"Uma mulher gorda incomoda muita gente / Uma mulher gorda e bêbada incomoda muito mais." (Angélica Freitas). Chamar essa BOSTA de poesia e dizer que a autora é a "revelação da poesia brasileira" não é apenas FRAUDE, mas um insulto à inteligência. Não por acaso, essa criatura foi inventada pelo sr. Carlito Azevedo, e transformada, da noite para o dia, em "revelação da poesia brasileira" (o horror, o horror), ganhando concurso da Petrobras (cujo júri, claro, era formado por autores próximos à revista carioca Inimigo Rumor), viagens ao exterior e resenhas na FALHA de São Paulo. O papel que a Inimigo Rumor desempenha hoje na literatura brasileira -- aliás, há muitos anos -- é nocivo e serve apenas para alimentar a máfia das grandes editoras, jornalistas analfabetos e poetas medíocres, como Ricardo Domeneck e a própria sra. Freitas. Poetas de VERDADE, que tem TALENTO e nunca foram citadas pelo sr. Azevedo ou pela FALHA de S. Paulo -- Marceli Andresa Becker, Adriana Zapparoli, Paula Freitas, Andréia Carvalho, Lara Amaral, Roberta Tostes Daniel.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
domingo, 30 de dezembro de 2012
ADEUS, DRUMMOND
Sinceridade? O culto devocional ao
Drummond já encheu o saco há muito tempo. É óbvio que foi um grande poeta --
assim como Murilo Mendes, João Cabral de Melo Neto e Haroldo de Campos -- mas
essa bajulação póstuma não acrescenta nada à sua obra, serve apenas para
favorecer os lançamentos de grandes editoras e para "justificar"
poéticas frágeis, de autores que imitam (mal) a poesia de circunstância drummundana.
É mais fácil requentar o poema-piada pela milésima vez do que escrever A Máquina do Mundo. Claro que o Modernismo
dos anos 20 e 30 trouxe imensas contribuições à nossa poesia, muito além do
poema-piada, da temática cotidiana e da linguagem coloquial. Aliás, há vários
modernismos dentro do Modernismo. Cobra
Norato, de Raul Bopp, por exemplo, é um livro muito
interessante, que antecipa a etnopoesia e atira o dardo mais longe, em
construções sonoras e sintáticas inusitadas, que ainda hoje soam muito
modernas. Luiz Aranha, redescoberto nos anos 80 por Nelson Ascher, é outro
poeta pouco lido hoje e ainda instigante, com seus diálogos com o cinema e a
cultura japonesa (o haikai inclusive, e não só). Jorge de Lima, com sua
experiência de poema longo (work in
progress) em Invenção de Orfeu. E
os Drummonds menos frequentados que há em Drummond, poeta plural. É preciso rever o
Modernismo com olhos contemporâneos, não para repetir os seus cacoetes mais
fáceis, e sim para repensarmos aquilo que ainda não foi totalmente exaurido em
suas vertentes mais experimentais -- sobretudo Oswald de Andrade (autor mais
difícil e rico em leituras e interpretações do que supõe quem o leu superficialmente).
Por exemplo, ainda faz falta uma revisão crítica da presença do surrealismo na
poesia brasileira -- ainda que não tenha existido um grupo surrealista nos anos
20 em São Paulo ,
Belo Horizonte ou Rio de Janeiro, há evidente influência surrealista na
imagética de Oswald, Murilo e Jorge de Lima.
POETAS REAGEM À FRAUDE DA INIMIGO RUMOR
RECURSO AO PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO
BIBLIOTECA NACIONAL SOLICITANDO A ANULAÇÃO DO RESULTADO DO PRÊMIO DE POEISA
ALPHONSUS DE GUIMARAENS DO ANO 2012 E A CONSTITUIÇÃO DE UM NOVO JURI PARA O
CERTAME
Ilustríssimo Senhor Galeno Amorim
MD Presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN)
Ao cumprimentá-lo, venho pelo presente interpor RECURSO FUNDADO NO ITEM 9.3 DO EDITAL DOS PRÊMIOS LITERÁRIOS DA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL 2012 E NA LEI N. 12.527/11 (LEI DE ACESSO À INFORMAÇÃO), solicitanto a IMEDIATA ANULAÇÃO da atribuição do Prêmio de Poesia Alphonsus de Guimarães à obra CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: POESIA 1930-62, publicada pela Editora Cosac Naify, de autoria de Carlos Drummond de Andrade e inscrita por Bernardo Ajzenberg, em uma decisão tomada pelo júri integrado pelos Senhores Carlos Eduardo Barbosa de Azevedo (Carlito Azevedo), Francisco Estevão Soares Orban e Leila Míccolis.
Passo a expor abaixo as razões e os fundamentos da solicitação:
1. O livro em questão sofreu uma errônea avaliação pelo júri: foi considerado como contribuição crítica à obra de um poeta consagrado, Carlos Drummond de Andrade, em um certame que não poderia avaliar ensaios ou textos desse teor, mas apenas poesia propriamente dita. Além disso, sequer enquanto antologia organizada segundo um recorte temporal tal obra, apresentada como edição crítica, poderia concorrer, haja vista que o próprio Carlos Drummond de Andrade já havia coligido os dez livros que a integram na antologia de nome REUNIÃO, publicada em 1969 pela editora José Olympio.
2. Assim, o certame há de ser ANULADO e um novo júri constituído, pois este enganou-se no proferimento de sua decisão, escolhendo justamente como contribuição crítica a ÚNICA obra de um autor falecido em um concurso que contou com 153 autores vivos que pleitearam inscrições com obras genuinamente autorais de poesia. Em razão disso, todo o item 2 do Edital foi violado pela habilitação da obra CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: POESIA 1930-62.
3. Outrossim, é indiscutível que o Prêmio Alphonsus de Guimaraes somente pode ser atribuído a autores vivos, posto que representa uma importante distinção em um gênero cada vez mais inflacionado pelo alto volume de diletantes. Cumpre ainda recordar que inclusive um dos jurados, o Senhor Carlos Eduardo Barbosa de Azevedo (Carlito Azevedo), já foi agraciado, em 1991, com o Prêmio Alphonsus de Guimaraens, justamente por uma antologia sua e sem nenhum aparato crítico. Caberia então digressionar: como teria ficado ele, à época, se algum detentor de direitos autorais resolvesse, por exemplo, inscrever uma Edição Crítica de Fernando Pessoa? Talvez o Senhor Carlito Azevedo ficasse sem o seu estimado – e creio: muito merecido – Prêmio e, sem ele, talvez não compusesse o júri que agora integrou. Logo, a projeção de uma cadeia de consequências retroativas nesse cenário hipotético, ao incluir autores falecidos em premiações contemporâneas que não contemplam nenhuma hipótese de atribuição de uma láurea póstuma ou “in memoriam”, desenha algo de patético e incompatível com a urgência do fomento à poesia de alta qualidade no Brasil, objetivo maior colimado pela premiação da Fundação Biblioteca Nacional, instituição de alta credibilidade e que tem hoje à sua frente ninguém menos que Vossa Senhoria, um especialista em políticas públicas sobre o livro e a leitura.
4. O próprio Senhor Azevedo, em publicação na rede social Facebook, estranhou a habilitação do livro ora impugnado: “Então porque é que (sic) o incluíram na caixa de ‘livros habilitados’ para o concurso?”. Mas, estranhamente, ele o disse para, em seguida, enaltecer o seu caráter crítico, aduzindo ainda, nesse seu mesmo texto da rede social, que os jurados fizeram constar na Ata do Concurso que a obra escolhida haveria de servir como estímulo a outras edições críticas (mencionando João Cabral e Murilo Mendes) e que, tendo decidido por Drummond, ele não temia aqueles a quem chamou de os seus “linchadores”. Ora, há nisso ao menos quatro erros grosseiros que se superpõem: PRIMEIRO) a negligência da FBN na habilitação de uma obra crítica de poesia que sequer é inédita, de um autor falecido (e consagradíssimo); SEGUNDO) a escolha inválida do júri justamente dessa mesma obra e em razão das virtudes do seu aparato crítico; TERCEIRO) a má compreensão da função de um prêmio destinado a autores vivos; e QUARTO) a deplorável insinuação de que a crítica pública ao exercício de uma função pública de jurado, aceita voluntariamente, possa constituir algum tipo de “linchamento”.
5. Ainda ontem (dia 26/12/2012), ao contactar o funcionário da FBN responsável pelo concurso, Senhor André Benitez , foi-me informado que ele não estava em seu posto e que me “atenderia” por e-mail (até o momento sem resposta). Decidi então buscar na internet o contato com os membros do júri. E foi aí que, para minha surpresa, deparei-me com uma fotografia, datada do dia 15/12, desse mesmo júri reunido. Indago então a Vossa Senhoria: estaria o júri do Prêmio Alphonsus de Guimaraens deliberando antes mesmo da fase de inscrição ser concluída, o que só aconteceria no dia 18/12? (foi no dia 18/12 que recebi o e-mail da FBN em resposta ao meu recurso por inabilitação causada por um suposto CPF inválido). Para dirimir essa dúvida, solicito então a Vossa Senhoria, nos termos da Lei de Acesso à Informação (Lei n. 12.527/11), a pronta divulgação da Ata de Reunião desse júri, a fim de que se verifiquem as suas assinaturas, datas e lugares dos encontros e eventuais testemunhas. Contudo, em contato telefônico acontecido hoje (27/12) e ainda há pouco, o senhor Tuchaua Rodrigues, funcionário em Cargo de Comissão da FBN, muito pronta e gentilmente esclareceu-me que todos os livros, os habilitados e os inabilitados, foram ao cabo entregues aos jurados, que, assim, os analisaram independentemente da validade de suas inscrições. Vou aqui me eximir de uma apreciação a respeito da racionalidade desse procedimento. Apenas mencionarei o quão irresponsável e abusivo é exigir de um júri de poesia a análise de 154 obras (cento e cinquenta e quatro) em poucos dias e ainda na véspera das festas natalinas.
6. Entendo ainda que a FBN violou os itens 2.1 e 2.10.1 do Edital, que determinavam que os recursos à inabilitação das inscrições fossem enviados para um endereço postal físico, passando a recebê-los por via eletrônica. Isso já seria juridicamente suficiente para anular TODOS os Prêmios do Concurso, pois dezenas (e talvez mesmo centenas) de autores foram confundidos por essa duplicidade inexplicável de critérios. Reza o dispositivo do edital: “O recurso deverá ser remetido para análise no endereço descrito no item 2.10.2 deste edital.” Já o site da BFN instruía que os recursos fossem encaminhados ao e-mail “economiadolivro@bn.br”. E, como se não bastasse tudo isso, após uma infrutífera pesquisa de meu nome no Diário Oficial da União, indaguei, por telefone, a um funcionário da FBN em que data havia ocorrido a tal publicação das inscrições homologadas, conforme determina o mesmo Edital, e o mesmo respondeu-me que “isso custaria mais de R$ 20.000,00 e que então se decidiu que a publicação ocorreria apenas no site da própria Biblioteca Nacional”. Outra vez, algo inadmissível para a legalidade de um concurso que se rege pela Portaria MinC nº 29/2009, entre outros dispositivos legais e constitucionais.
7. O presente Recurso não pretende suscitar polêmicas vãs ou macular os dignos nomes dos membros de um júri que tem inclusive a chance de se retratar do seu equívoco publicamente. Tampouco pretendo desmerecer o alentado esforço ecdótico do Senhor Julio Castañon, da Fundação Casa Rui Barbosa, na preparação da obra inquinada. Pretendo apenas ter aqui apontado a responsabilidade maior da FBN nas falhas pela organização geral do concurso e pela sucessão dos acontecidos, esperando de Vossa Senhoria as devidas medidas corretivas. E imagino que Vossa Senhoria possa até partilhar de ao menos alguns elementos das convicções que me animaram a interpor o presente Recurso: a dificuldade de profissionalização do setor cultural no Brasil incita diversos operadores do mudo literário a uma espécie ubiquidade: das mesquinhas disputas de poder à mais chã necessidade de sobrevivência financeira, vejo poetas promissores paralisando suas obras e sendo levados a desempenharem funções simultâneas de críticos, ministradores de oficinas, sócios de editoras, jornalistas, agitadores culturais, curadores, promotores de revistas e, ainda, de jurados – jurados tantas vezes levados à constrangedora situação de avaliarem os mesmos novos autores apresentados por eles ou “revelados” em seus próprios cursos e oficinas. Absolutamente nada disso é ilegal, apenas compondo antes o quadro de nossa sofrível precariedade institucional. Mas assevero que o exercício cumulativo de tais e tantas funções acaba por prejudicar gravemente um juízo crítico que, em um concurso, há de ser emitido em estrita observância aos princípios da transparência, da moralidade, da impessoalidade e, sobretudo, da motivação fundamentada. Importantes sociólogos no século XX demonstraram com pesquisas empíricas que o campo literário não tem, de fato, o caráter de uma confraria de amigos que às vezes pretende manifestar. Ele é, isso sim, um sistema essencialmente competitivo, no qual está em permanente disputa a rara e árdua excelência estética, no que a lisura das premiações públicas desempenha um papel capital de objetivação das veleidades e dos relativismos dos gostos meramente pessoais, engajando os julgadores na responsabilidade pública de suas escolhas.
8. EM SÍNTESE: por (1) não ter sido a obra premiada inscrita pelo seu autor, que é falecido; por se tratar (2) ou de uma antologia que não é inédita; e/ou (2) de uma edição crítica que foge ao escopo do Prêmio Alphonsus de Guimarães de Poesia, a ser atribuído apenas a autores vivos, solicito a Vossa Senhoria que, nos usos dos poderes lhe conferem o item 9.3 do Edital e o Decreto 5538/04, determine a IMEDIATA ANULAÇÃO do certame e A PRONTA CONSTITUIÇÃO DE UM NOVO JÚRI a fim de determinar o resultado do Prêmio Alphonsus de Guimaraens do ano 2012, bem como se digne a providenciar a DIVULGAÇÃO DA ATA DE REUNIÃO DO JÚRI ATUAL, conforme o que dispõe a Lei n. 12.527/11 (Lei de Acesso à Informação).
Como um autor que empenhou sete anos na produção de um livro de poemas (ARAME FALADO) respeitosamente solicito a Vossa Senhoria que se empenhe para que a nova disputa seja encaminhada de maneira lúcida e lícita, desejando-lhe bom êxito no solucionamento dos entraves administrativos que cercam um evento cultural dessa dimensão.
Sendo o que tinha para o momento, coloco-me à vossa inteira disposição para quaisquer esclarecimentos e, ao aguardar vossa manifestação pelo provimento dos pedidos acima formulados, colho do ensejo para reiterar meus votos de elevada estima e distinta consideração, subscrevendo-me.
Porto Alegre, 27 de dezembro de 2012
Atenciosamente,
Marcus Fabiano Gonçalves
Obra inscrita: ARAME FALADO
Ilustríssimo Senhor Galeno Amorim
MD Presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN)
Ao cumprimentá-lo, venho pelo presente interpor RECURSO FUNDADO NO ITEM 9.3 DO EDITAL DOS PRÊMIOS LITERÁRIOS DA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL 2012 E NA LEI N. 12.527/11 (LEI DE ACESSO À INFORMAÇÃO), solicitanto a IMEDIATA ANULAÇÃO da atribuição do Prêmio de Poesia Alphonsus de Guimarães à obra CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: POESIA 1930-62, publicada pela Editora Cosac Naify, de autoria de Carlos Drummond de Andrade e inscrita por Bernardo Ajzenberg, em uma decisão tomada pelo júri integrado pelos Senhores Carlos Eduardo Barbosa de Azevedo (Carlito Azevedo), Francisco Estevão Soares Orban e Leila Míccolis.
Passo a expor abaixo as razões e os fundamentos da solicitação:
1. O livro em questão sofreu uma errônea avaliação pelo júri: foi considerado como contribuição crítica à obra de um poeta consagrado, Carlos Drummond de Andrade, em um certame que não poderia avaliar ensaios ou textos desse teor, mas apenas poesia propriamente dita. Além disso, sequer enquanto antologia organizada segundo um recorte temporal tal obra, apresentada como edição crítica, poderia concorrer, haja vista que o próprio Carlos Drummond de Andrade já havia coligido os dez livros que a integram na antologia de nome REUNIÃO, publicada em 1969 pela editora José Olympio.
2. Assim, o certame há de ser ANULADO e um novo júri constituído, pois este enganou-se no proferimento de sua decisão, escolhendo justamente como contribuição crítica a ÚNICA obra de um autor falecido em um concurso que contou com 153 autores vivos que pleitearam inscrições com obras genuinamente autorais de poesia. Em razão disso, todo o item 2 do Edital foi violado pela habilitação da obra CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: POESIA 1930-62.
3. Outrossim, é indiscutível que o Prêmio Alphonsus de Guimaraes somente pode ser atribuído a autores vivos, posto que representa uma importante distinção em um gênero cada vez mais inflacionado pelo alto volume de diletantes. Cumpre ainda recordar que inclusive um dos jurados, o Senhor Carlos Eduardo Barbosa de Azevedo (Carlito Azevedo), já foi agraciado, em 1991, com o Prêmio Alphonsus de Guimaraens, justamente por uma antologia sua e sem nenhum aparato crítico. Caberia então digressionar: como teria ficado ele, à época, se algum detentor de direitos autorais resolvesse, por exemplo, inscrever uma Edição Crítica de Fernando Pessoa? Talvez o Senhor Carlito Azevedo ficasse sem o seu estimado – e creio: muito merecido – Prêmio e, sem ele, talvez não compusesse o júri que agora integrou. Logo, a projeção de uma cadeia de consequências retroativas nesse cenário hipotético, ao incluir autores falecidos em premiações contemporâneas que não contemplam nenhuma hipótese de atribuição de uma láurea póstuma ou “in memoriam”, desenha algo de patético e incompatível com a urgência do fomento à poesia de alta qualidade no Brasil, objetivo maior colimado pela premiação da Fundação Biblioteca Nacional, instituição de alta credibilidade e que tem hoje à sua frente ninguém menos que Vossa Senhoria, um especialista em políticas públicas sobre o livro e a leitura.
4. O próprio Senhor Azevedo, em publicação na rede social Facebook, estranhou a habilitação do livro ora impugnado: “Então porque é que (sic) o incluíram na caixa de ‘livros habilitados’ para o concurso?”. Mas, estranhamente, ele o disse para, em seguida, enaltecer o seu caráter crítico, aduzindo ainda, nesse seu mesmo texto da rede social, que os jurados fizeram constar na Ata do Concurso que a obra escolhida haveria de servir como estímulo a outras edições críticas (mencionando João Cabral e Murilo Mendes) e que, tendo decidido por Drummond, ele não temia aqueles a quem chamou de os seus “linchadores”. Ora, há nisso ao menos quatro erros grosseiros que se superpõem: PRIMEIRO) a negligência da FBN na habilitação de uma obra crítica de poesia que sequer é inédita, de um autor falecido (e consagradíssimo); SEGUNDO) a escolha inválida do júri justamente dessa mesma obra e em razão das virtudes do seu aparato crítico; TERCEIRO) a má compreensão da função de um prêmio destinado a autores vivos; e QUARTO) a deplorável insinuação de que a crítica pública ao exercício de uma função pública de jurado, aceita voluntariamente, possa constituir algum tipo de “linchamento”.
5. Ainda ontem (dia 26/12/2012), ao contactar o funcionário da FBN responsável pelo concurso, Senhor André Benitez , foi-me informado que ele não estava em seu posto e que me “atenderia” por e-mail (até o momento sem resposta). Decidi então buscar na internet o contato com os membros do júri. E foi aí que, para minha surpresa, deparei-me com uma fotografia, datada do dia 15/12, desse mesmo júri reunido. Indago então a Vossa Senhoria: estaria o júri do Prêmio Alphonsus de Guimaraens deliberando antes mesmo da fase de inscrição ser concluída, o que só aconteceria no dia 18/12? (foi no dia 18/12 que recebi o e-mail da FBN em resposta ao meu recurso por inabilitação causada por um suposto CPF inválido). Para dirimir essa dúvida, solicito então a Vossa Senhoria, nos termos da Lei de Acesso à Informação (Lei n. 12.527/11), a pronta divulgação da Ata de Reunião desse júri, a fim de que se verifiquem as suas assinaturas, datas e lugares dos encontros e eventuais testemunhas. Contudo, em contato telefônico acontecido hoje (27/12) e ainda há pouco, o senhor Tuchaua Rodrigues, funcionário em Cargo de Comissão da FBN, muito pronta e gentilmente esclareceu-me que todos os livros, os habilitados e os inabilitados, foram ao cabo entregues aos jurados, que, assim, os analisaram independentemente da validade de suas inscrições. Vou aqui me eximir de uma apreciação a respeito da racionalidade desse procedimento. Apenas mencionarei o quão irresponsável e abusivo é exigir de um júri de poesia a análise de 154 obras (cento e cinquenta e quatro) em poucos dias e ainda na véspera das festas natalinas.
6. Entendo ainda que a FBN violou os itens 2.1 e 2.10.1 do Edital, que determinavam que os recursos à inabilitação das inscrições fossem enviados para um endereço postal físico, passando a recebê-los por via eletrônica. Isso já seria juridicamente suficiente para anular TODOS os Prêmios do Concurso, pois dezenas (e talvez mesmo centenas) de autores foram confundidos por essa duplicidade inexplicável de critérios. Reza o dispositivo do edital: “O recurso deverá ser remetido para análise no endereço descrito no item 2.10.2 deste edital.” Já o site da BFN instruía que os recursos fossem encaminhados ao e-mail “economiadolivro@bn.br”. E, como se não bastasse tudo isso, após uma infrutífera pesquisa de meu nome no Diário Oficial da União, indaguei, por telefone, a um funcionário da FBN em que data havia ocorrido a tal publicação das inscrições homologadas, conforme determina o mesmo Edital, e o mesmo respondeu-me que “isso custaria mais de R$ 20.000,00 e que então se decidiu que a publicação ocorreria apenas no site da própria Biblioteca Nacional”. Outra vez, algo inadmissível para a legalidade de um concurso que se rege pela Portaria MinC nº 29/2009, entre outros dispositivos legais e constitucionais.
7. O presente Recurso não pretende suscitar polêmicas vãs ou macular os dignos nomes dos membros de um júri que tem inclusive a chance de se retratar do seu equívoco publicamente. Tampouco pretendo desmerecer o alentado esforço ecdótico do Senhor Julio Castañon, da Fundação Casa Rui Barbosa, na preparação da obra inquinada. Pretendo apenas ter aqui apontado a responsabilidade maior da FBN nas falhas pela organização geral do concurso e pela sucessão dos acontecidos, esperando de Vossa Senhoria as devidas medidas corretivas. E imagino que Vossa Senhoria possa até partilhar de ao menos alguns elementos das convicções que me animaram a interpor o presente Recurso: a dificuldade de profissionalização do setor cultural no Brasil incita diversos operadores do mudo literário a uma espécie ubiquidade: das mesquinhas disputas de poder à mais chã necessidade de sobrevivência financeira, vejo poetas promissores paralisando suas obras e sendo levados a desempenharem funções simultâneas de críticos, ministradores de oficinas, sócios de editoras, jornalistas, agitadores culturais, curadores, promotores de revistas e, ainda, de jurados – jurados tantas vezes levados à constrangedora situação de avaliarem os mesmos novos autores apresentados por eles ou “revelados” em seus próprios cursos e oficinas. Absolutamente nada disso é ilegal, apenas compondo antes o quadro de nossa sofrível precariedade institucional. Mas assevero que o exercício cumulativo de tais e tantas funções acaba por prejudicar gravemente um juízo crítico que, em um concurso, há de ser emitido em estrita observância aos princípios da transparência, da moralidade, da impessoalidade e, sobretudo, da motivação fundamentada. Importantes sociólogos no século XX demonstraram com pesquisas empíricas que o campo literário não tem, de fato, o caráter de uma confraria de amigos que às vezes pretende manifestar. Ele é, isso sim, um sistema essencialmente competitivo, no qual está em permanente disputa a rara e árdua excelência estética, no que a lisura das premiações públicas desempenha um papel capital de objetivação das veleidades e dos relativismos dos gostos meramente pessoais, engajando os julgadores na responsabilidade pública de suas escolhas.
8. EM SÍNTESE: por (1) não ter sido a obra premiada inscrita pelo seu autor, que é falecido; por se tratar (2) ou de uma antologia que não é inédita; e/ou (2) de uma edição crítica que foge ao escopo do Prêmio Alphonsus de Guimarães de Poesia, a ser atribuído apenas a autores vivos, solicito a Vossa Senhoria que, nos usos dos poderes lhe conferem o item 9.3 do Edital e o Decreto 5538/04, determine a IMEDIATA ANULAÇÃO do certame e A PRONTA CONSTITUIÇÃO DE UM NOVO JÚRI a fim de determinar o resultado do Prêmio Alphonsus de Guimaraens do ano 2012, bem como se digne a providenciar a DIVULGAÇÃO DA ATA DE REUNIÃO DO JÚRI ATUAL, conforme o que dispõe a Lei n. 12.527/11 (Lei de Acesso à Informação).
Como um autor que empenhou sete anos na produção de um livro de poemas (ARAME FALADO) respeitosamente solicito a Vossa Senhoria que se empenhe para que a nova disputa seja encaminhada de maneira lúcida e lícita, desejando-lhe bom êxito no solucionamento dos entraves administrativos que cercam um evento cultural dessa dimensão.
Sendo o que tinha para o momento, coloco-me à vossa inteira disposição para quaisquer esclarecimentos e, ao aguardar vossa manifestação pelo provimento dos pedidos acima formulados, colho do ensejo para reiterar meus votos de elevada estima e distinta consideração, subscrevendo-me.
Porto Alegre, 27 de dezembro de 2012
Atenciosamente,
Marcus Fabiano Gonçalves
Obra inscrita: ARAME FALADO
sábado, 29 de dezembro de 2012
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
POEMAS DE ANELITO DE OLIVEIRA
TRAÇOS
1.
Escrevo porque
sofro,
Todos os sopros
– a
Partir de lá,
aqui,
Onde desabo –
corpo
2.
Se houvesse o
absoluta-
Mente absoluto,
tudo
Estaria seguro
numa
Única mão – sem
dedos
3.
Falar em meio,
falar
No meio das
coisas,
Sem palavras,
com as
Coisas, o
inaudível
4.
O que
estranha-me é
Que não haja
entranha,
Que a superfície
seja
A face toda no
rosto
5.
Quando tiver
tempo,
Chegarei a tempo
de
Encontrar o que
não
Me agrada,
quando
Anelito de Oliveira (Brasil, 1970), rompendo com quase uma
década de silêncio livresco, acaba de lançar Transtorno, Mais que o fogo e A
ocorrência – primeiros
volumes da série Acontecimentos Criativos, projeto editorial da Orobó Edições
que reunirá toda a sua poesia. Estreou com Lama,
em 2000, e, em 2004, publicou Três
festas A love song as Monk. Criou e editou o jornal Não (1994/95) e a
revista Orobó (1997/1999) e dirigiu o Suplemento Literário de Minas Gerais
(1999/2003). Estes poemas são inéditos. Contatos:
anelitodeoliveira.blogspot.com | anelitodeoliveira@gmail.com | facebook/anelitodeolivei.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
ANTOLOGIA DE DRUMMOND GANHA PRÊMIO VOLTADO A ESCRITOR VIVO
Bernardo Ajzenberg, diretor executivo da Cosac Naify, aparece
como vencedor por ser "detentor dos direitos autorais" de
"Carlos Drummond de Andrade Poesia 1930-62" (Cosac Naify), organizado
por Julio Castañon Guimarães.
Dois jurados da categoria, Francisco Orban e Leila Míccolis,
não foram localizados para comentar. O terceiro integrante do júri, Carlito
Azevedo, informou que não comentaria o assunto.
A Cosac Naify preferiu não se manifestar oficialmente por
ora. No Facebook, Ajzenberg disse que "não faz sentido" figurar como
autor e que fez "formalmente a inscrição pela [...] Cosac Naify".
A Biblioteca Nacional informou que analisará o caso se houver
pedido de recurso. Os vencedores nas oito categorias foram divulgados na sexta
(21).
Fonte: jornal Folha de S. Paulo.
Primeiro, a Inimigo Rumor celebra autores medíocres, como Angélica Freitas e Ricardo Domeneck, indicados a todos os prêmios, viagens ao exterior e com resenhas em todos os jornais, enquanto autores de talento genuíno são colocados à margem de tudo isso, e agora resolve dar prêmio literário a autor morto... tenha a santa paciência, Carlito Azevedo!
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
QUATRO POEMAS DE DANÍIL IVÁNOVITCH KHARMS (1905-1942)
NOTAÇÃO Nº 10 NO CADERNO
AZUL
Havia um cara ruivo que não tinha nem olhos, nem orelhas. Nem tinha cabelos, portanto, chamá-lo de ruivo é uma coisa teórica.
Não podia falar,
pois não tinha boca. E nem tinha nariz.
Não tinha braços
nem pernas. Não tinha barriga, e muito menos costas; não tinha espinha e nem
qualquer tipo de entranhas. Não tinha nada de nada! Portanto, não há nem como
saber de quem nós estamos falando.
Na verdade, é
melhor que a gente nem diga mais nada sobre ele.
UM ENCONTRO
Certa ocasião, um homem foi trabalhar e, no caminho, se
encontrou com outro homem que tinha comprado um pão polonês e estava voltando
para casa.
E foi apenas isto.
INCIDENTES
Um dia, Orlóv se entupiu de ervilhas e morreu. E Krylóv, ao
saber disso, morreu também. E Spiridonov morreu por sua própria conta. E a
mulher de Spiridonov caiu do guarda-louças e morreu também. E os filhos de
Spiridonov se afogaram no lago. E a sogra de Spiridonov encheu a cara e deu no
pé. E Mikháilovitch parou de pentear o cabelo e acabou pegando sarna. E Kruglóv
desenhou uma mulher com um chicote na mão e perdeu o juízo. E Pierekhriestóv
recebeu quatrocentos rublos pelo correio e ficou tão0 posudo que acabou sendo
mandado embora de seu emprego.
São todos gente boa
– mas não conseguem mais manter os pés no chão.
A ILUSÃO DE ÓTICA
Semiôn Semiônovitch, de óculos, olha para um pinheiro e vê:
no pinheiro está sentado um camponês mostrando-lhe o punho.
Semiôn Semiônovitch, sem óculos, olha para o pinheiro e vê que
não há ninguém sentado no pinheiro.
Semiôn Semiônovitch, de óculos, olha para um pinheiro e vê de
novo que, no pinheiro, está sentado um camponês mostrando-lhe o punho.
Semiôn Semiônovitch, sem óculos, olha para o pinheiro e vê de
novo que não há ninguém sentado no pinheiro.
Semiôn Semiônovitch, de óculos, outra vez, olha para um
pinheiro e vê de novo que, no pinheiro, está sentado um camponês mostrando-lhe
o punho.
Semiôn Semiônovitch não quer acreditar nesse fenômeno e
considera esse fenômeno uma ilusão de ótica.
Tradução: Lauro Machado Coelho
(in Poesia Soviética.
São Paulo: Algol Editora, 2007)
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
UM POEMA DE HAROLDO DE CAMPOS
IOLE DE FREITAS
asas invasoras assaltam o museu
asas com tentáculos de arame cobre latão
asas que se transformam em velários
em chapas de escarlate
em redes para invisíveis borboletas
e avançam
seus tegumentos perfuram paredes
dardejam pontas iridescentes
atravessam janelas
farfalham ao redor da
fiação elétrica penduram-se
como cipós-ectoplasmas dos
postes de luz:
iole passou por aqui
com seu séqüito de
retículas platinadas
e imprimiu em tudo
seu toque talismânico
(Do livro Entremilênios.
São Paulo:Perspectiva, 2009)
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
CRÔNICA PARA O FINAL DOS TEMPOS
Caros, amanhã será o final dos
tempos, segundo a astrologia maia. Eu não acredito em bruxas, duendes ou
mulas-sem-cabeça, mas vale a pena fazer um breve balanço de 2012. Publiquei meu
livro de poemas Cores para cegos,
pela Lumme Editor – reunião de cinco poemas longos, escritos entre 2008 e 2011
– e o lançamento em Curitiba foi divertido, uma boa oportunidade para retomar
as conversas com amigos como Ricardo e Joana Corona e Eliana Borges. Ministrei
um curso sobre a poesia neobarroca no Festival de Ouro Preto e Mariana, cidades
que amo pela arquitetura, culinária, natureza e cabeças pensantes. Organizei o
I Seminário de Ação Poética, em parceria com o Frederico Barbosa, evento que
reuniu mais de 40 poetas, músicos, críticos e editores, que se apresentaram em
recitais e debates na Casa das Rosas e no Centro Cultural São Paulo. Participei
do Fórum Social Mundial Palestina Livre, em Porto Alegre, ao lado de minha
namorada Giovanna Wrubel, e tive a felicidade de participar da marcha de
abertura do fórum, no mesmo dia em que a Palestina foi aceita como estado
observador na ONU – uma vitória política que abre caminho para novas e
importantes conquistas. Filiei-me ao Partido Comunista do Brasil (PC do B), a
mais antiga organização da esquerda brasileira, fundada em 1922, como seção da III Internacional, e que hoje
representa o pensamento político mais avançado em nosso país. Comemorei a
vitória de Fernando Haddad para a prefeitura de São Paulo, que será um
importante fator para a mudança política em todo o estado, nos próximos anos.
Comecei a escrever minha tese de doutorado – A recepção da poesia clássica japonesa no Brasil e em Portugal --,
que vou defender em 2014. Descobri poetas que não conhecia, como o sírio Adonis
e o palestino Darwish, ouvi boa música, convivi com meus amigos, amo e sou
amado por minha musa. Está de bom tamanho, não? Que venha o apocalipse.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
FÓRUM SOCIAL MUNDIAL PALESTINA LIVRE: UMA VITÓRIA DA SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL
O Fórum Social Mundial Palestina
Livre, que aconteceu entre 28 de novembro e 01 de dezembro de 2012 em Porto Alegre (RS),
foi o maior evento internacional de solidariedade à causa palestina realizado
até hoje, com a presença de convidados de 36 países. O evento aconteceu poucos
dias após o brutal ataque sionista à Faixa de Gaza, que chocou o mundo com as
imagens de crianças palestinas mortas pela aviação israelense, em mais uma
demonstração da guerra assimétrica conduzida por Israel contra a população palestina.
A solidariedade dos povos do mundo com o heroico povo palestino manifestou-se
em dois acontecimentos de importância histórica, ocorridos em 29 de novembro: a
marcha de abertura do FSMPL, que reuniu cerca de dez mil ativistas de vários
países, e a aprovação do ingresso da Palestina como estado observador na
Organização das Nações Unidas, uma vitória da Autoridade Nacional Palestina que
abre caminho para uma futura negociação para seu reconhecimento como membro
pleno da organização, o que passa, obviamente, pela formação de um estado
palestino livre, independente e soberano, de acordo com as fronteiras de 1967,
ao lado do estado judeu – ou seja, a proposta de Dois Estados, há muito tempo
defendida pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Como estado
observador, porém, a Palestina já pode denunciar os crimes de guerra de Israel
contra a população civil em Gaza e Cisjordânia no Tribunal Penal Internacional,
o que teria conseqüências no debate político na mídia e contribuiria para
fortalecer o movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra
Israel – por exemplo, campanhas pelo fim dos acordos militares entre Brasil e o
regime sionista, ou ainda a denúncia dos acordos comerciais firmados entre Tel
Aviv e o Mercosul.
Todos estes temas e muitos outros – a ideologia sionista,
estratégias de boicote, resistência pacífica, arte de resistência etc. – foram
discutidos no FSMPL ao longo de quatro dias, em cerca de 150 atividades, entre
conferências, debates e apresentações poéticas e musicais, assistidas por mais
de cinco mil pessoas. O FSMPL, que desde a sua fase preparatória sofreu intensa
pressão das entidades sionistas brasileiras, que procuraram impedir a sua
realização, repercutiu também nos blogues, sites e portais independentes, como
Opera Mundi e Portal Vermelho, nas redes sociais, especialmente no Facebook, e
foi matéria inclusive na imprensa diária, que não conseguiu evitar o tema. O
muro de silêncio em torno da questão palestina foi derrubado, e o consenso
moral em torno do suposto direito de defesa de Israel contra “ameaças
terroristas” não existe mais: está cada vez mais claro para a opinião pública –
apesar da influência sionista na mídia – que os palestinos têm direito a um
estado e a lutar por sua independência e soberania. O isolamento de Israel
nunca foi tão grande como hoje, e o seu campo de apoio no cenário internacional
se resume, basicamente, aos Estados Unidos e seus aliados mais próximos, como
Panamá e Canadá – a própria União Européia mostra-se pouco confortável com os assentamentos
ilegais de colonos israelenses na Cisjordânia e Jerusalém Oriental e a
retenção, por Israel, dos impostos que deveriam ser pagos à Autoridade Nacional
Palestina, entre outras ações que mostram o pouco interesse de Israel, neste
momento, em negociações de paz sérias. Até mesmo antigos aliados de Israel na
Europa, como Alemanha e Grã-Bretanha, se afastaram do alinhamento imediato e
incondicional com o regime sionista, optando pela abstenção (em vez do voto
contrário) durante a votação realizada na ONU. Hoje, está mais claro do que
nunca que a arrogância dos líderes israelenses é o verdadeiro obstáculo a uma
paz justa e verdadeira, e com essa postura eles ficam cada vez mais sozinhos.
O quadro político que surge com o
ingresso da Palestina na ONU é resultado de uma somatória de fatores, que não
cabe analisar aqui, mas é indiscutível que os movimentos de solidariedade ao
povo palestino foram – e são – um dos principais agentes para a reviravolta
política em curso, cujo símbolo mais expressivo foi justamente o FSMPL,
construído graças ao apoio das mais expressivas entidades da sociedade civil
brasileira. O êxito inegável do
Fórum revelou, de forma contundente, a importância da unidade entre os partidos
progressistas, centrais sindicais, entidades estudantis, culturais e populares
para construirmos ações eficazes de solidariedade ao povo palestino. Uma das
principais forças que colaboraram para a realização do FSMPL foi o Comitê pelo
Estado da Palestina Já, integrado por mais de 50 entidades, incluindo as seis
maiores centrais sindicais brasileiras, Federação Árabe Palestina (Fepal),
Federação de Entidades Árabes Brasileiras (Fearab), MST, UNE, UBES, Conam,
partidos políticos como o PT, PC do B, PSB, PPL, entidades de mulheres, negros
e da juventude, e ainda entidades culturais, como a Bibliaspa – Biblioteca
/ Centro de Pesquisa América do Sul - Países Árabes e a revista Zunái.
O Comitê esteve engajado em
todas as fases de organização do Fórum e teve presença destacada na marcha de
abertura do evento, em dezenas de mesas temáticas e sobretudo na plenária de
entidades, realizada no dia 30, com um público de cerca de 300 pessoas. O
Comitê distribuiu, gratuitamente, 2.500 exemplares do livro Justiça, paz e liberdade para o povo
palestino, organizado pelo prof. Lejeune Mirhan, e a Bibliaspa organizou o lançamento de livros como A terra nos é estreita e outros poemas, do poeta palestino Mahmoud
Darwish, traduzido pelo prof. dr. Paulo Farah, e Noite grande, romance escrito pelo brasileiro-palestino Permínio
Asfora, autor elogiado por Guimarães Rosa e Jorge Amado, que faz um inédito
relato da presença palestina na sociedade brasileira. A revista Zunái, que integra o Comitê pelo Estado
da Palestina Já, distribuiu para o público reunido no Fórum 200 exemplares da
plaquete Poemas para a Palestina,
antologia organizada por Claudio Daniel com textos de 15 autores brasileiros
contemporâneos, que escreveram poemas dedicados à emancipação do povo
palestino. Hoje, a Palestina é um tema da poesia brasileira, sinal inequívoco
de que nossos artistas, escritores e intelectuais estão cada vez mais
simpáticos à causa palestina (e vale a pena aqui recordar o manifesto Somos todos palestinos, divulgado em
2011 pela revista Zunái, que somou
50 assinaturas de apoio, entre elas as de Milton Hatoum, Mamede Jarouche, Luiz
Costa Lima e Armando Freitas Filho). A luta do povo palestino por sua
libertação nacional, como já declarou o prof.
Lejeune Mirhan, é a mais justa e a mais revolucionária de nossa época,
porque é um enfrentamento direto com os interesses dos sionistas e do
imperialismo norte-americano, que visam controlar todo o Oriente Médio, se
apoderar das fontes de petróleo, das rotas comerciais, dos pontos estratégicos
e do mercado consumidor destes países, valendo-se para isso da agressão
militar, como nos casos do Iraque e do Afeganistão, ou do fomento a guerras
civis sectárias, entre tribos ou grupos religiosos, como aconteceu na
Líbia e hoje se repete na Síria, além
das constantes ameaças ao Irã. A vitória do povo palestino será uma vitória de
todos os povos e nações que lutam contra o imperialismo norte-americano.
O Fórum Social
Mundial Palestina Livre foi um marco desta luta, mas em 2013 novos desafios nos
aguardam, como a preparação da II Missão de Solidariedade à Palestina,
organizada pelo Comitê pelo Estado da Palestina Já, que levará um grupo de 40
ativistas brasileiros aos territórios palestinos. É importante também
fortalecer o próprio Comitê, com o ingresso de outros partidos e organizações
que defendam a mesma causa, sempre com espírito pluralista e democrático. É
possível promover atividades culturais de intercâmbio entre poetas e escritores
do Brasil e da Palestina, um compromisso assumido pela revista Zunái, que desde 2011 publica os Cadernos da Palestina e colabora na
organização de eventos como a Noite
Palestina, espetáculo de poesia, música e dança apresentado no Centro
Cultural São Paulo, no mês de aniversário da Nakba, e a exposição fotográfica Palestina: a ferida aberta, apresentada
na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, por ocasião dos 30 anos do massacre de Sabra
e Chatila. Atividades culturais são de vital importância para a veiculação dos
temas relacionados à causa palestina a um público mais amplo. Por fim,
esperamos que em 2013 o governo brasileiro estreite ainda mais o comércio e
outras ações bilaterais com a Autoridade Nacional Palestina, seguindo o rumo
traçado nas gestões de Lula e Dilma, que colocaram o Brasil na vanguarda do
apoio internacional à causa da emancipação palestina.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
DEZ HAIKAIS
sombra de árvore:
conto apenas a você
o que disse o vento
primeiro dia do ano:
corpos sem nome
nas águas do rio
pequenas misérias de maio:
onde eu estou
é qualquer parte
moça no metrô
borboleta de verão
tatuada nas tetas
formiga na grama
passa sem pressa
ou telefone celular
* * *
morador de rua
usa o sol como abajur
viaduto de verão
* * *
após a chuva de inverno
a menina rega
o ipê amarelo
galho seco; noite
escura; folhas e medos
amarelecendo
* * *
praias de corais
— mulheres de água,
peixes de luz
* * *
o tempo? viagem
do pó ao pó — os pés,
os paus e pedras
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Assinar:
Postagens (Atom)









