terça-feira, 20 de novembro de 2012

POEMAS DE NICOLLAS RANIERI



CENA

o ar queima
o mar arde
borboletas
cospem larvas
dragões vomitam
infernos
universos
sóis implodem

silêncio

uma mulher
se despe
se masturba
da vulva
às
vísceras

TENTAÇÃO

metais
elípticos
entre pêlos
de tigres
espinhos
venenos
facas afiadas
fio por fio
no rosto
da amada
faces que
falecem
rastros de
urânio em
explosão
rastros de
um crânio
supernovas
na terra
fendas es
feras aves
saindo e
entrando
ilusões de
um lagarto
no oceano
 
PEDRA

é uma pedra
mas maquie-a aborígine
e a vista com tecidos
ósseos musculares epiteliais
e com lã e seda e cetim
deixe que ela ultrapasse
a forma do casulo e do caracol
mais do que um molde ou fantoche
dê a ela uma vida postiça
alfabetize-a andrógina e lasciva
faça disso um exercício físico
contudo ela é seca – frígida – hostil
e se esquiva: sua origem mineral
quer ser definida pelo tempo
ela quer ser terra, areia
e alheia nada revela
ela se recompõe
é uma pedra

APETITE

com uma arraia
tatuada em suas costas
(invadindo talvez
seus órgãos
e suas costelas)
com um olho místico
tatuado em seu púbis
com seus olhos de gato
com sua epiderme
deserto ela me diz
que fabricamos feras
sem saber que abortei
sua gravidez apocalipse
delicadamente usei faca e garfo
que atravessaram o parto
em seu ventre prato
com seus pêlos pubianos
com suas pálpebras
com seus poros
estéril ela me diz
que fabricamos feras
sem saber que abortei
sua gravidez apocalipse
e alimentaria essas feras
com suas cinzas
e lembranças
(mas agora
assexuadas
acéfalas
elas se fabricam
anômalas)
latejante ela me diz
que fabricamos feras
teia que consome
a aranha

 
LONTRA

sem saber ela
inicia seus jogos

(primeiro
no seu andar

dança
enigmas

depois
no seu infinito

dança
enigmas)

me lanço
- náufrago -
no encantamento

fulgor
- fogo -
onírico
que tatua o
pensar

música no
crepúsculo
de tudo

máscaras
esfinge
- efígie -
nô - non
sense

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

GALERIA: ANDRÉA CATRÓPA





Andréa Catrópa (São Paulo, 1974) é doutoranda em Teoria Literária (FFLCH-USP). Dirigiu o programa de rádio sobre poesia contemporânea Ondas Literárias e publicou o livro de poemas Mergulho às avessas (Lumme Editor:2008).

POEMAS DE ANDRÉA CATRÓPA




cicatriz

apendicite cesárea expulsão
do amor do filho
morto
linha a linha
contada
adorno exato
que impede 
de varrer pra baixo 
da pele
a dor transformada em alfabeto
de traço cor e carne



 a queda

basta um martelo
e o gesto torna
o golpe mais vero
otrabalho o tempo
da argila sólida em forma
de meticulosa pilha
basta a palavracom pontas
mal aparadas ou
pouco mais viscosa e todas
as outras, bordadas, acolchoadas
(preservar ouvidos)
agora                                    dilatadas
sufocam ferem como
prenúncio perverso passamanarias
perfeitas de seda cabeça pendente
artérias de mariaantonieta


álbum de retratos 

puxar os fios
do seu cabelo
                alinhar
a desgraça a discórdia
  não tem versos
assim tão claros
são camadas
vê?
os cabelos
de hoje como aqueles
salgados na praia
o desconforto
lembra
era prenúncio
era bala
                no pente
só agora
acho que não
deixar seus dedos
tantos anos
                assim
em um mesmo
gatilho
é acreditar demais
na inevitabilidade
arranjar palavras
obediência boba
puppettheatre
                dos astros
não eu não você
não sabia
e naquele dia
o sol faiscava
o sal todas as
joias falsas
seu olho
bola de gude
globo vazio
boneca
atualque cega
celuloide
desbotada
tarde

geração
a dor se compartilha como
joia de família                   [seu sussurro
                                               ,filho,
soa como o mar
preso à concha]
justamente
nesta hora
sinalizadores falham e eu
apenas
conduzo
o seu acidente

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domingo, 11 de novembro de 2012

NUNCA SE ESQUEÇAM, CRIANÇAS...


HINO AO JUIZ



 

Vladimir Maiakovski escreveu, em 1915, o poema HINO AO JUIZ, em que satiriza a arrogância, a prepotência e o autoritarismo de certos magistrados que usam seus "podres poderes" em benefício da classe dominante. O poema, claro, é atualíssimo, numa época em que o STF cumpre o papel, antes reservado aos militares, de perseguir e punir os ativistas de esquerda, que insistem na defesa das causas populares. Pois bem, faço aqui um convite aos poetas: vamos usar as armas que estão ao nosso alcance -- a ironia, o sarcasmo, o esculacho -- para escrevermos novos hinos aos juízes fascistas que ainda hoje tanto mal fazem ao nosso país. Escrevam poemas sobre o tema e enviem para mim até o dia 15 de dezembro, para publicarmos num caderno especial da revista ZUNÁI.

sábado, 10 de novembro de 2012

GALERIA: MARCELI ANDRESA BECKER


  
Marceli Andresa Becker é formada em Filosofia e trabalha como professora e editora da Mallarmargens, Revista de Poesia e Arte Contemporânea. Publicou poemas em diversas revistas eletrônicas, sites e blogues. Participou da Miniantologia Poética do Centro Cultural São Paulo e da Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel. Organizou a antologia Desvio ao vermelho: treze poetas brasileiros contemporâneos, publicada na coleção Poesia Viva, editada pelo CCSP. Na área de filosofia, publicou artigos científicos e ensaios em revistas eletrônicas e mídias impressas. Mantém o blog De Ter de Onde se Ir (http://deterdeondeseir.blogspot.com). A poesia de Marceli Andresa Becker gira em torno de temas como o erotismo, a linguagem, a morte, a memória e o silêncio – ou, melhor dizendo a incomunicabilidade. As referências pessoais estão presentes em sua poética, mas são transformadas, pelo hábil manuseio dos recursos poéticos, em fábulas (im)pessoais, onde o que se impõe é a densidade semântica, observada na escolha e na combinação das palavras em estruturas móveis, que convidam o leitor a ressignificar o texto, fragmentário, elíptico e plurívoco. É uma poesia que dialoga com o minimalismo de Robert Creeley e a escrita lúdica e enigmática de Mallarmé, mas também vozes tão distintas quanto a da norte-americana Sylvia Plath e da judia-egípcia de expressão francesa Joyce Mansour, e ainda com a fotografia e o cinema (duas obsessões da autora). Marceli Andresa Becker está entre as vozes mais originais de sua geração, ao lado de autores como Joana Corona, Daniel Faria e Diogo Cardoso, que apontam para novos caminhos de experimentação poética.

POEMAS DE MARCELI ANDRESA BECKER




SONHOS – IV

meia-noite.

meus seios doíam até o outro lado do atlântico. (era evidente por quê): uma fitinha estreita, vermelha, daquelas que facilitam a abertura de embalagens

*

de bolacha recheada, contornava internamente cada um dos mamilos. a ponta, língua de minúscula serpente, ficava bem na altura areolar em que o relógio marca

*

meia-noite.

(em que o sinal da cruz coloca
o pai).

*

silenciosa e pacientemente, posicionei os dedos para puxá-la.


 
203 - I

desta vez não falarei das bonecas que há anos
perdi debaixo da cama.

compraram ingressos para a minha
sessão blood de cinema —

cinevodu:

que se furam,
que se furam.

EM CARTAZ!

*

tomada 1: luz.

QUANTA DISTÂNCIA, mãe?
uma sala de costura.

na minúscula almofada, os vinte e dois alfinetes,
teu cobreiro de aço inoxidável.

*

tomada 2: câmera.

A QUANTOS METROS mais, para que não me ferisses,

hidra-de-lâminas, obsessiva sombra
da cozinha?

o olhar, uma pedra.

o silêncio a vapor do lado de dentro da pedra.
(lambê-la, lembras? afiar a língua.)

depois o teu doce
em banho-

maria,

*

uma criança a vapor no chuveiro.

as gotículas que se condensavam, aqui e ali,
porque aos poucos a noite aprendia

a chorar.

*

tomada 3: ação.

grande coisa corroer pedidos de desculpa
com a música gastrointestinal da lira.

o seu canto lactobacílico.

*

JÁ DISSE QUE NÃO,

desta vez não falarei da loja, das tesouras, das peças
dos manequins.

vinte metros de passarela,
o corredor do 203:

uma vitrine onde o meu corpo anoréxico
vagou durante anos, insone,

*

BANHEIRO, DESCARGA,
QUARTO.

banheiro, quarto, sessão de exorcismo.

a minha vida.
a minha vida.

*

todas as vozes de emily rose.

(uma rosa é uma rosa é uma rosa)
seus longos espinhos

furando

as minhas bonecas,
a tua minúscula almofada,
o meu coração.

*

cheguei a pensar que o teu negócio
fosse uma espécie

de,

sabes? — como se diz:
um necrotério haute couture.

GALERIA: FABRÍCIO SLAVIERO




Fabrício Slaviero nasceu em Taboão da Serra (SP) em 1982. Participou da Miniantologia poética publicada pelo Centro Cultural São Paulo (fevereiro, 2012). Tem poemas publicados na Zunái e no blog do Laboratório de Criação Poética. Em breve, será publicada a sua primeira plaquete, Srahmópomo.

POEMAS DE FABRÍCIO SLAVIERO


Hoccipitais Psiquiátricos
— vulgo Hoccipícios:
                               Doentes ossamentais?
Esqueletos esquizofrênicos?
bem, para o tal Osso esfenóide
só mesmo um
ócio Esquizóide...

Hoccipitais Psiquiátricos
— vulgo Hoccipícios:
                               osseosos Licantropos
                               enquanto tais
                               se creem Lobos,
                               — Lobos parietais
(Matilhas de Frontes
e Têmporas lupinas)
...
Psicotrópicos
— se não caprinos,
córneos —
                 & Nervolépticos:
                 vide Bula?
                 — ora, Mandíbulas!

***

Menor — uma vez
ao tal (menor) Número
possível de Vozes (uma?) — é
o solitário Modo a se Entoar
não, Gregoriano um Canto
via Coro de Monges, sim
o Cantochão com antigregário
um Solo de Anacoreta


***

Torre (enquanto, enxadrístico, um Roque) de Pau-Marfim? Álea
de Alheamento? Aqui, bem, ali é Aquienação: Bi, quiçá Trizan-
tinismo e/ou Cochinchinesice da parte d’um Padre (en cuanto
ajedrecístico Alfil, hoy Obispo) dado a Filigranagens; da parte do
próprio Indochinês de Conisberga, — esta, a propósito, a teutô-
nica Montanha do Rei (e este, — o Rei? o Indochinês? —, em
Xeque ora Mate?)


GALINÁCEA À COMBUSTÃO

Perua Kombi a carregar Tambores de Lavagem (— grandes — dois
ou três) e (três ou quatro — grandes —) Sacas de Farelo, ambos
para Porcos (Bancos/Corpos de Bacon), e
                                         a combinar não só — em Cor? —, o Azul
metálico de sua Lataria com o plástico Turquesa dos Tambores,
como também — em Cor Textura Cheiro? —, o nauseante
Conteúdo destes, com os bem prováveis Vômitos de seus con-
textuais Descarregadores (— a saber, este que vos [...] e vós).

 
***

Na (plástica?) bandeja sanitária, ou caja de arena, o — pra,
argiloso, não dizer — argiláceo granulado para a self-higiene; para
— altíssimo grau de rigor — o esmero fisiológico de um — este,
sim — ardiloso (?) gato — olhos esmeraldinos e, pra lá de gasta,
uma lixa salivar grão setenta e alguma coisa...


SANDUÍIDICHE

Pão indo-europeu não-fermentado
Ou azimia à germânica base
D’água e farinha d’alto
Altíssimo-alemão médio
E idiomática assadura

Contém glótica se não glúten?

Tão semíticas quanto defumadas
As fatias de hebraico e de aramaico
Temperos dialetais e
Bem talhadas até cirílicas
As rodelas d’eslavo em conserva

 
***

atletas bizantinos diversa origem étnica olímpica desportividade
praticavam aquela ao menos para eles rômaioi “muito mais latina
que helênica” ¿a luta greco-romana? — bisões do cáucaso quando
nenhum espírito esportivo competiam status alfa-machista sim
ruminantes senhores pelo exercício ditatorial sobre “seus pares”
a manada      

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

GALERIA: ANDRÉIA CARVALHO



Andréia Carvalho é poeta curitibana. Escreve o blog O hábito escarlate. Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Zunái, Germina e Eutomia e na revista impressa Polichinello. Seu primeiro livro, A Cortesã do Infinito Transparente, saiu pela Lumme, na coleção Caixa Preta, em 2011, e foi lançado no evento literário ZOONA, em Curitiba. A poesia de Andréia Carvalho é herdeira do simbolismo de Rimbaud e Mallarmé, no uso de palavras raras, de sinestesias, jogos enigmáticos e construções metafóricas que subvertem a representação linear daquilo que supomos ser a realidade. É uma poesia que cria outras realidades, que se manifestam na própria experiência estética. Sua sensibilidade musical, porém, está atenta à aspereza e ao ruído, à desagregação de uma harmonia que não encontra eco na era da total dissonância. Ela cria estranhas partituras, que rasgam o tecido da conformidade, com linhas como estas: “moira cataléptica, zigoto de vestal”, “fecha o ecrã / e segue muezzin a ordem de abraxás”, “cismo do decaído / não te canses do ofício / de salgar a minha boca criptogâmiga”.  É uma poética da deformação e da teratologia, onde podemos enxergar, talvez, vestígios de nossos próprios rostos.