domingo, 15 de setembro de 2013

UM POEMA DE ARMANDO FREITAS FILHO




MERCADO

A lista dos mais vendidos 
devia ser colada nos muros
como a dos Procurados, pois
se não se venderam foram comprados
para esse jogo, e valem quanto pesam.

Como um saco de laranjas-lima 
passadas, valendo mais que uma:
saborosa, para ser desfrutada
mas imprópria para o consumo cego
ao contrário das outras todas, sem gosto.

(Do livro DEVER. São Paulo: Cia. das Letras, 2013)

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

FÓSFORO BRANCO



Fósforo branco ácido ilumina escombro escárnio nos céus do Líbano.

Talhos retalhos de torsos retorcidos

ossos negrume carcaças.

Corpos enfileirados peles requeimadas

de carne sucata

nos campos de refugiados

em Sabra e Chatila.

Esta é a hora do morticínio.

Farpas fiapos nacos de membros desmembrados

e o aroma escuro escuro da hora lenta lenta de um dia que nunca nunca termina.

Nenhum Kaddish para os filhos da escrava Agar

nenhuma lágrima para Ismael.

Apenas o silêncio de talhos retalhos peles farpas fiapos

e o escuro escuro.

Esta é uma história

exilada da história

que eu e você não devemos saber:

por isso cala o escombro cala o negrume cala a sucata do morticínio.

É preciso calar

a matraca dos jornais;

sim é preciso fechar os livros fechar para sempre os livros

e condenar os mortos à perene desmemória

(em algum sítio

mefistofáustico

de Tel Aviv

que moveu a macabra máquina da morte

a estrela de David

se converte

em nova suástica).

Porém eu e você não nos calamos

eu e você não iremos esquecer

eu e você somos o cedro do Líbano a oliveira da Palestina

o pão fresco nas mesas da Síria.

Houve aqui uma página infame da história

mas eu e você recusamos o silêncio

recusamos o esquecimento

recusamos o perdão.


Dedicado a Emir Mourad


Este é um poema que escrevi em 11/09/2013 para ler no recital Palestina em poesia, prosa, som, imagem, que será realizado no Club Homs, no dia 18 de setembro, quarta-feira, a partir das 20h, para relembrar o massacre nos campos de refugiados palestinos em Sabra e Chatila, no Líbano, cometido pelos falangistas libaneses com apoio e participação das forças de ocupação israelenses, em 1982. No recital, haverá a leitura de poemas de autores brasileiros e palestinos por Marcelo Ariel, Khaled Fayez Mahassen, Claudio Daniel, Lelia Maria Romero, Rosana Piccolo, Israel Azevedo, Celso Vegro e Célia Abila

quarta-feira, 11 de setembro de 2013


SÍRIA: UM XEQUE-MATE EM OBAMA?



A Rússia realizou uma jogada de mestre. O acordo de paz apresentado pela diplomacia russa para evitar o ataque norte-americano à Síria colocou Obama na defensiva. A população norte-americana não deseja a guerra, pelo alto custo financeiro e em vidas humanas de um conflito que pode ser ainda mais longo, custoso e imprevisível do que a invasão do Afeganistão e do Iraque, e certamente os parlamentares do Congresso norte-americano, que em breve voltarão a concorrer nas eleições, não podem ficar totalmente insensíveis aos desejos de seus eleitores. Obama encontra-se sob dupla pressão: de um lado, os sionistas e empresários das grandes corporações instigam o ataque militar a Damasco, de outro, sofre a pressão da opinião pública nos Estados Unidos e da Europa contra a guerra. O acordo proposto pela Rússia – e aceito pelo governo sírio – oferece à administração americana uma “saída honrosa” para cancelar – ou pelo menos adiar – a nova agressão imperialista. Para o país árabe, o acordo é vantajoso porque oferece a Bashar Al-Assad  mais tempo para vencer a guerra contra os mercenários, sem privar-se do que há de mais avançado e eficaz em seus meios de defesa – mísseis de todos os tipos, canhões, caças e tanques de alta tecnologia fornecidos pela Rússia. As armas químicas não são eficazes numa guerra convencional; podem causar pânico e terror psicológico em populações civis e deixar sequelas físicas por várias gerações, como acontece ainda hoje no Vietnã, bombardeado com napalm e agente laranja pelos EUA, mas não são armas que garantem o resultado de um conflito (o arsenal nuclear de Israel é infinitamente mais poderoso do que qualquer arsenal químico).  Por outro lado, ao entregar suas armas químicas, a Síria afasta a imagem de “intransigência” associada a ela mídia internacional, mostra à opinião pública que tem boa vontade, quer dialogar e chegar a uma paz duradoura, aceitando inclusive o monitoramento da ONU, em contraste com o discurso agressivo e militarista da administração Obama. Ao entregar as armas químicas, Assad pode provar que não foi o autor do recente ataque realizado nas imediações de Damasco, uma vez que o tipo de gás empregado é diferente do que está disponível nos arsenais sírios, derrubando o principal argumento apresentado por Obama para iniciar a nova guerra de rapina.  Claro: nada disso impede que os Estados Unidos, a Turquia ou Israel ataquem a Síria em curto ou médio prazo, mas essa possibilidade fica mais distante, por várias razões: 1) os Estados Unidos não querem arcar sozinhos com essa responsabilidade, pelo alto custo financeiro de uma guerra regional, que fatalmente contará com a participação do Irã e do Hezbollah ao lado da Síria; 2) a Inglaterra recusou participar da intervenção militar ao lado dos Estados Unidos e na França e Alemanha há forte oposição popular; 3) a presença de frotas da China e da Rússia nas proximidades da Síria são peças simbólicas do jogo de xadrez político, mas podem, hipoteticamente, ser mais do que isso; 4) o risco de uma guerra regional se alastrar por Israel e Turquia torna as conseqüências do conflito completamente imprevisíveis. Um ataque cirúrgico dos EUA contra instalações industriais e militares sírias pode ser o início de uma III Guerra Mundial. Por todas essas razões, não é tão fácil para os Estados Unidos desencadearem, sozinhos, uma guerra contra a Síria.

Caso o acordo proposto pela Rússia se concretize, o primeiro significado político desta iniciativa será a derrota dos Estados Unidos em seu objetivo de depor o governo Assad (e vale a pena acrescentar aqui a incapacidade dos mercenários de derrotarem sozinhos o Exército Árabe Sírio e o forte apoio da população síria ao seu presidente e às Forças Armadas). O segundo significado político é a ascensão da Rússia e da China como mediadoras do conflito, disputando protagonismo com os norte-americanos na resolução das questões internacionais, o que altera a correlação de forças no planeta e pode ter novos desdobramentos, com a eventual ação conjunta dos BRICs (e cabe aqui cobrarmos do Brasil que assuma posição mais clara contra qualquer intervenção militar estrangeira na Síria e o respeito à soberania do país árabe).

A solidariedade internacional ao povo da Síria é essencial para isolarmos ainda mais os falcões da Casa Branca e do Pentágono e contribuirmos para a defesa da soberania da Síria. Uma ação decisiva nesse sentido é a organização de grandes atos populares contra a ameaça imperialista, com a participação ativa dos partidos de esquerda, sindicatos, entidades de mulheres e da juventude, como os realizados no início de setembro em sete capitais brasileiras – São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Florianópolis, Salvador, Fortaleza e Distrito Federal. Está em discussão a organização de um Dia Nacional de Solidariedade ao Povo Sírio e a viagem de uma missão brasileira de solidariedade a Damasco, com representantes de partidos políticos e de entidades da sociedade civil. 

sábado, 7 de setembro de 2013

GALERIA: O LIVRO DE CABECEIRA (V)


MEUS POEMAS EM PROSA (II)


ANTICABEÇA (II)

Lona podre, nacos de carne, torsos caindo; escuras mariposas (stukas) caindo; sirenes, uma canção.
Bater nos cornos do céu, capricórnio adoece em luzes de urina; olhos blindados; cano de fuzil apontado para a lua.
Esferas ou cilindros de cérberos; o aço grunhe; rajadas de agni; fogos-fátuos; bocas lanhadas por detritos.
Há um pássaro de três cabeças, e um só canto; uma jovem nua flutua no céu.
Emily pediu um livro (borboleta voando) de gravuras coloridas (sonhada por um chinês), com capa veludosa (desejada por um gato) e marcador de páginas (com bigodes de mandarim).
Ela, que ama peônias, biombos, nanquins, e sonha ser enfermeira num grande hospital em Berlim.
Ela, que ama o verde mar de gaivotas, e a prata que cintila nas peças do aparelho de chá.
Isso foi há quanto tempo? Havia um piano de cauda e lenços brancos, pedaços de carneiro e o pôr-do-sol.
Agora, só há o verde-prata, ou verde-escuro, verde-panther; na boca do dragão.
(Como um livro) (de figuras) (metálicas;) (imagens) (d’esqueletos) (turvos;) (surdos) (espectros) (em sarabanda,) (invernal.)
Palavras zumbem na mente; difícil caminhar com o peso do mundo. Este é um tempo sombrio, tempo da impureza, do branco mesclado ao amarelo.
Lao Tzu rumou para o Sul, montado num touro, búfalo ou grou. O guarda da fronteira pediu-lhe sua inútil sabedoria.
  
CARANGUEJO

Aquática paisagem, faixas de areia e uma seqüência de morros, horizonte simulando música. Quiosques vendem camarões e mariscos. Meninos magros e morenos jogam bola com uma cabeça decepada. A velha senhora inglesa lê o Herald Tribune com lentes bifocais. O sorveteiro anuncia profecias apocalípticas. Há um furacão nas ilhas Fidji.  Esferas planas surgem no céu de Okinawa, como pegadas de urso. Um sargento aposentado em Kansas conversa com os peixes. Não há nada que seja realmente absurdo. Tudo está escrito em algum lugar, nas Tábuas de Esmeralda, no Popol Vuh, no Livro Tibetano dos Mortos. Há quem diga que a espuma no oceano é uma linguagem. Há uma lógica irrefutável no movimento dos astros. O destino foi escrito nas palmas de nossas mãos.  Tudo isso ignoro, não me diz respeito; palavras são detritos como algas, conchas ou brincos oferecidos à deusa das águas. Eu só deslizo as pinças entre possibilidades. Invisto minha carapaça vermelho-marrom, que você tanto ama, até o centro da dúvida, para encontrar minha fábula. Eu sou a imagem deste enigma, a contradição de um crustáceo. 
  

GABINETE DE CURIOSIDADES
  
I — SEX SHOP

Tufos pretos e umbigo impreciso na fresta vertical em colunata.

Cílios escamosos como minipeixes e uma arcada bélica verde-oliva na cabeça, à maneira pontilhista dos marines.

Pulseiras e argolas multiplicam-se nos braços e mamilos, simulando a efígie de uma rainha nigeriana.

O corte súbito no tronco impede a visão dos delicados pés, lacuna compensada pelo desbocado rubim de lábios fechados em til.

Os adereços da deusa mutilada completam-se com brincos de prata em forma de agulha, para a adequada perfuração de Romeu.

E um singelo par de algemas com a palavra love escrita em runas ancestrais.



II — PET SHOP

Pandas traficados de Pequim jogam cartas com lagartixas da Ucrânia.

Estufas com modernos sistemas de refrigeração e luz ambiental abrigam um casal de anfisbenas.

Há remédios contra pulgas e doenças de pele para o dragão de Komodo.

Na prateleira de cosméticos há um pó-de-arroz especial para lacraias.

A vendedora de imensos peitos brancos e um curto vestido dark informa os clientes sobre os hábitos noturnos de morcegos e pelicanos,

Com a esperada dedicação de quem ama o seu ofício.

Aceitamos todos os cartões de crédito e os animais, como seus donos, devem ser castrados.



COFFEE SHOP

Revistas de fitness fumam cigarrilhas de canela importadas da Indonésia.

Faces sóbrias e ponderadas como repolhos avaliam o crescimento do superávit primário.

Há um minúsculo globo ocular na xícara de café expresso.

Tortas de queijo e presunto têm selos de qualidade internacionais e as embalagens dos produtos passam por leitura ótica.

Há um nariz disfarçado no topo da palmeira de plástico.

Nossa missão é atingir e superar as expectativas dos clientes, diz a gerente de marketing (no seio esquerdo, ela tatuou uma pítia da Groenlândia).

Há uma boca retorcida no elegante toalete do café, com peças sanitárias de primeira linha e secadores de mãos automáticos.

Cabeças de executivos são caixas registradoras com um estoque limitado de palavras.


 PRISMA I

toda palavra / é um labirinto / (recrocita / corvo lunar), / (sub-reptício réptil / foge / entre folhas). / cristal negro, / búfalo negro,/ palavra enegrecida / em sons guturais, / espectros / de si mesmos. / flor de abril / acende música, / amarelo, / amarelo, / até lavoura / de fetos. / há uma anã / estrangulada / na rua aurora; /há um relógio de ponto / que só anda / para trás; / a dentadura / de clotilde; / o gosto amargo / do café. / tudo é / um cinema / mental, /pilhas de ossos- / palavras, /extintas praias, / labirinto / de cores / alteradas. / poema: / forma de ver / o escuro / que há no mundo / e em mim. / palavras caem / (fuligem),/ restos de canção: / ou abrir a porta: / entre seios / e rudimentos / de agrimensura, / entre o mistério / e um agudo / senso de beleza, / vago perfume / de papoulas, / até dessangrar / as pétalas / do canto. / nenhuma porta / (deslinde) / desatino;/ nenhuma / ou essa / que se fecha. / ou aquela, / qual,/  ou esta porta,/ este caminho,/ não há caminho./ restilo / de alvura / ou lanugem, / lúnula:/ peixes, / entre unhas.


PRISMA II

olho-de-corvo; / um, crocita; / dois, arranha; / três, escurece; / quatro, engasga, / tropismo / de piçarras. / cristal negro, / búfalo negro, / palavra enegrecida / em urros / de lacraias. / sons vegetais, / sons minerais, / sons fecais, / dissociados / de sentido. / recrocita / réptil/ em folha / lunar, / sub-reptício / acende / música / até lavoura / de restos: / há um relógio / estrangulado / e uma anã  / fazendo ponto / numa esquina / da rua aurora. /tudo é um jogo / de ossos / como saltar / à corda, / piscar / os olhos, / remoer / a canção. / tudo é cinema / mental. / entre seios / e rudimentos / de mariposas, /entre o mistério / e um agudo / senso / de extinção, / dessangrar / a beleza / (fuligem) / até um vago / perfume / de papoulas; / ou abrir a porta: /  não há caminho, /nenhum / ou este / que se fecha, / tudo é labirinto, / (deslinde) / desatino. /alvura, / lunário / de lúnulas: / unhas, / entre peixes.
  

PRISMA III

até / dessangrar / peixes, / entre unhas. / pilhas / de palavras / rotas, / restos / de canção: / flor / de abril / em amarelo, / para ver / o enigma / no mundo / e em mim. / recrocita / labirinto / lunar, / corvo / de fetos / alterados. / há o gosto / amargo / do relógio, / uma anã / que só anda / para trás / e clotilde / estrangulada / num café / da rua aurora. / tudo é mental, / mariposas / ou seios, / pétalas / ou música, /rudimentos / de mistério / e mistério. / todo labirinto / é uma palavra / do deslinde / ao desatino /(sub-reptício réptil / foge / entre lúnulas). / cristal negro, / praia negra,/ papoula enegrecida / em sons larvais / até lavoura / de fétidos./  havia uma pedra, / havia uma rosa, / havia um abismo. /tudo / é cinema / mental, / praias / e palavras, / pilhas de ossos / podres. / alguma porta / ou nenhuma, / esta / ou aquela, / esse caminho, / qual caminho? / entre um senso / agudo / de extinção / e rudimentos / de lanugem, / entre o restilo / e o séqüito /de lêmures, /todo enigma / é incapaz /de abolir / o silêncio .


PRISMA IV

cristal negro, / réptil negro, / sub-reptícia / anã negra / (amarga) / entre folhas./ flor de abril / recrocita / olho- / de-búfalo:/  unhas traçam / a agrimensura / do escuro, / acendem lúnulas / de lacraias / até tropismo / de fetos / (para ver) (a beleza) / (que há no mundo) / (e em mim). / nenhuma porta / ou esta / que se abre, / esta / que se fecha, / este caminho, / nenhum caminho / (tudo) / (é labirinto). / entre piçarras / e rudimentos / de papoulas, / entre seios / e um agudo / senso / de alvura, / lavoura / de auroras / alteradas. / (pedra) / (é um jogo) / (como saltar) / (abismos), / (piscar) / (os ossos,) / (remoer) / (a rosa,) / (cinema) / (mental) / (ou séquito) / (de desatinos). / um, dissocia / mariposa; / dois, coagula / lunário; / três, escurecem / larvais, / restilo / de cores / abolidas. / tudo é mistério, / deslinde / de lanugens / até dessangrar / palavras- / peixes.


PRISMA V

lêmures / lavoram / lúnulas, / recrocita / labirinto / (abismo) / (de espectros). / esta porta / que se abre, / prosa / de corvos, / esta porta / que se fecha, / rosa / de répteis, / não há caminho, / tudo é caminho; / flor de abril / escurece / relógios / até dessangrar / a anã / em tropismo / de lacraias. / tudo / é um jogo / amargo / como saltar / os ossos, / piscar / palavras, / traçar / na pedra / sub-reptício / urro / (para ver) / (o mistério) / (que há no mundo) / (e em mim). / entre fetos / e rudimentos / de búfalo, / entre cristais / e um agudo senso / de coágulo, / abolir / o peixe / numa agrimensura / de enigmas. / cristal negro, / seio negro, / lua negra, / restilo / de piçarras: / tudo / o que escrevo / tudo / o que escavo / tudo / o que escuto / tudo / o que escarro / tudo o que esqueço / me deslinda, / desatina, / desafina, / desarvora, / desenflora, / entre amarelos /e lanugens, / entre larvais / e mentais, / entre o que / pensa / e o que / sente, / entre o que / mente / e o que / muda, / entre o que / canta / e o que / encanta, / entre / mundo / e nada.


Para Luís Serguilha, 2008

(Do livro Fera bifronte. São Paulo: Lumme Editor, 2008)

 GAVITA, GAVITA

      escuro, escuro como um uivo — som de sombra —  esquálido e fecal —  voz miúda, no espaço espesso. gestos surdos, de pele tensionada —  mãos fluidas que tateiam o ar. sim, está enfeitiçada. ginga, negra e cega, em vôo tosco. vibra o torso, em vaivém, nas pontas dos pés. ginga e gira, com serpentes nos braços, e treme toda, torva e turva. não tem unhas, só garras; nem lábios, apenas gritos mudos. ela expande os passos, sem volúpia ou cisma, e s’incandesce, crestando o solo. é toda fera e fúria. está enfeitiçada, e me apavora. eu sorvo sua treva, e afundo em visões de salamandra. visitei as páginas de um livro de magia, e invoquei as figuras retorcidas da insânia: vêm, astaroth, asmodeus, sintam a carne que ofereço a seus caninos.

     (eu sabia os nomes das flores, quando menino, das estrelas e insetos;) (juntava lagartas numa caixa de sândalo) (e rezava pelas almas das princesas suicidadas.) (um albino ensinava-me latim) (e apertava fortemente meus testículos.) (laos deo, laos deo.)  (citações de cícero e da guerra da gália) (até soar a sineta para o desjejum.) (eu gostava dos turíbulos e ostensórios,) (dos saltérios e vitrais) (em que o filho do ho-mem) (sangrava por nossas culpas.) (excitava-me com sua dor.) (amava ícones mal pintados,) (palavras arcanas,) (música de violoncelo) (e sonhava ser marinheiro) (ou alcoólatra.) (certo dia, fugi.) (oh estações, oh castelos.) (açoitei a delicadeza,) (fiz-me barro, besta, bruto;) (um selvagem, sim, selvagem,) (e toquei tambor) (na noite do sabá.)

     (minha mãe tinha seios brancos) (e voz branca de medievo místico.) (ela foi a lua cheia,) (angélica e nivosa,) (oh monja da cela constelada.) (meu pai foi um rude fazendeiro,) (igualmente branco,) (cujo olhar tinha odor de antigas armaduras.) (recordo seu rosto de falcão,) (as pequenas mãos trigueiras,) (a voz pesada, de bacamarte.) (eles eram de diversa estirpe,) (mas eu os amei,) (em minha estranha epiderme,) (na nostalgia de outro reino,) (que não sei.) (dizem os juristas) (que no céu) (todos são brancos,) (como as velas dos santos,) (o linho,) (o algodão.) (é verdade que sou um deslocado,) (desbocado,) (excêntrica bizarria,) (rosa cúbica, talvez.) (vejam, aqui está) (o negrinho) (que fala francês,) (membro de uma raça impura,) (turba de pobres diabos,) (ratos depenados,) (pretos amaldiçoados.) (é verdade,) (confesso aos senhores,) (a minha escurez,) (mas guardo comigo) (a música das esferas.)

     está enfeitiçada, e canta ladainhas. em nervosa mímica de punhos, move-se como a naja em sua caverna, o peito magro ornado com colares de crânios, os cabelos azuis cobertos de cinzas. ela dança, dança sobre o meu ventre, agitando as armas de suas múltiplas mãos, e beija-me a boca com os acres perfumes do crematório. delírio contorcido, convulsivo / de felinas serpentes, / no silamento e no mover lascivo / das caudas e dos dentes. (não há qualquer caminho) (ou via ideal) (com trigais e monjolos,) (apenas a rua) (tortuosa do grito,) (a vereda) (fantástica) (do absinto.)

     (fui o ponto) (dos mais curiosos) (espetáculos,) (cedendo palavras) (aos atores no palco;) (e emprestei silêncio) (a minhas próprias comédias.) (sou talvez essa loucura geométrica,) (nos porões de um teatro abolido.) (mancha de tinta) (no final de cada linha,) (sem dimensões,) (mínima esfera.) (uma pausa entre vozes,) (lugar indefinido,) (porção menor de um plano,) (sinal que abrevia os vocábulos.) numa evaporação de branca espuma / vão diluindo-se as perspectivas claras... / com brilhos crus  e fúlgidos de tiaras / as estrelas apagam-se uma a uma.

     (na mocidade,) (tomei cerveja) (com vadios,) (provei do tabaco) (e do presunto tostado;) (soube de vênus) (com atrizes) (de má vida.) (se sonhei) (com o sublime?) (sim,) (foi) (numa festa) (de coxos.) (sou um porco,) (como todos) (os homens) (são porcos;) (injuriei,) (conheci) (o escarro,) (o tabefe.) (porque sei,) (sou duende;) (vejam) (minhas unhas;) (sou inferior,) (como um pedaço) (de ferro;) (um saco) (de farelo;) (migalhas) (de ração.) (por que li) (o teu livro,) (charles baudelaire?) (acreditei-me um deus.)

     está enfeitiçada, pobre leoa devassa; onde estão teus filhotes? devo banhá-la, com a água que eu mesmo fervi. ergo seu braço, para a assepsia; depois outro, e as pernas, o pescoço, as nádegas, sem nenhum erotismo: como se prepara um morto para o caixão. vesti-la, peça por peça, com as cores discretas da pobreza. assobiar talvez uma valsa, um minueto, para dar requinte a nossa sopa. por fim, velar o sono da vestal, para só depois escrever os versos que ninguém escreveu jamais. torva, febril, torcicolosamente, / numa espiral de elétricos volteios, / na cabeça, nos olhos e nos seios / fluíam-lhe os venenos da serpente.

     (arquivista, sim,) (da estrada) (de ferro,) (ninho) (de covas) (e coveiros;) (onde) (sou corvo) (entre corvos,) (negro) (entre negros,) (porque os versos) (não compram pão.) (recolher as sobras,) (para o azeite) (e as verduras.) (desviar do cuspe;) (oferecer a outra mão.) (exilado) (de mim,) (despido) (de qualquer) (delicadeza) (sou coisa) (entre coisas.) (vítor,) (o que) (fazer,) (sozinho,) (em terra desolada?)

     (houve) (um tempo) (em paris) (em que fui) (o rei) (do haxixe.) (todas) (as moças) (amavam) (minha face) (de príncipe) (etíope,) (atlante) (ou cenobita.) (eu usava) (uma gravata) (vermelha,) (flor) (de cardo) (na lapela) (e bigodes) (espessos) (de mongol.)  (é tão distinto) (ser) (um poeta) (maldito.) (meus versos) (encantavam) (insólitas) (platéias) (ao som) (monótono) (do piano) (estrangulado.) (alguém) (de suíças) (platinadas) (desenhava) (haréns) (de divas) (marroquinas.) (um outro) (de denso) (cavanhaque) (e nariz) (encurvado) (discutia) (platão) (e plotino.) (mulheres) (de seios) (rosados) (entoavam) (árias) (de concerto.) (havia) (pratos) (refinados) (de atum) (e salmão,) (garrafas) (de vinho) (espanhol) (e cheiro) (forte) (de fumo) (africano.) (eu era) (o rei) (do haxixe,) (até) (certo dia,) (quando) (fui surrado,) (como) (um) (escravo,) (cuspido) (e) (atirado) (para fora) (dos salões,) (como) (um corcunda,) (leproso,) (bufão.) (senhores,) (vejam,) (ali) (vai,) (célere,) (espavorido,) (o) (macaco) (cantante.)

     gavita, gavita. sim, está enfeitiçada, e fala ganidos. ela, minha bela, dona e dânae, minha flor amarela, meu bicho-da-seda, minha floresta. eu sou o teu dervixe, tua chuva de ouro, teu apache, teu urso polar. vem, deusa de tetas verdes, vem aos meus braços, como no tempo em que te conheci, na terra do gelo. você me dizia de países distantes, em que são servidos licores de pétalas de rosa. onde há carros floridos movidos pela mente, e macacos que entoam devotadas preces. eu enlaçava tua cintura delgada, e recitava o mantra dos jogos nupciais.

     para as estrelas de cristais gelados / as ânsias e os desejos vão subindo, / galgando azuis e siderais noivados, / de nuvens brancas a amplidão vestindo. mas agora soa apenas a sina da insânia, pretume, pedraria, pesadelo; desnudas deidades descartam os danados, riem dos duendes da demência. (sozinho,) (no rito) (intenso) (da nevrose,) (junto) (minhas cinzas) (no místico) (cinerário,) (ao som) (de brahmânicos) (sonidos.) (shiva,) (shiva) (nataraja,) (onde,) (em que) (lua) (ou pétala) (ofendi) (a memória) (de um deus?). (senhor) (dos dançarinos,) (quando,) (em que era) (noturna) (de infortúnios) (cometi) (os mais terríveis) (enganos?) (estas) (são) (as mãos) (de um) (criminoso,) (turco) (ou judeu.) (apedrejai-me,) (sim,) (apedrejai-me,) (para abreviar) (a minha) (longa) (miséria.)

     (vítor,) (houve uma ilha) (em que os homens) (e as mulheres) (andavam nus,) (e as árvores) (geravam) (pomos) (de ouro.) (filetes de água) (escorriam) (pelo verde) (limoso) (das rochas.)  (o sol) (de bronze) (festejava) (os ritos) (da primavera). (monolitos) (decorados) (com coroas) (de flores) (pontiagudas.) (oferecia-se) (aos deuses) (música) (de tambores) (e frutas) (saborosas.) (tudo era calma,) (beleza) (e languidez.) (tudo era dança, dança, dança.) (oh senhor) (dos rios) (que se encontram,) (em que distante) (esfera) (perdi) (a minha vida?)

     está enfeitiçada, sim, enfeitiçada, triste espectro que vomita estrelas. cega e surda, não escuta clamores; ordena traições e incestos; sorri dos servos fenícios degolados. crianças, esta ainda é a sua mãe. venham. vamos conversar. o nilo banha o egito, terra de escribas e papiros. o sena flui em paris, onde os poetas são jovens tuberculosos. o tâmisa tem o fog londrino como cenário, e abriga as ossadas de um famoso maníaco. o ganges nasce dos pés de lótus de krishna. é preciso lembrar das savanas e das estepes. das matas tropicais e dos desertos. dos míticos vulcões e das geleiras. é preciso conhecer o mundo.

     (eu quero sair do mundo.) (habitar outros pórticos.) (aprender) (idiomas) (sem vogais.) (há uma estrela) (de musicais) (estatuarias.) (há um espelho) (que reflete) (apenas) (minaretes) (de mesquitas.) (há uma moeda) (que mesmeriza) (tenores) (e contraltos.) (há uma lesma) (ou plasma) (que abraça) (os meninos,) (sorrindo) (truculenta,) (brutal,) (um riso) (azul) (de agonia.) (certa vez) (sonhei) (um livro) (infinito.) (suas paginas) (eram translúcidas) (como um espelho.) (as palavras) (brotavam) (como gotas) (de chuva) (borradas,) (sangradas) (no vidro) (do papel;) (as letras) (eram arcanjos) (desnudos,) (que cantavam) (em timbre) (agudo,) (numa) (voz) (escura,) (quase) (silêncio.) (eu sou) (talvez) (esse livro.)

     gavita, gavita. reclinada em seda e linho, lua minguante, no entressonho. seus caninos nivosos, torneados, como jóias de marfim. suas palmas, de rosácea; os clarões das unhas, e os olhos, corolas de hibisco. ela amava as valsas ingênuas, os realejos e tristes ametistas; o chá servido em baixela; o sabor do vinho branco; passear de braços dados, no largo do coreto. súbito, cai uma flor amarela, no tanque de água; ela sorri, e recorda quando a abracei, no jardim dos moura schiavo, lembra-se do que eu disse em seu ouvido, você é só encanto, encantamento, my love is as a fever, longing still. ela coloca meus dedos em sua boca e diz que eu tenho o olhar cigano de um nômade estrangeiro; e acaricia meus cabelos com os dedos finos, suaves, tão suaves. mas isso foi em outra aurora; agora apenas gira, desorientada, sem rumo nem prumo, sem ver-me ou ouvir-me, dolente e demente, enfeitiçada.

     ela é tão bonita como um sarcófago etrusco, espada sarracena, bi-ombo japonês. seus pequenos pés, que bocas febris e apaixonadas / purificam, quentes, inflamadas / com o beijo dos adeuses soluçantes. a boca, viçosa, de perfume a lírio, / da límpida frescura da nevada, / boca de pompa grega, purpureada, / da majestade de um damasco assírio. ela foi a minha máscara. ela é o meu fetiche. serei então o teu lacaio, teu pajem e eunuco. renuncio a minha vaidade, narciso despido de narciso. sou agora teu mendigo; serei teu diabo, teu criado, teu cão.

     gavita, gavita; minha fada e apsara; agora repousa, negra e magra, como galho seco; a pele tensa, de cervo degolado; os olhos turvos, de noite proscrita. estirada, como massa amorfa, ou bolo vegetal; os braços líquidos, de nereida; a voz desfeita, em careta torpe. esticada, como um animal ou coisa; atirada, não, colocada no caixão, digo, em seu leito de extintas exéquias. meninos, esta é sua mãe; vamos deixá-la em paz, é hora de dizer bonne nuit. venham fazer as orações, no oratório; em nome do pai, do filho, do espírito santo, amém. é preciso fechar bem as portas e janelas; reler um soneto de camões; beber o copo de leite; abocanhar o naco de pão; esquecer um verso no idioma páli; fazer-me treva; guardar o grito ancestral no livro de retratos.

     ela está enfeitiçada, e me apavora. eu sorvo sua treva, e afundo em visões de taumaturgo. insano, febril, como quem fuma visões de navios e cetáceos, desenho portais de estranhos labirintos, dragões de esquecida tapeçaria, sinos de catedrais submersas. vejo a noite decapitada. ouço a chuva que cai, tênue como o som de um cravo metafísico, remota sonata para medo e medula, no patíbulo das horas. recordo seus olhos de cravos e cravinas. seus olhos de uma tarde em setembro, quando havia um céu de seda e o apito do trem na estrada de ferro. eu via suas mãos crescendo como ventosas, os lábios de estilete, o corpo querendo voar. meninos morenos corriam na estação, sombrinhas e sobretudos criavam asas, uniformes e tabaco gritavam em cinza, um topázio virava uma estrela. esta foi a tarde azul da metempsicose.

     gavita, gavita. foi minha culpa, meu pecado, que invocou esse fado? terei perdido a luz de sua luz por uma absurda, obscura vaidade? eis o que os versos me deram, a ardente areia desolada, o rito absíntico do medo. abyssus abyssum invocat. soa a meia-noite; agora, devo cuidar dela. velar seu sono, na madrugada inquieta. abrir seus punhos mudos, para o repouso; repelir do leito a cabeça do lagarto; pendurar suas vestes, guardar caixinhas e estojos, enxugar sua face. oh, senhor dos caminhos que se bifurcam. penso, mais de uma vez, em fazer-me nada entre nadas; partir rumo à nebulosa, mas não posso. ela está enfeitiçada, e treme toda, torva e turva; é fera e fúria. sim, cuidarei dela, e sempre a amarei. um amor obsessivo e triste, amargo e amarelo.

(Do livro Cores para cegos. São Paulo: Lumme Editor, 2012)

GALERIA: O LIVRO DE CABECEIRA (IV)


MEUS POEMAS EM PROSA (I)


MARINHA BARROCA 

o azul-espuma-catarata, azul-quase-branco-nébula, de mar branqueado no azul-lótus-krishna; delfim que sulca em saltos as vagas azul-marinho-almíscar como graciosa dançarina cambojana, pés-apsara; e (miríades!) aves aquáticas em mandálicos dervixes rodopios rumo ao meru, imenso portal laqueado, sob o céu-plumas-lakshmi, que se abre como noiva. filetes de azul-violeta nas pupilas do inseto que vê: nos brancos lençóis de areia, a velha senhora obesa, vulva em pêlos esbranquiçados, suas lágrimas fermentando taças licorosas, sob o guarda-sol; o sardônico bioquímico alemão, longas suíças platinadas, que corta o presunto em fatias, entre cusparadas; e a bela ninfeta  vietcong, sinuosas pernas mecânicas, cujo olhar incendeia como napalm. por fim, o pinguim ártico banido por  excessivo daltonismo. depois, nada se vê, só o mais puro azul.

(Do livro Yumê. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999)

  
O ESPELHO E AS COISAS


I

OLHO-de-virgo, barriga-de-peixe, dentes-de-leão: palavras são reflexos. Habitei no espelho e comi serragem, vidro moído, trapos de jornal; e copulei com os relógios de pulso, com as navalhas, com fechaduras. Sobre a mesa da sala, entre as vogais dispersas do alfabeto, estilhaços de ampolas para abolir a idéia do tempo. Os vermes saem pelo buraco da agulha, a palavra jade é pus, a palavra jalde é cuspe. A palavra janga está nua, vestida de alarme. As maçãs enlouquecem. O verde enfurece as conchas e a lesma pensa na árvore da palavra despida que sonha.

II

Tudo são nomes e formas. Lâminas cortam os fios desatados de água estagnada. Há uma praça onde comprei pêras ou figos, não sei. Onde ouvi a menina dizer eibishuá. A lua pisca um olho para a jovem parca, ela é cega e surda, e come entulho no banco da praça. Sua voz arisca, bruta, tantaliza: fio de arame tenso, buraco de agulha, cano de pistola. Tudo são palavras, e palavras são coisas. Que não permanecem. Tudo queima, e o sol vegetal é a urina de um cão que arde em vermelho.

III


A poesia pode dizer o tempo que escorrega de seus dedos? A poesia diz tudo e não quer dizer nada e seu nome se escreve no vazio da página, sítio de possíveis reflexos. Tudo são simulacros, pegadas no limo do nada. Todavia, o velho coxo sangrado disputa comida com o cão. A poesia pode andar de bicicleta, deslancha no mar azul, onda em castelhano se diz ola, nuvem em francês se dia nuage. Ela pode ser escrita em pele viva, em algodão, no suor do Marrocos, no violoncelo de São Petersburgo, numa bodega de La Habana. Porém, a tesoura corta tudo em pedaços. Permanece uma sombra, um eco de ruidoso silêncio. Que o espelho captura e multiplica em um número incalculável de reflexos. 


(Do livro A sombra do leopardo. São Paulo: Azougue Editorial, 2001.)


Chave de fenda

Pactuar com jaguares e seus caninos, sol ácido na tela de cristal líquido. Tudo são imagens mentais, as flores de plástico no vaso da sala e os olhos miúdos do nômade tunisiano. Tudo é inútil. Perfurar a parede com a furadeira, limpar suavemente o pó da superfície e fazer o encaixe do parafuso, na altura calculada. Pensar em topázios fecais, em leões alados e numa princesa-serpente de enormes tetas, vestida de luz violeta. Torcer os punhos, os calcanhares. Revirar os olhos. Parafusar com a chave de fenda a cabeça de metal do touro minúsculo e então pendurar no lugar do retrato a sua própria medula óssea, recém-arrancada.


Secador de cabelos

Um jogo de escorpiões apodrece as horas. Cabelos e olhos para os corvos; fome obscura no couro cabeludo. Toda superfície inquieta-se, em febre surda ou gagueira. Impossível não pensar em jardim de espelhos, cristais de vômito, gravuras de dragão. Folhear revistas de desertos africanos, contemplar as folhas amareladas do outono e pensar em algo profundo que disse Giordano Bruno. Sentir o cheiro vermelho do esmalte, como sangue para coagulação,  até  um movimento preciso de escova que ceifa a lua com os polegares. All you need is love. 


Guarda-chuva

Céu tenso, desatino anfíbio de vogais. Gota após gota, líquidas facas sobre o asfalto, sinfonia monótona de felinos. O tecido de escura tenda árabe, com suas arestas metálicas, pouco resiste ao sonoro impacto das ondas aéreas. Mínimo deslize afasta nossa única defesa, e ficamos vulneráveis como Jonas na goela da baleia; como o exército egípcio no mar Vermelho. Com terror, fugimos, aguardamos o fim do evento, que é eterno, trágico, obsessivo.


Garrafas

Juntar as garrafas na prateleira entre aranhas e arames, novelos de barbante e martelos. Empurrar as caixas de pregos, os vidros e latas de tinta para colocar os olhos. É preciso esquecer os mapas, cadarços, jornais velhos. Queimar fotografias, lembranças, almanaques farmacêuticos. Afastar um pouco as caixas de papelão, para depositar o nojo. Empilhar, junto às revistas, os ossos, palavras e ódios. Deslocar toda sombra, que fere como um ácido. Acender o cigarro no maçarico, cuspir catarro com alcatrão e soletrar, com a voz ainda trêmula, as sílabas abertas da navalha.

 BARATA

Seminuas vendem sabonetes e o mar azul-da-prússia de paisagens recortadas de cartão-postal. Movimentos sincopados de ancas revelam saliências epidérmicas ao som da música melíflua de oboés. Jatos d’água escorrem pela concha do umbigo sob o céu cocainado, longe de estrias e da micose que avança nos pés. O verde em alta definição da folhagem oculta o sulco espesso da cavidade e atrai suspiros plásticos, romanescos, fluindo como sangue menstrual. Súbito, assoma a logomarca com a inocência animal de uma máquina de calcular. Iates e sol jamaicano anunciam o novo capítulo da novela. Seminuas têm medo de barata. 

PIOLHO

Money is a crime

     Roger Waters

Barítono de carapaça e gravata quase lilás mergulha os olhos baços no copo de cerveja irlandesa entre cotações do mercado financeiro.

 (Passa uma sombra magra de seios fumantes.) Verde álcool, cogumelos e vozes graves de semblantes que suicidam a noite estrelada.

 Lady sings the blues para vocal e piano. Retrato de Wilde na parede e tapeçarias com toscos motivos de gnomos de barba pontuda. 

 O business man engole nacos de carne vermelha entre chamadas ao celular e citações do Economist sobre a crise da balança comercial.

Tabaco provoca câncer. Trabalho conduz à liberdade. Café com creme e canela. A metafísica do compromisso  institucional.

 Todo homem de negócios é sério. Tem sapatos sérios de couro italiano e óculos sérios com aro de tartaruga. New York, New York. 

Bico de papagaio na coluna recurvada. Folders de lançamento do novo produto. Brieffings para a mídia. Um calor estival, quase Saara.

Relógio digital marcando quinze minutos para Qualquer Tempo. Uma vaga sensação de arritmia (fadiga ou problemas coronários).

Executivos sempre usam marcapasso, água-de-colônia e longas meias pretas.

(Do livro Figuras metálicas. São Paulo: Perspectiva, 2005.)

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

RETRATO DO ARTISTA




CARTOGRAFIAS POÉTICAS DE MICHELINY VERUNSCHK

Micheliny Verunschk, poeta pernambucana nascida em Recife, publicou em 2003 o livro Geografia íntima do deserto, que despertou a atenção de críticos literários como João Alexandre Barbosa pelo despojamento e secura semântica, quase cabralina, indicada já no título do volume. A palavra deserto invoca os sentidos de aridez, exílio, abandono; campo de silêncio e de ausência, recorda ainda a página em branco de Mallarmé e o labirinto infinito sonhado por Borges, leitor das noites árabes. Some-se a este pequeno inventário o paralelo geográfico com o sertão, quadro vivo da exclusão e do desalento. Finalizo aqui as citações, talvez inúteis, que me ocorreram ao pensar no título do livro de estreia de Micheliny Verunschk, que viveu a maior parte de sua infância e adolescência na cidade de Arcoverde, no sertão pernambucano. O deserto está presente não apenas no título, mas em diversas composições da coletânea, não raro com outros significados imprevistos: é o corpo do amante, o sentimento de desolação e o inverso do mar e da cidade, zonas inscritas na distância. Assim, lemos numa das peças: “Teu nome é meu deserto / e posso senti-lo / incrustado no meu próprio território. Como uma pérola / ou um gesto no vazio. / Como o amargo azul / e tudo quanto há de ilusório”. (A presença dolorosa do deserto). A partir daqui, podemos encontrar uma das possíveis chaves de leitura para essa obra densa e incomum: o exercício consciente da alucinação via escritura.  Claro, não se trata do maravilhoso rebuscado (e um pouco gratuito) de Gabriel Garcia Marquez, mas de um imaginário consistente, alcançado com rigoroso jogo de esquadros. Intuição lírica, mas geométrica, construída em linhas precisas, quase metálicas. Difícil, nesta obra, não encontrar registros da jornada pessoal, da vivência da autora na fronteira física do sertão de Pernambuco (trata-se, como bem diz o título, de uma geografia íntima), mas os elementos históricos (narrativas do eu e do mundo, e ainda da história inventada) são transmutados com sábia alquimia para se obter o ouro mestiço e raro de um barroco sutil, inenfático. O exagero retórico cede lugar a um cultivo refinado do paradoxo, que mistura humor negro e sensualidade em grafias plásticas de um quase expressionismo. Essa veia criativa aflora em algumas das peças mais impactantes do volume, que causam o encanto da surpresa pelo acabamento inusitado das figuras verbais. Assim, por exemplo, neste poema: “Eles vestiam / suas roupas sujas / e saíram de casa. / E suas mãos / se desmanchando / em linhas de sangue. (...) / Eles não sabiam / mas estávamos lá. / Bebemos em silêncio / o sêmen ainda quente do morto” (O que dizem os grassóis sobre a morte). Em seu livro de estreia, a autora revela proximidade com a melhor tradição modernista — aquela que vai de Oswald de Andrade e Murilo Mendes a João Cabral de Melo Neto — mas também com a poesia visionária de língua alemã, sobretudo Rilke, Trakl e Celan. A esse respeito, gostaria de citar, para efeito de comparação, o Salmo de Trakl (diverso na arquitetura, mas próximo ao feeling, ao estado de espírito da escrita poética): “A estranha irmã aparece de novo nos sonhos maus de alguém. / (...) Vermes gotejam das suas pálpebras amareladas. / (...) Na sua cova, o mago branco brinca com suas cobras. / Silenciosos sobre o Calvário abrem-se os olhos dourados de Deus” (tradução de Paulo Quintela). O paralelo entre a poesia excêntrica de Micheliny Verunschk (no sentido etimológico da palavra, “fora do centro”) com a estética expressionista é ainda mais visível em seu segundo título publicado, O observador e o nada, publicado no mesmo ano que a Geografia íntima do deserto mas com uma concepção estrutural bem diversa: é um poema longo, com versos mais extensos, narrativos, beirando a prosa, em que a autora mergulha em seus pesadelos e traduz a sensação de horror em linhas substantivas, ásperas, furiosas, como estas: “O meu rio rasga o leito da terra / descobrindo cadáveres muito antigos, / fosforescentes. / Corro dentro de mim. Me revolvo em estertores, leviatã costurado de cadáveres”. O violento antilirismo do poema, suas imagens brutalistas, podem remeter, numa primeira leitura, a referências como Gottfried Benn, o Kafka de A metamorfose, a Clarice Lispector de A paixão segundo G. H., o João Cabral de O cão sem plumas ou Augusto dos Anjos, cultor por excelência da mutilação, da decomposição, da náusea e do bestiário de vermes. O poema de Micheliny Verunschk, no entanto, tem uma dicção personalíssima, como se a poeta fizesse uma autópsia de si mesma, revelando seus medos, desejos e ódios num jorro espontâneo, de música áspera e assimétrica: “E eu gostaria de ser aquela flor pútrida / visitada por morcegos e outros pequenos ávidos. / Flor branca, / de carne podre, / rio leitoso alimentando a mínima vida / ou ao menos poder beber da espuma / como um qualquer / dos meus afogados”.

A cartografia da noite, publicado em 2010, incorpora em seu título um outro deserto: a noite, espaço ilimitado de escuridão e ausência, mas também metáfora do amor e da morte. Os temas trabalhados pela autora neste volume são os seus motes obsessivos, registrados no conjunto de sua obra: memória, infância, silêncio, infecção, territórios, tormentos; o espectro metafórico também traz as imagens recorrentes de insetos,  mapas, flores, sangue, animais e livros, mas a arquitetura é ainda mais consisa e elíptica: “Abre a sua guarda / e os leões colidem, / esfomeados. / Hostes e dentes, / o seu nome é Legião.” (Coliseu). A autora adensa a sua partitura poética de modo inventivo e pessoal, sem cair no fácil minimalismo praticado no período – poemas verticais, com as linhas em espaço duplo, poucos verbos, sempre no infinitivo, e ligeiras perturbações na sintaxe. A escrita poética de Micheliny Verunschk não é suscetível de cair na diluição de procedimentos de escolas exatamente por causa de sua sinceridade, da fidelidade às obsessões de sua mitologia particular, em que a imaginação erótica produz linhas como estas: “Esta noite, / jardim de serpentes / que me devoram os pés, / vai gerar o amante. Ele, / sem nome ou tessitura, / ateará agulhas em brasa / e uma única palavra / sobre o meu torso. / Fere-me de asas, sim? / Cega-me / e em torno de mim / apenas o real, / mar de estanho” (Tatuagem).  Micheliny Verunschk é, sem favor, uma das autoras mais originais e consistentes da poesia brasileira contemporãnea.

(Artigo publicado na edição de setembro/2013 da revista CULT)


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

RECORDAR É VIVER



Tordesilhas -- Festival Íbero-Americano de Poesia Contemporânea --, organizado por mim e por Virna Teixeira, aconteceu em 2007, reunindo alguns dos mais expressivos poetas de língua espanhola de nossa época: Roberto Echavarren(Uruguai), Tamara Kamenszain (Argentina), Coral Bracho (México), Victor Sosa (Uruguai), Alfredo Fressia (Uruguai), Adolfo Montejo Navas (Espanha), além de poetas e prosadores de língua portuguesa como Wilson Bueno e Horácio Costa (Brasil) e Luís Serguilha (Portugal). Há uma memória desse evento inesquecível (um marco no diálogo poético entre Brasil, Portugal e América Latina) na revista Zunái, na página http://www.revistazunai.com/materias_especiais/festival_tordesilhas/index.htm