quinta-feira, 14 de março de 2013
terça-feira, 12 de março de 2013
A RECEPÇÃO DA POESIA CLÁSSICA JAPONESA EM PORTUGAL (II)
Conforme
escreve Collcutt, “na história das relações internacionais do Japão,
alternaram-se os períodos de relativa abertura e ativos contatos com o mundo
externo, com outros de relativo isolamento” (COLLCUTT, JANSEN e KUMAKURA,
2008: 110). No Período Tokugawa, que se estendeu por 264 anos, o Japão se
manteve em paz com os vizinhos e sem as disputas de poder entre os clãs que
caracterizou os períodos anteriores. “O xogunato Tokugawa foi um estado feudal
centralizado e autoritário. Somente no final do período se começou a
experimentar uma relativa descentralização como conseqüência da debilitação do
poder central (...) e da maior autonomia de alguns dos daymiôs mais influentes” (idem). Conforme Luiz
Dantas, o xogum Ieyasu Tokugawa “estabeleceu (...) as bases dessa sociedade
através de um certo número de decretos” (in FRANCHETTI,
1990: 212). Em 1615, por exemplo, foram lidas, numa assembléia de daymiôs, as Buke-Shohatto (“regras das casas militares”), que
prescreviam normas de conduta para civis e militares, incluindo normas quanto à
alimentação e vestuário dos camponeses, regras para o casamento, interdição do
consumo de álcool e dos atos licenciosos, entre outros itens. Segundo Luiz
Dantas,
é clara no texto a
valorização das virtudes militares, obediência e sacrifício, bem como gosto
pronunciado pela austeridade. Vida frugal, vestimentas despojadas, moderação
nos prazeres; essas aspirações revelam a vontade de impor um ideal patriarcal
de existência (idem, 214).
As leis decretadas pelo xogum Tokugawa não se
limitavam a “criar os alicerces de um Estado autoritário, mas chegavam até a
codificar o estilo de vida, ao mesmo tempo que impossibilitavam qualquer
mudança, o crime supremo do regime” (idem). A vida intelectual japonesa nesse
período conheceu o estudo intenso da filosofia de Confúcio, que enfatiza o
culto aos antepassados, a piedade filial, a obediência aos superiores e a
lealdade ao imperador, ao mesmo tempo em que valorizava as artes tradicionais
inspiradas pelo zen-budismo, como a caligrafia, os arranjos florais e a
cerimônia do chá. Somente em Edo (Tóquio), a nova capital do império, havia 800
instrutores de caligrafia. Conforme escreve Collcutt, nesse período “foram
publicados inúmeros livros ilustrados mediante a técnica da gravura em madeira
devido à grande demanda gerada por uma população urbana cada vez mais
instruída” (COLLCUTT, JANSEN e KUMAKURA, 2008: 157). No início do
século XIX, o Japão “se converteria pouco a pouco em uma sociedade mais
instruída, móvel, fluida e ávida por diversão e entretenimento” (idem). “Além
das escolas han, onde se
educavam os jovens samurais dos domínios, escolas privadas e escolas de um
único cômodo ofereciam instruções básicas aos filhos de aldeões e camponeses”
(idem). Ronald Dure estima que, no final do Período Tokugawa, “43% dos homens e
10% das mulheres haviam recebido algum tipo de educação escolar. Seja qual for
a porcentagem exata, está claro que (...) já estavam assentadas as bases da
alfabetização, educação e cultura modernas vindouras” (idem). Esta é, em linhas
gerais, a sociedade japonesa que seria redescoberta pelos europeus quando o
intercâmbio artístico, econômico e cultural com o Ocidente foi retomado, a
partir de 1853, após ameaças de bombardeio da costa japonesa pela esquadra
norte-americana do Comodoro Perry, que impôs, a manu militari, o fim do
isolamento nipônico. A abertura ao mundo ocidental atingirá o apogeu na Era
Meiji (1868-1912), quando a gravura, a pintura, a poesia e outras artes
japonesas são divulgadas na Europa. Conforme escreveu Paulo Franchetti,
Ora, o Japão, que
tinha ficado por 200 anos fechado aos olhares estrangeiros, forneceu, desde a
sua abertura ao Ocidente, na segunda metade do século XIX, um generoso campo de
registro de singularidades e construção de idealizações várias.
A ética rigorosa
que sustentava o serviço dos samurais, a etiqueta minuciosa da nobreza feudal,
o refinado senso de decoração e o gosto pela vida em contato com a natureza
fascinaram os viajantes. Bem como os costumes bizarros: o banho coletivo, os
pratos e copos minúsculos, os grilos presos em gaiolas, a maquiagem e o
comportamento das gueixas, os hábitos alimentares. (FRANCHETTI, 2012: 197)
“As primeiras apresentações da literatura
japonesa no Ocidente”, continua Franchetti, “apareceram em livros de viagem”
(idem), como as obras de Basil Chamberlain (1850-1935), Paul-Louis Couchoud
(1879-1959) e Julien Vocance (1878-1954), e, no âmbito da língua portuguesa, os
relatos do diplomata, oficial da marinha e escritor português Wenceslau de
Moraes (1854-1929), que exerceu o cargo de cônsul no Japão, após ter prestado
serviços em Macau, Timor Leste e Moçambique. “Em seus vários livros”, escreve
Paulo Franchetti, “Wenceslau de Moraes (...) relata costumes típicos, traduz
haicai, comenta a literatura, a arte e a história do Japão, tenta incentivar o
comércio e a compreensão entre as suas duas pátrias” (FRANCHETTI, 2012: 38). Ao
contrário de outros viajantes europeus, que descreveram a cultura japonesa sob
um olhar preconceituoso e racista, “Moraes se esforça por mostrar aos
portugueses a grande e sofisticada civilização que se desenvolvia no outro
extremo do mundo” (idem). Não é nosso propósito, aqui, discutir a construção da
narrativa histórica nos textos de Wenceslau de Moraes, porém, vale a pena fazer
uma breve avaliação sobre esse tópico, à luz das teses que Edward Said expôs em
seu livro Orientalismo – O
Oriente como invenção do Ocidente, para assinalarmos a diferença entre a
peculiar percepção de Wenceslau de Moraes e o modo como a maioria dos viajantes
europeus retratou esse outro tão estranho: o outro oriental, seja ele árabe, chinês,
persa ou indiano. Conforme diz Edward Said, que lecionou Literatura Comparada
na Universidade de Columbia, “nem o termo ‘Oriente’ nem o conceito de
‘Ocidente’ têm estabilidade ontológica; ambos são constituídos de esforço
humano – parte afirmação, parte identificação do Outro” (SAID, 2010:13). Quando
o historiador ocidental escreve a palavra Oriente como uma generalização, ele
desconsidera “uma variedade estonteante de povos, línguas, experiências e
culturas”, numa operação em que “tudo isso é desqualificado ou ignorado,
relegado ao monturo” (idem, 15). A atitude do estudioso orientalista europeu, sobretudo
a partir do século XVIII, de acordo com o pensamento de Said, reflete “uma
relação de poder, de dominação, de graus variáveis de uma hegemonia complexa”
(idem, 32). A invenção do Oriente não seria apenas um equívoco histórico
e sociológico, mas uma elaboração teórica colonialista, que desqualifica o
outro para dominá-lo: “O Orientalismo pode ser discutido e analisado como a
instituição autorizada a lidar com o Oriente – fazendo e corroborando
afirmações a seu respeito, descrevendo-o, ensinando-o, colonizando-o,
governando-o” (idem, 29). O discurso orientalista, hegemônico nos estudos
universitários, livros de viagem, relatos jornalísticos e pronunciamentos
políticos europeus e norte-americanos, seria, na opinião de Edward Said, “um
estilo ocidental para dominar, reestruturar e ter autoridade sobre o Oriente”
(idem), sendo usado como justificativa ideológica para intervenções militares
em países considerados “primitivos” ou “autoritários”, que necessitariam da
presença ocidental para ingressarem no “mundo civilizado”. Wenceslau de Moraes,
que como oficial da marinha e diplomata visitou e residiu em vários países da
África e da Ásia, não adota em seus livros uma visão generalista sobre o
“Oriente”, preocupando-se, ao contrário, em perceber a especificidade do traço
cultural japonês, respeitando seus usos e costumes, e inclusive adotando suas
vestimentas, idioma e hábitos alimentares. O escritor português converte-se ao
zen-budismo, casa com uma japonesa e passa os seus últimos anos em Tokushima,
mergulhado no estudo de uma cultura que o encanta[1].
Em Relance da alma japonesa, volume
publicado em 1926, Moraes “fez uma apresentação do haicai que fugiu por
completo ao registro do exotismo pitoresco” (FRANCHETTI, 2012: 38), abordando
a estrutura da língua japonesa, normas gramaticais, gêneros poéticos e recursos
estilísticos de uma literatura que, até então, era desconhecida em Portugal. Relance da alma japonesa não é um livro
erudito, nem uma simples narrativa de viagem, mas o documento sincero de um
europeu que desejou sentir a cultura estrangeira que tanto o fascinava. No
primeiro capítulo da obra, o autor procura justificar o título, definindo a
palavra alma como “transcendência,
isto é, a significação do pensamento íntimo do indivíduo, dos indivíduos, na
apreciação das coisas” (MORAES, 1926: 11). Ele se propõe a “relancear em
espírito o modo de ser da família japonesa, no tocante à sua apreciação racial[1]
das coisas, como ela as vê, como ela as sente” (idem). Reconhece a dificuldade
do seu propósito, uma vez que “a alma japonesa é, para nós, europeus, e mais do
que a de qualquer outro povo, um caprichoso e enorme ponto de interrogação,
refratário a quaisquer averiguações” (idem, 15), mas justifica-se dizendo que
“não tomo muito a sério a dificuldade em que me vejo. Palestro apenas com o
leitor. Relanceio o meio em que me
acho; aponto fatos, como eles se dão, ou me parece darem-se; busco tirar
conclusões, porém sem esperança de alcançá-las” (idem). Prossegue o autor: “Em
todo caso, sigo um método de estudo, para não me desorientar por completo; e
chegarei à última página deste livro, sem sombra de remorsos por ter errado mil
vezes o caminho para onde me levou a fantasia” (idem). Nas páginas seguintes,
Wenceslau de Moraes apresentará minuciosas descrições da sociedade japonesa,
comentando aspectos de sua religião, idioma, educação, política, literatura,
arte, conceitos sobre o amor e a morte, sempre no meio fio entre a informação objetiva
e a impressão subjetiva. Sobre a escrita japonesa, escreve o autor:
“Na língua japonesa, quando escrita (ou
pintada, porque o pincel substitui a pena), as palavras escrevem-se de cima
para baixo e da direita para a esquerda, ao contrário do que sucede com as
línguas européias; empregando símbolos gráficos, silábicos, que os japoneses
inventaram, ou então os caracteres ideográficos (...). Desse processo de
escrever, deriva o fato de que a primeira página de um livro japonês
corresponde à última de um livro escrito a nossa moda.” (MORAES, 1925: 30)
O autor
português, atento à relação entre poesia, caligrafia e pintura, destaca os
materiais utilizados na escrita (o pincel, a pena), a diferença entre os sinais
gráficos que representam sons e os caracteres ideográficos, que são figuras
abreviadas, bem como a peculiar forma de leitura da escrita japonesa, tão
diversa da conhecida nas línguas ocidentais. Wenceslau de Moraes observa a
relação íntima entre as regras gramaticais e os conceitos filosóficos que
moldaram a cultura e a sociedade japonesa, com percepção acurada: “Não há
artigos na língua japonesa. O substantivo e o adjetivo são invariáveis quanto
ao número e quanto ao gênero, denominações gramaticais que os japoneses
desconhecem” (idem, 34). A diferença entre a lógica gramatical do idioma de
Bashô e sua equivalente na língua de Camões não é considerada por Moraes como
deficiência ou falha, e sim como reflexo, no mundo das palavras, de conceitos
espirituais: “Começamos a adivinhar aqui
um conceito da mais alta importância psíquica, na mentalidade do nipônico: a impersonalidade
humana, perante os fenômenos da vida” (idem). O agente individual, numa cultura
regida pelos princípios de Confúcio e Hui-neng – sexto patriarca do zen budismo
chinês –, é algo “de somenos importância, em presença do grandioso drama da
natureza criadora” (idem). Prossegue o autor:
Na língua japonesa, se excetuarmos um ou
dois termos raramente empregados, que designam a primeira pessoa, pode dizer-se
que não há pronomes pessoais. A consequência imediata deste curiosíssimo
fenômeno filológico é não haver senão uma palavra para cada modo e tempo de
cada verbo. (...) Na conjugação dos verbos japoneses, não se tem em conta as
pessoas. (...) Estabelecida claramente esta distinção, pode e deve-se dizer que
não existe sujeito gramatical em japonês. Com efeito, ficou notado que a noção de
pessoa, isto é, de um ser subsistente e potencial, não existe nesta língua. A
consequência rigorosa deste fato é a impersonalidade absoluta no verbo, o qual
não exprime mais do que a existência de um acontecimento, de um estado ou de
uma paixão, sem relação com a pessoa. (idem, 38)
A
impessoalidade, ou ausência de um eu separado do campo dos fenômenos é um
conceito caro à doutrina budista. Conforme explica Ricardo M. Gonçalves em seu
livro Textos budistas e zen-budistas,
“neste contínuo vir a ser que é este mundo, nada existe de substancial e
definitivo. Nenhum fenômeno existe independentemente do contexto em que ele se
situa, e seu destino é transformar-se, quando o contexto se modifica” (GONÇALVES,
1999: 15). A ausência de um eu, nesta
filosofia tão diferente do pensamento religioso cristão e mesmo das doutrinas
devocionais do Extremo Oriente, fundadas na dualidade entre o eu e o outro, o
divino e o humano, o sujeito e o objeto, está relacionada a outro princípio da metafísica
budista, o da interdependência. Segundo Ricardo M. Gonçalves, “as coisas não se
definem pelo que elas são em si, mas pela rede de condicionamentos e
relacionamentos que as ligam ao contexto. O homem, ao se analisar, não encontra
em si mesmo e ao seu redor nada a que possa se apegar como sendo seu eu, sua
personalidade substancial” (idem). A consequência deste pensamento é que o
mundo dos fenômenos, sendo vazio de substancialidade e em contínuo processo de
transformação, é impermanente: tudo muda o tempo todo, logo, os seres e as
coisas não têm realidade estável, fora de situações específicas do espaço e do
tempo, daí a analogia com a experiência do sonho. O único Absoluto, conforme a
metafísica budista, é o Vazio, ou Sunyata, que é “inacessível ao pensamento e à
linguagem” e que “está em todas as coisas e também dentro delas” (idem, 13). Este
Vazio “é o Uno, a Totalidade de Existência, o Absoluto, mas pode revelar a si
mesmo através da multiplicidade dos fenômenos relativos, contingentes e
transitórios, assim como a luz só se revela como tal quando incide em corpos
opacos que provoquem o contraste luz-trevas” (idem). A arte tradicional
japonesa, que expressa este pensamento filosófico, oculta o eu desde a
estrutura da língua, ao mesmo tempo que privilegia a representação do vazio, seja
nas pinturas a nanquim, seja na arte da caligrafia, na jardinagem ou na arquitetura.
Quando os jesuítas portugueses e espanhóis iniciaram sua missão evangelizadora na
Terra do Sol Nascente, foi inevitável o confronto entre a concepção dualista da
realidade, que considera Deus, homem e mundo como realidades distintas, eternas
e inconfundíveis, e o pensamento monista do budismo japonês. Paulo Leminski,
comentando o encontro do padre espanhol Francisco Xavier com o bonzo Ninshitsu, escreve:
Xavier fala do amigo: “tenho falado com
diversos bonzos ilustrados, especialmente com um que é tido na mais alta estima
por todos, pelo seu saber, conduta e dignidade, como pela avançada idade de
oitenta anos. Seu nome é Ninshitsu, que em japonês significa ‘Coração da
Verdade’. É uma espécie de bispo entre eles e, se o nome que usa é apropriado,
é realmente um homem abençoado... Esse homem tem sido para mim um amigo
maravilhoso”.
O diálogo entre eles, porém, não deve ter
sido muito fácil.
Xavier ficou confuso, logo de cara, ao
conversar com Nishitsu.
O velho mestre zen parecia não saber se
“possuía” ou não uma alma. Para ele, era inteiramente estranho o conceito de
que “uma alma” era uma espécie de objeto que “alguém” pode estar “possuindo” e
até mesmo “salvando”. (LEMINSKI, 1983: 77)
[1] Wenceslau de Moraes, numa atitude
raríssima em seu tempo, chega inclusive a justificar a expulsão dos
missionários portugueses das ilhas japonesas: “Dá-se, em 1542, o inesperado
incidente da chegada dos primeiros europeus – os portugueses – ao Japão. Foi
grande o alvoroço, principalmente na ilha de Kyushu. No ano de 1638, os
estrangeiros eram expulsos do Japão; o império isolava-se do mundo inteiro. A
história absolve os japoneses dos atos de perseguição que empregaram contra os
padres, contra os frades e contra todos os católicos em geral;
patenteando-se-lhe a evidência da teimosia missionária e dos altos
inconvenientes que resultariam para o Estado, se uma provável cisão do povo
viesse a manifestar-se, devido aos diferentes cultos em rivalidade”. (MORAES,
1925: 65)
[1] Como um intelectual europeu do século XIX, Wenceslau
de Moraes acreditava sinceramente que a identidade e os valores culturais de um
povo ou nação estavam relacionados a características raciais, porém, à
diferença do Conde Gobineau e outros teóricos racistas, ele não faz juízos de
valor, considerando uma raça “inferior” frente a outra “superior”. Sua
preocupação está em tentar entender a cultura do outro, sem hierarquizá-la, ao
modo dos estudos culturais regidos pelo Orientalismo.
[2] O xintoísmo é uma religião baseada no culto aos
antepassados, aos espíritos da natureza e aos deuses da mitologia japonesa, em especial Izanagi
e Izanami, o casal divino que deu origem ao universo, e Amaterasu, a deusa do
Sol. O imperador também era adorado como um deus vivo, prática que subsistiu
até a derrota do Japão na II Guerra Mundial. Ao contrário do budismo e do
confucionismo, trazidos da China, o xintoísmo (xinto significa “Caminho dos deuses”) é uma religião de origem
japonesa, que remonta à pré-história. Também é conhecida como yamato-kotoba e Kami no michi .
segunda-feira, 11 de março de 2013
A RECEPÇÃO DA POESIA CLÁSSICA JAPONESA EM PORTUGAL (I)
Camões, no Canto X de Os Lusíadas, descreve os continentes e
países conhecidos na geografia portuguesa do século XVI, fazendo breve
referencia ao Japão na estrofe que vai do verso 131 a 138: “... Esta, meio
escondida, que responde / De longe à China, donde vem buscar-se, / É Japão,
onde nasce a prata fina, / Que ilustrada será co a Lei divina” (CAMÕES, 2008: 317, versos 135-138). A passagem, embora sucinta, aponta dois
fatos históricos relevantes: o interesse português nas minas de ouro e prata no
Japão e o propósito de evangelização das ilhas japonesas, que acontecerá a
partir do final do século XVI, com a vinda de comerciantes e missionários portugueses.
Em 1543, Francisco Zeimoto,
António Mota e António Peixoto
desembarcam na ilha de Tanegashima, episódio relatado pelo cronista Fernão
Mendes Pinto, e tem início o chamado período Nanban, durante o qual houve
intensa interação comercial e religiosa entre japoneses e europeus. O Japão (em japonês:
日本; transl.: Nihon ou Nippon;
oficialmente 日本国, Nippon-koku ou Nihon koku),
um arquipélago formado por 6.852 ilhas
– entre elas as quatro maiores, Honshu, Hokkaido,
Kyushu
e Shikoku,
que representam 97% do território nipônico – era mais povoado do que qualquer país europeu da época, com uma população de
26 milhões de pessoas. A sociedade japonesa, aristocrática e feudal, tinha uma
rígida divisão entre classes sociais – camponeses, mercadores, sacerdotes,
guerreiros – e uma economia baseada, sobretudo, na agricultura; entre o final
do período Momoyama (1573-1598) e o início do período Tokugawa
(1603-1867), porém, as atividades comerciais conheceram uma fase de rápido
desenvolvimento, e com elas prosperam as cidades. Octavio Paz, em conhecido
ensaio sobre a cultura japonesa, refere-se a esse período com estas palavras: “Vive-se
na rua e multiplicam-se os teatros, os restaurantes, as casas de prazer, os
banhos públicos atendidos por moças, os espetáculos dos lutadores. Uma
burguesia próspera e refinada protege e fomenta os prazeres do corpo e do
espírito” (PAZ, 1996: 156).
As gravuras em madeira, ou ukyio-ê (“imagens do mundo flutuante”) surgem
nesse período, assim como os romances pornográficos, ou “Livros de primavera”,
que Paz compara à literatura libertina francesa do final do século XVIII, e
ainda as peças de teatro de marionetes conhecidas como kabuki. O jesuíta português João Rodrigues, que viveu em Kyoto,
então capital do império, entre os séculos XVI e XVII, chama essa localidade de
“a nobre e populosa cidade de Miyako” (in COLLCUTT, JANSEN e KUMAKURA,
2008: 108). Rodrigo de Vivero y Velasco calcula a população de Kyoto em 800 mil
pessoas, e estima que “cerca de 300 mil ou 400 mil vive nos arredores”
(idem). A expansão comercial, que
sustentou o florescimento cultural e urbano das grandes cidades, estava
relacionada com as necessidades militares dos senhores feudais, ou daymiôs. “Eram necessários comerciantes
que abastecessem os exércitos de armas, cavalos e armaduras; de alimentos,
bebidas e roupas para as tropas; que vendessem materiais de construção para
levantar fortes e castelos e madeira para embarcações e pontes” (idem, 108-109). Graças ao intenso
comércio com Portugal, Espanha, Holanda, Inglaterra e China, os japoneses entraram
em contato com os grandes centros comerciais da Europa e da Ásia. “Navios
japoneses que tinham licença zarparam para Luzon e para o Sul da Ásia, onde se
estabeleceram alguns grupos de comerciantes. O século XVI presenciou também uma
crescente efusão de ouro e de prata procedente das novas minas abertas no país”
(idem, 109). Toyotomi Hideyoshi, o xogum
(“senhor da guerra”) que unificou o Japão nas últimas décadas do século XVI,
“consciente dos benefícios que o comércio podia oferecer, impôs exações aos
comerciantes, exerceu um controle direto das minas e efetuou cunhagens de ouro e
prata” (idem), além de criar “um sistema monetário uniforme” e investir “na
construção em grande escala de castelos e fortificações” (idem). O contato com
o mundo ocidental movimentou a economia japonesa, ao mesmo tempo em que abriu
as portas do país para a atividade missionária, levada a cabo pela Companhia de
Jesus, que logrou converter milhares de japoneses à fé cristã. Conforme William Johnston, professor da Universidade Sophia, de
Tóquio, “o cristianismo foi levado para o Japão pelo basco Francisco Xavier,
que desembarcou em Kagoshima em 1549 na companhia de dois outros jesuítas e um
intérprete japonês” (in ENDO, Shusaku: 2011, 12). Apesar das dificuldades linguísticas,
“Xavier levou algumas centenas de japoneses para a fé cristã, antes de partir
para a China, cuja conversão lhe parecia indispensável prelúdio à do Japão”
(idem). O verdadeiro arquiteto da evangelização nas ilhas japonesas, segundo o
autor, não foi Xavier, mas o italiano Alessandro Valigmano, “que combinava o
entusiasmo de Xavier com uma presciência e tenacidade extraordinárias” (idem).
Quando o missionário italiano realizou a sua primeira visita ao Japão, em 1579,
“já havia uma florescente comunidade de 150 mil cristãos, cujas magníficas
qualidades e profunda fé inspiraram em Valigmano a visão de um arquipélago
inteiramente cristão no norte da Ásia” (idem).
Seminários, colégios, hospitais e uma noviciaria foram construídos
pela missão católica, que em pouco tempo obtém prestígio na própria corte.
Conforme William Johnston, as cartas e registros dos missionários católicos são
a principal fonte de informação que temos hoje sobre a sociedade japonesa no
período de 1570 a
1614, uma vez que há poucos relatos japoneses sobre esse tempo histórico. Entre
os livros escritos pelos jesuítas, destaca-se o Vocabulário da Lingoa de Iapam (1603), chamado de Nippo Jiten entre os japoneses, publicado em Nagasaki pelo
padre João Rodrigues, que foi o primeiro dicionário Japonês-Português, com 32
mil verbetes, elaborado para ajudar os missionários no estudo do idioma. Em
1604, o religioso escreveu um volume intitulado Arte da lingoa de Iapam, que é, possivelmente, a primeira fonte de
informação sobre a poesia japonesa divulgada em Portugal. O jesuíta escreve
que
Ha hua sorte de versos a modo de Renga que
se chama: Faicai, de estillo baixo & o verso he de palavras ordinarias,
& facetas a modo de verso macarronico, & deste modo de Renga, posto que
nam tem tantos preceitos como a verdadeira, o numero de versos pode ser o
mesmo. E pode começar pello segundo verso de sete sete, que se chama Tçuquecu,
& continuar com cinco sete cinco (in FRANCHETTI, 1990: 37).
A referência do religioso português, embora
lacônica, indica o conhecimento dos gêneros poéticos e das medidas métricas
praticadas nas ilhas japonesas, sem isentar-se de juízo de valor (estillo baixo, palavras ordinárias, nam tem
tantos preceitos como a verdadeira). João Rodrigues é autor também da História da Igreja no Japão, em que faz
observações sobre a vida cotidiana japonesa, a cerimônia do chá, o budismo e o
xogunato. O padre seria expulso do Japão em 1610, como consequência de um
incidente em Macau com o navio português Madre de Deus, em que foram mortos
marinheiros japoneses. Este episódio faz parte de uma série de conflitos que
encerrariam o “século cristão” na Terra do Sol Nascente e levariam à expulsão
de todos os missionários cristãos europeus e ao fim das relações comerciais e
culturais com o Ocidente, no Período Tokugawa (1603-1867). Conforme William
Johnston, a ruptura foi antecedida, em 1587, pela decisão do xogum Toyotomi Hideyoshi, sob efeito do álcool, de
ordenar que todos os missionários deixassem o país. “Decidi”, lia-se em sua mensagem, “que
os padres não devem permanecer em solo japonês. Portanto, ordeno que, tendo
eles resolvido seus assuntos aqui num prazo de vinte dias, retornem para sua
terra” (in ENDO, Shusaku. 2011, 14). “A fúria de Hideyoshi”, escreve Johnson, “logo
se abateu; a maioria dos missionários não deixou o país; e o decreto de
expulsão virou letra morta” (idem). A comunidade cristã no arquipélago japonês,
como anotou C. R. Boxer, não parava de crescer, e quatro anos após a mensagem
de Hideyoshi ela já somava 200 mil almas. Em 1597, o xogum tem novo acesso de
fúria, ao ser informado por um piloto de um navio espanhol de que os
missionários “abriam caminho para as forças armadas do rei” (idem, 14-15).
Hideyoshi mandou crucificar, então, 26 missionários, europeus e japoneses, numa
fria manhã de fevereiro, episódio retratado numa pintura exposta no Museu do
Oriente, em Lisboa, e também na decoração de uma igreja barroca franciscana em
Recife. “A obra missionária, porém, continuou de alguma maneira”, escreve
Johnson, no texto de apresentação do romance O silêncio, de Shusaku Endo, que aborda esse período histórico
(idem, 15). “Os jesuítas viviam apreensivos, mas ainda desfrutavam as boas
graças da corte regencial; e foi apenas no governo de Ieyasu – sucessor de
Hideyoshi e primeiro dos xóguns Tokugawa – que a sentença de morte da missão
católica se tornou irrevogável” (idem). O pretexto para a decisão, novamente,
foi o boato – desta vez apresentado pelo piloto inglês Will Adams – de que a
presença de missionários católicos no país estava relacionada a interesses políticos
da União Ibérica.
Em
1614, o xogum Ieyasu Tokugawa promulga um édito de expulsão, declarando que “o
bando dos kirishitan veio para o
Japão (...) ansiando por disseminar uma lei pérfida, destruir a verdadeira
doutrina e apossar-se do país. Esse é o germe de um grande desastre e precisa
ser esmagado” (idem, 16). Segundo William Johnston, este foi “o golpe de morte.
Veio numa época em que havia uns 300 mil cristãos no Japão (cuja população
total era de 20 milhões de pessoas), mais os colégios, seminários e hospitais e
o crescente clero nativo” (idem). Apesar da repressão, a obra missionária
continuou de forma clandestina, “até que, sob os sucessores de Ieyasu, a caça
aos fiéis e sacerdotes cristãos se tornou tão sistematicamente cruel que varreu
todo e qualquer vestígio visível do cristianismo” (idem). Segundo o inglês
Richard Cocks, a forma usual de execução era a fogueira, e ele declara ter
visto “55 pessoas de todas as idades e ambos os sexos serem queimadas vivas no
leito seco do rio Kamo, em Kyoto (outubro de 1619), e entre elas havia
criancinhas de cinco ou seis anos nos braços das mães” (idem). A perseguição
aos japoneses convertidos ao catolicismo ficou conhecida como sakoku e o número de mártires, apenas entre
1614 e 1640, seria de cinco a seis mil mortos, segundo Johnston. O último e
decisivo episódio do combate à cristandade foi o levante dos camponeses de
Shimabara, em 1637, contra o aumento dos impostos para a edificação de um novo
castelo pelo o clã de Matsukura. Conforme
escreve Johnston, “Essa rebelião (...) transformou-se depois em
manifestação da fé cristã, e os insurgentes carregavam estandartes em que se
lia ‘Louvado seja o Santíssimo Sacramento’ e bradavam os nomes de Jesus e Maria”
(idem, 18-19). A tragédia era inevitável: “O levante foi sufocado com
implacável crueldade, e o xogunato Tokugawa, convencido de que tal rebelião só
fora possível com ajuda de fora, resolveu de uma vez por todas cortar os
vínculos com Portugal e cerrar o Japão para o resto do mundo” (idem). A decisão
de fechar as fronteiras e suspender o intercâmbio comercial e cultural com
outros países não era novidade na história japonesa.
sábado, 9 de março de 2013
JÁ ESTÁ NO AR!
Ano IX, edição XXVI, março de 2013
Entrevista: Uma conversa com Contador
Borges
Por mares
pouco navegados (sobre Horácio
Costa), Ronald Polito
Casimiro de Brito: A boca na fonte,
Maria João Cantinho
A lebre e a serpente, Anelito de
Oliveira
A presença-ausência de Miguilim-Miguel,
Brenno Carriço
Poemas de Amosse Mucavele (Moçambique), Zingonia Zingone
(Itália), José Kozer (Cuba / EUA)
Traduções de T. S. Eliot (EUA), Gregory
Corso (EUA), Edmond Jabès (Egito/França), Jean-Paul Michel (França), Bernardo
Ortiz de Montellano (México), Ron Winkler (Alemanha)
Galeria: exposição virtual de Nuno Cais.
Depoimentos e Debates: Casimiro de
Brito (Portugal)
Quedó con su poliédrica visión: narrativas
de Luciana Inhan, Nina Rizzi e Hudson R. Santos
Zunái, Revista de Poesia & Debates:
www.revistazunai.com.
Preço: Inefável; inconcebível.
Onde encontrar: no ciberespaço, essa “Gran
Cualquierparte” (Vallejo).
quarta-feira, 6 de março de 2013
CÂNONE E ANTICÂNONE (IV)
GLAUCO MATTOSO, O ANJO DE BOTAS CARCOMIDAS
Glauco Mattoso iniciou a sua jornada poética na década de 1970, no auge da ditadura militar, editando o Jornal Dobrábil (título que faz referência irônica ao Jornal do Brasil), publicação artesanal de pequena tiragem feita em máquina de datilografia, que era distribuída pelo correio a um grupo seleto de leitores, como Augusto de Campos e Carlos Drummond de Andrade. A publicação apresentava poemas visuais com nítida influência da Poesia Concreta mas de conteúdo satírico, com referências à situação política do país, e uma coloquialidade e irreverência típicas da Poesia Marginal, de Cacaso e Francisco Alvim, da qual foi contemporâneo. Os poemas e breves crônicas que publicou no Jornal Dobrábil, usando diversos pseudônimos, como Garcia Loca, já traziam a temática urbana, homoerótica e fescenina, que acompanhariam toda a obra do autor, bem como o interesse pelas formas fixas, como o soneto e o haicai. Nos livros Línguas na Papa e Memórias de um Pueteiro, publicados em 1982, encontramos alguns dos poemas mais representativos da fase inicial de Glauco Mattoso, como o Manifesto Obsoneto: “Isso não é poesia que se escreva, / é pornografia tipo Adão & Eva: / essa nunca passa, por mais que se atreva, / do que o Adão dá e do que a Eva leva”. Escrito na forma do soneto, com métrica e rimas, a composição destoa, no entanto, de qualquer vocação conservadora, usando a gíria, o palavrão e a pornografia numa época marcada pela forte censura, que levou à interdição de filmes, livros e músicas acusadas de conteúdo “imoral” ou “subversivo”. Em outro poema dessa fase, Spic (sic) Tupnic, o autor, com verve transgressiva, diz: “Tem híbridos morfemas a língua que falo, / meio nega-bacana, chiquita-maluca; / no rolo embananado me embolo, me embalo, / soluço - hic - e desligo - clic - a cuca./ Sou luxo, chulo e chic, caçula e cacique. / I am a tupinik, eu falo em tupinik”. A palavra neológica tupnik faz referência ao satélite Sputinik, colocado no espaço pela União Soviética dez anos antes e símbolo do progresso, mas também ao tupiniquim, emblema da brasilidade. A mistura de palavras em português e em inglês no poema e as citações de vários ritmos musicais – “o baioque (o forrock, o rockixe), o rockão” – sugerem ainda uma aproximação com a Tropicália de Torquato Neto, Caetano Veloso, Paulo Leminski e Gilberto Gil, que em poemas e letras de música mostravam o caráter mestiço, híbrido e desigual da realidade brasileira. A Tropicália foi também um movimento que dialogou artisticamente com o cinema, a publicidade, as histórias em quadrinhos, e essa mescla de linguagens é algo que sempre fascinou Glauco Mattoso, inspirando Glaucomix, o pedólatra, adaptação de seu livro Manual do Pedólatra Amador, com roteiro do autor e desenhos de Marcatti. A Tropicália é homenageada também no CD Melopéia: Sonetos Musicados, que traz poemas de Glauco Mattoso musicados e interpretados por artistas como Arnaldo Antunes, Edvaldo Santana e Itamar Assumpção (a capa do CD, inclusive, é uma paródia da famosa foto de 1967 que estampa o disco Tropicália, de Caetano, Gil, Capinam e Tom Zé).
Com a cegueira, que o impossibilitou de continuar a criar poemas visuais, o poeta iniciou em 1995 uma nova fase – que ele chama de FASE CEGA --, marcada pelo retorno à versificação tradicional, à métrica, às rimas e ao soneto nos moldes camonianos. Esta mudança, segundo o autor, aconteceu pela facilidade de memorização dos versos, embora ele já tenha escrito alguns sonetos em sua primeira fase criativa, que ele chama de FASE PODORASTA (podolatria + pederastia). Os primeiros livros de sonetos de Glauco Mattoso, publicados entre 1999 e 2000 por pequenas editoras, são Centopéia — Sonetos Nojentos & Quejandos, Paulisséia Ilhada — Sonetos Tópicos, Geléia de Rococó — Sonetos Barrocos e Panacéia — Sonetos Colaterais (Nankin Editorial, 2000), todos eles marcados pela podolatria (adoração fetichista aos pés), sadomasoquismo e humor fescenino (a sátira do erotismo). Bibliotecário de formação, Glauco Mattoso organizou seus sonetos em séries, abordando temas como a culinária, o cinema, a geografia, a política, a religião, entre outros. Seguindo uma sugestão de Augusto de Campos, o poeta inovou também na forma do soneto, especialmente no livro Panaceia, trabalhando com estrofes de dois, três, quatro ou cinco linhas e versos com diferenes números de sílabas. Glauco Mattoso é hoje um dos mais conhecidos poetas brasileiros e já se apresentou no Clube de Leitura de Poesia, do Centro Cultural São Paulo, que também publicou uma plaquete com seus poemas, O cinephilo ecletico, na coleção Poesia Viva, distribuída gratuitamente ao público no CCSP, na Casa das Rosas e na Biblioteca Alceu Amoroso Lima.
Glauco Mattoso iniciou a sua jornada poética na década de 1970, no auge da ditadura militar, editando o Jornal Dobrábil (título que faz referência irônica ao Jornal do Brasil), publicação artesanal de pequena tiragem feita em máquina de datilografia, que era distribuída pelo correio a um grupo seleto de leitores, como Augusto de Campos e Carlos Drummond de Andrade. A publicação apresentava poemas visuais com nítida influência da Poesia Concreta mas de conteúdo satírico, com referências à situação política do país, e uma coloquialidade e irreverência típicas da Poesia Marginal, de Cacaso e Francisco Alvim, da qual foi contemporâneo. Os poemas e breves crônicas que publicou no Jornal Dobrábil, usando diversos pseudônimos, como Garcia Loca, já traziam a temática urbana, homoerótica e fescenina, que acompanhariam toda a obra do autor, bem como o interesse pelas formas fixas, como o soneto e o haicai. Nos livros Línguas na Papa e Memórias de um Pueteiro, publicados em 1982, encontramos alguns dos poemas mais representativos da fase inicial de Glauco Mattoso, como o Manifesto Obsoneto: “Isso não é poesia que se escreva, / é pornografia tipo Adão & Eva: / essa nunca passa, por mais que se atreva, / do que o Adão dá e do que a Eva leva”. Escrito na forma do soneto, com métrica e rimas, a composição destoa, no entanto, de qualquer vocação conservadora, usando a gíria, o palavrão e a pornografia numa época marcada pela forte censura, que levou à interdição de filmes, livros e músicas acusadas de conteúdo “imoral” ou “subversivo”. Em outro poema dessa fase, Spic (sic) Tupnic, o autor, com verve transgressiva, diz: “Tem híbridos morfemas a língua que falo, / meio nega-bacana, chiquita-maluca; / no rolo embananado me embolo, me embalo, / soluço - hic - e desligo - clic - a cuca./ Sou luxo, chulo e chic, caçula e cacique. / I am a tupinik, eu falo em tupinik”. A palavra neológica tupnik faz referência ao satélite Sputinik, colocado no espaço pela União Soviética dez anos antes e símbolo do progresso, mas também ao tupiniquim, emblema da brasilidade. A mistura de palavras em português e em inglês no poema e as citações de vários ritmos musicais – “o baioque (o forrock, o rockixe), o rockão” – sugerem ainda uma aproximação com a Tropicália de Torquato Neto, Caetano Veloso, Paulo Leminski e Gilberto Gil, que em poemas e letras de música mostravam o caráter mestiço, híbrido e desigual da realidade brasileira. A Tropicália foi também um movimento que dialogou artisticamente com o cinema, a publicidade, as histórias em quadrinhos, e essa mescla de linguagens é algo que sempre fascinou Glauco Mattoso, inspirando Glaucomix, o pedólatra, adaptação de seu livro Manual do Pedólatra Amador, com roteiro do autor e desenhos de Marcatti. A Tropicália é homenageada também no CD Melopéia: Sonetos Musicados, que traz poemas de Glauco Mattoso musicados e interpretados por artistas como Arnaldo Antunes, Edvaldo Santana e Itamar Assumpção (a capa do CD, inclusive, é uma paródia da famosa foto de 1967 que estampa o disco Tropicália, de Caetano, Gil, Capinam e Tom Zé).
Com a cegueira, que o impossibilitou de continuar a criar poemas visuais, o poeta iniciou em 1995 uma nova fase – que ele chama de FASE CEGA --, marcada pelo retorno à versificação tradicional, à métrica, às rimas e ao soneto nos moldes camonianos. Esta mudança, segundo o autor, aconteceu pela facilidade de memorização dos versos, embora ele já tenha escrito alguns sonetos em sua primeira fase criativa, que ele chama de FASE PODORASTA (podolatria + pederastia). Os primeiros livros de sonetos de Glauco Mattoso, publicados entre 1999 e 2000 por pequenas editoras, são Centopéia — Sonetos Nojentos & Quejandos, Paulisséia Ilhada — Sonetos Tópicos, Geléia de Rococó — Sonetos Barrocos e Panacéia — Sonetos Colaterais (Nankin Editorial, 2000), todos eles marcados pela podolatria (adoração fetichista aos pés), sadomasoquismo e humor fescenino (a sátira do erotismo). Bibliotecário de formação, Glauco Mattoso organizou seus sonetos em séries, abordando temas como a culinária, o cinema, a geografia, a política, a religião, entre outros. Seguindo uma sugestão de Augusto de Campos, o poeta inovou também na forma do soneto, especialmente no livro Panaceia, trabalhando com estrofes de dois, três, quatro ou cinco linhas e versos com diferenes números de sílabas. Glauco Mattoso é hoje um dos mais conhecidos poetas brasileiros e já se apresentou no Clube de Leitura de Poesia, do Centro Cultural São Paulo, que também publicou uma plaquete com seus poemas, O cinephilo ecletico, na coleção Poesia Viva, distribuída gratuitamente ao público no CCSP, na Casa das Rosas e na Biblioteca Alceu Amoroso Lima.
(Artigo publicado na edição de fevereiro da revista CULT, na coluna Retrato do Artista.)
segunda-feira, 4 de março de 2013
... UMA QUESTÃO DE ORDEM...
Em
tempo: por favor, não
confundam as palavras "livro", "leitura" e "literatura"
em debates sobre políticas públicas de fomento. O lobby das grandes editoras, poderosíssimo, sabe muito bem o que
significa "fomento ao livro" -- compras milionárias de títulos pelo
poder público para equipar bibliotecas, sem que haja ações eficazes de estímulo
à leitura junto aos estudantes.
Infelizmente,
até pessoas bem intencionadas na área pública, quando ouvem falar em
"políticas públicas de fomento para a LITERATURA", logo substituem
essa palavra por "LIVRO", como se fosse a mesma coisa... NÃO É
!!! Literatura não é a mesma coisa que livro, assim como MÚSICA não é a
mesma coisa que CD e CINEMA não é a mesma coisa que FILME. São coisas
interrelacionadas, mas diferentes. Por que a palavra LITERATURA é
substituída pela palavra LIVRO? Porque literatura remete a AUTORES (que não têm
poder de influência nenhum e não lutam por seus direitos) enquanto a palavra
livro remete a EDITORES (que mamam nas tetas do estado).
sexta-feira, 1 de março de 2013
CONSTATAÇÃO
O Brasil tem a burguesia mais burra, preconceituosa e incompetente do hemisfério ocidental. Ela já nasceu submissa ao latifúndio e ao grande capital internacional e nunca teve o projeto de construção de um país soberano. Em dois séculos de hegemonia, foi incapaz de sustentar o estado de direito e a democracia representativa, salvo dois períodos históricos, de 1946 a 1964 e de 1984 até o presente. Soube conviver com o trabalho escravo, com a corrupção de numerosos governos eleitos por ela e nunca se preocupou com a distribuição da riqueza, mesmo para a consolidação do mercado interno. Desprezou a necessidade de investimentos em educação e saúde públicas de qualidade e manteve o país com desníveis sociais gigantescos. Seu ódio doentio a Lula e ao PT é apenas a reação natural de quem observa o seu próprio fracasso histórico como força social relevante.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
POESIA.BR
Poesia br é um dos mais ambiciosos projetos de mapeamento da
poesia brasileira que eu conheço, organizado pelo poeta Sergio Cohn, que também é editor da Azougue. Trata-se de uma
caixa com dez livros, dez pequenas antologias, que retratam 500 anos de poesia, desde os
cantos da tradição oral indígena até a poesia jovem dos autores que publicaram
a partir de 2000. Um trabalho de referência que merece estar em todas as
bibliotecas públicas, nas escolas e universidades.
Claro: como acontece em toda antologia,
sempre há nomes que faltam, por isso mesmo é importante que haja várias
antologias, para que o leitor forme o seu próprio cânone pessoal. Vale a pena
citar também as antologias por década publicadas pela Global. O volume dedicado
aos anos 1990 foi organizado pelo poeta Paulo
Ferraz.
Uma diferença do trabalho de Sergio Cohn em relação às antologias
anteriores é que, pela primeira vez -- até onde sei -- foi incluída a poesia
oral indígena (pena que não foi possível encartar um CD, como fez o Douglas
Diegues em sua coletânea de poesia mkbyá-guarani).
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
A MAIOR FRAUDE DA POESIA BRASILEIRA
É preciso, às
vezes, discordar dos amigos e concordar com os adversários em nome da coerência
e da sinceridade. Tenho muitas diferenças de opinião com Ronald Augusto, mas
concordo com tudo o que ele diz nesta resenha:
"Restaria avançar uma ou duas ideias sobre a
consagração fulminante de Angélica Freitas, afinal, seu percurso poético
público abarca apenas cinco anos de atividade. O lastro da simpatia pessoal e
profissional; as boas relações com os despachantes dos grupos de mando, tanto
do mercado editorial supostamente interessado no fascínio artístico, quanto do
jornalismo cultural; os contatos de mútuo prestigiamento que ratificam o traço
endogâmico da poesia contemporânea; enfim, esses itens perfeitamente
secundários no que concerne à fruição do poema são, de fato, secundários, porém
não irrelevantes – principalmente para o caso em tela. E importam ser
questionados e referidos aqui como insumos para debates vindouros, justamente
porque, ao menos para as circunstâncias atuais, se tornaram mais relevantes ou
indispensáveis do que a qualidade estética em si mesma."
O texto
integral está na
página http://www.sul21.com.br/jornal/2013/02/o-ambiente-literario-e-a-inexistencia-da-poeta-que-era-mulher-de-verdade/
PALAVRA LIVRE
O que aconteceria com o mercado editorial brasileiro se o estado publicasse livros de prosa e poesia de autores contemporâneos de qualidade, em edições bem feitas, de baixo custo, com tiragens de cinco a dez mil exemplares por título e distribuísse os livros gratuitamente para a população em terminais rodoviários, estações de metrô ou os incluísse nas cestas básicas do Bolsa Família?
CURSO SOBRE HAROLDO DE CAMPOS NA CASA DAS ROSAS
Caros, a partir do dia 05 de março realizarei um curso sobre a poesia de Haroldo de Campos, em dois módulos, na Casa das Rosas. Ficaria muito satisfeito com a presença de vocês!
O curso discutirá aspectos da obra poética do autor, desde Xadrez de Estrelas até Entremilênios. Além da leitura de poemas de cada livro de Haroldo de Campos e da análise do conjunto de sua obra, será feito um estudo de alguns textos teóricos do poeta.
O Módulo I será às terças-feiras, dias 5, 12, 19 e 26 de março, das 19h30 às 21h30, e o Módulo II, também às terças-feiras, dias 2, 9, 16, 23, 30 de abril, das 19h30 às 21h30.
Inscrições e informações pelos telefones (11) 3285-6986 ou 3288-9447.
P.S.: a edição de fevereiro da Zunái está atrasada, mas deve entrar on line no início de março.
Há braços,
Claudio Daniel
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
PROGRAMAÇÃO DE MARÇO DA CURADORIA DE LITERATURA E POESIA DO CENTRO CULTURAL SÃO PAULO
Praça Mário Chamie – Menu de
Poesia
Sexta-feira, dia 08/03/2013, das 20h30 às 22h
Recital dedicado à obra da
poeta, tradutora e letrista Alice Ruiz, organizado por Maria Alice Vasconcelos, com a participação de Frederico Barbosa, Claudio Daniel, Beatriz Helena Ramos Amaral, Elisa Andrade Buzzo, Sílvia Nogueira, Ana Rusche, Elson Fróes, Luiz Ariston Dantas, Leo Gonçalves, Tatiana Fraga e Eduardo Lacerda.
Praça Mário Chamie – Poesia
dos 4 Cantos: Noite Argentina
Sexta-feira, dia 13/03/13, das
20h30 às 22h
Poesia dos Quatro Cantos é uma atividade mensal
dedicada à divulgação da poesia internacional, num formato que inclui a leitura
com danças e músicas típicas de cada país, nos intervalos das leituras. Em março,
será feita a apresentação de uma Noite Argentina com a poeta Francesca
Cricelli, com a participação Carolina Morgado Leão, Fábio Henrique Menezes
Evangelista e Edmar Pereira Costa Filho (músicos), André Luis Magro e Andressa
de Souza Moraes (dançarinos).
Praça Mário Chamie – Poemas
à Flor da Pele
Sexta-feira, dia 15/03/13, das
20h30 às 22h
Sarau poético
realizado pelo grupo Poemas à Flor da Pele, com a participação de músicos e
atores. Haverá também o lançamento de livros de poesia de novos autores.
Praça Mário Chamie – Recital
de Poesia Árabe e Sul-Americana
Terça-feira, dia 19/03/13, das 19h30
às 21h
Estudantes e pesquisadores da
Bibliaspa — Biblioteca e Centro de Pesquisa América do Sul — Países Árabes que
participam do Programa de Língua e Cultura Árabe apresentarão no recital poemas
de autores árabes e sul-americananos, com destaque para os autores Mahmud
Darwich, Pablo Neruda e Thiago de Mello.
Sala de Debates – Poetas de
Cabeceira: Jorge Luis Borges
Sexta-feira, dia 28/03/13, das 19h
às 21h
Julian Fuks fará uma
palestra sobre o poeta argentino Jorge Luis Borges, comentando a biografia do
autor, sua época, características estéticas e, sobretudo, a sua experiência
pessoal como leitor da poesia de Borges, um dos autores mais importantes da
literatura argentina do século XX.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
CÂNONE E ANTICÂNONE (III)
GENERAL MANDÍBULA ATACA GOTHAM CITY: A POESIA DE ADEMIR ASSUNÇÃO
Estas
referências são comuns a outros poetas de sua geração, como Maurício Arruda
Mendonça, Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes, que compartilham ainda o
interesse pela poesia e concepção de vida dos poetas beats norte-americanos,
como Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti e Allen Ginsberg. A poesia de Ademir
Assunção, no entanto, não se esgota em tais referências: sua temática é mais
ampla, incluindo o retrato alegórico da cidade, com ênfase nos que estão
situados à margem, como as prostitutas, traficantes, menores abandonados e
moradores de rua, a reinvenção de mitos indígenas, gregos e bíblicos (Ulisses na tormenta, Na cova dos leões),
a sensação de deslocamento e incomunicabilidade num mundo cada vez mais
dominado pelo mercado e pela mídia, a loucura belicista, a busca do amor como a
utopia possível, para citar alguns temas recorrentes.
Sua
técnica literária pouco tem a ver com a prosódia beat: basta compararmos um
poema de Allen Ginsberg, como o Uivo,
com seu jorro discursivo que se aproxima da prosa, com O pântano, um dos mais belos poemas de A voz do ventríloquo: “Há uma serpente enrodilhada nas ramagens /
do poema: / cauda verde-turquesa, escamas / mitológicas, cabeça / de névoa”. Este
poema se aproxima da estética neobarroca, não apenas pela riqueza imagética e
metafórica, mas sobretudo pela colagem de referências de diferentes repertórios
culturais, como “um cemitério de aviões de caça da Segunda Guerra” e “uma
rainha que trepa / com o próprio filho” (Jocasta?), “prostitutas chinesas” e
“um monstro de folhagens / e couro cru de crocodilo”. Claro: a montagem ou
justaposição de cenas é uma técnica narrativa do cinema, que está presente em
quase toda a obra de Ademir Assunção, em especial nos livros Cinemitologias e Zona branca, mas também aqui, na
Voz do ventríloquo, assim como o diálogo criativo com o jazz (Billie Holiday na porta dos fundos), a
pintura (O grito) e a televisão (A vida em tecnicolor). Não se trata de
mera exibição de citações cultas, fetichismo que muito afetou a poesia da
década de 1990, mas de releituras que o poeta faz das coisas que fazem sentido
para a sua sensibilidade e compreensão de si mesmo e do mundo, de seus medos,
vivências e obsessões.
Podemos
dizer que a poesia de Ademir Assunção tem um alto grau de sinceridade, mas que
não é confessional, como boa parte da literatura beat – os poemas amorosos de
Allen Ginsberg e os romances de Jack Kerouac, por exemplo, onde são nítidos os
traços autobiográficos. A sinceridade na escrita, é bom ressaltar, não significa
o registro imediato de sensações, o lirismo espontâneo, herdeiro da escrita
automática dos surrealistas (a frase zen-budista “Primeira ideia, melhor ideia”
era uma das favoritas de Ginsberg). Ademir Assunção visa justamente o
contrário, desautomatizar a escrita e o pensamento, para tornar mais afiadas as
palavras da tribo: “eu sou poeta e sigo em frente / em linhas tortas / eu não
lido com palavras mortas”, diz ele no poema Orfeu
nos quintos dos infernos.
A
imaginação poética – melhor dizendo, a máquina de fabricar mitologias – de
Ademir Assunção caminha de mãos dadas com a informalidade de Paulo Leminski,
Roberto Piva e Torquato Neto, três de seus ícones culturais – por isso mesmo já
chamei essa poesia, em outro artigo, valendo-me de um oxímoro, de “formalismo
informal” (Pensando a poesia brasileira
em cinco atos, texto publicado na Zunái,
Revista de Poesia e Debates, na página http://www.revistazunai.com/materias_especiais/claudio_daniel_pensando_a_poesia.htm).
A paródia é um dos recursos mais usados pelo poeta, seja a glosa satírica do
discurso quinhentista, em Máquina
peluda, seja a reapropriação crítica da linguagem e técnica narrativa das
histórias em quadrinhos, em Zona branca
e A voz do ventríloquo, onde aparecem
personagens como o General Mandíbula, O Anjo do Ácido Elétrico e Mister P.,
inventados pelo autor, ao lado de Orfeu, Ulisses, Heráclito, Iemanjá, o Coringa
e King Kong. A própria Poesia, e o seu
irmão Prosa, comparecem nas páginas do Diário
do Ventríloquo, inserções de prosa narrativa com fundo preto e as letras em
cor branca que aparecem em várias seções do livro, como se fosse uma narrativa
paralela, um canto dialogado. A organização dos poemas e textos em prosa
obedece a um princípio não-linear, mimetizando, no próprio corpo semântico, o
caos e a fragmentação do mundo a nossa volta. O fio condutor do livro talvez
esteja no próprio título do volume: é a voz invisível do ventríloquo, esse eu
lírico que percorre as ruas de Gotham City “enquanto o Coringa injeta no braço
esquálido / a última gota da ampola”.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
CÂNONE E ANTICÂNONE (II)
RITO DA FALA
AO ESPELHO: UMA LEITURA DE RICARDO CORONA
Curare, de Ricardo
Corona (São Paulo: Iluminuras, 2011) é um livro de poemas que faz um
interessante diálogo entre o imaginário indígena (em especial da etnia xetá) e
a herança das poéticas experimentais, investindo na espacialização do texto
para realçar a oralidade, as variações rítmicas e as mudanças de dicção. O
trabalho de Ricardo Corona com a dimensão sonora da palavra (e vale a pena
recordar que o poeta tem dois ótimos CDs de música e poesia, Ladrão de
fogo e Sonorizador) desconsidera as fronteiras entre prosa
e poesia e sintetiza canto, narração e intervenção pictórica, utilizando os
sinais de pontuação como se fossem inscrições rupestres. A variação tipológica
e gráfica dá movimento às sentenças no livro, pensadas como frases sonoras de
uma partitura; neste sentido, o autor potencializa o suporte livro, explorando
suas possibilidades comunicativas. Curare é – entre outras
coisas – uma reflexão sobre o livro, numa época em que as tecnologias
eletrônicas colocam esse tema na ordem do dia. Claro: não se trata de
reivindicar a morte do livro, mas sim de repensarmos o conceito e a estrutura
do objeto, levando em consideração as mudanças na sensibilidade do leitor
contemporâneo, operadas pela navegação no ciberespaço. Não lemos hoje do mesmo
modo como no século XVIII, sempre da esquerda para direita, numa sequência
linear do tipo início-meio-fim (que remete à lógica evolutiva do pensamento
ocidental, desde a Bíblia e Aristóteles): o hipertexto abre “janelas”, páginas
que se sobrepõem a páginas, e a leitura principal não tem mais um ponto de
partida fixo: na tela do computador, todas as direções são possíveis, muda a
concepção de espaço, e também a de tempo, que não mais é retilíneo, mas
circular). A etnopoesia dialoga com as vanguardas, como bem observou Jerome Rothenberg:
o ritual africano ou indígena é uma somatória de linguagens (musical, poética,
coreográfica, dramática, sem esquecermos das tatuagens, adereços e vestes
cerimoniais) que transcende as divisões estanques da arte ocidental e remete a
outras concepções de espaço, tempo e movimento, que derivam de concepções
mitopoéticas coletivas: a arte é uma dimensão do sagrado e ato de afirmação da
identidade cultural da comunidade. Poetas como Ricardo Aleixo, Marcelo
Sahea e Ricardo Corona realizam jornadas criativas que resgatam formas de
expressão “xamânicas”, via performances (e o próprio livro pode ser uma
performance), mas com outro sentido – ou sentidos: não partilhamos mitos
coletivos, somos órfãos das utopias, não temos deuses a descobrir em sonhos,
logo, o poeta não tem mais a função mágica e social que exercia nas comunidades
antigas. Ele é o xamã de uma era cética, o questionador, o dissidente
luciferino que não indica rotas ou saídas, mas executa sua dança-mandala no
centro do caos.
Curare é um
labirinto dividido em doze partes, que prescindem da leitura sequencial. A
primeira palavra do primeiro poema da primeira seção do livro, Entxeiwi,
significa “bom dia” no idioma xetá, com uma conotação próxima ao carpe
diem latino, e era empregada em um rito oral realizado por José
Luciano da Sila (ou Nhangoray, “Mão Pelada”) em frente ao espelho, conforme nos
explica Ricardo Corona, na introdução do livro. A palavra se relaciona, no
campo referencial, a outras dispostas no texto, como constelações,
arquipélagos, tempo, estrelas, mundo: a existência observada por Héta,
“fogo (que) vem com sua dança desviante”. O tema se desdobra nas peças
seguintes, em que osonho, a embriaguez, o reflexo no espelho e
a tela do cinema são outros planos ou retalhos de significação:
ver o mundo é nomeá-lo, criá-lo pela palavra poética. Este é o ponto de partida
de uma difusa narrativa, ou conjunto de narrativas que se entrecruzam: o livro
é uma esfinge que não traz respostas ao leitor, apenas sinais para possível
decodificação (outro elemento do labirinto, além da pluralidade de rotas: a
escrita cifrada, simbólica, que surge no caminho da iniciação, e as armadilhas
que representam perigo aos que não decifraram corretamente os sinais). O
elemento lúdico é o fio condutor que permeia todo o poema (se pensarmos
em Curare como um poema longo, expandido em doze cintilações):
o poeta joga com as palavras, ocultando, modificando, ludibriando ou ampliando
suas significações, inserindo-as em diferentes estruturas, desafiando o leitor
a completar ou desfazer o quebra-cabeças, e remontá-lo assumindo todos os
riscos, incluindo o da incomunicabilidade, que é talvez a única chance de
comunicabilidade (na resenha de Cinemaginário, livro de estreia de
Ricardo Corona, publicado em 1998, escrevi: “O cinema é a construção de uma
realidade imaginada, como o sonho, que não é menos real (ou ilusório) do que a
existência cotidiana, como na parábola de Chuang Tzu. O cinema é menos um
espelho, um eco do real do que uma metáfora, ou conceito do mundo. Olhar uma cena
ou paisagem, de certo modo, é inventá-la; é dar nome às coisas, como Adão, numa
dialética entre o fora e o dentro, a parte e o todo. O sujeito cria o mundo e é
criado por ele. Viver é navegar entre paradoxos, e saber quem olha, quem é
visto não é o menor de todos.”).
(Publicado em fevereiro na revista Mallarmargens)
CÂNONE E ANTICÂNONE (I)
ARNALDO ANTUNES, O POETA DAS PALAVRAS E DAS COISAS
Arnaldo Antunes é um poeta que
dialoga com o Tropicalismo e a Poesia Concreta, mas também com a tradição
clássica, com sua métrica e rimas (“Pensamento vem de fora / e pensa que vem de
dentro”), a canção popular, a tecnologia eletrônica e as artes visuais, como o
desenho e a fotografia. Sua jornada poética começou em 1986, com a publicação
do livro Ou e, composto de poemas
caligráficos que exploram a dimensão visual das palavras, e logo seguiram
outros, como Tudos (1990), As Coisas (1992, prêmio Jabuti de
poesia), Nome (1993, trilogia
composta de livro, CD e fita de vídeo), 2
ou + corpos no mesmo espaço (1997), Et
Eu Tu (2003, em parceria com a fotógrafa Márcia Xavier), Como É Que Chama o Nome Disso (2006) e N. D. A. (2010). Em seus textos
criativos, que não raro dissolvem as fronteiras entre a prosa e a poesia (o que
é mais nítido no livro As Coisas),
Arnaldo Antunes utiliza técnicas de diagramação, diferentes fontes, cores e
corpos de letras, que moldam o sentido construtivo de cada composição. Sua
estratégia de buscar novas formas de expressão poética levaram-no a fazer
experiências que unem a palavra, a imagem, o som, o movimento, cujo resultado
mais inventivo é o trabalho Nome.
Arnaldo Antunes retoma a proposta “verbivocovisual” do movimento concretista,
mas em outro diapasão, que aceita também a influência da linguagem das
histórias em quadrinhos, das placas de sinalização, dos videoclipes e outros ícones
da cultura de massa dos centros urbanos. Estes elementos são visíveis em seus
poemas publicados em livros e também nas suas canções – ele integrou a banda de
rock Titãs, na década de 1980, com a qual gravou sete discos, entre eles o clássico
Cabeça dinossauro, e depois iniciou
carreira solo, lançando discos como O
silêncio, Um som, O corpo (trilha para dança), Paradeiro, Saiba, Qualquer,
Ao Vivo no Estúdio (também em DVD), entre outros.
A linguagem coloquial da música pop
está presente no trabalho criativo do poeta, assim como a fragmentação semântica
do concretismo, o absurdo intencional de Gertrude Stein, o discurso e o imaginário
das crianças – Arnaldo Antunes transforma as perplexidades do mundo infantil em
versos anárquicos e contundentes (“como é que chama o nome disso?”). O próprio
estilo caligráfico do poeta está impregnado da “mão infantil”, que traz para a
escrita poética o encantamento de um olhar primitivo, de descoberta – ou redescoberta
– dos nomes e das coisas. Em Palavra
desordem (2002), por sua vez, o poeta cria paródias de anúncios publicitários:
em oposição ao olhar receptivo de quem busca nomear as coisas, próprio do
universo lúdico da criança, Arnaldo revela aqui o olhar da cultura de massa,
que trabalha com a síntese, a concisão, os trocadilhos e ao mesmo tempo com o
clichê e a redundância. Ao parodiar o estilo publicitário, Arnaldo faz uma
crítica bem-humorada e provocativa ao repertório midiático. Em Et
Tu Eu (2003), o artista mutante faz uma nova peripécia,
dessa vez em diálogo com a fotografia de Márcia Xavier: palavras e imagens se
completam, se opõem, se interpenetram, deixando ao leitor apenas pistas de
significação. Há diversos outros aspectos que podem ser observados no trabalho
de Arnaldo Antunes, um dos autores mais inventivos da atual literatura
brasileira, mas vale a pena destacar suas intervenções na chamada poesia
digital ou eletrônica, da qual é um dos precursores no Brasil, ao lado de
Augusto de Campos, e sua atuação no campo da performance, em que o próprio
corpo do poeta participa do fazer poético. Em 2011, aliás, o autor participou
do festival ibero-americano de poesia performática 2011 poetas por km2, que aconteceu no Centro Cultural São Paulo (CCSP),
que também apresentou seus experimentos na área da poesia digital na mostra Videopoéticas, que teve a curadoria de
Elson Fróes. Já em 2012, Arnaldo Antunes participou da performance
transoceânica PEDRA, juntamente com
o artista visual Frederic Amal, de Barcelona – o evento, que aconteceu
simultaneamente no Brasil e na Espanha, com transmissão via internet, faz parte
da programação da Anilla Cultural, promovida pelo Centro Cultural São Paulo em
parceria com instituições ibero-americanas. Arnaldo Antunes é um poeta que
experimenta novas possibilidades para a poesia, indo além do livro como suporte
e da palavra como única linguagem: tudo, para ele, pode ser transformado em
poesia.
(Artigo publicado na edição de
fevereiro da revista CULT)
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