segunda-feira, 24 de março de 2014

ZUNÁI, DEZ ANOS




Caros, na terça-feira, dia 25 de março, a partir das 20h30, acontecerá o Recital da Caixa Preta, na Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo. Na ocasião, haverá o lançamento de uma edição impressa da Zunái, comemorativa dos dez anos de existência da revista, além de leituras poéticas com a participação de Claudio Willer, Horácio Costa, Abreu Paxe, Dirceu Villa, Elson Fróes, Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, Francesca Cricelli, Roberta Ferraz, Alex Dias, Luiz Ariston, Chiu Yi Chih, Edson Bueno de Camargo, Claudio Daniel, Rubens Jardim, Marcelo Ariel, Célia Abila, Maria Alice Vasconcelos, Karine Kelly Pereira e Doroty B J Dimolitsas. Aguardo vocês lá!

domingo, 23 de março de 2014

A LÍRICA IMPREVISTA DE ALICE RUIZ



Alice Ruiz pertence a uma geração de poetas brasileiros que conviveu com a tradição literária do modernismo, a contracultura, o concretismo e a tropicália, num momento histórico de crise do regime autoritário e de retomada das lutas políticas e sociais que desaguariam na campanha por eleições diretas já, em 1984, marco da reconquista das liberdades democráticas, após duas décadas de arbítrio. O diálogo com a música popular, a linguagem publicitária, a história em quadrinhos, o zen-budismo e os temas do feminismo e da diversidade sexual está presente em diversas obras publicadas por poetas dessa geração, como Polonaises, de Leminski, Zil, de Duda Machado, Memórias de um pueteiro, de Glauco Mattoso e os poemas de Antonio Risério, publicados esparsamente em revistas independentes como Código, Raposa e Muda (a poesia de Risério seria reunida em livro apenas na década de 1990, com Fetiche e Brasibraseiro, este último escrito em parceria com Frederico Barbosa). O livro de estreia de Alice Ruiz, Navalhanaliga, publicado em 1980, está inserido nesse caldeirão cultural, mas já revela uma voz bastante singular, pelo alto impacto de suas imagens poéticas e referências biográficas e da realidade social da época. O próprio título do livro já indica uma operação de violência contra o lirismo e a sentimentalidade atribuídos por muito tempo à poesia de autoria feminina: Alice Ruiz reivindica, como símbolo de sua poética, nada menos que uma navalha, arma branca usada por garotas de programa para sua segurança pessoal. A subversão poética da autora, se recusa a ingenuidade romântica, investe, ao mesmo tempo, em composições de grande intensidade emocional, como a peça de abertura do volume: “não era ainda pessoa / e já sonhava / não é mais pessoa / e ainda sonha”, poema composto em homenagem ao filho Miguel Ângelo Leminski, falecido com apenas nove anos de idade. Esta peça, assim como outras de Navalhanaliga, utiliza recursos visuais, como a inserção de desenhos, fotos e símbolos de notação musical, com evidente ressonância da poesia concreta, mas sem dependência epigônica: a estratégia criativa de Alice Ruiz está mais próxima de um certo brutalismo que nos faz pensar nas Antologias mamalucas de Sebastião Nunes e nos poemas visuais do Jornal Dobrábil de Glauco Mattoso.  Em outra composição, em que as palavras, dispostas verticalmente, são escritas em branco sobre fundo negro (“elo / entre / olho / e / olho // espelho / rebelde / reflete / o / estranho”), podemos pensar nos labirintos visuais do barroco português e também na escrita ideográfica japonesa. Navalhanaliga, aliás, apresenta diversos haicais, gênero poético que a autora vem praticando, com extrema originalidade, em todos os seus livros publicados, especialmente Haitropicai (I985), escrito em parceria com Paulo Leminski, Desorientais (1996), Yuuca (2004) e o recente Jardim de haijin (2010). O haicai de Alice Ruiz descende da dicção intimista e bem-humorada de Kobayashi Issa (1763-1827), mas não se limita aos temas tradicionais, relacionados às estações da natureza, investindo, também, na denúncia política: “nesse país sem greve / só o relógio / faz o que deve” e no imaginário e vocabulário da cultura popular brasileira (“presente de vênus / primeira estrela que vejo / satisfaça o meu desejo”). Além de notável haicaísta, aliás, Alice Ruiz realizou traduções de poetas japonesas como Chiyo-Ni e Chine-Jo, reunidas no volume Dez haicais, impresso em Santa Catarina pela editora Noa Noa de Cleber Teixeira. Um belo poema que testemunha o seu amor pela forma poética nipônica é esta composição: “Francisco conseguia / entender / o que a ave dizia / Bashô enxergava / a lágrima / no olho do peixe”.

UMA ERÓTICA DO INUSITADO

Paixão xama paixão, o segundo livro de Alice Ruiz, publicado em 1983, incursiona em releituras da lírica camoniana e dos mitos bíblicos, de modo paródico e irreverente, e ainda no poema-piada, recorrente na produção dos autores da chamada Poesia Marginal, em versos como estes: “a gente é só amigo / e de repente / eu bem podia / ser essa mosca / perto do teu umbigo”, em que a coloquialidade e informalidade somam-se a uma imagética própria dos mestres japoneses. Em outra composição, que se avizinha do non sense, lemos: “o formigueiro que você olhava / voltou / ao seu lugar // você volta / a ver as formigas / no meu olhar”. A paixão, na lírica de Alice Ruiz, está sempre associada ao imprevisto, ao excêntrico, ao inusitado, expressando-se em hipérboles (“noite / cadelas no cio / disputam a primavera”), paradoxos (“a folha faz barulho / tenha ou não tenha letras // já o silêncio faz ver / todas as coisas pretas”) e jogos de palavras (“sem saudade de você / sem saudade de mim / o passado passou enfim”), trabalhados com aparente leveza e simplicidade. Esta dicção insubmissa e inventiva atinge plena maturidade no livro Pelos pelos (1984), cujo título evidencia, no trocadilho entre pelos (substantivo) e pelos (preposição), a conjunção entre o amor e a liberdade poética. Os poemas desse livro, de extrema fluência e musicalidade (“você fica / muito louco / muito branco / muito magro // o pó da estrada / que se afasta / é muito amargo // me sobra pouco / mas esse amar / eu sempre trago”), já denunciam a letrista de música popular, que compôs canções em parceria com músicos como Arnaldo Antunes, Alzira Espíndola e Itamar Assumpção (seu livro Poesia pra tocar no rádio, de 1999, reúne as letras e poemas musicados de todas as suas parcerias). Notamos nesta obra, apesar de sua erótica implícita, uma maior incidência de poemas logopaicos, aspecto menos comentado da poesia de Alice Ruiz: “minha voz / não chega aos seus ouvidos // meu silêncio / não toca teus sentidos // sinto muito / mas isso é tudo que sinto”. Claro: a reflexão amorosa ou existencial sempre é expressa com indisfarçada ironia e coloquialidade, com o uso freqüente da rima, que não é acessória, mas um elemento musical que reforça o sentido do texto: “quero fazer um verso / com todos os elementos / meus encantos / meus lamentos / que atravesse / ares e mares / e te alcance / e te arranque / de todos os pensamentos”. A poesia completa de Alice Ruiz (além dos títulos referidos, devemos acrescentar o volume Vice versos, de 1988) foi reunida no volume Dois em um (2008), publicado pela editora Iluminuras, iniciativa que não pode ser pouco elogiada, por colocar à disposição dos leitores de agora uma obra coerente e inventiva, de uma autora que está entre as vozes mais originais da poesia brasileira contemporânea.    

(Artigo publicado na edição de março da revista CULT, na coluna RETRATO DO ARTISTA.)


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

PROGRAMAÇÃO DE MARÇO DA CURADORIA DE LITERATURA E POESIA DO CENTRO CULTURAL SÃO PAULO



I Festival Poesia Nova

O Festival Poesia Nova é um evento anual da Curadoria de Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo que tem a proposta de divulgar autores brasileiros, jovens ou consagrados, que trabalham com novas tecnologias poéticas – como a poesia visual, sonora, digital, o poema-objeto, o poema-instalação, entre outras modalidades. O Festival incluirá também mesas de debates, recitais, performances, lançamentos de livros e revistas, com entrada franca. Com o objetivo de mostrar que o diálogo entre a poesia e as outras linguagens artísticas está presente mesmo em manifestações tradicionais da cultura popular brasileira, incluímos, nesta primeira edição do evento, apresentações de grupos de cordelistas da cidade de São Paulo. 


Terça-feira, 11 de março

Abertura da Mostra Videopoéticas II, nas dez telas de plasma espalhadas no Centro Cultural São Paulo.

17h Encontro de cordelistas, ao ar livre, na entrada principal do CCSP.

20h30 Performances de Lúcio Agra, Paulo Hartmann, Marcelo Sahea; apresentação das revistas eletrônicas Zunái e Mallarmargens.

SALA ADONIRAN BARBOSA


Quarta-feira, 12 de março

17h Encontro de cordelistas

19h Mesa A poesia e os meios eletrônicos, com Ernesto Melo e Castro, Omar Khouri, Jorge Luís Antônio

Mediação: Edson Cruz

20h30 Performance de Nina Rizzi e recital com Claudio Willer, Rubens Jardim, Victor Sosa, Estrela Ruiz Leminski, Edson Cruz, Andréia Carvalho, Nuno Rau, Diogo Cardoso, Daniel Faria, Karine Kelly, Roberta Ferraz, Fabrício Slaviero, Claudio Daniel, Andréa Catrópa, Edson Bueno de Camargo, Thiago Ponce de Moraes, Natália de Barros, Luiz Ariston Dantas, Greta Benitez.

Lançamento do livro A duração do deserto, de Nina Rizzi.

SALA ADONIRAN BARBOSA


Quinta-feira, dia 13 de março

20h30 recital com Antônio Moura, Adriana Zapparoli, Chiu Yi Chih, Mariela Mei, Marcelo Ariel, Alexandre Pedro, Luiz Ariston Dantas, Alex Dias, Rubens Zárate, Rosana Piccolo e Adriana Brunstein.

SALA DE DEBATES


Poemas à Flor da Pele

Sarau poético realizado pelo grupo Poemas à Flor da Pele, com a participação de músicos e atores. Haverá também o lançamento de livros de poesia de novos autores.

Sexta-feira, dia 14/03/14, das 19h às 20h30  

Sala Adoniran Barbosa


Cantos da leitura: vozes da resistência

Recital poético organizado por Patrícia Romiti com textos de autores que tematizam os “negros verdes anos” do período da ditadura militar no Brasil, como Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Ferreira Gullar, Haroldo de Campos e Paulo Leminski.

Terça-feira, dia 18/03/14, das 20h30 às 22h 

Sala Adoniran Barbosa

Seminário sobre Clóvis Moura

Evento em homenagem ao poeta Clóvis Moura, dez anos após o seu falecimento.

Sábado, 22 de março, das 14h às 19h

Sala de Debates


Recital da Caixa Preta

Recital poético com a participação de Adriana Zapparoli, Mariela Mei, Edson Bueno de Camargo, Rubens Jardim, Marcelo Ariel, Chiu Yi Chih, Fabrício Clemente, Luiz Ariston, Célia Abila, Fabrício Slaviero, Celso Vegro, Maria Alice Vasconcelos, Karine Kelly, Maria Fátima, Dora Dimolitsas, Charles Gentil, Shirleyde Valença. Haverá lançamentos de revistas literárias e livros de poesia.

Terça-feira, 25 de março, das 19h30 às 22h

Sala Adoniran Barbosa


Poesia dos 4 Cantos: Noite Árabe

Poesia dos Quatro Cantos é uma atividade mensal dedicada à divulgação da poesia internacional, num formato que inclui a leitura com danças e músicas típicas de cada país, nos intervalos das leituras. Em março, será feita a apresentação de uma Noite Árabe com os poetas Paulo Daniel Farah, Khaled Mohassen, Yunes Chami e Claudio Daniel, que lerão poemas de autores árabes contemporâneos, com a participação dos músicos Claudio Kairouz, Rogério de Queiroz, William Bordokan, Semi el Khouri Bordokan e da dançarina Cristina Antoniadis Bordokan.

Quarta, 26 de março, das 20h30 às 22h

Sala Adoniran Barbosa


UMA CONVERSA COM EMIR SADER

O sociólogo Emir Sader fará um depoimento sobre o golpe de estado de 1964 e o significado das mudanças democráticas que aconteceram no país nas últimas décadas. Em seguida, responderá a perguntas do público, num bate-papo informal.

Sábado, 29 de março, das 15h às 17h

Sala Paulo Emílio Salles Gomes 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

CADERNOS BESTIAIS (VI)


TEU VERDE
Todas as mulheres são tigres desenhados em teus olhos.
* * *
Há um vocabulário do verde,
inumeráveis ecos do teu verde
que se desdobram na noite estrelada:
olhos-pés, olhos-mãos, olhos-boca, olhos-peitos, olhos-nada.
Cada letra de teu nome tem a sua própria cabeleira,
denso alfabeto que incita à iniciação no segredo de teu segredo.
Tua sombra segue minha sombra em cada passo mínimo.

2014

domingo, 16 de fevereiro de 2014

CADERNOS BESTIAIS (V)


CONTRA A ENTRANHA

Contra a entranha —
multiplica o medo
no borrão desfigurado;

unhas enegrecidas,
maxilares arrancados,
miuçalha de carcaças.

Nenhuma língua enterrada
na fossa onde caranguejos
copulam com capulhos;

mistério ou talvez corrosão
de ácidos na decapagem
para a despossessão de tudo.

Retrátil, contra teu sangue,
a exaustão do que esfiapa
o símile do pensamento.

Esta pele, tua pele, nenhuma pele:
tudo é número e o número
é legião; meu nome é legião.

(Poema escrito por ocasião dos 50 anos do golpe de 01 de abril de 1964.)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

POEMAS PARA A PALESTINA


Poemas para a Palestina, antologia que reúne textos de 21 poetas brasileiros de diferentes gerações e estilos que enfocam a história recente do povo palestino, desde a Nakba ("catástrofe" em árabe) de 1948, que levou 750 mil palestinos ao exílio, até o drama vivido hoje pelas populações de Gaza e Cisjordânia sob a ocupação sionista. Os poemas reunidos neste volume são ao mesmo tempo um registro histórico, um depoimento humano e uma manifestação de solidariedade pela palavra poética. Lançamento previsto para MARÇO, aguardem!

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

GENERAL MANDÍBULA ATACA GOTHAM CITY: A POESIA DE ADEMIR ASSUNÇÃO


 


A voz do ventríloquo (São Paulo: Edith, 2012, que recebeu o Prêmio Jabuti no ano passado), é o quarto volume de poemas de Ademir Assunção, que também publicou LSD nô (1994), Zona branca (2000) e  A musa chapada (2008, em parceria com Antônio Vicente Seraphim Pietroforte e o artista visual Carlos Carah), além dos volumes de prosa experimental  A máquina peluda (1997), Cinemitologias (1998), Adorável criatura Frankenstein (2003) e dos CDs de música e poesia Rebelião na zona fantasma (2005) e Vira-latas de Córdoba (2013). Os títulos de seus livros já deixam explícito o diálogo do autor com o universo das histórias em quadrinhos, do cinema, da música pop, da contracultura, das mitologias pré-colombianas e do Oriente — diálogo já bem comentado na fortuna crítica do autor.

Estas referências são comuns a outros poetas de sua geração, como Maurício Arruda Mendonça, Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes, que compartilham ainda o interesse pela poesia e concepção de vida dos poetas beats norte-americanos, como Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti e Allen Ginsberg. A poesia de Ademir Assunção, no entanto, não se esgota em tais referências: sua temática é mais ampla, incluindo o retrato alegórico da cidade, com ênfase nos que estão situados à margem, como as prostitutas, traficantes, menores abandonados e moradores de rua, a reinvenção de mitos indígenas, gregos e bíblicos (Ulisses na tormenta, Na cova dos leões), a sensação de deslocamento e incomunicabilidade num mundo cada vez mais dominado pelo mercado e pela mídia, a loucura belicista, a busca do amor como a utopia possível, para citar alguns temas recorrentes.

Sua técnica literária pouco tem a ver com a prosódia beat: basta compararmos um poema de Allen Ginsberg, como o Uivo, com seu jorro discursivo que se aproxima da prosa, com O pântano, um dos mais belos poemas de A voz do ventríloquo: “Há uma serpente enrodilhada nas ramagens / do poema: / cauda verde-turquesa, escamas / mitológicas, cabeça / de névoa”. Este poema se aproxima da estética neobarroca, não apenas pela riqueza imagética e metafórica, mas sobretudo pela colagem de referências de diferentes repertórios culturais, como “um cemitério de aviões de caça da Segunda Guerra” e “uma rainha que trepa / com o próprio filho” (Jocasta?), “prostitutas chinesas” e “um monstro de folhagens / e couro cru de crocodilo”. Claro: a montagem ou justaposição de cenas é uma técnica narrativa do cinema, que está presente em quase toda a obra de Ademir Assunção, em especial nos livros Cinemitologias e Zona branca, mas também aqui, na Voz do ventríloquo, assim como o diálogo criativo com o jazz (Billie Holiday na porta dos fundos), a pintura (O grito) e a televisão (A vida em tecnicolor). Não se trata de mera exibição de citações cultas, fetichismo que muito afetou a poesia da década de 1990, mas de releituras que o poeta faz das coisas que fazem sentido para a sua sensibilidade e compreensão de si mesmo e do mundo, de seus medos, vivências e obsessões.

Podemos dizer que a poesia de Ademir Assunção tem um alto grau de sinceridade, mas que não é confessional, como boa parte da literatura beat – os poemas amorosos de Allen Ginsberg e os romances de Jack Kerouac, por exemplo, onde são nítidos os traços autobiográficos. A sinceridade na escrita, é bom ressaltar, não significa o registro imediato de sensações, o lirismo espontâneo, herdeiro da escrita automática dos surrealistas (a frase zen-budista “Primeira ideia, melhor ideia” era uma das favoritas de Ginsberg). Ademir Assunção visa justamente o contrário, desautomatizar a escrita e o pensamento, para tornar mais afiadas as palavras da tribo: “eu sou poeta e sigo em frente / em linhas tortas / eu não lido com palavras mortas”, diz ele no poema Orfeu nos quintos dos infernos.

A imaginação poética – melhor dizendo, a máquina de fabricar mitologias – de Ademir Assunção caminha de mãos dadas com a informalidade de Paulo Leminski, Roberto Piva e Torquato Neto, três de seus ícones culturais – por isso mesmo já chamei essa poesia, em outro artigo, valendo-me de um oxímoro, de “formalismo informal”, característica que acompanha o autor desde o seu primeiro título publicado, LSD Nô (1994), em que é mais evidente a influência da Poesia Concreta, na escolha da tipologia de letras, espacialização das palavras e linhas e outros recursos que realçam a visualidade. Notáveis são os haicais que Ademir Assunção – estudioso e praticante do zen-budismo – inclui no final desse livro, entre eles “a chuva / molha / uma lágrima” e “cachorro sem dono / chuva fria / de outono”.

A paródia é um dos recursos mais usados pelo poeta, seja a glosa satírica do discurso quinhentista, em Máquina peluda, seja a reapropriação crítica da linguagem e técnica narrativa das histórias em quadrinhos, em Zona branca e A voz do ventríloquo, onde aparecem personagens como o General Mandíbula, O Anjo do Ácido Elétrico e Mister P., inventados pelo autor, ao lado de Orfeu, Ulisses, Heráclito, Iemanjá, o Coringa e King Kong.  A própria Poesia, e o seu irmão Prosa, comparecem nas páginas do Diário do Ventríloquo, inserções de prosa narrativa com fundo preto e as letras em cor branca que aparecem em várias seções do livro, como se fosse uma narrativa paralela, um canto dialogado. A organização dos poemas e textos em prosa obedece a um princípio não-linear, mimetizando, no próprio corpo semântico, o caos e a fragmentação do mundo a nossa volta. O fio condutor do livro talvez esteja no próprio título do volume: é a voz invisível do ventríloquo, esse eu lírico que percorre as ruas de Gotham City “enquanto o Coringa injeta no braço esquálido / a última gota da ampola”.  Convém destacar o trabalho de Ademir Assunção com a oralidade, presente sobretudo em seus CDs, Rebelião na zona fantasma e Viralatas de Córdoba, em que os poemas não são cantados, nem recitados com intenção retórica, mas declamados com fina sensibilidade; o poeta explora a dimensão melódica e emotiva de cada palavra, com silêncios, ênfases e variações de timbre, dialogando com as intervenções sonoras da banda Fracasso da Raça, numa unidade estética entre palavra e música. 


(Artigo publicado na edição de fevereiro da revista CULT, na coluna Retrato do Artista.)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

CADERNOS BESTIAIS (IV)

  

ANTIMÍDIA (I)

Tunisiano de cabeça nervurada assenhora-se
da unha mínima
da história
enfurece letras que são bichos
de um minucioso horror
quando a morte engole manápulas
e adensa paisagens-vértebras
daqueles que não têm nome daqueles que
não têm nome nenhum nada além
de ninguém
tudo é um jogo desjogado de lacraus
letras que são bichos no escuro letras que
são lepras de lorpas no escuro
tateando entre os tufos da fome tateando
entre os húmus da usura tateando entre
assemelhar-se anfíbio
assemelhar-se reptante no asco
da rachadura no asco do desvão
em que se obliteram as anfetaminas
da desmemória
linhas incisivas num crescendo menos o focinho
menos a mandíbula menos as
tíbias esmagadas no
fosso monocromático do não –
há uma caixa torácica que canta
sozinha no deserto de Mojave
onde marines enrabam desvestidas traqueias
antes de matarem qualquer coisa viva – 
dentes-de-leão ressonam numa tarde esfumada de setembro
em que um poeta (tunisiano?) soletra a sub-reptícia
sombra da vivissecção.

2014 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

1964 NUNCA MAIS!




O Centro Cultural São Paulo realizará em 2014 diversas atividades para recordar os 50 anos do golpe civil-militar de 01 de abril de 1964, que mergulhou o Brasil num dos períodos mais sombrios de toda a sua história, e também os 30 anos da campanha popular pelas Diretas-Já, que levou ao fim do ciclo autoritário e ao começo de uma nova jornada em direção à democracia. Nos meses de fevereiro e março, a Curadoria de Literatura e Poesia do CCSP realizará palestras, debates e recitais alusivos ao tema, além de promover a distribuição de panfletos poéticos, com textos de autores que denunciaram o clima de violência e opressão de nossos “negros verdes anos”. Convidamos a todos vocês para que prestigiem a nossa programação! 


DEMOCRACIA E MÍDIA

Debate com o blogueiro Altamiro Borges, o jornalista José Carlos Ruy e o escritor Jeosafá Fernandes sobre as relações entre os veículos de comunicação tradicionais e a democracia, ontem e hoje.

Sexta-feira, dia 14/02/14, das 20h30 às 22h 

Sala Adoniran Barbosa 


CANTOS DA LEITURA: VOZES DA RESISTÊNCIA

Recital poético organizado por Patrícia Romiti com textos de autores que tematizam os anos do período da ditadura militar no Brasil, como Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Ferreira Gullar, Haroldo de Campos e Paulo Leminski.

Terça-feira, dia 18/03/14, das 20h30 às 22h 

Sala Adoniran Barbosa



UMA CONVERSA COM EMIR SADER

O sociólogo Emir Sader fará um depoimento sobre o golpe de estado de 1964 e o significado das mudanças democráticas que aconteceram no país nas últimas décadas. Em seguida, responderá a perguntas do público, num bate-papo informal. 

Sábado, 29 de março, das 15h às 17h

Sala Paulo Emílio Salles Gomes 


PANFLETOS POÉTICOS


Serão distribuídos em diferentes pontos da cidade “panfletos poéticos” editados pela Curadoria de Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo, com textos de autores como Glauco Mattoso, Haroldo de Campos e Paulo Leminski

domingo, 26 de janeiro de 2014

CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS



A burguesia brasileira já nasceu associada ao latifúndio e ao grande capital internacional. Ela soube conviver com a monarquia, a escravidão, as oligarquias rurais e por fim com a ditadura militar, que financiou e apoiou desde o início. Sua incompetência é histórica: foi incapaz de realizar uma revolução democrática nos moldes das grandes revoluções européias, preferindo sempre firmar pactos com outros setores hegemônicos para transições conservadoras que mantiveram intactos o latifúndio e os privilégios das minorias. A república burguesa no Brasil privou as mulheres, os negros, os pobres e analfabetos de seus de direitos políticos (incluindo o direito de voto) até o curto período democrático de 1945 e 1964, e manteve a mulher em posição de segunda classe no Código Civil até a redemocratização do país, na década de 1980 (antes, a mulher era considerada, na legislação em vigor, “relativamente incapaz”, ao lado dos índios, das crianças e dos doentes mentais). Hoje, essa mesma burguesia, que sempre se acovardou frente ao capital internacional, resgata os mais toscos preconceitos possíveis – contra negros, pobres, nordestinos, homossexuais – e usa os meios de comunicação e o poder judiciário numa cruzada reacionária, para tentar frear as mudanças sociais ocorridas nos últimos dez anos, com Lula e Dilma. Ela não tem nenhum projeto de país – nunca teve --, não tem propostas, nem mesmo uma ideologia clara, além da enfática defesa do lucro desmedido e da exclusão social. Uma classe tão medíocre, tão mesquinha, tão covarde, merecerá o destino que a história lhe reserva.

UM POEMA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



NUDEZ


Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.

Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.

Nem era dor aquilo que doía:
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)

Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.

Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.

Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

CADERNOS BESTIAIS (III)


CABEÇA DE NÃO

Cabeça de negro – não entra –

cabeça de branco –

entra – cabeça de pobre –

não entra – cabeça de nobre –

entra – cabeça de pardo –

não entra – cabeça de podre –

entra – cabeça de cobre –

não entra, nem cabeça,

nem pés, nem mãos,

nem joelhos, nem nada –

não entra, neste passeio;

não entra, neste passado;

se é preto ou pardo;

por isso, o poeta contesta,

por isso o poeta protesta,

por isso o poeta desafia,

por isso o poeta desafina,

se alinha junto a esses e a essas,

por isso, por aquilo, por tudo, por nada.

2014

domingo, 12 de janeiro de 2014

CADERNOS BESTIAIS (II)



BREVE HISTÓRIA DO FABRICANTE DE CERVEJA

Cabeça com tentáculos de harpia,
obeso como grávido
escaravelho,
despreza (deliberadamente)
as leis
que o desagradam.
Contrata paraguaios, chilenos, peruanos,
hondurenhos, guatemaltecos,
haitianos
para trabalharem
em sua fábrica,
sem identidade, passaporte
ou carteira de trabalho.
Tudo é número
no anguloso inferno fabril.
Multiplica as horas
para a moagem do malte,
a maceração,
a fervura do mosto,
a adição dos lúpulos de aroma,
a decantação.
Com olhar imóvel de um porco morto,
contabiliza os ganhos
de sua rapinagem
clandestina,
como quem conta cordeiros
ou estrelas.
Um dia, cinco musculosos haitianos
pegaram o pilantra
pelas orelhas,
surraram-no
e jogaram-no
no meio da fervura.
Após o expediente,
reuniram todo o pessoal
no quintal da fábrica
e beberam muita, muita cerveja.


PAISAGEM

Árvores saqueiam o arco-íris.

Três banqueiros atiram-se
ao rio e morrem afogados.

Nuvens piscam o olho para o sol,
que enfurece os dentes-de-leão.

Ninguém me oferece uma estrela.

Quando eu morrer, me enterrem
na tua voz.


JUIZ

Cabeça de fungo 
reptilizada
olho-de-corvo
e coluna inclinada
calvo como um imperador
romano, sorriso áspero
e lustrosos sapatos italianos
toga escura como o medo
(enterra-te no escuro,
enterra-te no medo).

  
JUIZ (II)

“Tu, pessoa nefasta”
— Gilberto Gil

Fúria,
palavras afiadas 
em fúria, para fustigar 
a esfarrapada justiça
e sua voz estorricada 
que absolve os roubos dos ricos
e condena os insubordinados, 
ladrando trevas.


sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

CADERNOS BESTIAIS



ANÔNIMOS
Há um louco solto na rua.
(Os livros dos uigures foram escritos para serem esquecidos.) 
Um policial pede os seus documentos.

(Há três ou quatro especialistas em língua suméria.) 

O louco entrega-lhe um tijolo.

(Uma tribo na Ásia Central escreve seus livros sagrados nos ventres de mulheres-anãs.)

O policial fica furioso porque queria um sapato.

(Um miniaturista persa escreveu um longo poema épico numa pena de faisão.)
Eles começam a discutir e logo aparece uma mulher gorda que entra na confusão.

(Sobre o que conversam as abelhas?)

O louco declara o seu amor pelos incêndios.

(Nuvens serão letras de um alfabeto cabalístico?)

O policial é apaixonado por boxeadores e telepatas.

 (Os melhores poemas ainda não foram escritos, disse para mim um asceta tuaregue.)

A mulher gorda ataca o louco com a sola de um sapato.

(Quem conhece um grande romancista da Lituânia?)

O cinegrafista do Grande Telejornal filma todo o episódio para exibir no horário nobre. 

(Há indícios de vogais e consoantes em teus pequenos lábios.)

 Logo surgem legiões de publicitários, jornaleiros e vendedores de apólices de seguros e tem início uma pancadaria.

(Poucos são capazes de ler as mensagens ocultas no interior das nozes.)


FIM DO MUNDO

À memória de Jakob van Hoddis

Loba ensandecida rumina vermes de escuro escárnio.
Alguém-ninguém atravessa a rua
e em todos os cantos 
ouvem-se gritos 
feito guinchos
de um porco amarelo.
Cai um aguaceiro
na cidade esquálida
e os bairros alagados atingem as estrelas. 
Banqueiros obesos caem do telhado 
e se despedaçam.
Numa placa de rua, 
lemos: cuidado.
Quase todos têm secreções nasais;
os ônibus correm nas avenidas 
a toda velocidade,
entram nos viadutos
e se chocam contra as paredes.

Todas as palavras não são mais que uma superfície de cacos de vidro à entrada de uma cidade maldita.


JAMAIS

Para Fabrício Slaviero

bichos de verde-muco proliferam
nos entalhes do tapume;
antiaranhas deslizam
nas ramagens,
tramam teias e resíduos
de uma dor vermelha,
recíproca.
há um plasma em cada fenda,
em cada vão
de madeira apodrecida.
há um acre açafrão
em cada veio
do reboco, com seu ácido.
tateiam algo, quem, aqui –
ou apenas arrulhos, crostas, escaras,
ninguém com óculos de aro fino,
breve gravata lilás e uma refinadíssima
sensibilidade no olfato; não, ninguém,
nunca houve, jamais.


ARAMES, RETALHOS

esqueletos do nunca
onde o áspero da palavra,
brutais de dezembro.
porque esta não é a minha língua:
retorcidos de mistério,
caranguejo onagro.
onde se desdobra a pedra, onde se
desdobra o nojo desse nunca,
que se anuncia indesejoso:
são palavras em seu verde, em seu asco;
são vértebras de escárnio,
entulhos-de-orelhas à procura da mulher-dos-gatos.
porque nada faz sentido, eu sei,
neste reverso em que me falas,
primitiva, reverberante,
com a nudez que me calam os arames, os retalhos;
com a nudez de um estuque de plantas,
ruidosa, em expansão — e só me resta confessar
os fumos de aranha, inconcluso,
quando indagas sobre o meu labirinto.


FIM DE CASO

depois da separação
embora eu me dissuadisse
que a memória esfumaçada
era apenas resíduo efêmero,
a pele escandida recusava 
toda tentativa de esquecimento,
amealhava cenas e palavras
descoloridas, mas ainda cruéis,
quadros que gritam na exposição,
quadros vivos que se assenhoram
de cada minuto, de cada silêncio,
de cada pálpebra, sem cautério:
cansado de lutar com a dor,
convidei-a para dormir comigo.


CANTIGA

Penso em você eroticamente.
Até a fabulação
de outra margem,
na estranha habitação onde os números,
pares e ímpares, enlouquecem.

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Um minúsculo leão branco habita a sua fenda.


***

A ferocidade
no limiar da noite,
quando a pele —
desmedida, irremissível,
se projeta em outra pele:
nenhum destino além do nervo tumultuário.


(Poemas inéditos de Claudio Daniel)


domingo, 22 de dezembro de 2013

GALERIA: LOUIS ARAGON




Louis Aragon (Louis Andrieux), poeta e romancista francês, nasceu em 03 de outubro de 1897 em Paris. Sua família era proprietária de uma pensão num bairro abastado da capital francesa. Após concluir os estudos no Liceu Carnot, em 1916, ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de Paris. Convocado para o serviço militar, serviu como médico auxiliar durante a I Guerra Mundial. Após o conflito, retomou os estudos e conheceu André Breton, que o apresentou ao surrealismo. Nos anos seguintes, dirigiu, juntamente com Philippe Soupault e Breton, a revista Littérature. Aragon estreou como poeta em 1920, com o livro Feu de joie, ao qual seguiram outras publicações, como o romance Anicet ou Le Panorama (1921), a compilação de contos Le libertinage (1924) e a narrativa satírica Le paysan de Paris (1926), entre outras obras. Em 1928 conheceu Elsa Triolet, escritora russa, cunhada de Maiakovski, que  foi o seu grande amor e com quem se casou. Filiou-se ao Partido Comunista Francês (PCF) e realizou, em 1930, uma visita à União Soviética. De volta a Paris, distanciou-se dos surrealistas e publicou Le front rouge (1930), poema de temática revolucionária, escrito sob a influência de Maiakovski. Nos anos seguintes, Aragon publica poemas, artigos de jornal, ensaios e romances de nítida influência marxista. Durante a Guerra Civil Espanhola, alistou-se como voluntário e combateu ao lado dos republicanos. Quando a França foi ocupada pelas tropas nazistas, em 1940, participou da Resistência, assim como Paul Éluard, também militante do PCF. Entre seus livros publicados nesse período destacam-se Le crève cour (1941) e Les yeux d’Elsa (1942), sua obra mais conhecida, em que celebra o amor absoluto. Após a II Guerra Mundial, colabora em jornais e revistas como Ce soir e Les lettres françaises e publica outros livros importantes, como Elsa (1958) e Le Fou d'Elsa (1963). Entre seus últimos títulos publicados destacam-se os romances La mise à mort (1965) e Blancheou l’oubli (1967). Louis Aragon, um dos maiores poetas franceses do século XX e um dos fundadores do surrealismo, faleceu em Paris em 1982.

UM POEMA DE LOUIS ARAGON


 Je suis l’hérésiarque de toutes les églises 
Je te préfère à tout ce qui vaut de vivre et de mourir 
Je te porte l’encens des lieux saints et la chanson du forum 
Vois mes genoux en sang de prier devant toi 
Mes yeux crevés pour tout ce qui n’est pas ta flamme 
Je suis sourd à toute plainte qui n’est pas de ta bouche 
Je ne comprends des millions de morts que lorsque c’est toi qui gémis 
C’est à tes pieds que j’ai mal de tous les cailloux des chemins 
A tes bras déchirés par toutes les haies de ronces 
Tous les fardeaux portés martyrisent tes épaules 
Tout le malheur du monde est dans une seule de tes larmes 
Je n’avais jamais souffert avant toi 
Souffert est-ce qu’elle a souffert 
La bête clamant une plaie 
Comment pouvez-vous comparer au mal animal 
Ce vitrail en mille morceaux où s’opère une mise en croix du jour 
Tu m’as enseigné l’alphabet de douleur 
Je sais lire maintenant les sanglots Ils sont tous faits de ton nom 
De ton nom seul ton nom brisé ton nom de rose effeuillée 
Ton nom le jardin de toute Passion 
Ton nom que j’irais dans le feu de l’enfer écrire à la face du monde 
Comme ces lettres mystérieuses à l’écriteau du Christ 
Ton nom le cri de ma chair et la déchirure de mon âme 
Ton nom pour qui je brûlerais tous les livres 
Ton nom toute science au bout du désert humain 
Ton nom qui est pour moi l’histoire des siècles 
Le cantique des cantiques 
Le verre d’eau dans la chaîne des forçats 
Et tous les vocables ne sont qu’un champ de culs-de- bouteille à la porte d’une cité audite 
Quand ton nom chante à mes lèvres gercées 
Ton nom seul et qu’on me coupe la langue 
Ton nom 
Toute musique à la minute de mourir

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

ZUNÁI, REVISTA DE POESIA & DEBATES



A poesia como um aprendizado de esmeraldas vivas – Entrevista com Adriana Zapparoli

Poesia clássica chinesa – Dinastia Tang, Ricardo Portugal

Gramática expositiva do texto leminskiano, Tida Carvalho

Abre-te, cérebro! O tudo que cabe nas palavras de Arnaldo Antunes, Hernany Tafuri

Cadernos da Palestina: artigos, depoimentos e poemas

Poemas inéditos de Armando Freitas Filho, Eduardo Espina, Nanda Prieto, Roberta Tostes Daniel, Rubens Zárate, Marcílio Costa, Ricardo Carranza, Iago Passos, Consztanza Muirin, Fátima Sapetiveoatl.

Traduções: T. S. Eliot, e. e. cummings, William Blake, W. B. Yeats, Henri Michaux, Maria-Mercè Marçal e Mercê Rododera.

Contos de Sérgio Medeiros, DirceWaltrick do Amarante, Anita Dutra e Márcia Barbieri.

Especial: O juiz julgado – nove cantigas de escárnio e mal-dizer

Zunái é uma publicação comprometida com a inovação estética e temática e com a “batalha das ideias”, divulgando o que há de mais experimental e perturbador na literatura e no cenário cultural brasileiro.

Revista Zunái: www.zunai.com.br

Preço: Inefável; inconcebível.

Onde encontrar: no ciberespaço, essa “Gran Cualquierparte” (Vallejo).

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013