domingo, 6 de outubro de 2013
UM ORIENTE ALÉM DO ORIENTE: RELEITURAS DE HAROLDO DE CAMPOS
Claudio Daniel
Revelando
o imaginário e a alquimia verbal de uma poética de circulação restrita em nosso
idioma, Haroldo de Campos reuniu, em Escrito
sobre Jade(1996), peças de autores clássicos chineses, como Li T'ai Po e
Wang Wei, do século VII, e cantos de autores anônimos, compilados por Confúcio
no Livro das Odes, ou Shi King, seis séculos antes de
nossa era. Para realizar essa façanha titânica, o poeta fez uma leitura
metódica dos textos originais e de numerosas versões ocidentais, como as de
Ruckert (1833), Strauss (1880) e Klabund (1915), além das criativas versões de
Pound, coletadas em Cathay(1915).
Longe de se contentar com um exotismo decorativo e impressionista, recorrente
na maioria das versões, Haroldo de Campos adotou outra estratégia de leitura,
enfatizando a estrutura composicional, as imagens verbais e a rica sonoridade
dessa poética densa e delicada. Como se sabe, a escrita ideográfica tem um
caráter visual distinto do alfabeto fonético; é uma escrita para o olho e o
pensamento, que registra o desenho
da coisa e não o seu nome. Conceitos abstratos são também
representados por figuras abreviadas, que se associam para compor significados.
Assim, no exemplo citado por Pound, para dizer “vermelho”, um poeta do Império
do Meio podia juntar os ideogramas de “rosa”, “cereja” e “flamingo”. Esta é uma
escrita imagética e analógica, em que as idéias são construídas por relações
combinatórias. Quanto à oralização, o chinês é idioma altamente concentrado,
monossilábico, em que palavras semelhantes se distinguem pela entonação
musical. A leitura ocorre da direita para a esquerda, com os ideogramas
dispostos em colunas verticais. Como recriar em português esse peculiar
universo lingüístico, tarefa borgeana similar ao traçado da quadratura do
círculo (para usar analogia empregada pelo próprio Haroldo de Campos, em seu estudo
sobre poesia chinesa, publicado em 1977 no livro A Arte no Horizonte do Provável)?
Desde
meados do século XIX, diferentes tradutores têm se debruçado sobre a questão,
como o português Camilo Pessanha (que viveu em Macau) e a brasileira Cecília
Meireles, que optaram pela adoção de recursos conhecidos em nossa lírica
tradicional para expressar o “conteúdo” ou o substrato emocional dos poemas. O
jesuíta Joaquim A. Guerra, que traduziu na íntegra o Shi King (O Livro dos Cantares, 1979),
chegou a utilizar a sextilha e o verso de sete silabas para recriar a Ode 93
(“De veste alva e lenço azul”). Haroldo de Campos, em Escrito sobre Jade, caminhou em
outro sentido, usando recursos avançados da poesia atual para “transcriar” ou
“reimaginar” não apenas os significados, mas também os significantes dessa
cifrada escritura. Diz Haroldo, em seu prólogo: “Procuro compensar os aspectos
caligráfico-visuais de uma poesia (...) escrita por meio de ideogramas,
adotando técnicas de espacialização gráfica da poesia moderna para dispor o
texto no branco da página e usando, quase exclusivamente, a composição em caixa
baixa, dispensada a pontuação habitual (...). No plano fônico e prosódico, não
sendo possível reproduzir os módulos sonoros de uma língua tonal e,
conseqüentemente, os esquemas de rimas do original, compenso esses aspectos
através da extrema concisão (característica do chinês clássico, língua
isolante) e do minucioso trabalho de orquestração das figuras fônicas e
rítmico-sintáticas.”
Adotando
um repertório vocabular de alta precisão, com ênfase nos substantivos (e logo
nas coisas) e um discurso
mais sintético que sintático, com cortes elípticos, Haroldo de Campos recupera
o pensamento plástico dessa poesia onde a visão de mundo, marcada pelo Tao e
pelo Zen, se dá pela observação da natureza direta dos fenômenos, não raro
rompendo com os limites da lógica rotineira. A tensão entre preciso e
impreciso, presença e ausência, concreto e abstrato, real e imaginado é um tropo freqüente nessa lírica desconcertante,
recordando processos da pintura ch'an e os aforismas ou filosofemas de
Chuang Tzu: perfeição do imperfeito, inacabado ou desfeito, sugerindo a
mutabilidade e impermanêcia do homem e do mundo. Esse choque entre o velado e o
revelado atinge um alto nível de realização neste poema de Wang Wei,
poeta-pintor da dinastia T'ang:
montanha vazia não se vê ninguém
ouvir só se ouve um alguém de ecos
raios do poente filtram na espessura
um reflexo ainda luz no musgo verde
Notável, nesta peça articulada na zona fronteiriça entre filosofia e pintura, o choque entre vocábulos como montanha e ninguém, raios do poente e alguém de ecos, em refinado contraponto. Caligrafia e silêncio, movimento e repouso, paleta cromática e página em branco compõem uma só experiência estética, que não difere da jornada do ser no tempo.
Sutileza
e paradoxo são os signos por excelência na lírica de Li T'ai Po, santo ébrio
taoísta, adepto de artes mágicas e alquímicas, que segundo a tradição morreu
afogado no rio Yang-tse, ao tentar abraçar o reflexo da lua (anedota ou
episódio registrado em poema de Pound). Sua rica imagética se assemelha a um
cinema barroco, com inflexão filosófica e existencial, articulada em escalas de
canto. Escrito sobre Jade registra oito composições desse autor
insólito, o “Eremita do Lótus Verdeazul” que celebrou a vida e o vinho em
poemas como este (que em sua configuração tradutória conta com espaçamentos,
rupturas e a inclusão de ideogramas mesclados ao texto em português, à maneira dos Cantos): “entre flores uma
jarra de vinho / solitário bebendo sem convivas / erguer a copa à lua
lunescente / lua e sombra / somos três agora / (mas a lua é sóbria / e em vão /
a sombra me arremeda) / um instante / sombra e lua / celebremos / a alegria
volátil primavera! / canto e a lua se evola / danço e a sombra se alvoroça /
despertos o prazer nos unia / ébrios separamos os caminhos / nós de água nunca
mais reatáveis? / já nos veremos pela via láctea”.
Imagens de Cipango
Reimaginar
a poesia chinesa clássica numa língua e numa estrutura de pensamento regidos
pela lógica de origem grega e hebraica é certamente uma temeridade, como
confessa o tradutor (ou transcriador); o que dizer, então, do esforço de
recriar o Hagoromo, ou O Manto de Plumas, peça de teatro
nô escrita por Zeami, no século XV, no Império do Sol Nascente? Se o haicai é
uma forma poética que dialoga com a caligrafia e a pintura, o nô é uma
experiência de gesamtkunstwerk (“obra de arte total”) que une a
recitação poética cantada e a declamação dos textos em prosa, a música de
flautas e tambores e a narrativa dançada, com a colaboração de máscaras,
indumentárias e de todos os recursos visuais de uma obra dramática. De maneira
diversa do teatro musical wagneriano, porém, aqui não é a ação externa do
episódio épico que causa o pathos,
e sim os movimentos psicológicos, sugeridos por gestos mínimos de atuação,
mímica e dança. Conforme diz Haroldo de Campos em ensaio sobre o tema publicado
no livro A Operação do Texto (1976), “um simples movimento de leque
basta para indicar a morte da personagem: eidética do drama, sem demagogia e
sem parafernália”.
O drama
simbólico reclama a participação mental do espectador, “que encena ele mesmo as
coisas”, no dizer de Mallarmé, em sua quase-epígrafe a Igitur(texto-limite entre
poesia, prosa e representação). O nô, em sua forma estrita, não é literatura,
mas uma ópera de câmara, uma arte que sintetiza as outras artes, sendo por isso
considerado a quintessência da cultura japonesa (que, como toda “civilização realizada”,
tem um “projeto geral de beleza”, uma “tradição viva” que “não deve apenas ser
conservada, mas continuamente vivificada”, como afirma o poeta no texto
citado). Apesar de toda a riqueza dessa confluência de códigos, só recuperável
plenamente (se isso é possível) com recursos intersemióticos, a tradução
criativa dos textos do teatro nô, tal como realizada por Haroldo de Campos, é
uma aventura fascinante, pela grande beleza plástico-sonora dessas composições,
que podem ser lidas, hoje, como poemas altamente elaborados (tal como acontece
com o repertório do teatro grego, traduzido entre nós por Trajano Vieira). No
campo puramente verbal, uma peça como Hagoromo traz inquietantes desafios de
linguagem, pertinentes à discussão sobre as possibilidades do poema longo
moderno (que motivou, em nossa tradição literária recente, a Invenção de Orfeu, de Jorge de
Lima, o livro inacabado de Mário Faustino, Galáxias e Finismundo,
do próprio Haroldo). Não se trata de resgatar uma exótica curiosidade
ancestral, mas de recuperar para o debate (e o fazer) poético atual as
“essências e medulas” de uma arte sutil e complexa como um brocado de seda.
Na
introdução a Hagoromo de Zeami (1993), que traz a versão integral da
peça, acompanhada pelo libreto original, com os ideogramas, transcrição
fonética e significados literais de cada verso, o autor assim descreve a
estrutura composicional desse poema constelar: “O nô combina passagens em verso
(sob a forma de canto ou de recitativo) com outras em prosa (kotoba),
declamadas de forma lenta e solene, sem acompanhamento musical. O resultado
geral do canto ou da entonação, para ouvidos ocidentais, assemelha-se aos modos
'gregorianos' ou, talvez, ao Sprechgesang ('canto falado') da música moderna. Os
estudiosos ressaltam o caráter 'arcaico' e 'artificial' da linguagem do nô. A
língua usada nos monólogos e diálogos não era a falada no tempo de Zeami, mas
um coloquial de corte, anterior de pelo menos um século, vetusto, isento de
qualquer vulgaridade. A parte lírica e os coros compreendiam citações de poesia
japonesa e chinesa e de narrativas clássicas, em prosa permeada de poesia.” Em
seu trabalho de reorquestração das cintilâncias do poemário nipônico, Haroldo
de Campos optou por uma mandala verbal que não distingue a prosa da poesia, inserindo
pausas e espaçamentos entre palavras e linhas, conforme a fluência melódica e
narrativa, recuperando também o aspecto visual da escrita ideográfica .
“Preferi, assim, adotar um verso livre, espacejado e ritmado, salmodiável, com
cortes e apoios fônicos onde estrategicamente necessários para o relevo
arquitetural do texto.” Utilizando recursos aliterativos, de assonância e
paronomásicos, Haroldo responde em eco à prosódia do original, obtendo efeitos
sonoros como estes: “Singram barcos ao largo da Baía de Miho. / Os brados dos
pescadores marcam a rota das ondas”, onde ouvimos os sons especulares de b, g e ar.
Em outras seções, o poeta elabora neologismos e montagens verbais de feição
cinemática como “Lua clariluna” (para transcriar meigetsu: mei: clara,
brilhante, e getsu, lua)
ou “cor-aroma” (para keshiki:
ke, vapor, respirar, e shiki,
cor), renovando a estranheza e o alto poder de impacto dessa curiosa partitura,
atualizando-a com as figuras e modos de linguagem da poesia mais radical de
nosso tempo: make it new.
Uma
peculiaridade da poesia tradicional japonesa é o kakekotoba, ou “palavra
pendurada”, que instiga o tradutor a criar inusitadas simbioses verbais,
amálgamas de nomes e formas como variações de um caleidoscópio. Conforme diz
Haroldo: “Trata-se de um recurso de compressão semântica e ambigüidade poética,
algo como a 'palavra-valise' de Lewis Carrol e Joyce. Assim, matsubara significa 'pinheiral' (matsu,
pinheiro; bara, campo),
mas, ao mesmo tempo, matsu é um verbo, com a acepção de esperar.”
E Donald Keene, citado por Leminski em Matsuo
Bashô, A Lágrima do Peixe, faz o seguinte comentário: “A palavra shiranámi, que significa 'ondas
brancas', poderia sugerir a um japonês a palavra shiráni, que quer dizer
'desconhecido', ou 'námida', que quer dizer 'lágrima' ”. A função do kakekotoba, conclui Keene,
“consiste em ligar duas idéias diferentes mediante um giro ou desvio do seu
significado próprio”. Fazendo um paralelo com as sagas escandinavas, estudadas
por Jorge Luis Borges em Antigas
Literaturas Germânicas, poderíamos citar o kenning, tipo bizarro de
metáfora em que o sangue é chamado de “água da espada” e o escudo de “lua dos
piratas”; porém, a comparação seria imprecisa, pelo alto grau de síntese e
ambigüidade da construção poética nipônica. Para dar conta desse paradoxal
palimpsesto, Haroldo criou em português soluções não menos desafiadoras. A esse
respeito, diz o poeta: “A dificuldade é o sal da terra da tradução criativa. O
prazer do jogo. Tenho afirmado, mais de uma vez, que em matéria de tradução de
poesia vige a lei da compensação: o que não se pode obter de um modo, se
consegue de outro. Assim:
‘.............................o
pinheiral
espera a primavera:
cor-aroma’.
De PinhEiRAl sai esPERA e rima com PRimavERA: progressivamente, a primeira palavra vai-se projetando e ecoando na última”.
Princípios
similares de leitura crítica e recriação serviram de bússola ao poeta em seu
meticuloso artesanato reimaginativo dos haicais de Matsuo Bashô, poeta-samurai
do século XVII, contemporâneo de nosso Gregório de Matos. Nos ensaios “Haicai:
Homenagem à Síntese” e “Visualidade e Concisão na Poesia Japonesa”, presentes
em A Arte no Horizonte do
Provável, encontramos preciosas amostras dessa arte combinatória de
vocábulos, como a peça seguinte: “o velho tanque / rã salt' / tomba / rumor de
água”. Além da fusão sonora das palavras, numa rápida sequência de eventos,
temos aqui uma relação de mímese e mímica verbal em que o poema, com truques de
camaleão, reproduz em seu corpo semântico o movimento da rã em direção ao poço.
A síntese entre natureza e artifício, refinamento e simplicidade, que orienta
as artes tradicionais japonesas, é bem ilustrada nessa pequena saga verbal, que
aponta para a visão direta dos fenômenos, em sua harmonia e espontaneidade. Em
outra peça de Bashô, recriada por Haroldo, temos: “marescuro / gaivotas: gritos
/ vagamente brancos”, onde o impacto do claro-escuro e da sinestesia é
reforçado pelo advérbio, que torna imprecisa a imagem verbal, tal como ocorre
na pintura sumiê, onde as
figuras de montanhas ou nuvens por vezes são borradas, num quase
abstracionismo. A força de expressão do haicai, que reside na ação imprevista,
na surpresa, no inusitado, é amplificada ao máximo no teatro nô, que pode ser
considerado, em certo sentido, como uma coleção ou sequência de poemas breves.
E o coro final de Hagoromo,
que celebra o vôo da tenin (ninfa do céu budista) de volta a sua
morada, após recuperar o sagrado manto de plumas, pode ser lido, nessa
perspectiva, como a montagem de pequenos aforismas ou sentenças, unificados
pelo ritmo e pela apoteose dramática. Haroldo de Campos assim redesenhou esse
canto, em timbre epifânico: “Muitos são os jogos do Nascente / muitos são os
júbilos do Nascente / Quem se chama Pessoa Alva da Lua / na décima Quinta noite
culmina: / plenilúnio / plenitude / perfeição / Cumpriram-se os votos
circulares / Espada e alabarda guardam o país. / O tesouro das sete benesses /
chove / profuso / na terra. / Passa-se agora o tempo: / o celeste manto de
plumas está no vento. / Sobre o Pinheiral de Miho / sobre as Ilhas Balouçantes
/ sobre o monte Ashitaka / sobre o pico do Fuji / flutua / excelso / dissolvido
no céu do céu. / Esfuma-se na névoa / e a vista o perde”.
Barroco lúdico: transa chim
Transitando
entre a fúria metafórica barroca, a geometria fractal da fase concreta e a alta
concentração vocabular da maquinaria pós-utópica, a obra poética de Haroldo de
Campos, ao longo de seu percurso textual (iniciado em 1950, com O Auto do Possesso), dialoga
com o princípio do ideograma e os recursos de representação estética da
literatura do Extremo Oriente. Já em Ciropédia
ou a Educação do Príncipe (1952),
publicado na revista Noigandres n. 2,
a disposição espacial das seções 2 e 6 recorda a
visualidade ideográfica, e a montagem de termos neológicos como
“cítaradolorosas” e “AUREAMUSARONDINAALUVIA” registra certa similaridade com as
mesclas simbióticas da poesia japonesa. Essa relação intertextual irá se
aprofundar em movimentos sucessivos de sua escritura, como em austin poems (1971), incluído em Xadrez de Estrelas (1949-1974), Signantia Quasi Coelum (1979) e A Educação dos Cinco Sentidos (1985). Porém, é no livro Crisantempo (1998) que Haroldo, vestindo a
máscara/persona de um calígrafo de Cipango, dá vazão a uma série de poemas de finíssimo
sabor oriental, escritos sob a égide do princípio poundiano da crítica como
exercício de criação no estilo de uma época.
O
caderno Yugen: Caderno Japonês,
que integra essa coletânea, traz 16 poemas de reluzente beleza plástica, sobre
temas da história e do folclore do Japão, além do registro de recordações de
viagem ao país de Issa e Buson. Em Ryoanji,
assim o poeta retrata o famoso jardim zen de pedras e areia, construído num
templo de Kyoto: “o silêncio / ajardinado / sussurra um / koan de pedra /
caligrafado / na areia / são / dorsos de tigre / estes / que assomam / na
escuma / da areia / branca? / quinze pedras / mas você / nunca as vê / todas /
imaginar / as que faltam / alegra / a mente / de ausente / presença”. Em outra
bela peça, inspirada na trama de um drama nô escrito por Kan'ami (pai de
Zeami), lemos: “matsukaze / moça pinheirovento / dança / no quimono roxoprata:
/ vestida de príncipe / gesto e leque / a amadora converte-se no amado / trinta
anos para ver essa dança / agora que a vi / já posso devolvê-la / intacta / à
memória de Deus”. Em contraponto com Yugen (termo que significa “charme sutil”,
um dos princípios da filosofia estética desse ambiente cultural), o cadernoDíptico
para Gozo Yoshimasu traz
recriações de um dos mais destacados autores da atual poesia japonesa, com as
palavras e linhas dispostas em colunas verticais, à maneira dos kanji. Sonho dentro de um sonho
(como na parábola de Chuang-Tzu), a releitura das formas poéticas do Oriente
por Haroldo de Campos (reimaginar: re-sonhar uma escritura pretérita, fazendo-a
atual) soma-se a inúmeras outras aventuras verbais do poeta, como as
transcriações doParadiso dantesco,
do Fausto de Goethe, da Ilíada de Homero, da Bíblia hebraica e dos mais diversos idiomas,
códigos e códices, em busca de uma transculturação ou reapropriação crítica do
patrimônio cultural da humanidade, dentro da perspectiva de um mundo sem
fronteiras. Jornada titânica, beirando os limites do impossível, que só poderia
ser trilhada pelo maior poeta vivo do hemisfério ocidental.
BABEL DECIFRADA
Claudio Daniel
A Bíblia é o grande código da literatura
ocidental, segundo o estudioso Northrop Frye. É o início de toda a nossa
tradição literária. O Cântico
dos Cânticos, por exemplo, traduzido por Haroldo de Campos no livro Éden, publicado pela editora
Perspectiva, é uma das bases de nossa poesia erótico-amorosa, ao lado da lírica
romana e das canções dos trovadores da Idade Média. Já o estilo conciso,
obscuro e paradoxal dos livros sapienciais, como osProvérbios e o Eclesiastes marcaram importantes obras de autores
românticos e simbolistas, como o Blake do Casamento
do Céu com o Inferno, o Novalis de Aurélia e mesmo esse inimigo declarado do
cristianismo que foi Lautréamont, nas sentenças paródicas de suas Poésies. Outro adversário
contumaz da fé cristã, Friedrich Nietzsche, usou o estilo oratório dos profetas
hebreus em seu Assim Falava
Zaratustra, e até Marx, em sua obra mais elaborada, do ponto de vista
literário, que é o 18 Brumário
de Luís Bonaparte, fez várias citações do cânone bíblico, como a conhecida
frase “deixemos que os mortos enterrem os seus mortos”. Se fossemos fazer uma
lista de todos os autores influenciados, de uma maneira ou outra, pela
literatura bíblica, essa lista seria interminável.
Por
isso mesmo, traduzir a Bíblia é uma aventura fascinante, que
representa um mergulho na fonte primordial de nosso imaginário, de nossa
tradição literária e de nossa cultura — ainda que nos afastemos,
voluntariamente, da herança judaico-cristã. O que diferencia as traduções de Haroldo
de Campos daquelas realizadas por outros estudiosos é que ele não foi movido
pela intenção mística ou teológica, mas pelo desejo de recuperar para nós
alguns exemplos mais expressivos da poesia bíblica, muito mais elaborada
e sofisticada do que poderiam imaginar aqueles que só leram as versões
convencionais da escritura.
O
resultado do trabalho titânico desenvolvido pelo poeta são três livros
notáveis: o Qohélet,
tradução do Eclesiastes; Bereshit, com a reimaginação da
primeira história da Gênese e da resposta de Deus a Jó; e por fim
este Éden, publicado
postumamente, que reúne a segunda história da criação, o episódio referente à
torre de Babel e o Cântico dos
Cânticos, atribuído ao rei Salomão. Nesse conjunto admirável de obras, que
formam um tríptico, Haroldo nos mostrou que os textos bíblicos são poemas
riquíssimos, não menos complexos, formalmente, do que um poema de Khlébnikov ou
Mallarmé. Para revelar as cintilâncias da arte verbal bíblica, Haroldo
desprezou a distinção entre prosa e poesia, buscando antes recuperar o ritmo, a
respiração prosódica das linhas, valendo-se para isso de sinais gráficos e de
recursos de espacialização da poesia moderna. Ele não evitou os jogos
paronomásicos, os paralelismos e todos os recursos da função poética que, em
geral, são ignorados nas versões tradicionais. Haroldo buscou hebraizar o
português, criando uma língua quase híbrida, que ao mesmo tempo nos encanta
pela estranheza melódica e apresenta outras possíveis abordagens do texto
original, recuperando significados que estão ausentes em muitas versões. Assim,
por exemplo, ele traduz shamáyim por fogoágua, em vez de céu,
indicando, nesse neologismo, a idéia de uma abóbada celeste formada por uma
espécie de magma. Essa tradução nada tem de arbitrária, já que esh significa
fogo e máyim, água, como
esclarece o tradutor — ou transcriador, como ele preferia ser chamado. O
resultado poético pode ser conferido nas linhas iniciais da Primeira História do Bereshit:
No começar Deus criando / O fogoágua e a terra / E a terra era lodo torvo / e a treva sobre o rosto do abismo / E o sopro-Deus / revoa sobre o rosto da água.
A
estranheza começa pelo uso do infinitivo, No
começar, seguido pelo verbo no gerúndio, Deus
criando. É como se o poeta trouxesse até nós o momento inicial da criação,
descrevendo o inconcebível cenário de elementos que surgem, interagem e se
transformam, na alquimia criadora do cosmo. Esse passado remoto é vivificado
também pelo desenho melódico das linhas, com ênfase nas assonâncias (e a terra era lodo torvo)
e aliterações (revoa sobre o rosto). Já na Segunda História do Gênesis,
presente no livro Éden,
ele recupera o jogo semântico entre adam e adamá,
que traduz como homem-húmus,
coerente com a noção semítica de criação do primeiro humano a partir do pó da
terra. Ao mesmo tempo, Haroldo faz outra aproximação paronomásica entre mulhere húmus, recuperando o jogo que
em hebraico existe entre ish (homem) e isha (mulher). Não se trata
de mero capricho estilístico, mas de uma relação ao mesmo tempo de significante
e de significado, já que a aproximação semântica indica uma relação causal: o
homem veio do pó, e a mulher da costela do homem. Ou, como diz a Segunda História do Gênesis,
na versão haroldiana:
E disse o homem / esta desta vez osso / de meus ossos / e carne de minha carne / A esta chamarei mulher / pois do homem-húmus esta foi tomada.
Outra
recriação notável, agora no livro do Qohélet,
é a da paronomásia havel
havalim, que nós conhecemos, a partir da Vulgata latina, como “vaidade das vaidades”.
Esse é um dos versos mais conhecidos da Bíblia.
Haroldo interpretou de outra maneira a sentença, traduzindo-a como tudo névoa-nada, sendo que havel, em hebraico, tem o
sentido literal de vapor, sopro, e só figurativamente
significa vaidade. Não se
trata apenas de jogo lingüístico, mas, novamente, uma releitura do sentido, já
que a palavra vapor tem um significado mais preciso do que vaidade, e com o conteúdo
figurativo adicional de algo impalpável e efêmero. Assim como, na literatura
budista, os fenômenos são comparados a bolhas de espuma, que surgem e logo caem
na impermanência. Ao optar por tais soluções, Haroldo manteve-se fiel ao
sentido literal, muito mais concreto do que abstrato, e com um ganho maior de
poeticidade, pelo impacto do inusitado. O que surpreende, no entanto, é o modo
como Haroldo fez isso sem abdicar da sonoridade do texto; vale lembrar que ele
utilizou diversas gravações, com professores de hebraico lendo esses poemas em
voz alta, para trabalhar a partir do impacto sonoro do original. A esse
respeito, vale a pena citar um trecho da Primeira
História, do Bereshit:
E Deus disse / que as águas esfervilhem / seres fervilhantes / alma-da-vida / E aves voem sobre a terra / face à face / do céufogoágua. / E Deus criou / os grandes monstros do mar / E toda as almas-de-vida rastejantes / que fervilham nas águas / segundo sua espécie / e todas as aves de pena / segundo sua espécie / E Deus viu que era bom.
Esse relato cosmogônico, história cantada do mundo, é um dos vários
gêneros literários que integram o cânone bíblico. Em outros capítulos desse
livro infinito, encontramos poemas líricos, como o Cântico dos Cânticos (que também integra o Éden), o relato épico, como a
história de Josué e as trombetas de Jericó, o discurso filosófico, como os Provérbios e o Qohélet,
e ainda esse texto insólito, irônico e enigmático que é a resposta de Deus a
Jó, traduzida por Haroldo e incluída no livro Bereshit:
A chuva terá um pai? / Ou quem gerou / as gotas de orvalho? / Do ventre de quem / saiu o gelo? / E a geada do céu / quem a gerou? /; (...) Comandas e os relâmpagos vêm / E te respondem: 'Aqui estamos!' / Quem infundiu / no íbis sabedoria / Ou quem deu ao galo inteligência?
A chuva terá um pai? / Ou quem gerou / as gotas de orvalho? / Do ventre de quem / saiu o gelo? / E a geada do céu / quem a gerou? /; (...) Comandas e os relâmpagos vêm / E te respondem: 'Aqui estamos!' / Quem infundiu / no íbis sabedoria / Ou quem deu ao galo inteligência?
Outro texto de difícil classificação é o episódio da Torre de Babel, incluído no Éden, que é a metáfora
arquetípica do surgimento das línguas e das nações (assim como a Primeira História do Gênese trata do nascimento da dualidade e do
ego, aquilo que os hindus chamam de mundo do samsara).
Novamente, aqui, Haroldo não se contentou com as soluções adocicadas das
versões tradicionais, e fez um poema forte e consistente em português,
descobrindo novos sentidos para formas novas.
Vale citar o fragmento final:
E disse Ele-O-Nome
um povo uno e uma língua-lábio una para todos
e isto só o começo do seu afazer
E agora nada poderá cerceá-los
no que quer que eles maquinem fazer
Vamos baixemos
e lá babelizemos sua língua-lábio
Que não entenda um
a língua-lábio do outro
E os dispersou Ele-O-Nome de lá
sobre a face de toda a terra
E eles cessaram de construir a cidade
Por isso chamou-se por nome Babel
pois lá babelizou Ele-O-Nome
a língua-lábio de toda a terra
E de lá dispersou-os Ele-O-Nome
sobre a face de toda a terra
um povo uno e uma língua-lábio una para todos
e isto só o começo do seu afazer
E agora nada poderá cerceá-los
no que quer que eles maquinem fazer
Vamos baixemos
e lá babelizemos sua língua-lábio
Que não entenda um
a língua-lábio do outro
E os dispersou Ele-O-Nome de lá
sobre a face de toda a terra
E eles cessaram de construir a cidade
Por isso chamou-se por nome Babel
pois lá babelizou Ele-O-Nome
a língua-lábio de toda a terra
E de lá dispersou-os Ele-O-Nome
sobre a face de toda a terra
Convém
ressaltar que Ele-O-Nome é o modo como Haroldo traduz o
intraduzível tetragrama que na Bíblia hebraica representa o nome
impronunciável de Deus, e que em hebraico safa'ehath significa lábio, com o sentido de idioma;
daí a versão haroldiana língua-lábio, que mantém na ambigüidade do
neologismo a duplicidade de sentido do termo original. Sobre o Cântico dos Cânticos, pouco há
o que dizer: é apenas a melhor tradução em português do mais belo poema de amor
da história literária ocidental.
domingo, 29 de setembro de 2013
POEMAS ERÓTICO-AMOROSOS
Perplexidade, raios de um sol
que redesenha seu centro;
essa matéria tão delicada,
ferozes epitélios da flor;
deslizando das pupilas,
revoluta, para outro mar,
após tingir o flanco da noite.
Fosse apenas o perambular
em outra relva, seria tema
de chanson; dissociada de mim,
reclinada em lua minguante,
seria musa de retrato fauvista,
excedendo o rubro tigrino.
De todo modo, um dia vou
felinizá-la em partitura.
RAPTO
Para iniciar uma lua pelos filamentos, em articulações
de répteis.
Obliterar os arredores
ao esquadrinhar a pele.
Descrever
joelhos como náutilos,
seios como escabelos,
esse é o meu hibridismo,
minha fome vertebrada.
Acontece que
a expansão do branco
bifurca-se, espraia-se
esqualidamente
do lábio ao umbigo,
em simulado rapto.
Ame o mapa de meu rosto,
sua caligrafia de incinerações.
ESCRITO EM FLOR
paisagem musical
onde o amarelo
dá sentido ao vermelho:
esta é uma canção
de amor.
*
lábio (pétala)
submerge
em topázio-tigre,
até sangrar as ilhas
do desejo.
*
esfinge do espelho
ou cegueira:
(real) imaginária.
*
uma flor (a lebre), partículas do
mundo nas retinas.
*
cada abelha sonha
uma rosa imantada.
*
violetas indagam
onde trópicos noturnos,
ritmos bruxos,
areias núbeis
de contato.
*
no avesso das pálpebras:
onde ver o porto
da viagem,
do mistério ao desatino.
NOITE-SEIOS
luazulada
alvíssima
deslinda-
se no céu
finíssima
auréola:
pó de luz
que cintila
nos róseos
mamilos
desnudados
— lua
em luas
refletida,
prata
em prata
lucilada
NOITE-ESPERMA
esbranquiçadas
estrelas
prateiam
o negrume
cetinoso
com lácteos
jatos
(deslumbre
de luzes)
YUMÊ
tu-
as pál-
pebras: me-
chas de té-
pida seda
escura;
— o charme
sutil da lua
trêmula, em
rápidos
traços
de pincel.
no tumul-
to de teus
pequenos
pés, o salto
do felino e
o ágil rumor
de asas
da butterfly
GOYA
maja
desnuda
se
espraia
e
adensa
na
cambraia
de
provença
SUTRA
para
Reginabhen
pálpebras de alfazema
cintilantes luas sem enigma
sob o céu anúbis-tânger-cicatriz
na seda cor de nuvem que simula o desejo
serpenteiam formas de dançarina moura
de seios tamarindo e lábios sabor anis
o seu púbis shiva kali irrompe como rosa
cítara que emudece o pensar do amante
e lhe toca o coração
no mais cálido êxtase de santos dervixes
mulher sem álgebra, sem mitologia, sem cabala
ou neurocibernética quântica
a mais-que-perfeita expressão do verbo
que resume à sua maneira schopenhauer
os manuscritos de alexandria
os fabulosos cálculos dos astrônomos
e os acordes finais e um pianista de blues
dama feita para mim e o meu desejo de outro
que em tuas mãos é um leão domesticado
e no entanto és apenas uma mulher
deitada no lado esquerdo da cama
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
UM POEMA DE HORÁCIO COSTA
PARA SER LIDO NO MÍNIMO DUAS VEZES
Ó mil vezes cristal afortunado,
Alpe luzido, luminar nevado!
Frei Jerônimo Baía
Não há anjos neste quarto mas é como se houvesse.
Descrevâmo-lo, então:
um cubo de dois metros e trinta de lado
por algo mais de altura, ainda assim
as paredes estão forradas
com damasco cor de sangue e dourado
em faixas verticais,
as rubras decoradas em dévoré
com imagens como as dos xales de Paisley
simétricas e duplicadas,
só que mais barrocas ainda,
parecendo corações de barriga para cima
unidos por motivos florais sucessivos.
As outras faixas, mormente ouro-velho,
possuem um motivo geométrico
laxamente losangular
que de perto assemelha-se
a “v”s com uma lágrima
gentilmente pousada
no ângulo interno da letra.
Pelo chão o carpete imita
um roseiral bizarro pelo qual pisássemos:
rosas beges de dois tons repetem-se
num padrão diagonal,
unidas por suaves folhas verdes
não menos bitonais,
do meio das quais surgem
alternadamente
outras rosas bege-claro e mais claro,
apenas que menores,
tudo isso sobre um fundo
igualmente bordô.
As esquinas das paredes deste quarto
têm cordões dourados, à diferença do rodapé,
feito com o mesmo carpete de rosas
de fictiva pigmentação,
ritmicamente maiores e menores.
A única janela, alta, de duas folhas,
está protegida por um cortinado
vitoriano, outrossim, que consta
de um tecido tricolor, de tonalidades
tinto, rosa velha e áurea,
disposto verticalmente,
porém amarrado à direita e à esquerda
com cordões cor de messe
que levam a dois pingentes
como espanadores de ponta cabeça,
também jalnes e esmaecidos.
Esta cortina de fora é debruada
com mini pompons
em forma de caracol:
tudo aqui remete à imagética
dos Doges. Por detrás
de tal cascata, e por debaixo
do pequeno baldaquino
rubro com pois creme
que disfarça a caixa da persiana de correr
-cujo controle é automático
desde um botão na cabeceira da cama,
ponto branco circundado
por uma moldura de latão BTicinopois, por debaixo dessa
cascata,
dizia, de tecido rebrilhante,
escorre, singelo, um cortinado branco,
como de voil só que sintético
e sujo como estas baixas nuvens
venezianas.
O efeito geral é havermos entrado
para habitá-la e sem prévio aviso
uma caixa criada por algum
Christian Lacroix sem sentido
de paródia ou charme, por exemplo
um modista de algum dos grotões
de algum grande império tropical,
quem, sendo íntimo e confidente
da usineira viúva do local,
tivesse decidido decorar a sua villa
de tal forma que ela gastasse muito
com os detalhes mais mínimos,
para fazer-se mui polpudas comissões
em lojas de europeus nomes.
Devo dizer que o teto é bicolor
branco e sangue-de-boi? o centro
é branco, mas entre a superfície engessada
e o contorno, vá lá: magenta, sim, magenta,
há como que uma onda contínua de gesso
a terminar em pequenas volutas
que remetem aos rocailles
dos tempos de Casanova,
a cada ângulo do quadriforme
formato.
Devo ainda dizer que deslocado
a uma das laterais desse teto
pende um lustre aparatoso,
sobre o qual a vista pausa?
- redondo no centro num semicírculo invertido
como o do Senado Federal em Brasília,
de seu fuste branco saem cinco braços e,
claro, nos intervalos entre eles
há grande folhas de acanto de vidro leitoso
e com pigmentação de chuva de ouro:
como se Júpiteres eternamente engravidassem Dânaes
neste Murano barato.
Escrevo debaixo de tal luminária
sentado sobre o leito estreito
cuja cabeceira lhe é o dobro maior
e vem laqueada em branco com buquês
de margaridas cor de malva
e também azuizinhas, dispostos
pelas neobarrocas, multiplicantes reentrâncias,
assim como os criados-mudos, o pequeníssimo
escritório e a cadeira Marie-Thérèse
forrada em veludo celeste, que se reflete
no único espelho
amplo e bisotado,
suspenso a uma altura que também duplica
a garrafa pet de água oligomineral
-que domina o tampo de vidro da mesinha
como se um campanile a alguma maquete
de piazza comunal-, o copo de plástico,
o televisor de dezessete polegadas
e que não funciona, tudo isso
jacente sobre o sobrecarregado
diminuto móvel utilitário:
por isso, disse, escrevo sem apoio
que não o deste caderno sem pauta.
Resulta
este tratado de estética quer.
o lado de lá deste cubo pitoresco,
este ready-made à la Duchamp redivivo
e identificado no correr dos dias que correm,
neste alucinante cubo pós-silogístico,
está o mundo com suas oposições:
pombas machos e fêmeas, água e neve,
dias felizes ou infelizmente vividos
e pequeníssimos pátios onde os seres
quando conseguem, cultivam jardins
ou a erva daninha, o êxtase
e a loucura e há gente boa
e gente má, e políticos...
Vc
queria ser cool e minimalista, pois não?
poucas pinceladas, um hai-kai?
com a confortável segurança
de um leitor que manejasse o bisturi
da leitura como se experiente obstetra, não é?
Pois conte comigo, serei o teu guia,
ainda que não ofereça nenhuma
motosserra para desbastar a floresta
do teu tatear o texto que o extravasa
como uma zuppa di pesce, bollito misto ou bagna caôda
a escorrerem para fora do caldeirão
e cujas receitas são abscônditas e se perdem no escuro dos
tempos...
Ainda assim, conheces a minha simpatia,
vem do grego sympathikós,
que só para ti cozinho semelhantes
ingredientes.
Porém, leia este poema de novo,
no mínimo duas vezes.
Não há anjos neste quarto mas é como se houvesse.
Veneza 28-30 I 010
(Poema do livro BERNINI. São Paulo: Demônio Negro, 2013)
(Poema do livro BERNINI. São Paulo: Demônio Negro, 2013)
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
CÂNONE E ANTICÂNONE: HORÁCIO COSTA
Bernini, livro de poemas de Horácio Costa publicado pelo selo
Demônio Negro, faz alusão, já no título, ao genial pintor, escultor, arquiteto
e cenógrafo Gian Lorenzo Bernini, um dos artistas mais destacados do barroco
italiano, conhecido, entre outras obras, pela escultura O êxtase de Santa Teresa, exposta na capela da Igreja de Santa
Maria da Vitória, em Roma. O paralelo com o barroco não é acidental: o próprio
autor, no prefácio do livro, afirma: “A sensação que me assiste é que vivemos
um novo Barroco. Se aquele histórico muitas vezes parece haver-se caracterizado
pela posta em cena do escape de uma realidade demasiado cruel para ser
suportada, o presente, talvez, possa apresentar-se como a determinação de
perfurar o bloco da História com persistentes berbequins. A poesia, nesse
sentido, oferece um ponderável fazedor de orifícios”. A ação perfuratriz do
poeta abre espaços para uma diversidade de referências populares ou
enciclopédicas, desde a prostituta indígena que nasceu para cantar até citações
em latim (“Nec pluribus unum”) e óperas italianas (L’Elixir d’Amour), com vagas ainda para toda uma fauna da cultura
de massa, como Cebolinha e Beyoncé. Os poemas deste livro são ambientados nos
mais imprevisíveis territórios, desde as Ilhas Comoras até a Praia do Abricó,
incluindo também Lisboa, Aveiro, Veneza, Buenos Aires, o castelo de Elsinore de
Hamlet e diversos sítios de São Paulo, que fazem parte da geografia sentimental
do poeta. Há referências e dedicatórias a diversos amigos do autor, poetas e
artistas plásticos, como Roberto Piva, Burle Marx, Tomie Othake, Ana Hatherly,
E. M. de Melo, que figuram não apenas como índices de um repertório cultural,
mas também como personagens de diário íntimo. Em Bernini, como em outros livros de Horácio Costa, sobretudo Ravenalas, Homoeróticas e Paulistanas,
o poeta incorpora o cotidiano na poesia, sem temer a lírica confessional ou
cronística, e adota um “confronto direto com a realidade brasileira”, como ele
mesmo diz no prefácio: as manchetes de jornais viram temas para a poesia, com
viés crítico-satírico, como acontece no poema Lendo o noticiário:
Sue, a Tyranossaurus
Rex, morreu de
dor de garganta,
afirma um dinossaurista
em Wisconsin, e não
das mordidas de outros
dinossauros. Irtiersenu,
a múmia egípcia
por décadas olvidada
numa gaveta do Museu
Britânico, não morreu
de câncer de ovário,
como até há pouco
se pensava: terá tido
sete filhos e seu aparelho
reprodutor de dois mil
e seiscentos anos está
intacto. O bacilo
de Koch atravessou
o caminho entre ela
e seus netos. Até agora
não se havia confirmado
a existência da tuberculose
no Antigo Egito nem
a do parasita trychomonas
gallinae no
período
cretáceo. A ação de censura
contra O Estado de São
Paulo
promovida pelo filho do
Excelentíssimo Senador
pelo Amapá José Sarney,
defensor perpétuo de sua
numerosa prole, há sessenta
e dois dias vigente, foi
mandada para o Tribunal de
Justiça do Estado do Maranhão.
O do Distrito Federal
considerou-se incompetente
para julgá-la. Quatrocentos
é o numero de bilhões
de dólares americanos que o
presidente da Petrobrás considera
necessários para que
se proceda à exploração
do petróleo no pré-sal.
A tiranossaura Sue.
A múmia
Irtiersenu.
A família Sarney.
O pré-sal.
Tenho companhia animada
agora que me sento à mesa
para mais uma edição
do meu café da manhã.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
PROGRAMAÇÃO DE SETEMBRO DA CURADORIA DE LITERATURA DO CENTRO CULTURAL SÃO PAULO
Sarau poético realizado pelo grupo Poemas à Flor da Pele,
com a participação de músicos e atores. Haverá também o lançamento de livros de
poesia de novos autores.
Sexta-feira, dia 13/09/13, das 19h às
20h30
Sala Adoniran Barbosa
Clube de Leitura de Poesia
O poeta Horácio Costa apresentará um depoimento
sobre o seu trabalho literário e fará a leitura de alguns de seus poemas. Em
seguida, o público será convidado a fazer perguntas ao poeta, para um bate-papo
informal.
Quinta-feira, dia 19/09/2013, das 20h30 às
22h
Sala de Debates
Menu de Poesia
Recital
dedicado à poesia de Vinícius de Moraes, organizado por Maria Alice
Vasconcelos.
Haverá tradução de libras.
Sexta-feira, dia 20/09/2013, das 20h30 às
22h
Sala Adoniran Barbosa
Poetas de Cabeceira
Claudio Daniel fará uma palestra sobre o poeta
maranhense Joaquim de Sousândrade, autor do poema longo O guesa errante
e o mais inventivo autor de nosso romantismo.
Haverá tradução de libras.
Terça-feira, dia 24/09/2013, das 20h30 às
22h
Sala de Debates
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