sexta-feira, 16 de agosto de 2013

POEMAS DE OLIVERIO GIRONDO


REBELIÃO DE VOCÁBULOS

De repente, sem motivo:
grasnido, palaciano,
carrancudo, micróbio,
padre-nosso, vitupério,
seguidos de: incolor,
bissexto, tegumento,
eqüestre, Marco Polo,
zambro, complexo;
depois de: somormujo,
garanhão, reincidente,
herbívoro, profuso,
ambidestro, relevo;
rodeados de: Afrodite,
núbil, ovo, ocarina,
incruento, escambal,
diametral, pêlo fonte;
em meio de: fraldas,
Flávio Lácio, penates,
laranjal, nigromante,
semibreve, sevícia;
entre: corvo, cornija,
imberbe, garatuja,
parasito, ameado,
tresloucado, equilátero;
em torno de: nefando,
hierofante, goiabeira,
espantalho, confrade,
espiral, mendicante;
enquanto chegam: incólume,
falaz, ritmo, emplasto,
cliptodonte, ressaibo,
fogo-fátuo, arquivado;
e se aproximam: macabra,
cornamusa, heresiarca,
malandro, chamariz,
artimanha, epiceno;
no mesmo instante que
castálico, invólucro,
chama sexo, estertóreo,
zodiacal, disparate;
junto à serpente... não quero!
Eu resisto. Eu recuso.
Os que seguem vindo
hão de achar-se adentro.


GRISTENIA
  
NOCTIVOZMUSGO insone
de mim a mim refluido para o gris já deserto tão duna
    evidência
gorgogotejando nãos que preulceram o pensar
contra as sempre contras da pós-náusea obesa
tão plurinterroído por noctívagos eus em rompante ante
    a garganta angústia
com seu sonhar rodado de oco sino dado de dado já tão dado
e seu eu só escuro de poço lodo adentro e microcosmo tinto
    para a total gristenia


AS PORTAS

Absorto tédio aberto
ante a fossanoite inululada
que em seca greta aberta subsorri seu mais acre recato
aberto insisto insone a tantas mortenazes de incensosom
revôo
até um destempo imóvel de tão já amargas mãos
aberto ao eco cruento por costume de pulso não digo mal
por mero nímio  glóbulo aberto ante o estranho
que em voraz queda enferruja circunrrói as costas parietais
abertas ao murmúrio da má sombra

enquanto se abrem as portas

MITO

Mito
mito meu
acorde de lua sem pijama
embora me firam teus psíquicos espinhos
mulher pescada pouco antes da morte
aspirosorvo até o delírio tuas magnólias calefacionadas
quanto decoro teu luxuosíssimo esqueleto
todos os acidentes de tua topografia
enquanto declino em qualquer tempo
tuas titilações mais secretas
ao precipitar-te
entre relâmpagos
nos tubos de ensaio de minhas veias


DESTINO

E PARA CÁ OU ALÉM
e desde aqui outra vez
e volta a  ir de volta e sem alento
e do princípio ou término do precipício íntimo
até o extremo ou meio ou ressurrecto resto de este ou aquele
ou do oposto
e roda que te rói até o encontro
e aqui tampouco está
e desde acima abaixo e desde abaixo acima ávido asqueado
por viver entre ossos
ou do perpétuo estéril desencontro
ao demais
de mais
ou ao recomeço espesso de cerdos contratempos e destempos
quando não a bordo senão de algum complexo herniado em pleno
vôo
cálido ou gelado
e volta e volta
a tanta terça turca
para entregar-se inteiro ou de três quartos
farto já de metades
e de quartos
ao entrevero exausto dos leitos desfeitos
ou dar-se noite e dia sem descanso contra todos os nervos do
mistério
do além
daqui
enquanto se resta quieto ante o fugaz aspecto sempiterno do
aparente ou do suposto
e volta e volta fundido até o pescoço
com todos os sentidos sem sentido
no sufocotédio
com unhas e com idéias e poros
e porque sim não mais


Traduções: Claudio Daniel 

domingo, 11 de agosto de 2013

ZUNÁI, 10 ANOS


Zunái, Revista de Poesia e Debates, comemora dez anos de guerrilha virtual no ciberespaço. Criada em 2003 por Rodrigo de Souza Leão (1965-2009), Ana Peluso e por mim (Mariza Lourenço entrou mais tarde na equipe), a revista teve 26 edições eletrônicas e publicou alguns dos mais expressivos nomes da poesia, do teatro, do romance, do ensaio e das artes visuais brasileiras. Estiveram presentes, nas páginas da Zunái, autores como Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Arnaldo Antunes, Armando Freitas Filho, Josely Vianna Baptista, Claudia Roquette-Pinto, Gerald Thomas, Wilson Bueno, Evandro Affonso Ferreira, Nelson de Oliveira, Luiz Costa Lima, João Alexandre Barbosa, Regina Silveira, Leda Catunda e Guto Lacaz, para citarmos poucos nomes. Desde o início, a revista assumiu uma posição de voluntária parcialidade crítica (seguindo a lição de Baudelaire), exteriorizando os seus critérios de escolha e interferindo de maneira criteriosa no cenário cultural brasileiro, sem fazer concessões a estéticas mumificadas. Zunái assumiu o compromisso de publicar trabalhos de maior inventividade formal, em campos como o da poesia visual, da poesia sonora, da poesia digital, do texto poético experimental, sem filiar-se, porém, a nenhuma tendência literária específica, a nenhum programa normativo redutor: sua vocação é a de ampliar diferentes graus de ruído e dissonância, para desafinar a melodia única dos contentes. Esta pluralidade de radicalismos possíveis se manifestou em nosso interesse pela poesia neobarroca de José Kozer, Reynaldo Jiménez, Victor Sosa, León Félix Batista, mas também pelo minimalismo de André Dick e Virna Teixeira e pela escrita inclassificável de Jean Paul Michel, Edmond Jabès, Contador Borges, Abreu Paxe, Antônio Moura e Erin Moure. 

Nossa representação geométrica sempre foi o círculo, dentro do qual se movimentam infinitas linhas concêntricas, aproximando-se, distanciando-se, provocando colisões, ruídos e atritos criativos, em constante ebulição e metamorfose. A Zunái sempre se recusou a fazer um mapeamento convencional da poesia brasileira – tarefa sempre incompleta e efêmera das revistas e antologias – mas, ao contrário, optou por iluminar autores que ficaram à margem do cânone rumoroso promovido pela mídia, organizado por critérios poucas vezes éticos ou estéticos. Publicamos autores jovens de violenta novidade formal e temática, que estão entre as vozes mais consistentes da novíssima poesia, como Adriana Zapparoli, Jonatas Onofre, Andréia Carvalho, Daniel Faria, Diogo Cardoso, Marceli Andresa Becker, entre outros, que trazem propostas de desestruturação da lírica coloquial-cotidiana do Modernismo (tão incensada por críticos midiáticos que nada sabem de poesia) e de reorquestração das palavras e frases em múltiplas outras combinações, ampliando o léxico, renovando a sintaxe, dialogando com repertórios infrequentes, num sopro de renovação e desafio. Rompendo com o mimetismo colonizado das poéticas praticadas nos grandes centros financeiros, Zunáiestabeleceu novas parcerias, divulgando poetas de Angola, Moçambique, África do Sul, Macau, Síria, Cuba, México, Peru, República Dominicana, Venezuela, entre outras nações de poesia. O link Galeria publicou mostras virtuais de alguns dos mais conceituados artistas visuais brasileiros, como Regina Silveira, Guto Lacaz, Leda Catunda, Elida Tessler, Nino Cais e Eduardo Frota, enquanto o link de matérias especiais enfocou temas culturais mais amplos, envolvendo diferentes linguagens artísticas, como o teatro de Gerald Thomas, o cinema de Werner Herzog e Peter Greenaway, a prosa de Wilson Bueno, os 50 anos da Poesia Concreta e o debate sobre a crítica literária brasileira, em textos como Muito além da academídia: poesia brasileira hoje, de Rodrigo Garcia Lopes, e Pensando a poesia brasileira em cinco atos, de Claudio Daniel. 

Os editores de Zunái nunca tiveram o propósito de estabelecer ou defender uma suposta “estética única”, o que pode ser verificado facilmente na própria revista, onde publicamos desde haicais e poemas sonoros até composições concretistas e surrealistas; a inovação, para nós, nunca foi rua de mão única ou questão teológica ou metafísica. O que recusamos no ecletismo nunca foi a diversidade, mas a concessão sem critérios a estéticas frágeis, que não apresentam nenhuma novidade temática ou formal. A defesa intransigente da pesquisa estética, do experimentalismo, da inovação, em nenhum momento foi entendido por nós como nova torre de marfim, alheia aos acontecimentos no mundo – muito ao contrário. O design da capa da Zunái foi criado por Ana Peluso e por mim com o propósito de representar o conflito entre barbárie e cultura: oslinks, dispostos de maneira circular, incorporaram imagens de obras de arte da Antiguidade do Museu Nacional de Cabul, destruídas pelo Talebã sob a acusação de paganismo e idolatria. Na página do Expediente da revista, inserimos a imagem de uma obra de arte desaparecida do Museu de Bagdá, saqueado com a cumplicidade das tropas de ocupação norte-americanas. Zunái sempre se posicionou contra as guerras de rapina do império estadunidense no Oriente Médio e criou, no link Opinião, os Cadernos da Palestina, onde publicamos regularmente textos e fotos de denúncia da ocupação ilegal dos territórios palestinos pela entidade sionista. Durante o Fórum Social Mundial Palestina Livre, ocorrido em 2012, em Porto Alegre, Zunái esteve presente e distribuiu a plaquete Poemas para a Palestina, com peças escritas por autores como Glauco Mattoso, Marcelo Ariel, Lígia Dabul, Andréia Carvalho, Nina Rizzi, entre outros poetas brasileiros e portugueses. A revista também colaborou na organização da exposição fotográfica dedicada aos 30 anos do massacre de Sabra e Chatila, exposta no mesmo ano na Biblioteca Alceu Amoroso Lima. 

Zunái sempre acreditou que o engajamento estético não se opõe ao engajamento político, mas, ao contrário, é a sua contraparte dialética, como bem sabia André Breton, ao propor unir o “mudar a vida” de Rimbaud ao “mudar o mundo” de Marx (equação em que está implícita o “mudar a arte” de Lautréamont). O aniversário de dez anos da revista será comemorado com o recital organizado pelo poeta Rubens Jardim, no dia 30 de agosto, na Casa das Rosas, que contará com a participação de Frederico Barbosa, Claudio Willer, Alfredo Fressia, E. M. de Melo e Castro, Abreu Paxe, Nydia Bonetti, Andréia Carvalho, Edson Cruz, Luiz Ariston, Edson Bueno de Carvalho, Diogo Cardoso e Fabrício Slaviero. Uma festa de poesia. No final do ano, será publicada também uma versão impressa – um número único, com miniantologia de poemas e textos em prosa publicados na revista entre 2003 e 2013, aguardem!

P.S.: sobre a nova versão eletrônica da revista, leiam um post mais abaixo.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

RETRATO DO ARTISTA



O REINO DAS PALAVRAS DE CONTADOR BORGES

Contador Borges é um poeta que conversa com a filosofia, o teatro, o surrealismo, o barroco e a tradição libertina, realizando uma síntese criativa que torna a sua escrita poética inclassificável, conforme os rótulos disponíveis nos escaninhos da crítica literária. Seu livro de estreia, Angelolatria, publicado em 1997, já revela uma voz singular, em versos de estranha plasticidade como estes, do poema Falanges: “Nuas se estiram / Em direção ao mar / De palavras. Trevas / Bordam as margens. // Da luz que se esvai / Entre os dedos”, ou ainda nestas linhas de Máscaras: “Corre um olho invisível / Por dentro / De cada palavra que sonha / Sair da máscara / Como um sonho de larva”. Há nesse livro vestígios da lírica visionária do simbolismo (tão mal compreendido em nossa literatura) e da estética surreal, mas também dos jogos conceituais e semânticos do barroco e das experiências construtivistas, na fragmentação e espacialização de palavras e linhas que desarticulam o verso e a lógica discursiva linear. Um poema notável pela concepção estrutural é Leviandades da luz, formado por 47 frases curtas autônomas, separadas por asteriscos e entrealinhamentos, à maneira de enigmas oraculares ou definições absurdas: “Luzes camicases invadem a página. / O branco quer mácula. / Error na fração do sentido. / Lavar diariamente os miasmas da palavra amor”. 
Se nas composições lúdicas de Angelolatria o poeta trabalha, se não com o verso (unidade melódico-rítmica do poema, que pressupõe a métrica e a rima, ou, no caso do verso livre, melodia e sintaxe), ao menos com linhas de alta densidade semântica, no livro seguinte, O reino da pele, publicado em, 2002, a própria distinção entre prosa e poesia é dissolvida, anulada no jogo inventivo da linguagem. Tudo é poesia, parece dizer Contador Borges, ou ainda, seguindo o conceito de Jakobson, função poética, o jogo prazeroso das palavras, tiradas de sua banalidade cotidiana, de sua missão rotineira de apenas nomear coisas, para se elevarem à condição de quase autonomia em relação aos significados. O poema se constrói como um universo próprio, uma realidade constituída de imagens, sons e conceitos unificados no tecido verbal.  O poeta, como sabia Huidobro, não se conforma ao retrato ingênuo das referências externas, mas cria, ele próprio, uma realidade nova, insólita, desafiadora. Este é o caso de Contador Borges, “antipoeta e mago”, arquiteto de alucinações.

O reino da pele é dividido em três seções, por onde se movimentam, de maneira aparentemente caótica, três motivos condutores: o Corpo, o Tempo e a Morte. A princípio, a gravidade dos temas e a lembrança da formação do poeta, doutor em Filosofia, poderiam indicar vocação metafísica; certamente, não é possível excluir essa leitura, mas não é a única, nem mesmo a principal. Se “a arte nunca é a verdade”, como disse Eduardo Milán, temos aqui um conteúdo que se constrói e ressoa na própria pele do poemário, em suas inusitadas relações entre os vocábulos. Algumas palavras repetem-se, obsessivas, ao longo da obra, como olho, pálpebra, luz, sugerindo o olhar do poeta sobre as coisas. Não se trata, porém, de mero registro fotográfico, e sim de um olhar que modifica e transforma os objetos, recriando atmosferas, ambientes e personagens dramáticos. Outros motes obsessivos são a nudez, o fogo e a cinza, símbolos do percurso de nossa efêmera jornada: “Os olhos sabem que vão morrer / no cone abismal da leitura. Mas não há fundo / na realidade das conchas. Seu esqueleto sonoro / talvez contenha o segredo da morte”.  Podemos encarar este ciclo de prosas poéticas como pequenas narrativas interligadas, onde os personagens são idéias que se movimentam de maneira imprevista, fora de limites definidos de Espaço-Tempo e sem trama ficcional.  O jogo poético, o teatro de marionetes da existência, é o que flui nesse desdobramento semântico, em que as metáforas sucessivas, corroendo, ocultando ou ampliando possíveis significados (insinuando a suposição de não haver mais significados) fazem da poesia um ícone de nossa própria orfandade espiritual, num mundo sem utopias, regido pela loucura luciferina do mercado e da mídia.
Todas estas definições podem ser estendidas também ao livro A morte dos olhos, publicado em 2007, talvez o trabalho mais sinestésico e sensorial de Contador Borges. A “morte dos olhos” é uma belíssima e indecifrável metáfora, que parece indicar a amplificação de todos os outros sentidos (como acontece na cegueira): “Pele sobre pele, atol / de ossos, / os dedos a toque de caixa / torácica, / tambor erótico: quando soa / o êxtase / em pele de tigre”. A eroticidade da escrita de Contador Borges não surpreende, dado o seu interesse por Bataille e seu trabalho de pesquisador e tradutor da obra do Marquês de Sade. O universo de sensações do corpo é traduzido na alquimia do verbo, em que as palavras assumem a condição de realidades materiais, “com sua própria fauna e flora”, para citarmos novamente Huidobro. A cicatriz de Marilyn Monroe, publicado em 2012, inaugura uma nova fase criativa do poeta. O livro é construído como se fosse uma peça de teatro em um ato, dividida em onze cenas, escritas em prosa, narradas em primeira pessoa, antecedidas por planos de ação, escritas em letras maiúsculas. É o livro mais experimental de Contador Borges, em que a imagem da cicatriz recorda a metáfora neobarroca da incisão, corte ou talhe, que recorta a nudez da pele, assim como a grafia viola o espaço em branco do papel. A cicatriz é também um elemento do grotesco, do “belo horrível”, bem ao gosto de Goya ou El Grecco. Ou ainda, como diz o próprio poeta: “A beleza é o começo do terror que somos capazes de suportar, nos diz a primeira das elegias escritas por Rilke no castelo de Duíno. Quando de algum modo o corpo se deforma, ultrapassamos este limite”.    

(Artigo publicado na edição de agosto da revista CULT)

terça-feira, 6 de agosto de 2013

ZUNÁI, 10 ANOS





A REVISTA ZUNÁI comemora dez anos de existência em 2013. Para comemorar a data, criamos um novo lay out e endereço eletrônico (http://revistazunai.tumblr.com/) para a edição especial de agosto, que tem uma nova integrante na equipe: Andréia Carvalho, editora de multimídia (a logomarca foi criada por Gabriel Rezende). Zunái é uma publicação comprometida com a inovação estética e temática e com a “batalha das ideias”, divulgando o que há de mais experimental e perturbador na literatura e no cenário cultural brasileiro. Nesta edição da revista, apresentamos aos leitores uma entrevista com o poeta, editor e ativista cultural paranaense Ricardo Corona, textos em prosa de Marcelo Mirisola, João Anzanello Carrascoza e Mário Bortolotto, ensaio fotográfico de Kleide Teixeira, poemas de Samuel Beckett, José Kozer, Heiner Muller, Jair Cortès, Reynaldo Jiménez, Victor Sosa, Abreu Paxe, Rodrigo Garcia Lopes,  Luís Costa, Chiu Yi Chih, Jorge Lúcio de Campos, Thiago Ponce de Moraes, Vicente Franz Cecim, Jonatas Onofre, Líria Porto, Daniel Faria e Diogo Cardoso. No link Especiais, Zunái publica cartas de Pedro Xisto ao poeta português E. M. de Melo e Castro.

No dia 30 de agosto, às 18h30, a festa continua com um recital dedicado aos dez anos da revista na Casa das Rosas, organizado pelo poeta Rubens Jardim, com as presenças confirmadas de Claudio Willer, E. M. de Melo e Castro, Frederico Barbosa, Alfredo Fressia, Abreu Paxe, Nydia Bonetti, Andréia Carvalho, Edson Cruz, Edson Bueno de Carvalho, Andréa Catrópa, Luiz Ariston, Diogo Cardoso e Fabrício Slaviero.


Preço: Inefável; inconcebível.

Onde encontrar: no ciberespaço, essa “Gran Cualquierparte” (Vallejo).

domingo, 4 de agosto de 2013

O FORO DE SÃO PAULO E OS DESAFIOS DA ESQUERDA NA AMÉRICA LATINA



Claudio Daniel
  
O XIX Encontro do Foro de São Paulo aconteceu entre os dias 31 de julho e 04 de agosto na capital paulista e reuniu cerca de 1.300 delegados de 39 países, entre eles Cuba, Argentina, Brasil, Venezuela, Bolívia, Uruguai, Equador, Nicarágua e El Salvador, que formam um novo bloco político e econômico no continente, que luta para criar mecanismos de integração regional, de colaboração cultural e científica, de cooperação, solidariedade e resistência ao imperialismo. O novo bloco de esquerda na América Latina, iniciado entre 1998 e 2002 com as vitórias de Hugo Chávez na Venezuela e de Luís Inácio Lula da Silva no Brasil já obteve importantes conquistas, como a consolidação de organismos internacionais como a CELAC, a UNASUL, a ALBA e o Mercosul, que têm impulsionado diversas ações inovadoras, como os intercâmbios comerciais realizados sem o uso do dólar ou do euro como padrão monetário, as missões de médicos cubanos na Venezuela e em outros países do continente, a venda subsidiada de petróleo venezuelano aos países centro-americanos e a defesa conjunta que esses países fazem da soberania de Cuba, que até hoje sofre os efeitos nefastos do bloqueio norte-americano.

A existência de uma Nova América, que defende suas reservas de gás natural e de petróleo das companhias transnacionais, que recusa a tutela econômica do FMI, investe em tecnologia e defesa nacional, aumenta os gastos públicos em saúde, educação, segurança alimentar e na qualidade de vida de suas populações irrita profundamente o imperialismo norte-americano, que responde a essa contestação de sua hegemonia num território que julgava seu quintal de várias maneiras: patrocinando golpes de estado no Paraguai e em Honduras, criando bases militares na Colômbia, reabilitando a IV Frota, estimulando ações violentas de grupos fascistas na Venezuela, no Brasil e em outros países, promovendo intensa difamação dos governos e partidos de esquerda pelos meios de comunicação de massa (o Clarín na Argentina, Folha, Estado, Globo e Veja no Brasil etc.) e formando a Aliança do Pacífico, área de livre comercial similar ao projeto da Alca, formado por países que têm tratados de livre-comércio com os Estados Unidos, como é o caso do México, Chile (por enquanto), Colômbia e Peru.

O XIX Encontro do Foro de São Paulo acontece, portanto, num período em que o imperialismo norte-americano está em declínio, mas ao mesmo tempo age de forma agressiva, inclusive no campo militar, na tentativa desesperada de deter a sua inevitável decadência. No cenário internacional, registram-se as derrotas sofridas pelos Estados Unidos na Síria, onde o Exército Árabe Sírio impõe pesadas derrotas aos mercenários islâmicos, no Egito, onde foi derrubado o governo da Irmandade Muçulmana, pró-Ocidente, e na Coreia Popular, que manteve a cabeça erguida e conseguiu impedir a agressão norte-americana, deixando claro que tinha condições de responder duramente a qualquer agressão militar. No Irã, as coisas também não estão fáceis para os sionistas, que ameaçam constantemente o país persa mas se abstêm de atacá-lo, temendo a sua capacidade de dissuasão. No campo diplomático, fortalece-se a posição dos BRICs – Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul – que conseguiram, entre outras ações, vetar no Conselho de Segurança da ONU medidas que facilitassem uma escalada militar ocidental na Síria, tal como aconteceu na Líbia. Em suma: o imperialismo ainda tem garras e dentes afiados, mas não está conseguindo impor a sua vontade ao mundo, tal como fazia antes.

É nesse contexto internacional de declínio do império norte-americano e de crise da economia capitalista na Europa e nos Estados Unidos que o XIX Encontro do Foro de São Paulo debateu temas específicos de integração regional, com  objetivos de fortalecer a democracia com participação popular e justiça social no continente, a democratização da mídia, a superação da herança colonial, como a ocupação britânica nas Ilhas Malvinas e a submissão de Porto Rico aos Estados Unidos, o combate ao racismo e a todas formas de discriminação étnica, de gênero ou de opção sexual. A defesa das conquistas obtidas na última década foi um dos temas mais debatidos no encontro, dedicado à memória do presidente Hugo Chávez Frias (1954-2013) e um dos grandes arquitetos da Nova América. Somente no Brasil, nos dois governos de Lula e agora no governo de Dilma Rousseff, 40 milhões de brasileiros saíram da situação de miséria e constituíram uma nova classe trabalhadora (para citarmos Marilena Chauí); o desemprego se mantém na faixa de 5,5%, enquanto na França é de 12% e na Espanha de 26%; e conforme matéria publicada em 04 de agosto no jornal O Estado de S. Paulo, a desigualdade social teve redução de 80% na última década (em comparação com o aumento de 54%, no decênio neoliberal de Collor de Mello e FHC / PSDB).

Também na Argentina, na Venezuela, na Bolívia e em outros países da Nova América há índices surpreendentes de redução da desnutrição, do analfabetismo, da expansão dos serviços públicos, da democratização do acesso ao lazer e à cultura. A nova situação é vista como ameaça pelas classes dominantes, que usam os meios de comunicação de massa como partidos de oposição para enganarem a população e tentarem o retorno às trevas do neoliberalismo, não pensando duas vezes antes de usar a violência, como ocorreu na Venezuela, após a vitória de Maduro, ou no Brasil, durante as manifestações de junho. As classes dominantes latino-americanas estão entre as mais atrasadas, preconceituosas e cruéis do planeta, e temem que os avanços sociais obtidos na última década possam, a médio ou longo prazo, representar um perigo à sua própria dominação de classe.

Exatamente por isso, a troca de experiências, as consultas mútuas e as ações conjuntas dos partidos e governos progressistas da América Latina é de vital importância para a preservação da democracia no continente e para as futuras lutas em direção a um novo socialismo, que o comandante Hugo Chávez chamou de “o socialismo do século 21”. Conforme diz o Documento base do XIX Encontro do Foro de São Paulo: “Os partidos políticos agrupados no Foro de São Paulo têm, portanto, um triplo papel: orientar nossos governos a aprofundar as mudanças e acelerar a integração; organizar as forças sociais para sustentar nossos governos ou para fazer oposição aos governos de direita; e construir um pensamento de massas, latino-amrericano e caribenho, integracionista, democrático-popular e socialista”.

Como delegado do Partido Comunista do Brasil (PC do B) presente no encontro, registro ainda a importância do discurso do ex-presidente Lula no ato político de abertura do Foro, no dia 02 de agosto, em que ele afirmou que o Brasil, como país de maior economia e importância política no continente, tem a responsabilidade de ser o grande impulsionador de um novo modelo de sociedade, que seja uma alternativa aos modelos neoliberais e social-democratas fracassados, inclusive no continente europeu. Lula destacou ainda a importância de os partidos e governos de esquerda serem mais criativos em suas formas de atuação e de criarem novos veículos para se comunicarem com a população, usando, por exemplo, a internet como contrapeso à influência do jornal impresso conservador. O ato de encerramento do Foro, no dia 04 de agosto, contou com a presença do presidente boliviano Evo Morales, recentemente vítima de um ato de pirataria aérea na Europa, a mando do governo dos Estados Unidos. Em seu pronunciamento, Morales conclamou os países a se “descolonizarem do racismo, do fascismo, do consumismo”, a serem “mais produtivos que consumistas” e a darem fim “às monarquias e oligarquias em todo o mundo”. A Bolívia, aliás, sediará o XX Encontro do Foro de São Paulo, na cidade de Cochabamba.

Entre as resoluções finais do encontro, encontram-se a de solidariedade com Cuba, pelo fim do bloqueio norte-americano e pela libertação dos cinco herois cubanos, mantidos em cativeiro nos EUA; a de solidariedade com os povos palestino e do Sahara Ocidental, que lutam pela autodeterminação nacional; uma nota de apoio à presidenta Dilma Rousseff, alvo das articulações da direita golpista; resoluções em defesa da soberania da Síria, agredida pelos mercenários islâmicos pagos pela CIA, e em defesa da soberania argentina sobre as Ilhas Malvinas; nota de apoio ao processo de paz na Colômbia e de saudação ao líder sul-africano Nelson Mandela, entre outras resoluções.


ZUNÁI, DEZ ANOS DE POESIA


ZUNÁI, REVISTA DE POESIA E DEBATES comemora dez anos de existência em 2013. Para comemorar a data, haverá um recital na Casa das Rosas, no dia 30 de agosto sexta-feira, às 18h30, com a participação os poetas E. M. de Melo e Castro, Claudio Willer, Alfredo Fressia, Frederico Barbosa, Abreu Paxe, Adriana Zapparoli, Elson Fróes, Edson Cruz, Andréia Carvalho, Edson Bueno de Camargo, Luiz Arisatn, Nydia Bonetti, Diogo Cardoso e Fabrício Slaviero. Haverá também uma edição especial impressa da revista, que sairá no fim do ano, e um novo lay out e endereço eletrônico para a edição digital de agosto, que terá como editores de conteúdo Claudio Daniel e Adriana Zapparoli e Andréia Carvalho Gavita como editora de arte, aguardem!


quarta-feira, 31 de julho de 2013

SEMANA DA CULTURA JAPONESA NO CENTRO CULTURAL SÃO PAULO



O Centro Cultural São Paulo realizará a Semana da Cultura Japonesa entre os dias 29 de agosto e 01 de setembro, incluindo exposição de ikebana, recital de poesia e música clássica japonesa, demonstração de artes marciais e um concurso de haicais, forma poética japonesa composta de três versos e temática relacionada com as estações da natureza. Situado nas proximidades da Liberdade, bairro de São Paulo que concentra expressiva comunidade nipônica, o Centro Cultural São Paulo presta homenagem aos imigrantes japoneses e seus descendentes, que participaram ativamente da construção da economia paulista e de sua diversidade social, cultural e religiosa. No dia 29 de agosto, acontecerá a abertura da exposição de ikebana, realizada anualmente no CCSP, com vários estilos tradicionais dessa arte de arranjos florais. No dia 30, será realizado o evento Poesia dos 4 Cantos: Noite Japonesa, com a leitura de poemas clássicos japoneses traduzidos para o português e a apresentação de música tradicional, com instrumentos como o taiko (tambor),  o shakuhati (flauta), o shamizen e o koto. No dia 31, acontecerá o XXIV Encontro de Haicai, promovido pelo Grêmio Haicai Ipê e pelo CCSP, concurso aberto a todos os praticantes dessa modalidade de poesia japonesa, com distribuição de prêmios aos vencedores. Por fim, no dia 01 de setembro, domingo, será feita uma demonstração de artes marciais e música tradicional japonesa na Sala Adoniran Barbosa, dentro da programação do ciclo Transversos. 

Confiram abaixo a programação completa da Curadoria de Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo para o mês de agosto:

Menu de Poesia

Recital dedicado aos poetas africanos de língua portuguesa e afrodescendentes, organizado por Maria Alice Vasconcelos. Haverá uma breve palestra por Edson Cruz e leituras poéticas por Abreu Paxe, Célia Ábila, Charles Gentil, Diogo Cardoso, Fabiano Fernandes Garcez, Ivan Carlos Regina, José Geraldo Neres, Leo Gonçalves, Luiz Ariston Dantas, Maria Fátima Araújo Vieira, Rita Alves. Participação especial da Faculdade Zumbi dos Palmares com a presença de uma turma de alunos e breve palestra sobre literatura africana pelo Reitor José Vicente e pela Profa Ma. Ellen de Lima Souza.

Quinta-feira, dia 08/08/2013, das 20h30 às 22h 

Sala Adoniran Barbosa


Poemas à Flor da Pele

Sarau poético realizado pelo grupo Poemas à Flor da Pele, com a participação da cantora Lydia Venturelli, do pianista César Pinnes, do cantor e compositor Davi Caldeira, das bailarinas Silvana Santos, Roberta Minieri, Cibeli Parent Nana Crivilin, Mafa Junqueira e da oficineira Yara Camillo (Oficina Dois Tempos – Teatro e Poesia). Haverá também o lançamento de livros de poesia de novos autores.

Sexta-feira, dia 23/08/13, das 19h às 20h30  

Sala Adoniran Barbosa


Poesia dos 4 Cantos: Noite Japonesa

Poesia dos Quatro Cantos é uma atividade mensal dedicada à divulgação da poesia internacional, num formato que inclui a leitura com danças e músicas típicas de cada país, nos intervalos das leituras. Em agosto, será feita a apresentação de uma Noite Japonesa com o poeta Alex Dias, com a participação do grupo de taiko Fakura Fubuki e dos músicos da Asociação Cultral de Koto Miyagui do Brasil

Sexta-feira, dia 30/08/13, das 20h30 às 22h 

Praça Mário Chamie


24º. Encontro de Haicai

Concurso de haicais promovido pelo Grêmio Haicai Ipê e pelo Centro Cultural São Paulo aberto a todos os poetas praticantes dessa modalidade poética. Os resultados serão divulgados no final do evento e os vencedores receberão como prêmios livros de poesia. O haicai é uma forma poética japonesa clássica composta de três versos, com métrica aproximada de 5-7-5 sílabas e referência à estação do ano (kigo). Haverá um calígrafo japonês na ocasião, que distribuirá poemas caligrafados em kanjis aos participantes.

Sábado, dia 31/08/13, das 14h às 17h 

Praça Mário Chamie

sábado, 27 de julho de 2013

GALERIA: VICENTE HUIDOBRO (III)


ALTAZOR, A DEMOLIÇÃO SÍSMICA DO TEXTO


Vicente Huidobro (1893-1948) é o Colombo da nova poesia na América Latina. Depois da renovação modernista de Rubén Darío nas letras castelhanas, coube ao poeta chileno dar o passo seguinte, assimilando os recursos formais  do futurismo, do cubismo e do surrealismo de maneira original e ousada. Em Poemas Árticos e Equatorial (ambos de 1918), ele incorporou as "palavras em liberdade" de Marinetti, suprimiu os sinais de pontuação, trabalhou a collage e o caligrama à maneira de Apollinaire, em grafismos  icônicos que  estão na   gênese da poesia visual. Em Temblor de Cielo (1931), ensaiou um poema em prosa construído como uma sequência de flashes, de imagens alucinadas que recordam a pintura de Chagall. Sua obra central, no entanto, é Altazor (1931), um poema longo em sete cantos em que o poeta operou a gradual desconstrução do texto, sinalizando a dissolução do pensamento e da linguagem — e, portanto, da consciência — no caos do barbarismo tecnizado contemporâneo. Essa é uma elegia à orfandade espiritual do homem moderno, o cântico da "Queda", após o pecado original: lírica sísmica, feita de abalos e rupturas.

Huidobro dedicou-se a este poema-limite, redigido primeiro em francês e depois em espanhol, de 1919 a 1931; é, assim, um work in progress desenvolvido entre as duas guerras mundiais. Alguns críticos censuram em Altazor uma suposta descontinuidade, a falta de unidade entre as partes, pela diversidade estilística; o Canto I, o mais extenso, com cerca de 700 versos, é discursivo, fluente, ao passo que nos Cantos seguintes o discurso vai sendo dilacerado, com o emprego de neologismos, palavras-montagem, onomatopéias, até a fragmentação fonética e a irrupção do "transmental" (ou zaúm) no Canto VII. Essa aparente "desordem" na estrutura textual do poema revela, justamente, o seu princípio normativo e ideológico: a coisificação do caos, da quebra, da ruptura. Altazor, assim como Trilce, de Vallejo, e os Cantos, de Pound, é uma sucessão de epifanias, de mementos, uma montagem de ideogramas em profusão.

Conforme Bernardo Ruiz, "ao longo de cada Canto se desenvolverão sete diferentes temas: no primeiro, a Queda; no segundo, a Mulher; o Suicídio é o terceiro. A Separação, a Morte e a Noite compõem o quarto Canto, enquanto o quinto descreve o Além e a consciência: o transmundo. Finalmente, os dois últimos Cantos descrevem a aniquilação dos sentidos e da consciência, quer dizer, da linguagem".  Altazor tem como subtítulo "A viagem em pára-quedas", indicando desde aqui o tema da viagem como queda, precipitação. A angústia do personagem, conforme Guillermo Sucre, é "a impossibilidade de uma aspiração ao absoluto", pela morte de Deus (anunciada por Nietzsche em Assim Falava Zaratustra). Em sua solidão existencial e metafísica, abalada ainda pela guerra e pela ausência de uma utopia, ele encontra refúgio na Mulher amada e posteriormente, na Morte: a dissolução, na Noite, de toda consciência . O desejo de aniquilamento, de mergulhar no Vazio original anterior à Criação (um tema caro ao romantismo alemão, de Novalis a Wagner), se manifesta esteticamente na fraturamento dos corpos verbais. A destruição, porém, tem a sua contraparte dialética, que é a criação de uma nova linguagem _ e, portanto, de uma nova realidade — a partir da remodelagem das partículas semânticas, numa quase que nova língua.


Essa tendência inicia-se no Canto V ("Não há tempo a perder”), em que Huidobro transforma substantivos em verbos e verbos em substantivos; altera a função e o gênero dos objetos e das palavras; cria neologismos pela amálgama de termos (“mandolina” + "ventania" = "mandonia"); tece sequências rítmicas  de paronomásias a partir dessas recombinações semânticas (“La goloniña/ La golongira/ La golonlira" etc) ; e introduz, já no Canto IV, o tema "zaúm", à maneira de Khlébnikov: "Uiu uiui/ Tralalí tralalá/ Aia ai ai aaia i i". O Canto V dá continuidade a essa progressiva dilapidação do sentido nas rimas monocórdicas da seção central do Canto: "Molino de viento / Molino de aliento/ Molino de cuento/ Molino de intento". Porém, é nos Cantos VI e VII que a dissolução/reconstrução verbal chega a seu ponto máximo. Aqui, Huidobro realiza plenamente o ideário do Criacionismo, que ele formulou pela primeira vez no manifesto Non Serviam, lido no Ateneo de Santiago em 1914: “Podemos criar novas realidades num mundo nosso, num mundo que espera sua fauna e flora próprias". Das ruínas da lógica verbal fraturada, ele ergue um novo edifício, estranho,  irreal, inquietante, desafiadoramente belo.

Essa arquitetura prometeica tem início no Canto VI.  Essa seção do poema sugere uma irrupção de imagens, de ideogramas justapostos ("Vento flor/ seda cristal lento seda"). O discurso é abolido; não há verbos nem sintaxe; o poeta pulveriza a relação causa-efeito e a sucessão início-meio-fim, usando de uma lógica sincrônica; não há sujeito, nem ação, nem objeto. O texto todo é construído como uma tapeçaria, um mosaico ou mandala, em que o encadeamento de substantivos, de idéias-coisas recriadas ("cristal olho cristal seda cristal nuvem") oferece a contemplação do sagrado: a epifania. Esse aspecto de eternidade é reforçado pela ausência de qualquer noção de espaço-tempo. Huidobro, "antipoeta e mago", faz da poesia a sucessora da religião como mediadora entre os homens e o eterno.

O Canto VI  é construído numa rigorosa estrutura musical. Conforme René da Costa, "ao pronunciá-lo, percebemos padrões rítmicos da poesia tradicional (...). O octassílabo e a repetição de fórmulas características do romance servem como unificadores do ritmo, criando a ilusão de poesia". Essa “ilusão” refere-se, sem dúvida, ao efeito paródico criado pelo poeta, que, ao adotar uma melodia de inspiração folclórica, insinua um lirismo impossível em um texto tão abstrato quanto este. De todo modo, essa seção do poema, se é "estranha", "bizarra", "incompreensível", ainda "parece" poesia. O golpe de misericórdia é dado no Canto VII, em que Huidobro destrói a ilusão lírica e disseca a palavra em fonemas e letras, recombinando-as em neologismos impronunciáveis. Neste Canto, Huidobro se aproxima dos experimentos dadaístas e da linguagem transmental, ao mesmo tempo em que, pelo rigor arquitetônico na disposição espacial, pelo uso do princípio do ideograma na construção das palavras-valise e pela tessitura sonora polifônica, antecipa processos  da poesia concreta.

O Canto VII começa com um jogo de vogais que recorda a onomatopéia e a linguagem das crianças: "Ai aia aia/ ia ia ia aia ui". Aqui, ele utiliza apenas três letras (a, i, u), combinando-as  de quatro modos diferentes (Ai, aia, ia, ui). Em seguida, prossegue a ladainha infantil, similar à linguagem das histórias em quadrinhos: "Tralali/ Lali/ Lalá". Chamar isto de poesia, para alguns, seria uma afronta. De fato, há aqui uma bufoneria paródica que dessacraliza a "seriedade" da poesia, pela incorporação/transformação do banal, como Joyce faria, mais tarde, no Finnegans Wake. Após essa "introdução", o texto evolui  numa seqüência de palavras-montagem construídas a partir de fonemas de substantivos e sons abstratos inventados pelo autor: "monluztrela" (montanha + luz + estrela), "eternauta" (éter + nauta), "ululacente" (ulular + sufixo ente) etc. O próprio nome "Altazor", diga-se de passagem, é uma palavra composta: "alto" + "azor" (açor). O final do poema remete ao tom infantil do início:  "Lalali/ io ia/ i i i o/ Ai a i ai a i i i i o ia", em que o espaçamento entre as vogais e sílabas indica as pausas na leitura.

Apesar da aparente incomunicabilidade do texto, que não possui qualquer nexo lógico em termos cartesianos, o que surpreende é a sua capacidade de oferecer múltiplas possibilidades de leitura. É uma obra aberta que, em sua extrema concisão (apenas 65 linhas, divididas em duas páginas), concentra o máximo de informação com o mínimo de recursos. Em Huidobro, como em Joyce e Cummings, há uma inflação de significados. Esse aparente paradoxo do comunicável/incomunicável, aliás, é o emblema de toda a poesia de invenção, desde Mallarmé até os dias de hoje. Como sempre, o “incomunicável” torna-se "comunicável" após ser ingerido/digerido pela indústria cultural e retransmitido, diluído, como produto de cultura de massa ("mó, num pa tro pi"). O tabu se transforma em totem. 

(1992)

GALERIA: VICENTE HUIDOBRO (II)


FRAGMENTOS DE ALTAZOR / ALTAÇOR


Do Canto I

Altazor, por que perdeste tua primeira serenidade?
Que anjo mau parou à porta de teu sorriso
Com a espada em punho?
Quem semeou a angústia nas planícies de teus olhos como
    o adorno de um deus?
Por que um dia de repente sentiste o terror de ser?
E esta voz que te gritou vives e não te vês viver
Quem fez convergir teus pensamentos na encruzilhada de todos
    os ventos da dor?
Se rompeu o diamante de teus sonhos em um mar de estupor
Estás perdido Altazor
Só em meio ao universo
Só como uma nota que cresce nas alturas do vazio

Não há bem não há mal não há verdade nem ordem nem beleza

Onde estás, Altazor?

A nebulosa da angústia passa como um rio
E me arrasta segundo a lei das afinidades
A nebulosa solidificada em aromas foge de sua própria solidão
Sinto um telescópio que me apontam como um revólver
A cauda de um cometa me açoita o rosto e passa repleta de
    eternidade
Buscando infatigável um lago quieto onde possa  refrescar sua
    tarefa ineludível

Altazor morrerás Secará tua voz e serás
invisível
A Terra seguirá girando sobre sua órbita precisa
Temerosa de um tropeção como o equilibrista sobre
o arame
que ata as visões do pavor.
Em vão buscas olho enlouquecido
Não há porta de saída e o vento desloca os
planetas
Pensas que não importa cair eternamente se
consegues escapar
Não vês que estás caindo, já?
Limpa tua cabeça de preconceito e moral
E se querendo alçar-te nada tens alcançado
Deixa-te cair sem deter tua queda sem medo ao fundo
da sombra
Sem medo ao enigma de ti mesmo
Talvez encontres uma luz sem noite
Perdida nas gretas dos precipícios

Cai
Cai eternamente
Cai ao fundo do infinito
Cai ao fundo do tempo
Cai ao fundo de ti mesmo
Cai o mais baixo que se possa cair
Cai sem vertigem
Através de todos os espaços e de todas as idades
Através de todas as almas de todos os anelos e
todos os naufrágios

Cai e queima ao passarem os astros e os mares
Queima os olhos que tem vêem e os corações que
te aguardam
Queima o vento com tua voz
O vento que se enreda em tua voz
E a noite que tem frio em sua gruta de ossos

Cai em infância
Cai em velhice
Cai em lágrimas
Cai em risos
Cai em música sobre o universo
Cai de tua cabeça a teus pés
Cai de teus pés a tua cabeça
Cai do mar à fonte
Cai ao último abismo do silêncio
Como o barco que afunda apagando suas luzes

Do Canto II 

Mulher o mundo está mobiliado por teus olhos
O céu se faz mais alto em tua presença
A terra se prolonga de rosa em rosa
E o ar se prolonga de pomba em pomba

Ao ir, deixas uma estrela em teu lugar
Deixas cair tuas luzes como o barco que passa
Enquanto te segue meu canto embruxado
Como uma serpente fiel e melancólica
E tu voltas a cabeça atrás de algum astro

Que combate se trava no espaço?
Essas lanças de luz entre planetas
Reflexo de armaduras desapiedadas
Que estrela sanguinária não quer ceder o passo?
Onde estás triste noctâmbula
Doadora de infinito
Que passeia no bosque dos sonhos

Eis-me aqui perdido entre mares desertos
Só como uma pluma que cai de um pássaro na
noite
Eis-me aqui em uma torre de frio
Abrigado da lembrança de teus lábios marítmos
Da lembrança de tuas complacências e de tua
cabeleira
Luminosa e desatada como os rios de montanha 
Irias ser cega, e por isso Deus te deu essas mãos?
  
Do Canto III

Basta senhora harpa das belas imagens
Dos furtivos comos iluminados
Outra coisa outra coisa buscamos
Sabemos pousar um beijo como um olhar
Plantar olhares como árvores
Enjaular árvores como pássaros
Regar pássaros como heliotrópios
Tocar um heliotrópio como uma música
Esvaziar um música como um saco
Degolar um saco como um pingüim
Cultivar pingüins como vinhedos
Ordenar um vinhedo como uma vaca
Desmastrar vacas como veleiros
Pentear um veleiro como um cometa
Desembarcar cometas como turistas
Enfeitiçar turistas como serpentes
Colher serpentes como amêndoas
Desnudar uma amêndoa como um atleta
Cortar atletas como ciprestes
Iluminar ciprestes como faróis
Anidar faróis como calhandras
Exalar calhandras como suspiros
Bordar suspiros como sedas
Derramar sedas como rios
Tremular um rio como uma bandeira
Desplumar um bandeira como um galo
Apagar um galo como um incêndio
Vogar em incêndios como em mares
Segar mares como trigais
Replicar trigais como campânulas
Dessangrar campânulas como cordeiros
Desenhar cordeiros como sorrisos
Engarrafar sorrisos como licores
Engastar licores como jóias
Eletrizar jóias como crepúsculos
 Tripular crepúsculos como navios
Descalçar um navio como um rei
Enforcar reis como auroras
Crucificar auroras como profetas
Etc. etc. etc.
Basta senhor violino afundado em uma onda onda
Cotidiana onda de religião miséria
De sonho em sonho possessão de pedrarias
  
Do Canto IV

Olho por olho
Olho por olho como hóstia por hóstia
Olho árvore
Olho pássaro
Olho rio
Olho montanha
Olho mar
Olho terra
Olho lua
Olho céu
Olho silêncio
Olho solidão por olho ausência
Olho dor por olho riso.
Não há tempo a perder
E se vem o instante prosaico
Siga o barco que é acaso o melhor.
Agora que me sento e me ponho a escrever
Que faz a andorinha que vi esta manhã
Firmando cartas no vazio?
Quando movo o pé esquerdo
Que faz com seu pé o grande mandarim chinês?
Quando acendo um cigarro
Que fazem os outros cigarros que vêm no barco?
Onde está a planta do fogo futuro?
E se eu levanto os olhos agora mesmo
Que faz com seus olhos o explorador de pé no
pólo?
Eu estou aqui
Onde estão os outros?


Do Canto V

A montanha enfeitiçada  por um rouxinol
Segue o mel do osso envenenado
Pobre osso de pele de osso envenenado pela noite
boreal
Foge que foge da morte
Da morte sentada à margem do mar

A montanha o montanho
Com seu luo e com sua lua
A flor florescida e o flor florescendo
Uma flor que chamam girassol
E um sol que se chama giraflor

O pássaro pode esquecer que é pássaro
Por causa do cometa que não vem
Por medo do inverno ou de um atentado
O cometa que devia nascer de um telescópio e
uma hortênsia
Que acreditou olhar e era olhado
Um aviador se mata sobre o concerto único
E o anjo que se banha em algum piano
Volta outra vez envolto em sons
Buscando o receptor nos picos
De onde brotam as palavras e os rios

Os lobos fazem milagres
Nas pegadas da noite
Quando o pássaro incógnito se nubla

E pastam as ovelhas no outro lado da lua

 Do Canto VI

 Vento flor
                 lento nuvem lento
Seda cristal lento seda
O magnetismo
                        seda alento cristal seda
Assim viajando em postura de ondulação
Cristal nuvem
Molusco sim por violoncelo e jóia
Morte de jóia e violoncelo
Assim sede por fome ou fome e sede
E nuvem e jóia
Lento
           nuvem
            Ala ola ole ala Aladim
O ladino Aladin Ah ladino dino la
Cristal nuvem
Aonde
              de onde
lento lenta
            ala ola
Ola ola o ladino sim ladino
Pedes olhos
                     Tenho nácar
E na seda cristal nuvem
Cristal olhos
                     e perfumes
Bela tenda
Cristal nuvem
                       morte jóia ou em cinza
Porque eterno porque eterna
                                          lento lenta
Ao acaso do cristal olhos
Graça tanta
                     e entre mares
Miramares
Nomes dava
                      pelos olhos folhas mago
Alto alto
E o clarim de Babel
Pede nácar
                    tenho morte
Um dois e quatro morte
Para o olho e entre mares
Para o barco nos perfumes
Pela jóia ao infinito
Vestir o céu sem desmaio