Uma escritura entre machados de jade e leões microcéfalos,
espiral inscrita em espirais, para o jogo de espelhos e pupila. A saga de
Haroldo de Campos move-se como rapsódia de cantos ou círculo de mandalas, onde
idéias e formas mesclam-se numa geografia de outras luas possíveis ou cifradas
constelações verbais. Partindo da geometria estrutural de Mallarmé e da
desarticulação semântica de cummings, que inseminaram a jornada concreta, o
poeta erigiu, em seu fazer pós-utópico, inusitadas arquiteturas da palavra, que
nos surpreendem pelo impacto de suas combinações cromáticas e musicais.
Assimilando recursos e processos do engenho barroco, da imagética oriental e da
lírica metafórica dos épicos gregos, entre outros pontos luminosos, o autor construiu
um fabulário de imprevistas formas de narrativa poética. Cântico do presente,
de uma época conflituosa e interrogante, sua obra nos seduz pela capacidade
esfíngica de apresentar não respostas, mas desafios e mistérios, estimulando a
aventura de novas aventuras verbais. Transcriador de obras como a Comédia de Dante, o Fausto de Goethe e a Ilíada de Homero, além
dos mais inventivos autores da modernidade — Joyce, Pound, Maiakovsky,
Khlebnikov, entre outros —, Haroldo de Campos apresenta, no conjunto de sua
criação, um diálogo vivo com a literatura de todos os tempos.
CD: A tese do fim do ciclo histórico do verso permanece
válida, em sua opinião? É possível ainda a experimentação no campo verbal, ou o
futuro aponta para o fim da poesia como arte da palavra, superada pelos novos
meios eletrônicos?
Haroldo: Entendo —
é isso que exponho no ensaio Da Morte do Verso à Constelação: o Poema Pós-Utópico (em O Arco-íris Branco, Imago, RJ) — que, com a crise simultânea das
ideologias e das vanguardas, todo o radicalismo futurológico está já posto em questão. Estou com
os que pensam que o processo da modernidade ainda não se concluiu: o que ocorre
é a incidência epocal do momento pós-utópico, passando-se a encarar uma
agoridade em poesia, onde os contributos do passado e as reconfigurações
inventivas do presente de criação são urgidos a operar e co-operar num circuito
recíproco. Quanto aos meios eletrônicos, podem trazer um novo e fecundo
instrumental para a criação (como já o estão fazendo, veja o caso paradigmal de
Augusto de Campos e as personalíssimas intervenções de Arnaldo Antunes). Sou,
porém, dos que acreditam na sobrevivência e na pervivência do livro como objeto.
Nesta época em que vigoram teses sobre o
fim da história e das ideologias e o eclipse das vanguardas, qual é o sentido
da idéia de invenção?
Haroldo: A idéia de
invenção continua sempre vigente, mas em dialética permanente com a tradição. O
poema pós-utópico nasce pontualmente nessa conjuntura dialetizada, onde são
muitas as possibilidades combinatórias do passado de cultura com a agoridade, a
presentidade, a imaginação criativa, a invenção.
CD: Como surgiu o projeto de fazer a tradução integral da Ilíada? O que este épico representa para a imaginação e o fazer poético
contemporâneo?
Haroldo: O projeto
de “trans-helenizar” a Ilíada homérica
foi insuflado pelo constante entusiasmo de Ezra Pound e de James Joyce pelo
rapsodo grego. Mas o foi também pela opinião de Auerbach, para quem as duas
matrizes poéticas do Ocidente são a obra de Homero e a Bíblia hebraica. Um
constante e atento instigador, durante o curso do trabalho (dez anos, como a
Guerra de Tróia...) foi Trajano Vieira, jovem helenista , professor de grego da
Unicamp e tradutor (excelente) do trágico clássico da Hélade. Por outro lado,
eu retomo e atualizo radicalmente a lição de Odorico Mendes, virtual patriarca
oitocentista da transcriação no Brasil. Recuperei Odorico, duramente rejeitado
por Sílvio Romero, Antonio Candido e Wilson Martins em meu ensaio “Da criação
como tradução e como crítica”, de 1962, publicado em Metalinguagem e
Outras Metas (1992).
CD: Comente a evolução de sua pesquisa sobre os poemas
bíblicos. Pretende publicar novas traduções nesse campo, após oQohelet e o Bereshit?
Haroldo: Tenho
pronto um novo livro de transcriações de textos bíblicos, reservado para a
editora Perspectiva, a ser publicado ainda neste ano. Contém: o episódio de
Adão e Eva (a segunda história da criação); o episódio da Torre de Babel e a
íntegra do Cântico dos Cânticos (Shir Hashirim). Estou escrevendo um prólogo geral para o volume (breve) e
alguns comentários sobre os capítulos II a VII do Cântico, pois só o capitulo I estava por mim traduzido quando o publiquei
na Folha de S. Paulo. As duas outras partes do tríptico
contido no livro já foram, também, publicadas na Folha.
CD: Escrito
sobre Jade reúne traduções de poetas clássicos chineses; O
Manto de Plumas recupera, em nosso idioma, a música poética do teatro nô. O diálogo
permanente com a cultura oriental ainda estimula a sua criação?
Haroldo: Ainda,
como sempre. Ambos esses livros estão há muito esgotados. Preparo uma nova
edição de cada um deles, incluído, no primeiro, Mao Zedong, como poeta de
estilo clássico; no segundo, material sobre a encenação de Hagoromo realizada
e protagonizada por Alice K., dançarina, coreógrafa e atriz especializada em nô.
CD: Em A
Maquina do Mundo Repensada (2000) há um discurso poético que navega por conceitos científicos e
filosóficos sobre a origem do universo. Qual é a gênese desse livro? De onde
vem seu interesse por cosmogonias?
Haroldo: Meu
interesse é antigo. Está já em A Arte no Horizonte do Provável (1ª edição, Perspectiva, 1969) e na introdução que escrevi,
sob forma de ensaio, para a Pequena Estética de Max Bense; mais recentemente, o estudo sobre
ordem, caos e acaso que figura na ultima edição, ampliada, de Mallarmé (Perspectiva). Ademais, fui amigo
pessoal do maior físico teórico brasileiro, Mário Schemberg, cuja casa
freqüentei assiduamente. Minha amiga Guita Ginsburg foi assistente de Mário no
Instituto de Física da USP. Tenho um filho, Ivan Pérsio, que é doutor em
Química pelo Instituto de Química da USP e professor titular da UNIP; tenho
também um sobrinho (Roland, filho de Augusto), que é professor de Física da
Universidade de Brasília, especialista em cosmologia. Ambos
esses dois rebentos da família Campos são muito interessados em humanidades
(artes e literatura).
CD: Crisantempo (1998) é um livro
multipolar, que reúne peças inspiradas por suas viagens a países como Japão,
Israel, Estados Unidos e releituras de poetas de diferentes tempos e espaços.
Esse diálogo criativo com outras culturas é uma resposta, no campo da poesia, à
idéia de um mundo sem fronteiras?
Haroldo: Na Nota Prévia a meu livro A Operação do
Texto (1976;
a nota está datada de junho de 1975) eu já falava em tradução como
“transculturação”, expandindo no tempo e projetando na história a idéia
prático-teórica de “transcriação”. O conceito de “transculturação” foi usado,
alguns anos depois, em âmbito literário-cultural pelo crítico uruguaio Angel
Rama (Transculturación Narrativa en América Latina, 1983), embora entre nós ninguém tenha se preocupado em
fazer essa ligação. (Rama, talvez não se saiba, fez uma versão hispânica de meu
ensaio A Arte no Horizonte do Provável e publicou-a na revista venezuelana Poesía n. 19/20, Valencia, 1974.) Antes, bem
antes de nós ambos, o conceito já havia sido elaborado e aplicado em âmbito
antropológico pelo grande africanista cubano Fernando Ortiz (Los Bailes y el Teatro de los Negros en el Folclore de Cuba, 1951). Essa premissa, completada pela noção de Weltliteratur (literatura universal), que está em
Goethe e está no Manifesto Comunista, de Marx e Engels, dá resposta a sua indagação
sobre o ideal de um “mundo sem fronteiras”, onde, como queriam os autores do Manifesto, as literaturas regionais seriam superadas em prol da
constituição de um patrimônio cultural comum, universal.
CD: O barroco está presente em sua escritura desde O Auto do
Possesso (1950), mas é na prosa experimental de Galáxias(1984) que essa vertente se
manifesta de modo mais nítido. Comente o processo de criação dessa obra.
Haroldo: Galáxias é
o momento de plena afloração do barroco no meu processo textual, preparado por
uma pré-história que se encontra em Ciropédia ou a Educação do Príncipe, Claustrofobia e num poema quase programático como Xadrez de Estrelas. De início (1963), pensei nesse meu texto longo como um
ápice da prosa, dominado pela vontade épica, pela diegese. Verifiquei, porém,
com o evoluir do projeto, que se tratava antes de uma vis epiphanica, de um poema longo imagético-visionário, percorrido por
farrapos de narração. A descrição do meu processo de trabalho está em Dois Dedos de
Prosa sobre uma Nova Prosa (revista Invenção n.
5), título que hoje eu retificaria, escrevendo Dois Dedos de
Prosa sobre um Novo Poema.
CD: Mário Faustino estudou as possibilidades do poema
longo moderno a partir da leitura dos Cantos de Ezra Pound e daInvenção de Orfeu de Jorge de Lima. Finismundo (1990) é uma investigação poética que caminha nesse sentido?
Haroldo: Finismundo (como Galáxias, porém num outro diapasão) vai, certamente, nesse sentido.
CD: Seus ensaios teóricos e traduções de autores como o
cubano Lezama Lima exerceram forte influência sobre os estudos do neobarroco. A
seu ver, qual é a informação nova que essa corrente literária traz para a
poesia atual?
O neobarroco
(incluídos sob essa denominação nomes como os dos cubanos Lezama Lima,
Carpentier, Cabrera Infante, Sarduy e Kozer; dos brasileiros Guimarães Rosa,
Jorge de Lima, Mário Faustino e Leminski; dos colombianos León de Greiff,
poeta, e o Gabriel Garcia Marques de Cem Anos de Solidão; para sequer mencionar os aspectos barroquistas
de Trilce, de Vallejo, Altazor, de Huidobro, En la Masmédula, de Girondo,Blanco, de Paz, Canto General, de Neruda e certos poemas
conceptistas-combinatórios de João Cabral) é um fenômeno criativo de fundas
implicações no passado e no presente da Ibero-América. Sua variante platina é o
“neobarroso” de Néstor Perlongher, Arturo Carrera, Lamborghini e do uruguaio
Roberto Echavarren. Também no argentino Saúl Yurkiévich, radicado há muitos
anos na França (professor da Sorbonne, editor-testamenteiro de Cortázar,
admirável ensaísta que se ocupa da “vanguardia”), se encontram — em sua poesia
experimental — evidentes rasgos neobarroquistas.
CD: A Coleção Signos, que você dirige para a editora
Perspectiva, tem publicado livros de vários poetas brasileiros mais recentes,
como Frederico Barbosa, Arnaldo Antunes, Carlos Ávila, Antonio Risério e Régis
Bonvicino. A seu ver, como esta a poesia brasileira atual?
Haroldo: Há bons
nomes a considerar (para não mencionar figuras já em plena maturidade ou em
sábia pós-maturidade, como Sebastião Uchoa Leite e o mineiro Affonso Ávila,
este, ademais, um notável especialista do barroco). Horário Costa, já com 40
anos, é um de nossos melhores poetas-críticos. Há, ademais, um promissor grupo
de mulheres em ascensão (Claudia Roquette-Pinto, Angela de Campos, Janice
Caiafa, do Rio; Lenora de Barros, em São Paulo), precedido no tempo por Josely Vianna
Baptista e Alice Ruiz (deNavalha na liga e Pelos pelos), e por essa admirável sobrevivente de tantas
lutas culturais que é Laís Corrêa de Araújo. Uma poeta de qualidade quase
ignorada no sul é Marize Castro, autora do surpreendente Marrons, Crepons,
Batons. Mas há também uma forte equipe masculina:
Frederico Barbosa, Carlos Ávila, Antonio Risério, por exemplo. Nela registro
com prazer a sua presença (Claudio Daniel). É óbvio que não pretendo ser
taxativo nesta minha simples enumeração exemplificativa. Não quero deixar de
acrescentar a esse elenco o livro Baobá, de Letícia Volpi, com que você me presenteou,
recomendando-o à minha apreciação. Reconheço — e gostaria de dizer-lhe — que a
moça promete: “tiene el duende”, como diria García Lorca.
CD: Quais são os seus projetos atuais? Está trabalhando em
um novo livro de poemas?
Haroldo: Sim. Organizo,
com a assistência gráfica de minha mulher, Carmen, um novo livro de poemas.
Como o fazia por superstição Júlio Cortázar, eu, embora não supersticioso,
participo da idéia de que não se deve mencionar o título de livros in fieri.
(Esta foi a última entrevista de
Haroldo de Campos, publicada em 2004 no n. 1 da revista Et Cetera, em
Curutiba.)