sexta-feira, 14 de junho de 2013

CARTA DE PEDRO XISTO A E. M. DE MELO E CASTRO







“Penso que a publicação desta carta deve ser acompanhada de uma nota explicando que se trata do agradecimento do Pedro Xisto ao envio do meu livro IDEOGRAMAS que eu lhe enviara por indicação do Haroldo de Campos, em 1962. Este meu livro é constituído por 29 poemas concretos originais meus, publicados sem qualquer nota introdutória ou explicativa, na Coleção Poesia e Verdade da Guimarães Editora, que nessa época era a melhor editora de poesia em Portugal. O livro esgotou rapidamente e hoje eu não tenho sequer um exemplar embora todos os poemas estejam incluídos no livro "Visão Visual", publicado pela Francisco Alves do Rio de Janeiro em 1994. A carta de Pedro Xisto com duas páginas é uma extraordinária leitura inventiva/interpretativa dos poemas que constituem o meu livro e que funciona como um verdadeiro novo poema complexo!   Só mais tarde , em 1966, quando vim pela primeira vez ao Brasil e a São Paulo, é que conheci pessoalmente o Pedro Xisto e com ele falei sobre o Haikai. Quando regressei a Lisboa levei comigo alguns poemas  inéditos do Pedro Xisto que foram publicados no nº 2 da Revista de Poesia Experimental (1966) e no nº 1 da revista Operação ( 1967), de minha iniciativa. Hoje esta carta  é um documento verdadeiramente notável e único, nas relações poéticas entre Portugal e Brasil, nesses anos de 60!”

E. M. de Melo e Castro

quinta-feira, 13 de junho de 2013

sábado, 8 de junho de 2013

UM POEMA DE MARCELI ANDRESA BECKER


sou uma coluna crematória.

queimo teu nome,
aquática.

hidra.

sou o desaguadouro desta espiral de mortos que te antecede. redemoinho. digo que no alto de meu pensamento há uma hóstia: a lâmina de teu minicrânio lunar, liso,

de teus antivocalises de mármore.

*

sou uma hidra de nove línguas, e embaixo de cada uma dessas línguas estão as miniluas-palavras que tu não sabes dizer. os nomes de teus mortos,

intactos.

teus antepassados.

*

é um fluir de espelhos que se ilumina e se turva
na minha saliva.

nas bocas das centenas de mortos
que beijo

através da tua boca.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

RETRATO DO ARTISTA


A POESIA INSUBMISSA DE FREDERICO BARBOSA

Claudio Daniel

A poesia de Frederico Barbosa é um antídoto à docilidade, à ficção ingênua do lirismo, tão fora de foco em meio às ruínas de qualquer certeza estável. Nascida em meio à perplexidade e à dúvida, é regida por uma dupla estratégia, uma no campo do engenho léxico e sintático, e outra na seara do pensamento: busca o impacto da forma inusual, imprevista, jogando com todos os recursos da função poética, mas sempre com uma visada crítica, não raro sarcástica e corrosiva. Seu anjo tutelar é menos um serafim da pureza vocabular que um daimon apaixonado pela impureza, pela mescla do erudito com o coloquial, vivificando o idioma, em vez de petrificá-lo. A escrita poética de Frederico Barbosa é o registro de uma paisagem de confusão e tumulto, e a violência verbal iconiza com voz enfática o presente barroco, fraturado, em que vivemos. Na lata – Poesia reunida, publicado pela editora Iluminuras, reúne poemas escritos ao longo de 35 anos de trabalho criativo e publicados em seis livros: Rarefato (1990), Nada feito nada (1993), Contracorrente (2000), Louco no oco sem beiras (2001), Cantar de amor entre os escombros (2002) e Brasibraseiro (2004), este último escrito em parceria com Antonio Risério. Não é tarefa fácil resumir, em poucas linhas, todos os acidentes geográficos dessa pátria insólita. Conforme escreveu Sebastião Uchoa Leite, o poeta mistura “Camus e o jazz, Beckett e filmes noir, João Cabral e os faróis de automóveis”.  Longe de ficar estanque no âmbito verbal, Frederico Barbosa incorporou procedimentos de montagem e sequência do cinema, os movimentos melódicos da canção, a rapidez informativa do jornal, entre outros códigos da aldeia enlouquecida, dinamizando a narrativa poética, que ganha agilidade e força de impacto. Herdeiro da tradição do rigor construtivo da poesia concreta, evidente sobretudo em seus dois primeiros livros, Rarefato e Nada feito nada, Frederico Barbosa dialoga também com a tradição barroca, como acontece no poema Labyrintho difficultoso (“cada dia de novo cada dia / mais insone / mais / mas não vem”), em que o poeta faz um labirinto de palavras, onde a distribuição espacial e geométrica das palavras na página permite leituras na horizontal, na vertical, na diagonal e em sequências livres, multiplicando os significados. Já no poema Rarefato, que nomeia seu livro de estreia, o poeta utiliza o labirinto de versos, técnica combinatória e permutatória em que as mesmas linhas se repetem nas estrofes em diferentes posições, com poucas variações e acréscimos, permitindo diferentes leituras:

 Dominado pela pedra, insone,  
descolorido, o crime principia   
nas altas horas de noite vazia   
ganha corpo no decorrer do dia.   
      
Ganha corpo no decorrer do dia,   
dominado pela pedra insone   
dor de náusea delicada e infame,   
das altas horas da noite vazia.   

Dor de náusea delicada, infame,   
nas altas horas na noite vazia   
ganha corpo no decorrer, no dia   
dominada pela pedra, insone.   

Ganha corpo no decorrer do dia,   
dor de naúsea delicada e infame   
descolorido, o crime principia   
alia-se ao tédio impune e some.


A escrita labiríntica é um dos temas da poeta portuguesa Ana Hatherly, autora da antologia de poemas visuais barrocos A experiência do prodígio e do romance experimental O escritor, construído com imagens, letras e números em vez da usual prosa narrativa. Leitor atento de Ana Hatherly e do poeta barroco baiano Gregório de Matos, Frederico Barbosa assimilou de modo pessoal e inventivo os aspectos lúdicos da poética barroca, somando efeitos visuais e sonoros para estimular a experiência sensorial e intelectiva do leitor.

Desconfiando sempre de suas próprias conquistas, e após sete anos de silêncio, Frederico Barbosa mudou de timbre em Contracorrente, optando por uma fala próxima à dicção de rua, embora fragmentária e metonímica, incorporando a gíria e o palavrão, flashes da cidade caótica e incursões no âmbito erótico-amoroso. Um poema notável desse livro é Desexistir, de arquitetura concentrada, elíptica e não menos incisiva: “Quando eu desisti / de me matar / já era tarde. / Desexistir / já era um hábito. / Já disparara / a auto-bala: / cobra-cega se comendo / como quem cava / a própria bala”. Uma outra composição, de tonalidade sensual, porém não menos elaborada formalmente é Memória se: “A mais íntima / memória se / desdobra cega / e surda: / a presença tátil / de suas dobras / incrustadas / nas marcas linhas / das minhas mãos”. O timbre corpóreo se torna ainda mais explícito em Paulistana de verão, onde o poeta reimagina a passante de Baudelaire, numa cena que nos faz pensar na célebre foto de Marylin Monroe: “O vento leva-lhe a quase / saia / e vê-se a jóia / surpresa lapidada / que desaparece na boca quente / do metrô”. 

Pouco propenso à abstração metafísica, Frederico Barbosa se volta às questões da existência, ao ácido estar no mundo, tema desenvolvido, com especial atenção, no poema-livro Louco no oco sem beiras, em que ele define, num verso lapidar, sua angústia intelectual: “Vivi torto porque quis, felizmente infeliz”. Este é o poema mais pessoal do autor; em linhas breves e ferinas, registra o non sense da rotina laboral e doméstica, sem cair no fácil prosaísmo do cotidiano ou na lírica confessional narcísica. A vida pulsa no  sistema sanguíneo da linguagem poética: “começo-me / como quem grita sem / luz sem voz sem vis sem vez sem mais / desfocado / fora de faro / formigando em / câmera lenta / sem coragem / sem o que me dispare”. Sinceridade e engenho criativo explodem a cada página do poema, que ganha ainda mais força quando lido em voz alta, pela forte dissonância: “linhas cores correm horrores o / desencontro sem ritmo pacto / decomposição do abstrato / acordava absurdo / ouvido amplificado / distante das coisas / todas / do ar de mim”. No exorcismo de seus pesadelos, Frederico Barbosa recupera demônios medievais e inventaria uma fauna de fungos, vermes, moscas e outros insetos, transfigurando-se, ele próprio, em um “monstro voador”. Após essa dolorosa descida ao Hades, o poeta reinvoca a utopia possível, a redenção em Eros, no livro Cantar de amor entre os escombros, um dos pontos altos de sua lírica. O livro é uma antologia que reúne todos os poemas amorosos do autor, desde peças concisas e de aparente simplicidade como Jeans (“A carne forçada / sob a calça jeans / quase explode / querendo sair. / O tecido vibra / fibra a fibra / trêmula grade / implodido jardim. / Enquanto a carne / flora pura / implora em si.”) até composições mais longas e experimentais como Nós / paisagens. Cantar de amor entre os escombros reúne também os poemas que Frederico Barbosa escreveu dialogando com o jazz, como Moonlight in Vermont, Blue moon e Star Dust, peças de escrita mais conversacional, em que o poeta trabalha com a variação e o improviso, como se as palavras fossem notas de um saxofone. A renovação temática da poesia de Frederico Barbosa aconteceu no volume Brasibraseiro, escrito a quatro mãos com Antônio Risério. O livro é uma viagem pelo imaginário africano e indígena, pelos mitos e acontecimentos da história brasileira e pelo pensamento em torno de nossa cultura, sinalizando a possibilidade utópica, num mundo cada vez mais caótico e destroçado. Uma peça que chama a atenção nesta série é o Oriki de Ori, em que o cético Frederico Barbosa rende-se aos encantos dessa forma poética de origem nagô-iorubá, o oriki (canto em louvor a um orixá): “meu ori meu deus / meu e só meu / meu deus meu destino / que escolhi / eu / mesmo (sem sabê-lo) / meu”. O poema faz referência a uma tradição africana, segundo a qual cada espírito humano escolhe uma cabeça e um destino antes de encarnar em um corpo (tema abordado por Risério em seu livro Oriki orixá).

O espaço desta resenha é insuficiente para mergulharmos em tantos aspectos de uma arte de assombros, onde podemos ver ressoarem ecos da tradição modernista brasileira e portuguesa (sobretudo João Cabral de Melo Neto e Mário de Sá-Carneiro), do simbolismo, do barroco e ainda dos grafitis e anúncios publicitários, sintetizados no dialeto de pedrada, para “desafinar o coro dos contentes”, como queria Sousândrade. Sendo assim, na falta de síntese adequada para falarmos, de modo satisfatório, dessa escrita insubmissa, que vai na contramão do Parnaso e do marketing do milkshake, nada melhor que fecharmos este texto com palavras de Haroldo de Campos: “Frederico Barbosa (...) situou-se logo na linha de frente da melhor poesia brasileira jovem, cujos representantes se contam pelos dedos”.    

(Artigo publicado na edição de junho da revista CULT)


sexta-feira, 24 de maio de 2013

PROGRAMAÇÃO DE JUNHO DA CURADORIA DE LITERATURA DO CENTRO CULTURAL SÃO PAULO





Escritura e filosofia na poética de Luís Serguilha 

Palestra do poeta e filósofo Chiu Yi Chi sobre a poesia do autor português contemporâneo Luís Serguilha, abordando procedimentos poéticos e interrelações entre poesia e filosofia.

Quarta-feira, dia 05/06/13, das 20h30 às 22h 
Praça Mário Chamie


Palestra de Luciana Garcia sobre Edward Said

A pesquisadora de cultura árabe Luciana Garcia apresentará uma palestra sobre o escritor palestino Edward Said, autor do livro Orientalismo.

Quinta-feira, dia 06/06/13, das 19h30 às 21h 
Sala de Debates


Sarau do Binho 

Sarau poético com leituras, apresentação musical e lançamento de livros de novos autores organizado pelos poetas Binho e Patrícia Romiti, que realizam atividades de divulgação cultural na periferia de São Paulo.

Domingo, dia 09/06/13, das 18h às 20h30 
Praça Mário Chamie


Poetas de Cabeceira: Gregório de Matos

Frederico Barbosa fará uma palestra sobre o poeta barroco baiano Gregório de Matos, comentando a biografia do autor, sua época, características estéticas e, sobretudo, a sua experiência pessoal como leitor da poesia de Gregório de Matos, um dos autores mais importantes da literatura brasileira do século XVII.

Quinta-feira, dia 13/06/13, das 19h30 às 21h 
Sala de Debates


Menu de Poesia

Recital dedicado à obra do poeta Gregório de Matos organizado por Maria Alice Vasconcelos.

Sexta-feira, dia 14/06/2013, das 20h30 às 22h 

Praça Mário Chamie


Poemas à Flor da Pele

Sarau poético realizado pelo grupo Poemas à Flor da Pele, com a participação de músicos e atores. Haverá também o lançamento de livros de poesia de novos autores.

Sexta-feira, dia 21/06/13, das 19h às 20h30  

Sala Adoniran Barbosa

UM POEMA DE MARCELI ANDRESA BECKER


DAS IRMÃS


I


1

o fogo.


erguer-se dos desfiladeiros,

o corpo —


como se as partituras regressassem ao mistério

das mãos.


à quiromancia dos chamados.


2


boca, comei este pão e tomai este vinho anti-horário.

girai as fabulosas torneiras da vascularidade,

a cabeça exorcista da pequena regan,


180 graus


de febre: este é o meu corpo e este é o meu sangue.



II

por vezes minhas unhas crescem

mais que o habitual.


lembram as unhas dos mortos:

inoxidáveis —


ganchos onde eu poderia pendurar


tuas vísceras,

(o peso),


levá-las de lá para cá,

(o amor),


como uma espécie de açougue

ambulante.


sabes, sou assim.


tenho sonhos em que me transformo

em lady zumbi.


*


para cada homem deus ofertou um pedaço fálico

de sua ausência.


tu és um deles: não perdoo.


III


regressam à mansão com lamparinas gravitando

em torno da cabeça.


eixo dos satélites do fogo, da suprema

incandescência,


elas: minhas irmãs mortas, gravitando em torno de seus nomes vazios.

como se fossem dizê-los.


*


a luz se despede do sangue.


as minhocas descem para aquele continente

onde o silêncio se avoluma


e produz ecos.


*


"perdoa-nos", suplicam.

  
IV
  
queimam-se as pontas

dos cabelos.


o dossel se abre como as manhãs ou um pássaro enorme.


*

 é ela, a irmã que ama.

a irmã louca.


em algum lugar da última palavra que dirá

o vento devasta omoplatas


e fêmures.


um par de rosas brota nas órbitas

de sua caveira.


*


conheço homens que podem suspendê-la da vida e da morte

com seus guindastes, o canto.


os lábios oníricos.


*
  
prendem-na às cordas furiosas.

giram as roldanas de seu corpo.


puxam-na para o alto, para o alto — eternamente.

  
V

fala-se no espírito de uma mendiga.


somente os sexos conseguem

psicografá-lo.


*


fala-se num vale onde os mortos sobem em pernas de pau

e atingem alturas inconcebíveis.


a mediunidade paira sobre suas cabeças:

o enxame de moscas.


*


é tão triste apodrecer.


*


o pão se entrega à sarna noturna.

a fome se entrega à fome.


*

 minhas irmãs não suportam se ver nuas.


VI


gestos da criança que ela não teve se espalham pelo jardim

como uma missa de cinzas.


juntam-se à neblina.


*

 às cinco e meia, precisamente, os sinos da melancolia

fulminam a torre.


(nas cordas, as mãos frias

da irmã.)
  
*
  
ouvem-se suas badaladas

por toda a terra.

  
VII

ninguém pelos corredores a partir das nove

(regras de funcionamento):


o piso em madeira não absorve o impacto do caminhar.


seria impossível dormir com as noviças indo

e voltando do banheiro,


seus chinelinhos tristes,

suas camisolas de chorar pétalas.

 *
  
a ventania abre uma segunda noite entre as folhas do hinário, na mesa da sala.

já nos respectivos quartos, elas abrem as pernas

e se tocam longamente.


 VIII

lounge, lira. fertilização ao modo psytrance. minhas irmãs se dopam com as três partes do segredo de fátima e gargalham.

(um abutre vesgo enrodilha as pick-ups.)

*

não se sabe exatamente quantas há.

você vê larvas de procedência rara saindo do umbigo do poema. lounge, lira,
três vezes autópsia:

psy, psy, psycadáver de fátima.

*

litros de loção e cera depilatória descem pelas ruas de ibiza.
elas se ajoelham e oram.


 IX

não levantarás

não estarás vivo

para ver


meu sexo descende da hélice anti-horária, a palavra de judas

o meu e o das irmãs


sei que um dia esses sexos girarão infinitamente

e nós subiremos com o peso


todo o peso do mundo

inclusive o teu

inclusive o teu


tuas pernas de coliseu elétrico

tua outra artilharia

de senhas


as 33 vozes que nasceram e se puseram como um sol

nos teus cabelos


este será o dia, amor

o único dia que terá havido sobre a terra


não levantarás

estarás morto

quinta-feira, 23 de maio de 2013

FRANÇOIS TRUFFAUT -- SEMPRE ATUAL



UMA VOZ DISSONANTE NO PANORAMA DA POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA


Suplemento Literário de Minas Gerais publicou um dossiê sobre a nova poesia brasileira na forma de depoimentos em que poetas escrevem sobre poetas. Eu escolhi escrever sobre uma jovem autora que venho acompanhando há alguns anos e que sempre me surpreende pela ousadia e criatividade temática e formal: 


Marceli Andresa Becker é a voz mais interessante que surgiu na poesia brasileira nos últimos anos. Gaúcha, professora de filosofia e editora da revista eletrônica Mallarmargens, a autora vem publicando em seu blog, De ter de onde se ir (http://deterdeondeseir.blogspot/. com.br/), fragmentos de um poema longo, assimétrico e descontínuo chamado Das Irmãs, composição a meio fio entre o relato confessional e a mais pura abstração, em que sons e imagens formam uma estranha e sinestésica pintura semântica. O poema apresenta cenas de mutilação, de simbiose monstruosa, de deformação ou transfiguração intencional de corpos e objetos: é um relato sobre a sexualidade, mas não apenas isso, aborda também o problema da identidade (duplicada na irmã misteriosa), da efemeridade da vida (a morte como única realidade inescapável). Não há uma lógica linear discursiva no poema, mas uma ratio caleiodoscópica, combinatória, mais próxima talvez de Mallarmé e de Rimbaud do que de Herberto Helder. A maneira como os signos apresentam-se, aproximam-se, transformam-se, distanciam-se, obedece a um ritmo não apenas referencial, mas também plástico: nisso está a sua unidade. Admirável pelas sinestesias e metáforas como “a luz se despede do sangue. / as minhocas descem para aquele continente / onde o silêncio se avoluma / e produz ecos”, pelo brutalismo hellraiser de outras passagens -- “ganchos onde eu poderia pendurar / tuas vísceras, / (o peso), / levá-las de lá para cá, / (o amor), / como uma espécie de açougue / ambulante”, o poema incorpora ainda a ironia, o humor negro, o non sense e a teratologia, numa síntese de radical originalidade. A poesia de Marceli Andresa Becker é uma droga pesada, que nada tem a ver com milkshakes, jujubas ou patinhos de borracha. É uma vodka com alto teor alcoólico, para aqueles que amam a poesia como a mais radical experiência sensorial criada pela mente humana.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

sábado, 18 de maio de 2013

DOIS POEMAS DE RAUL BOPP


IV

  
Esta é a floresta de hálito podre
parindo cobras.

Rios magros obrigados a trabalhar
A correnteza se arrepia
descascando as margens gosmentas

Raízes desdentadas mastigam lodo

Num estirão alagado
o charco engole a água do igarapé

Fede
O vento mudou de lugar

Um assobio assusta as árvores
Silêncio se machucou

Cai lá adiante um pedaço de pau seco:
Pum

Um berro atravessa a floresta
Chegam outras vozes

O rio se engasgou num barrento

Espia-me um sapo sapo
Aqui tem cheiro de gente
— Quem é você?

— Sou a Cobra Norato

Vou me amasiar com a filha da rainha Luzia.


VII 

Ai! Tenho pressa. Vou andando
Furo tabocas
Onde estou?

Árvores de galhos idiotas me espiam
Águas defuntas estão esperando a hora de apodrecer

Escorrego por um labirinto
com árvores prenhas sentadas no escuro
Raízes com fome mordem o chão

Carobas sujas levantam os vestidos
como cachos de lama pingando

Açaís pernaltas
movem as folhas lentas no ar pesado
como pernas de aranha espetadas num caule

Miritis abrem os grandes leques vagarosos

Sapo sozinho chama chuva

No fundo
uma lâmina rápida risca o mato
Trovãozinho roncou: já vou

Vem de longe
um trovão de voz grossa resmungando
Abre um pedaço do céu
Desabam paredões estrondando no escuro
Arvorezinhas sonham tempestades...

A sombra vai comendo devagarzinho uns horizontes inchados

(Poemas de Raul Bopp, do livro genial Cobra Norato)

segunda-feira, 13 de maio de 2013

DOIS POEMAS DE GUIMARÃES ROSA



AMARELO

Kuang-Ling,
pintor chinês de máscara de cera,
feliz de ópio, e ébrio de dragões,
molha o pincel na água de ocre
do Huang-Ho,
e, entre lanternas de seda,
pinta e repinta,
durante trinta anos,
sulfúreos e asiáticos girassóis,
na incrível porcelana
de um jarrão
dos Ming...

VERDE

Na lâmina azinhavrada
desta água estagnada,
entre painéis de musgo
e cortinas de avenca,
bolhas espumejam
como opalas ocas
num veio de turmalina:
é uma rã bailarina,
que ao se ver feia, toda ruguenta,
pulou, raivosa, quebrando o espelho,
e foi direta ao fundo,
reenfeitare, com mimo,
suas roupas de limo...

(Do livro Magma, de Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997)