sábado, 27 de julho de 2013

DOIS FRAGMENTOS DE TREMOR DE CÉU / TEMBLOR DE CIELO


    Vestida de branco, Isolda vinha como uma nuvem. Então a lua começou a cair envolta em chamas. E nas praias dançava um reflexo de fogo.
    Os espectros saem um a um de cada onda que se levanta. Vocês que estão aí escondidos, chegou a hora de tremer ante a voracidade da morte.
    O sol poente faz uma auréola sobre a cabeça do último náufrago que flutua à deriva sem ouvir mais os cantos da margem.
    Os lobos passeiam com os olhos brilhantes entre os ramos da noite, enlaçados estreitamente e chorando sem causa precisa.
    O homem aquele, maior que os outros, abre a boca no meio do jardim e começa a tragar vagalumes durante horas inteiras.
    As árvores estão retorcidas por causa de uma dor estranha. E uma quantidade de meteoros que caem do céu formam espirais em nossa atmosfera como se fossem pedras na água.
    O fumo espesso sai de todos os lados. Agora só brilham os olhos dos lobos e o homem cheio de vagalumes. Todo o resto é penumbra.
    A montanha abre suas portas e o cego entra com os braços estendidos.
    Há uma árvore, uma grossa árvore que se retorce no fogo do crepúsculo.
    Acima, Deus está embalando um planeta recém-nascido.
      Caem estrelas sobre a terra. Uma após outra vão caindo centenas de auréolas sobre a terra, algumas sobre certas cabeças...E nada mais?
    Uma ilha de palmeiras surge do mar para os noivos que passeiam enlaçados.
    Algum dia um deles encontrará a cabeça que havia perdido, imóvel no mesmo lugar em que a perdera.
    Quando? Onde? Qual deles?
  
* * *

     Todas essas mulheres são árvores ou pedras de repouso no caminho, talvez desnecessárias.
    Garrafas de água ou tonéis de embriaguês geralmente sem luz própria. Obedecem como as catedrais a um princípio musical. Cada acorde tem seu correspondente e tudo consis-te em saber tocar o ponto do eco que há de responder. É fácil fazer tecidos de sons e construir um verdadeiro teto ou magníficas cúpulas para os dias de chuva.
    Se o destino permite, podemos abrigar-nos por um tempo e contar os dedos daquela que nos estende os braços.
    Logo o fantasma nos obrigará a seguir a marcha. Saltaremos por cima dos seios palpitantes que são suas cú-pulas porque ela estendida de costas imita um templo. Melhor dizendo, são os templos que imitam a elas, com suas torres como seios, sua cúpula central como cabeça e sua porta como querendo imitar o sexo por onde se entra em busca da vida que pulsa no ventre e por onde deve sair depois a mesma vida.
    Porém, nós não temos de aceitar semelhante imitação nem podemos crer em tal vida. Nesta vida que sai com os olhos vendados e vai estrelando-se em todas as árvores da paisagem. Só acreditaremos nas flores que são berços de gigantes, embora saibamos que dentro de cada casulo dor-me um duende.


Vicente Huidobro

Tradução: Claudio Daniel


EU CONFESSO


Anarcofascistas queimam bandeiras do Brasil e de São Paulo em ato de vandalismo ontem, na Avenida Paulista.  


Nasci em 1962, durante o curto governo democrático de João Goulart; dois anos depois, acontece o golpe militar, e em 1968 é promulgado o AI-5 (um dos autores do ato institucional foi o general Lira Tavares, que mais tarde seria eleito para a Academia Brasileira de Letras, por causa de um volume de versos que assinou com o pseudônimo de Adelita). Eu tinha 16 anos de idade quando começaram as greves operárias no ABC paulista, desafiando a ditadura militar e os patrões. O resultado político dessas greves foi o enfraquecimento do regime, a "abertura" política e o surgimento de novos partido, como o PT -- Partido dos Trabalhadores -- criado por Lula e outros sindicalistas que lideraram as greves no ABC. Os estudantes, na época (eu estudava Jornalismo na Cásper Líbero, depois fiz Filosofia, na USP) apoiavam maciçamente o PT, assim como a maioria dos intelectuais de esquerda e setores da Igreja Católica ligados à Teologia da Libertação e lideranças rurais que estavam surgindo, e que mais tarde formaram o MST -- Movimento dos Sem Terra. A resistência à ditadura militar aconteceu também na forma da luta armada, como na região do Araguaia, liderada pelo Partido Comunista do Brasil -- PC do B -- e em movimentos contra a carestia. Em 1982, aconteceram eleições diretas para governador, e a oposição venceu na maioria dos estados; dois anos depois, surgiram as grandes manifestações por Eleições Diretas-Já, que levaram milhões de brasileiros às ruas. Eu estava lá, como militante (na época) do PT, em todos os comícios, colaborava nas greves e manifestações estudantis. A campanha das diretas não atingiu seu objetivo, mas o regime foi derrotado nas ruas e no Colégio Eleitoral, que elegeu a chapa Tancredo Neves / José Sarney, representantes de setores da burguesia e da direita que tinham a estratégia de fazer uma transição "segura" para a democracia representativa, sem mudanças bruscas na ordem econômica. Em 1989, Lula é o candidato da Frente Brasil Popular (PT - PSB - PC do  para a presidência da república, com um programa socialista bastante avançado, mas é derrotado por Collor de Mello, com apoio ostensivo da Rede Globo e de TODA a mídia. Napoleão de manicômio, Collor confisca as poupanças da classe média brasileira (os milionários foram avisados antes) e inicia o programa neoliberal de privatizações e arrocho salarial, mas é derrotado pelas greves convocadas pela CUT -- Central Única dos Trabalhadores -- e por gigantescas passeatas convocadas pelo PT, PC do B e outros partidos de esquerda, que conseguem obter o impeachment do presidente no Congresso. Nos dez anos seguintes, Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, realiza a PRIVATARIA TUCANA -- leilões que ofereceram quase todas nossas empresas estatais ao capital estrangeiro a troco de banana, inclusive empresas lucrativas, como a Vale do Rio Doce, e estratégicas para a segurança nacional, como a Telebrás. Foi o maior crime já praticado contra o patrimônio do povo brasileiro (com generosas propinas que os tucanos depositaram em paraísos fiscais, com farta documentação a respeito no livro de Amaury Jr. O Judiciário brasileiro nunca investigou o caso e TODA a mídia fez de conta que o fato nunca existiu). É nesse contexto histórico que devemos pensar nos dez anos de governos progressistas de Lula e Dilma -- e na importância política de DEFENDERMOS Dilma, que simboliza 50 anos de enormes lutas da nação brasileira.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

GALERIA: FRANCIS PICABIA


UM POEMA DE SAMUEL BECKETT


ALBA

antes que amanheça você estará aqui
e Dante e Logos e estratos vários e mistérios
e a lua timbrada
além do branco aeroplano da música
que você há de instalar aqui antes que amanheça.

tumba flou sonora seda
pensa sobre o negro firmamento de areca
chove no bambual flor de fumaça becos de chorões

quem no entanto você arqueia com dedos compassivos
para promover o pó
não somará à tua recompensa
cuja beleza será uma folha estendida rente ao rosto
testemunho de si mesma arrastado pela saraivada de emblemas
para que sem sol ou desvelar-se
ou abrigo
só eu e enfim a folha
sobre uma pilha de mortos


Tradução: Vinícius Marques

(Confiram mais traduções de Samuel Beckett na edição de agosto da Zunái).

POEMAS DE VICTOR SOSA

                                                                                             
                                                                                                                                                                                                     La Luna en su furor siega retinas. Llama ara en sus eddas, sulfurosa. Su craquelado albor en verde jungla ceibas descuaja hondas. La enorme, en su tambor, álgida Luna. Y entre el salvaje, sordo, alto silencio, late atónito un púlsar. Alzan los hombres votivos obeliscos. En perigeo estiran sus escrotos hasta altivos rozar el halo blando. A estribor hembras albas que menstrúan. La brutal Luna quema, desmorona, derrite hasta el titanio. Desde entonces –desde el letal intaglio de Medusa–, el calvo sacerdocio ofrenda imberbes, linfa, arrozales, púrpura. Ni así la Luna muta. Quieta en convexa espera planetoide premedita entre fieltros sus ajorcas. Vendada como geisha en sus muñones nos mina de locura e inocula sobre las caras cráteres. La iluminada histeria de los sabios, qué eléctrica, sazona. No sin razón mareas. Escurre pétrea lava afrodisíaca. La albina al fin del África. La a negra piel tatuada. La al cielo úlcera abierta alerta Luna.

* * *
Oh, palabras no,/ porque todo está vivo: el asombro,
el esplendor,/ el éxtasis,/ el crimen.
                                                              Herberto Helder

                                                                                              Mejor que las palabras, bofetada. Surcos de garras roturando carne. Mejor el delator dolo del beso. Las como sierpes crines infinitas. La carcajada ácrata del loco sobre los glaucos rostros de los cautos. Mejor la álgida fístula del éxtasis. Trepanación o grito. Asma en borborigmos entre belfos. Mucho mejor la espada. La glotis expatriada. El sí de la sonrisa (por qué no). Letal el latigazo del áspid sobre armiño. Parca la piedra pura sudando su aridez. Mejor. Mucho mejor que un verso que no posa, que no arde si yesca, querubín rococó que tose tísico. Miren mudos el río. Moren en ese orden hasta que espasmos habiten cual ácimo pan todo el silencio. Abrásense la lengua en su nonsense. Esto no tiene nombre. Mejor segar de un tajo los dos ojos antes que descifrar, o en un incesto inútil, decir flor.

(Confiram mais poemas de Victor Sosa na edição de agosto da Zunái)

POEMAS DE LUÍS COSTA


A VIRGEM LOUCA  de Donatien-Alphonse
imperando entre máscaras no labirinto do vento

ao anoitecer   as viúvas do Minotauro
trazem-lhe uma taça repleta de um veneno secreto

e entre as pernas põem-lhe finos seixos   para que
sonhe minotauramente.


SISMOGRAFIA

Um grito oceânico
aves que sobem pelos ventrículos da mulher
turbos plantados na sua orfandade

e as estátuas  altas  com o eixo do mistério
ardendo mansamente

em baixo
o homem procura as agulhas perfeitas
a intimidade da estrutura aberta para lhes ser sangue.


ERGUENDO a mão direita
explicou: falo do silêncio
da sua poderosa turbina

devastando a boca do poeta.

  
SENTOU-SE na posição de lótus e disse:

devoram  a brevidade do infinito
na secura do momento que lhes arde nos lábios

e todos os nomes são uma efémera
conspiração nos andaimes do silêncio.
  
  
ESCREVEU: sou um corpo nu
rasgado ao meio
exposto à luz e ao vento

– um arbusto no deserto.

*

DISSE : talvez a palavra poética
seja uma desertificação

– o lento assassinato do eu.

(Confiram mais poemas de Luís Costa na edição de agosto da Zunái)


segunda-feira, 22 de julho de 2013

ANÔNIMOS




Há um louco solto na rua.

(Os livros dos uigures foram escritos para serem esquecidos.)

Um policial pede os seus documentos.

(Há três ou quatro especialistas em língua suméria.)

O louco entrega-lhe um tijolo.

(Uma tribo na Ásia Central escreve seus livros sagrados nos ventres de mulheres-anãs.)

O policial fica furioso porque queria um sapato.

(Poucos são capazes de ler as mensagens ocultas no interior das nozes.)

Eles começam a discutir e logo aparece uma mulher gorda que entra na confusão.

(Sobre o que conversam as abelhas?)

O louco declara o seu amor pelos incêndios.

(Nuvens serão letras de um alfabeto cabalístico?)

O policial é apaixonado por boxeadores e telepatas.

 (Os melhores poemas ainda não foram escritos, disse para mim um asceta tuaregue.)

A mulher gorda ataca o louco com a sola de um sapato.

(Quem conhece um grande romancista da Lituânia?)

O cinegrafista do Grande Telejornal filma todo o episódio para exibir no horário nobre.

(Há indícios de vogais e consoantes em teus pequenos lábios.)

 Logo surgem legiões de publicitários, jornaleiros e vendedores de apólices de seguros e tem início uma pancadaria.

(Um miniaturista persa escreveu um longo poema épico numa pena de faisão.)


FIM.

UM CONTO DE MÁRCIA BARBIERI


O UMBIGO DE DEUS 

Parte 1 (A membrana): E uma mosca não cansava de farejar o cu de uma estátua, o cu de um cristo já crucificado. E minha cauda não era capaz de espantar o inseto, porque eu nada sabia sobre o desespero da pedra. Antes da insônia dessa noite eu era matéria sem memória, um peixe cascudo. Meus olhos nada sabiam dos pássaros suicidas-agonizantes que nele habitavam. E ninguém podia adivinhar meu sofrimento, ninguém tinha consciência que eu viveria por cem anos e por cem anos eu seria ridicularizada porque sentia o falo de Deus apodrecendo minha vagina. Um clitóris-seixo ruindo do nascimento a morte.

Parte 2 (O ovo e a origem dos órgãos): Eu não era, porém o réptil amarelo soprou em minha boca e eu inflei. Rodopiei sobre meu eixo e descobri meus seios. Deitei na cama do meu carrasco, ele me convenceu que os orifícios-estigmas que eu trazia não eram regiões abissais, mas fontes de um prazer supremo. Abri a boca e o deixei tocar na campainha que tremia com qualquer grunhido. Conduzi suas mãos entre minhas pernas e ele massageou a úvula acima dos pequenos lábios. O meu esfíncter se rompeu e dele explodiu um sol rubro e fecundo. Ovulo. Coito anal. A humanidade se expande no interstício entre o ruído e a merda. Na bifurcação do meu novo corpo, agora apaziguado, um ovo habitava. Uma jararaca de rabo branco ameaçava o bote.


Parte 3 (O cão trágico ou o sepulcro do eu): Conheci outros parentes, outros bichos, outros carrascos e todos dormiram sobre minha puberdade. E todos eles me enganaram desde a infância, me fazendo acreditar que eu era insubstituível. E passaram-se anos e eu chorei meus mortos e eles eram velados e encontrei outros homens de rosto lixado e meus mortos foram cremados e esquecidos, viraram fuligem e seus nomes não me lembro bem, homo sapiens homo erectus neantherdais homens da pedra lascada e suas artes, única coisa eterna, agora viraram artes rupestres perdidas em algum muro-asfalto da cidade. Me fizeram acreditar que eu era o grande cão emplumado, que a qualquer momento alçaria voo, o bode de chifre de ouro. A verdade é que eu sou um bode expiatório, o sangue jorrado da vulva pela sodomia alheia. Tropecei, caí em buracos bem pequenos, cavei para enterrar ossos, o fêmur do monstro branco que clareava o abismo, o monstro que restou de toda grandeza. Ele, num dia que arrancava minha pele, me disse: Você é um lindo cão emplumado! E deslizou a mão sobre meu dorso supostamente alado. Mas no espelho de moldura alaranjada pregado naquele cubículo, eu reconheci meu carrasco, enquanto um mar vermelho dividia-me ao meio. Olhei de novo para o pequeno espelho retangular e vi que eu não passava de um cão vira-lata roendo o osso do eterno retorno.

domingo, 21 de julho de 2013

COLUNA DO PATINHO


Poetas ligados à revista carioca Inimigo Rumor (que também atende pelo nome de guerra Modo de Usar & Co.) sempre participaram dos concursos da Petrobrás, revezando-se nos papeis de jurados e poetas contemplados. Agora que seus porta-vozes aderiram ao movimento dos retrógrados, será que vão largar a boquinha? Ou vão continuar falando mal do governo federal, mas mantendo seu lobby literário? Aguardemos a próxima edição do concurso, vamos checar os nomes dos jurados e dos poetas premiados...

UM POEMA DE CHIU YI CHIH


TRANSCURSO


próximo aos estiletes de fogo que cospem lâminas finíssimas de chumbo ou avançando por detrás da escaramuça das algas insufladas pelas lascas eufóricas tal como o transístor das risadas coléricas precipitando-se às melodias de ondas incestuosas num revolutear de cristas incontáveis a contrair os minutos através das emanações de uma escada quase ovalada à espera de que todos os seres com aquelas flatulências possam se esgueirar acima dos estuques de gesso onde os fungos das trêmulas ancas se desatrelam com as lagartas de línguas enrubescidas embora nem sempre as lamentações de um cadáver insepulto se mantenham à distância dos edifícios esquálidos de certas plenitudes irreais enquanto assim um semi-animal humano parece estar rastejando nos lábios do cimento adormecido durante a sua translação para além das bifurcações de outras ferrovias que vão se perfilando às cegas sobre as reminiscências das válvulas da matilha atacada pelas fossas de um velho armazém como se apenas as suas mandíbulas inferiores pudessem se rejuvenescer com a plumagem dos túmulos e as cordilheiras de uma faísca submersa

(Leiam mais poemas de Chiu Yi Chih na edição de agosto da Zunái.)

UM POEMA DE ABREU PAXE

NKALU A MAZA: TIGELA DE SENTIDOS

     A mbuta bavova vô
descalçadas e fraternos no aço há braços e botas  também o carvão preto
aceso em brasa vermelho nos cristais dum denso signo a mbuta enquanto saliva
se levantam essas águas do rio correm para o sul as fontes precisam de
montanhas
os vales de um banho seco prisioneiro bavova vo as bactérias
desta garrafa da taça de vinho comia de botas vermelhas de ferida
e tudo começa com os olhos destas bocas destas espingardas desta guerra
ouro preto benigna meu mundo congelado o seu lugar de tanque a cama no lugar
da geografia do meu desenhado espaço jardins  todo o gesso requerido
Sul e Norte a mina mu-ntu o distante e perto Oeste e Este as linhagens
ampliam-se
feito artérias tomam o corpo por inteiro e nele abrem os ventrículos e
as aurículas
circulam todas as frutas e sabores no vale e nas montanhas por exemplo
mangas, mamões,
bananas, testículos, seios, pénis, vagina o arquejante altar os mais
velhos disseram assim.

(Confiram mais poemas de Abreu Paxe na edição de agosto da Zunái)


UM CONTO DE JOÃO ANZANELLO CARRASCOZA

SEDE



O rio, o rio fluía, quieto, na noite. O luar era tão luar, que do rochedo onde eu estava, pude ver a mulher emergir das profundezas e nadar de costas até a margem. Ela saiu da água e veio em minha direção, devagar, gotejando-se no caminho. Parecia que o mundo andava na ponta de seus pés. Embora eu temesse me afogar na sua sombra, a cada um de seus passos o receio ia se despedindo de mim. Ao redor, as coisas em excesso pediam licença, silenciosamente. Estávamos nos esvaziando. Ela movendo-se. Eu, imóvel. Logo, chegou ao rochedo e se sentou à minha frente. Não recordo o que conversamos, apenas que não podíamos dar às palavras o contorno que as definiam como palavras. O céu com suas estrelas, lá de cima, nos observava. Então, abracei-a, farejando a sua pele, o seu cheiro de água. E, para saciar a minha seca, comecei a beber, sem pressa, o rio que nela fluía.  

(Leiam mais contos de João Anzanello Carrascoza na edição de agosto da Zunái.) 

UM POEMA DE RODRIGO GARCIA LOPES

MANASOTA KEY

Nas páginas do mar
pelicanos em linha
escrevem as sombras de seus peitos
ao quase tocarem uma onda.
O sol rascunha rubros
bilhetes de despedida, toda tarde.
Golfinhos, suas barbatanas
relatam os rudes caminhos
pela pradaria das baleias.
Mergulhões redigem sua escrita kamikaze,
suicida, invisível por instantes.

Nas páginas da areia
(cujas conchas são suas obras completas)
fósseis negros de dentes de tubarão
escrevem a autobiografia
de dois milhões de anos.
Rastro de guaxinim,
seu romance de aventura
da duna à estrada.
Um siri deixa sua assinatura
sobre marcas de pneus de um SUV.
Garrafa com uma mensagem, um pen drive
com a história de um naufrágio.

Nas páginas do céu
nuvens ancestrais e sempre-novas relatam
suas viagens sobre o mundo, infinitas.
Furacões emplacam best-sellers
sobre o Golfo do México
enquanto folhas de outono caligrafam no ar
ideogramas precisos,
memórias do vento.
Satélites traçam haicais de luz.
A lua amarelo-limão descreve seu brilho solene

sobre as palmeiras da Flórida.

Eu não escrevo nada. 

(Confiram mais poemas de Rodrigo Garcia Lopes na edição de agosto da Zunái)

terça-feira, 16 de julho de 2013

RELENDO CRUZ E SOUSA



Cruz e Sousa, em Broqueis e Farois, criou um vocabulário novo, como um verdadeiro taumaturgo morfológico: absíntica, nirvânica, tantálico, beethovínica, estradivário, torcicolosamente, entre outros neologismos, mesclados a outros termos, de laivos gongorinos: neblinoso, alampadário, flamívona, alabastrino, espumaroso, empurpuresce. Com esse grimoire de sortilégios e encantações, Cruz e Sousa conduziu aliterações (“suspira, sofre, cisma, sente, sonha”), anagramas (“areia úmida e miúda”), paronomásias (“torvas e turvas”, “gralha, grasma e grulha”), anáforas (“só fúria, fúria, fúria, fúria, fúria”) e outras magias semânticas que podem ser colocadas, sem intenção filantrópica, ao lado das construções inusitadas de Kilkerry ou Sousândrade. No caso específico de Missal, escreve Aguinaldo José Gonçalves que “perpassa todas as páginas desta obra um movimento inebriante de imagens simbólicas, mescladas a um total clima de sonho e de sensibilização em várias dimensões”. O poeta de Nossa Senhora do Desterro seria o autor de “um estilo novo, uma linguagem inédita mais fluida, mais cheia de matiz, plena de alusões mitológicas e de envolvimentos fantásticos” (idem). É possível argumentar que Missal, embora seja uma obra revolucionária em relação ao realismo-naturalismo e à poesia parnasiana, e a despeito de fragmentos de notável modernidade pré-cubista, como Navios (“Praia clara, em faixa espelhada ao sol, de fina areia úmida e miúda de cômoro”), não pode ser comparada, no cenário internacional, a obras de maior voo inventivo, como o Igitur de Mallarmé ou Les chants de Maldoror de Lautréamont; no entanto, essa objeção se torna caduca frente a composições como esta, de Evocações:     

Sentirás no Asinino a imitação do teu Silêncio, a imitação da tua Sombra – sombra e silêncio d’espelho, sombra e silêncio refletidos do teu silêncio e da tua sombra, sombra e silêncio reproduzidos d’espelho contra espelho.

(...)

Vida do eu visual, do eu olfativo, do eu mental, do eu sensível, faz vida original, faz vida de temperamento, portanto, vida ingenitamente particular e nova, dirás tu na perfectabilidade da tua visão.

(...)

Sempre sol contra sol, sempre sombra contra sombra, sempre espelho contra espelho. Sempre este espelho – Homero contra este espelho – Virgílio. Sempre este espelho – Shakespeare, contra este espelho – Balzac, ou contra este espelho – Dante, ou contra este espelho – Hugo. Sempre este espelho – Flaubert, contra este espelho – Zola, ou contra este espelho – Goncourt. Sempre este espelho – Baudelaire, contra este espelho – Poe, contra este espelho – Villiers e contra este espelho – Verlaine. Sempre este espelho – Ibsen, contra este espelho – Maeterlink.

Notável, neste fragmento (Espelho contra espelho) – uma profissão de fé simbolista – o uso de recursos que seriam empregados, cerca de meio século depois, por autores como Gertrude Stein: a repetição hipnótica de frases ou palavras, com mínimas alterações ortográficas, fora de qualquer estrutura identificável de prosa ou poesia; a fratura sintática; o uso dos sinais de pontuação como intervenções de natureza gráfico-visual;  a enumeração caótica (no caso, de autores venerados do cânone simbolista, com destaque para autores da linha “sério-estética”, na definição de Edmund Wilson, como Baudelaire e Verlaine, com a incompreensível exclusão de Rimbaud e Mallarmé e dos poetas da linha “coloquial-irônica”, Corbière e Laforgue).  Um Cruz e Sousa distante das névoas parnaso-simbolistas, das imagens deliberadamente grotescas, da retórica sentimental, e muito próximo das experimentações semânticas das vanguardas das primeiras décadas do século XX, ainda não devidamente estudado por nossa crítica literária, tão avessa à contribuição simbolista.


DOIS POEMAS EM PROSA DE CRUZ E SOUSA





BALADA DE LOUCOS

Oui, nulle souffrance ne se perd, toute douleur fructifie, il en reste un arome  subtil qui se répand indefiniment dans le monde!

M. De Vogué


Mudos atalhos a forana soturnidade de alta noite, eu e ela, caminhávamos.

Eu, no calabouço sinistro de uma dor absurda, como de feras devorando entranhas, sentindo uma sensibilidade atroz morder-me, dilacerar-me.

Ela, transfigurada por tremenda alienação, louca, rezando e soluçando baixinho rezas bárbaras.

Eu e ela, ela e eu! — ambos alucinados, loucos, na sensação inédita de uma dor jamais experimentada.

A pouco e pouco — dois exilados personagens do Nada — parávamos no caminho solitário, cogitando o rumo, como, quando se leva a enterrar alguém, as paradas rítmicas do esquife...

Eram em torno paisagens tristes, torvas, árvores esgalhadas nervosamente, epilepticamente — espectros de esquecimento e de tédio, braços múltiplos e vãos sem apertar nunca outros braços amados!

Em cima, na eloquência lacrimal do céu, uma lua de últimos suspiros, morta, agoniadamente morta, sonhadora e niilista cabeça de Cristo de cabelos empastados nos lívidos suores e no sangue negro e esverdeado das letais gangrenas.

Eu e ela caminhávamos nos despedaçamentos da Angústia, sem que o mundo nos visse e se apiedasse, como duas Chagas obscuras mascaradas na Noite.

Longe, sob a galvanização espectral do luar, corria uma língua verde de oceano, como a orla de um eclipse...

O luar plangia, plangia, como as delicadas violetas doentes e os círios acesos das suas melancolias, as fantasias românticas de sonhador espasmado.

Parecia o foco descomunal de tocheiros ardendo mortuariamente.

A pouco e pouco — dois exilados personagens do Nada — parávamos no caminho solitário, cogitando o rumo, como, quando se leva a enterrar alguém, as paradas rítmicas do esquife...

Beijos congelados, as estrelas violinavam a sua luz de eternidade e saudade.

E a louca lúgubres litanias rezava sempre, soluços sem o limitado do descritível — dor primeira do primeiro ser desconhecido, originalidade inconsciente de um dilaceramento infinitamente infinito.

Eu sentia, nos lancinantes nirvanescimentos daquela dor louca, arrepios nervosos de transcendentalismos imortais!

O luar dava-me a impressão difusa e dormente de um estagnado lago sulfurescente, onde eu e ela, abraçados na suprema loucura, ela na loucura do Real, eu na loucura do Sonho, que a Dor quint'essenciava mais, fôssemos boiando, boiando, sem rumos imaginados, interminamente, sem jamais a prisão do esqueleto humano dos organismos — almas unidas, juntas, só almas vogando, almas, só almas gemendo, almas, só almas sentindo, desmolecularizadamente...

E a louca rezava e soluçava baixinho rezas bárbaras.

Um vento erradio, nostálgico, como primitivos sentimentos que se foram, soprava calafrios nas suas velhas guslas.

De vez em quando, sobre a lua, passava uma nuvem densa, como a agitação de um sudário, a sombra da asa de uma águia guerreira, o luto das gerações.

De vez em quando, na concentração esfingética de todos os meus sofrimentos, eu fechava muito os olhos, como que para olhar para o outro espetáculo mais fabuloso e tremendo que acordava tumulto dentro de mim.

De vez em quando um soluço da louca, vulcanizada balada negra, despertava-me do torpor doloroso e eu abria de novo os olhos.

E outro soluço, outro soluço para encher o cálix daquele Horto, outro soluço, outro soluço.

E todos esses soluços parecia-me subirem para a lua, substituindo miraculosamente as estrelas, que rolavam, caíam do Firmamento, secas, ocas, negras, apagadas, como carvões frios, porque sentiam, talvez! que só aqueles obscuros soluços mereciam estar lá no alto, cristalizados em estrelas, lá no Perdão do Céu, lá na Consolação azul, resplandecendo e chamejando imortalmente em lugar dos astros.

A pouco e pouco — dois exilados personagens do Nada — parávamos no caminho solitário, cogitando o rumo, como, quando se leva a enterrar alguém, as paradas rítmicas do esquife...

O vento, queixa vaga dos túmulos, esperança amarga do passado, surdinava lento.

De instante a instante eu sentia a cabeça da louca pousada no meu ombro, como um pássaro mórbido, meiga e sinistra, de uma doçura e arcangelismo selvagem e medroso, de uma perversa e febril fantasia nirvanizada e de um sacrílego erotismo de cadáveres. Ficava tocada de um pavor tenebroso e sacro, uma coisa como que a Imaginativa exaltada por cabalísticos aparatos inquisitoriais, como se do seu corpo se desprendessem, enlaçando-me, tentáculos letárgicos, veludosos e doces e fascinativos de um animal imaginário, que me deliciassem, aterrando...

Eu a olhava bem na pupila dos grandes olhos negros, que, pela contínua mobilidade e pela beleza quente, davam a sugestão de dois maravilhosos astros, raros e puros, abrindo e fechando as chamas no fundo mágico, feérico da noite.

Naquela paisagem extravagante parecia passar o calafrio aterrador, a glacial sensação de um hino negro cantado e dançado agoureiramente por velhas e espectrais feiticeiras nas trevas...

A lua, a grande mágoa requintada, a velha lua das lágrimas, plangia, plangia, como que na expressão angustiosa, na sede mais cega, na mais latente ansiedade de dizer um segredo do mundo...

E eu então nunca mais, nunca mais me esquecerei daqueles ais terríveis e evocativos, daquelas indefiníveis dolências, daquela convulsiva desolação, que sempre pungentemente badalará, badalará, badalará na minh'alma dobres agudos e lutuosos de uma Ave-Maria maldita de agonias, como se todos os bons Anjos da Mansão se rebelassem um dia contra mim cantando em coro reboantes, conclamantes hosanas de perseguição e de fel!

Nunca! nunca mais se me apagará do espírito essa paisagem rude, bravia, envenenada e maligna, todo aquele avérnico e irônico Pitoresco lúgubre, por entre o qual silhueticamente desfilamos, eu, alucinado num sonho mudo, ela, alienada, louca — simples, frágil, pequenina e peregrina criatura de Deus, abrigada nos caminhos infinitos deste tumultuoso coração.

Só quem sabe, calmo e profundo, adormecer um pouco com os seus desdéns serenos e sagrados pelo mundo e escutou já, de manso, através das celas celestes do mistério das almas, uma dor que não fala, poderá exprimir a sensação aflitíssima que me alanceava...

Ah! eu compreendia assim os absolutos Sacrifícios que redimem, as provações e resignações que transfiguram e renovam o nosso ser! Ah! eu compreendia que um Sofrimento assim é um talismã divino concedido a certas almas para elas adivinharem com ele o segredo sublime dos Tesouros imortais.

Um Sofrimento assim despertava em mim outras cordas, fazia soar outra obscura música. Ah! eu me sentia viver desprendido das cadeias banais da Terra e pairando augustamente naquela Angústia, tremenda, que me espiritualizava e disseminava nas Forças repurificantes da Eternidade!

E como dentro de mim estava aberto para ela o suntuoso altar da Piedade e da Ternura, eu, com supremos estremecimentos, acariciava essa alucinada cabeça, eu a levantava sobre o altar, acendia todas as prodigiosas e irisantes luzes a esse fantasma santo, que ondulava a meu lado, no soturno e solene silêncio de fim daquela sonâmbula peregrinação, como se ambos os nossos seres formassem então o centro genésico do novo Infinito da Dor!


ESPELHO CONTRA ESPELHO


Tu, alma eleita, que trazes essa sede de Espaço, essa ansiedade de Infinito, essa doença do Desconhecido que te fascina os nervos, que vieste ao mundo para falar pelas outras bocas, para ser a voz viva de todas as vozes mortas; tu, que andas em busca de uma dor que venha ao encontro da tua; tu, que interpretas tanta queixa, tanta queixa, tanta queixa dos Corações, tanta queixa dos Espíritos, tanta queixa das Almas, tudo porque não há resposta a esta pergunta horrível: por que nos deram a Vida?! Tu, que legaste toda a delicadeza virginal do Sentimento a este Apostolado doce e amargo da Arte, bela e triste; tu, que sentes chamejar e cantar a inefável poesia que te alimenta como o óleo alimenta as lâmpadas; tu, cujo espírito é uma fonte de dons maravilhosos onde os sedentos se debruçam e bebem à farta a água mais cristalina, mais clara; tu, que tão sagradamente te revoltas, na majestade ideal das águias e dos leões, e que na candidez, na ingenuidade casta e santa da tua alta nobreza de Arte atinges com a ponta das asas espirituais a ponta das asas dos Anjos! Tu, ó alma aureolada de deslumbramentos brancos, Lírio estético que um luar de sonhos sensibilizou, ouve este verbo veemente, vivo, de quem procura sentir os altos segredos da Existência, perscrutar-lhe as íntimas origens fugidias.

Ouve este verbo vulcanizado, convulso, cheio das grandes tempestades ideais que abalam o Sentimento do mundo. Ouve este verbo aceso, inflamado na chama do Absoluto, para ele subindo e para ele palpitando sempre. Ouve este verbo indomável — vento que sopra pelas trompas do mar e que soluça pelas harpas do céu toda a grandeza de uma Ilusão, toda a majestade de uma Fé.

Eu falo a ti, Alma eleita e desolada nos crepúsculos da Cisma; não falo às almas antipáticas, cruamente ardentes, acres, como terrenos crestados, muito flagrantes de sol, sem sombras consoladoras... Falo a ti, que sentes e sabes o frio que vai pelo mundo, como as almas tiritam sem agasalho, desabrigadas, como as consciências enregelam sem amor e sem bondade na ferocidade dos brutos instintos, como a doce e nobre Humildade se encolhe e protege nos obscuros vãos de uma porta para não morrer esmagada pelo bárbaro tacão da Prepotência, como a filáucia triunfa e como a Grande Virtude de todos os tempos está cega e pede esmola envolta em duros frangalhos! Tu, Genial, que tens suspiros, que tens ânsias, que tens lágrimas para esta Comédia fúnebre, mas dolorosa, em que vai o mundo; tu, singular e lívido demônio que te fizeste monge, que tens a tua ironia santa que diviniza e nirvaniza, o teu rebelado sarcasmo em brasas, toda tua mordacidade inclemente para essas tristes cousas terrenas, não podes ver sem abalo, sem comoção profunda, almas de mocidade já sem dedicação intensa, sem energias claras, sem entusiasmo absoluto. Não desse entusiasmo oficial, coletivo, das massas — mas esse entusiasmo propulsor das células, esse entusiasmo dúctil, voluptuoso, nervoso, que vem da extrema sensibilidade; esse entusiasmo que é tônico, que é éter puro, que é oxigênio matinal, que é essência criadora, que é chama fecunda e asa branca no genuíno espírito; esse entusiasmo que é força altiva, que é dignidade serena, que é emoção original e casta, que infiltra azul e sol nas veias, acende aurora e vibra cânticos no sangue.

Há de doer-te fundo esse desolamento, essa morte das almas, essa aridez, essa petrificação de sentimentos em tudo. Há de doer-te muito que os impotentes se liguem aos impotentes, os nulos aos nulos, os frouxos aos frouxos, os esgotados aos esgotados. Que nada os separe, nada os afaste. Que quanto mais se reconheçam tartufos mais se unam no intuito e no instinto de se conservarem inatacáveis, embora, mesmo, no fundo, e fatalmente, se destruam, se odeiem, achando um incômodo a existência dos outros. Há de doer-te muito que uma envenenada relação secreta os una, os congregue, os irmane, para juntos darem batalha subterrânea, cavilosa e vilã, aos que trazem a clara força tranquila de um alto Desígnio, como armadura de astros, no peito.

Há de afligir-te muito que na hora da mais profunda, da infinita Desolação, até os mais íntimos te abandonem, desapareçam, como que tocados pela ideia de que os teus extremos fatalismos são inconvenientes e contagiosos!

Há de fazer brotar em ti a luminosa flor da ironia, o aspecto ousado do Asinino, que quer a todo o transe medir-se contigo, pôr-se no mesmo paralelo, porque vê tanto como tu, sente tanto como tu, sonha e é tão legítimo ser como tu!! Se tu lhe dizes versos ele diz-te versos, se tu lhe dizes prosa ele diz-te prosa, opondo a natureza dele a tudo, atropelando as cousas, atrabiliariamente, acertando, às vezes, por acaso, por assimilação fácil, por percepção de simples arguto, mas não trazendo os fundamentos de sangue e de sonho, esse longínquo infinito de origem, essa harmonia interior e essa beleza heroica tão pouco perceptível e penetrável.

Sentirás no Asinino a pressa de comunicar primeiro que ninguém ideias que já Alguém pôs em circulação no tempo, nas correntes do ar; ideias que já foram acariciadas por outro com delicadeza mais particular, com veemência mais extrema, com intuição mais clara, com amor mais eloquente, com entendimento mais recôndito. Sentirás no Asinino a natureza essencialmente auditiva, que ouve e torna-se o eco fácil, ingênuo, irresponsável, mas errado, mas corrompido, impuro já, da Grande Voz poderosa, honesta e pura que ouviu, porém que ouviu mal, sem a plasticidade necessária para receber, no seu primitivo apuramento imaculado, todas as complexas e infinitas vibrações, nuances e modalidades dessa Grande Voz.

Sentirás no Asinino a intenção capciosa de ser o teu refletor, de cruzar nos teus os seus raios, de produzir os mesmos reflexos, de apresentar as mesmas faces iluminantes, as mesmas irradiações e golpes de luz, as facetas do mesmo cristal e o fundo do mesmo aço.

Sentirás no Asinino a revelação da tua revelação, o despertar do teu despertar, a sugestão da tua sugestão — mas isso truncado, hipertrofiado, inteiramente desviado dos eixos centrais do teu Objetivo, sem a unidade inicial dos órgãos ingênitos que propulsionaram e deram a integração final às linhas gerais da sensibilidade do teu ser, à zona compacta e luminosa do foco supremo das tuas Intuições.

Sentirás no Asinino a imitação do teu Silêncio, a imitação da tua Sombra — sombra e silêncio d'espelho, sombra e silêncio refletidos do teu silêncio e da tua sombra, sombra e silêncio reproduzidos d'espelho contra espelho.

Não poderás projetar o teu vulto num lago que o Asinino não projete também o seu vulto no mesmo lago; não poderás aquarelar o teu perfil num luar que o Asinino não aquarele também o seu perfil no mesmo luar.

Se a tua Imaginação é virgem, reverdece agora nos luminosos pomares da Fantasia, a Imaginação do Asinino também é virgem e reverdece agora nos mesmos luminosos pomares. Não podes vir da raiz viva e violenta de uma sensação, da agudeza de uma Causa, da livre enunciação de um fenômeno porque o Asinino também vem de lá, também de lá procede, também de lá se origina. Não há originalidades subjetivas, clama o Asinino, não há o puro sentir, o novo sentir, o excepcional sentir! Tudo já passou depurado pelo meu organismo, que é o crisol das purificações, clama o Asinino.

Vida do eu visual, do eu olfativo, do eu mental, do eu sensível, faz vida original, faz vida de temperamento, portanto, vida ingenitamente particular e nova, dirás tu na perfectibilidade da tua visão.

Mas o Asinino, que é a Rotina secular, que é a Regra universal, argumenta com pedras em vez de argumentar com sentimentos, com emotividades, com dutilidades e mistérios de alma.

Nuances novas de alma, caminhos não explorados no mundo do Pensamento, certos segredos e transfigurações, rumos inéditos, paragens de uma inaudita melancolia, tudo é paralelamente julgado pelo Asinino, que logo estabelece para as relações de cada caso especial a mesma esfera de ação de múltiplos casos diversos.

Sempre sol contra sol, sempre sombra contra sombra, sempre espelho contra espelho.

Sempre este espelho — Homero, contra este espelho — Virgílio. Sempre este espelho — Shakespeare, contra este espelho — Balzac, ou contra este espelho — Dante, ou contra este espelho — Hugo. Sempre este espelho — Flaubert, contra este espelho — Zola, ou contra este espelho — Goncourt. Sempre este espelho — Baudelaire, contra este espelho — Poe, contra este espelho — Villiers e contra este espelho — Verlaine. Sempre este espelho — Ibsen, contra este espelho — Maeterlinck.

Sempre, eternamente estes espelhos impolutos e astrais que reproduzem a perfectibilidade de sentimentos nas gerações, paralelamente igualados, medidos e pesados pelo Asinino, que os equipara, confundindo-lhes a delicadeza e fulguração dos cristais.

Sempre um Sentimento contra outro Sentimento, como se pudesse haver uma alma com a cor e a sonoridade de outra alma!

E tu, na impaciência, na inquietação do teu voo astral para as serenas Esferas, buscarás libertar-te, desacorrentar-te dos grilhões a que essa Rotina te prendeu, a que ela te sujeitou com a responsabilidade das primitivas camadas da Inteligência, para poderes afirmar que, como os Eleitos guiados a sós pelo seu Destino, tu também vieste só, representando um fenômeno desprendido no Espaço, sem leis de correlação no sentimento da tua Dor — uno e indivisível fenômeno no obscuro e perpétuo germinal da Natureza.

Na solidão do teu Ideal ficarás como um astro singular vivendo na luz nostálgica de uma órbita imaginária, sem que a confusão dos tempos possa jamais quebrar a intensidade do teu brilho e a serenidade da tua força.

O Asinino continuará lá embaixo, na turba, na multidão, no rodar das épocas, estreitamente e empiricamente a comparar, a comparar, a medir o teu Infinito pelo infinito da sua miopia secular, lá embaixo, na turba, na multidão. Tu, além, lá em cima, superpondo-te aos mundos rolarás, transbordarás, na augusta perpetuidade do Sentimento. 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

MUDA BRASIL -- COM DILMA, PELA DEMOCRACIA E PELA TRANSFORMAÇÃO SOCIAL DO BRASIL


O Brasil quer mudanças!

Milhões de brasileiros foram às ruas por mais verbas para a educação, a saúde, transporte de qualidade e com tarifas reduzidas. São reivindicações justas, atendidas de imediato por nossa presidenta, Dilma Rousseff, que enviou um decreto, aprovado pelo Congresso Nacional, que destina 75% dos royalties do petróleo para a educação e 25% para a saúde, além de convocar os governadores e prefeitos das capitais para discutir as tarifas e a melhoria do transporte público para os brasileiros. O Movimento Passe Livre foi convidado a participar de reuniões no Palácio do Planalto e em diversas cidades do país a tarifa do ônibus e do metrô foi reduzida. A reforma política, outra exigência dos movimentos sociais, também foi atendida pela presidenta, que discute com lideranças partidárias a forma como ela será realizada, sendo o plebiscito a forma mais democrática, pois o povo pode opinar ANTES de as decisões serem tomadas. Estas são importantes conquistas da juventude e da classe trabalhadora brasileira.

Infelizmente, as mobilizações mais recentes passaram a ser organizadas e pautadas por grupos conservadores, que representam setores como o capital financeiro e a chamada grande imprensa, em especial a Rede Globo, a revista VEJA e os jornais O Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo, que desejam desestabilizar o governo federal, ameaçando a democracia representativa e acenando com a volta da ditadura militar. Estes setores já manifestaram nas ruas o seu autoritarismo, queimando bandeiras de partidos de esquerda e do Movimento Negro Unificado e agredindo sindicalistas da Central Única dos Trabalhadores, gritando slogans como “fim dos partidos políticos”, o que equivale ao fim do sistema democrático.  O que estes setores – Revoltados On Line, OCC, integralistas, neonazistas, DEM, PSDB, entre outros, com amplo apoio da mídia – realmente querem destruir, juntamente com a democracia, são as inegáveis conquistas sociais dos últimos dez anos de governos progressistas, que tiraram 40 milhões de brasileiros da situação de miséria.

O Brasil avançou muito com Lula e Dilma, em todos os campos – temos hoje 5,5% de desemprego, contra 26% na Espanha, a inflação está sob controle, foram criadas 12 novas universidades federais, com programas de inclusão como o ProUni e a política de cotas no ensino superior, a segurança alimentar das camadas mais pobres da população foi garantida com o Bolsa-Família, houve redução dos juros bancários, das contas de gás e luz, a extensão da energia elétrica a municípios que não tinham esse benefício, entre muitos outros benefícios.

O Brasil de Lula e Dilma disse NÃO à ALCA de George W. Bush, que levaria à desnacionalização e desindustrialização de nossa economia, interrompeu as privatizações criminosas de Fernando Collor e FHC, fortaleceu o Mercosul, a Unasul e outros organismos de integração e cooperação regional na América Latina.

O Brasil adotou uma nova política externa, que deixou de ser subserviente ao imperialismo, como na era FHC, reconhecendo o Estado da Palestina na ONU, condenando a agressão contra a Líbia, ampliando o comércio e as relações bilaterais com Cuba e outros países socialistas.

O Brasil hoje faz parte de uma nova América Latina, ao lado da Venezuela, Bolívia, Equador, Argentina, Uruguai, Cuba e Nicarágua, uma América Latina que recusa ser quintal dos Estados Unidos e da Europa, como foi por tantos séculos. É isso o que a direita demotucana brasileira quer destruir, se necessário repetindo os trágicos acontecimentos de 1964, em que os mesmos setores se uniram contra o governo progressista de João Goulart.

Frente a essa situação, precisamos defender a democracia, a legalidade, a normalidade constitucional, contra as aventuras golpistas.

É preciso defender o mandato popular de Dilma Rousseff, eleita democraticamente pelo povo brasileiro, e marcharmos juntos com as centrais sindicais, entidades estudantis e populares, partidos operários e progressistas, pela transformação social do Brasil!

Queremos a reforma agrária, a redução da jornada de trabalho sem redução dos salários, a regulamentação da mídia, a revisão das concessões das reservas de pré-sal e várias outras reivindicações apresentadas pelas centrais sindicais brasileiras, que farão uma paralisação nacional unificada no dia 11 de julho.


Vamos todos às ruas – com Dilma, pela democracia e pela transformação social do Brasil!  

segunda-feira, 1 de julho de 2013

RETRATO DO ARTISTA

  




A MÚSICA DO PENSAMENTO DE CLAUDIA ROQUETTE-PINTO

Claudia Roquette-Pinto é uma poeta que dialoga com a fotografia, as artes visuais, o cinema, com a poética de autores como Paul Celan, Novalis e René Char, despertando no leitor uma sensação de encantamento pela sutileza de seus jogos de linguagem. A mitologia pessoal da autora, uma das vozes mais criativas da poesia brasileira contemporânea, é bastante eclética, incluindo desde temas tradicionais da poesia lírica como o tempo, o amor, a viagem, a morte, até pequenos retratos brutalistas da violência urbana no Rio de Janeiro e de guerras que marcaram a história do final do século XX, como o conflito em Saravejo (“Quando a vi, ali, distraída / na escada do ônibus escolar, / nada me preparou para as suas pernas abertas, / no meio a flor dilacerada / repetindo, entre as coxas, / o buraco da bala no peito: / um dois pontos insólito”, lemos no poema Em Saravejo, do livro Margem de manobra). A poesia de Claudia Roquette-Pinto é densa, por vezes enigmática, e revela uma autora que sabe fazer o que quiser com as palavras. Seu livro de estreia, Os dias gagos, foi publicado em 1991, com texto de apresentação de Paulo Henriques Britto, que destaca a sensibilidade musical e a qualidade plástica dos poemas da jovem autora, que constrói estranhas arquiteturas verbais, cheias de sinestesias e metáforas (“engole o que há de doce nos metais”, “o cobre entristece como praias”, “um álcool que rimava com veneno”). O próprio título do livro é uma figura de linguagem, a prosopopeia, que consiste na atribuição de qualidades humanas (como a gagueira) a objetos inanimados ou seres irracionais (no caso, a percepção subjetiva do tempo, presente também na temática de muitas peças do volume). Em Os dias gagos, Claudia Roquette-Pinto subverte o soneto usando diferentes sequências estróficas (adotando inclusive o soneto inglês, em que os 14 versos comparecem num único bloco, sem divisão estrófica), linhas com medidas métricas diferentes, rimas imprevistas e inusitadas (jazz / pontapés, si / eclipse, city / zíper) e uma sintaxe elíptica, recortada, que já prenuncia suas obras da maturidade. Saxífraga (título extraído de um poema de William Carlos Williams), publicado em 1993, é um livro bem diferente e revela o amadurecimento da poeta, que já tem pleno domínio da construção poética. Conforme escreve Carlito Azevedo na “orelha” do livro, “tal como Williams e os ‘objetivistas’ em geral, Claudia pratica em seus poemas uma operação que consiste em isolar os objetos de seu contexto original, que os banaliza, para observá-los (e dá-los a ver) em sua inteira estranheza, coisa-em-si”. Porém, adverte o autor, “Claudia é mais barroca e vertiginosa em seu trato com as palavras; nela, a raridade da imagem e o preciosismo do vocábulo cumprem a missão de explicitar nuances irredutíveis à fala prosaica”. Um bom exemplo da poética de Saxífraga é o poema submerso: “olho: peixe-olho que / desvia a mão enguia / a pele lisa a / te o umbigo e logo / a flora de onde aflora / (na virilha) o / barbirruivo a / ceso bruto an / fíbio: glabro”, que tematiza a relação erótica, transfigurada em episódio aquático (o que recorda a pintura maneirista e barroca e sua paixão pelo monstruoso ou grotesco).

Zona de sombra, publicado em 1997, é um dos livros mais expressivos de Claudia Roquette-Pinto e tem como epígrafe versos de Paul Celan (“Dê também sentido ao seu dito: dê-lhe a sombra”). O livro é ilustrado com reproduções de esculturas de Cristina Rogozinski, que dialogam com o caráter plástico de várias composições do volume, como fósforo, colar, seixo, poemas em prosa ou narrativas líricas construídas como um diário de sensações (“ela segue dormindo na borda do lençol o que a acalenta não são flores – senão aquelas mínimas rosas, pontas buliçosas de falanges a afiar seus instrumentos”, lemos em fósforo). A peça mais curiosa do livro talvez seja no éden, em que a autora faz um strip-tease cheio de humor negro: “peça a ela que se desnude / começa pelos cílios / segue-se ao arame dos / utensílios diários / (...) é preciso que se arranque toda a face / deixar que os olhos descansem / lado a lado com os sapatos / na camurça oscilante / de um quarto”.

Corola, publicado em 2000, desloca o foco de interesse da imagem para a música do pensamento. É um livro mais pessoal e reflexivo, embora não caia no mero confessionalismo: a poeta se expressa como enigma e labirinto: “desço no poço do silêncio / que em gerúndio vara madrugadas / ora branco (como lábios de espanto) / ora negro (como cego, como / medo atado à garganta) / segura apenas por um fio, frágil e físsil / ínfimo ao infinito”. Não por acaso, o livro presta homenagem a Novalis (“cada pequena curva / tatua as idéias na superfície ácida”, escreve Claudia), poeta-filósofo alemão, cuja lírica não é menos enigmática.  Margem de manobra, título mais recente da poeta, publicado em 2005, traz uma lírica renovada, que sem abdicar do artesanato da linguagem volta sua atenção para a realidade social brasileira e os fatos que acontecem no mundo. Assim, por exemplo, em Santa Teresa, peça concisa e afiada como a lâmina de uma navalha: “Azul explosivo / verde lancinante / e o sol, onipresente, / halo / na cabeça da mulher escalpelada”. O lirismo não está ausente nessa obra, apesar de tantas referências à violência urbana carioca, a conflitos em Saravejo, no Tibete e no Vietnã: o tema amoroso é habilmente reinventado em peças como Os amantes sob os lírios, que dialoga com a pintura de Marc Chagall, e Kit e Port, refabulação do filme O céu que nos protege, de Bertolucci.  A beleza ainda é possível, parece nos dizer a autora, mesmo no centro vertiginoso do caos.

(Artigo publicado na edição de julho da revista CULT, acompanhado de poemas inéditos e fotos de Claudia Roquette-Pinto)

sexta-feira, 28 de junho de 2013