quarta-feira, 27 de março de 2013

PROGRAMAÇÃO DE ABRIL DA CURADORIA DE LITERATURA E POESIA DO CENTRO CULTURAL SÃO PAULO



CLUBE DE LEITURA DE POESIA: ANELITO DE OLIVEIRA

O poeta, editor e ensaísta Anelito de Oliveira conversará com o público sobre a sua carreira literária e fará uma leitura de seus poemas. Em seguida, o público será convidado a fazer perguntas ao poeta, para um bate-papo.

Quarta-feira, dia 10/04/13, das 19h30 às 21h  
Sala de Debates –

  
JÚLIO CÉSAR MORTO POR UM DISPARO DE BROWNING 

Ricardo Corona, poeta, tradutor e editor da revista Bólide apresentará uma performance poética, a partir do conceito de que “livro” e “poesia” estão situados num mesmo espaço. Quando o livro não é mero suporte, mas poesia. Quando é objeto que participa da linguagem poética, num movimento que o aproxima do espaço da ação performativa e vice-versa. Quando autor, livro, texto, imagem se potencializam no espaço da performance. Na ocasião, haverá o lançamento do livro ¿Ahn? (edições brasileira e espanhola), de Ricardo Corona, e do primeiro número da revista de literatura e arte Bólide.

Terça-feira, dia 23/04/13, das 19h30 às 21h
Sala de Debates
  

POESIA DOS 4 CANTOS: NOITE LIBANESA

Poesia dos Quatro Cantos é uma atividade mensal dedicada à divulgação da poesia internacional, num formato que inclui a leitura com danças e músicas típicas de cada país, nos intervalos das leituras. Em março, será feita a apresentação de uma Noite Libanesa com a poeta Francesca Cricelli, com a participação dos músicos Claudio Kairouz, Rogério de Queiroz, William Bordokan, Semi el Khouri Bordokan e da dançarina Cristina Antoniadis Bordokan.

Quarta-feira, dia 24/04/13, das 20h30 às 22h
Sala Adoniran Barbosa

  
MENU DE POESIA

Recital dedicado à obra do poeta carioca Rodrigo de Souza Leão, organizado por Maria Alice Vasconcelos.

Quinta-feira, dia 25/04/2013, das 20h30 às 22h 
Praça Mário Chamie


POEMAS À FLOR DA PELE

Sarau poético realizado pelo grupo Poemas à Flor da Pele, com a participação de músicos e atores. Haverá também o lançamento de livros de poesia de novos autores.

Sexta-feira, dia 26/04/13, das 20h30 às 22h 
Praça Mário Chamie

terça-feira, 26 de março de 2013

domingo, 24 de março de 2013

POEMAS DE EUGÊNIO DE ANDRADE



AS GAIVOTAS

As gaivotas. Vão e vêm. Entram
pela pupila.
Devagar, também os barcos entram.
Por fim o mar.
Não tardará a fadiga da alma.
De tanto olhar, tanto
olhar.


VARIAÇÃO SOBRE UM TEMA ANTIGO

Vem de tão longe que tenho piedade
dos seus cães: abro a porta, aceito
a festa dos animais.
Aproximou as mãos do fogo
e encontrou a flauta, levou-a
à boca: então o silêncio brilhou
acariciado.


AS JANELAS

As janelas
por onde entram as silvas,
a púrpura pisada,
o aroma das tílias, a luz
em declínio,
fazem deste abandono
uma beleza devastadora
e sem contorno.


MULHERES DE PRETO

Há muito tempo que são velhas, vestidas
de preto até a alma.
Contra o muro
defendem-se do sol de pedra;
ao lume
furtam-se ao frio do mundo.
Ainda têm nome? Ninguém
Pergunta, ninguém responde.
A língua, pedra também.


ROSA DE AREIA

Enquanto
um calor mole nos tira a roupa
e mesmo nus sobre a cama
os corpos continuam a pedir água
em vez doutro corpo,
penso no tempo em que o suor
e a saliva e o odor e o esperma
faziam dessa agonia
a alegria
a que chamávamos amor.


FRÉSIAS

Uma pátria tem algum sentido
quando é a boca
que nos beija a falar dela,
a trazer nas suas sílabas
o trigo, as cigarras,
a vibração
da alma ou do corpo ou do ar,
ou a luz que irrompe pela casa
com as frésias
e torna, amigo, o coração tão leve.

(Do livro Rente ao dizer, 1992)

quinta-feira, 21 de março de 2013

A RECEPÇÃO CLÁSSICA DA POESIA JAPONESA EM PORTUGAL (VI)



2. 4 De Eugênio de Andrade a Albano Martins

Uma rã que salta – Homenagem a Bashô (Porto: Limiar, 1995) é um elegante volume que apresenta traduções e poemas originais que dialogam com o mais conhecido de todos os haicais japoneses – “No velho tanque / uma rã salta – mergulha. / Ruído na água”, de Bashô. A antologia, organizada por Casimiro de Brito para o Pen Club português, apresenta ensaio introdutório do estudioso inglês Stephen Reckert, professor da Universidade de Londres e autor de Beyond Chrysanthemus (Oxford Press, 1993), e poemas escritos por vinte autores de língua portuguesa, entre eles Eugênio de Andrade (1923-2005), Antonio Ramos Rosa (n. 1924), Albano Martins (n. 1930), Yvette Centeno (n. 1940), Maria Alzira Seixo (1941) e o brasileiro Murilo Mendes (1901-1975).  No final do volume, foi incluído um caderno com traduções de Bashô realizadas por outros nomes de importância na literatura portuguesa, como Jorge de Sena (1919-1978), Ana Hatherly (n. 1929) e Liberto Cruz (1935), e ainda dos brasileiros Paulo Franchetti (1954) e Elsa Taeko Doi. A leitura atenta desta antologia revela enorme diversidade de dicções e estilos, que dialogam de maneira criativa com temas e técnicas da poesia japonesa tradicional, sem intenção caricatural ou mimética. Casimiro de Brito abre a mostra com a sua renga À sombra de Bashô, que intercala haicais do autor japonês com outros de sua própria lavra, num diálogo já examinado neste capítulo. Eugênio de Andrade, que aparece em seguida, multiplica as três linhas do haicai em três tercetos completos, autônomos, aos quais adiciona um verso isolado, totalizando dez versos:


HOMENAGEM A BASHÔ

As cigarras ardem
nos ramos do verão
como lenha verde.

Um rumor pueril
e doce de abelhas
enganava a sede.

No cimo da torre
da praça mais branca
é que o sol se despe,

e dança dança dança.


O primeiro terceto, fortemente imagético, com métrica próxima à redondilha menor (com versos de cinco e seis sílabas), inclui o signo da estação do ano, o kigo (“nos ramos do verão”) e o olhar do poeta está voltado às pequenas coisas da natureza, como cigarras e ramos de árvore, mostrados de maneira metafórica, que atribui um brilho virtuosístico à cena observada – “As cigarras ardem / (...) / como lenha verde”.  No segundo terceto, permanece o foco nos seres de menor dimensão do reino animal, no caso, as abelhas,  mas a objetividade do haicai é perdida com a adjetivação retórica (pueril, doce) e com a abstração metafórica da imagem. Na terceira composição, Eugênio de Andrade alcança maior precisão de imagens, nos dois versos iniciais, e conclui o poema com uma inesperada prosopopéia, em que o sol, convertido em personagem, despe-se da luz e “dança dança dança”, sendo o quarto verso – inexistente no haicai – uma possível citação de Une saison en enfer, de Rimbaud (“Fome, sede, gritos, dança, dança, dança, dança”, lemos na tradução de Ledo Ivo, in RIMBAUD, 1982: 52). A cena criada por Eugênio de Andrade neste poema foge das convenções do haicai, mas, pela imagem inusitada, lúdica, próxima ao imaginário das crianças, não destoa da tradição inaugurada por Bashô, a quem o poema é dedicado no título. O apreço do poeta por esse pequeno conjunto de (quase) haicais pode ser avaliado por sua inclusão no livro Pequeno formato (1997), publicado por Eugênio de Andrade dois anos após o lançamento da antologia Uma rã que salta. A sensibilidade poética do autor, no entanto, submeteu os tercetos a uma rigorosa revisão estilística, a começar pelo título, que muda para Rumores de verão, excluindo a óbvia referência metalingüística do título anterior. O primeiro terceto, talvez o mais virtuosístico, foi reelaborado, perdendo um pouco do brilho original mas ganhando maior proximidade com o espírito do haicai:  “As cigarras cantam, / como no inverno / arde a lenha verde”,  imagem simples e eficaz, com economia de recursos e  alta definição de contornos. Já o segundo terceto sofreu a alteração de uma única palavra, que mudou completamente o seu sentido: em lugar de “Um rumor pueril / e doce de abelhas / enganava a sede”, o poeta escreve agora: “Um rumor pueril / e doce de abelhas / acrescenta a sede”, mudança imprevista que adiciona uma discreta ironia ao verso. A terceira estrofe muda completamente: em vez de “No cimo da torre / da praça mais branca / é que o sol se despe”, o poeta escreve agora: “Quando o sol avista /os flancos do mar / despe-se a correr, / e dança dança dança” (in ANDRADE, 2000: 545), substituindo a paisagem quase estática da versão anterior por uma imagem em movimento, que recorda a desmesura de uma composição de Bashô: “o dia em chamas / joga no mar / o rio mogâmi”, na tradução de Paulo Leminski.


Rumores de verão é a peça de abertura de Pequeno formato, conjunto de 30 poemas breves, em que predominam os dísticos, tercetos e quartetos; de todos os livros de Eugênio de Andrade, este é o que apresenta maior economia verbal. A simplicidade, a presença da natureza, dos animais e das quatro estações, a observação rara e as ações imprevistas, elementos característicos do haicai, predominam neste volume, embora poucas peças possam ser chamadas, a rigor, de haicais; talvez apenas o Jardim de Lou Lim Leoc, que diz: “Deste jardim o que levo comigo / é um ramo de bambu para servir / de espelho ao resto dos meus dias” (idem, 551), terceto antecedido pelo dístico intitulado Templo da barra: “O verde dos bambus mais altos é azul / ou então é o céu que pousa nos seus ramos” (idem). A imagética dessas composições é japonesa, sendo o bambu uma imagem recorrente na pintura sumiê e em diversos haicais, como neste poema de Buson, traduzido por Paulo Franchetti: “Com a luz do relâmpago / Barulho de pingos – / Orvalho nos bambus” (in FRANCHETTI, 2012: 100). A proximidade na página entre os dois poemas, um de três versos, o outro de dois versos, sem uma relação sintática ou referencial entre eles – com exceção da palavra bambu – remete ainda à forma do tanka, em que as duas estrofes têm certa autonomia, relacionando-se por analogia. A justaposição de sentenças sem um nexo lógico entre elas, à maneira de uma montagem cinematográfica, é um recurso estrutural da poesia japonesa, presente no tanka e também no haicai, como neste poema de Bashô: “Um corvo pousado / Num ramo seco – / Entardecer de outono” (in FRANCHETTI, 2012: 128). Podemos encontrar vários exemplos dessa técnica nos poemas de Pequeno formato, como neste poema de cinco linhas, intitulado Cantam na madrugada: “À beira / d’água a luz / é em mim que tem morada: / tão longe / ainda a última barca” (ANDRADE, 2000: 553), em que há um claro corte entre os três primeiros versos e os dois seguintes, que se relacionam de maneira metafórica, assim como as estrofes de um tanka tradicional.  A justaposição de cenas e ações simultâneas é ainda mais expressiva nessa quadrinha, intitulada Verão, escrita em versos de dez sílabas:  “Era verão, pela varanda entrava / a madura ondulação do trigo, / o grito lancinante dos pavões, / o cavalo na sombra ardendo em cio” (ANDRADE, 2000: 547), em que não faltam o signo da estação do ano, os animais e vegetais integrados numa ordenação cósmica.

segunda-feira, 18 de março de 2013

GALERIA: MÁSCARA DE TEATRO NÔ


A RECEPÇÃO DA POESIA CLÁSSICA JAPONESA EM PORTUGAL (V)



Todos esses elementos construtivos estão presentes no ambicioso projeto que Casimiro de Brito denominou LIVRO DOS HAIKU, obra em progresso desenvolvida desde 1958 que será constituída de 14 livros, sendo que apenas dois foram publicados até a presente data: 1) À sombra de Bashô (renga que intercala haicais traduzidos do poeta japonês com outros de autoria do próprio Casimiro de Brito); 2) renga com Ban’Ya; 3) (Elementos, estações); 4) Eros mínimo; 5) Devastação; 6) Da comoção; 7) Através do ar (editado no Japão, em quatro línguas, em parceria com Ban’Ya); 8) Amando, escrevendo; 9) Para além; 10) Outras músicas; 11) Desprendimento; 12) No amor tudo se move; 13 e 14) antologias de haikus antigos e contemporâneos. O primeiro livro deste ciclo, À sombra de Bashô, uma elegante publicação em formato vertical e textura roxa na capa e contracapa, de 14,5cm por 35cm, é um conjunto de 110 poemas alinhados na forma de renga, gênero poético japonês em que dois ou mais poetas participam, intercalando os versos. Conforme escreve Shuichi Kato, “cada um faz uma estrofe relacionada exclusivamente à última estrofe composta, sem nenhuma necessidade de considerar as estrofes anteriores.” (KATO, 2011: 94). “O fluir do renga não é planejado”, afirma o autor japonês, “ele segue conforme as ideias que surgem no momento, ora mudando-se o tema, ora o cenário, ora a emotividade (idem).” Nessa forma de fazer poético regida pela mobilidade, casualidade e surpresa, sem uma unidade ou foco de interesse, o encanto reside no “encontro inesperado”, na “engenhosidade” e na “retórica” de cada estrofe apresentada (idem). 


Em À sombra de Bashô há um elemento insólito adicional, que é o diálogo involuntário de um poeta-samurai japonês do século XVII com um autor português do século XX, que responde aos haicais de Bashô, traduzidos diretamente do idioma original e apresentados em itálico, com outros haicais, concebidos de maneira paródica (no sentido original da palavra, que em grego significa “canto dialogado”). Assim, o conhecido poema de Bashô “No velho tanque – / uma rã salta, mergulha – / ruído na água” é seguido por esta composição de Casimiro de Brito: “Na página branca / na branca voz – outra rã / salta. Silêncio”, que introduz, sub-repticiamente, uma terceira voz na renga, a do simbolista francês Stephane Mallarmé, representado por algumas de suas obsessões – o silêncio, a página em branco e o acaso. Outro poema de Bashô, “O mar escurece / ouço grasnar os patos / vagamente brancos[1]” recebe a seguinte resposta criativa de Casimiro de Brito: “Nuvem deitada / Os olhos espreitam o peixe / que vai saltar”, em que a metáfora e o close cinematográfico de uma imagem inusitada respondem às sinestesias do poema anterior. O diálogo poético estabelecido por Casimiro de Brito com Matsuo Bashô não hesita em subverter o sentido dos poemas com os quais conversa, nem guarda pudores em relação a princípios do haicai tradicional, injetando o sensualismo (ausente na lírica do poeta-samurai), metáforas complexas, citações metalinguísticas, a presença ostensiva do eu lírico e referências urbanas que denunciam o poeta como um cidadão da modernidade, em contraste com o mundo místico, simples e rural de um Japão que não mais existe (tornou-se literatura). Alguns exemplos da riqueza imagética das composições de Casimiro de Brito:


42

Aproximam-se as patas
invisíveis do sol –
de sombras calçadas.


58

O sol adormece
no seu lençol de nuvens
– insônia vermelha.


60

As patas do sol
aproximam-se, invisíveis,
da relva do corpo.


72

Cidade caótica –
a borboleta atravessa a rua
com o sinal vermelho.


Podemos recordar, lendo estes poemas, de alguns haicais de Bashô que colocam em primeiro plano a imagem rara, como esta peça traduzida por Paulo Leminski : “chuva de primavera / a água escorre do teto / pelo ninho de vespas” (in LEMINSKI, 1983: 51), ou ainda: “relampagueia / através das trevas / a garça ecoa” (idem, 50). Bashô, samurai sem mestre (ronin) que tornou-se monge zen-budista,  tematiza o amor universal, a compaixão por todos os seres vivos, de todos os gêneros e condição social, até mesmo pelas plantas e os insetos (“sob o mesmo teto / dormem rameiras, a lua / e também o trevo”, na tradução de Casimiro de Brito), mas nada fala sobre o amor erótico (embora fosse contemporâneo dos Livros de primavera, romances pornográficos em voga na época, e dos rengas satíricos produzidos por comerciantes e soldados); já o poeta português elege esse tema como um dos pontos centrais de seu labor criativo, como podemos ler nesta composição de extrema sutileza e delicadeza: “Cabelos que vou pentear / a noite inteira. O vestido / junto à lareira”. Em outros momentos da renga, Casimiro de Brito inclui haicais de caráter mais filosófico, como se fossem aforismos:


64

O mundo não vou mudar –
deixa-me sacudir a areia
das tuas sandálias


90

A morte não existe.
Onde secam ervas foi água,
que se partiu triste.

102

Tanta luz feliz
Por tão pouco tempo! Amanhã
Estaremos velhos.


110

Talvez a morte não
exista. Talvez seja apenas   
viagem, flutuação.


A afinidade entre o haicai e o aforismo foi percebida por Maria João Cantinho, que, na resenha do livro mais recente de Casimiro de Brito, A boca da fonte (Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim – Editora Unip. Lda., 2012), escreve: “A estética do haiku tem, ainda, vários pontos de afinidade com o aforismo, pela mesma retórica, pelo mesmo sentido de economia e de rigor poético”, motivo pelo qual “tenha entrado na literatura ocidental pela estética do fragmento, tão cara aos poetas alemães românticos, tendo como cultor máximo do gênero o poeta Novalis[2]” (CANTINHO, 2013).  O aforismo e o fragmento estão presentes em diversas obras do autor português, relata a autora, citando livros como A arte da respiração, editado pela D. Quixote (1988), Da frágil sabedoria, (2001), Fragmentos de Babel (2007) e Arte de bem morrer (2007), aos quais podemos acrescentar Na via do mestre (2010), conjunto de 81 poemas-aforismos que dialogam com o Tao te king, do sábio taoísta chinês Lao Zi, que viveu no sexto século antes de Cristo. “A peculiaridade e o próprio sentido desta estética do fragmento nasce do próprio instante e da concentração temporal nele existente, do Aqui e do Agora que se abrem na sua leitura”, escreve a autora (idem). O tempo do poema é o tempo presente; mesmo a recordação evocada de situações localizadas em outras coordenadas espaço-temporais se concretiza poeticamente a partir da rememoração / refabulação feita no agora. Ou ainda: o poema cria o seu próprio tempo, que se manifesta na duração da leitura, e o seu próprio espaço, que é o branco da página. Conforme diz Maria João Cantinho, “o poema conquista a sua plenitude à luz da organicidade e da estruturação que dele irradia, da sua própria concentração temporal e espacial”. Por essa razão, “cada poema deve ser lido ao centro, para que, da concentração do olhar, surja também a contemplação da origem e do fim do poema, da palavra e da coisa” (idem). Partindo desses pressupostos, afirma a autora que “a estética do haiku ou do fragmento recusa a ideia de um acabamento ou de uma definição da obra e esta vai-se fazendo à medida que se escreve cada poema, definindo-se precisamente pela ausência da sua definição” (idem). Desse modo, a poesia concentrada colhe, em cada verso, “a imperfeição e o segredo, o inesperado” (idem). Os vetores conceituais apresentados por Maria João Cantinho em seu texto são instigantes pontos de partida para uma discussão do conjunto de cem haicais que Casimiro de Brito compilou em seu livro A boca da fonte. A série não tem unidade temática, nem é dividida em focos de interesse; os poemas são numerados e alinhados em grupos de dois, quatro ou cinco por página, sem um critério de organização claramente identificável. Os haicais de Casimiro de Brito não têm rimas e a métrica não é sempre exata, embora esteja próxima das medidas japonesas, de 5-7-5 sílabas. O autor prescinde do signo da estação do ano, o kigo, mas investe na concisão, na economia sintática e nos cortes elípticos, e por vezes dialoga com imagens e recursos da poesia japonesa clássica, como acontece nesta peça: “Vagueiam pela casa / o homem, a mosca e o ar -- / ninguém descansa”, onde a enumeração de personagens humanos e não-humanos em um mesmo cenário e situação recorda o princípio da compaixão budista por todos os seres vivos, tema de numerosos haicais de Bashô, como este poema, traduzido por Kimi Takenaka e Alberto Marsicano: “em profundo silêncio / o menino, a cotovia / o banco crisântemo” (BASHÔ, 1997: 10). A reflexão filosófica é a tonalidade que predomina na maioria das composições de A boca na fonte, em outro ponto de contato com os aforismos de autores alemães como Nietzsche e Novalis; essa “busca do primordial, do ato de beber diretamente da fonte”, escreve Maria João Cantinho, está contida já no título da obra, que alude à imersão “no sentido da natureza e simultaneamente da linguagem” (idem). A inflexão filosofante, sob o signo da água, aparece já na peça de abertura do volume: “Não separes a água / da sua espuma – / a vida é só uma” (BRITO, 2010: 7), que parece responder aos axiomas de Tales de Mileto (“tudo é água”) e Heráclito de Éfeso (“ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”), bem como à tradicional imagem budista que representa o mundo fenomênico como algo temporário, mutável, sem realidade permanente, tal como a espuma nas águas de um rio. Casimiro de Brito, divergindo da ótica budista, parece dizer o oposto: que essência e aparência, substância e acidente formam uma unidade (“a vida é só uma”).  O elemento líquido aparece em diversas composições do livro, em geral com o mesmo viés existencial ou filosofante, por vezes com timbre melancólico: “Silêncio. Ouçam / a vida – água correndo / cada vez mais triste” (idem, 16), que recorda a imagem da clepsidra, na poesia de Camilo Pessanha; “Em cada pedra / um rio que não cessa / de louvar as margens” (idem, 26); “Lágrimas que são / cascata pura. Outras vezes / avalanche mortal” (idem, 28).  A água, símbolo da mobilidade, fluidez, mutação e brevidade dos fenômenos, é um dos motivos-condutores de A boca na fonte, ao lado de outros elementos da natureza, como as montanhas, as vacas, os bambus, os gatos e os figos, entre muitos outros. Conforme Maria João Cantinho,     


Se os elementos e a força da terra e da natureza perpassam a sua poética, sob as mais variadas formas, desde a ínfima gota de chuva ou grão de areia até ao enigmático silêncio das constelações, também o onírico deflagra, a todo o instante, para nos recordar a brevidade da vida e do instante: “Viagem nocturna –/ regresso à origem do sonho/donde nunca saí. (CANTINHO, 2013)


Morte, sonho, infância, destino e linguagem são outros temas que aparecem nesta coletânea de haicais, que compõem uma espécie de diário íntimo do poeta, um registro de lembranças (reais ou inventadas), terrores, desejos, obsessões. O tema mais recorrente talvez seja o da infância, presente em dez poemas, em que se destaca um subtema doloroso, o da orfandade: “A mãe a perdi / no dia em que nasci -- / amor no exílio” (BRITO, 2012: 14); “A mãe não me deu / à luz. Passou-me duma nuvem / para outra” (idem, 12); “O pai ao colo / do filho que traz no colo. / Os dois um só” (idem, 12). A infância é percebida pelo poeta como duas realidades distintas: a biológica, que ele recorda com saudade[3] – “O cheiro da casa / que já não há: o sabor / dos figos da infância” (idem, 15) e a atemporal, uma infância infinda, cujo único limite é a morte: “Acompanha-me / sem nenhuma idade / a criança que fui” (idem, 22); “Infância sem fim -- / enquanto a morte, felina / se vai instalando” (idem, 19). Thanatos é a contraparte do elogio ao Menino, e está presente numa das mais belas composições do volume: “Caminho devagar -- / viverei menos se caminhar / mais depressa?” (idem, 21). As peças mais originais do livro, no entanto, são as sete que comparecem nas páginas finais, sob o título Cf. Lautréamont. Traçar um paralelo entre a poesia clássica japonesa, com todo o seu lastro zen-budista, e a prosa cruel de Isidore Ducasse parece um paradoxo, ou mesmo impossibilidade, mas Casimiro de Brito consegue sair-se bem na dificultosa empresa, fazendo uma releitura intertextual focada na imagética surrealizante, como na peça de abertura da série: “A terra não passa / de um imenso cu celeste / fremindo, cantando”. Claro, este já não é um haicai stricto sensu, mas um terceto que estabelece o diálogo possível entre elementos na estética japonesa – concisão, fala popular, imagens raras, relação Céu-Terra, o imprevisto – e o repertório linguístico e temático dos Cantos de Maldoror, como a pederastia (indicada, de maneira metonímica, na palavra cu), a imaginação fantástica ou bizarra, a atribuição de características humanas a formas inanimadas (este “cu celeste / fremindo, cantando”, que recorda ainda o William Burroughs de O homem que ensinou o seu cu a falar). Em outro poema da série, Casimiro de Brito escreve: “Mãos vegetais / raízes de árvores invisíveis / trepando nas veias”. Neste poema, ainda mais estranho que o anterior, as aliterações em v e s podem ser comparadas aos trocadilhos e jogos verbais da poesia japonesa, como o kakekotoba, e as “árvores invisíveis”, numa leitura um pouco forçada, podem remeter ao signo da estação do ano, o kigo; porém, a fúria semântica e metafórica dessas linhas está bem mais próxima do simbolismo e do surrealismo europeus, movimentos aos quais Lautréamont, em geral, é associado. “Mãos vegetais” é uma bela imagem, mas talvez soasse, a um poeta como Bashô, mera exibição de virtuosismo; “árvores invisíveis” é igualmente construção mental, diferente do registro da observação direta dos fenômenos. A organização estrutural do poema em duas partes, separadas por um travessão, aproxima-se da lógica compositiva de muitos haicais japoneses (p. ex., “Cerejas do anoitecer – / Hoje também / já é outrora”, de Issa, na tradução de Paulo Franchetti), mas o efeito causado é totalmente diverso: no haicai, mesmo a sinestesia, a metáfora e o paradoxo remetem a uma paisagem observada, ou à ação de algum elemento da natureza, sem nenhuma brecha para relações intertextuais cultas, obscuridade ou devaneios do poeta. Ao colocar em primeiro plano a sua fantasmagoria pessoal, parodiando as fantasias de Lautréamont, Casimiro de Brito, guiado “pelo rigor e pela claridade enigmática do pensamento” (CANTINHO, 2013), caminha para além da mera adaptação de uma forma poética oriental para o nosso idioma, obtendo um resultado poético denso, com originalidade formal e temática.



[1] Este poema foi assim traduzido por Paulo Leminski: “o mar escurece / a voz das gaivotas / quase branca” (LEMINSKI, 1983: 36).
[2] Casimiro de Brito: A boca na fonte, resenha publicado no n. XXVII da revista Zunái (março / 2013).
[3] A saudade dos pais também é um tema caro à poesia japonesa: “O grito do faisão / Que saudade imensa de meu pai e minha mãe” (Bashô) (in: FRANCHETTI, 2012: 80). 

GALERIA: CHA-NO-YU


sexta-feira, 15 de março de 2013

A RECEPÇÃO DA POESIA CLÁSSICA JAPONESA EM PORTUGAL (IV)



2.3 Casimiro de Brito: o “rigor e a claridade enigmática do pensamento”

A poesia portuguesa das primeiras décadas do século XX, desde Orpheu até os grupos que se articularam em torno de revistas como Presença, Árvore e Prisma, não assimilou qualquer influência direta da poesia clássica japonesa, que permaneceu desconhecida até meados da década de 1950. A ausência de recepção crítica da lírica de Bashô nas letras portuguesas nesse longo período é um caso excêntrico, uma vez que os leitores europeus e norte-americanos já entraram em contato com o haicai e a cultura japonesa muito tempo antes. Conforme escreve Octavio Paz:

Na história das paixões do Ocidente pelas outras civilizações há dois momentos de fascínio diante do Japão, se esquecermos o engouerment dos jesuítas no século XVII e o dos filósofos no século XVIII: um se inicia em França em fins do século passado e, após fecundar diversos pintores extraordinários, culmina com o Imagism dos poetas anglo-americanos; outro começa nos Estados Unidos alguns anos depois da Segunda Guerra Mundial e ainda não terminou. O primeiro período foi, antes de tudo, estético; o encontro entre a sensibilidade ocidental e a arte japonesa produziu várias obras notáveis, tanto na esfera da pintura – e o exemplo maior é o impressionismo – como na da linguagem: Pound, Yeats, Claudel, Eluard. No segundo período a tonalidade tem sido menos estética e mais espiritual ou moral; isto é, não só nos apaixonam as formas artísticas japonesas como também as correntes religiosas, filosóficas ou intelectuais de que são expressão, em particular o budismo. (PAZ, 1996: 171)

Uma das principais referências desse diálogo “entre a sensibilidade ocidental e a arte japonesa” a que se refere Octavio Paz é a publicação, em 1902, do livro Bashô and the japanese poetical epigram, de autoria do estudioso britânico Basil Chamberlain. Quatro anos depois, o orientalista francês Paul-Louis Couchoud publica na revista Les lettres dois importantes ensaios: Les haikai e Les épigrammes lyriques du Japon, esse último acompanhado de cerca de cem haicais traduzidos, possivelmente a partir do inglês. Conforme diz Paulo Franchetti, o segundo ensaio de Couchoud foi republicado no volume Sages et poetes d’Asie, em 1916, e o livro “correu o mundo, precedido de um prefácio de Anatole France, tornando-se uma das principais referências sobre o assunto, para os leitores de formação francesa” (FRANCHETTI: 2012, 200). Nesse mesmo ano, Julien Vocance (nome literário de Jodseph Seguin) publica uma coletânea de haicais intitulada Cent visions de guerre, e em 1921 “sistematiza as suas ideias sobre o haicai e o seu papel de exemplo de uma nova arte poética. Trata-se de Art Poétique, que saiu na revista La connaissance” (idem, 201). Apesar da contribuição dos estudos de autores franceses e britânicos sobre o haicai e a cultura japonesa, foi graças ao norte-americano Ezra Pound que “a poesia japonesa passou a ser uma referência realmente importante no Ocidente” (idem, 44), escreve Paulo Franchetti. O autor dos Cantos “fará da reflexão sobre a poesia chinesa e japonesa um dos pontos centrais da sua influente concepção de poesia e literatura” (idem). Na obra teórica e ensaística de Ezra Pound, “a poesia do Extremo Oriente não vai ser nem uma preocupação lateral de um grande poeta (esse era o caso de Camilo Pessanha), nem uma referência importante de um poeta sem nenhuma influência duradoura (como se dá com Amy Lowell, por exemplo)” (idem). Pound descobriu o haicai e as peças de teatro nô a partir de seu interesse pela escrita e poesia chinesas – ele foi o editor do livro Os caracteres da escrita chinesa como instrumento para a poesia, de Ernst Fenollosa, que leu pela primeira vez em 1913, quando recebeu os originais que lhe foram entregues pela viúva do sinólogo. Nesta obra singular, “os caracteres chineses eram entendidos radicalmente como ideogramas, isto é, sinais que mantêm uma relação muito próxima com o objeto, ação ou propriedade que representam” (idem, 41). Pound irá valorizar, sobretudo, a justaposição de imagens no ideograma, “em que a relação entre as partes é de natureza metafórica” (idem, 42), recurso que utilizou na concepção estrutural de seu poema longo Os cantos (ou Cantares), que escreveu entre 1917 e 1949, no qual inseriu também personagens e episódios reais e lendários da cultura chinesa e japonesa, mesclados a citações enciclopédicas da literatura, da história e da mitologia de diferentes culturas ocidentais.

Ezra Pound foi o “inventor da poesia japonesa” para o nosso tempo, escreve Paulo Franchetti (parodiando a célebre frase de T. S. Eliot), porque “a desvinculou de uma vez para sempre das leituras que a reduziam a um exotismo sentimental e afetado, sem nenhum interesse para a poesia do Ocidente” (idem, 47), ao mesmo tempo que investiu na assimilação elementos da estética chinesa e japonesa em seu próprio trabalho poético (e recordemos aqui o poema Numa estação de metrô, um quase haicai, assim traduzido por Augusto de Campos: “A visão destas faces dentre a turba: / Pétalas num ramo úmido, escuro”). Earl Roy Minner, em texto publicado na revista de estudos Pound Newsletter, chega a afirmar que “enquanto o seu débito para com a China consiste principalmente em ideias históricas, éticas, políticas e outras, sua dívida para com o Japão é mais importante do ponto de vista de sua teoria literária e de sua técnica” (in CAMPOS, 1977: 57). Ao lado de Pound, outra referência que precisa ser citada é a do escritor norte-americano Reginald Horace Blyth, autor da importante antologia Haiku, obra em quatro volumes com traduções de poemas de Bashô, Issa, Buson e outros poetas menos conhecidos no Ocidente. Segundo Paulo Franchetti, “suas traduções e comentários aos haicai, aos senryu e aos textos zen são de valor inestimável para todo estudioso da literatura japonesa no Ocidente.” (idem). Ele conhecia profundamente “não só a literatura japonesa como ainda a chinesa e a coreana, e sua familiaridade com os poetas de língua inglesa era também invejável” (idem). Blyth tornou-se um ícone da cultura pop nas décadas de 1950 e 1960, contribuindo para a divulgação da estética e da espiritualidade japonesa, ao lado de autores como D. T. Suzuki e Allan Watts, que foram essenciais para a formação de autores como Allen Ginsberg, Gary Snyder e Jack Kerouac. Todo esse rico diálogo entre a cultura japonesa e o Ocidente, no entanto, só frutificaria no cenário poético português no final da década de 1950, quando Casimiro de Brito (nascido em 1938), em viagem de estudos na Inglaterra, entrou em contato com o haicai. Em depoimento publicado na edição XXVI da revista Zunái, o poeta português afirma:

Em 1958, numa espécie de exílio político (para me libertar do eminente recrutamento para a Guerra Colonial), fui para Londres e freqüentei o Westfield College. Era um curso de verão, organizado pela BBC, e coube-me ficar instalado nos aposentos de um professor de Poesia Oriental. Foi um deslumbramento – estar dentro de uma pequena biblioteca de poesia que eu desconhecia. E os livros de haiku deslumbraram-me. Na Universidade havia alunos de mais de 50 países e, entre eles, uma japonesa. Aproximei-me dela, contei-lhe quem era e ao que vinha: que ela me ajudasse a traduzir alguns daqueles poetas já que algumas das traduções inglesas não me agradavam. Disse-me que sim, e foram semanas, meses de trabalho delicado e quase abençoado; foi uma relação amorosa iluminada pela poesia. Quando regressei a Portugal a minha poesia transformou-se noutro mundo porque não só se desenvolvia na tradução dos famosos mestres japoneses como eu próprio comecei a escrever de outra maneira. (in Zunái, Revista de Poesia e Debates n. XXVI, março de 2013)

Fascinado pela condensação poética do haicai, sua economia verbal, sutileza e ironia, o poeta português desenvolve atividades de estudo e tradução da poesia japonesa, além de escrever, ele próprio, composições na forma do terceto e de organizar antologias com trabalhos de outros autores portugueses que se dedicaram às formas do tanka e do haicai, de modo ocasional ou sistemático (Uma rã que salta – Homenagem a Bashô. Porto: Limiar, 1995). Seu trabalho no campo da tradução, acompanhado de estudos críticos, está reunido em duas publicações: Poemas orientais, pequeno volume editado em 1962, na cidade de Faro, e o caderno Poesia japonesa, separata da revista de poesia Limiar n. 5, editada no Porto, que saiu em 1995. As traduções de Casimiro de Brito diferenciam-se daquelas realizadas por Wenceslau de Moraes na década de 1920 por não serem meros registros literais, não raro com adições explicativas ou decorativas ausentes nos textos originais. A informação semântica está aqui, o cuidado em manter a simplicidade e a coloquialidade do haicai tradicional também, mas o poeta procura preservar o estilo conciso, por vezes seco e abrupto dos textos japoneses, como nesta curiosa composição: “Narciso e biombo: / iluminam-se, branco / no branco, um ao outro” (Bashô, 1644-1694), que podemos comparar com versão similar feita por Paulo Leminski: “narciso / biombo / um ao outro ilumina / branco no branco”. A abstração deste poema, que já foi comparado com a pintura de um artista europeu de vanguarda como o suprematista russo Casimir Maliévitch, contrasta com a delicadeza de outra composição, quase uma fotografia do cotidiano: “Mulher sem filhos – / como ela é terna / com as bonecas!” (Ransetsu, 1654-1707). A metáfora, como já vimos, é uma figura quase ausente na poesia japonesa, preocupada em retratar a paisagem de modo claro e distinto, mas comparece por vezes na lírica tradicional, como nesta peça: “Mulheres no arrozal – / tudo nelas é sujo / menos o seu canto” (Raizan, 1654-1716), e ainda neste poema de refinada construção imagética: “O vento, no outono, / toma a forma do capim, / tão espesso!” (Kigin, 1624-1704). A participação do eu poético, outra raridade numa escrita poética tão impessoal, comparece aqui, associada a outra metáfora: “A cobrir os milênios / da minha ausência / o véu duma cascata” (Natsuishi Banya, 1955).

Casimiro de Brito obtém resultados poéticos consistentes em português, evitando a afetação e o exotismo, tipo rice powder poetry, males citados por Haroldo de Campos em sua crítica às traduções de poesia oriental filtradas por um simbolismo finissecular. Ao mesmo tempo que evitava os clichês associados a uma ideia romântica de “Oriente”, Casimiro de Brito não intentou uma recriação radical da estrutura do ideograma, aquilo que Haroldo de Campos chamava de “metáfora visual” e que é inseparável tanto da escrita como do pensamento japonês. A dimensão visual dessa micropoética altamente condensada permite-lhe “um extremo refinamento de percepção, um grande poder de síntese imaginativa, em consonância, aliás, com o espírito poético japonês” (CAMPOS: 1977, 65), afirma o poeta e ensaísta brasileiro, citando como exemplo a palavra yumê (“sonho” em japonês), “expressa pelos desenhos abreviados, superpostos, de vegetação crescendo + rede de pesca + cobertura + sol-pôr” (idem, 64). É impossível deixar de pensar “nos estímulos que este simples vocábulo, a partir de seu casulo gráfico, oferece à imaginação poética. É ele, por si só, um verdadeiro diorama de estratos metafóricos” (idem). “No pensamento por imagens do poeta japonês”, prossegue o autor brasileiro, “o haicai funciona como uma espécie de objetiva portátil, apta a captar a realidade circundante e o mundo interior, e a convertê-los em matéria visível” (idem, 65).

A recriação da poesia clássica japonesa para o nosso idioma, tarefa levada a cabo por Casimiro de Brito, desconsidera a dimensão visual da escrita e os jogos polissêmicos do kakekotoba mas mantém a alta precisão, a dicção enxuta e substantiva do verso japonês, sua simplicidade e espontaneidade, características de todas as artes tradicionais influenciadas pelo zen. A naturalidade da própria caligrafia japonesa, que incorpora o traçado rápido, o borrão e os contornos assimétricos e imprecisos, dificilmente poderia ser recriada em um método de tradução que valoriza o controle do acaso e o rigoroso cálculo prévio dos efeitos. Neste sentido, podemos considerar válida a observação de Paulo Franchetti, para quem esse método leva a um afastamento “do contexto de produção e recepção, bem como da função social de um dado texto em uma dada sociedade”, privilegiando as “correspondências sintáticas, semânticas e sonoras” (FRANCHETTI, 2012: 49). “Quando o poema a ser traduzido pertence a um universo de referências próximo a essa visão de literatura, o método tem resultados excelentes, como se pode ver na tradução que Haroldo de Campos fez do Un coup de dés, de Mallarmé” (idem), prossegue Paulo Franchetti, fazendo a ressalva que “na leitura do haicai, no entanto, que provém de um outro universo de referências, esses pressupostos têm mais efeitos nocivos do que positivos” (idem, 50), citando como exemplo a tradução que Haroldo de Campos fez do famoso poema da rã, de Bashô:

o velho tanque
rã salt’
tomba
rumor de água

Na opinião de Paulo Franchetti, “em face da poética de Bashô, que sempre demonstrou aversão à mera exibição técnica em haicai (...), a utilização de uma ‘palavra-valise’ à James Joyce parece completamente inadequada” (idem, 51). O autor justifica seu severo parecer argumentando que “o hokku de Bashô, célebre por inaugurar a maneira despojada e não simbólica de uma escola que se dizia acessível a crianças e incultos, converte-se em um precioso micropoema ostensivamente trabalhado com agudeza e engenho” (idem, 51) (observemos aqui o uso de palavras extraídas do vocabulário barroco, com intenção crítica; os grifos são de minha autoria). Uma outra visão sobre o tema é apresentada por Paulo Leminski em seu livro Bashô, a lágrima do peixe, onde analisa a imensa variedade de sentidos de outro conhecido poema do autor japonês:

Takotsubo yá
Hakanáki yumê wó
Nátsu no tsuki

a armadilha do polvo
sonhos flutuantes
lua de verão


ou ainda:

polvos na armadilha
sonhos pululam
a lua vermelha


Traduções: Paulo Leminski

“ ‘Flutuantes’ não dá conta, plenamente, do japonês hakanáki, verdadeira onomatopeia visual, imitativa do movimento de oscilação das águas”, escreve Leminski. “A intuição é barroca. A tessitura sonora do haicai é rica de anagramas, tranças de sons que se entrelaçam. A sílaba tsu está em ‘armadilha’ (tsubo), em ‘verão’ (nátsu) e em ‘lua’ (tsúki). Hakanáki quase rima com nátsu” (LEMINSKI: 1983, 54-55). Prosseguindo a análise do poema, o autor diz: “Em hakanáki, um japonês pode enxergar, ainda, uma aparição do verbo ‘chorar’, náku, reforçando o clima aquático. Hakanáki compõe-se de dois ideogramas: ‘fruto’ + ‘não’ = ‘sem fruto’. Hakanáki yumê, portanto, é, literalmente, ‘sonho sem fruto’.” (idem, 54) Em resposta aos que advogam em defesa da simplicidade do haicai, Leminski responde: “Assim, muita complexidade está lá, escondida dentro dos haicais, aparentemente, mais banais” (idem). Como resolver o impasse entre a recriação formal e o espírito de despojamento da filosofia zen-budista? Temos aqui um caso para a liberdade de escolha do tradutor, que pode adotar a estratégia criativa que encontrar correspondência com a sua visão particular sobre a poesia e a literatura, uma vez que nenhuma tradução será perfeitamente exata ou inexata, em especial quando se trata do haicai, com todas as suas camadas de significação, tanto semânticas quanto históricas e culturais. A tradução, assim, não busca uma verdade essencial, mas a relação estética e de pensamento entre o tradutor e o texto traduzido. O próprio Casimiro de Brito, no prefácio aos Poemas Orientais, diz:

A poesia é intraduzível, e a minha tentativa de verter para o português, de fazer poesia a partir dos haicais japoneses, sem lhes roubar a magia, o clímax oriental é, reconheço-o, demasiado arriscada. Penitencio-me dizendo que foi uma tentação, e considero estes poemas breves um pouco como poesia minha. (BRITO, 1962: 10)

A ideia da tradução poética como um novo texto original, em condições de igualdade com os poemas escritos pelo próprio poeta/tradutor, não é nova: ela deriva dos ensaios teóricos e da prática criativa de Ezra Pound, que em seu poema longo Os cantos inseriu textos traduzidos da Odisseia de Homero, de canções dos trovadores da Idade Média, entre outros, de diferentes momentos históricos e países, mesclados aos versos de sua própria lavra, sem nenhuma sinalização prévia para o leitor sobre os créditos de cada composição. O autor norte-americano considerava a tradução como persona (máscara dramática), que lhe permitia falar pela voz de grandes poetas do passado, como François Villon, Guido Cavalcanti e Artaud Daniel, e ainda de Li T’ai Po (ou Rikaku, em japonês) e Zeami (autor da peça de teatro nô Hagoromo, “O manto de plumas”). Ao lado da ideia da tradução como um tipo de heteronímia (tese formulada por Adolfo Casais Monteiro[1]), Ezra Pound desenvolveu o conceito da crítica pelo exercício no estilo de uma época – ou seja, o poeta passou a escrever poemas usando a linguagem e os recursos formais de autores da Idade Média ou do Renascimento, como forma de aprendizado e de diálogo com a tradição, visando realçar elementos poéticos pouco conhecidos nos dias de hoje. O autor norte-americano não desejava fazer de seu trabalho ensaístico e crítico-criativo uma mera arqueologia do passado literário, e sim descobrir, dentro da tradição, o que ainda era novo, ou pouco assimilado, fiel ao princípio confuciano do Make it new, que adotou como palavra-de-ordem. Quando Casimiro de Brito fala em “fazer poesia a partir dos haicais japoneses” ele apresenta uma proposta-desafio análoga à do autor norte-americano, analogia que ganha força quando pensamos que o português, assim como Ezra Pound, exercitou-se na criação conforme o estilo de uma época, nos haicais de sua própria autoria. 

Nas traduções incluídas no volume Poemas orientais (1962), notamos versos mais longos, de sintaxe regular, próxima ao ritmo da prosa. Já nas composições compiladas em Poesia japonesa (1995) há maior concisão, cortes sintáticos e ritmo mais seco, que reforçam o poder de impacto da imagem poética. Os elementos temáticos e formais desse conjunto de traduções serão incorporados e transformados na poesia do próprio Casimiro de Brito, que realiza uma notável mescla do imaginário tradicional japonês com uma sensibilidade moderna temperada pelas vanguardas europeias, que reivindicavam a síntese, a concisão, a ruptura com a lógica sintático-discursiva, a visualidade e o pensamento analógico (lembremos que Casimiro de Brito integrou um dos movimentos de renovação da poesia portuguesa, o chamado Poesia 61, ao lado de Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge, Maria Tereza Horta e Gastão Cruz, aliás contemporâneo da PO-EX, liderado por Ana Hatherly e E. M. de Melo e Castro).





[1] Na opinião de Augusto de Campos, “O paralelo é, sem dúvida, instigante. Mas o exame em profundidade dos dois artifícios revela atitudes poéticas diversas. As personae de Pessoa são, na verdade, personalidades fictícias projetadas do próprio poeta, de dentro para fora. (...) Já as máscaras de Pound correspondem (com exceção talvez única de Mauberley) a pessoas reais de poetas que falam, em sua própria linguagem, ‘através de’ Pound: Cino, Bertran de Born, Villon, Heine, Laforgue, Corbière etc.” (CAMPOS, 1983: 25)

quinta-feira, 14 de março de 2013

GALERIA: SUMI-Ê


A RECEPÇÃO DA POESIA CLÁSSICA JAPONESA EM PORTUGAL (III)



Wenceslau de Moraes conhecia bem o repertório filosófico e religioso do Japão, em especial as práticas e princípios do zen budismo, como percebemos na leitura de seus inúmeros livros sobre a cultura japonesa, como O culto do chá, Fala a lenda japonesa, Relance da alma japonesa e nas Cartas do Extremo Oriente. Essa familiaridade ajudou o escritor português a entender a filosofia da arte que orienta a criação da poesia clássica, em especial o tanka e o haicai, que ele “reimaginou” – para usarmos um termo caro a Haroldo de Campos, extraído de suas notas sobre a tradução de poemas chineses e japoneses – na forma das quadras portuguesas, sem rimas (a poesia clássica japonesa, assim como a grega, não era rimada, e os ideogramas eram dispostos em uma, duas ou três colunas verticais). Conhecida desde a Idade Média, a quadra popular, ou quadrinha, era escrita em várias medidas métricas, especialmente a redondilha, também usada no haicai, e é uma das formas mais concentradas da poesia portuguesa. Sua aparente simplicidade, musicalidade e facilidade de memorização também permitem uma aproximação com o terceto japonês, assim como o emprego de palavras de uso cotidiano e jogos de palavras. Wenceslau de Moraes notou o uso recorrente de onomatopeias na poesia japonesa, como “bisho-bisho (ideia de molhar, de alagar); bura-bura (preguiçosamente); chobo-chobo (gota a gota); goro-goro (estrondo de trovão)” (MORAES, 1925: 30). O autor percebeu também a ocorrência, no haicai, da “reunião de dois períodos, independentes um do outro no sentido, também vulgares na quadra”, que sendo “habilmente manejada, seria suscetível de dar excelentes traduções dos poemas japoneses” (idem, 197). A partir dessa minuciosa investigação da estética do haicai, Wenceslau de Moraes realiza a transcrição do poema japonês para a quadra – e recordemos aqui o emprego da palavra transcrição por Guilherme de Almeida, no artigo Ritmo, elemento de expressão, em que o poeta e tradutor brasileiro usa o termo tal como é entendido na teoria musical, ou seja, “escrever para um instrumento música escrita para outro” (ALMEIDA, 1997: 17). A comparação entre a atividade tradutória e a transcrição de partituras na música erudita, aliás, recorda uma outra comparação feita por Roman Jakobson em conferência pronunciada em 1967, em Tóquio: “Pode-se mesmo dizer que uma tradução fiel, cerrada, de poesia seja uma contradição em termos. O que permanece passível é a transposição congenial – a resposta livre, criativa, de um poeta de língua inglesa a um autor russo ou japonês e vive-versa”, que o linguista russo compara a “uma transposição inventiva, engenhosa, de um poema ou de um romance em pintura, cinema, balé ou numa composição musical” (in CAMPOS, 1993: 7). A recriação dos haicais japoneses para o formato da quadra, portanto, pode ser considerada uma original releitura de Wenceslau de Moraes, e até uma antecipação das modernas teorias e práticas da tradução. Apesar de toda a sua boa vontade, compreensão conceitual, domínio do idioma e da facilidade com que percorria o território cultural japonês, no entanto, Wenceslau de Moraes não logrou obter, em português, um resultado poético eficaz, comparável aos textos originais japoneses. O poema de Bashô sobre o salto da rã – o mais conhecido de todos os haicais – assumiu a seguinte fisionomia, ao ser transposto para as redondilhas da quadrinha portuguesa:

Furu-ike ya
Kawaza tobi-komu
Mizu no oto


Versão literal:

Ah, o velho tanque!
e o  ruído das rãs,
atirando-se para a água!

Versão em quadra:

Um templo, um tanque musgoso;
Mudez, apenas cortada
Pelo ruído das rãs,
Saltando à água, mais nada...

A tradução literal da composição de Bashô recorda as versões que seriam feitas, nas décadas seguintes, por poetas tão distintos entre si como Paulo Leminski (“velha lagoa / o sapo salta / o som da água”), Paulo Franchetti (“O velho tanque – Uma rã mergulha / Barulho de água”) e Casimiro de Brito (“No velho tanque / uma rã salta – mergulha. / Ruído na água”), mas, na transcrição para a quadrinha, Wenceslau de Moraes afastou-se da síntese, da concisão e do estilo elíptico, abrupto, do haicai tradicional, buscando “explicar” o contexto do poema, sua atmosfera física e emocional, inserindo “palavras ou frases que não aparecem na versão literal”, como diz Paulo Franchetti. “O resultado, muitas vezes, deixa a desejar, porque o texto traduzido resulta muito explicativo ou mesmo prolixo.” (FRANCHETTI, 1990: 39) Assim, na versão do haicai para a quadra, Wenceslau de Moraes inclui um “templo” ausente no texto original, adjetiva o tanque como “musgoso”, descreve o silêncio que é apenas implícito no poema (“Mudez, apenas cortada...”) e acrescenta uma desnecessária ênfase no verso final (“mais nada...”)[1]. Podemos recordar, aqui, do julgamento crítico de Haroldo de Campos às primeiras traduções de poemas chineses e japoneses, realizadas na década de 1920, consideradas pelo poeta e tradutor brasileiro como presas de um “exotismo edulcorado e fácil” (CAMPOS, 1993: 17), com uma tendência a “transmitir uma réplica aproximativa, vagamente simbolista, frequentemente diluída, do texto original.” (idem, 15). A severidade do parecer, no entanto, pode ser exagerada, se aplicada a Wenceslau de Moraes, que não era poeta e não teve como objetivo recuperar a informação estética dos textos originais, mas a sua informação semântica (usamos aqui as categorias de Max Bense)[2], a partir de sua vivência no Império do Sol Nascente. O autor não ambicionou a “reconstituição da informação estética do original em português”, contentando-se com “o simples escopo didático de servir de auxiliar à leitura desse original” (CAMPOS: 1978b, 7). Como bem observou Paulo Franchetti, “não é na discutível e interessante proposta de verter o haicai em uma forma tradicional portuguesa que reside o mérito maior de Moraes, e sim em ter enquadrado suas traduções em uma obra que fornece o que é mais raro em relação ao Extremo Oriente: uma visão de conjunto, harmônica e acurada”, que só foi possível porque o escritor possuía “um verdadeiro conhecimento dos aspectos mais importantes da cultura japonesa” (FRANCHETTI, 1990: 39). Wenceslau de Moraes cumpriu o papel histórico de retomar o diálogo cultural entre Japão e Portugal, iniciado no século XVII pelo padre João Rodrigues e interrompido por mais de duzentos anos, durante o Período Tokugawa. A recepção plena da poesia japonesa em Portugal, no entanto, teria de esperar ainda mais algumas décadas até ser incorporada nos ensaios críticos, atividades tradutórias e trabalhos criativos de alguns dos mais representativos poetas portugueses da segunda metade do século XX.


2.2 Releitura sincrônica de Alberto Caeiro

Wenceslau de Moraes viveu no Japão de 1898, data de sua nomeação como cônsul em Kobe, até sua morte, em 1928, em Tokushima, pequena cidade do sul do Japão, na época com setenta mil habitantes. O escritor português deixou 14 livros sobre a cultura japonesa, que testemunham o seu amor pelo país que escolheu como segunda pátria – converteu-se ao zen-budismo, adotou o modo de vestir dos japoneses e casou-se com  Ó-Yoné, cuja morte prematura levou o escritor, em 1913, a renunciar à carreira diplomática. O reconhecimento da obra de Wenceslau de Moraes pelos poetas e estudiosos de literatura em Portugal, porém, não foi imediato, e o interesse pela poesia japonesa esteve ausente nos círculos literários portugueses até meados da década de 1950. Os poetas ligados à revista Orpheu – Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros – dialogaram com a poesia clássica grega e romana, com a lírica elisabeteana, com a poesia simbolista francesa, Walt Whitman, o futurismo europeu, mas em nenhum momento com a arte concentrada de Matsuo Bashô e seus discípulos. No livro Fernando Pessoa – aquém do eu, além do outro –, Leyla Perrone-Moisés faz um curioso paralelo entre Alberto Caeiro, o zen-budismo e o haicai, mas essa comparação, ainda que instigante, esbarra no fato de que Pessoa/Caeiro nunca leu a obra de Wenceslau de Moraes, e menos ainda a poesia japonesa, que naquele momento histórico – décadas de 1910 e 1920 – estava apenas começando a chamar a atenção dos leitores franceses e norte-americanos, após a publicação, em 1905, de uma antologia de haicais escritos em francês por Julien Vocance. Aproximar o Guardador de rebanhos de Sendas de Oku, portanto, é um anacronismo – o “zen” de Caeiro pode ser comparado, com base em evidências textuais, aos autores estóicos e epicuristas, lidos atentamente por Fernando Pessoa e que inspiraram também outro de seus heterônimos, Ricardo Reis. Apesar de sabermos que o autor de Mensagem ignorava a Terra do Sol Nascente – é possível que tenha lido os poemas chineses traduzidos por Camilo Pessanha, de quem era admirador –, a mirada sincrônica de Leyla Perrone-Moisés chama a nossa atenção pelo fato de o leitor contemporâneo projetar, no texto pessoano, reminiscências daquilo que hoje entendemos como “zen”, numa operação mental que coloca em segundo plano a historicidade: trata-se, antes, de uma percepção subjetiva, sutilíssima, e não despida de interesse. Citaremos aqui, como registro dessa singular recepção crítica, a seguinte passagem da autora:

O que pretendo apontar aqui são as notáveis coincidências da filosofia de Caeiro com o Zen-budismo, para assinalar em seguida, na própria poesia desse heterônimo, resultados estéticos semelhantes aos alcançados pelo Zen na arte verbal. O objetivo destas notas não é, evidentemente, classificar a filosofia de Caeiro usando, para tanto, sua poesia. Também não se trata de dizer apenas ‘isto se parece com aquilo’, num comparativismo ingênuo que não nos levaria a nada, já que os caminhos analógicos são infinitos e divagantes. Além disso, no caso preciso do paralelo que ora proponho: 1) a analogia com o Zen só poderia ser tratada superficialmente, dada a complexidade dessa filosofia e o caráter específico (não-discursivo) de sua prática; 2) a preciosa, breve e personalíssima poesia de Caeiro correria o risco de ser esmagada, de passar a segundo plano no confronto com um saber milenar e coletivo como o do Zen.  

O objetivo desta aproximação é, portanto (...), sugerir mais um ângulo de leitura entre os múltiplos que a poesia pessoana permite, acordar mais uma de suas virtualidades. Partindo de um paralelo filosófico, pretendo chegar a uma questão de forma: os efeitos estéticos de certas posições mentais. Só operacionalmente, diga-se de passagem, ofereço esse encaminhamento que vai das ideias às formas; é escusado dizer que na poesia pessoana, como em toda Poesia, temos ideias-formas absolutamente sincrônicas.

O paralelo com o Zen não será portanto detido no confronto filosófico, mas deverá levar-nos de volta à poesia de Caeiro, seus processos, suas articulações, suas dificuldades e soluções. (MOISÉS, 1982: 117-118)

O escopo do presente capítulo não é o estudo da poesia de Fernando Pessoa, mas, a partir das afirmações de Leyla Perrone-Moisés, não podemos nos esquivar de uma brevíssima comparação entre alguns tópicos de Alberto Caeiro e os da poesia clássica japonesa, uma vez que ambos fazem parte, hoje, de nosso repertório intelectual, e o entrecruzamento de referências aconteça, mesmo fora da esfera diacrônica. Conforme diz Leyla Perrone-Moisés, “o haicai não pode ser composto por uma mente analítica ou conceptual, porque busca comunicar a primeira sensação provocada pelo objeto, antes que a consciência dele se apodere e a razão comece a abstratizá-lo” (idem, 135), conceito que depois seria adotado pela poesia beat norte-americana (“primeira ideia, melhor ideia”, diz uma sentença zen). Prossegue a autora: “O haicai é sintético e concreto. Exprime e comunica, de modo inédito, uma sensação de absoluto frescor” (idem). Três são as características básicas do haicai, segundo Leyla Perrone-Moisés:

1) o quê – O haicai é desencadeado por um objeto; é a percepção privilegiada do real em alguma coisa, que constitui assim o núcleo do poema: uma flor, um animal, uma árvore, a lua etc. Não é a projeção de um eu no objeto para conformá-lo a si mesmo, como no “paysage état d’âme” romântico, mas, ao contrário, a total entrega do eu, que se funde, transtornado, ao objeto. “Se o haicai não surge naturalmente do objeto, o objeto e seu observador se tornam dois, e o observador não pode experimentar o sentimento do objeto, já que sua individualidade intervém. Quando o poeta escreve sobre a aparência da natureza, o que deve fazer é agarrar uma intuição básica do objeto”. Atento a esse princípio de realidade do objeto, o haicai privilegia a nomeação, o substantivo; os adjetivos em que se marca a subjetividade do observador são naturalmente evitados; permanecem apenas aqueles, parcos e simples, que definem uma “objetividade”: cor, forma, cheiro etc.

2) onde – O objeto referido é situado, pelo poeta, no lugar em que foi visto, o que contribui para dar maior concretude à imagem. Uma parte do haicai é, assim, destinada a indicar a localização do objeto, cenário sucinto de sua aparição.

3) quando – Com o mesmo objetivo de concretude (objetivo que decorre da própria natureza da percepção), o haicai indica a ocasião em que foi visto o objeto. Essa indicação temporal, indispensável no haicai clássico, contém uma alusão à estação do ano em que ocorre a percepção. O traço temporal tornou-se uma convenção rigorosa, criando-se assim um repertório de saijiki (ou “tema de estação”) extremamente econômico porque indicial: “neve” para inverno, “flor de cerejeira” para primavera, “libélula” para verão etc. (idem, 135-136)

Leyla Perrone-Moisés observa ainda que “o lugar é preciso, mas genérico: jardim, campo, caminho, casa (...); o quando não é a data da história linear, mas a instância de uma estação, remetendo para um tempo cíclico e, assim, ‘eterno’ ” (idem, 136). Todos os sentidos humanos são envolvidos nessa arte poética, mas, como bem ressalta a autora, o haicai “privilegia a visão: ‘O haicai é frequentemente um quadro escrito, exatamente como o suibokuga (desenho a nanquim) é um quadro poema[3]’. (...) O poeta do haicai é antes de tudo um visualizador;  para usar a expressão de Caeiro, é alguém que ‘vê como um danado’.” (idem, 138) A partir dessa breve descrição de princípios da filosofia da arte japonesa, Leyla Perrone-Moisés faz uma curiosa “antologia de haicais” pinçados da obra de Alberto Caeiro, para justificar a sua analogia entre a poética e visão de mundo do autor de O guardador de rebanhos e a arte de extrema concisão de Bashô:


1) “... esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.”
(O. P., p. 203)


2) “Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada
Os meus pensamentos vão contentes.”
(O. P., p. 203)


3) “... uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.”
(O. P., p. 204)

4) “Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme.”
(O. P., p. 205)

5) “... os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz não.”
(O. P., p. 205)


6) “... dia de Verão
(Alguém) abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda.”
(O. P., p. 216)


7) “... uma nuvem passa
(...) quando entra a noite
E as flores são cor da sombra”
(O. P., p. 219)


8) “O luar através dos altos ramos
É não ser mais
Que o luar através dos altos ramos.”
(O. P., p. 222)


Comentando esses inesperados “haicais” do poeta português, escreve a autora:

Admiráveis haicais, alguns ready made, outros obtidos pelo simples corte de algumas palavras ou versos. Falsos haicais com as características dos verdadeiros: síntese, concretude, sensualidade, impacto visual de ‘pequenos quadros’; índices sazonais remetendo para um tempo cíclico; efeitos implícitos por associações surpreendentes (renso); comunicação de sensações e sentimentos não individualizados, apenas humanos (...). Ao propor esta leitura “japonesa” de Caeiro não pretendo, evidentemente, sugerir que, assim recortado, Caeiro fique “melhor”. Efetuo uma operação de leitura como quem, diante de uma paisagem, isola um pormenor, enquadrando-o dentro dos polegares e indicadores. (idem, 141-142)

Fernando Pessoa, que desdobrou-se em heterônimos com diferentes concepções estéticas, morais e filosóficas, inventando para eles biografias e obras, fez das “ficções do interlúdio” a marca de sua extrema originalidade. “Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou quando menos,  os seus companheiros de espírito?” (in CAMPOS, 1978a: 7), escreveu o poeta, com finíssima ironia. Criar um outro “eu” para Fernando Pessoa, um “eu” anacrônico, póstumo e inverossímil, como fez Leyla Perrone-Moisés, a partir de uma leitura sincrônica dos poemas de Alberto Caeiro, não deixa de ser uma aventura fascinante, que recorda as invenções fabulatórias de Jorge Luís Borges, como a conhecida história Pierre Menard, autor do Quixote. Essa operação de leitura, ainda que insólita, não é totalmente arbitrária, uma vez que funda-se nos textos do próprio Pessoa/Caeiro, revistos à luz de um repertório cultural contemporâneo, onde o zen-budismo e o Japão do século XVI estão no mesmo plano que a Poética de Aristóteles e a Grécia do século VI a. C.  O modo como o leitor de hoje saboreia e decodifica um texto literário é diferente daquele de um leitor do início do século XX, cujo lastro de cultura era branco, ocidental, eurocêntrico.  Sob essa perspectiva, a interpretação de Leyla Perrone-Moisés é original e pertinente, deslocando o foco de interesse da intenção textual do autor para o imaginário multicultural do leitor de nossos tempos[4].




[1] Para justificar a sua “reimaginação”, Wenceslau de Moraes escreve: “O leitor não se encontra prevenido para poder encontrar belezas, assim de surpresa, n’uma pequenina poesia japonesa. Mas pense um pouco. Não acha encantador este instantâneo, recordando a paz de um lugar, provavelmente junto de algum vetusto templo budístico, em cujo terreiro se encontra um velho tanque, sendo o silêncio apenas cortado pelo som melancólico que acompanha a queda das rãs sobre a água adormecida?” (MORAES, 1925: 197-198).

[2] “Informação, já o definira antes, é todo processo de signos que exibe um grau de ordem. A ‘informação documentária’ reproduz algo observável, é uma sentença empírica, uma sentença-registro. (...) A informação semântica já transcende a ‘documentária’, por isso vai além do horizonte do observado, acrescentando algo que em si mesmo não é observável, um elemento novo, como, por exemplo, o conceito de falso e verdadeiro. (...) A ‘informação estética’, por sua vez, transcende a semântica, no que concerne à  ‘imprevisibilidade, à surpresa, à improbabilidade da ordenação dos signos’ (CAMPOS, 1993: 32)

[3] Citação de Sanki Ichikawa, Haikai and Haiku, Tóquio, The Nippon Gakujutsu Shinkokai, 1958, p. IX.
[4] Stephen Reckert comenta a respeito: “Embora Pessoa não pareça ter se interessado especialmente pela poesia japonesa, Leyla Perrone-Moisés extraiu da obra de Alberto caeiro mais de vinte haiku aparentemente fortuitos mas muito mais consoantes com o espírito do gênero, por acaso, do que qualquer das quase trezentas quadras ‘ao gosto popular’ do pessoa ortônimo (...). Mais pertinente do ponto de vista comparativo – tanto pela diferença como pela semelhança – é ‘Ela canta, pobre ceifeira’, cujos vinte e quatro versos estão todos implícitos nos três de um haiku do terceiro dos quatro mestres reconhecidos, Kobayashi Issa (1762-1826): À sombra do matagal / o canto da plantadora de arroz / sozinha” (In BRITO, 1995: 10)