quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

SERPENTINATA (II)



estranha mulher intercambiáveis
folhas de outono
ou lâminas de aço

sem corrosão

relaminadas fina a frio,
ou apenas murmúrio
sem jardins nem quintais

só o alinhamento do corte:

o pensar do coração – alto carbono
em conformidade
com a memória – 

(nua entre fósforos acesos)

um adeus e o carboneto de vanádio
em oposição ao cromo –
decapadas, expandidas, minimizadas

palavras entre tuas perplexas peles:

a resistência mecânica do substrato aço
– retalhos, chapas, tubos, barras
e sucatas de ferrosos, para fundição

(áspero arquiteto de ilhas, teu seio em minha boca).

2013


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

I MALLARENCONTRO -- VOX URBE 2013



Curitiba sediará o primeiro encontro com mallarmagos e mallarmigos de mallarmargens, revista de poesia e arte contemporânea. O evento contará com recital de poesia, performances com o Núcleo de Espetacularidades (PR), exposição fotográfica de Fran Ferreira, apresentação musical de Ivan Gama (piano) e as mallarpresenças de Adriana Zapparoli (SP), Adriano Scandolara (PR), Alvaro Posselt (PR), Andréia Carvalho (PR), Claudio Daniel (SP), Daniel Faria (DF), Dheyne de Souza (PR), Edson Bueno de Camargo (SP), Gabriel Rezende (PR), Guilherme Gontijo Flores (PR), Isabel Furini (PR), Joana Corona (PR), Límerson Morales (SP), Marceli Andresa Becker (RS), Priscila Merizzio (PR), Ricardo Pedrosa Alves (PR), Ricardo Pozzo (PR), Sandrio Cândido (PR) e outros colaboradores do periódico. Haverá sorteio e venda de livros.

Uma noite mallarmágica!!!

Dia 15 de janeiro, terça-feira.

Local: Wonka Bar, Rua Trajano Reis, 326, São Francisco - 3026 6272

Entrada: R$ 6,00



UM POEMA DE ANTÔNIO MOURA


Pela fenda da fruta
o verão enfia
sua espada
rubra

rouba

as fitas do arco-íris
estendidas pelo centauro
após a chuva

Pela fenda da fruta
o verão enfia
sua espada
rubra

domingo, 6 de janeiro de 2013

SERPENTINATA (I)






SERPENTINATA

Já que não desprezo nenhuma palavra,
encanta-me pergaminho
onde estranhos cães
da fala.


Nuvens de parietais
dizem a lavoura
obsessiva dos cutelos:


excessiva porque necessária,
investe mamífero mamífero
ante o lacerado pêlo púbico


— molusco esse desprezo
que se faz habitação.


A mobilidade das estruturas aquáticas
desorienta solidez de partículas,
(numeração da língua)
desentranhadas até o

ignorado.


Cresce nas axilas,
nos limbos, cremalherias,
nos estudos para voz:
é o seu inexorável destino.


Antiesquelética nebulosa
redefine o tempo e suas cavilações
no jogo permutatório
dos contrários.


(Estes são os meus instrumentos,
minhas paisagens estratégicas
para violar tuas orelhas,
tuas cavidades,


que se recusam à minuciosa
cabala de meu olhar.)


(Encanta-me tua letra, esqueleto de meu canto,
voz que acende estranhos cães.)


A revelação está na língua
que incita ao asbesto da orgia,
à mais temporária das peles,


quando vemos pégasos de outro sonho
e nossa incapacidade de laçá-los.
  

2013 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

UM POEMA DE ADRIANA ZAPPAROLI



los buitres ...

toda la noche escucho el llamamiento de los cuerpos poéticos en decomposición lírica. pulsa un arpa en la orilla dentro del sueño y veo huesos de pájaro y una vieja mendiga y los desiertos en escenario ceniza. un escenario de plomo. un cuervo húmedo con una cesta llena de cadáveres - en silencio- - el escenario del fracaso castrado por su propia lengua...

no se espera otra cosa que el sufrimiento y que vibra en formas traidoras. una luz lila de casa en casa preguntando si estaba la palabra anaranjada. en la búsqueda un pájaro demente...

palabra: una idea fija con sombras intrusas que fuiste el lugar del amor ...

palabra con un letrero que dice: no alimente los buitres ...

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

SÃO PAULO, UM POUCO MAIS VERMELHA...




"Pela primeira vez na história deste país" temos uma comunista como vice-prefeita de São Paulo: bem-vinda, camarada Nádia Campeão!

CULTURA NÃO É A PRIVATIZAÇÃO DO ESTADO



O que acontece com o mercado editorial brasileiro é algo que há muito tempo vem sendo denunciado pelo Ademir Assunção: existe um lobby das grandes editoras que exerce influência não apenas nos cadernos de "cultura" (?) da imprensa diária, mas também nos órgãos governamentais responsáveis pela compra de livros didáticos, bolsas e concursos literários, escolha de autores para participação em feiras internacionais e as políticas públicas para o livro, a leitura e a literatura. Um lobby poderosíssimo. Infelizmente, os poetas e escritores brasileiros não têm o mesmo nível de organização que os editores para a defesa de seus interesses.

É claro que a literatura e a poesia de qualidade encontram outros espaços de veiculação -- nos blogues, sites, revistas e instituições culturais como a Casa das Rosas e o Centro Cultural São Paulo. Porém, não podemos esquecer que a literatura "oficial", de mercado, é sustentada, em boa parte, por DINHEIRO PÚBLICO -- como os concursos da Petrobras e da Fundação Biblioteca Nacional. Logo, trata-se da PRIVATIZAÇÃO DO ESTADO, em benefício das grandes empresas editoriais, que visam o lucro, não a cultura.

Sim: há coisas positivas acontecendo, como o projeto do vereador Jamil Murad, do Partido Comunista do Brasil, de fomento à leitura e à criação literária; como ele não foi reeleito, o projeto foi engavetado, infelizmente. A Cida Pedrosa, que foi candidata a vereadora em Recife, também tem propostas interessantes de políticas públicas, que valem a pena ser discutidas. Porém, estas são iniciativas locais, seria interessante haver um projeto nacional de incentivo à leitura e à criação literária, desenhado a quatro mãos pelo poder público e os escritores, independente das grandes editoras.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

GALERIA: ADOLFO KAMINSKI


UM POEMA DE MARCELI ANDRESA BECKER



DO MEU CADERNO DE EXPERIMENTAÇÕES -- CXVI

S/A - I

o porco está além do real: suas tentativas de levitar nos matadouros dentro de uma ideia rosa-bebê, delicadíssima. vejam por vocês: existem bailarinas in natura crescendo no silêncio suíno. quando voam com suas sapatilhas frágeis, as fitas desamarradas e sujas de esterco,

quando voam até as nuvens como pirocópteros. pirulito que voa,
que bate-bate, que já bateu

170 vezes por minuto.
nervos à flor.

o peso faz os ganchos cederem:
plié, demi plié, grand plié.

*

teus meninos assistem ao show da janela

e dentro de segundos se transformam em tentáculos de uma única fome, uma falta subterrânea. às vezes é possível vê-los orando de joelhos diante do altar onde os anjos deixaram suas dentaduras e sua paisagem de desolações.

(todas as dívidas do mundo.)

*

um cofre em formato de porquinho sobre o criado-mudo. teus meninos economizam semanas, meses, para ter em mãos o último número da playboy — o da capa da bailarina. dias depois, no banheiro, conseguiriam abri-lo sem que ninguém visse

e ali mesmo imaginariam boquetes infinitos. diante de seus corpos negros, de joelhos, uma mulher chupando-os furiosamente

até que voassem.


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012


MEDIOCRIDADE PREMIADA


"Uma mulher gorda incomoda muita gente / Uma mulher gorda e bêbada incomoda muito mais." (Angélica Freitas). Chamar essa BOSTA de poesia e dizer que a autora é a "revelação da poesia brasileira" não é apenas FRAUDE, mas um insulto à inteligência. Não por acaso, essa criatura foi inventada pelo sr. Carlito Azevedo, e transformada, da noite para o dia, em "revelação da poesia brasileira" (o horror, o horror), ganhando concurso da Petrobras (cujo júri, claro, era formado por autores próximos à revista carioca Inimigo Rumor), viagens ao exterior e resenhas na FALHA de São Paulo. O papel que a Inimigo Rumor desempenha hoje na literatura brasileira -- aliás, há muitos anos -- é nocivo e serve apenas para alimentar a máfia das grandes editoras, jornalistas analfabetos e poetas medíocres, como Ricardo Domeneck e a própria sra. Freitas. Poetas de VERDADE, que tem TALENTO e nunca foram citadas pelo sr. Azevedo ou pela FALHA de S. Paulo -- Marceli Andresa Becker, Adriana Zapparoli, Paula Freitas, Andréia Carvalho, Lara Amaral, Roberta Tostes Daniel.  


domingo, 30 de dezembro de 2012


ADEUS, DRUMMOND


Sinceridade? O culto devocional ao Drummond já encheu o saco há muito tempo. É óbvio que foi um grande poeta -- assim como Murilo Mendes, João Cabral de Melo Neto e Haroldo de Campos -- mas essa bajulação póstuma não acrescenta nada à sua obra, serve apenas para favorecer os lançamentos de grandes editoras e para "justificar" poéticas frágeis, de autores que imitam (mal) a poesia de circunstância drummundana. É mais fácil requentar o poema-piada pela milésima vez do que escrever A Máquina do Mundo. Claro que o Modernismo dos anos 20 e 30 trouxe imensas contribuições à nossa poesia, muito além do poema-piada, da temática cotidiana e da linguagem coloquial. Aliás, há vários modernismos dentro do Modernismo. Cobra Norato, de Raul Bopp, por exemplo, é um livro muito interessante, que antecipa a etnopoesia e atira o dardo mais longe, em construções sonoras e sintáticas inusitadas, que ainda hoje soam muito modernas. Luiz Aranha, redescoberto nos anos 80 por Nelson Ascher, é outro poeta pouco lido hoje e ainda instigante, com seus diálogos com o cinema e a cultura japonesa (o haikai inclusive, e não só). Jorge de Lima, com sua experiência de poema longo (work in progress) em Invenção de Orfeu. E os Drummonds menos frequentados que há em Drummond, poeta plural. É preciso rever o Modernismo com olhos contemporâneos, não para repetir os seus cacoetes mais fáceis, e sim para repensarmos aquilo que ainda não foi totalmente exaurido em suas vertentes mais experimentais -- sobretudo Oswald de Andrade (autor mais difícil e rico em leituras e interpretações do que supõe quem o leu superficialmente). Por exemplo, ainda faz falta uma revisão crítica da presença do surrealismo na poesia brasileira -- ainda que não tenha existido um grupo surrealista nos anos 20 em São Paulo, Belo Horizonte ou Rio de Janeiro, há evidente influência surrealista na imagética de Oswald, Murilo e Jorge de Lima.

POETAS REAGEM À FRAUDE DA INIMIGO RUMOR



RECURSO AO PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL SOLICITANDO A ANULAÇÃO DO RESULTADO DO PRÊMIO DE POEISA ALPHONSUS DE GUIMARAENS DO ANO 2012 E A CONSTITUIÇÃO DE UM NOVO JURI PARA O CERTAME


Ilustríssimo Senhor Galeno Amorim
MD Presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN)


Ao cumprimentá-lo, venho pelo presente interpor RECURSO FUNDADO NO ITEM 9.3 DO EDITAL DOS PRÊMIOS LITERÁRIOS DA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL 2012 E NA LEI N. 12.527/11 (LEI DE ACESSO À INFORMAÇÃO), solicitanto a IMEDIATA ANULAÇÃO da atribuição do Prêmio de Poesia Alphonsus de Guimarães à obra CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: POESIA 1930-62, publicada pela Editora Cosac Naify, de autoria de Carlos Drummond de Andrade e inscrita por Bernardo Ajzenberg, em uma decisão tomada pelo júri integrado pelos Senhores Carlos Eduardo Barbosa de Azevedo (Carlito Azevedo), Francisco Estevão Soares Orban e Leila Míccolis. 

Passo a expor abaixo as razões e os fundamentos da solicitação:

1. O livro em questão sofreu uma errônea avaliação pelo júri: foi considerado como contribuição crítica à obra de um poeta consagrado, Carlos Drummond de Andrade, em um certame que não poderia avaliar ensaios ou textos desse teor, mas apenas poesia propriamente dita. Além disso, sequer enquanto antologia organizada segundo um recorte temporal tal obra, apresentada como edição crítica, poderia concorrer, haja vista que o próprio Carlos Drummond de Andrade já havia coligido os dez livros que a integram na antologia de nome REUNIÃO, publicada em 1969 pela editora José Olympio.

2. Assim, o certame há de ser ANULADO e um novo júri constituído, pois este enganou-se no proferimento de sua decisão, escolhendo justamente como contribuição crítica a ÚNICA obra de um autor falecido em um concurso que contou com 153 autores vivos que pleitearam inscrições com obras genuinamente autorais de poesia. Em razão disso, todo o item 2 do Edital foi violado pela habilitação da obra CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: POESIA 1930-62. 

3. Outrossim, é indiscutível que o Prêmio Alphonsus de Guimaraes somente pode ser atribuído a autores vivos, posto que representa uma importante distinção em um gênero cada vez mais inflacionado pelo alto volume de diletantes. Cumpre ainda recordar que inclusive um dos jurados, o Senhor Carlos Eduardo Barbosa de Azevedo (Carlito Azevedo), já foi agraciado, em 1991, com o Prêmio Alphonsus de Guimaraens, justamente por uma antologia sua e sem nenhum aparato crítico. Caberia então digressionar: como teria ficado ele, à época, se algum detentor de direitos autorais resolvesse, por exemplo, inscrever uma Edição Crítica de Fernando Pessoa? Talvez o Senhor Carlito Azevedo ficasse sem o seu estimado – e creio: muito merecido – Prêmio e, sem ele, talvez não compusesse o júri que agora integrou. Logo, a projeção de uma cadeia de consequências retroativas nesse cenário hipotético, ao incluir autores falecidos em premiações contemporâneas que não contemplam nenhuma hipótese de atribuição de uma láurea póstuma ou “in memoriam”, desenha algo de patético e incompatível com a urgência do fomento à poesia de alta qualidade no Brasil, objetivo maior colimado pela premiação da Fundação Biblioteca Nacional, instituição de alta credibilidade e que tem hoje à sua frente ninguém menos que Vossa Senhoria, um especialista em políticas públicas sobre o livro e a leitura. 

4. O próprio Senhor Azevedo, em publicação na rede social Facebook, estranhou a habilitação do livro ora impugnado: “Então porque é que (sic) o incluíram na caixa de ‘livros habilitados’ para o concurso?”. Mas, estranhamente, ele o disse para, em seguida, enaltecer o seu caráter crítico, aduzindo ainda, nesse seu mesmo texto da rede social, que os jurados fizeram constar na Ata do Concurso que a obra escolhida haveria de servir como estímulo a outras edições críticas (mencionando João Cabral e Murilo Mendes) e que, tendo decidido por Drummond, ele não temia aqueles a quem chamou de os seus “linchadores”. Ora, há nisso ao menos quatro erros grosseiros que se superpõem: PRIMEIRO) a negligência da FBN na habilitação de uma obra crítica de poesia que sequer é inédita, de um autor falecido (e consagradíssimo); SEGUNDO) a escolha inválida do júri justamente dessa mesma obra e em razão das virtudes do seu aparato crítico; TERCEIRO) a má compreensão da função de um prêmio destinado a autores vivos; e QUARTO) a deplorável insinuação de que a crítica pública ao exercício de uma função pública de jurado, aceita voluntariamente, possa constituir algum tipo de “linchamento”. 

5. Ainda ontem (dia 26/12/2012), ao contactar o funcionário da FBN responsável pelo concurso, Senhor André Benitez , foi-me informado que ele não estava em seu posto e que me “atenderia” por e-mail (até o momento sem resposta). Decidi então buscar na internet o contato com os membros do júri. E foi aí que, para minha surpresa, deparei-me com uma fotografia, datada do dia 15/12, desse mesmo júri reunido. Indago então a Vossa Senhoria: estaria o júri do Prêmio Alphonsus de Guimaraens deliberando antes mesmo da fase de inscrição ser concluída, o que só aconteceria no dia 18/12? (foi no dia 18/12 que recebi o e-mail da FBN em resposta ao meu recurso por inabilitação causada por um suposto CPF inválido). Para dirimir essa dúvida, solicito então a Vossa Senhoria, nos termos da Lei de Acesso à Informação (Lei n. 12.527/11), a pronta divulgação da Ata de Reunião desse júri, a fim de que se verifiquem as suas assinaturas, datas e lugares dos encontros e eventuais testemunhas. Contudo, em contato telefônico acontecido hoje (27/12) e ainda há pouco, o senhor Tuchaua Rodrigues, funcionário em Cargo de Comissão da FBN, muito pronta e gentilmente esclareceu-me que todos os livros, os habilitados e os inabilitados, foram ao cabo entregues aos jurados, que, assim, os analisaram independentemente da validade de suas inscrições. Vou aqui me eximir de uma apreciação a respeito da racionalidade desse procedimento. Apenas mencionarei o quão irresponsável e abusivo é exigir de um júri de poesia a análise de 154 obras (cento e cinquenta e quatro) em poucos dias e ainda na véspera das festas natalinas. 

6. Entendo ainda que a FBN violou os itens 2.1 e 2.10.1 do Edital, que determinavam que os recursos à inabilitação das inscrições fossem enviados para um endereço postal físico, passando a recebê-los por via eletrônica. Isso já seria juridicamente suficiente para anular TODOS os Prêmios do Concurso, pois dezenas (e talvez mesmo centenas) de autores foram confundidos por essa duplicidade inexplicável de critérios. Reza o dispositivo do edital: “O recurso deverá ser remetido para análise no endereço descrito no item 2.10.2 deste edital.” Já o site da BFN instruía que os recursos fossem encaminhados ao e-mail “economiadolivro@bn.br”. E, como se não bastasse tudo isso, após uma infrutífera pesquisa de meu nome no Diário Oficial da União, indaguei, por telefone, a um funcionário da FBN em que data havia ocorrido a tal publicação das inscrições homologadas, conforme determina o mesmo Edital, e o mesmo respondeu-me que “isso custaria mais de R$ 20.000,00 e que então se decidiu que a publicação ocorreria apenas no site da própria Biblioteca Nacional”. Outra vez, algo inadmissível para a legalidade de um concurso que se rege pela Portaria MinC nº 29/2009, entre outros dispositivos legais e constitucionais. 

7. O presente Recurso não pretende suscitar polêmicas vãs ou macular os dignos nomes dos membros de um júri que tem inclusive a chance de se retratar do seu equívoco publicamente. Tampouco pretendo desmerecer o alentado esforço ecdótico do Senhor Julio Castañon, da Fundação Casa Rui Barbosa, na preparação da obra inquinada. Pretendo apenas ter aqui apontado a responsabilidade maior da FBN nas falhas pela organização geral do concurso e pela sucessão dos acontecidos, esperando de Vossa Senhoria as devidas medidas corretivas. E imagino que Vossa Senhoria possa até partilhar de ao menos alguns elementos das convicções que me animaram a interpor o presente Recurso: a dificuldade de profissionalização do setor cultural no Brasil incita diversos operadores do mudo literário a uma espécie ubiquidade: das mesquinhas disputas de poder à mais chã necessidade de sobrevivência financeira, vejo poetas promissores paralisando suas obras e sendo levados a desempenharem funções simultâneas de críticos, ministradores de oficinas, sócios de editoras, jornalistas, agitadores culturais, curadores, promotores de revistas e, ainda, de jurados – jurados tantas vezes levados à constrangedora situação de avaliarem os mesmos novos autores apresentados por eles ou “revelados” em seus próprios cursos e oficinas. Absolutamente nada disso é ilegal, apenas compondo antes o quadro de nossa sofrível precariedade institucional. Mas assevero que o exercício cumulativo de tais e tantas funções acaba por prejudicar gravemente um juízo crítico que, em um concurso, há de ser emitido em estrita observância aos princípios da transparência, da moralidade, da impessoalidade e, sobretudo, da motivação fundamentada. Importantes sociólogos no século XX demonstraram com pesquisas empíricas que o campo literário não tem, de fato, o caráter de uma confraria de amigos que às vezes pretende manifestar. Ele é, isso sim, um sistema essencialmente competitivo, no qual está em permanente disputa a rara e árdua excelência estética, no que a lisura das premiações públicas desempenha um papel capital de objetivação das veleidades e dos relativismos dos gostos meramente pessoais, engajando os julgadores na responsabilidade pública de suas escolhas.


8. EM SÍNTESE: por (1) não ter sido a obra premiada inscrita pelo seu autor, que é falecido; por se tratar (2) ou de uma antologia que não é inédita; e/ou (2) de uma edição crítica que foge ao escopo do Prêmio Alphonsus de Guimarães de Poesia, a ser atribuído apenas a autores vivos, solicito a Vossa Senhoria que, nos usos dos poderes lhe conferem o item 9.3 do Edital e o Decreto 5538/04, determine a IMEDIATA ANULAÇÃO do certame e A PRONTA CONSTITUIÇÃO DE UM NOVO JÚRI a fim de determinar o resultado do Prêmio Alphonsus de Guimaraens do ano 2012, bem como se digne a providenciar a DIVULGAÇÃO DA ATA DE REUNIÃO DO JÚRI ATUAL, conforme o que dispõe a Lei n. 12.527/11 (Lei de Acesso à Informação).

Como um autor que empenhou sete anos na produção de um livro de poemas (ARAME FALADO) respeitosamente solicito a Vossa Senhoria que se empenhe para que a nova disputa seja encaminhada de maneira lúcida e lícita, desejando-lhe bom êxito no solucionamento dos entraves administrativos que cercam um evento cultural dessa dimensão. 

Sendo o que tinha para o momento, coloco-me à vossa inteira disposição para quaisquer esclarecimentos e, ao aguardar vossa manifestação pelo provimento dos pedidos acima formulados, colho do ensejo para reiterar meus votos de elevada estima e distinta consideração, subscrevendo-me. 

Porto Alegre, 27 de dezembro de 2012

Atenciosamente, 


Marcus Fabiano Gonçalves
Obra inscrita: ARAME FALADO

sábado, 29 de dezembro de 2012

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

POEMAS DE ANELITO DE OLIVEIRA


TRAÇOS

1.

Escrevo porque sofro,
Todos os sopros – a
Partir de lá, aqui,
Onde desabo – corpo

2.

Se houvesse o absoluta-
Mente absoluto, tudo
Estaria seguro numa
Única mão – sem dedos

3.

Falar em meio, falar
No meio das coisas,
Sem palavras, com as
Coisas, o inaudível

4.

O que estranha-me é
Que não haja entranha,
Que a superfície seja
A face toda no rosto

5.

Quando tiver tempo,
Chegarei a tempo de
Encontrar o que não
Me agrada, quando

  
Anelito de Oliveira (Brasil, 1970), rompendo com quase uma década de silêncio livresco, acaba de lançar Transtorno, Mais que o fogo e A ocorrência – primeiros volumes da série Acontecimentos Criativos, projeto editorial da Orobó Edições que reunirá toda a sua poesia. Estreou com Lama, em 2000, e, em 2004, publicou Três festas A love song as Monk. Criou e editou o jornal Não (1994/95) e a revista Orobó (1997/1999) e dirigiu o Suplemento Literário de Minas Gerais (1999/2003). Estes poemas são inéditos. Contatos: anelitodeoliveira.blogspot.com | anelitodeoliveira@gmail.com | facebook/anelitodeolivei.