
GLAUCO MATTOSO, O ANJO DE BOTAS CARCOMIDAS
Glauco
Mattoso iniciou a sua jornada poética na década de 1970, no auge da ditadura
militar, editando o Jornal Dobrábil
(título que faz referência irônica ao Jornal
do Brasil), publicação artesanal de
pequena tiragem feita em máquina de datilografia, que era distribuída pelo
correio a um grupo seleto de leitores, como Augusto de Campos e Carlos Drummond
de Andrade. A publicação apresentava poemas visuais com nítida influência da
Poesia Concreta mas de conteúdo satírico, com referências à situação política
do país, e uma coloquialidade e irreverência típicas da Poesia Marginal, de
Cacaso e Francisco Alvim, da qual foi contemporâneo. Os poemas e breves
crônicas que publicou no Jornal Dobrábil, usando diversos pseudônimos,
como Garcia Loca, já traziam a temática urbana, homoerótica e fescenina, que
acompanhariam toda a obra do autor, bem como o interesse pelas formas fixas,
como o soneto e o haicai. Nos livros Línguas na Papa e Memórias de um Pueteiro, publicados
em 1982, encontramos alguns dos poemas mais representativos da fase inicial de
Glauco Mattoso, como o Manifesto Obsoneto: “Isso não é poesia que se escreva, / é pornografia tipo Adão
& Eva: / essa nunca passa, por mais que se atreva, / do que o Adão dá e do
que a Eva leva”. Escrito na forma do soneto, com métrica e rimas, a composição
destoa, no entanto, de qualquer vocação conservadora, usando a gíria, o
palavrão e a pornografia numa época marcada pela forte censura, que levou à
interdição de filmes, livros e músicas acusadas de conteúdo “imoral” ou
“subversivo”. Em outro poema dessa fase, Spic
(sic) Tupnic, o autor, com verve
transgressiva, diz: “Tem híbridos morfemas a língua que falo, / meio
nega-bacana, chiquita-maluca; / no rolo embananado me embolo, me embalo, /
soluço - hic - e desligo - clic - a cuca./ Sou luxo, chulo e chic, caçula e cacique. / I am a tupinik, eu falo em
tupinik”. A palavra neológica tupnik
faz referência ao satélite Sputinik, colocado no espaço pela União Soviética dez
anos antes e símbolo do progresso, mas também ao tupiniquim, emblema da
brasilidade. A mistura de palavras em português e em inglês no poema e as
citações de vários ritmos musicais – “o baioque (o forrock, o rockixe), o
rockão” – sugerem ainda uma aproximação com a Tropicália de Torquato Neto,
Caetano Veloso, Paulo Leminski e Gilberto Gil, que em poemas e letras de música
mostravam o caráter mestiço, híbrido e desigual da realidade brasileira. A
Tropicália foi também um movimento que dialogou artisticamente com o cinema, a
publicidade, as histórias em quadrinhos, e essa mescla de linguagens é algo que
sempre fascinou Glauco Mattoso, inspirando Glaucomix, o pedólatra, adaptação de seu livro Manual do Pedólatra Amador, com roteiro
do autor e desenhos de Marcatti. A Tropicália é homenageada também no CD Melopéia: Sonetos Musicados, que
traz poemas de Glauco Mattoso musicados e interpretados por artistas como
Arnaldo Antunes, Edvaldo Santana e Itamar Assumpção (a capa do CD, inclusive, é
uma paródia da famosa foto de 1967 que estampa o disco Tropicália, de Caetano,
Gil, Capinam e Tom Zé).
Com a cegueira, que o impossibilitou de continuar a
criar poemas visuais, o poeta iniciou em 1995 uma nova fase – que ele chama de
FASE CEGA --, marcada pelo retorno à versificação tradicional, à métrica, às
rimas e ao soneto nos moldes camonianos. Esta mudança, segundo o autor,
aconteceu pela facilidade de memorização dos versos, embora ele já tenha
escrito alguns sonetos em sua primeira fase criativa, que ele chama de FASE PODORASTA
(podolatria + pederastia). Os primeiros livros de sonetos de Glauco Mattoso,
publicados entre 1999 e 2000 por pequenas editoras, são Centopéia — Sonetos Nojentos & Quejandos, Paulisséia
Ilhada — Sonetos Tópicos, Geléia de
Rococó — Sonetos Barrocos e Panacéia
— Sonetos Colaterais (Nankin Editorial, 2000), todos eles marcados pela
podolatria (adoração fetichista aos pés), sadomasoquismo e humor fescenino (a
sátira do erotismo). Bibliotecário de formação, Glauco Mattoso organizou seus
sonetos em séries, abordando temas como a culinária, o cinema, a geografia, a
política, a religião, entre outros. Seguindo uma sugestão de Augusto de Campos,
o poeta inovou também na forma do soneto, especialmente no livro Panaceia, trabalhando com estrofes de
dois, três, quatro ou cinco linhas e versos com diferenes números de sílabas. Glauco
Mattoso é hoje um dos mais conhecidos poetas brasileiros e já se apresentou no
Clube de Leitura de Poesia, do Centro Cultural São Paulo, que também publicou
uma plaquete com seus poemas, O cinephilo
ecletico, na coleção Poesia Viva, distribuída gratuitamente ao público no
CCSP, na Casa das Rosas e na Biblioteca Alceu Amoroso Lima.
(Artigo publicado na edição de fevereiro da revista CULT, na coluna Retrato do Artista.)