sábado, 24 de agosto de 2013

A HORA DA AÇÃO POLÍTICA



Luís Inácio Lula da Silva

A lenta retomada da economia global e os seus enormes custos sociais, especialmente nos países desenvolvidos exigem uma corajosa mudança de atitude. É preciso identificar com clareza a raiz da crise de 2008, que em muitos aspectos se prolonga até hoje, para que os líderes políticos e os órgãos multilaterais façam o que deve ser feito para superá-la. A verdade é que, no dia 15 de setembro de 2008, quando o banco Lehman Brothers pediu concordata, o mundo não se viu apenas mergulhado na maior crise financeira desde a quebra da Bolsa de Nova York em 1929. Viu-se também diante da crise de um paradigma. Outros grandes bancos especuladores nos Estados Unidos e na Europa só não tiveram o mesmo destino porque foram socorridos com gigantescas injeções de dinheiro público. Ficou evidente que a crise não era localizada, mas sistêmica.

O fracasso não era somente desta ou daquela instituição financeira, mas do próprio modelo econômico (e político) predominante nas décadas recentes. Um modelo baseado na ideia insensata de que o mercado não precisa estar subordinado a regras, de que qualquer fiscalização o prejudica e de que os governos não tem nenhum papel na economia, a não ser quando o mercado entra em crise. Segundo este paradigma, os governos deveriam transferir a sua autoridade democrática, oriunda do voto – ou seja, a sua responsabilidade moral e política perante os cidadãos – a técnicos e organismos cujo principal objetivo era o de facilitar o livre trânsito dos capitais especulativos. Cinco anos de crise, com gravíssimo impacto econômico e sofrimento popular, não bastaram para que esse modelo fosse repensado. Infelizmente, muitos países ainda não conseguiram romper com os dogmas que levaram ao descolamento entre a economia real e o dinheiro fictício, e ao círculo vicioso do baixo crescimento combinado com alto desemprego e concentração de renda nas mãos de poucos.

O mercado financeiro expandiu-se de modo vertiginoso sem a simultânea sustentação do crescimento das atividades produtivas. Entre 1980 e 2006, o PIB mundial cresceu 314%, enquanto a riqueza financeira aumentou 1.291%, segundo dados do McKinseys Global Institute e do FMI. Isso, sem incluir os derivativos. E, de acordo com o Banco Mundial, no mesmo período, para um total de US$ 200 trilhões em ativos financeiros não derivados, existiam US$ 674 trilhões em derivativos. Todos sabemos que os períodos de maior progresso econômico, social e político dos países ricos durante o século XX não tem nada a ver com a omissão do Estado nem com a atrofia da política. A decisão política de Franklin Roosevelt, de intervir fortemente na economia norte-americana devastada pela crise de 1929, recuperou o país justamente por meio da regulação financeira, o investimento produtivo, a criação de empregos e o consumo interno.

O Plano Marshall, financiado pelo governo norte-americano na Europa, além de sua motivação geopolítica, foi o reconhecimento de que os EUA não eram uma ilha e não poderiam prosperar de modo consistente num mundo empobrecido. Por mais de trinta anos, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, o Welfare State foi não apenas o resultado do desenvolvimento mas também o seu motor. Nas últimas décadas, porém, o extremismo neoliberal provocou um forte retrocesso. Basta dizer que, de 2002 a 2007, 65% do aumento de renda dos EUA foram absorvidos pelos 1% mais ricos. Em quase todos os países desenvolvidos há um crescente número de pobres. A Europa já atingiu taxas de desemprego de 12,1% e os EUA, no seu pior momento, de mais de 10%. O brutal ajuste imposto à maioria dos países europeus – que já foi chamado de austericidio – retarda desnecessariamente a solução da crise. O continente vai precisar de um crescimento vigoroso para recuperar as dramáticas perdas dos últimos cinco anos. Alguns países da região parecem estar saindo da recessão, mas a retomada será muito mais lenta e dolorosa se forem mantidas as atuais políticas contracionistas. Além de sacrificar a população europeia, esse caminho prejudica inclusive as economias que souberam resistir criativamente ao crack de 2008, como os EUA, os BRICS e grande parte dos países em desenvolvimento.

O mundo não precisa e não deve continuar nesse rumo, que tem um grande custo humano e risco político. A redução drástica de direitos trabalhistas e sociais, o arrocho salarial e os elevados níveis de desemprego criam um ambiente perigosamente instável em sociedades democráticas. Está na hora de resgatar o papel da política na condução da economia global. Insistir no paradigma econômico fracassado também é uma opção política, a de transferir a conta da especulação para os pobres, os trabalhadores e a classe média. A crise atual pode ter uma saída economicamente mais rápida e socialmente mais justa. Mas isso exige dos líderes políticos a mesma audácia e visão de futuro que prevaleceu na década de 1930, no New Deal, e após a II Guerra Mundial. É importante que os EUA de Obama e o Japão de Shinzo Abe estejam adotando medidas heterodoxas de estímulo ao crescimento. Também é importante que muitos países em desenvolvimento tenham investido, e sigam investindo, na distribuição de renda como estratégia de avanço econômico, apostando na inclusão social e na ampliação do mercado interno.

O aumento de renda das classes populares e a expansão responsável do crédito mantiveram empregos e neutralizaram parte dos efeitos da crise internacional no Brasil e na América Latina. Investimentos públicos na modernização da infraestrutura também foram fundamentais para manter as economias aquecidas. Mas para promover o crescimento sustentado da economia mundial isso não é suficiente. É preciso ir além. Necessitamos hoje de um verdadeiro pacto global pelo desenvolvimento, e de ações coordenadas nesse sentido, que envolvam o conjunto dos países, inclusive os da Europa. Políticas articuladas em escala mundial que incrementem o investimento público e privado, o combate à pobreza e à desigualdade e a geração de empregos podem acelerar a retomada do crescimento , fazendo a roda da economia mundial girar mais rapidamente. Elas podem garantir não só o crescimento, mas também bons resultados fiscais, pois a aceleração do crescimento leva à redução do déficit público no médio prazo. Para isso, é imprescindível a coordenação entre as principais economias do mundo, com iniciativas mais ousadas do G-20. Todos os países serão beneficiados com essa atuação conjunta, aumentando a corrente de comércio internacional e evitando recaídas protecionistas. A economia do mundo tem uma larga avenida de crescimento a ser explorada: de um lado pela inclusão de milhões de pessoas na economia formal e no mercado de consumo – na Ásia, na África e na América Latina – e de outro com a recuperação do poder aquisitivo e das condições de vida dos trabalhadores e da classe média nos países desenvolvidos. Isso pode constituir uma fonte de expansão para a produção e o investimentos mundiais por muitas décadas.

(Artigo publicado no New York Times)

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

GALERIA: CÉSAR VALLEJO


POEMAS DE CÉSAR VALLEJO


EPÍSTOLA AOS TRANSEUNTE

Recomeço meu dia de coelho,
minha noite de elefante em repouso.
E, para mim, digo:
esta é minha imensidade em bruto, a cântaros,
este meu grato peso, que me buscara abaixo para pássaro;
este é meu braço
que por sua conta recusou ser asa,
estas são minhas sagradas escrituras,
estes meus alarmados testículos.
Lúgubre ilha me iluminará continental
enquanto o capitólio se apóie em minha íntima derrocada
e a assembléia em lanças clausure meu desfile.
Porém quando eu morrer
de vida e não de tempo
quando forem duas minhas duas maletas,
este há de ser meu estômago em que coube minha lâmpada
em pedaços,
esta aquela cabeça que expiou os tormentos do círculo
em meus passos,
estes esses vermes que o coração contou por unidades,
este há de ser meu corpo solidário
pelo qual vela a alma individual; este há de ser
meu umbigo em que matei meus piolhos natos,
esta minha coisa coisa, minha coisa tremebunda.
Enquanto isso, convulsiva, asperamente,
convalesce meu freio,
sofrendo como sofro da linguagem direta do leão;
e, posto que existi entre duas potestades de tijolo,
convalesço eu mesmo, sorrindo de meus lábios.

Tradução: José Arnaldo Villar


TRILCE, LX

É de madeira minha paciência,
surda, vegetal.

Dia que tens sido puro, infantil, inútil
que nasceste nu, as léguas
de tua marcha, vão correndo sobre
tuas doze extremidades, esse vinco cenhoso
que depois desfia-se
em não se sabe que últimas fraldas.

Constelado de hemisférios de grumo,
sob eternas américas inéditas, tua grande plumagem,
te partes e me deixas, sem tua emoção ambígua,
sem teu nó de sonhos, domingo.

E se rói minha paciência,
e eu volto a exclamar: Quando virá
o domingo falastrão e mudo do sepulcro;
quando virá levar este sábado
de farrapos, esta horrível sutura
do prazer que nos engendra sem querer,
e o prazer que nos DesteRRA!


Tradução: Claudio Daniel



DE PURO CALOR TENHO FRIO

De puro calor tenho frio
irmã Inveja!
Leões lambem minha sombra
e o rato me morde o nome,
mãe alma minha
À beira do fundo vou,
cunhado Vício!
A lagarta tange sua voz,
e a voz tange sua lagarta,
pai corpo meu!
Está de frente meu amor,
neta Pomba!
De joelhos, meu terror
e de cabeça, minha angustia,
mãe alma minha!
Até que um dia sem dois,
esposa Tumba,
meu último ferro ressoe
de uma víbora que dorme,
pai corpo meu!


ME VEM, HÁ DIAS, UMA VONTADE UBRRIMA, POLÍTICA...

Me vem, há dias, uma vontade ubérrima, política,
de querer, de beijar o carinho em seus dois rostos,
e me vem de longe um querer
demonstrativo, outro querer amar, de grau ou força,
ao que me odeia, ao que rasga seu papel, ao menino,
ao que chora pelo que chorava,
ao rei do vinho, ao escravo da água,
ao que ocultou-se em sua ira,
ao que sua, ao que passa, ao sacode sua pessoa em minha alma.
E quero, portanto, dar guarita
ao que me fala, à sua trança, aos seus cabelos, ao soldado;
Quero, pessoalmente, passar a ferro
o lenço do que não pode chorar
e, quando estou triste e me dói a sentença
remendar os enjeitados e os gênios.
Quero ajudar o bom a ser o seu pouquinho de mal
e me urge estar sentado
à direita do canhoto e responder ao mudo,
tratando de ser-lhe útil no
que posso e também quero muitíssimo
lavar os pés do coxo,
e ajudar o vesgo, meu próximo, a dormir.
Ah! querer, este meu, este, mundial,
inter-humano e paroquial, maduro!
Me vem no ponto,
desde as fundações, desde a virilha pública,
e, vindo de longe, dá vontade de beijar
o cachecol do cantor,
a frigideira do que sofre,
ao surdo em seu impávido rumor craniano;
ao que me dá o que esqueci em meu âmago,
em seu Dante, em seu Chaplin, em seus ombros.
E para terminar, quero,
quando estou à beira da célebre violência
ou pleno de peito o coração, queria
ajudar o que sorri a escarnecer,
por um passarinho bem na nuca do malvado,
Cuidar dos enfermos, enfadando-os,
comprar o vendedor,
ajudar a matar o matador - coisa terrível - 
e quisera ser bom comigo mesmo
em tudo.

 
Traduções: Antônio Moura.


sábado, 17 de agosto de 2013

OLIVERIO GIRONDO E NORAH LANGE


MAIS GIRONDO


NOITE TÓTEM

São os transfundos outros da in extremis médium
que é a noite ao entreabrir os ossos
as mitoformas outras
aliardidas presenças semimorfas
sotopausas, sossopros
da enchagada libido possessa
que é a noite sem vendas
são os grislumbres outros atrás esmeris pálpebras videntes
os atônitos gessos do imóvel ante o refluído
ferido interogante
que é a noite já lívida
são as crivadas vozes
as suburbanas veias de ausência de remansas omoplatas
as acrinsones dragas famintas do agora com seu limo de nada
os idos passos outros da incorpórea ubíqua também outra
escavando o incerto
que pode ser a morte com sua demente muleta solitária
e é a noite
e deserta

Tradução: Claudio Daniel

  
O UNO NENS

 O UNO    total menos
plenicorrupto nens consentido pelo zero
que ao ido tempo torna com suas catervas súcubos sexuais e
sua fauna de olvido

O uno eu   subânima
ainda que insepulto intacto sob suas multicriptas com transfundos
de arcadas
que autonutre seus ecos de sumo experto em nada
enquanto cresce abismo

O uno só   em um
rês do azar que se areja ante a noite em busca de seus limites
cães
e tornassol lambido por inúmeros podres se interchaga o obscuro
de seu eu todo uno
crucipendente só de si mesmo

 Tradução: Elson Fróes


A MESCLA

Não só
o fundo fofo
os ébrios leitos limos telúricos entre faróis seios
e seus líquens
não só o solicroo
as préfugas
o impar ido
o aonde
o tato incauto só
os acordes abismos dos órgãos sacros do orgasmo
o gosto o risco em botão
ao rito negro à alba com seu espreguiçar cheio de pardais
nem tampouco o regozo
os gemidinhos só
nem o fortuito dial senão
as autosondas em pleno plexo trópico
nem as ex-elas menos nem o endédalo
senão a viva mescla
a total mescla plena
a pura impura mescla que me reduz os erotimbres a
almamassa tensa as tontas fêmeas porcas
a mescla
sim
a mescla com que aderi minhas pontes

Tradução: Elson Fróes e Claudio Daniel

  
TRANSUMOS

AS VERTENTES as órbitas tem perdido a terra os espelhos
os braços os mortos as amarras
o olvido sua máscara de tapir não vidente
o gosto o gosto o leito seus engendros o fumo cada dedo
as flutuantes paredes donde amanhece o vinho as raízes a
frente todo canto rodado
sua corola seus músculos os tecidos os vasos o desejo os sumos que
fermenta a espera
as campinas as encostas os transonhos os hóspedes
seus favos o núbil os prados as crinas a chuva as pupilas
seu fanal o destino
mas a lua intacta é um lago de seios que se banham tomados
pela mão


Tradução: Elson Fróes e Claudio Daniel


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

GALERIA: OLIVERIO GIRONDO


OLIVERIO GIRONDO, O POETA DO TRÁGICO PARADOXO


Claudio Daniel

Oliverio Girondo (1891-1967) foi um dos principais renovadores da poesia latino-americana do século XX, ao lado do peruano César Vallejo, do chileno Vicente Huidobro e do brasileiro Oswald de Andrade. Sua obra, que une a tradição da lírica espanhola às conquistas da vanguarda, a linguagem do homem comum à erudição do filólogo, o sentimento nacional à consciência cosmopolita, está situada na mesma zona de in­surgência do Modernismo de 1922, e sua leitura é um estímulo à descoberta de novas fronteiras para além da linguagem dita “poética”. No Brasil, no entanto, a obra de Girondo permaneceu inédita ao longo de setenta anos, um déficit que se deve, em parte, ao fato de o eixo São Paulo/Rio de Janeiro estar mais próximo de Paris e Nova York do que de Buenos Aires, Lima e Santiago. Esse isolamento cultural, apartheid entre a língua de Camões e a de Góngora, foi desafiado, no entanto, por alguns de nossos melhores poetas.

Mário de Andrade, em 1927/28, publicou, no Diário Nacional, uma série de artigos sobre literatura argentina, destacando Oliverio Girondo  e o grupo da revista Martín Fierro. Em seus artigos, Mário fez considerações sobre Veinte poemas para ser leídos en el tranvía, de Girondo, e reproduziu o poema Otro nocturno. Em 1943, Oswald de Andrade encontrou-se com seu colega argentino quando este visitava o Brasil, acompanhado por sua mulher, Norah Lange. Em Ponta de lança, Oswald cita Girondo como um dos "mosqueteiros de 22" e pondera: "Outro seria o panorama americano se conhecêssemos melhor as letras que  produzimos". Po­rém, somente a partir dos anos 70, quando Augusto e Haroldo de Campos publica­ram traduções de El puro no, Plexilio e Hay que buscarlo no nº 2 da revista Qorpo estranho que os jovens poetas brasileiros afinados com a vanguarda tomaram co­nhecimento da obra girondiana. Devemos citar também Jorge Schwartz, cujo livro Vanguarda e cosmopolitismo faz uma importante análise da obra do poeta; e Régis Bonvicino, que publicou em 1995 A pupila do zero, com a tradução na íntegra de En la masmédula, de Girondo — obra capital desse autor insólito.


Um poeta a bordo do século XX

Oliverio Girondo nasceu em 17 de agosto de 1891 em Buenos Aires. Seus pais, Juan Girondo e Josefa Uriburu, o levaram à Europa  pela primeira vez em 1900, para visitar a Exposição Universal, e nos anos seguintes o poeta fez parte de seus estudos no Liceu Louis le Grand (França) e no Epsom College (Inglaterra). De volta à terra natal, formou-se em Direito. Na juventude, Girondo leu, sobretudo, poetas franceses — Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud — e o nicaraguense Ruben Darío, que influenciou toda a moderna poesia de língua espanhola. Com um grupo de amigos, Gi­rondo criou, em 1911, a revista literária Comoedia, e quatro anos mais tarde sua peça La Madrasta (escrita em parceria com René Zapata Quesada)  estreou no Teatro Apolo, em Buenos Aires. Os jornais da época noticiavam, então, dois acontecimentos que agitavam a Europa: a eclosão da I Guerra Mundial e a repercussão do Manifesto futurista, de Marinetti, publicado em 1909 no jornal Figaro, que desencadeou, nos anos seguintes, diversos manifestos e tendências de vanguarda. Os poetas e intelectuais argentinos, que se reuniam nos bares e cafés para discutir as novas idéias estéticas, entusiasmados por autores como Blaise Cendrars, Max Jacob, Apollinaire, logo criaram um movimento: o ultraísmo, liderado então por Jorge Luis Borges. Surgiam revistas, como Proa e Martín Fierro, que divulgavam as propostas vanguardistas e revelavam os jovens autores. Sob a influência da "nova sensibilidade" dessa geração, Girondo escreveu Veinte poemas para ser leídos en el tranvía, publicado em 1922, em Argenteuil, França. O humor, a sensualidade e o exotismo das imagens cubistas predominam neste livro de impressões de viagens, que tem ecos de Blaise Cendrars e é contemporâneo de Trilce, de César Vallejo, e de Paulicéia desvairada, de Mário de Andrade. A abertura do poema Croquis na areia é uma boa amostra da técnica de colagem que Girondo utilizou nesse livro:


A manhã passeia na praia polvilhada de sol.
Braços.
Pernas amputadas.
Corpos que se reintegram.
Cabeças flutuantes de borracha.


É a época em que Eisenstein fazia experiências de montagem cinematográfica a partir do estudo dos ideogramas chineses, das colagens cubistas em pintura, do desenvolvimento de novas técnicas de fotografia e de peças musicais como A história do soldado, de Igor Stravinski. Mais adiante, o poema diz:
  
    Por oitenta centavos, os fotógrafos vendem os os corpos das mulheres que se banham. Há quiosques que  exploram a dramaticidade das ondas que se quebram. Criadas chocas. Sifões irascíveis, com extrato de mar. Rochas com peitos algosos  de marinheiros e corações pintados de esgrimista.

Este poema, como observou Jorge Schwartz em Vanguarda e cosmopolitismo, é um retrato crítico  do kitsch, do cartão-postal, do baedecker de turista, indicando, pela paródia, a banalidade do "belo" das imagens paradisíacas, convertidas em objetos de consumo. O mesmo enfoque se encontra nos romances de invenção de Oswald de Andrade e na poesia "pau-brasil", com os quais há notáveis semelhanças estilís­ticas.


O barroco e o simbolismo em Girondo

 Calcomanías (1925), o segundo livro de Girondo, retrata de modo carnavalizado a Espanha católica e agrária pré-guerra civil e é, segundo Schwartz, uma "declaração de independência" das letras argentinas. Cabe ressaltar, porém, que, apesar das influências francesas e do sarcasmo contra a ex-metrópole, Girondo permaneceu um herdeiro do barroco espanhol e, em particular, de Quevedo. O barroco está presente no exagero metafórico, na mescla de palavras cultas e chulas, na retórica transbordante, nas imagens a la Goya e no tom picaresco. O retrato do quotidiano em Calcomanías mescla realismo e humor, como nessas passagens de Calle de las sierpes: “Cobertos em suas capas, como toureiros, / os padres entram nas barbearias / a embelezar-se em quatrocentos espelhos por vez / e quando saem às ruas já têm uma barba de três dias. (...) A cada duzentos e quarenta e sete homens, / trezentos e doze padres / e duzentos e noventa e três soldados / passa uma mulher”.

Espantapájaros (1932) é uma obra singular da primeira fase de Girondo. O livro é constituído de poemas em prosa, numerados, sem uma sequência narrativa, enfocando basicamente o amor, a morte e o anseio de fuga, de "transmigrar", numa linguagem que só raramente, no caligrama-prefácio, nos jogos paronomásicos, no cultismo polifônico, lembra o Girondo posterior, do experimentalismo construtivo. Espantapájaros reflete também a influência de dois poemas em prosa da literatura maudite francesa: Une saison en enfer, de Rimbaud, e Les chants de Maldoror, de Lautréamont. (Nesta mesma linha, aliás, se insere Temblor de cielo, publicado em 1931 pelo chileno Vicente Huidobro.) Citaremos, como ilustração, um fragmento:

     Que tua família se divirta em deformar teu esqueleto para que os espelhos, ao mirar-te, se suicidem de repugnância; que teu único  entretenimento consista em instalar-te na sala de espera dos dentistas, disfarçado de crocodilo, e que te apaixones tão loucamente por uma caixa de ferro que não possas deixar, nem um só instante, de lamber-lhe a fechadura.

Interlúnio (l937) é o final tranqüilo da primeira fase de Girondo, marcado pelo oti­mismo inicial do século XX, a era das máquinas, das invenções e da utopia socialis­ta. Não era apenas a estética que os vanguardistas pretendiam transformar, mas a sociedade e o próprio homem. Como assinalou Mário Faustino em Poesia-experiência, o sonho da modernidade era unir o "mudar a vida" de Rimbaud ao "mudar o mundo" de Marx e, para isso, eram necessários novos meios de expres­são. Em Girondo, esse otimismo é manifestado sobretudo pela idéia de solidarie­dade, como notou Enrique Molina (Hacia el fuego central, em Obras de Oliverio Gi­rondo). O desejo de identificação com o mundo é uma das características básicas da poesia moderna, antecipado em Leaves of grass, de Whitman, e teve resso­nâncias em poetas tão diversos como Drummond, Neruda e Maiakóvski. O otimismo dos anos 20, porém, foi abalado pelos desvios da Revolução Russa, em especial após a ascen­são de Stalin, pelo surgimento do nazifascismo, pelo crash da Bolsa de Nova York, e entrou em colapso com a II Guerra Mundial.Persuasión de los días (l942) é, por essa razão, uma obra de ruptura e o começo de uma nova fase.


A geometria da composição

Conforme Enrique Molina, "já não são agora os movimentos e os significados do sonho e a imaginação que se impõem, mas um sentimento de náusea. (...) A visão de um mundo degradado pela miséria social e pela miséria de espírito". A poesia de Girondo torna-se mais concisa, com imagens exatas, sonoridades raras e uma preocupação geométrica com a arquitetura do poema. As influências iniciais, do cubismo e do surrealismo, parecem ceder lugar a um construtivismo a la Maliévitch. Nesta obra o poeta conserva o tom coloquial, retórico — e colérico — de sua prosódia, em brados de protesto como Es la baba e Azotadme!, poemas que foram escritos para ser lidos em voz alta, como A plenos pulmões, de Maiakóvski. A visão atormentada do poeta, sua solidão e o sentimento de impotência frente aos fatos do mundo têm como poema-símbolo a composição Areia: “De areia o horizonte. / O destino de areia. / De areia os caminhos. / O cansaço de areia. / De areia as palavras. / O silêncio de areia.”

Persuasión de los días, com toda sua beleza e ousadia, é apenas o prelúdio à re­volução de En la masmédula (1954-56), a obra culminante de Girondo, em que seu experimentalismo radical se aproxima da prosa de James Joyce e da poesia concre­ta dos anos 50 num mesmo grau de radioatividade poética. A estranheza da obra começa pelo título: o que é "masmédula"? Não é fácil saber, em se tratando de um autor que fazia do paradoxo o seu método. Nesse livro desconcertante, agressivo, cheio de energia e plasticidade, Girondo utiliza um arsenal linguístico que o coloca entre os maiores inventores de poesia em língua espanhola. O livro, gravado em LP nos anos 60 por Arturo Cuadrado e Carlos A. Mazzanti, é um dos emblemas do trágico paradoxo da América Latina que, exportadora de matérias-primas e importadora de manufaturados, produz, apesar disso, alta tecnologia poética.

En la masmédula é um labirinto, ou, para citar uma imagem borgeana, uma série infinita de labirintos, em que a linguagem é levada a seus limites, rompendo barrei­ras do próprio idioma e da dicção. Esta obra não pode ser vista apenas como o re­sultado de equações estético-formais; trata-se de um longo monólogo, dividido em fragmentos, cujo centro temático é a viagem — não o deslocamento geográfico-es­pacial, mas a jornada interior rumo às entranhas da melancolia e dos pesadelos de um homem fatigado pelos dissabores da existência. Neste sentido, o paralelo possí­vel é com oEscaravelho de Ouro, de Oswald de Andrade, e com a filosofia de Sartre e Camus.

Girondo passou os últimos anos de sua vida ao lado da mulher, Norah Lange. Após conhecer a Europa, os Estados Unidos e Oriente Médio, passou a viajar com mais freqüência pela América Latina, tendo se encontrado com Pablo Neruda, no Chile, e com Oswald de Andrade, no Brasil. A pintura foi sua grande paixão. Em sua juventude, escreveu um ensaio, Pintura moderna, em que fez o elogio de Cézanne, Picasso, Matisse. Pouco antes de morrer, pintava quadros de inspiração surrealista. O cronópio Oliverio Gi­rondo — aristocrata esnobe, homem bem-humorado, provocador e ferino, morreu em 24 de janeiro de 1967, aos 76 anos, em Buenos Aires.

POEMAS DE OLIVERIO GIRONDO


REBELIÃO DE VOCÁBULOS

De repente, sem motivo:
grasnido, palaciano,
carrancudo, micróbio,
padre-nosso, vitupério,
seguidos de: incolor,
bissexto, tegumento,
eqüestre, Marco Polo,
zambro, complexo;
depois de: somormujo,
garanhão, reincidente,
herbívoro, profuso,
ambidestro, relevo;
rodeados de: Afrodite,
núbil, ovo, ocarina,
incruento, escambal,
diametral, pêlo fonte;
em meio de: fraldas,
Flávio Lácio, penates,
laranjal, nigromante,
semibreve, sevícia;
entre: corvo, cornija,
imberbe, garatuja,
parasito, ameado,
tresloucado, equilátero;
em torno de: nefando,
hierofante, goiabeira,
espantalho, confrade,
espiral, mendicante;
enquanto chegam: incólume,
falaz, ritmo, emplasto,
cliptodonte, ressaibo,
fogo-fátuo, arquivado;
e se aproximam: macabra,
cornamusa, heresiarca,
malandro, chamariz,
artimanha, epiceno;
no mesmo instante que
castálico, invólucro,
chama sexo, estertóreo,
zodiacal, disparate;
junto à serpente... não quero!
Eu resisto. Eu recuso.
Os que seguem vindo
hão de achar-se adentro.


GRISTENIA
  
NOCTIVOZMUSGO insone
de mim a mim refluido para o gris já deserto tão duna
    evidência
gorgogotejando nãos que preulceram o pensar
contra as sempre contras da pós-náusea obesa
tão plurinterroído por noctívagos eus em rompante ante
    a garganta angústia
com seu sonhar rodado de oco sino dado de dado já tão dado
e seu eu só escuro de poço lodo adentro e microcosmo tinto
    para a total gristenia


AS PORTAS

Absorto tédio aberto
ante a fossanoite inululada
que em seca greta aberta subsorri seu mais acre recato
aberto insisto insone a tantas mortenazes de incensosom
revôo
até um destempo imóvel de tão já amargas mãos
aberto ao eco cruento por costume de pulso não digo mal
por mero nímio  glóbulo aberto ante o estranho
que em voraz queda enferruja circunrrói as costas parietais
abertas ao murmúrio da má sombra

enquanto se abrem as portas

MITO

Mito
mito meu
acorde de lua sem pijama
embora me firam teus psíquicos espinhos
mulher pescada pouco antes da morte
aspirosorvo até o delírio tuas magnólias calefacionadas
quanto decoro teu luxuosíssimo esqueleto
todos os acidentes de tua topografia
enquanto declino em qualquer tempo
tuas titilações mais secretas
ao precipitar-te
entre relâmpagos
nos tubos de ensaio de minhas veias


DESTINO

E PARA CÁ OU ALÉM
e desde aqui outra vez
e volta a  ir de volta e sem alento
e do princípio ou término do precipício íntimo
até o extremo ou meio ou ressurrecto resto de este ou aquele
ou do oposto
e roda que te rói até o encontro
e aqui tampouco está
e desde acima abaixo e desde abaixo acima ávido asqueado
por viver entre ossos
ou do perpétuo estéril desencontro
ao demais
de mais
ou ao recomeço espesso de cerdos contratempos e destempos
quando não a bordo senão de algum complexo herniado em pleno
vôo
cálido ou gelado
e volta e volta
a tanta terça turca
para entregar-se inteiro ou de três quartos
farto já de metades
e de quartos
ao entrevero exausto dos leitos desfeitos
ou dar-se noite e dia sem descanso contra todos os nervos do
mistério
do além
daqui
enquanto se resta quieto ante o fugaz aspecto sempiterno do
aparente ou do suposto
e volta e volta fundido até o pescoço
com todos os sentidos sem sentido
no sufocotédio
com unhas e com idéias e poros
e porque sim não mais


Traduções: Claudio Daniel 

domingo, 11 de agosto de 2013

ZUNÁI, 10 ANOS


Zunái, Revista de Poesia e Debates, comemora dez anos de guerrilha virtual no ciberespaço. Criada em 2003 por Rodrigo de Souza Leão (1965-2009), Ana Peluso e por mim (Mariza Lourenço entrou mais tarde na equipe), a revista teve 26 edições eletrônicas e publicou alguns dos mais expressivos nomes da poesia, do teatro, do romance, do ensaio e das artes visuais brasileiras. Estiveram presentes, nas páginas da Zunái, autores como Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Arnaldo Antunes, Armando Freitas Filho, Josely Vianna Baptista, Claudia Roquette-Pinto, Gerald Thomas, Wilson Bueno, Evandro Affonso Ferreira, Nelson de Oliveira, Luiz Costa Lima, João Alexandre Barbosa, Regina Silveira, Leda Catunda e Guto Lacaz, para citarmos poucos nomes. Desde o início, a revista assumiu uma posição de voluntária parcialidade crítica (seguindo a lição de Baudelaire), exteriorizando os seus critérios de escolha e interferindo de maneira criteriosa no cenário cultural brasileiro, sem fazer concessões a estéticas mumificadas. Zunái assumiu o compromisso de publicar trabalhos de maior inventividade formal, em campos como o da poesia visual, da poesia sonora, da poesia digital, do texto poético experimental, sem filiar-se, porém, a nenhuma tendência literária específica, a nenhum programa normativo redutor: sua vocação é a de ampliar diferentes graus de ruído e dissonância, para desafinar a melodia única dos contentes. Esta pluralidade de radicalismos possíveis se manifestou em nosso interesse pela poesia neobarroca de José Kozer, Reynaldo Jiménez, Victor Sosa, León Félix Batista, mas também pelo minimalismo de André Dick e Virna Teixeira e pela escrita inclassificável de Jean Paul Michel, Edmond Jabès, Contador Borges, Abreu Paxe, Antônio Moura e Erin Moure. 

Nossa representação geométrica sempre foi o círculo, dentro do qual se movimentam infinitas linhas concêntricas, aproximando-se, distanciando-se, provocando colisões, ruídos e atritos criativos, em constante ebulição e metamorfose. A Zunái sempre se recusou a fazer um mapeamento convencional da poesia brasileira – tarefa sempre incompleta e efêmera das revistas e antologias – mas, ao contrário, optou por iluminar autores que ficaram à margem do cânone rumoroso promovido pela mídia, organizado por critérios poucas vezes éticos ou estéticos. Publicamos autores jovens de violenta novidade formal e temática, que estão entre as vozes mais consistentes da novíssima poesia, como Adriana Zapparoli, Jonatas Onofre, Andréia Carvalho, Daniel Faria, Diogo Cardoso, Marceli Andresa Becker, entre outros, que trazem propostas de desestruturação da lírica coloquial-cotidiana do Modernismo (tão incensada por críticos midiáticos que nada sabem de poesia) e de reorquestração das palavras e frases em múltiplas outras combinações, ampliando o léxico, renovando a sintaxe, dialogando com repertórios infrequentes, num sopro de renovação e desafio. Rompendo com o mimetismo colonizado das poéticas praticadas nos grandes centros financeiros, Zunáiestabeleceu novas parcerias, divulgando poetas de Angola, Moçambique, África do Sul, Macau, Síria, Cuba, México, Peru, República Dominicana, Venezuela, entre outras nações de poesia. O link Galeria publicou mostras virtuais de alguns dos mais conceituados artistas visuais brasileiros, como Regina Silveira, Guto Lacaz, Leda Catunda, Elida Tessler, Nino Cais e Eduardo Frota, enquanto o link de matérias especiais enfocou temas culturais mais amplos, envolvendo diferentes linguagens artísticas, como o teatro de Gerald Thomas, o cinema de Werner Herzog e Peter Greenaway, a prosa de Wilson Bueno, os 50 anos da Poesia Concreta e o debate sobre a crítica literária brasileira, em textos como Muito além da academídia: poesia brasileira hoje, de Rodrigo Garcia Lopes, e Pensando a poesia brasileira em cinco atos, de Claudio Daniel. 

Os editores de Zunái nunca tiveram o propósito de estabelecer ou defender uma suposta “estética única”, o que pode ser verificado facilmente na própria revista, onde publicamos desde haicais e poemas sonoros até composições concretistas e surrealistas; a inovação, para nós, nunca foi rua de mão única ou questão teológica ou metafísica. O que recusamos no ecletismo nunca foi a diversidade, mas a concessão sem critérios a estéticas frágeis, que não apresentam nenhuma novidade temática ou formal. A defesa intransigente da pesquisa estética, do experimentalismo, da inovação, em nenhum momento foi entendido por nós como nova torre de marfim, alheia aos acontecimentos no mundo – muito ao contrário. O design da capa da Zunái foi criado por Ana Peluso e por mim com o propósito de representar o conflito entre barbárie e cultura: oslinks, dispostos de maneira circular, incorporaram imagens de obras de arte da Antiguidade do Museu Nacional de Cabul, destruídas pelo Talebã sob a acusação de paganismo e idolatria. Na página do Expediente da revista, inserimos a imagem de uma obra de arte desaparecida do Museu de Bagdá, saqueado com a cumplicidade das tropas de ocupação norte-americanas. Zunái sempre se posicionou contra as guerras de rapina do império estadunidense no Oriente Médio e criou, no link Opinião, os Cadernos da Palestina, onde publicamos regularmente textos e fotos de denúncia da ocupação ilegal dos territórios palestinos pela entidade sionista. Durante o Fórum Social Mundial Palestina Livre, ocorrido em 2012, em Porto Alegre, Zunái esteve presente e distribuiu a plaquete Poemas para a Palestina, com peças escritas por autores como Glauco Mattoso, Marcelo Ariel, Lígia Dabul, Andréia Carvalho, Nina Rizzi, entre outros poetas brasileiros e portugueses. A revista também colaborou na organização da exposição fotográfica dedicada aos 30 anos do massacre de Sabra e Chatila, exposta no mesmo ano na Biblioteca Alceu Amoroso Lima. 

Zunái sempre acreditou que o engajamento estético não se opõe ao engajamento político, mas, ao contrário, é a sua contraparte dialética, como bem sabia André Breton, ao propor unir o “mudar a vida” de Rimbaud ao “mudar o mundo” de Marx (equação em que está implícita o “mudar a arte” de Lautréamont). O aniversário de dez anos da revista será comemorado com o recital organizado pelo poeta Rubens Jardim, no dia 30 de agosto, na Casa das Rosas, que contará com a participação de Frederico Barbosa, Claudio Willer, Alfredo Fressia, E. M. de Melo e Castro, Abreu Paxe, Nydia Bonetti, Andréia Carvalho, Edson Cruz, Luiz Ariston, Edson Bueno de Carvalho, Diogo Cardoso e Fabrício Slaviero. Uma festa de poesia. No final do ano, será publicada também uma versão impressa – um número único, com miniantologia de poemas e textos em prosa publicados na revista entre 2003 e 2013, aguardem!

P.S.: sobre a nova versão eletrônica da revista, leiam um post mais abaixo.