncia indesejoso:
são palavras em seu verde, em seu asco;
são vértebras de escárnio,
entulhos-de-orelhas à procura da mulher-dos-gatos.
porque nada faz sentido, eu sei,
neste reverso em que me falas,
primitiva, reverberante,
com a nudez que me calam os arames, os retalhos;
com a nudez de um estuque de plantas,
ruidosa, em expansão — e só me resta confessar
os fumos de aranha, inconcluso,
quando indagas sobre o meu labirinto.
onde o áspero da palavra,
brutais de dezembro.
porque esta não é a minha língua:
retorcidos de mistério,
caranguejo onagro.
onde se desdobra a pedra, onde se
desdobra o nojo desse nunca,
que se anuncia indesejoso:
são palavras em seu verde, em seu asco;
são vértebras de escárnio,
entulhos-de-orelhas à procura da mulher-dos-gatos.
porque nada faz sentido, eu sei,
neste reverso em que me falas,
primitiva, reverberante,
com a nudez que me calam os arames, os retalhos;
com a nudez de um estuque de plantas,
ruidosa, em expansão — e só me resta confessar
os fumos de aranha, inconcluso,
quando indagas sobre o meu labirinto.
FIM DE CASO
depois da separação
embora eu me dissuadisse
que a memória esfumaçada
era apenas resíduo efêmero,
a pele escandida recusava
toda tentativa de esquecimento,
amealhava cenas e palavras
descoloridas, mas ainda cruéis,
quadros que gritam na exposição,
quadros vivos que se assenhoram
de cada minuto, de cada silêncio,
de cada pálpebra, sem cautério:
cansado de lutar com a dor,
convidei-a para dormir comigo.
depois da separação
embora eu me dissuadisse
que a memória esfumaçada
era apenas resíduo efêmero,
a pele escandida recusava
toda tentativa de esquecimento,
amealhava cenas e palavras
descoloridas, mas ainda cruéis,
quadros que gritam na exposição,
quadros vivos que se assenhoram
de cada minuto, de cada silêncio,
de cada pálpebra, sem cautério:
cansado de lutar com a dor,
convidei-a para dormir comigo.
CANTIGA
Penso em você eroticamente.
Até a fabulação
de outra margem,
na estranha habitação onde os números,
pares e ímpares, enlouquecem.
--------------------------------------------------------
--------------------------------------------------------
Um minúsculo leão branco habita a sua fenda.
***
A ferocidade
no limiar da noite,
quando a pele —
desmedida, irremissível,
se projeta em outra pele:
nenhum destino além do nervo tumultuário.
(Poemas inéditos de Claudio Daniel)
Até a fabulação
de outra margem,
na estranha habitação onde os números,
pares e ímpares, enlouquecem.
--------------------------------------------------------
--------------------------------------------------------
Um minúsculo leão branco habita a sua fenda.
***
A ferocidade
no limiar da noite,
quando a pele —
desmedida, irremissível,
se projeta em outra pele:
nenhum destino além do nervo tumultuário.
(Poemas inéditos de Claudio Daniel)
domingo, 22 de dezembro de 2013
GALERIA: LOUIS ARAGON
Louis
Aragon (Louis
Andrieux), poeta e romancista francês, nasceu em 03 de outubro de 1897 em Paris. Sua família era
proprietária de uma pensão num bairro abastado da capital francesa. Após
concluir os estudos no Liceu Carnot, em 1916, ingressou na Faculdade de
Medicina da Universidade de Paris. Convocado para o serviço militar, serviu
como médico auxiliar durante a I Guerra Mundial. Após o conflito, retomou os
estudos e conheceu André Breton, que o apresentou ao surrealismo. Nos anos
seguintes, dirigiu, juntamente com Philippe Soupault e Breton, a revista Littérature. Aragon estreou como poeta
em 1920, com o livro Feu de joie, ao
qual seguiram outras publicações, como o romance Anicet ou Le Panorama (1921), a compilação de contos Le libertinage (1924) e a narrativa
satírica Le paysan de Paris (1926),
entre outras obras. Em 1928 conheceu Elsa Triolet, escritora russa, cunhada de
Maiakovski, que foi o seu grande amor e
com quem se casou. Filiou-se ao Partido Comunista Francês (PCF) e realizou, em
1930, uma visita à União Soviética. De volta a Paris, distanciou-se dos surrealistas
e publicou Le front rouge (1930), poema de temática
revolucionária, escrito sob a influência de Maiakovski. Nos anos seguintes,
Aragon publica poemas, artigos de jornal, ensaios e romances de nítida
influência marxista. Durante a Guerra Civil Espanhola, alistou-se como
voluntário e combateu ao lado dos republicanos. Quando a França foi ocupada
pelas tropas nazistas, em 1940, participou da Resistência, assim como Paul
Éluard, também militante do PCF. Entre seus livros publicados nesse período
destacam-se Le crève cour (1941) e Les yeux d’Elsa (1942), sua obra mais
conhecida, em que celebra o amor absoluto. Após a II Guerra Mundial, colabora
em jornais e revistas como Ce soir e Les lettres françaises e publica outros
livros importantes, como Elsa (1958)
e Le Fou d'Elsa (1963). Entre seus últimos títulos publicados destacam-se
os romances La mise à mort (1965) e Blancheou l’oubli (1967). Louis Aragon,
um dos maiores poetas franceses do século XX e um dos fundadores do
surrealismo, faleceu em Paris em 1982.
UM POEMA DE LOUIS ARAGON
Je te préfère à tout ce qui vaut de vivre et de mourir
Je te porte l’encens des lieux saints et la chanson du forum
Vois mes genoux en sang de prier devant toi
Mes yeux crevés pour tout ce qui n’est pas ta flamme
Je suis sourd à toute plainte qui n’est pas de ta bouche
Je ne comprends des millions de morts que lorsque c’est toi qui gémis
C’est à tes pieds que j’ai mal de tous les cailloux des chemins
A tes bras déchirés par toutes les haies de ronces
Tous les fardeaux portés martyrisent tes épaules
Tout le malheur du monde est dans une seule de tes larmes
Je n’avais jamais souffert avant toi
Souffert est-ce qu’elle a souffert
La bête clamant une plaie
Comment pouvez-vous comparer au mal animal
Ce vitrail en mille morceaux où s’opère une mise en croix du jour
Tu m’as enseigné l’alphabet de douleur
Je sais lire maintenant les sanglots Ils sont tous faits de ton nom
De ton nom seul ton nom brisé ton nom de rose effeuillée
Ton nom le jardin de toute Passion
Ton nom que j’irais dans le feu de l’enfer écrire à la face du monde
Comme ces lettres mystérieuses à l’écriteau du Christ
Ton nom le cri de ma chair et la déchirure de mon âme
Ton nom pour qui je brûlerais tous les livres
Ton nom toute science au bout du désert humain
Ton nom qui est pour moi l’histoire des siècles
Le cantique des cantiques
Le verre d’eau dans la chaîne des forçats
Et tous les vocables ne sont qu’un champ de culs-de- bouteille à la porte d’une cité audite
Quand ton nom chante à mes lèvres gercées
Ton nom seul et qu’on me coupe la langue
Ton nom
Toute musique à la minute de mourir
Je te porte l’encens des lieux saints et la chanson du forum
Vois mes genoux en sang de prier devant toi
Mes yeux crevés pour tout ce qui n’est pas ta flamme
Je suis sourd à toute plainte qui n’est pas de ta bouche
Je ne comprends des millions de morts que lorsque c’est toi qui gémis
C’est à tes pieds que j’ai mal de tous les cailloux des chemins
A tes bras déchirés par toutes les haies de ronces
Tous les fardeaux portés martyrisent tes épaules
Tout le malheur du monde est dans une seule de tes larmes
Je n’avais jamais souffert avant toi
Souffert est-ce qu’elle a souffert
La bête clamant une plaie
Comment pouvez-vous comparer au mal animal
Ce vitrail en mille morceaux où s’opère une mise en croix du jour
Tu m’as enseigné l’alphabet de douleur
Je sais lire maintenant les sanglots Ils sont tous faits de ton nom
De ton nom seul ton nom brisé ton nom de rose effeuillée
Ton nom le jardin de toute Passion
Ton nom que j’irais dans le feu de l’enfer écrire à la face du monde
Comme ces lettres mystérieuses à l’écriteau du Christ
Ton nom le cri de ma chair et la déchirure de mon âme
Ton nom pour qui je brûlerais tous les livres
Ton nom toute science au bout du désert humain
Ton nom qui est pour moi l’histoire des siècles
Le cantique des cantiques
Le verre d’eau dans la chaîne des forçats
Et tous les vocables ne sont qu’un champ de culs-de- bouteille à la porte d’une cité audite
Quand ton nom chante à mes lèvres gercées
Ton nom seul et qu’on me coupe la langue
Ton nom
Toute musique à la minute de mourir
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
ZUNÁI, REVISTA DE POESIA & DEBATES
A poesia como um aprendizado de esmeraldas
vivas – Entrevista com
Adriana Zapparoli
Poesia clássica chinesa – Dinastia Tang, Ricardo Portugal
Gramática expositiva do texto leminskiano, Tida Carvalho
Abre-te, cérebro! O tudo que cabe nas
palavras de Arnaldo Antunes,
Hernany Tafuri
Cadernos da Palestina: artigos, depoimentos e poemas
Poemas inéditos de Armando Freitas Filho, Eduardo Espina,
Nanda Prieto, Roberta Tostes Daniel, Rubens Zárate, Marcílio Costa, Ricardo Carranza,
Iago Passos, Consztanza Muirin, Fátima Sapetiveoatl.
Traduções: T. S. Eliot, e. e. cummings, William
Blake, W. B. Yeats, Henri Michaux, Maria-Mercè Marçal e Mercê Rododera.
Contos de Sérgio Medeiros, DirceWaltrick do Amarante, Anita Dutra e
Márcia Barbieri.
Especial: O juiz julgado – nove
cantigas de escárnio e mal-dizer
Zunái é uma publicação comprometida com a inovação estética e
temática e com a “batalha das ideias”, divulgando o que há de mais experimental
e perturbador na literatura e no cenário cultural brasileiro.
Revista
Zunái: www.zunai.com.br
Preço: Inefável; inconcebível.
Onde encontrar: no ciberespaço, essa “Gran Cualquierparte” (Vallejo).
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
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