sábado, 7 de setembro de 2013
MEUS POEMAS EM PROSA (I)
MARINHA BARROCA
o azul-espuma-catarata, azul-quase-branco-nébula, de mar branqueado no
azul-lótus-krishna; delfim que sulca em saltos as vagas azul-marinho-almíscar
como graciosa dançarina cambojana, pés-apsara; e (miríades!) aves aquáticas em
mandálicos dervixes rodopios rumo ao meru, imenso portal laqueado, sob o
céu-plumas-lakshmi, que se abre como noiva. filetes de azul-violeta nas pupilas
do inseto que vê: nos brancos lençóis de areia, a velha senhora obesa, vulva em
pêlos esbranquiçados, suas lágrimas fermentando taças licorosas, sob o
guarda-sol; o sardônico bioquímico alemão, longas suíças platinadas, que corta
o presunto em fatias, entre cusparadas; e a bela ninfeta vietcong, sinuosas pernas mecânicas, cujo
olhar incendeia como napalm. por fim, o pinguim ártico banido por excessivo daltonismo. depois, nada se vê, só
o mais puro azul.
(Do livro Yumê. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999)
(Do livro Yumê. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999)
O
ESPELHO E AS COISAS
I
OLHO-de-virgo, barriga-de-peixe, dentes-de-leão: palavras são reflexos.
Habitei no espelho e comi serragem, vidro moído, trapos de jornal; e copulei
com os relógios de pulso, com as navalhas, com fechaduras. Sobre a mesa da
sala, entre as vogais dispersas do alfabeto, estilhaços de ampolas para abolir
a idéia do tempo. Os vermes saem pelo buraco da agulha, a palavra jade é pus, a
palavra jalde é cuspe. A palavra janga está nua, vestida de alarme. As maçãs
enlouquecem. O verde enfurece as conchas e a lesma pensa na árvore da palavra
despida que sonha.
II
Tudo são nomes e formas. Lâminas cortam os fios
desatados de água estagnada. Há uma praça onde comprei pêras ou figos, não sei.
Onde ouvi a menina dizer eibishuá. A lua pisca um olho para a jovem parca, ela
é cega e surda, e come entulho no banco da praça. Sua voz arisca, bruta,
tantaliza: fio de arame tenso, buraco de agulha, cano de pistola. Tudo são
palavras, e palavras são coisas. Que não permanecem. Tudo queima, e o sol
vegetal é a urina de um cão que arde em vermelho.
III
A poesia pode dizer o tempo que escorrega de seus
dedos? A poesia diz tudo e não quer dizer nada e seu nome se escreve no vazio
da página, sítio de possíveis reflexos. Tudo são simulacros, pegadas no limo do
nada. Todavia, o velho coxo sangrado disputa comida com o cão. A poesia pode
andar de bicicleta, deslancha no mar azul, onda em castelhano se diz ola, nuvem em francês se dia nuage. Ela pode ser escrita em pele
viva, em algodão, no suor do Marrocos, no violoncelo de São Petersburgo, numa
bodega de La Habana.
Porém , a tesoura corta tudo em pedaços. Permanece
uma sombra, um eco de ruidoso silêncio. Que o espelho captura e multiplica em
um número incalculável de reflexos.
(Do livro A
sombra do leopardo. São Paulo: Azougue Editorial, 2001.)
Chave de
fenda
Pactuar com jaguares e seus caninos, sol ácido na tela
de cristal líquido. Tudo são imagens mentais, as flores de plástico no vaso da
sala e os olhos miúdos do nômade tunisiano. Tudo é inútil. Perfurar a parede
com a furadeira, limpar suavemente o pó da superfície e fazer o encaixe do
parafuso, na altura calculada. Pensar em topázios fecais, em leões alados e
numa princesa-serpente de enormes tetas, vestida de luz violeta. Torcer os
punhos, os calcanhares. Revirar os olhos. Parafusar com a chave de fenda a
cabeça de metal do touro minúsculo e então pendurar no lugar do retrato a sua
própria medula óssea, recém-arrancada.
Um jogo de escorpiões apodrece as horas. Cabelos e
olhos para os corvos; fome obscura no couro cabeludo. Toda superfície
inquieta-se, em febre surda ou gagueira. Impossível não pensar em jardim de espelhos,
cristais de vômito, gravuras de dragão. Folhear revistas de desertos africanos,
contemplar as folhas amareladas do outono e pensar em algo profundo que disse
Giordano Bruno. Sentir o cheiro vermelho do esmalte, como sangue para
coagulação, até um movimento preciso de escova que ceifa a
lua com os polegares. All you need is love.
Secador de cabelos
Guarda-chuva
Céu tenso, desatino anfíbio de vogais. Gota
após gota, líquidas facas sobre o asfalto, sinfonia monótona de felinos. O
tecido de escura tenda árabe, com suas arestas metálicas, pouco resiste ao
sonoro impacto das ondas aéreas. Mínimo deslize afasta nossa única defesa, e
ficamos vulneráveis como Jonas na goela da baleia; como o exército egípcio no
mar Vermelho. Com terror, fugimos, aguardamos o fim do evento, que é eterno,
trágico, obsessivo.
Garrafas
Juntar as garrafas na prateleira entre
aranhas e arames, novelos de barbante e martelos. Empurrar as caixas de pregos,
os vidros e latas de tinta para colocar os olhos. É preciso esquecer os mapas,
cadarços, jornais velhos. Queimar fotografias, lembranças, almanaques
farmacêuticos. Afastar um pouco as caixas de papelão, para depositar o nojo.
Empilhar, junto às revistas, os ossos, palavras e ódios. Deslocar toda sombra,
que fere como um ácido. Acender o cigarro no maçarico, cuspir catarro com alcatrão
e soletrar, com a voz ainda trêmula, as sílabas abertas da navalha.
BARATA
Seminuas vendem sabonetes e o mar azul-da-prússia de
paisagens recortadas de cartão-postal. Movimentos sincopados de ancas revelam
saliências epidérmicas ao som da música melíflua de oboés. Jatos d’água
escorrem pela concha do umbigo sob o céu cocainado, longe de estrias e da
micose que avança nos pés. O verde em alta definição da folhagem oculta o sulco
espesso da cavidade e atrai suspiros plásticos, romanescos, fluindo como sangue
menstrual. Súbito, assoma a logomarca com a inocência animal de uma máquina de
calcular. Iates e sol jamaicano anunciam o novo capítulo da novela. Seminuas têm
medo de barata.
PIOLHO
Money is a crime
— Roger Waters
Barítono de carapaça e gravata quase lilás mergulha
os olhos baços no copo de cerveja irlandesa entre cotações do mercado
financeiro.
(Passa uma sombra magra de seios fumantes.) Verde álcool, cogumelos e vozes graves de semblantes que suicidam a noite estrelada.
Lady sings the blues para vocal e piano. Retrato de Wilde na parede e tapeçarias com toscos motivos de gnomos de barba pontuda.
O business man engole nacos de carne vermelha entre chamadas ao celular e citações do Economist sobre a crise da balança comercial.
Tabaco provoca câncer. Trabalho conduz à liberdade.
Café com creme e canela. A metafísica do compromisso institucional.
Todo homem de negócios é sério. Tem sapatos sérios
de couro italiano e óculos sérios com aro de tartaruga. New York , New York .
Bico de papagaio na coluna recurvada. Folders de lançamento do novo produto. Brieffings para a mídia. Um calor estival, quase Saara.
Relógio digital marcando quinze minutos para Qualquer Tempo. Uma vaga sensação de arritmia (fadiga ou problemas coronários).
Executivos sempre usam marcapasso, água-de-colônia e longas meias pretas.
(Do livro Figuras metálicas. São Paulo: Perspectiva, 2005.)
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
RETRATO DO ARTISTA
CARTOGRAFIAS POÉTICAS DE MICHELINY VERUNSCHK
Micheliny Verunschk, poeta pernambucana nascida em Recife,
publicou em 2003 o livro Geografia íntima do deserto, que despertou a
atenção de críticos literários como João Alexandre Barbosa pelo despojamento e
secura semântica, quase cabralina, indicada já no título do volume. A palavra deserto invoca os sentidos de aridez,
exílio, abandono; campo de silêncio e de ausência, recorda ainda a página em
branco de Mallarmé e o labirinto infinito sonhado por Borges, leitor das noites
árabes. Some-se a este pequeno inventário o paralelo geográfico com o sertão,
quadro vivo da exclusão e do desalento. Finalizo aqui as citações, talvez
inúteis, que me ocorreram ao pensar no título do livro de estreia de Micheliny
Verunschk, que viveu a maior parte de sua infância e adolescência na cidade de
Arcoverde, no sertão pernambucano. O deserto está presente não apenas no
título, mas em diversas composições da coletânea, não raro com outros
significados imprevistos: é o corpo do amante, o sentimento de desolação e o
inverso do mar e da cidade, zonas inscritas na distância. Assim, lemos numa das
peças: “Teu nome é meu deserto / e posso senti-lo / incrustado no meu próprio
território. Como uma pérola / ou um gesto no vazio. / Como o amargo azul / e
tudo quanto há de ilusório”. (A presença dolorosa
do deserto). A partir daqui, podemos encontrar uma das possíveis chaves de
leitura para essa obra densa e incomum: o exercício consciente da alucinação
via escritura. Claro, não se trata do
maravilhoso rebuscado (e um pouco gratuito) de Gabriel Garcia Marquez, mas de
um imaginário consistente, alcançado com rigoroso jogo de esquadros. Intuição
lírica, mas geométrica, construída em linhas precisas, quase metálicas.
Difícil, nesta obra, não encontrar registros da jornada pessoal, da vivência da
autora na fronteira física do sertão de Pernambuco (trata-se, como bem diz o
título, de uma geografia íntima), mas
os elementos históricos (narrativas do eu e do mundo, e ainda da história inventada)
são transmutados com sábia alquimia para se obter o ouro mestiço e raro de um
barroco sutil, inenfático. O exagero retórico cede lugar a um cultivo refinado
do paradoxo, que mistura humor negro e sensualidade em grafias plásticas de um
quase expressionismo. Essa veia criativa aflora em algumas das peças mais
impactantes do volume, que causam o encanto da surpresa pelo acabamento
inusitado das figuras verbais. Assim, por exemplo, neste poema: “Eles vestiam /
suas roupas sujas / e saíram de casa. / E suas mãos / se desmanchando / em
linhas de sangue. (...) / Eles não sabiam / mas estávamos lá. / Bebemos em
silêncio / o sêmen ainda quente do morto” (O
que dizem os grassóis sobre a morte).
Em seu livro de estreia, a autora revela proximidade com a melhor tradição
modernista — aquela que vai de Oswald de Andrade e Murilo Mendes a João Cabral
de Melo Neto — mas também com a poesia visionária de língua alemã, sobretudo
Rilke, Trakl e Celan. A esse respeito, gostaria de citar, para efeito de
comparação, o Salmo de Trakl (diverso
na arquitetura, mas próximo ao feeling,
ao estado de espírito da escrita poética): “A estranha irmã aparece de novo nos
sonhos maus de alguém. / (...) Vermes gotejam das suas pálpebras amareladas. /
(...) Na sua cova, o mago branco brinca com suas cobras. / Silenciosos sobre o
Calvário abrem-se os olhos dourados de Deus” (tradução de Paulo Quintela). O
paralelo entre a poesia excêntrica de Micheliny Verunschk (no sentido
etimológico da palavra, “fora do centro”) com a estética expressionista é ainda
mais visível em seu segundo título publicado, O observador e o nada, publicado no mesmo ano que a Geografia íntima do deserto mas com uma
concepção estrutural bem diversa: é um poema longo, com versos mais extensos,
narrativos, beirando a prosa, em que a autora mergulha em seus pesadelos e
traduz a sensação de horror em linhas substantivas, ásperas, furiosas, como
estas: “O meu rio rasga o leito da terra / descobrindo cadáveres muito antigos,
/ fosforescentes. / Corro dentro de mim. Me revolvo em estertores, leviatã
costurado de cadáveres”. O violento antilirismo do poema, suas imagens
brutalistas, podem remeter, numa primeira leitura, a referências como Gottfried
Benn, o Kafka de A metamorfose, a
Clarice Lispector de A paixão segundo G.
H., o João Cabral de O cão sem plumas
ou Augusto dos Anjos, cultor por excelência da mutilação, da decomposição, da
náusea e do bestiário de vermes. O poema de Micheliny Verunschk, no entanto,
tem uma dicção personalíssima, como se a poeta fizesse uma autópsia de si
mesma, revelando seus medos, desejos e ódios num jorro espontâneo, de música
áspera e assimétrica: “E eu gostaria de ser aquela flor pútrida / visitada por
morcegos e outros pequenos ávidos. / Flor branca, / de carne podre, / rio
leitoso alimentando a mínima vida / ou ao menos poder beber da espuma / como um
qualquer / dos meus afogados”.
A cartografia da noite,
publicado em 2010, incorpora em seu título um outro deserto: a noite, espaço
ilimitado de escuridão e ausência, mas também metáfora do amor e da morte. Os
temas trabalhados pela autora neste volume são os seus motes obsessivos,
registrados no conjunto de sua obra: memória, infância, silêncio, infecção,
territórios, tormentos; o espectro metafórico também traz as imagens
recorrentes de insetos, mapas, flores,
sangue, animais e livros, mas a arquitetura é ainda mais consisa e elíptica:
“Abre a sua guarda / e os leões colidem, / esfomeados. / Hostes e dentes, / o
seu nome é Legião.” (Coliseu). A
autora adensa a sua partitura poética de modo inventivo e pessoal, sem cair no
fácil minimalismo praticado no período – poemas verticais, com as linhas em
espaço duplo, poucos verbos, sempre no infinitivo, e ligeiras perturbações na
sintaxe. A escrita poética de Micheliny Verunschk não é suscetível de cair na
diluição de procedimentos de escolas exatamente por causa de sua sinceridade,
da fidelidade às obsessões de sua mitologia particular, em que a imaginação
erótica produz linhas como estas: “Esta noite, / jardim de serpentes / que me
devoram os pés, / vai gerar o amante. Ele, / sem nome ou tessitura, / ateará
agulhas em brasa / e uma única palavra / sobre o meu torso. / Fere-me de asas,
sim? / Cega-me / e em torno de mim / apenas o real, / mar de estanho” (Tatuagem). Micheliny Verunschk é, sem favor, uma das
autoras mais originais e consistentes da poesia brasileira contemporãnea.
(Artigo publicado na edição de setembro/2013
da revista CULT)
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
RECORDAR É VIVER
Tordesilhas
-- Festival Íbero-Americano de Poesia Contemporânea --, organizado por mim e por Virna
Teixeira, aconteceu em 2007, reunindo alguns dos mais expressivos poetas de
língua espanhola de nossa época: Roberto Echavarren(Uruguai), Tamara Kamenszain (Argentina), Coral Bracho (México), Victor Sosa (Uruguai), Alfredo Fressia (Uruguai), Adolfo Montejo
Navas (Espanha), além de poetas e prosadores de língua portuguesa como Wilson
Bueno e Horácio Costa (Brasil) e Luís Serguilha (Portugal). Há uma memória
desse evento inesquecível (um marco no diálogo poético entre Brasil, Portugal e
América Latina) na revista Zunái, na página http://www.revistazunai.com/materias_especiais/festival_tordesilhas/index.htm
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
OSWALD DE ANDRADE, O CANIBAL CLANDESTINO
Oswald de Andrade buscou no
folclore e na história do Brasil os temas para a sua antimitologia poética, que
opera, pela demolição paródica da nossa tradição épica e lírica, uma dissecação
crítica da realidade nacional. Pau-Brasil,
seu primeiro livro de poesia, publicado em 1925, com ilustrações de Tarsila do
Amaral, concretiza essa estratégia de linguagem. Os poemas desta coletânea são
concisos, cheios de humor, sensualidade e plasticidade cubista; o poeta adotou
recursos do futurismo, como as “palavras em liberdade”, a supressão da
pontuação, o uso de neologismos e a disposição geométrica dos versos, e
técnicas de planos e de montagem do cinema. Oswald compôs um quadro alegórico e
metalinguístico da miscelânea cultural, da “feijoada” brasileira, se apropriando,
numa bufoneria desnudadora, do discurso quinhentista, do dialeto caipira, da
fala dos negros e do estilo pomposo do beletrismo bacharelesco.
Nesse cenário de mesclas, de
miscigenações, aparecem os conflitos entre o arcaico e o moderno, a herança colonial
e as inovações como o telégrafo sem fio e os postes da Light. Oswald descobriu
o barroquismo visceral da cultura brasileira, toda ela erigida sobre
contraditórias interações entre diferentes elementos históricos. Essa
composição antitética se expressa pelo uso do ready-made, à Marcel Duchamp (“Confeitaria Três Nações”), pelos
recortes de citações de Pero Vaz Caminha e outros viajantes e cronistas
europeus (“Seguimos nosso caminho por este mar de longo”), pelos flashes de causos populares (“A mulatinha morreu/ E apareceu/ Berrando no
moinho/ Socando pilão”). O poeta fez uma cartografia sintética e irônica do
Brasil senhorial, católico e agrário, com seus escravos, feitores e donos de
engenho, e de seu sucessor, um país provinciano que sonhava (e ainda sonha) com
a modernidade de Paris e Nova Iorque, incorporando à paisagem urbana os cinemas
e táxis, fábricas e arranha-céus. Esse mosaico de um país paradoxal, que
emblematizou o carnaval e o pelourinho, o quilombo e o piano de cauda, o
vestido de chita e o disco de fox-trot, inseminou, mais tarde, o projeto
estético e ideológico da Antropofagia, e, nos anos 60, o Tropicalismo, o Cinema
Novo e o Teatro Oficina.
“Pau-Brasil. Bárbaro e nosso”
A contraparte da visada crítica
oswaldiana é a sua descoberta das belezas do Brasil: “A poesia existe nos
fatos. Os casebres de açafrão e de ocre dos verdes da favela são fatos
estéticos. O Carnaval do Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil.
Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica
rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança” (do Manifesto Pau-Brasil, publicado no
jornal Correio da Manhã em
18.03.1924). Em oposição à solenidade clássica, o “vômito de mármore”
parnasiano, propunha: “A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e
neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como
somos” (idem). Em vez do vício tropical
de importar modelos literários europeus, numa valsa de dependência submissa, o
objetivo do ideário de Oswald, indiciado no nome de seu manifesto, era lançar
as bases de uma arte para exportação.
A emancipação estética de nossa poesia seria alcançada pela fusão das mais
elaboradas inovações formais disponíveis na época, digeridas de modo
criterioso, e dos elementos nacionais. “O trabalho contra o detalhe naturalista
— pela síntese; contra a morbidez
romântica — pelo equilíbrio geômetra
e pelo acabamento técnico; contra a cópia, pela invenção e pela surpresa”
(idem).
Os princípios construtivos da
poesia “pau-brasil” foram prenunciados em Memórias Sentimentais de João Miramar, romance de invenção publicado em 1924. Este livro
basilar, construído como uma seqüência de 163 fragmentos numerados, utiliza, em
seu fluxo narrativo, processos da fotografia e do cinema, como o “flash”, a
montagem, e a descontinuidade cênica, como notou Antônio Cândido, e abala a
distinção tradicional entre prosa e poesia. Seu estilo telegráfico, marcado por
elipses e rupturas de sintaxe, utiliza a justaposição de verbos e substantivos,
em neologismos como “cosmoramava”,
“beiramarávamos” e “bandeiranacionalizavam”, que recordam as colagens cubistas.
O texto de Miramar é essencialmente
paródico, e contrapõe à invenção semântica expressões de gíria,
estrangeirismos, a pronúncia da fala infantil e a linguagem empolada da
“retórica jesuíta” (Barthes) dos oradores de província e dos juristas, como no
prefácio do livro, assinado por Machado Penumbra, que reaparece como personagem
ao longo do romance. A saga desse “Macunaíma urbano” (Antônio Cândido),
publicado dois anos após o Ulisses de
James Joyce, é a ponta-de-lança da prosa experimental no Brasil, antecipando
procedimentos estéticos que seriam desenvolvidos mais tarde por Clarice
Lispector, Guimarães Rosa, Paulo Leminski e Haroldo de Campos.
No Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade, publicado em
1927, com ilustrações num estilo naif-jocoso
do próprio poeta, a poética da brevidade oswaldiana encontra seu ponto máximo
de expressão em poemas como velhice
(“O netinho jogou os óculos/ Na latrina”), fazenda (“O mandacaru espiou a mijada da
moça”), crônica (“Era uma vez/ o
mundo”) e o conhecido “amor/humor”, onde a primeira palavra é o título e a
segunda, o poema. A gozação paródica dos ícones da ideologia oficial e do
academismo literário está presente em poemas como história pátria (“Lá vai uma barquinha carregada de/ Aventureiros”)
e balada do esplanada (“Há poesia/ Na
dor/ Na flor/ No beija-flor/ No elevador”). O tacape do sarcasmo brandido por
Oswald, ao golpear nosso provincianismo, o emboloramento mental de nossas
elites, preparava o terreno para a proposição
de uma perspectiva utópica, que apontava em direção a uma nova cultura,
ao mesmo tempo bárbara e moderna. A idéia (já embrionária na fase Pau-Brasil) de “comer” o que há de melhor na civilização ocidental
para a elaboração de uma nova sociedade irá inaugurar outra etapa no pensamento
e na criação artística de Oswald de Andrade: a Antropofagia.
"Tupi or not tupi: that's the question"
“Só a antropofagia nos une. Socialmente.
Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de
todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De
todos os tratados de paz. Tupi or not tupi, that’s the question.” (Do Manifesto Antropófago, publicado em 01.05.1928.) A Antropofagia foi a
expressão carnavalizada, totêmica, da concepção cultural e política do poeta: a
emancipação do jugo colonialista pela deglutição ritual, orgiástica, do
Dominador. Em vez da hybris
tribunícia, operística, dos sublevados, Oswald optou pela alegoria do canibal
que devora o inimigo para assimilar suas qualidades guerreiras. A metáfora
antropofágica, ao contrário do nacionalismo conservador de Cassiano Ricardo
(“triste xenofobia que acabou numa macumba para turistas”), acenou a afirmação
de uma cultura plural, de somatória, não excludente, capaz de aglutinar os mais
diversos temperos. O movimento, lançado no Manifesto
Antropófago, digeriu elementos da filosofia marxista, da psicanálise, do
surrealismo, reelaborando tudo em sua dança primitivista, mas não se tornou uma
escola literária, no sentido convencional, com princípios estéticos normativos;
permaneceu uma visão poética do mundo, uma feira circense de transvaloração de
todos os valores. Que inspirou, no entanto, obras como o Abaporu, de Tarsila do Amaral, Macunaíma,
de Mário de Andrade, Cobra Norato, de
Raul Bopp e Serafim Ponte Grande, do
próprio Oswald.
A idealização do retorno a um
estado paradisíaco, a uma Idade do Ouro perdida, não é uma criação original do
“antropófago de cadillac”; está presente em todas as religiões e mitologias, e
teve desdobramentos no pensamento ocidental, a partir do Iluminismo, nas
utopias socialistas do século XIX e em movimentos sociais de cunho messiânico.
Oswald reconhece esta herança: “Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a
Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do
homem. (...) Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre. Montaigne. O homem natural. Rousseau.
Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista
e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos” (do Manifesto Antropófago).
Diferente das construções
ideológicas que subordinavam a idéia da redenção social à redução do indivíduo,
porém, Oswald culmina a sua utopia com a afirmação anárquica da emancipação
sexual, sob a forma política do matriarcado: “Contra a realidade social,
vestida e opressora, cadastrada por Freud — a realidade sem complexos, sem
loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama”
(idem). A ciranda antropofágica de Oswald de Andrade, porém, teve vida curta,
assim como a sua Revista de Antropofagia:
em 1929, o crash da Bolsa de Nova
Iorque provoca uma crise na economia brasileira e, em 1931, ele e sua nova
musa, Patrícia Galvão (a Pagu), filiaram-se ao Partido Comunista, e a pajelança
pelo matriarcado é substituída pelo ideal da revolução proletária, sob a batuta
da III Internacional.
“Casaca de ferro da
Revolução”
Serafim Ponte Grande, publicado em 1933, é o o ritual de passagem do
“sarampão antropofágico” ao engajamento
esquerdista. Este romance paradoxal é construído como uma seqüência de
episódios de diário sentimental, com inserções paródicas e metalinguísticas que
abalam o próprio conceito de romance. Como diz Haroldo de Campos, “o Serafim é um livro compósito, híbrido,
feito de pedaços ou ‘amostras’ de vários livros possíveis, todos eles propondo
e contestando certa modalidade do gênero narrativo ou da assim dita arte da
prosa”. Essa desarticulação do raconto, que incorpora ainda procedimentos
microestéticos já vistos em Miramar,
como o “estilo cubista, metonímico” (HC) que dilui as fronteiras entre a prosa
e a poesia, desemboca no questionamento da própria idéia de livro. Sob outra
abordagem, a temática do Serafim, que
culmina na metáfora da viagem permanente e do “nudismo transatlântico”, expõe a
faceta libertária do projeto antropofágico, quatro décadas antes da revolução sexual.
O romance foi escrito em 1928, sob
o influxo direto da Antropofagia, mas sua publicação só aconteceu cinco anos
depois, quando Oswald de Andrade já decidira ingressar nas fileiras da
militância marxista. O prefácio de Serafim é um verdadeiro manifesto, em
que o autor se despede do ideário canibal-vanguardista e declara sua nova
profissão de fé: “A situação ‘revolucionária’ desta bosta mental sul-americana
apresentava-se assim: o contrário do burguês não era o proletário — era o
boêmio! As massas, ignoradas no território e como hoje, sob a completa
devassidão econômica dos políticos e dos ricos. Os intelectuais brincando de
roda. De vez em quando, davam tiros entre rimas. (...) O movimento modernista,
culminado no sarampão antropofágico, parecia indicar um caminho avançado. São
Paulo possuía um poderoso parque industrial. (...) Eis porém que o parque
industrial de São Paulo era um parque de transformação. Com matéria-prima
importada. Às vezes originária do próprio solo nosso. Macunaíma. (...) Enquanto
os padres, de parceria sacrílega, em São Paulo , com o professor Mário de Andrade e no
Rio com o robusto Schmidt, cantam e entoam, nas últimas novenas repletas do
Brasil: ‘No céu, no céu, com sua mãe
estarei’ eu prefiro simplesmente me declarar enojado de tudo. E possuído de uma
única vontade. Ser pelo menos, casaca de ferro da Revolução Proletária”.
A participação política de Oswald
de Andrade foi a corrente sanguínea que alimentou suas peças de teatro, O Rei da Vela (1933), O Homem e o Cavalo (1934) e A Morta (1937), obras em que é notável
a presença de elementos similares aos trabalhados por Samuel Beckett, Ionesco
e, mais tarde, Arrabal, no chamado Teatro do Absurdo. O conteúdo panfletário
aliado à invenção estética nos faz pensar, por outro lado, em obras como O Percevejo, de Maiakovski. A renovação
do teatro intentada por Oswald, porém, só seria concretizada no final dos anos
60, com a montagem de O Rei da Vela
por José Celso Martinez Corrêa, no Teatro Oficina, evento que marcou o
nascimento do Tropicalismo. Do período militante de Oswald devemos citar,
ainda, os dois romances de tese Marco
Zero, I e II (Chão e A Revolução Melancólica) e o jornal O Homem do Povo, dirigido por ele e
Pagu, empastelado por estudantes de Direito do Largo de São Francisco. O
coroamento dessa fase, no entanto, foi menos
épico do que lírico: o “sentimento de mundo” do autor encontrou sua forma ideal
de expressão na poesia.
O Cântico dos Cânticos para Flauta e Violão (1942), dedicado a Maria
Antonieta d’Alkmin, é um longo poema de amor, dividido em 15 peças curtas, compostas
sob o impacto da II Guerra Mundial. Este é o trabalho de maior envergadura
lírica do poeta; já no título, há uma paráfrase do texto bíblico atribuído a
Salomão, matriz do pathos
erótico-amoroso do Ocidente. Em vez do humor ácido destilado em outras
retortas, o que predomina neste livro “humano, demasiado humano” é a fusão do eu lírico com o eu social,
participante: a celebração da mulher amada mistura-se ao brado do tribuno que
expressa seu compromisso de solidariedade pelos povos agredidos pelo nazismo, e também sua
esperança de um novo mundo, que surgiria a partir dos “assombrados/ brados de
vitória/ de Stalingrado”.
O Cântico retoma os princípios estéticos da poesia “pau-brasil”, como
a economia verbal, a construção geométrica, os jogos paronomásicos, o uso do ready-made, em uma base rítmica
funcional. Como diz Haroldo de Campos: “O procedimento estilístico que parece
ter maior incidência no Cântico é a
técnica de repetições, seja o andamento anafórico e paralelístico, seja a
simples reiteração topológica de palavras iguais ou parônimas. Aliás, se se pode identificar uma célula
rítmica básica na construção sonora dos textos oswaldianos, este será a
repetição de tipo aliterativo (coral
caído, duro dorso), agnominativo
(bonançosa bonança) ou em eco (mim/ Alkmin).” No poema canção e calendário, essa arquitetura
textual alcança seu ponto mais alto, em
versos como: “Não quero mais/ A inglesa
Elena/ Não quero mais/ A irmã da Nena/ Não quero mais/ A bela Elena / Anabela/
Ana Bolena/ Quero você/ Toma conta do
céu/ Toma conta da terra/ Toma conta do mar/ Toma conta de mim/ Maria Antonieta
d’Alkmin/ E se ele vier/ Defenderei/ E se ela vier/ Defenderei/ E se eles
vierem/ Defenderei/ E se elas vierem todas/ Numa guirlanda de flechas/
Defenderei/ Defenderei/ Defenderei”. O “antropófago de cadillac”, vestido de
folhas de bananeira, sarcástico e sensualista, reconciliou-se com a tradição
lírica, mas com o estado de espírito de Breton, de Maiakovski: o elogio à
mulher amada se confunde com a defesa da poesia e da revolução social, em um mesmo ideal libertário.
"A massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico"
O Escaravelho de Ouro (1945) é a derradeira composição poética de Oswald de
Andrade. O título da coletânea é uma citação do conto criptográfico de Edgar
Poe, e a obra tem mesmo o caráter de código, de mensagem cifrada. Assim como o Cântico, é um poema longo, dividido em
16 partes, dedicado a sua filha Antonieta Marília. Neste livro, de indisfarçado
pessimismo, o poeta faz uma anti-elegia ao “admirável mundo novo” que surgiu do
pós-guerra, dominado pela política reacionária de Truman (e, no Brasil, do
marechal Dutra), pelo consumismo, pela banalidade da indústria cultural, cujo
emblema mais ruidoso era o cinema de Hollywood. Esse estado de espírito de
Oswald é sintetizado em poemas como plebiscito
(“Venceu o sistema de Babilônia/ e o garção de costeleta”) e páscoa
de giorgio de chirico (“Ninguém quis comprar o poeta”).
Dissidente do mundo burguês, o
poeta rompera, também, com o Partido Comunista e o “Dogma da Imaculada
Revolução”, e colocou em xeque a própria idéia de utopia em seu ensaio A crise da filosofia messiânica, que
retoma princípios da Antropofagia, como o conceito de matriarcado, mesclados à
influência do existencialismo de Sartre e Camus. O trabalho foi apresentado
como tese de mestrado a uma banca examinadora da Universidade de São Paulo e, é
claro, foi recusado, por não se enquadrar nos estreitos critérios acadêmicos;
ao sair da sala, o poeta assoou o nariz na bandeira nacional. De 1945 até sua
morte, em 1954, Oswald de Andrade encontrou-se sozinho, sem dinheiro, com
poucos amigos e muitos desafetos. Nesta época, em São Paulo e no Rio de
Janeiro, os poetas da Geração de 45, viúvos de Olavo Bilac, insurgiram-se contra o Modernismo, saudosos
do soneto e das chaves de ouro, hostilizando o autor de Pau-Brasil. Apesar de magoado com as críticas, o poeta não perdeu o
senso de humor. Certa vez, em uma conferência, Lêdo Ivo acusou Oswald de ser o
“calcanhar de Aquiles do Modernismo”, ao que o antropófago retrucou, chamando
seu contendor de “chulé de Apolo da Geração de 45” . A platéia desabou em
risos.
Em seu exílio artístico imposto pelo
provincianismo beletrista de Pindorama, Oswald foi rejeitado, excluído das
antologias, dos currículos escolares e do mercado editorial durante décadas,
como um canibal clandestino. Por fim, foi entronizado como precursor da poesia
concreta e de outros movimentos de vanguarda que transformaram a cultura
brasileira, a partir dos anos 60. Desde sua “reabilitação” até os dias atuais,
o espírito inovador e irreverente oswaldiano vem inseminando inclusive as novas
linguagens da publicidade, da mídia eletrônica e da cultura pop, fazendo
cumprir o vaticínio do poeta: “a massa ainda comerá o biscoito fino que
fabrico”. O debate contemporâneo sobre a questão do nacionalismo x
globalização, por sua vez, resgatam a atualidade do ideal antropofágico e da
tese sobre a crise da filosofia messiânica, colocando o pensamento de Oswald de
Andrade no olho do furacão.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
FLOR OCCIPITAL
Flor occipital é o nome da cabeça.
Linhas, volumes.
Uma escrita de ossos, nervos,
orbes, lembranças.
orbes, lembranças.
Palavras que se perderam em
algum lugar
que você evita.
que você evita.
Cenários que surgem de repente
como lagos, cristais,
pequenas facas
brancas.
como lagos, cristais,
pequenas facas
brancas.
Uma cobra que não é o Nome que
escorre em seus lábios.
Árvore que não diz mais nem
menos
do que
isto.
do que
isto.
Há um aprendizado para a
loucura?
Você esmaga um inseto entre os
dedos
mas a sensação
permanece.
mas a sensação
permanece.
É um calafrio que você não
pode explicar.
Fibras, tudo são fibras de um
tecido miraculoso.
Um tapete oriental
em forma de rim,
no qual somos um minúsculo detalhe,
formiga que cavalga o dorso de um dragão.
Um tapete oriental
em forma de rim,
no qual somos um minúsculo detalhe,
formiga que cavalga o dorso de um dragão.
Na palma, no pulso, na pele,
você pensou ter sentido os jogos da noite,
mãos fugidias, voz emudecida,
nenhum tabuleiro
ou peão.
você pensou ter sentido os jogos da noite,
mãos fugidias, voz emudecida,
nenhum tabuleiro
ou peão.
Esta não é a face de um sonho,
menos luz, nenhuma membrana,
caralho, você grita
aos miolos de pão.
menos luz, nenhuma membrana,
caralho, você grita
aos miolos de pão.
Formigas de ninguém atravessam
de um lado a outro
o canteiro
do jardim.
o canteiro
do jardim.
Existe a ilusão do amor e os
dentes, dentes, dentes.
Porque tudo é real.
A pedra que explode nas
têmporas.
A Terra em forma de cálice.
A palavra que se reproduz como
as aves no Palácio da Deusa da Lua.
O sentido é apenas a sombra.
Sou a fome de uma claridade
que não haverá jamais.
Porque os ritmos, os ritmos, os ritmos.
Porque o riso da cadela.
Porque o riso da cadela.
Celan e a “loucura aberta de
um poro”.
Nenhuma saída para parte
alguma.
Caranguejos à deriva na chuva,
um retrato, um nome
que não é a cobra
que não escorre
em teus lábios.
que não é a cobra
que não escorre
em teus lábios.
Jogar-se na sombra em busca do
sentido de mascar folhas de cobre.
Jogar-se na sombra em busca do
íntimo escaravelho
tatuado na buceta
da Senhora Linguagem.
tatuado na buceta
da Senhora Linguagem.
Jogar-se na sombra porque
pedra é mais do que grito é mais do que esquilo
é mais do que o turvo
uivo
da lacraia.
é mais do que o turvo
uivo
da lacraia.
Escrever poesia não é um
trabalho para homens delicados.
Flor occipital é o nome da
cabeça.
Aqui estão todos os jogos,
todos os mapas, todas as palavras,
inclusive aquelas por inventar.
inclusive aquelas por inventar.
Flor occipital é o nome da
cabeça.
Tua voz.
Tuas faces.
Tuas mandalas de ternura e
escárnio.
A desfiguração de linhas no
corpo convulsivo, explodindo lêmures.
Esmeralda.
Tudo se inicia e termina com a encantação da esmeralda.
À memória de
Rodrigo de Souza Leão, 2011
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
POEMAS DE RODOLFO HASLER
AS MUSAS
As lagostas e as formigas destroçam um poema
catalão que terminei para o meu aniversário, e soltas
sobre o papel restam vogais e
consoantes
na maior desordem.
* * *
SETE PÉROLAS, UMA PARA CADA VEZ QUE DIGO NÃO
Sete pérolas, uma para
cada vez que digo não.
* * *
A agonia do pensamento em uma paisagem negra
desesperado por alcançar a
forma sagrada do peixe.
* * *
OFERENDA A VÊNUS
Tudo quanto floresce,
tudo que germina
e um reflexo do escuro
mirto que nasce nas ondas.
* * *
O céu desaba em tenebrosa
tempestade de areia,
o deserto é negro e os
lírios, os jacintos e os sonhos
são negros também.
* * *
Sou
vermelho crustáceo em tua boca ardente
com a língua me sorves,
guloso azul turquesa,
veneno virginal te devorará
por dentro,
em uma agudíssima praia eu,
gótico fruto aberto que
celebra teus dias.
* * *
SEGUNDA GAZELA
Quando despertas dentro do
espelho
ou dentro do estigma da flor
o que faz primeiro é amar-se
terrivelmente
apesar de que Narciso morreu
em teus olhos
na cama deste hotel onde se
esconde
cuidadíssima beleza
da aurora que te acossa.
* * *
QUINTA GAZELA
Delícia, a vida não dura mais
que meia hora,
vitória azul violácea,
canibal,
às escondidas dos teus,
só flores brancas compram teu
silêncio.
* * *
NONA GAZELA
Os lábios avermelhados,
química ou martini bianco,
tantos dias, certamente
não poderei esquecê-lo
facilmente
nem dizer habibi em língua
alguma.
* * *
COM TODA A INTENÇÃO
O coração nas mãos é uma flor
de lótus
simétrico de pétalas
perfeitas,
esta noite
escura como a lua atrás das
colinas.
DO TRATADO DE LICANTROPIA
1
Não provo antídoto possível ou transfusão
de cômoda morte à espera do vinho
irreversível, do assassinato a soldo
dos dentes, do remédio das garras
como açores, e um suor amargo me marca
e na iniciação.
2
A ânsia é
um Lykabethos cegado pelas
têmporas
ferozes, uma suave sedução de
pequenos
olhos,
é a
temperatura que aumenta endemoninhada
nos
cabelos e nas costas,
é o clima
fresco da noite e a lua
uiva
enquanto flui o monte dos
lobos e o
suor se finca na recuperação
dos
sentidos.
3
Exalta, coração, a rota de Macau, porque
ali sonhaste, ali te esperam portos e
outro porto, as figuras de pedra no
parque entre estrelas, porque ali viveste
com a natureza nesse rio que guardas
em tua caixinha de chá.
4
China apareceu entre nós como um
enorme jade que dói em suas arestas,
como um distante rio de águas lodosas
que macula todo teu corpo, teu corpo
jade, meu corpo amarelo como madeira.
China
apareceu como um lençol de arroz
entre teu cabelo, a água, o barro, o sopro.
5
São minhas todas as cidades e seus teatros
de sombras, e são meus também os gestos,
as roupagens, os mercados, os múltiplos
sorrisos e as oferendas, os marrecos e as
flores dos salgueiros.
Tudo se assemelha aos meninos que se desejam
para si, ao em torno que eclipsa a luz
das gargantas, de todas as gargantas
infantis, oscilantes como a tarde detrás
das fronteiras.
6
O
momento da feroz metamorfose se
aproxima
de meus dias evasivos, aos jogos
prolongados
na fauna e ramos submarinos,
às costas
enegrecidas como fuso
de carvão
vegetal. A febre se aproxima
rítmica
como as páginas de minhas leituras
de
paixão, Shangai-Lily ou o fim
de meu
requerimento, cheio de mutantes
desvelos,
perene o percorrido pelas
estações
chinesas, pela chuva chinesa
em meu
novo estado de aventura.
7
As bicicletas silenciosas atravessavam as
ruas como arames, as pernas subiam e
baixavam como arames naqueles dias
serenos em que o horizonte era só água.
Traduções: Claudio Daniel
POEMAS DE ARMANDO ROA VIAL
PAUL CELAN. IN
MEMORIAN
Que
estamos sós, desamparados,
que a ansiedade e o fastio nos ordenham o sangue,
que travamos amizade com a morte para deixar de morrer.
Paul Celan o sabia. E o escreveu no Sena.
* * *
TENEBRIS IPNEUS
Esboço de Réquiem para um
Jovem Poeta
Em vão lutei contra a tenaz
insônia
de minha morte.
A vida é uma assembléia de
sombras
que se imolam umas às outras.
* * *
Já não acerto outra saída
que as velhas covas do
cadáver,
o estrépito do verme,
a carne purulenta,
a escudela vazia,
o sangue que fede.
Nada pode evitar
que o destino trame por antecipação
o senhorio inútil de minha carcaça.
* * *
O seco estampido de um disparo
também pode ser uma forma de oração,
uma graça dispensada aos deuses,
não importa quem sejam.
Observemos
religiosamente
o sagrado mandamento do suicídio.
* * *
Minhas entranhas tornam-se ocas.
Salpico
por todas as partes
a
podridão de
meus membros.
Sou uma besta encurralada sob a
pele.
Lamacenta orgia.
Os vermes pululam e rebentam
com cada escura secreção do organismo.
* * *
A matéria se esvazia, só e ínfima,
cheia de rancor, sob as dentadas de
todos estes anos
onde apenas o irremediável conseguiu alvorecer.
* * *
A morte.
Assomando como um raio de luz
por debaixo da porta.
Após depredar-me
e saborear até as fezes.
Já ressarcida.
Colocando de novo
seus velhos cadeados.
* * *
A avareza do
destino
palpita detrás
do descorado sudário da
vida.
O corpo se desfaz no féretro
ante o bocejo da
viúva inconsolável.
A torpe investida do
verme
desgarra o coração.
* * *
Com qual de todos meus amores
haverei de subornar a morte?
A carne trama e conspira
desde o fundo: a fleuma,
o grumo saturado de
graxa,
o furor do pó por retornar ao pó.
Com qual de todas minhas ferrugens
haverei de oxidar-lhe a foice?
* * *
Sem rastros nem membros permanece.
As colinas de meu corpo se resfriam.
Minha
voz se funde vacilante
no pantanoso coração de Deus.
Traduções: Claudio Daniel
Traduções: Claudio Daniel
domingo, 1 de setembro de 2013
COLUNA DO PATINHO
A coleção de poesia CAIXA PRETA, publicada
pela Lumme Editor, existe desde 2007 e já publicou autores como Wilson Bueno,
Horácio Costa, Micheliny Verunschk
Guarani Kaiowá, Adriana Zapparoli, Daniel Faria, Lígia Dabul, Thiago Ponce de
Moraes, Jorge Lúcio de Campos, Virna Teixeira, Andréia Carvalho
Gavita, José Karl, Elson Fróes, Andréa Catrópa, Ana Maria Ramiro. Agora, em 2013, foi criada no Rio de
Janeiro uma editora chamada Caixa Preta, que anunciou o lançamento de um livro
de Carlito Azevedo. Claro que é APENAS coincidência!
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