sábado, 27 de julho de 2013

FRAGMENTOS DE ALTAZOR / ALTAÇOR


Do Canto I

Altazor, por que perdeste tua primeira serenidade?
Que anjo mau parou à porta de teu sorriso
Com a espada em punho?
Quem semeou a angústia nas planícies de teus olhos como
    o adorno de um deus?
Por que um dia de repente sentiste o terror de ser?
E esta voz que te gritou vives e não te vês viver
Quem fez convergir teus pensamentos na encruzilhada de todos
    os ventos da dor?
Se rompeu o diamante de teus sonhos em um mar de estupor
Estás perdido Altazor
Só em meio ao universo
Só como uma nota que cresce nas alturas do vazio

Não há bem não há mal não há verdade nem ordem nem beleza

Onde estás, Altazor?

A nebulosa da angústia passa como um rio
E me arrasta segundo a lei das afinidades
A nebulosa solidificada em aromas foge de sua própria solidão
Sinto um telescópio que me apontam como um revólver
A cauda de um cometa me açoita o rosto e passa repleta de
    eternidade
Buscando infatigável um lago quieto onde possa  refrescar sua
    tarefa ineludível

Altazor morrerás Secará tua voz e serás
invisível
A Terra seguirá girando sobre sua órbita precisa
Temerosa de um tropeção como o equilibrista sobre
o arame
que ata as visões do pavor.
Em vão buscas olho enlouquecido
Não há porta de saída e o vento desloca os
planetas
Pensas que não importa cair eternamente se
consegues escapar
Não vês que estás caindo, já?
Limpa tua cabeça de preconceito e moral
E se querendo alçar-te nada tens alcançado
Deixa-te cair sem deter tua queda sem medo ao fundo
da sombra
Sem medo ao enigma de ti mesmo
Talvez encontres uma luz sem noite
Perdida nas gretas dos precipícios

Cai
Cai eternamente
Cai ao fundo do infinito
Cai ao fundo do tempo
Cai ao fundo de ti mesmo
Cai o mais baixo que se possa cair
Cai sem vertigem
Através de todos os espaços e de todas as idades
Através de todas as almas de todos os anelos e
todos os naufrágios

Cai e queima ao passarem os astros e os mares
Queima os olhos que tem vêem e os corações que
te aguardam
Queima o vento com tua voz
O vento que se enreda em tua voz
E a noite que tem frio em sua gruta de ossos

Cai em infância
Cai em velhice
Cai em lágrimas
Cai em risos
Cai em música sobre o universo
Cai de tua cabeça a teus pés
Cai de teus pés a tua cabeça
Cai do mar à fonte
Cai ao último abismo do silêncio
Como o barco que afunda apagando suas luzes

Do Canto II 

Mulher o mundo está mobiliado por teus olhos
O céu se faz mais alto em tua presença
A terra se prolonga de rosa em rosa
E o ar se prolonga de pomba em pomba

Ao ir, deixas uma estrela em teu lugar
Deixas cair tuas luzes como o barco que passa
Enquanto te segue meu canto embruxado
Como uma serpente fiel e melancólica
E tu voltas a cabeça atrás de algum astro

Que combate se trava no espaço?
Essas lanças de luz entre planetas
Reflexo de armaduras desapiedadas
Que estrela sanguinária não quer ceder o passo?
Onde estás triste noctâmbula
Doadora de infinito
Que passeia no bosque dos sonhos

Eis-me aqui perdido entre mares desertos
Só como uma pluma que cai de um pássaro na
noite
Eis-me aqui em uma torre de frio
Abrigado da lembrança de teus lábios marítmos
Da lembrança de tuas complacências e de tua
cabeleira
Luminosa e desatada como os rios de montanha 
Irias ser cega, e por isso Deus te deu essas mãos?
  
Do Canto III

Basta senhora harpa das belas imagens
Dos furtivos comos iluminados
Outra coisa outra coisa buscamos
Sabemos pousar um beijo como um olhar
Plantar olhares como árvores
Enjaular árvores como pássaros
Regar pássaros como heliotrópios
Tocar um heliotrópio como uma música
Esvaziar um música como um saco
Degolar um saco como um pingüim
Cultivar pingüins como vinhedos
Ordenar um vinhedo como uma vaca
Desmastrar vacas como veleiros
Pentear um veleiro como um cometa
Desembarcar cometas como turistas
Enfeitiçar turistas como serpentes
Colher serpentes como amêndoas
Desnudar uma amêndoa como um atleta
Cortar atletas como ciprestes
Iluminar ciprestes como faróis
Anidar faróis como calhandras
Exalar calhandras como suspiros
Bordar suspiros como sedas
Derramar sedas como rios
Tremular um rio como uma bandeira
Desplumar um bandeira como um galo
Apagar um galo como um incêndio
Vogar em incêndios como em mares
Segar mares como trigais
Replicar trigais como campânulas
Dessangrar campânulas como cordeiros
Desenhar cordeiros como sorrisos
Engarrafar sorrisos como licores
Engastar licores como jóias
Eletrizar jóias como crepúsculos
 Tripular crepúsculos como navios
Descalçar um navio como um rei
Enforcar reis como auroras
Crucificar auroras como profetas
Etc. etc. etc.
Basta senhor violino afundado em uma onda onda
Cotidiana onda de religião miséria
De sonho em sonho possessão de pedrarias
  
Do Canto IV

Olho por olho
Olho por olho como hóstia por hóstia
Olho árvore
Olho pássaro
Olho rio
Olho montanha
Olho mar
Olho terra
Olho lua
Olho céu
Olho silêncio
Olho solidão por olho ausência
Olho dor por olho riso.
Não há tempo a perder
E se vem o instante prosaico
Siga o barco que é acaso o melhor.
Agora que me sento e me ponho a escrever
Que faz a andorinha que vi esta manhã
Firmando cartas no vazio?
Quando movo o pé esquerdo
Que faz com seu pé o grande mandarim chinês?
Quando acendo um cigarro
Que fazem os outros cigarros que vêm no barco?
Onde está a planta do fogo futuro?
E se eu levanto os olhos agora mesmo
Que faz com seus olhos o explorador de pé no
pólo?
Eu estou aqui
Onde estão os outros?


Do Canto V

A montanha enfeitiçada  por um rouxinol
Segue o mel do osso envenenado
Pobre osso de pele de osso envenenado pela noite
boreal
Foge que foge da morte
Da morte sentada à margem do mar

A montanha o montanho
Com seu luo e com sua lua
A flor florescida e o flor florescendo
Uma flor que chamam girassol
E um sol que se chama giraflor

O pássaro pode esquecer que é pássaro
Por causa do cometa que não vem
Por medo do inverno ou de um atentado
O cometa que devia nascer de um telescópio e
uma hortênsia
Que acreditou olhar e era olhado
Um aviador se mata sobre o concerto único
E o anjo que se banha em algum piano
Volta outra vez envolto em sons
Buscando o receptor nos picos
De onde brotam as palavras e os rios

Os lobos fazem milagres
Nas pegadas da noite
Quando o pássaro incógnito se nubla

E pastam as ovelhas no outro lado da lua

 Do Canto VI

 Vento flor
                 lento nuvem lento
Seda cristal lento seda
O magnetismo
                        seda alento cristal seda
Assim viajando em postura de ondulação
Cristal nuvem
Molusco sim por violoncelo e jóia
Morte de jóia e violoncelo
Assim sede por fome ou fome e sede
E nuvem e jóia
Lento
           nuvem
            Ala ola ole ala Aladim
O ladino Aladin Ah ladino dino la
Cristal nuvem
Aonde
              de onde
lento lenta
            ala ola
Ola ola o ladino sim ladino
Pedes olhos
                     Tenho nácar
E na seda cristal nuvem
Cristal olhos
                     e perfumes
Bela tenda
Cristal nuvem
                       morte jóia ou em cinza
Porque eterno porque eterna
                                          lento lenta
Ao acaso do cristal olhos
Graça tanta
                     e entre mares
Miramares
Nomes dava
                      pelos olhos folhas mago
Alto alto
E o clarim de Babel
Pede nácar
                    tenho morte
Um dois e quatro morte
Para o olho e entre mares
Para o barco nos perfumes
Pela jóia ao infinito
Vestir o céu sem desmaio

GALERIA: VICENTE HUIDOBRO (I)


DOIS FRAGMENTOS DE TREMOR DE CÉU / TEMBLOR DE CIELO


    Vestida de branco, Isolda vinha como uma nuvem. Então a lua começou a cair envolta em chamas. E nas praias dançava um reflexo de fogo.
    Os espectros saem um a um de cada onda que se levanta. Vocês que estão aí escondidos, chegou a hora de tremer ante a voracidade da morte.
    O sol poente faz uma auréola sobre a cabeça do último náufrago que flutua à deriva sem ouvir mais os cantos da margem.
    Os lobos passeiam com os olhos brilhantes entre os ramos da noite, enlaçados estreitamente e chorando sem causa precisa.
    O homem aquele, maior que os outros, abre a boca no meio do jardim e começa a tragar vagalumes durante horas inteiras.
    As árvores estão retorcidas por causa de uma dor estranha. E uma quantidade de meteoros que caem do céu formam espirais em nossa atmosfera como se fossem pedras na água.
    O fumo espesso sai de todos os lados. Agora só brilham os olhos dos lobos e o homem cheio de vagalumes. Todo o resto é penumbra.
    A montanha abre suas portas e o cego entra com os braços estendidos.
    Há uma árvore, uma grossa árvore que se retorce no fogo do crepúsculo.
    Acima, Deus está embalando um planeta recém-nascido.
      Caem estrelas sobre a terra. Uma após outra vão caindo centenas de auréolas sobre a terra, algumas sobre certas cabeças...E nada mais?
    Uma ilha de palmeiras surge do mar para os noivos que passeiam enlaçados.
    Algum dia um deles encontrará a cabeça que havia perdido, imóvel no mesmo lugar em que a perdera.
    Quando? Onde? Qual deles?
  
* * *

     Todas essas mulheres são árvores ou pedras de repouso no caminho, talvez desnecessárias.
    Garrafas de água ou tonéis de embriaguês geralmente sem luz própria. Obedecem como as catedrais a um princípio musical. Cada acorde tem seu correspondente e tudo consis-te em saber tocar o ponto do eco que há de responder. É fácil fazer tecidos de sons e construir um verdadeiro teto ou magníficas cúpulas para os dias de chuva.
    Se o destino permite, podemos abrigar-nos por um tempo e contar os dedos daquela que nos estende os braços.
    Logo o fantasma nos obrigará a seguir a marcha. Saltaremos por cima dos seios palpitantes que são suas cú-pulas porque ela estendida de costas imita um templo. Melhor dizendo, são os templos que imitam a elas, com suas torres como seios, sua cúpula central como cabeça e sua porta como querendo imitar o sexo por onde se entra em busca da vida que pulsa no ventre e por onde deve sair depois a mesma vida.
    Porém, nós não temos de aceitar semelhante imitação nem podemos crer em tal vida. Nesta vida que sai com os olhos vendados e vai estrelando-se em todas as árvores da paisagem. Só acreditaremos nas flores que são berços de gigantes, embora saibamos que dentro de cada casulo dor-me um duende.


Vicente Huidobro

Tradução: Claudio Daniel


EU CONFESSO


Anarcofascistas queimam bandeiras do Brasil e de São Paulo em ato de vandalismo ontem, na Avenida Paulista.  


Nasci em 1962, durante o curto governo democrático de João Goulart; dois anos depois, acontece o golpe militar, e em 1968 é promulgado o AI-5 (um dos autores do ato institucional foi o general Lira Tavares, que mais tarde seria eleito para a Academia Brasileira de Letras, por causa de um volume de versos que assinou com o pseudônimo de Adelita). Eu tinha 16 anos de idade quando começaram as greves operárias no ABC paulista, desafiando a ditadura militar e os patrões. O resultado político dessas greves foi o enfraquecimento do regime, a "abertura" política e o surgimento de novos partido, como o PT -- Partido dos Trabalhadores -- criado por Lula e outros sindicalistas que lideraram as greves no ABC. Os estudantes, na época (eu estudava Jornalismo na Cásper Líbero, depois fiz Filosofia, na USP) apoiavam maciçamente o PT, assim como a maioria dos intelectuais de esquerda e setores da Igreja Católica ligados à Teologia da Libertação e lideranças rurais que estavam surgindo, e que mais tarde formaram o MST -- Movimento dos Sem Terra. A resistência à ditadura militar aconteceu também na forma da luta armada, como na região do Araguaia, liderada pelo Partido Comunista do Brasil -- PC do B -- e em movimentos contra a carestia. Em 1982, aconteceram eleições diretas para governador, e a oposição venceu na maioria dos estados; dois anos depois, surgiram as grandes manifestações por Eleições Diretas-Já, que levaram milhões de brasileiros às ruas. Eu estava lá, como militante (na época) do PT, em todos os comícios, colaborava nas greves e manifestações estudantis. A campanha das diretas não atingiu seu objetivo, mas o regime foi derrotado nas ruas e no Colégio Eleitoral, que elegeu a chapa Tancredo Neves / José Sarney, representantes de setores da burguesia e da direita que tinham a estratégia de fazer uma transição "segura" para a democracia representativa, sem mudanças bruscas na ordem econômica. Em 1989, Lula é o candidato da Frente Brasil Popular (PT - PSB - PC do  para a presidência da república, com um programa socialista bastante avançado, mas é derrotado por Collor de Mello, com apoio ostensivo da Rede Globo e de TODA a mídia. Napoleão de manicômio, Collor confisca as poupanças da classe média brasileira (os milionários foram avisados antes) e inicia o programa neoliberal de privatizações e arrocho salarial, mas é derrotado pelas greves convocadas pela CUT -- Central Única dos Trabalhadores -- e por gigantescas passeatas convocadas pelo PT, PC do B e outros partidos de esquerda, que conseguem obter o impeachment do presidente no Congresso. Nos dez anos seguintes, Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, realiza a PRIVATARIA TUCANA -- leilões que ofereceram quase todas nossas empresas estatais ao capital estrangeiro a troco de banana, inclusive empresas lucrativas, como a Vale do Rio Doce, e estratégicas para a segurança nacional, como a Telebrás. Foi o maior crime já praticado contra o patrimônio do povo brasileiro (com generosas propinas que os tucanos depositaram em paraísos fiscais, com farta documentação a respeito no livro de Amaury Jr. O Judiciário brasileiro nunca investigou o caso e TODA a mídia fez de conta que o fato nunca existiu). É nesse contexto histórico que devemos pensar nos dez anos de governos progressistas de Lula e Dilma -- e na importância política de DEFENDERMOS Dilma, que simboliza 50 anos de enormes lutas da nação brasileira.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

GALERIA: FRANCIS PICABIA


UM POEMA DE SAMUEL BECKETT


ALBA

antes que amanheça você estará aqui
e Dante e Logos e estratos vários e mistérios
e a lua timbrada
além do branco aeroplano da música
que você há de instalar aqui antes que amanheça.

tumba flou sonora seda
pensa sobre o negro firmamento de areca
chove no bambual flor de fumaça becos de chorões

quem no entanto você arqueia com dedos compassivos
para promover o pó
não somará à tua recompensa
cuja beleza será uma folha estendida rente ao rosto
testemunho de si mesma arrastado pela saraivada de emblemas
para que sem sol ou desvelar-se
ou abrigo
só eu e enfim a folha
sobre uma pilha de mortos


Tradução: Vinícius Marques

(Confiram mais traduções de Samuel Beckett na edição de agosto da Zunái).

POEMAS DE VICTOR SOSA

                                                                                             
                                                                                                                                                                                                     La Luna en su furor siega retinas. Llama ara en sus eddas, sulfurosa. Su craquelado albor en verde jungla ceibas descuaja hondas. La enorme, en su tambor, álgida Luna. Y entre el salvaje, sordo, alto silencio, late atónito un púlsar. Alzan los hombres votivos obeliscos. En perigeo estiran sus escrotos hasta altivos rozar el halo blando. A estribor hembras albas que menstrúan. La brutal Luna quema, desmorona, derrite hasta el titanio. Desde entonces –desde el letal intaglio de Medusa–, el calvo sacerdocio ofrenda imberbes, linfa, arrozales, púrpura. Ni así la Luna muta. Quieta en convexa espera planetoide premedita entre fieltros sus ajorcas. Vendada como geisha en sus muñones nos mina de locura e inocula sobre las caras cráteres. La iluminada histeria de los sabios, qué eléctrica, sazona. No sin razón mareas. Escurre pétrea lava afrodisíaca. La albina al fin del África. La a negra piel tatuada. La al cielo úlcera abierta alerta Luna.

* * *
Oh, palabras no,/ porque todo está vivo: el asombro,
el esplendor,/ el éxtasis,/ el crimen.
                                                              Herberto Helder

                                                                                              Mejor que las palabras, bofetada. Surcos de garras roturando carne. Mejor el delator dolo del beso. Las como sierpes crines infinitas. La carcajada ácrata del loco sobre los glaucos rostros de los cautos. Mejor la álgida fístula del éxtasis. Trepanación o grito. Asma en borborigmos entre belfos. Mucho mejor la espada. La glotis expatriada. El sí de la sonrisa (por qué no). Letal el latigazo del áspid sobre armiño. Parca la piedra pura sudando su aridez. Mejor. Mucho mejor que un verso que no posa, que no arde si yesca, querubín rococó que tose tísico. Miren mudos el río. Moren en ese orden hasta que espasmos habiten cual ácimo pan todo el silencio. Abrásense la lengua en su nonsense. Esto no tiene nombre. Mejor segar de un tajo los dos ojos antes que descifrar, o en un incesto inútil, decir flor.

(Confiram mais poemas de Victor Sosa na edição de agosto da Zunái)

POEMAS DE LUÍS COSTA


A VIRGEM LOUCA  de Donatien-Alphonse
imperando entre máscaras no labirinto do vento

ao anoitecer   as viúvas do Minotauro
trazem-lhe uma taça repleta de um veneno secreto

e entre as pernas põem-lhe finos seixos   para que
sonhe minotauramente.


SISMOGRAFIA

Um grito oceânico
aves que sobem pelos ventrículos da mulher
turbos plantados na sua orfandade

e as estátuas  altas  com o eixo do mistério
ardendo mansamente

em baixo
o homem procura as agulhas perfeitas
a intimidade da estrutura aberta para lhes ser sangue.


ERGUENDO a mão direita
explicou: falo do silêncio
da sua poderosa turbina

devastando a boca do poeta.

  
SENTOU-SE na posição de lótus e disse:

devoram  a brevidade do infinito
na secura do momento que lhes arde nos lábios

e todos os nomes são uma efémera
conspiração nos andaimes do silêncio.
  
  
ESCREVEU: sou um corpo nu
rasgado ao meio
exposto à luz e ao vento

– um arbusto no deserto.

*

DISSE : talvez a palavra poética
seja uma desertificação

– o lento assassinato do eu.

(Confiram mais poemas de Luís Costa na edição de agosto da Zunái)


segunda-feira, 22 de julho de 2013

ANÔNIMOS




Há um louco solto na rua.

(Os livros dos uigures foram escritos para serem esquecidos.)

Um policial pede os seus documentos.

(Há três ou quatro especialistas em língua suméria.)

O louco entrega-lhe um tijolo.

(Uma tribo na Ásia Central escreve seus livros sagrados nos ventres de mulheres-anãs.)

O policial fica furioso porque queria um sapato.

(Poucos são capazes de ler as mensagens ocultas no interior das nozes.)

Eles começam a discutir e logo aparece uma mulher gorda que entra na confusão.

(Sobre o que conversam as abelhas?)

O louco declara o seu amor pelos incêndios.

(Nuvens serão letras de um alfabeto cabalístico?)

O policial é apaixonado por boxeadores e telepatas.

 (Os melhores poemas ainda não foram escritos, disse para mim um asceta tuaregue.)

A mulher gorda ataca o louco com a sola de um sapato.

(Quem conhece um grande romancista da Lituânia?)

O cinegrafista do Grande Telejornal filma todo o episódio para exibir no horário nobre.

(Há indícios de vogais e consoantes em teus pequenos lábios.)

 Logo surgem legiões de publicitários, jornaleiros e vendedores de apólices de seguros e tem início uma pancadaria.

(Um miniaturista persa escreveu um longo poema épico numa pena de faisão.)


FIM.

UM CONTO DE MÁRCIA BARBIERI


O UMBIGO DE DEUS 

Parte 1 (A membrana): E uma mosca não cansava de farejar o cu de uma estátua, o cu de um cristo já crucificado. E minha cauda não era capaz de espantar o inseto, porque eu nada sabia sobre o desespero da pedra. Antes da insônia dessa noite eu era matéria sem memória, um peixe cascudo. Meus olhos nada sabiam dos pássaros suicidas-agonizantes que nele habitavam. E ninguém podia adivinhar meu sofrimento, ninguém tinha consciência que eu viveria por cem anos e por cem anos eu seria ridicularizada porque sentia o falo de Deus apodrecendo minha vagina. Um clitóris-seixo ruindo do nascimento a morte.

Parte 2 (O ovo e a origem dos órgãos): Eu não era, porém o réptil amarelo soprou em minha boca e eu inflei. Rodopiei sobre meu eixo e descobri meus seios. Deitei na cama do meu carrasco, ele me convenceu que os orifícios-estigmas que eu trazia não eram regiões abissais, mas fontes de um prazer supremo. Abri a boca e o deixei tocar na campainha que tremia com qualquer grunhido. Conduzi suas mãos entre minhas pernas e ele massageou a úvula acima dos pequenos lábios. O meu esfíncter se rompeu e dele explodiu um sol rubro e fecundo. Ovulo. Coito anal. A humanidade se expande no interstício entre o ruído e a merda. Na bifurcação do meu novo corpo, agora apaziguado, um ovo habitava. Uma jararaca de rabo branco ameaçava o bote.


Parte 3 (O cão trágico ou o sepulcro do eu): Conheci outros parentes, outros bichos, outros carrascos e todos dormiram sobre minha puberdade. E todos eles me enganaram desde a infância, me fazendo acreditar que eu era insubstituível. E passaram-se anos e eu chorei meus mortos e eles eram velados e encontrei outros homens de rosto lixado e meus mortos foram cremados e esquecidos, viraram fuligem e seus nomes não me lembro bem, homo sapiens homo erectus neantherdais homens da pedra lascada e suas artes, única coisa eterna, agora viraram artes rupestres perdidas em algum muro-asfalto da cidade. Me fizeram acreditar que eu era o grande cão emplumado, que a qualquer momento alçaria voo, o bode de chifre de ouro. A verdade é que eu sou um bode expiatório, o sangue jorrado da vulva pela sodomia alheia. Tropecei, caí em buracos bem pequenos, cavei para enterrar ossos, o fêmur do monstro branco que clareava o abismo, o monstro que restou de toda grandeza. Ele, num dia que arrancava minha pele, me disse: Você é um lindo cão emplumado! E deslizou a mão sobre meu dorso supostamente alado. Mas no espelho de moldura alaranjada pregado naquele cubículo, eu reconheci meu carrasco, enquanto um mar vermelho dividia-me ao meio. Olhei de novo para o pequeno espelho retangular e vi que eu não passava de um cão vira-lata roendo o osso do eterno retorno.

domingo, 21 de julho de 2013

COLUNA DO PATINHO


Poetas ligados à revista carioca Inimigo Rumor (que também atende pelo nome de guerra Modo de Usar & Co.) sempre participaram dos concursos da Petrobrás, revezando-se nos papeis de jurados e poetas contemplados. Agora que seus porta-vozes aderiram ao movimento dos retrógrados, será que vão largar a boquinha? Ou vão continuar falando mal do governo federal, mas mantendo seu lobby literário? Aguardemos a próxima edição do concurso, vamos checar os nomes dos jurados e dos poetas premiados...

UM POEMA DE CHIU YI CHIH


TRANSCURSO


próximo aos estiletes de fogo que cospem lâminas finíssimas de chumbo ou avançando por detrás da escaramuça das algas insufladas pelas lascas eufóricas tal como o transístor das risadas coléricas precipitando-se às melodias de ondas incestuosas num revolutear de cristas incontáveis a contrair os minutos através das emanações de uma escada quase ovalada à espera de que todos os seres com aquelas flatulências possam se esgueirar acima dos estuques de gesso onde os fungos das trêmulas ancas se desatrelam com as lagartas de línguas enrubescidas embora nem sempre as lamentações de um cadáver insepulto se mantenham à distância dos edifícios esquálidos de certas plenitudes irreais enquanto assim um semi-animal humano parece estar rastejando nos lábios do cimento adormecido durante a sua translação para além das bifurcações de outras ferrovias que vão se perfilando às cegas sobre as reminiscências das válvulas da matilha atacada pelas fossas de um velho armazém como se apenas as suas mandíbulas inferiores pudessem se rejuvenescer com a plumagem dos túmulos e as cordilheiras de uma faísca submersa

(Leiam mais poemas de Chiu Yi Chih na edição de agosto da Zunái.)

UM POEMA DE ABREU PAXE

NKALU A MAZA: TIGELA DE SENTIDOS

     A mbuta bavova vô
descalçadas e fraternos no aço há braços e botas  também o carvão preto
aceso em brasa vermelho nos cristais dum denso signo a mbuta enquanto saliva
se levantam essas águas do rio correm para o sul as fontes precisam de
montanhas
os vales de um banho seco prisioneiro bavova vo as bactérias
desta garrafa da taça de vinho comia de botas vermelhas de ferida
e tudo começa com os olhos destas bocas destas espingardas desta guerra
ouro preto benigna meu mundo congelado o seu lugar de tanque a cama no lugar
da geografia do meu desenhado espaço jardins  todo o gesso requerido
Sul e Norte a mina mu-ntu o distante e perto Oeste e Este as linhagens
ampliam-se
feito artérias tomam o corpo por inteiro e nele abrem os ventrículos e
as aurículas
circulam todas as frutas e sabores no vale e nas montanhas por exemplo
mangas, mamões,
bananas, testículos, seios, pénis, vagina o arquejante altar os mais
velhos disseram assim.

(Confiram mais poemas de Abreu Paxe na edição de agosto da Zunái)


UM CONTO DE JOÃO ANZANELLO CARRASCOZA

SEDE



O rio, o rio fluía, quieto, na noite. O luar era tão luar, que do rochedo onde eu estava, pude ver a mulher emergir das profundezas e nadar de costas até a margem. Ela saiu da água e veio em minha direção, devagar, gotejando-se no caminho. Parecia que o mundo andava na ponta de seus pés. Embora eu temesse me afogar na sua sombra, a cada um de seus passos o receio ia se despedindo de mim. Ao redor, as coisas em excesso pediam licença, silenciosamente. Estávamos nos esvaziando. Ela movendo-se. Eu, imóvel. Logo, chegou ao rochedo e se sentou à minha frente. Não recordo o que conversamos, apenas que não podíamos dar às palavras o contorno que as definiam como palavras. O céu com suas estrelas, lá de cima, nos observava. Então, abracei-a, farejando a sua pele, o seu cheiro de água. E, para saciar a minha seca, comecei a beber, sem pressa, o rio que nela fluía.  

(Leiam mais contos de João Anzanello Carrascoza na edição de agosto da Zunái.) 

UM POEMA DE RODRIGO GARCIA LOPES

MANASOTA KEY

Nas páginas do mar
pelicanos em linha
escrevem as sombras de seus peitos
ao quase tocarem uma onda.
O sol rascunha rubros
bilhetes de despedida, toda tarde.
Golfinhos, suas barbatanas
relatam os rudes caminhos
pela pradaria das baleias.
Mergulhões redigem sua escrita kamikaze,
suicida, invisível por instantes.

Nas páginas da areia
(cujas conchas são suas obras completas)
fósseis negros de dentes de tubarão
escrevem a autobiografia
de dois milhões de anos.
Rastro de guaxinim,
seu romance de aventura
da duna à estrada.
Um siri deixa sua assinatura
sobre marcas de pneus de um SUV.
Garrafa com uma mensagem, um pen drive
com a história de um naufrágio.

Nas páginas do céu
nuvens ancestrais e sempre-novas relatam
suas viagens sobre o mundo, infinitas.
Furacões emplacam best-sellers
sobre o Golfo do México
enquanto folhas de outono caligrafam no ar
ideogramas precisos,
memórias do vento.
Satélites traçam haicais de luz.
A lua amarelo-limão descreve seu brilho solene

sobre as palmeiras da Flórida.

Eu não escrevo nada. 

(Confiram mais poemas de Rodrigo Garcia Lopes na edição de agosto da Zunái)

terça-feira, 16 de julho de 2013

RELENDO CRUZ E SOUSA



Cruz e Sousa, em Broqueis e Farois, criou um vocabulário novo, como um verdadeiro taumaturgo morfológico: absíntica, nirvânica, tantálico, beethovínica, estradivário, torcicolosamente, entre outros neologismos, mesclados a outros termos, de laivos gongorinos: neblinoso, alampadário, flamívona, alabastrino, espumaroso, empurpuresce. Com esse grimoire de sortilégios e encantações, Cruz e Sousa conduziu aliterações (“suspira, sofre, cisma, sente, sonha”), anagramas (“areia úmida e miúda”), paronomásias (“torvas e turvas”, “gralha, grasma e grulha”), anáforas (“só fúria, fúria, fúria, fúria, fúria”) e outras magias semânticas que podem ser colocadas, sem intenção filantrópica, ao lado das construções inusitadas de Kilkerry ou Sousândrade. No caso específico de Missal, escreve Aguinaldo José Gonçalves que “perpassa todas as páginas desta obra um movimento inebriante de imagens simbólicas, mescladas a um total clima de sonho e de sensibilização em várias dimensões”. O poeta de Nossa Senhora do Desterro seria o autor de “um estilo novo, uma linguagem inédita mais fluida, mais cheia de matiz, plena de alusões mitológicas e de envolvimentos fantásticos” (idem). É possível argumentar que Missal, embora seja uma obra revolucionária em relação ao realismo-naturalismo e à poesia parnasiana, e a despeito de fragmentos de notável modernidade pré-cubista, como Navios (“Praia clara, em faixa espelhada ao sol, de fina areia úmida e miúda de cômoro”), não pode ser comparada, no cenário internacional, a obras de maior voo inventivo, como o Igitur de Mallarmé ou Les chants de Maldoror de Lautréamont; no entanto, essa objeção se torna caduca frente a composições como esta, de Evocações:     

Sentirás no Asinino a imitação do teu Silêncio, a imitação da tua Sombra – sombra e silêncio d’espelho, sombra e silêncio refletidos do teu silêncio e da tua sombra, sombra e silêncio reproduzidos d’espelho contra espelho.

(...)

Vida do eu visual, do eu olfativo, do eu mental, do eu sensível, faz vida original, faz vida de temperamento, portanto, vida ingenitamente particular e nova, dirás tu na perfectabilidade da tua visão.

(...)

Sempre sol contra sol, sempre sombra contra sombra, sempre espelho contra espelho. Sempre este espelho – Homero contra este espelho – Virgílio. Sempre este espelho – Shakespeare, contra este espelho – Balzac, ou contra este espelho – Dante, ou contra este espelho – Hugo. Sempre este espelho – Flaubert, contra este espelho – Zola, ou contra este espelho – Goncourt. Sempre este espelho – Baudelaire, contra este espelho – Poe, contra este espelho – Villiers e contra este espelho – Verlaine. Sempre este espelho – Ibsen, contra este espelho – Maeterlink.

Notável, neste fragmento (Espelho contra espelho) – uma profissão de fé simbolista – o uso de recursos que seriam empregados, cerca de meio século depois, por autores como Gertrude Stein: a repetição hipnótica de frases ou palavras, com mínimas alterações ortográficas, fora de qualquer estrutura identificável de prosa ou poesia; a fratura sintática; o uso dos sinais de pontuação como intervenções de natureza gráfico-visual;  a enumeração caótica (no caso, de autores venerados do cânone simbolista, com destaque para autores da linha “sério-estética”, na definição de Edmund Wilson, como Baudelaire e Verlaine, com a incompreensível exclusão de Rimbaud e Mallarmé e dos poetas da linha “coloquial-irônica”, Corbière e Laforgue).  Um Cruz e Sousa distante das névoas parnaso-simbolistas, das imagens deliberadamente grotescas, da retórica sentimental, e muito próximo das experimentações semânticas das vanguardas das primeiras décadas do século XX, ainda não devidamente estudado por nossa crítica literária, tão avessa à contribuição simbolista.