segunda-feira, 22 de julho de 2013

ANÔNIMOS




Há um louco solto na rua.

(Os livros dos uigures foram escritos para serem esquecidos.)

Um policial pede os seus documentos.

(Há três ou quatro especialistas em língua suméria.)

O louco entrega-lhe um tijolo.

(Uma tribo na Ásia Central escreve seus livros sagrados nos ventres de mulheres-anãs.)

O policial fica furioso porque queria um sapato.

(Poucos são capazes de ler as mensagens ocultas no interior das nozes.)

Eles começam a discutir e logo aparece uma mulher gorda que entra na confusão.

(Sobre o que conversam as abelhas?)

O louco declara o seu amor pelos incêndios.

(Nuvens serão letras de um alfabeto cabalístico?)

O policial é apaixonado por boxeadores e telepatas.

 (Os melhores poemas ainda não foram escritos, disse para mim um asceta tuaregue.)

A mulher gorda ataca o louco com a sola de um sapato.

(Quem conhece um grande romancista da Lituânia?)

O cinegrafista do Grande Telejornal filma todo o episódio para exibir no horário nobre.

(Há indícios de vogais e consoantes em teus pequenos lábios.)

 Logo surgem legiões de publicitários, jornaleiros e vendedores de apólices de seguros e tem início uma pancadaria.

(Um miniaturista persa escreveu um longo poema épico numa pena de faisão.)


FIM.

UM CONTO DE MÁRCIA BARBIERI


O UMBIGO DE DEUS 

Parte 1 (A membrana): E uma mosca não cansava de farejar o cu de uma estátua, o cu de um cristo já crucificado. E minha cauda não era capaz de espantar o inseto, porque eu nada sabia sobre o desespero da pedra. Antes da insônia dessa noite eu era matéria sem memória, um peixe cascudo. Meus olhos nada sabiam dos pássaros suicidas-agonizantes que nele habitavam. E ninguém podia adivinhar meu sofrimento, ninguém tinha consciência que eu viveria por cem anos e por cem anos eu seria ridicularizada porque sentia o falo de Deus apodrecendo minha vagina. Um clitóris-seixo ruindo do nascimento a morte.

Parte 2 (O ovo e a origem dos órgãos): Eu não era, porém o réptil amarelo soprou em minha boca e eu inflei. Rodopiei sobre meu eixo e descobri meus seios. Deitei na cama do meu carrasco, ele me convenceu que os orifícios-estigmas que eu trazia não eram regiões abissais, mas fontes de um prazer supremo. Abri a boca e o deixei tocar na campainha que tremia com qualquer grunhido. Conduzi suas mãos entre minhas pernas e ele massageou a úvula acima dos pequenos lábios. O meu esfíncter se rompeu e dele explodiu um sol rubro e fecundo. Ovulo. Coito anal. A humanidade se expande no interstício entre o ruído e a merda. Na bifurcação do meu novo corpo, agora apaziguado, um ovo habitava. Uma jararaca de rabo branco ameaçava o bote.


Parte 3 (O cão trágico ou o sepulcro do eu): Conheci outros parentes, outros bichos, outros carrascos e todos dormiram sobre minha puberdade. E todos eles me enganaram desde a infância, me fazendo acreditar que eu era insubstituível. E passaram-se anos e eu chorei meus mortos e eles eram velados e encontrei outros homens de rosto lixado e meus mortos foram cremados e esquecidos, viraram fuligem e seus nomes não me lembro bem, homo sapiens homo erectus neantherdais homens da pedra lascada e suas artes, única coisa eterna, agora viraram artes rupestres perdidas em algum muro-asfalto da cidade. Me fizeram acreditar que eu era o grande cão emplumado, que a qualquer momento alçaria voo, o bode de chifre de ouro. A verdade é que eu sou um bode expiatório, o sangue jorrado da vulva pela sodomia alheia. Tropecei, caí em buracos bem pequenos, cavei para enterrar ossos, o fêmur do monstro branco que clareava o abismo, o monstro que restou de toda grandeza. Ele, num dia que arrancava minha pele, me disse: Você é um lindo cão emplumado! E deslizou a mão sobre meu dorso supostamente alado. Mas no espelho de moldura alaranjada pregado naquele cubículo, eu reconheci meu carrasco, enquanto um mar vermelho dividia-me ao meio. Olhei de novo para o pequeno espelho retangular e vi que eu não passava de um cão vira-lata roendo o osso do eterno retorno.

domingo, 21 de julho de 2013

COLUNA DO PATINHO


Poetas ligados à revista carioca Inimigo Rumor (que também atende pelo nome de guerra Modo de Usar & Co.) sempre participaram dos concursos da Petrobrás, revezando-se nos papeis de jurados e poetas contemplados. Agora que seus porta-vozes aderiram ao movimento dos retrógrados, será que vão largar a boquinha? Ou vão continuar falando mal do governo federal, mas mantendo seu lobby literário? Aguardemos a próxima edição do concurso, vamos checar os nomes dos jurados e dos poetas premiados...

UM POEMA DE CHIU YI CHIH


TRANSCURSO


próximo aos estiletes de fogo que cospem lâminas finíssimas de chumbo ou avançando por detrás da escaramuça das algas insufladas pelas lascas eufóricas tal como o transístor das risadas coléricas precipitando-se às melodias de ondas incestuosas num revolutear de cristas incontáveis a contrair os minutos através das emanações de uma escada quase ovalada à espera de que todos os seres com aquelas flatulências possam se esgueirar acima dos estuques de gesso onde os fungos das trêmulas ancas se desatrelam com as lagartas de línguas enrubescidas embora nem sempre as lamentações de um cadáver insepulto se mantenham à distância dos edifícios esquálidos de certas plenitudes irreais enquanto assim um semi-animal humano parece estar rastejando nos lábios do cimento adormecido durante a sua translação para além das bifurcações de outras ferrovias que vão se perfilando às cegas sobre as reminiscências das válvulas da matilha atacada pelas fossas de um velho armazém como se apenas as suas mandíbulas inferiores pudessem se rejuvenescer com a plumagem dos túmulos e as cordilheiras de uma faísca submersa

(Leiam mais poemas de Chiu Yi Chih na edição de agosto da Zunái.)

UM POEMA DE ABREU PAXE

NKALU A MAZA: TIGELA DE SENTIDOS

     A mbuta bavova vô
descalçadas e fraternos no aço há braços e botas  também o carvão preto
aceso em brasa vermelho nos cristais dum denso signo a mbuta enquanto saliva
se levantam essas águas do rio correm para o sul as fontes precisam de
montanhas
os vales de um banho seco prisioneiro bavova vo as bactérias
desta garrafa da taça de vinho comia de botas vermelhas de ferida
e tudo começa com os olhos destas bocas destas espingardas desta guerra
ouro preto benigna meu mundo congelado o seu lugar de tanque a cama no lugar
da geografia do meu desenhado espaço jardins  todo o gesso requerido
Sul e Norte a mina mu-ntu o distante e perto Oeste e Este as linhagens
ampliam-se
feito artérias tomam o corpo por inteiro e nele abrem os ventrículos e
as aurículas
circulam todas as frutas e sabores no vale e nas montanhas por exemplo
mangas, mamões,
bananas, testículos, seios, pénis, vagina o arquejante altar os mais
velhos disseram assim.

(Confiram mais poemas de Abreu Paxe na edição de agosto da Zunái)


UM CONTO DE JOÃO ANZANELLO CARRASCOZA

SEDE



O rio, o rio fluía, quieto, na noite. O luar era tão luar, que do rochedo onde eu estava, pude ver a mulher emergir das profundezas e nadar de costas até a margem. Ela saiu da água e veio em minha direção, devagar, gotejando-se no caminho. Parecia que o mundo andava na ponta de seus pés. Embora eu temesse me afogar na sua sombra, a cada um de seus passos o receio ia se despedindo de mim. Ao redor, as coisas em excesso pediam licença, silenciosamente. Estávamos nos esvaziando. Ela movendo-se. Eu, imóvel. Logo, chegou ao rochedo e se sentou à minha frente. Não recordo o que conversamos, apenas que não podíamos dar às palavras o contorno que as definiam como palavras. O céu com suas estrelas, lá de cima, nos observava. Então, abracei-a, farejando a sua pele, o seu cheiro de água. E, para saciar a minha seca, comecei a beber, sem pressa, o rio que nela fluía.  

(Leiam mais contos de João Anzanello Carrascoza na edição de agosto da Zunái.) 

UM POEMA DE RODRIGO GARCIA LOPES

MANASOTA KEY

Nas páginas do mar
pelicanos em linha
escrevem as sombras de seus peitos
ao quase tocarem uma onda.
O sol rascunha rubros
bilhetes de despedida, toda tarde.
Golfinhos, suas barbatanas
relatam os rudes caminhos
pela pradaria das baleias.
Mergulhões redigem sua escrita kamikaze,
suicida, invisível por instantes.

Nas páginas da areia
(cujas conchas são suas obras completas)
fósseis negros de dentes de tubarão
escrevem a autobiografia
de dois milhões de anos.
Rastro de guaxinim,
seu romance de aventura
da duna à estrada.
Um siri deixa sua assinatura
sobre marcas de pneus de um SUV.
Garrafa com uma mensagem, um pen drive
com a história de um naufrágio.

Nas páginas do céu
nuvens ancestrais e sempre-novas relatam
suas viagens sobre o mundo, infinitas.
Furacões emplacam best-sellers
sobre o Golfo do México
enquanto folhas de outono caligrafam no ar
ideogramas precisos,
memórias do vento.
Satélites traçam haicais de luz.
A lua amarelo-limão descreve seu brilho solene

sobre as palmeiras da Flórida.

Eu não escrevo nada. 

(Confiram mais poemas de Rodrigo Garcia Lopes na edição de agosto da Zunái)

terça-feira, 16 de julho de 2013

RELENDO CRUZ E SOUSA



Cruz e Sousa, em Broqueis e Farois, criou um vocabulário novo, como um verdadeiro taumaturgo morfológico: absíntica, nirvânica, tantálico, beethovínica, estradivário, torcicolosamente, entre outros neologismos, mesclados a outros termos, de laivos gongorinos: neblinoso, alampadário, flamívona, alabastrino, espumaroso, empurpuresce. Com esse grimoire de sortilégios e encantações, Cruz e Sousa conduziu aliterações (“suspira, sofre, cisma, sente, sonha”), anagramas (“areia úmida e miúda”), paronomásias (“torvas e turvas”, “gralha, grasma e grulha”), anáforas (“só fúria, fúria, fúria, fúria, fúria”) e outras magias semânticas que podem ser colocadas, sem intenção filantrópica, ao lado das construções inusitadas de Kilkerry ou Sousândrade. No caso específico de Missal, escreve Aguinaldo José Gonçalves que “perpassa todas as páginas desta obra um movimento inebriante de imagens simbólicas, mescladas a um total clima de sonho e de sensibilização em várias dimensões”. O poeta de Nossa Senhora do Desterro seria o autor de “um estilo novo, uma linguagem inédita mais fluida, mais cheia de matiz, plena de alusões mitológicas e de envolvimentos fantásticos” (idem). É possível argumentar que Missal, embora seja uma obra revolucionária em relação ao realismo-naturalismo e à poesia parnasiana, e a despeito de fragmentos de notável modernidade pré-cubista, como Navios (“Praia clara, em faixa espelhada ao sol, de fina areia úmida e miúda de cômoro”), não pode ser comparada, no cenário internacional, a obras de maior voo inventivo, como o Igitur de Mallarmé ou Les chants de Maldoror de Lautréamont; no entanto, essa objeção se torna caduca frente a composições como esta, de Evocações:     

Sentirás no Asinino a imitação do teu Silêncio, a imitação da tua Sombra – sombra e silêncio d’espelho, sombra e silêncio refletidos do teu silêncio e da tua sombra, sombra e silêncio reproduzidos d’espelho contra espelho.

(...)

Vida do eu visual, do eu olfativo, do eu mental, do eu sensível, faz vida original, faz vida de temperamento, portanto, vida ingenitamente particular e nova, dirás tu na perfectabilidade da tua visão.

(...)

Sempre sol contra sol, sempre sombra contra sombra, sempre espelho contra espelho. Sempre este espelho – Homero contra este espelho – Virgílio. Sempre este espelho – Shakespeare, contra este espelho – Balzac, ou contra este espelho – Dante, ou contra este espelho – Hugo. Sempre este espelho – Flaubert, contra este espelho – Zola, ou contra este espelho – Goncourt. Sempre este espelho – Baudelaire, contra este espelho – Poe, contra este espelho – Villiers e contra este espelho – Verlaine. Sempre este espelho – Ibsen, contra este espelho – Maeterlink.

Notável, neste fragmento (Espelho contra espelho) – uma profissão de fé simbolista – o uso de recursos que seriam empregados, cerca de meio século depois, por autores como Gertrude Stein: a repetição hipnótica de frases ou palavras, com mínimas alterações ortográficas, fora de qualquer estrutura identificável de prosa ou poesia; a fratura sintática; o uso dos sinais de pontuação como intervenções de natureza gráfico-visual;  a enumeração caótica (no caso, de autores venerados do cânone simbolista, com destaque para autores da linha “sério-estética”, na definição de Edmund Wilson, como Baudelaire e Verlaine, com a incompreensível exclusão de Rimbaud e Mallarmé e dos poetas da linha “coloquial-irônica”, Corbière e Laforgue).  Um Cruz e Sousa distante das névoas parnaso-simbolistas, das imagens deliberadamente grotescas, da retórica sentimental, e muito próximo das experimentações semânticas das vanguardas das primeiras décadas do século XX, ainda não devidamente estudado por nossa crítica literária, tão avessa à contribuição simbolista.


DOIS POEMAS EM PROSA DE CRUZ E SOUSA





BALADA DE LOUCOS

Oui, nulle souffrance ne se perd, toute douleur fructifie, il en reste un arome  subtil qui se répand indefiniment dans le monde!

M. De Vogué


Mudos atalhos a forana soturnidade de alta noite, eu e ela, caminhávamos.

Eu, no calabouço sinistro de uma dor absurda, como de feras devorando entranhas, sentindo uma sensibilidade atroz morder-me, dilacerar-me.

Ela, transfigurada por tremenda alienação, louca, rezando e soluçando baixinho rezas bárbaras.

Eu e ela, ela e eu! — ambos alucinados, loucos, na sensação inédita de uma dor jamais experimentada.

A pouco e pouco — dois exilados personagens do Nada — parávamos no caminho solitário, cogitando o rumo, como, quando se leva a enterrar alguém, as paradas rítmicas do esquife...

Eram em torno paisagens tristes, torvas, árvores esgalhadas nervosamente, epilepticamente — espectros de esquecimento e de tédio, braços múltiplos e vãos sem apertar nunca outros braços amados!

Em cima, na eloquência lacrimal do céu, uma lua de últimos suspiros, morta, agoniadamente morta, sonhadora e niilista cabeça de Cristo de cabelos empastados nos lívidos suores e no sangue negro e esverdeado das letais gangrenas.

Eu e ela caminhávamos nos despedaçamentos da Angústia, sem que o mundo nos visse e se apiedasse, como duas Chagas obscuras mascaradas na Noite.

Longe, sob a galvanização espectral do luar, corria uma língua verde de oceano, como a orla de um eclipse...

O luar plangia, plangia, como as delicadas violetas doentes e os círios acesos das suas melancolias, as fantasias românticas de sonhador espasmado.

Parecia o foco descomunal de tocheiros ardendo mortuariamente.

A pouco e pouco — dois exilados personagens do Nada — parávamos no caminho solitário, cogitando o rumo, como, quando se leva a enterrar alguém, as paradas rítmicas do esquife...

Beijos congelados, as estrelas violinavam a sua luz de eternidade e saudade.

E a louca lúgubres litanias rezava sempre, soluços sem o limitado do descritível — dor primeira do primeiro ser desconhecido, originalidade inconsciente de um dilaceramento infinitamente infinito.

Eu sentia, nos lancinantes nirvanescimentos daquela dor louca, arrepios nervosos de transcendentalismos imortais!

O luar dava-me a impressão difusa e dormente de um estagnado lago sulfurescente, onde eu e ela, abraçados na suprema loucura, ela na loucura do Real, eu na loucura do Sonho, que a Dor quint'essenciava mais, fôssemos boiando, boiando, sem rumos imaginados, interminamente, sem jamais a prisão do esqueleto humano dos organismos — almas unidas, juntas, só almas vogando, almas, só almas gemendo, almas, só almas sentindo, desmolecularizadamente...

E a louca rezava e soluçava baixinho rezas bárbaras.

Um vento erradio, nostálgico, como primitivos sentimentos que se foram, soprava calafrios nas suas velhas guslas.

De vez em quando, sobre a lua, passava uma nuvem densa, como a agitação de um sudário, a sombra da asa de uma águia guerreira, o luto das gerações.

De vez em quando, na concentração esfingética de todos os meus sofrimentos, eu fechava muito os olhos, como que para olhar para o outro espetáculo mais fabuloso e tremendo que acordava tumulto dentro de mim.

De vez em quando um soluço da louca, vulcanizada balada negra, despertava-me do torpor doloroso e eu abria de novo os olhos.

E outro soluço, outro soluço para encher o cálix daquele Horto, outro soluço, outro soluço.

E todos esses soluços parecia-me subirem para a lua, substituindo miraculosamente as estrelas, que rolavam, caíam do Firmamento, secas, ocas, negras, apagadas, como carvões frios, porque sentiam, talvez! que só aqueles obscuros soluços mereciam estar lá no alto, cristalizados em estrelas, lá no Perdão do Céu, lá na Consolação azul, resplandecendo e chamejando imortalmente em lugar dos astros.

A pouco e pouco — dois exilados personagens do Nada — parávamos no caminho solitário, cogitando o rumo, como, quando se leva a enterrar alguém, as paradas rítmicas do esquife...

O vento, queixa vaga dos túmulos, esperança amarga do passado, surdinava lento.

De instante a instante eu sentia a cabeça da louca pousada no meu ombro, como um pássaro mórbido, meiga e sinistra, de uma doçura e arcangelismo selvagem e medroso, de uma perversa e febril fantasia nirvanizada e de um sacrílego erotismo de cadáveres. Ficava tocada de um pavor tenebroso e sacro, uma coisa como que a Imaginativa exaltada por cabalísticos aparatos inquisitoriais, como se do seu corpo se desprendessem, enlaçando-me, tentáculos letárgicos, veludosos e doces e fascinativos de um animal imaginário, que me deliciassem, aterrando...

Eu a olhava bem na pupila dos grandes olhos negros, que, pela contínua mobilidade e pela beleza quente, davam a sugestão de dois maravilhosos astros, raros e puros, abrindo e fechando as chamas no fundo mágico, feérico da noite.

Naquela paisagem extravagante parecia passar o calafrio aterrador, a glacial sensação de um hino negro cantado e dançado agoureiramente por velhas e espectrais feiticeiras nas trevas...

A lua, a grande mágoa requintada, a velha lua das lágrimas, plangia, plangia, como que na expressão angustiosa, na sede mais cega, na mais latente ansiedade de dizer um segredo do mundo...

E eu então nunca mais, nunca mais me esquecerei daqueles ais terríveis e evocativos, daquelas indefiníveis dolências, daquela convulsiva desolação, que sempre pungentemente badalará, badalará, badalará na minh'alma dobres agudos e lutuosos de uma Ave-Maria maldita de agonias, como se todos os bons Anjos da Mansão se rebelassem um dia contra mim cantando em coro reboantes, conclamantes hosanas de perseguição e de fel!

Nunca! nunca mais se me apagará do espírito essa paisagem rude, bravia, envenenada e maligna, todo aquele avérnico e irônico Pitoresco lúgubre, por entre o qual silhueticamente desfilamos, eu, alucinado num sonho mudo, ela, alienada, louca — simples, frágil, pequenina e peregrina criatura de Deus, abrigada nos caminhos infinitos deste tumultuoso coração.

Só quem sabe, calmo e profundo, adormecer um pouco com os seus desdéns serenos e sagrados pelo mundo e escutou já, de manso, através das celas celestes do mistério das almas, uma dor que não fala, poderá exprimir a sensação aflitíssima que me alanceava...

Ah! eu compreendia assim os absolutos Sacrifícios que redimem, as provações e resignações que transfiguram e renovam o nosso ser! Ah! eu compreendia que um Sofrimento assim é um talismã divino concedido a certas almas para elas adivinharem com ele o segredo sublime dos Tesouros imortais.

Um Sofrimento assim despertava em mim outras cordas, fazia soar outra obscura música. Ah! eu me sentia viver desprendido das cadeias banais da Terra e pairando augustamente naquela Angústia, tremenda, que me espiritualizava e disseminava nas Forças repurificantes da Eternidade!

E como dentro de mim estava aberto para ela o suntuoso altar da Piedade e da Ternura, eu, com supremos estremecimentos, acariciava essa alucinada cabeça, eu a levantava sobre o altar, acendia todas as prodigiosas e irisantes luzes a esse fantasma santo, que ondulava a meu lado, no soturno e solene silêncio de fim daquela sonâmbula peregrinação, como se ambos os nossos seres formassem então o centro genésico do novo Infinito da Dor!


ESPELHO CONTRA ESPELHO


Tu, alma eleita, que trazes essa sede de Espaço, essa ansiedade de Infinito, essa doença do Desconhecido que te fascina os nervos, que vieste ao mundo para falar pelas outras bocas, para ser a voz viva de todas as vozes mortas; tu, que andas em busca de uma dor que venha ao encontro da tua; tu, que interpretas tanta queixa, tanta queixa, tanta queixa dos Corações, tanta queixa dos Espíritos, tanta queixa das Almas, tudo porque não há resposta a esta pergunta horrível: por que nos deram a Vida?! Tu, que legaste toda a delicadeza virginal do Sentimento a este Apostolado doce e amargo da Arte, bela e triste; tu, que sentes chamejar e cantar a inefável poesia que te alimenta como o óleo alimenta as lâmpadas; tu, cujo espírito é uma fonte de dons maravilhosos onde os sedentos se debruçam e bebem à farta a água mais cristalina, mais clara; tu, que tão sagradamente te revoltas, na majestade ideal das águias e dos leões, e que na candidez, na ingenuidade casta e santa da tua alta nobreza de Arte atinges com a ponta das asas espirituais a ponta das asas dos Anjos! Tu, ó alma aureolada de deslumbramentos brancos, Lírio estético que um luar de sonhos sensibilizou, ouve este verbo veemente, vivo, de quem procura sentir os altos segredos da Existência, perscrutar-lhe as íntimas origens fugidias.

Ouve este verbo vulcanizado, convulso, cheio das grandes tempestades ideais que abalam o Sentimento do mundo. Ouve este verbo aceso, inflamado na chama do Absoluto, para ele subindo e para ele palpitando sempre. Ouve este verbo indomável — vento que sopra pelas trompas do mar e que soluça pelas harpas do céu toda a grandeza de uma Ilusão, toda a majestade de uma Fé.

Eu falo a ti, Alma eleita e desolada nos crepúsculos da Cisma; não falo às almas antipáticas, cruamente ardentes, acres, como terrenos crestados, muito flagrantes de sol, sem sombras consoladoras... Falo a ti, que sentes e sabes o frio que vai pelo mundo, como as almas tiritam sem agasalho, desabrigadas, como as consciências enregelam sem amor e sem bondade na ferocidade dos brutos instintos, como a doce e nobre Humildade se encolhe e protege nos obscuros vãos de uma porta para não morrer esmagada pelo bárbaro tacão da Prepotência, como a filáucia triunfa e como a Grande Virtude de todos os tempos está cega e pede esmola envolta em duros frangalhos! Tu, Genial, que tens suspiros, que tens ânsias, que tens lágrimas para esta Comédia fúnebre, mas dolorosa, em que vai o mundo; tu, singular e lívido demônio que te fizeste monge, que tens a tua ironia santa que diviniza e nirvaniza, o teu rebelado sarcasmo em brasas, toda tua mordacidade inclemente para essas tristes cousas terrenas, não podes ver sem abalo, sem comoção profunda, almas de mocidade já sem dedicação intensa, sem energias claras, sem entusiasmo absoluto. Não desse entusiasmo oficial, coletivo, das massas — mas esse entusiasmo propulsor das células, esse entusiasmo dúctil, voluptuoso, nervoso, que vem da extrema sensibilidade; esse entusiasmo que é tônico, que é éter puro, que é oxigênio matinal, que é essência criadora, que é chama fecunda e asa branca no genuíno espírito; esse entusiasmo que é força altiva, que é dignidade serena, que é emoção original e casta, que infiltra azul e sol nas veias, acende aurora e vibra cânticos no sangue.

Há de doer-te fundo esse desolamento, essa morte das almas, essa aridez, essa petrificação de sentimentos em tudo. Há de doer-te muito que os impotentes se liguem aos impotentes, os nulos aos nulos, os frouxos aos frouxos, os esgotados aos esgotados. Que nada os separe, nada os afaste. Que quanto mais se reconheçam tartufos mais se unam no intuito e no instinto de se conservarem inatacáveis, embora, mesmo, no fundo, e fatalmente, se destruam, se odeiem, achando um incômodo a existência dos outros. Há de doer-te muito que uma envenenada relação secreta os una, os congregue, os irmane, para juntos darem batalha subterrânea, cavilosa e vilã, aos que trazem a clara força tranquila de um alto Desígnio, como armadura de astros, no peito.

Há de afligir-te muito que na hora da mais profunda, da infinita Desolação, até os mais íntimos te abandonem, desapareçam, como que tocados pela ideia de que os teus extremos fatalismos são inconvenientes e contagiosos!

Há de fazer brotar em ti a luminosa flor da ironia, o aspecto ousado do Asinino, que quer a todo o transe medir-se contigo, pôr-se no mesmo paralelo, porque vê tanto como tu, sente tanto como tu, sonha e é tão legítimo ser como tu!! Se tu lhe dizes versos ele diz-te versos, se tu lhe dizes prosa ele diz-te prosa, opondo a natureza dele a tudo, atropelando as cousas, atrabiliariamente, acertando, às vezes, por acaso, por assimilação fácil, por percepção de simples arguto, mas não trazendo os fundamentos de sangue e de sonho, esse longínquo infinito de origem, essa harmonia interior e essa beleza heroica tão pouco perceptível e penetrável.

Sentirás no Asinino a pressa de comunicar primeiro que ninguém ideias que já Alguém pôs em circulação no tempo, nas correntes do ar; ideias que já foram acariciadas por outro com delicadeza mais particular, com veemência mais extrema, com intuição mais clara, com amor mais eloquente, com entendimento mais recôndito. Sentirás no Asinino a natureza essencialmente auditiva, que ouve e torna-se o eco fácil, ingênuo, irresponsável, mas errado, mas corrompido, impuro já, da Grande Voz poderosa, honesta e pura que ouviu, porém que ouviu mal, sem a plasticidade necessária para receber, no seu primitivo apuramento imaculado, todas as complexas e infinitas vibrações, nuances e modalidades dessa Grande Voz.

Sentirás no Asinino a intenção capciosa de ser o teu refletor, de cruzar nos teus os seus raios, de produzir os mesmos reflexos, de apresentar as mesmas faces iluminantes, as mesmas irradiações e golpes de luz, as facetas do mesmo cristal e o fundo do mesmo aço.

Sentirás no Asinino a revelação da tua revelação, o despertar do teu despertar, a sugestão da tua sugestão — mas isso truncado, hipertrofiado, inteiramente desviado dos eixos centrais do teu Objetivo, sem a unidade inicial dos órgãos ingênitos que propulsionaram e deram a integração final às linhas gerais da sensibilidade do teu ser, à zona compacta e luminosa do foco supremo das tuas Intuições.

Sentirás no Asinino a imitação do teu Silêncio, a imitação da tua Sombra — sombra e silêncio d'espelho, sombra e silêncio refletidos do teu silêncio e da tua sombra, sombra e silêncio reproduzidos d'espelho contra espelho.

Não poderás projetar o teu vulto num lago que o Asinino não projete também o seu vulto no mesmo lago; não poderás aquarelar o teu perfil num luar que o Asinino não aquarele também o seu perfil no mesmo luar.

Se a tua Imaginação é virgem, reverdece agora nos luminosos pomares da Fantasia, a Imaginação do Asinino também é virgem e reverdece agora nos mesmos luminosos pomares. Não podes vir da raiz viva e violenta de uma sensação, da agudeza de uma Causa, da livre enunciação de um fenômeno porque o Asinino também vem de lá, também de lá procede, também de lá se origina. Não há originalidades subjetivas, clama o Asinino, não há o puro sentir, o novo sentir, o excepcional sentir! Tudo já passou depurado pelo meu organismo, que é o crisol das purificações, clama o Asinino.

Vida do eu visual, do eu olfativo, do eu mental, do eu sensível, faz vida original, faz vida de temperamento, portanto, vida ingenitamente particular e nova, dirás tu na perfectibilidade da tua visão.

Mas o Asinino, que é a Rotina secular, que é a Regra universal, argumenta com pedras em vez de argumentar com sentimentos, com emotividades, com dutilidades e mistérios de alma.

Nuances novas de alma, caminhos não explorados no mundo do Pensamento, certos segredos e transfigurações, rumos inéditos, paragens de uma inaudita melancolia, tudo é paralelamente julgado pelo Asinino, que logo estabelece para as relações de cada caso especial a mesma esfera de ação de múltiplos casos diversos.

Sempre sol contra sol, sempre sombra contra sombra, sempre espelho contra espelho.

Sempre este espelho — Homero, contra este espelho — Virgílio. Sempre este espelho — Shakespeare, contra este espelho — Balzac, ou contra este espelho — Dante, ou contra este espelho — Hugo. Sempre este espelho — Flaubert, contra este espelho — Zola, ou contra este espelho — Goncourt. Sempre este espelho — Baudelaire, contra este espelho — Poe, contra este espelho — Villiers e contra este espelho — Verlaine. Sempre este espelho — Ibsen, contra este espelho — Maeterlinck.

Sempre, eternamente estes espelhos impolutos e astrais que reproduzem a perfectibilidade de sentimentos nas gerações, paralelamente igualados, medidos e pesados pelo Asinino, que os equipara, confundindo-lhes a delicadeza e fulguração dos cristais.

Sempre um Sentimento contra outro Sentimento, como se pudesse haver uma alma com a cor e a sonoridade de outra alma!

E tu, na impaciência, na inquietação do teu voo astral para as serenas Esferas, buscarás libertar-te, desacorrentar-te dos grilhões a que essa Rotina te prendeu, a que ela te sujeitou com a responsabilidade das primitivas camadas da Inteligência, para poderes afirmar que, como os Eleitos guiados a sós pelo seu Destino, tu também vieste só, representando um fenômeno desprendido no Espaço, sem leis de correlação no sentimento da tua Dor — uno e indivisível fenômeno no obscuro e perpétuo germinal da Natureza.

Na solidão do teu Ideal ficarás como um astro singular vivendo na luz nostálgica de uma órbita imaginária, sem que a confusão dos tempos possa jamais quebrar a intensidade do teu brilho e a serenidade da tua força.

O Asinino continuará lá embaixo, na turba, na multidão, no rodar das épocas, estreitamente e empiricamente a comparar, a comparar, a medir o teu Infinito pelo infinito da sua miopia secular, lá embaixo, na turba, na multidão. Tu, além, lá em cima, superpondo-te aos mundos rolarás, transbordarás, na augusta perpetuidade do Sentimento. 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

MUDA BRASIL -- COM DILMA, PELA DEMOCRACIA E PELA TRANSFORMAÇÃO SOCIAL DO BRASIL


O Brasil quer mudanças!

Milhões de brasileiros foram às ruas por mais verbas para a educação, a saúde, transporte de qualidade e com tarifas reduzidas. São reivindicações justas, atendidas de imediato por nossa presidenta, Dilma Rousseff, que enviou um decreto, aprovado pelo Congresso Nacional, que destina 75% dos royalties do petróleo para a educação e 25% para a saúde, além de convocar os governadores e prefeitos das capitais para discutir as tarifas e a melhoria do transporte público para os brasileiros. O Movimento Passe Livre foi convidado a participar de reuniões no Palácio do Planalto e em diversas cidades do país a tarifa do ônibus e do metrô foi reduzida. A reforma política, outra exigência dos movimentos sociais, também foi atendida pela presidenta, que discute com lideranças partidárias a forma como ela será realizada, sendo o plebiscito a forma mais democrática, pois o povo pode opinar ANTES de as decisões serem tomadas. Estas são importantes conquistas da juventude e da classe trabalhadora brasileira.

Infelizmente, as mobilizações mais recentes passaram a ser organizadas e pautadas por grupos conservadores, que representam setores como o capital financeiro e a chamada grande imprensa, em especial a Rede Globo, a revista VEJA e os jornais O Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo, que desejam desestabilizar o governo federal, ameaçando a democracia representativa e acenando com a volta da ditadura militar. Estes setores já manifestaram nas ruas o seu autoritarismo, queimando bandeiras de partidos de esquerda e do Movimento Negro Unificado e agredindo sindicalistas da Central Única dos Trabalhadores, gritando slogans como “fim dos partidos políticos”, o que equivale ao fim do sistema democrático.  O que estes setores – Revoltados On Line, OCC, integralistas, neonazistas, DEM, PSDB, entre outros, com amplo apoio da mídia – realmente querem destruir, juntamente com a democracia, são as inegáveis conquistas sociais dos últimos dez anos de governos progressistas, que tiraram 40 milhões de brasileiros da situação de miséria.

O Brasil avançou muito com Lula e Dilma, em todos os campos – temos hoje 5,5% de desemprego, contra 26% na Espanha, a inflação está sob controle, foram criadas 12 novas universidades federais, com programas de inclusão como o ProUni e a política de cotas no ensino superior, a segurança alimentar das camadas mais pobres da população foi garantida com o Bolsa-Família, houve redução dos juros bancários, das contas de gás e luz, a extensão da energia elétrica a municípios que não tinham esse benefício, entre muitos outros benefícios.

O Brasil de Lula e Dilma disse NÃO à ALCA de George W. Bush, que levaria à desnacionalização e desindustrialização de nossa economia, interrompeu as privatizações criminosas de Fernando Collor e FHC, fortaleceu o Mercosul, a Unasul e outros organismos de integração e cooperação regional na América Latina.

O Brasil adotou uma nova política externa, que deixou de ser subserviente ao imperialismo, como na era FHC, reconhecendo o Estado da Palestina na ONU, condenando a agressão contra a Líbia, ampliando o comércio e as relações bilaterais com Cuba e outros países socialistas.

O Brasil hoje faz parte de uma nova América Latina, ao lado da Venezuela, Bolívia, Equador, Argentina, Uruguai, Cuba e Nicarágua, uma América Latina que recusa ser quintal dos Estados Unidos e da Europa, como foi por tantos séculos. É isso o que a direita demotucana brasileira quer destruir, se necessário repetindo os trágicos acontecimentos de 1964, em que os mesmos setores se uniram contra o governo progressista de João Goulart.

Frente a essa situação, precisamos defender a democracia, a legalidade, a normalidade constitucional, contra as aventuras golpistas.

É preciso defender o mandato popular de Dilma Rousseff, eleita democraticamente pelo povo brasileiro, e marcharmos juntos com as centrais sindicais, entidades estudantis e populares, partidos operários e progressistas, pela transformação social do Brasil!

Queremos a reforma agrária, a redução da jornada de trabalho sem redução dos salários, a regulamentação da mídia, a revisão das concessões das reservas de pré-sal e várias outras reivindicações apresentadas pelas centrais sindicais brasileiras, que farão uma paralisação nacional unificada no dia 11 de julho.


Vamos todos às ruas – com Dilma, pela democracia e pela transformação social do Brasil!  

segunda-feira, 1 de julho de 2013

RETRATO DO ARTISTA

  




A MÚSICA DO PENSAMENTO DE CLAUDIA ROQUETTE-PINTO

Claudia Roquette-Pinto é uma poeta que dialoga com a fotografia, as artes visuais, o cinema, com a poética de autores como Paul Celan, Novalis e René Char, despertando no leitor uma sensação de encantamento pela sutileza de seus jogos de linguagem. A mitologia pessoal da autora, uma das vozes mais criativas da poesia brasileira contemporânea, é bastante eclética, incluindo desde temas tradicionais da poesia lírica como o tempo, o amor, a viagem, a morte, até pequenos retratos brutalistas da violência urbana no Rio de Janeiro e de guerras que marcaram a história do final do século XX, como o conflito em Saravejo (“Quando a vi, ali, distraída / na escada do ônibus escolar, / nada me preparou para as suas pernas abertas, / no meio a flor dilacerada / repetindo, entre as coxas, / o buraco da bala no peito: / um dois pontos insólito”, lemos no poema Em Saravejo, do livro Margem de manobra). A poesia de Claudia Roquette-Pinto é densa, por vezes enigmática, e revela uma autora que sabe fazer o que quiser com as palavras. Seu livro de estreia, Os dias gagos, foi publicado em 1991, com texto de apresentação de Paulo Henriques Britto, que destaca a sensibilidade musical e a qualidade plástica dos poemas da jovem autora, que constrói estranhas arquiteturas verbais, cheias de sinestesias e metáforas (“engole o que há de doce nos metais”, “o cobre entristece como praias”, “um álcool que rimava com veneno”). O próprio título do livro é uma figura de linguagem, a prosopopeia, que consiste na atribuição de qualidades humanas (como a gagueira) a objetos inanimados ou seres irracionais (no caso, a percepção subjetiva do tempo, presente também na temática de muitas peças do volume). Em Os dias gagos, Claudia Roquette-Pinto subverte o soneto usando diferentes sequências estróficas (adotando inclusive o soneto inglês, em que os 14 versos comparecem num único bloco, sem divisão estrófica), linhas com medidas métricas diferentes, rimas imprevistas e inusitadas (jazz / pontapés, si / eclipse, city / zíper) e uma sintaxe elíptica, recortada, que já prenuncia suas obras da maturidade. Saxífraga (título extraído de um poema de William Carlos Williams), publicado em 1993, é um livro bem diferente e revela o amadurecimento da poeta, que já tem pleno domínio da construção poética. Conforme escreve Carlito Azevedo na “orelha” do livro, “tal como Williams e os ‘objetivistas’ em geral, Claudia pratica em seus poemas uma operação que consiste em isolar os objetos de seu contexto original, que os banaliza, para observá-los (e dá-los a ver) em sua inteira estranheza, coisa-em-si”. Porém, adverte o autor, “Claudia é mais barroca e vertiginosa em seu trato com as palavras; nela, a raridade da imagem e o preciosismo do vocábulo cumprem a missão de explicitar nuances irredutíveis à fala prosaica”. Um bom exemplo da poética de Saxífraga é o poema submerso: “olho: peixe-olho que / desvia a mão enguia / a pele lisa a / te o umbigo e logo / a flora de onde aflora / (na virilha) o / barbirruivo a / ceso bruto an / fíbio: glabro”, que tematiza a relação erótica, transfigurada em episódio aquático (o que recorda a pintura maneirista e barroca e sua paixão pelo monstruoso ou grotesco).

Zona de sombra, publicado em 1997, é um dos livros mais expressivos de Claudia Roquette-Pinto e tem como epígrafe versos de Paul Celan (“Dê também sentido ao seu dito: dê-lhe a sombra”). O livro é ilustrado com reproduções de esculturas de Cristina Rogozinski, que dialogam com o caráter plástico de várias composições do volume, como fósforo, colar, seixo, poemas em prosa ou narrativas líricas construídas como um diário de sensações (“ela segue dormindo na borda do lençol o que a acalenta não são flores – senão aquelas mínimas rosas, pontas buliçosas de falanges a afiar seus instrumentos”, lemos em fósforo). A peça mais curiosa do livro talvez seja no éden, em que a autora faz um strip-tease cheio de humor negro: “peça a ela que se desnude / começa pelos cílios / segue-se ao arame dos / utensílios diários / (...) é preciso que se arranque toda a face / deixar que os olhos descansem / lado a lado com os sapatos / na camurça oscilante / de um quarto”.

Corola, publicado em 2000, desloca o foco de interesse da imagem para a música do pensamento. É um livro mais pessoal e reflexivo, embora não caia no mero confessionalismo: a poeta se expressa como enigma e labirinto: “desço no poço do silêncio / que em gerúndio vara madrugadas / ora branco (como lábios de espanto) / ora negro (como cego, como / medo atado à garganta) / segura apenas por um fio, frágil e físsil / ínfimo ao infinito”. Não por acaso, o livro presta homenagem a Novalis (“cada pequena curva / tatua as idéias na superfície ácida”, escreve Claudia), poeta-filósofo alemão, cuja lírica não é menos enigmática.  Margem de manobra, título mais recente da poeta, publicado em 2005, traz uma lírica renovada, que sem abdicar do artesanato da linguagem volta sua atenção para a realidade social brasileira e os fatos que acontecem no mundo. Assim, por exemplo, em Santa Teresa, peça concisa e afiada como a lâmina de uma navalha: “Azul explosivo / verde lancinante / e o sol, onipresente, / halo / na cabeça da mulher escalpelada”. O lirismo não está ausente nessa obra, apesar de tantas referências à violência urbana carioca, a conflitos em Saravejo, no Tibete e no Vietnã: o tema amoroso é habilmente reinventado em peças como Os amantes sob os lírios, que dialoga com a pintura de Marc Chagall, e Kit e Port, refabulação do filme O céu que nos protege, de Bertolucci.  A beleza ainda é possível, parece nos dizer a autora, mesmo no centro vertiginoso do caos.

(Artigo publicado na edição de julho da revista CULT, acompanhado de poemas inéditos e fotos de Claudia Roquette-Pinto)

sexta-feira, 28 de junho de 2013

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A BATALHA DAS RUAS

Claudio Daniel

 O que está acontecendo hoje nas ruas?

Um novo ator social surge em cena: o cidadão comum.

Ele não pertence a movimentos sociais organizados, nem a partidos tradicionais de esquerda, sindicatos ou a entidades estudantis. 

Ele não tem uma identidade política clara – não é liberal, socialista, comunista, mas desconfia de todos os partidos, de todos os governos e instituições.

Ele não sabe exatamente o que deseja – tem um sentimento vago de revolta em relação a “tudo” – corrupção, tarifas altas do transporte, impostos, código penal, PEC 37, entre outras coisas – mas não tem clareza do seu objetivo: fazer uma revolução? Para colocar o quê no lugar do atual regime democrático representativo?

O cidadão comum acredita naquilo que assiste na televisão e lê nos jornais, participa das redes sociais, mas não consegue construir com clareza um discurso ideológico, uma visão geral do mundo.

O cidadão comum sente-se oprimido pelos fatos e não encontra nenhuma instituição que o represente.

O cidadão comum não reconhece as mudanças que aconteceram nos últimos dez anos no Brasil – saída de 40 milhões de pessoas da situação de miséria, a quase erradicação da fome no país, a política de estabilidade econômica e baixo índice de desemprego, o aumento do consumo nas classes populares, a inclusão social de afrodescendentes, o investimento maciço na educação, entre outras conquistas – porque não enxerga uma mudança radical no país.

O cidadão comum aceita o discurso ideológico da grande mídia e dos grupos conservadores.

O cidadão comum, antes desorganizado, começa a se organizar. Ele não tem ideologia. Não tem partido. Não tem uma alternativa de poder.

Quem está atuando nos bastidores, porém – e já saiu às ruas, sem máscaras – tem ideologia, tem partido e tem alternativa de poder: a extrema-direita, representada por entidades como o Instituto Millenium, Revoltados On Line, entidades de oficiais da reserva e outros setores que representam o que há de mais reacionário na sociedade brasileira.   

São estes setores que usam a frustração popular, o ressentimento, a insatisfação com as instituições, para chegar ao seu objetivo – derrubar o governo democrático de Dilma Rousseff e implantar em seu lugar um regime análogo ao de 1964, que coloque os partidos políticos na ilegalidade (“sem partido, sem partido”, gritam nas ruas), as centrais sindicais – 20 sindicalistas da CUT foram agredidos hoje no Rio de Janeiro, militantes petistas foram hostilizados e suas bandeiras, rasgadas – e todas as demais instituições democráticas dos trabalhadores e da juventude brasileira.

Por quê não fechar o Congresso?

Afinal, lá estão Renan, Sarney, Collor, Maluf e tantos outros corruptos!

Por que não abolir as eleições?

Afinal, Lula pode se candidatar de novo, e ainda Dilma, Suplicy, Haddad e outros petistas ou comunistas.

Para quê auxílio-detenção?

Preso tem que morrer! Menor de idade? É bandido, tem de morrer também!

Parada gay?

Nem pensar! Homossexualismo é doença. O PT quer ensinar as crianças nas escolas a serem gays e lésbicas! Eles querem a ditadura gay!

Exagero?

Basta sair às ruas e ouvir o que o homem comum diz.

O homem comum é fascista?

Ele não sabe o que é fascismo. Acha que direita e esquerda são a mesma coisa. Ele não quer pagar impostos, mas o governo – ele pensa – deve oferecer transporte de graça, saúde e educação para todos, já. Como? Por milagre. Porque – acredita o homem comum – um presidente pode fazer milagres.

Só há um porém: não há milagres.

Quando o homem comum descobrir isso, ele não poderá mais reclamar de NADA.

NÃO PODERÁ RECLAMAR DE NADA.

Porque quem reclama é petista ou comunista – e para estes há prisão, tortura, exílio ou assassinato.

Exagero?

A culpa, reconheço, não é do cidadão comum.

A culpa é do PT.

Sim, a culpa é toda do PT, porque esse partido acreditou sinceramente no respeito às instituições democráticas, na legalidade, no respeito à ordem, à propriedade privada, à liberdade de imprensa-empresa.

O PT acreditou que seria possível melhorar a qualidade de vida de milhões de brasileiros sem fazer a revolução socialista.

Realmente, em dez anos de governos progressistas, houve imensas conquistas, muito mais do que nos últimos 50 anos da política brasileira.

Mas ninguém contou isso ao cidadão comum, porque o PT não quis implementar a Lei de Mídia, permitiu que a imprensa burguesa o atacasse diariamente, sem fazer absolutamente nada.

O PT permitiu que o Poder Judiciário permanecesse nas mãos de oligarquias retrógradas.

O PT não politizou a população, ao contrário: engessou o movimento sindical e popular, que era o seu único e verdadeiro amigo.

O PT teve medo e perdeu a esperança.

O PT poderia fazer do Brasil um grande país socialista, que mudasse os rumos do mundo.

Mas teve medo.

Teve medo.

TEVE MEDO.

Agora sim, o PT tem razão para sentir medo, porque milhares de pessoas podem invadir o Congresso Nacional ou o Palácio do Planalto.

A menos que aconteça alguma coisa.

A menos que o PT vença o medo.

A menos que o PT assuma, de uma vez por todas, o seu papel histórico, ao lado dos comunistas e outras forças populares e revolucionárias.

Haverá tempo ainda?



domingo, 16 de junho de 2013

MOTIM


 


brutais em seu escárnio

(como se estivessem possuídos,

ela disse, entorpecidos de tanta aspereza)

espancam jovens rebelados,

na hora sanguínea do motim.

nas ruas entulhadas de carcaças,

vidro moído, pneus incendiados,

avançam mares ruidosos

(reverberantes, insubmissos)

que se desdobram em outros mais,

delicados e primitivos como flores;

avançam multiplicados, inebriados,

em meio a espirais luminosas

e linhas tumultuadas nas ruas,

que se retorcem, reconfiguradas

em outra possível primavera.


São Paulo, 16 de junho de 2013  




sexta-feira, 14 de junho de 2013

CARTA DE PEDRO XISTO A E. M. DE MELO E CASTRO







“Penso que a publicação desta carta deve ser acompanhada de uma nota explicando que se trata do agradecimento do Pedro Xisto ao envio do meu livro IDEOGRAMAS que eu lhe enviara por indicação do Haroldo de Campos, em 1962. Este meu livro é constituído por 29 poemas concretos originais meus, publicados sem qualquer nota introdutória ou explicativa, na Coleção Poesia e Verdade da Guimarães Editora, que nessa época era a melhor editora de poesia em Portugal. O livro esgotou rapidamente e hoje eu não tenho sequer um exemplar embora todos os poemas estejam incluídos no livro "Visão Visual", publicado pela Francisco Alves do Rio de Janeiro em 1994. A carta de Pedro Xisto com duas páginas é uma extraordinária leitura inventiva/interpretativa dos poemas que constituem o meu livro e que funciona como um verdadeiro novo poema complexo!   Só mais tarde , em 1966, quando vim pela primeira vez ao Brasil e a São Paulo, é que conheci pessoalmente o Pedro Xisto e com ele falei sobre o Haikai. Quando regressei a Lisboa levei comigo alguns poemas  inéditos do Pedro Xisto que foram publicados no nº 2 da Revista de Poesia Experimental (1966) e no nº 1 da revista Operação ( 1967), de minha iniciativa. Hoje esta carta  é um documento verdadeiramente notável e único, nas relações poéticas entre Portugal e Brasil, nesses anos de 60!”

E. M. de Melo e Castro

quinta-feira, 13 de junho de 2013

sábado, 8 de junho de 2013

UM POEMA DE MARCELI ANDRESA BECKER


sou uma coluna crematória.

queimo teu nome,
aquática.

hidra.

sou o desaguadouro desta espiral de mortos que te antecede. redemoinho. digo que no alto de meu pensamento há uma hóstia: a lâmina de teu minicrânio lunar, liso,

de teus antivocalises de mármore.

*

sou uma hidra de nove línguas, e embaixo de cada uma dessas línguas estão as miniluas-palavras que tu não sabes dizer. os nomes de teus mortos,

intactos.

teus antepassados.

*

é um fluir de espelhos que se ilumina e se turva
na minha saliva.

nas bocas das centenas de mortos
que beijo

através da tua boca.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

RETRATO DO ARTISTA


A POESIA INSUBMISSA DE FREDERICO BARBOSA

Claudio Daniel

A poesia de Frederico Barbosa é um antídoto à docilidade, à ficção ingênua do lirismo, tão fora de foco em meio às ruínas de qualquer certeza estável. Nascida em meio à perplexidade e à dúvida, é regida por uma dupla estratégia, uma no campo do engenho léxico e sintático, e outra na seara do pensamento: busca o impacto da forma inusual, imprevista, jogando com todos os recursos da função poética, mas sempre com uma visada crítica, não raro sarcástica e corrosiva. Seu anjo tutelar é menos um serafim da pureza vocabular que um daimon apaixonado pela impureza, pela mescla do erudito com o coloquial, vivificando o idioma, em vez de petrificá-lo. A escrita poética de Frederico Barbosa é o registro de uma paisagem de confusão e tumulto, e a violência verbal iconiza com voz enfática o presente barroco, fraturado, em que vivemos. Na lata – Poesia reunida, publicado pela editora Iluminuras, reúne poemas escritos ao longo de 35 anos de trabalho criativo e publicados em seis livros: Rarefato (1990), Nada feito nada (1993), Contracorrente (2000), Louco no oco sem beiras (2001), Cantar de amor entre os escombros (2002) e Brasibraseiro (2004), este último escrito em parceria com Antonio Risério. Não é tarefa fácil resumir, em poucas linhas, todos os acidentes geográficos dessa pátria insólita. Conforme escreveu Sebastião Uchoa Leite, o poeta mistura “Camus e o jazz, Beckett e filmes noir, João Cabral e os faróis de automóveis”.  Longe de ficar estanque no âmbito verbal, Frederico Barbosa incorporou procedimentos de montagem e sequência do cinema, os movimentos melódicos da canção, a rapidez informativa do jornal, entre outros códigos da aldeia enlouquecida, dinamizando a narrativa poética, que ganha agilidade e força de impacto. Herdeiro da tradição do rigor construtivo da poesia concreta, evidente sobretudo em seus dois primeiros livros, Rarefato e Nada feito nada, Frederico Barbosa dialoga também com a tradição barroca, como acontece no poema Labyrintho difficultoso (“cada dia de novo cada dia / mais insone / mais / mas não vem”), em que o poeta faz um labirinto de palavras, onde a distribuição espacial e geométrica das palavras na página permite leituras na horizontal, na vertical, na diagonal e em sequências livres, multiplicando os significados. Já no poema Rarefato, que nomeia seu livro de estreia, o poeta utiliza o labirinto de versos, técnica combinatória e permutatória em que as mesmas linhas se repetem nas estrofes em diferentes posições, com poucas variações e acréscimos, permitindo diferentes leituras:

 Dominado pela pedra, insone,  
descolorido, o crime principia   
nas altas horas de noite vazia   
ganha corpo no decorrer do dia.   
      
Ganha corpo no decorrer do dia,   
dominado pela pedra insone   
dor de náusea delicada e infame,   
das altas horas da noite vazia.   

Dor de náusea delicada, infame,   
nas altas horas na noite vazia   
ganha corpo no decorrer, no dia   
dominada pela pedra, insone.   

Ganha corpo no decorrer do dia,   
dor de naúsea delicada e infame   
descolorido, o crime principia   
alia-se ao tédio impune e some.


A escrita labiríntica é um dos temas da poeta portuguesa Ana Hatherly, autora da antologia de poemas visuais barrocos A experiência do prodígio e do romance experimental O escritor, construído com imagens, letras e números em vez da usual prosa narrativa. Leitor atento de Ana Hatherly e do poeta barroco baiano Gregório de Matos, Frederico Barbosa assimilou de modo pessoal e inventivo os aspectos lúdicos da poética barroca, somando efeitos visuais e sonoros para estimular a experiência sensorial e intelectiva do leitor.

Desconfiando sempre de suas próprias conquistas, e após sete anos de silêncio, Frederico Barbosa mudou de timbre em Contracorrente, optando por uma fala próxima à dicção de rua, embora fragmentária e metonímica, incorporando a gíria e o palavrão, flashes da cidade caótica e incursões no âmbito erótico-amoroso. Um poema notável desse livro é Desexistir, de arquitetura concentrada, elíptica e não menos incisiva: “Quando eu desisti / de me matar / já era tarde. / Desexistir / já era um hábito. / Já disparara / a auto-bala: / cobra-cega se comendo / como quem cava / a própria bala”. Uma outra composição, de tonalidade sensual, porém não menos elaborada formalmente é Memória se: “A mais íntima / memória se / desdobra cega / e surda: / a presença tátil / de suas dobras / incrustadas / nas marcas linhas / das minhas mãos”. O timbre corpóreo se torna ainda mais explícito em Paulistana de verão, onde o poeta reimagina a passante de Baudelaire, numa cena que nos faz pensar na célebre foto de Marylin Monroe: “O vento leva-lhe a quase / saia / e vê-se a jóia / surpresa lapidada / que desaparece na boca quente / do metrô”. 

Pouco propenso à abstração metafísica, Frederico Barbosa se volta às questões da existência, ao ácido estar no mundo, tema desenvolvido, com especial atenção, no poema-livro Louco no oco sem beiras, em que ele define, num verso lapidar, sua angústia intelectual: “Vivi torto porque quis, felizmente infeliz”. Este é o poema mais pessoal do autor; em linhas breves e ferinas, registra o non sense da rotina laboral e doméstica, sem cair no fácil prosaísmo do cotidiano ou na lírica confessional narcísica. A vida pulsa no  sistema sanguíneo da linguagem poética: “começo-me / como quem grita sem / luz sem voz sem vis sem vez sem mais / desfocado / fora de faro / formigando em / câmera lenta / sem coragem / sem o que me dispare”. Sinceridade e engenho criativo explodem a cada página do poema, que ganha ainda mais força quando lido em voz alta, pela forte dissonância: “linhas cores correm horrores o / desencontro sem ritmo pacto / decomposição do abstrato / acordava absurdo / ouvido amplificado / distante das coisas / todas / do ar de mim”. No exorcismo de seus pesadelos, Frederico Barbosa recupera demônios medievais e inventaria uma fauna de fungos, vermes, moscas e outros insetos, transfigurando-se, ele próprio, em um “monstro voador”. Após essa dolorosa descida ao Hades, o poeta reinvoca a utopia possível, a redenção em Eros, no livro Cantar de amor entre os escombros, um dos pontos altos de sua lírica. O livro é uma antologia que reúne todos os poemas amorosos do autor, desde peças concisas e de aparente simplicidade como Jeans (“A carne forçada / sob a calça jeans / quase explode / querendo sair. / O tecido vibra / fibra a fibra / trêmula grade / implodido jardim. / Enquanto a carne / flora pura / implora em si.”) até composições mais longas e experimentais como Nós / paisagens. Cantar de amor entre os escombros reúne também os poemas que Frederico Barbosa escreveu dialogando com o jazz, como Moonlight in Vermont, Blue moon e Star Dust, peças de escrita mais conversacional, em que o poeta trabalha com a variação e o improviso, como se as palavras fossem notas de um saxofone. A renovação temática da poesia de Frederico Barbosa aconteceu no volume Brasibraseiro, escrito a quatro mãos com Antônio Risério. O livro é uma viagem pelo imaginário africano e indígena, pelos mitos e acontecimentos da história brasileira e pelo pensamento em torno de nossa cultura, sinalizando a possibilidade utópica, num mundo cada vez mais caótico e destroçado. Uma peça que chama a atenção nesta série é o Oriki de Ori, em que o cético Frederico Barbosa rende-se aos encantos dessa forma poética de origem nagô-iorubá, o oriki (canto em louvor a um orixá): “meu ori meu deus / meu e só meu / meu deus meu destino / que escolhi / eu / mesmo (sem sabê-lo) / meu”. O poema faz referência a uma tradição africana, segundo a qual cada espírito humano escolhe uma cabeça e um destino antes de encarnar em um corpo (tema abordado por Risério em seu livro Oriki orixá).

O espaço desta resenha é insuficiente para mergulharmos em tantos aspectos de uma arte de assombros, onde podemos ver ressoarem ecos da tradição modernista brasileira e portuguesa (sobretudo João Cabral de Melo Neto e Mário de Sá-Carneiro), do simbolismo, do barroco e ainda dos grafitis e anúncios publicitários, sintetizados no dialeto de pedrada, para “desafinar o coro dos contentes”, como queria Sousândrade. Sendo assim, na falta de síntese adequada para falarmos, de modo satisfatório, dessa escrita insubmissa, que vai na contramão do Parnaso e do marketing do milkshake, nada melhor que fecharmos este texto com palavras de Haroldo de Campos: “Frederico Barbosa (...) situou-se logo na linha de frente da melhor poesia brasileira jovem, cujos representantes se contam pelos dedos”.    

(Artigo publicado na edição de junho da revista CULT)