segunda-feira, 19 de novembro de 2012

POEMAS DE ANDRÉA CATRÓPA




cicatriz

apendicite cesárea expulsão
do amor do filho
morto
linha a linha
contada
adorno exato
que impede 
de varrer pra baixo 
da pele
a dor transformada em alfabeto
de traço cor e carne



 a queda

basta um martelo
e o gesto torna
o golpe mais vero
otrabalho o tempo
da argila sólida em forma
de meticulosa pilha
basta a palavracom pontas
mal aparadas ou
pouco mais viscosa e todas
as outras, bordadas, acolchoadas
(preservar ouvidos)
agora                                    dilatadas
sufocam ferem como
prenúncio perverso passamanarias
perfeitas de seda cabeça pendente
artérias de mariaantonieta


álbum de retratos 

puxar os fios
do seu cabelo
                alinhar
a desgraça a discórdia
  não tem versos
assim tão claros
são camadas
vê?
os cabelos
de hoje como aqueles
salgados na praia
o desconforto
lembra
era prenúncio
era bala
                no pente
só agora
acho que não
deixar seus dedos
tantos anos
                assim
em um mesmo
gatilho
é acreditar demais
na inevitabilidade
arranjar palavras
obediência boba
puppettheatre
                dos astros
não eu não você
não sabia
e naquele dia
o sol faiscava
o sal todas as
joias falsas
seu olho
bola de gude
globo vazio
boneca
atualque cega
celuloide
desbotada
tarde

geração
a dor se compartilha como
joia de família                   [seu sussurro
                                               ,filho,
soa como o mar
preso à concha]
justamente
nesta hora
sinalizadores falham e eu
apenas
conduzo
o seu acidente

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domingo, 11 de novembro de 2012

NUNCA SE ESQUEÇAM, CRIANÇAS...


HINO AO JUIZ



 

Vladimir Maiakovski escreveu, em 1915, o poema HINO AO JUIZ, em que satiriza a arrogância, a prepotência e o autoritarismo de certos magistrados que usam seus "podres poderes" em benefício da classe dominante. O poema, claro, é atualíssimo, numa época em que o STF cumpre o papel, antes reservado aos militares, de perseguir e punir os ativistas de esquerda, que insistem na defesa das causas populares. Pois bem, faço aqui um convite aos poetas: vamos usar as armas que estão ao nosso alcance -- a ironia, o sarcasmo, o esculacho -- para escrevermos novos hinos aos juízes fascistas que ainda hoje tanto mal fazem ao nosso país. Escrevam poemas sobre o tema e enviem para mim até o dia 15 de dezembro, para publicarmos num caderno especial da revista ZUNÁI.

sábado, 10 de novembro de 2012

GALERIA: MARCELI ANDRESA BECKER


  
Marceli Andresa Becker é formada em Filosofia e trabalha como professora e editora da Mallarmargens, Revista de Poesia e Arte Contemporânea. Publicou poemas em diversas revistas eletrônicas, sites e blogues. Participou da Miniantologia Poética do Centro Cultural São Paulo e da Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel. Organizou a antologia Desvio ao vermelho: treze poetas brasileiros contemporâneos, publicada na coleção Poesia Viva, editada pelo CCSP. Na área de filosofia, publicou artigos científicos e ensaios em revistas eletrônicas e mídias impressas. Mantém o blog De Ter de Onde se Ir (http://deterdeondeseir.blogspot.com). A poesia de Marceli Andresa Becker gira em torno de temas como o erotismo, a linguagem, a morte, a memória e o silêncio – ou, melhor dizendo a incomunicabilidade. As referências pessoais estão presentes em sua poética, mas são transformadas, pelo hábil manuseio dos recursos poéticos, em fábulas (im)pessoais, onde o que se impõe é a densidade semântica, observada na escolha e na combinação das palavras em estruturas móveis, que convidam o leitor a ressignificar o texto, fragmentário, elíptico e plurívoco. É uma poesia que dialoga com o minimalismo de Robert Creeley e a escrita lúdica e enigmática de Mallarmé, mas também vozes tão distintas quanto a da norte-americana Sylvia Plath e da judia-egípcia de expressão francesa Joyce Mansour, e ainda com a fotografia e o cinema (duas obsessões da autora). Marceli Andresa Becker está entre as vozes mais originais de sua geração, ao lado de autores como Joana Corona, Daniel Faria e Diogo Cardoso, que apontam para novos caminhos de experimentação poética.

POEMAS DE MARCELI ANDRESA BECKER




SONHOS – IV

meia-noite.

meus seios doíam até o outro lado do atlântico. (era evidente por quê): uma fitinha estreita, vermelha, daquelas que facilitam a abertura de embalagens

*

de bolacha recheada, contornava internamente cada um dos mamilos. a ponta, língua de minúscula serpente, ficava bem na altura areolar em que o relógio marca

*

meia-noite.

(em que o sinal da cruz coloca
o pai).

*

silenciosa e pacientemente, posicionei os dedos para puxá-la.


 
203 - I

desta vez não falarei das bonecas que há anos
perdi debaixo da cama.

compraram ingressos para a minha
sessão blood de cinema —

cinevodu:

que se furam,
que se furam.

EM CARTAZ!

*

tomada 1: luz.

QUANTA DISTÂNCIA, mãe?
uma sala de costura.

na minúscula almofada, os vinte e dois alfinetes,
teu cobreiro de aço inoxidável.

*

tomada 2: câmera.

A QUANTOS METROS mais, para que não me ferisses,

hidra-de-lâminas, obsessiva sombra
da cozinha?

o olhar, uma pedra.

o silêncio a vapor do lado de dentro da pedra.
(lambê-la, lembras? afiar a língua.)

depois o teu doce
em banho-

maria,

*

uma criança a vapor no chuveiro.

as gotículas que se condensavam, aqui e ali,
porque aos poucos a noite aprendia

a chorar.

*

tomada 3: ação.

grande coisa corroer pedidos de desculpa
com a música gastrointestinal da lira.

o seu canto lactobacílico.

*

JÁ DISSE QUE NÃO,

desta vez não falarei da loja, das tesouras, das peças
dos manequins.

vinte metros de passarela,
o corredor do 203:

uma vitrine onde o meu corpo anoréxico
vagou durante anos, insone,

*

BANHEIRO, DESCARGA,
QUARTO.

banheiro, quarto, sessão de exorcismo.

a minha vida.
a minha vida.

*

todas as vozes de emily rose.

(uma rosa é uma rosa é uma rosa)
seus longos espinhos

furando

as minhas bonecas,
a tua minúscula almofada,
o meu coração.

*

cheguei a pensar que o teu negócio
fosse uma espécie

de,

sabes? — como se diz:
um necrotério haute couture.

GALERIA: FABRÍCIO SLAVIERO




Fabrício Slaviero nasceu em Taboão da Serra (SP) em 1982. Participou da Miniantologia poética publicada pelo Centro Cultural São Paulo (fevereiro, 2012). Tem poemas publicados na Zunái e no blog do Laboratório de Criação Poética. Em breve, será publicada a sua primeira plaquete, Srahmópomo.

POEMAS DE FABRÍCIO SLAVIERO


Hoccipitais Psiquiátricos
— vulgo Hoccipícios:
                               Doentes ossamentais?
Esqueletos esquizofrênicos?
bem, para o tal Osso esfenóide
só mesmo um
ócio Esquizóide...

Hoccipitais Psiquiátricos
— vulgo Hoccipícios:
                               osseosos Licantropos
                               enquanto tais
                               se creem Lobos,
                               — Lobos parietais
(Matilhas de Frontes
e Têmporas lupinas)
...
Psicotrópicos
— se não caprinos,
córneos —
                 & Nervolépticos:
                 vide Bula?
                 — ora, Mandíbulas!

***

Menor — uma vez
ao tal (menor) Número
possível de Vozes (uma?) — é
o solitário Modo a se Entoar
não, Gregoriano um Canto
via Coro de Monges, sim
o Cantochão com antigregário
um Solo de Anacoreta


***

Torre (enquanto, enxadrístico, um Roque) de Pau-Marfim? Álea
de Alheamento? Aqui, bem, ali é Aquienação: Bi, quiçá Trizan-
tinismo e/ou Cochinchinesice da parte d’um Padre (en cuanto
ajedrecístico Alfil, hoy Obispo) dado a Filigranagens; da parte do
próprio Indochinês de Conisberga, — esta, a propósito, a teutô-
nica Montanha do Rei (e este, — o Rei? o Indochinês? —, em
Xeque ora Mate?)


GALINÁCEA À COMBUSTÃO

Perua Kombi a carregar Tambores de Lavagem (— grandes — dois
ou três) e (três ou quatro — grandes —) Sacas de Farelo, ambos
para Porcos (Bancos/Corpos de Bacon), e
                                         a combinar não só — em Cor? —, o Azul
metálico de sua Lataria com o plástico Turquesa dos Tambores,
como também — em Cor Textura Cheiro? —, o nauseante
Conteúdo destes, com os bem prováveis Vômitos de seus con-
textuais Descarregadores (— a saber, este que vos [...] e vós).

 
***

Na (plástica?) bandeja sanitária, ou caja de arena, o — pra,
argiloso, não dizer — argiláceo granulado para a self-higiene; para
— altíssimo grau de rigor — o esmero fisiológico de um — este,
sim — ardiloso (?) gato — olhos esmeraldinos e, pra lá de gasta,
uma lixa salivar grão setenta e alguma coisa...


SANDUÍIDICHE

Pão indo-europeu não-fermentado
Ou azimia à germânica base
D’água e farinha d’alto
Altíssimo-alemão médio
E idiomática assadura

Contém glótica se não glúten?

Tão semíticas quanto defumadas
As fatias de hebraico e de aramaico
Temperos dialetais e
Bem talhadas até cirílicas
As rodelas d’eslavo em conserva

 
***

atletas bizantinos diversa origem étnica olímpica desportividade
praticavam aquela ao menos para eles rômaioi “muito mais latina
que helênica” ¿a luta greco-romana? — bisões do cáucaso quando
nenhum espírito esportivo competiam status alfa-machista sim
ruminantes senhores pelo exercício ditatorial sobre “seus pares”
a manada      

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

GALERIA: ANDRÉIA CARVALHO



Andréia Carvalho é poeta curitibana. Escreve o blog O hábito escarlate. Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Zunái, Germina e Eutomia e na revista impressa Polichinello. Seu primeiro livro, A Cortesã do Infinito Transparente, saiu pela Lumme, na coleção Caixa Preta, em 2011, e foi lançado no evento literário ZOONA, em Curitiba. A poesia de Andréia Carvalho é herdeira do simbolismo de Rimbaud e Mallarmé, no uso de palavras raras, de sinestesias, jogos enigmáticos e construções metafóricas que subvertem a representação linear daquilo que supomos ser a realidade. É uma poesia que cria outras realidades, que se manifestam na própria experiência estética. Sua sensibilidade musical, porém, está atenta à aspereza e ao ruído, à desagregação de uma harmonia que não encontra eco na era da total dissonância. Ela cria estranhas partituras, que rasgam o tecido da conformidade, com linhas como estas: “moira cataléptica, zigoto de vestal”, “fecha o ecrã / e segue muezzin a ordem de abraxás”, “cismo do decaído / não te canses do ofício / de salgar a minha boca criptogâmiga”.  É uma poética da deformação e da teratologia, onde podemos enxergar, talvez, vestígios de nossos próprios rostos.

POEMAS DE ANDRÉIA CARVALHO


LUNARES LEONINOS

Estarei sempre-viva.
Cultuo esta solidão que laçam,
Mais um palco para o sol.

Tenho leões
Mesmo adormecidos
Rugem-me evangelhos
Como músicas empoeiradas
Sarapintadas,
letras panteras deslizantes
no livro manuseado.

Os leopardos sonâmbulos.
Passo-signo.
Leituras que nos caçam
a dinastia extinta.

Incansável realeza
Indestrutível ronda

Estou sempre-viva
Mesmo adormecida.

Espreito o que me espreitam.
Nada me descreve. Antes, eu.
E tu, e os topázios.

Aquilo que tenho e que só,
tu alcanças.
Aquilo que tens e que só,
eu alcanço.

Rugidos e extratos-feras.
Enquanto adormecem
sob nossos calcanhares:
galanteio, vaia, devoção.

MUSA CEGA

Atravesso a imagem da pedra
Imbuída e lenta de obsidiana
Forças tectônicas me ascendem
E sou a devastação
para sepultar-me
no dom da palavra santa

Bebo tua voz
E sou o sal

Meu sangue metálico, a pedra
do oratório

Não há vida minha
Sem o verbo teu

terra
meu êxodo sideral
canta em mim como a carne crua de um meteroro

PARA FAZER PONTAS DE FLECHAS

Mineralizar a lágrima
Fazer-se rútilo

Vibrar além da tua sangria
Pelas ervas, pelas especiarias
Com a estatura do musgo,
dos fermentos,
do sedimento

Como se os deuses me dessem as mãos, interiormente.

A amálgama fria volatiliza-se

Não pela tua eloqüência vulcânica, tua chegada ou partida.
O ourives é a atmosfera magnetizada
Ao teu redor

Quando os deuses vibram dentro de tua garra.

HÁ UM HOMEM CORTADO EM DOIS PELA JANELA

Hosana para este
Que atravessa carnes e estátuas mornas
Para este
Dos campos iridescentes
De frutos e raízes em caduceu
Que atravessa nomes
E nos responde
Trêmulo átimo
Dos campos magnéticos

O belo insone dos campos magnéticos
Iridescente
Hosana
em suas pegadas de carvão salpicado

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

GALERIA: LUIZ ARISTON



Luiz Ariston de Freitas Dantas nasceu em Salvador (BA) e reside em São Paulo (SP). Formado em Psicologia, trabalha como analista de sistemas. Como poeta, publicou o livro Reflexos do Ch’an – Poesia Budista Brasileira (2008) e colaborou nas revistas e sites literários Zunái, Germina e Cronópios. O autor teve um poema premiado no II Prêmio Literário Canon de Poesia 2009. No campo da música popular, é letrista e tem parcerias gravadas por Jussara Silveira, Péri, Toni Costa e Lan Lan. Sua poesia é altamente elaborada, seja na construção métrica, rítmica e melódica, seja no uso imprevisto das rimas, à maneira das canções provençais de Arnaut Daniel. Poeta de fina ironia, aborda temas relacionados ao cotidiano, ao mundo do trabalho e da vida urbana, sem cair nas facilidades de certa poesia ingênua derivada do Modernismo dos anos 1930 e da chamada Geração Mimeógrafo. É um poeta que investe em imagens fortes, violentas (“Monstros dos olhos e orifícios / Com muco nas mucosas”), mas também capaz de construir discursos elípticos, onde mistério e imprecisão constituem as pedras-de-toque. É uma poesia lúdica, que joga com diferentes possibilidades de leitura e interpretação, fazendo o leitor abandonar qualquer expectativa de leitura unívoca e linear em seu discurso poético.

POEMAS DE LUIZ ARISTON


A VIDA É UMA MULHER NEGRA

A vida é uma mulher negra
Que sorri seus dentes brancos
De leite
Sobre as nossas cabeças
Como espadas cadentes que são
E são papões e são tutus
Monstros dos olhos e orifícios
Com muco nas mucosas
Pelos sombra e vida crua
Nos invadem vem de dentro
Eviscerando eviscerando
Até restar somente a pele
E o cheiro ocre muda em grito
E muda em grito interminável
E muda em choro
E muda em sonho
E muda em nada muda
Para quem corremos
E que nos socorre
Desta nossa vida a mulher negra


A vida é uma mulher negra
Que sorri seus dentes brancos
Em nossos espelhos
Cara a cara
Enquanto nos havemos outros mais felizes
Em quanto ela sorri
De quem dançamos quem sorrimos
Vai navalha nesta valsa
De olhos cegos sem coleira
Ela sorri ela sorri
A nos deixar felicidades
Nos lugares nas angústias
Da ilusão da verdade da ilusão
Da verdade da ilusão da verdade
Que de tão simples
Tão simplesmente simples
De tão óbvia
E de tão bêbados gozamos
Afogados entre os seios
Desta nossa vida a mulher negra

A vida é uma mulher negra
Que sorri seus dentes brancos
Em nossa cola
Nos nossos cangotes
E já não podemos olhar pra trás
Sem virar sal
E nos viramos e vemos
Na medusa a nós atrelada
A estrela de brilho intenso
Que não fomos
Porque não pudemos ver
Porque não podemos ver
A estrela de brilho intenso
Senão na medusa a nós atrelada
Que insistimos em ver e virar
A virar sal
Sem desejar mais nada
Além de deleitosamente
Dissolver-se entre os dentes brancos
Desta nossa vida a mulher negra

TREINAMENTO

Razão de ser, estava escrito,
Razão da existência, me calo.
Repito, interminavelmente,
Em pensamento e pensamento
Até que de tão rápido o fluxo
Estanca e a frase permanece
Infinita, suspensa, imóvel:
Razão de ser é vasto e nulo.

Razão de ser são objetivos
E seus planos para alcançá-los,
Leio em voz alta, lentamente,
E o meu cachorro, sonolento,
Levanta a cabeça e me escuta,
Trazendo a mim a sua espécie
Dos cachorros que, para Borges,
Não tem passado nem futuro.

Mas razão da existência existe?
E o texto cita como análogo:
O que somos principalmente
É mudarmo-nos, movimento,
Melhor que a razão nos conduza,
Como se nós nunca estivéssemos
Entre a beira da própria morte
E a do delírio da cultura.

Razão da existência é mijo.
Não já disse uma vez Heráclito,
Que presentes estão ausentes
Na ilusão do conhecimento?
Meu cachorro, lambendo o cu,
É darma e que se lhe impusessem
Razão de ser, seria só
Por doma, nunca por virtude.

 
HAPPY HOUR

Hoje bebemos mais cerveja,
E disse, depois de outro gole,
O consumidor brasileiro...
Procurei o consumidor
Em seus olhos embaciados,
Então me ocorreu: pouco importa!
E meu corte me recortou:
A morte é desimportância.

Quem sou eu, senão que não seja
Um que sinceramente bole,
Um que passe por verdadeiro
E que seja bom vendedor,
Quer auto, quer alteramado.
A morte é charada morta
No insight que se recortou
Em asco, nojo, náusea e ânsia.

Mas per capta talvez nem, veja,
Sessenta litros extrapole.
Demócrito, meu timoneiro,
Me diga se aquilo que for
Eternamente recortado,
Como um nada que nem se corta,
Não está morto, pois encontrou,
De si mesmo, a eterna distância?

Se eterno remorrer peleja
Com falações de bundas-moles...
Ah, a mijada no banheiro!
Um mercado bem promissor,
Um gole, se bem explorado.
Se bem for, o estômago aborta.
E sempre serei quem eu sou:
Ignorância da ignorância.


CONGRATULAÇÕES

Ela passava fugidia.
Parabéns, chefe! foi falado,
Todos olhamos e sorrimos,
Uns levantaram-se das mesas,
A conquista é merecida,
Disse outro e eu desfrutava
De um momento em que se comprazem
Sinceridade e hipocrisia.

Sinceridade e hipocrisia:
Simpatia. Muito obrigada,
Mas todos nós a construímos.
Não que somar duas fraquezas,
Vieses da visão da vida,
A crença mais não desagrava:
Pensamento e razão nos trazem
Realidade ou fantasia?

Realidade e fantasia,
Mais dois opostos conjuntados?!
Zenão, por que me desanimo?
Roubar do tirano a surpresa
Em haver a língua cuspida
Que o torturado desencrava
Com seus dentes, aos que se aprazem,
Só o sucesso sentencia.

Só o sucesso sentencia.
Nosso time é de resultado.
O alarme traiu, existimos.
Simulação (que sutileza!)
De incêndio. A brigada, a batida,
Fui ao banheiro, alguém cagava.
À vez, os que se contrafazem
Descansam da pedagogia.


* * *

Artistas e criação não se entendem
porque artistas não se entendem
e porque não se entende
o que não se entende
que não se entende

E ao contrário do fim
não se entende
o que se entende
como artistas não se entendem
E assim não se entende
o que não se entende
que se entende
até o fim dos artistas

domingo, 4 de novembro de 2012

GALERIA: ADRIANA ZAPPAROLI



Adriana Zapparoli é poeta e doutora em Farmacologia pela Universidade de Campinas (Unicamp). Publicou, entre outros títulos, as plaquetes de poesia A Flor da Abissínia (2007), Cocatriz (2008), Flor de lírio e Lontra corola libido (2012) e o livro de poemas O leão de Nemeia (2010). Colaborou em revistas literárias impressas e eletrônicas como Zunái, Germina, Eutomia, Cronópios, A Cigarra e Et Cetera. Participou do evento literário Tordesilhas, Festival Ibero-Americano de Poesia Contemporânea (2007), e integra a Antologia de poesia brasileira do início do terceiro milénio (2008), publicada em Portugal, e Todo começo é involuntário: a poesia brasileira no início do século XXI (2010), ambas organizadas por Claudio Daniel. Sua poesia se caracteriza pela presença de elementos mitológicos de diversas culturas, mesclados a referências da flora e da fauna e à temática erótica, trabalhados numa linguagem densa, que dissolve as fronteiras entre a prosa e a poesia. O vocabulário é rico em palavras extraídas da biologia, do sânscrito, da fala coloquial, exploradas em sua dimensão sonora e imagética, sem hierarquia de valores entre a norma culta e popular. O trabalho de Adriana Zapparoli é um dos mais inventivos realizados hoje no Brasil. A página da autora na Internet é http://zeniteblog.zip.net.

POEMAS DE ADRIANA ZAPPAROLI



  : BEATRIZ AIRADA


I

viagem ao congo no rosto de quem ---

há 7 molares.
há 7 escaras.
há 7 haras e cavalos-marinhos.
há 7 picadas de toxina botulínica

e uma melancolia que se arrasta
entre a congada...

que, muitas vezes, nem descreve
nada além do que passa
em conflito,

além da malhada, poesia, além dessa mutilada lírica;
dentro de órgãos complexos
--  olhos, ouvidos,
mãos e cérebros –


II
penumbra, que intersilencia
o estreito, em cama profunda.

no peito, esse medo, a pleura e um osso.
ser balanço, cabeça
e pescoço.

o esteio do pescoço... um toc.
o pânico perseguitório:
- até quando?


III
varizes em taças
dê sorvetes.

fachadas estreitas, de um mundo em conta-gotas,
de orvalho, florais e floreiras.

as olheiras do alho
desconectam esse dharma.

o convívio com o pensamento alheio:
rótula, mágoa e mandala.

a tacha em pássaro revolto:
- sua membrana celular...

IV

doenças e cabeça,
entre meadas, em casta de leite.

a cidra, pela manhã, bem cedo,
sussurra um sono ineficiente.

a mesma cisma, o aviso,
quase um apelo: - tente


V.
se o copo de vinho tinto:
energético em aversão

inibidores de recaptação
são serotoninérgicos.

os efeitos do insucesso,
o abuso, da opção: o risco.

VI

sibutramina, constipação, taquicardia
o aumento da pressão arterial.

na cortina de voal, um duplo-cego,
multicêntrico, um eco

redigindo os pensamentos temporários.

VII
medicamentoso:
o surto randomizado
cefaléia, o susto.

na esteatorréia das vozes
abrindo o ovo
de páscoa.

IX
ocupam-se dos neurônios
a noite, a boca seca
e o furo na parede.

ocultos, os vômitos
habitam a tinta,
a textura laranja,
a janela.

X
insônia, a influência estranha
da anfepramona em verso.

obteve êxito,
as paisagens em colchas,
o desenho do nariz

as entranhas de beatriz-
a louca airada,

num copo de suco.



COCATRIZ

enquanto, isto do outono por todo, lado-outro,

passiflórea, a menina  fazia a pergunta sobre a história, escrita em platibanda. ela trazia o terror em cócoras,

perseguido por orbiculares de Spathodea (campanulata) do rosto-balaustre

de lugares,  bem distantes ou por lá, isto do outono do lado-outro, onde a mente em cascata, é decoro é queixume em

palavra,
onde o mítico vem carreado de flores e hiatos

do fundo do seu anonimato, dum constante híbrido,
apesar do sincero tempo real em limbo, lâmina e pecíolo


na petrificação do basilisco...
entre em pessoa semente a olhando,


não.
tumultue o ambiente, regado a suco de flores,

e saia da frente do amontoado de unhas do polvo-gestante
de colmo de fruta, açafrão-de-outono e coleção de zumu de

um mundo impiedoso... e da pleura vista por dentro
e pelo entorno, escarra-ouro; não... ainda que se sin-

ta náusea,  logo na curva,  entre pérola e safira


reflita...

(Fragmento de Cocatriz, de Adriana Zapparoli)