Marceli Andresa Becker é formada em Filosofia e trabalha como professora e editora da Mallarmargens, Revista de Poesia e Arte Contemporânea. Publicou poemas em diversas revistas eletrônicas, sites e blogues. Participou da Miniantologia Poética do Centro Cultural São Paulo e da Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel. Organizou a antologia Desvio ao vermelho: treze poetas brasileiros contemporâneos, publicada na coleção Poesia Viva, editada pelo CCSP. Na área de filosofia, publicou artigos científicos e ensaios em revistas eletrônicas e mídias impressas. Mantém o blog De Ter de Onde se Ir (http://deterdeondeseir.
sábado, 10 de novembro de 2012
GALERIA: MARCELI ANDRESA BECKER
Marceli Andresa Becker é formada em Filosofia e trabalha como professora e editora da Mallarmargens, Revista de Poesia e Arte Contemporânea. Publicou poemas em diversas revistas eletrônicas, sites e blogues. Participou da Miniantologia Poética do Centro Cultural São Paulo e da Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel. Organizou a antologia Desvio ao vermelho: treze poetas brasileiros contemporâneos, publicada na coleção Poesia Viva, editada pelo CCSP. Na área de filosofia, publicou artigos científicos e ensaios em revistas eletrônicas e mídias impressas. Mantém o blog De Ter de Onde se Ir (http://deterdeondeseir.
POEMAS DE MARCELI ANDRESA BECKER
SONHOS – IV
meia-noite.
meus seios doíam até o outro lado
do atlântico. (era evidente por quê): uma fitinha estreita, vermelha, daquelas
que facilitam a abertura de embalagens
*
de bolacha recheada, contornava
internamente cada um dos mamilos. a ponta, língua de minúscula serpente, ficava
bem na altura areolar em que o relógio marca
*
meia-noite.
(em que o sinal da cruz coloca
o pai).
*
silenciosa e pacientemente,
posicionei os dedos para puxá-la.
203 - I
desta vez não falarei das bonecas
que há anos
perdi debaixo da cama.
compraram ingressos para a minha
sessão blood de cinema —
cinevodu:
que se furam,
que se furam.
EM CARTAZ!
*
tomada 1: luz.
QUANTA DISTÂNCIA, mãe?
uma sala de costura.
na minúscula almofada, os vinte e
dois alfinetes,
teu cobreiro de aço inoxidável.
*
tomada 2: câmera.
A QUANTOS METROS mais, para que
não me ferisses,
hidra-de-lâminas, obsessiva
sombra
da cozinha?
o olhar, uma pedra.
o silêncio a vapor do lado de
dentro da pedra.
(lambê-la, lembras? afiar a
língua.)
depois o teu doce
em banho-
maria,
*
uma criança a vapor no chuveiro.
as gotículas que se condensavam,
aqui e ali,
porque aos poucos a noite
aprendia
a chorar.
*
tomada 3: ação.
grande coisa corroer pedidos de
desculpa
com a música gastrointestinal da
lira.
o seu canto lactobacílico.
*
JÁ DISSE QUE NÃO,
desta vez não falarei da loja,
das tesouras, das peças
dos manequins.
vinte metros de passarela,
o corredor do 203:
uma vitrine onde o meu corpo
anoréxico
vagou durante anos, insone,
*
BANHEIRO, DESCARGA,
QUARTO.
banheiro, quarto, sessão de
exorcismo.
a minha vida.
a minha vida.
*
todas as vozes de emily rose.
(uma rosa é uma rosa é uma rosa)
seus longos espinhos
furando
as minhas bonecas,
a tua minúscula almofada,
o meu coração.
*
cheguei a pensar que o teu
negócio
fosse uma espécie
de,
sabes? — como se diz:
um necrotério haute couture.
GALERIA: FABRÍCIO SLAVIERO
Fabrício Slaviero nasceu em Taboão da Serra (SP) em 1982. Participou
da Miniantologia poética publicada pelo Centro Cultural São Paulo (fevereiro,
2012). Tem poemas publicados na Zunái
e no blog do Laboratório de Criação Poética. Em breve, será publicada a sua
primeira plaquete, Srahmópomo.
POEMAS DE FABRÍCIO SLAVIERO
Hoccipitais Psiquiátricos
— vulgo Hoccipícios:
Doentes
ossamentais?
Esqueletos esquizofrênicos?
bem, para o tal Osso esfenóide
só mesmo um
ócio Esquizóide...
Hoccipitais Psiquiátricos
— vulgo Hoccipícios:
osseosos Licantropos
enquanto tais
se creem Lobos,
— Lobos
parietais
(Matilhas de Frontes
e Têmporas lupinas)
...
Psicotrópicos
— se não caprinos,
córneos —
& Nervolépticos:
vide Bula?
— ora, Mandíbulas!
***
Menor — uma vez
ao tal (menor) Número
possível de Vozes (uma?) — é
o solitário Modo a se Entoar
não, Gregoriano um Canto
via Coro de Monges, sim
o Cantochão com antigregário
um Solo de Anacoreta
***
Torre (enquanto, enxadrístico, um Roque) de
Pau-Marfim? Álea
de Alheamento? Aqui, bem, ali é Aquienação: Bi,
quiçá Trizan-
tinismo e/ou Cochinchinesice da parte d’um Padre
(en cuanto
ajedrecístico Alfil, hoy Obispo) dado a Filigranagens; da
parte do
próprio Indochinês de Conisberga, — esta, a propósito,
a teutô-
nica Montanha do Rei (e este, — o Rei? o
Indochinês? —, em
Xeque ora Mate?)
GALINÁCEA À COMBUSTÃO
Perua Kombi a carregar Tambores de Lavagem (—
grandes — dois
ou três) e (três ou quatro — grandes —) Sacas de
Farelo, ambos
para Porcos (Bancos/Corpos de Bacon), e
a
combinar não só — em Cor? —, o Azul
metálico de sua Lataria com o plástico Turquesa
dos Tambores,
como também — em Cor Textura Cheiro?
—, o nauseante
Conteúdo destes, com os bem prováveis Vômitos de
seus con-
textuais Descarregadores (— a saber, este que
vos [...] e vós).
***
Na (plástica?) bandeja sanitária, ou caja de
arena, o — pra,
argiloso, não dizer — argiláceo granulado para a
self-higiene; para
— altíssimo grau de rigor — o esmero fisiológico
de um — este,
sim — ardiloso (?) gato — olhos esmeraldinos e,
pra lá de gasta,
uma lixa salivar grão setenta e alguma coisa...
SANDUÍIDICHE
Pão indo-europeu não-fermentado
Ou azimia à germânica base
D’água e farinha d’alto
Altíssimo-alemão médio
E idiomática assadura
Contém glótica se não glúten?
Tão semíticas quanto defumadas
As fatias de hebraico e de aramaico
Temperos dialetais e
Bem talhadas até cirílicas
As rodelas d’eslavo em conserva
***
atletas bizantinos diversa origem étnica
olímpica desportividade
praticavam aquela ao menos para eles rômaioi “muito
mais latina
que helênica”
¿a luta greco-romana? — bisões do cáucaso quando
nenhum espírito esportivo competiam status
alfa-machista sim
ruminantes senhores pelo exercício ditatorial
sobre “seus pares”
a manada
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
GALERIA: ANDRÉIA CARVALHO
Andréia Carvalho
é poeta curitibana. Escreve o blog O hábito escarlate. Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Zunái,
Germina e Eutomia e na revista impressa Polichinello. Seu primeiro livro, A Cortesã do Infinito Transparente, saiu
pela Lumme, na coleção Caixa Preta, em 2011, e foi lançado no evento literário ZOONA, em Curitiba. A poesia de
Andréia Carvalho é herdeira do simbolismo de Rimbaud e Mallarmé, no uso de
palavras raras, de sinestesias, jogos enigmáticos e construções metafóricas que
subvertem a representação linear daquilo que supomos ser a realidade. É uma
poesia que cria outras realidades, que se manifestam na própria experiência estética.
Sua sensibilidade musical, porém, está atenta à aspereza e ao ruído, à
desagregação de uma harmonia que não encontra eco na era da total dissonância.
Ela cria estranhas partituras, que rasgam o tecido da conformidade, com linhas
como estas: “moira cataléptica, zigoto de vestal”, “fecha o ecrã / e segue
muezzin a ordem de abraxás”, “cismo do decaído / não te canses do ofício / de
salgar a minha boca criptogâmiga”. É uma
poética da deformação e da teratologia, onde podemos enxergar, talvez, vestígios
de nossos próprios rostos.
POEMAS DE ANDRÉIA CARVALHO
LUNARES LEONINOS
Estarei sempre-viva.
Cultuo esta solidão que laçam,
Mais um palco para o sol.
Tenho leões
Mesmo adormecidos
Rugem-me evangelhos
Como músicas empoeiradas
Sarapintadas,
letras panteras deslizantes
no livro manuseado.
Os leopardos sonâmbulos.
Passo-signo.
Leituras que nos caçam
a dinastia extinta.
Incansável realeza
Indestrutível ronda
Estou sempre-viva
Mesmo adormecida.
Espreito o que me espreitam.
Nada me descreve. Antes, eu.
E tu, e os topázios.
Aquilo que tenho e que só,
tu alcanças.
Aquilo que tens e que só,
eu alcanço.
Rugidos e extratos-feras.
Enquanto adormecem
sob nossos calcanhares:
galanteio, vaia, devoção.
MUSA CEGA
Atravesso a imagem da pedra
Imbuída e lenta de obsidiana
Forças tectônicas me ascendem
E sou a devastação
para sepultar-me
no dom da palavra santa
Bebo tua voz
E sou o sal
Meu sangue metálico, a pedra
do oratório
Não há vida minha
Sem o verbo teu
terra
meu êxodo sideral
canta em mim como a carne crua de um meteroro
PARA FAZER PONTAS DE FLECHAS
Mineralizar a lágrima
Fazer-se rútilo
Vibrar além da tua sangria
Pelas ervas, pelas especiarias
Com a estatura do musgo,
dos fermentos,
do sedimento
Como se os deuses me dessem as mãos, interiormente.
A amálgama fria volatiliza-se
Não pela tua eloqüência vulcânica, tua chegada ou partida.
O ourives é a atmosfera magnetizada
Ao teu redor
Quando os deuses vibram dentro de tua garra.
HÁ UM HOMEM CORTADO EM DOIS PELA JANELA
Hosana para este
Que atravessa carnes e estátuas mornas
Para este
Dos campos iridescentes
De frutos e raízes em caduceu
Que atravessa nomes
E nos responde
Trêmulo átimo
Dos campos magnéticos
O belo insone dos campos magnéticos
Iridescente
Hosana
em suas pegadas de carvão salpicado
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
GALERIA: LUIZ ARISTON
Luiz Ariston de Freitas Dantas nasceu em Salvador (BA) e reside em São Paulo (SP). Formado
em Psicologia, trabalha como analista de sistemas. Como poeta, publicou o livro
Reflexos do Ch’an – Poesia Budista
Brasileira (2008) e colaborou nas revistas e sites literários Zunái,
Germina e Cronópios. O autor teve um poema premiado no II Prêmio Literário
Canon de Poesia 2009. No campo da música popular, é letrista e tem parcerias
gravadas por Jussara Silveira, Péri, Toni Costa e Lan Lan. Sua poesia é altamente
elaborada, seja na construção métrica, rítmica e melódica, seja no uso
imprevisto das rimas, à maneira das canções provençais de Arnaut Daniel. Poeta
de fina ironia, aborda temas relacionados ao cotidiano, ao mundo do trabalho e
da vida urbana, sem cair nas facilidades de certa poesia ingênua derivada do
Modernismo dos anos 1930 e da chamada Geração Mimeógrafo. É um poeta que
investe em imagens fortes, violentas (“Monstros
dos olhos e orifícios / Com muco nas mucosas”), mas também
capaz de construir discursos elípticos, onde mistério e imprecisão constituem
as pedras-de-toque. É uma poesia lúdica, que joga com diferentes possibilidades
de leitura e interpretação, fazendo o leitor abandonar qualquer expectativa de
leitura unívoca e linear em seu discurso poético.
POEMAS DE LUIZ ARISTON
A VIDA É UMA MULHER NEGRA
A
vida é uma mulher negra
Que
sorri seus dentes brancos
De
leite
Sobre
as nossas cabeças
Como
espadas cadentes que são
E
são papões e são tutus
Monstros
dos olhos e orifícios
Com
muco nas mucosas
Pelos
sombra e vida crua
Nos
invadem vem de dentro
Eviscerando
eviscerando
Até
restar somente a pele
E
o cheiro ocre muda em grito
E
muda em grito interminável
E
muda em choro
E
muda em sonho
E
muda em nada muda
Para
quem corremos
E
que nos socorre
Desta
nossa vida a mulher negra
A
vida é uma mulher negra
Que
sorri seus dentes brancos
Em
nossos espelhos
Cara
a cara
Enquanto
nos havemos outros mais felizes
Em
quanto ela sorri
De
quem dançamos quem sorrimos
Vai
navalha nesta valsa
De
olhos cegos sem coleira
A
nos deixar felicidades
Nos
lugares nas angústias
Da
ilusão da verdade da ilusão
Da
verdade da ilusão da verdade
Que
de tão simples
Tão
simplesmente simples
De
tão óbvia
E
de tão bêbados gozamos
Afogados
entre os seios
Desta
nossa vida a mulher negra
A
vida é uma mulher negra
Que
sorri seus dentes brancos
Em
nossa cola
Nos
nossos cangotes
E
já não podemos olhar pra trás
Sem
virar sal
E
nos viramos e vemos
Na
medusa a nós atrelada
A
estrela de brilho intenso
Que
não fomos
Porque
não pudemos ver
Porque
não podemos ver
A
estrela de brilho intenso
Senão
na medusa a nós atrelada
Que
insistimos em ver e virar
A
virar sal
Sem
desejar mais nada
Além
de deleitosamente
Dissolver-se entre os dentes brancos
Desta nossa vida a mulher negra
TREINAMENTO
Razão de ser, estava escrito,
Razão da existência, me calo.
Repito,
interminavelmente,
Em
pensamento e pensamento
Até
que de tão rápido o fluxo
Estanca
e a frase permanece
Infinita,
suspensa, imóvel:
Razão
de ser é vasto e nulo.
Razão de ser são objetivos
E seus planos para alcançá-los,
Leio
em voz alta, lentamente,
E
o meu cachorro, sonolento,
Levanta
a cabeça e me escuta,
Trazendo
a mim a sua espécie
Dos
cachorros que, para Borges,
Não
tem passado nem futuro.
Mas
razão da existência existe?
E
o texto cita como análogo:
O que somos principalmente
É mudarmo-nos, movimento,
Melhor que a razão nos conduza,
Como
se nós nunca estivéssemos
Entre
a beira da própria morte
E
a do delírio da cultura.
Razão
da existência é mijo.
Não
já disse uma vez Heráclito,
Que
presentes estão ausentes
Na
ilusão do conhecimento?
Meu
cachorro, lambendo o cu,
É
darma e que se lhe impusessem
Razão
de ser, seria só
Por
doma, nunca por virtude.
HAPPY HOUR
Hoje bebemos mais cerveja,
E
disse, depois de outro gole,
O consumidor brasileiro...
Procurei
o consumidor
Em
seus olhos embaciados,
Então
me ocorreu: pouco importa!
E
meu corte me recortou:
A
morte é desimportância.
Quem
sou eu, senão que não seja
Um
que sinceramente bole,
Um
que passe por verdadeiro
E
que seja bom vendedor,
Quer
auto, quer alteramado.
A
morte é charada morta
No
insight que se recortou
Em
asco, nojo, náusea e ânsia.
Mas per capta talvez nem, veja,
Sessenta litros extrapole.
Demócrito,
meu timoneiro,
Me
diga se aquilo que for
Eternamente
recortado,
Como
um nada que nem se corta,
Não
está morto, pois encontrou,
De
si mesmo, a eterna distância?
Se
eterno remorrer peleja
Com
falações de bundas-moles...
Ah,
a mijada no banheiro!
Um mercado bem promissor,
Um
gole, se bem explorado.
Se
bem for, o estômago aborta.
E
sempre serei quem eu sou:
Ignorância
da ignorância.
CONGRATULAÇÕES
Ela
passava fugidia.
Parabéns, chefe! foi falado,
Todos
olhamos e sorrimos,
Uns
levantaram-se das mesas,
A conquista é merecida,
Disse
outro e eu desfrutava
De
um momento em que se comprazem
Sinceridade
e hipocrisia.
Sinceridade
e hipocrisia:
Simpatia.
Muito obrigada,
Mas todos nós a construímos.
Não
que somar duas fraquezas,
Vieses
da visão da vida,
A
crença mais não desagrava:
Pensamento
e razão nos trazem
Realidade
ou fantasia?
Realidade
e fantasia,
Mais
dois opostos conjuntados?!
Zenão,
por que me desanimo?
Roubar
do tirano a surpresa
Em
haver a língua cuspida
Que
o torturado desencrava
Com
seus dentes, aos que se aprazem,
Só
o sucesso sentencia.
Só
o sucesso sentencia.
Nosso time é de resultado.
O
alarme traiu, existimos.
Simulação
(que sutileza!)
De
incêndio. A brigada, a batida,
Fui
ao banheiro, alguém cagava.
À
vez, os que se contrafazem
Descansam
da pedagogia.
*
* *
Artistas
e criação não se entendem
porque
artistas não se entendem
e
porque não se entende
o
que não se entende
que
não se entende
E
ao contrário do fim
não
se entende
o
que se entende
como
artistas não se entendem
E
assim não se entende
o
que não se entende
que
se entende
até
o fim dos artistas
domingo, 4 de novembro de 2012
GALERIA: ADRIANA ZAPPAROLI
Adriana Zapparoli é poeta e doutora em
Farmacologia pela Universidade de Campinas (Unicamp). Publicou, entre outros títulos, as plaquetes de
poesia A Flor da Abissínia (2007), Cocatriz (2008), Flor
de lírio e Lontra corola libido (2012) e o livro de poemas O leão de Nemeia (2010). Colaborou em
revistas literárias impressas e eletrônicas como Zunái,
Germina, Eutomia, Cronópios,
A Cigarra e Et Cetera. Participou do evento literário Tordesilhas, Festival Ibero-Americano de Poesia
Contemporânea (2007), e integra a Antologia
de poesia brasileira do início do terceiro milénio (2008),
publicada em Portugal, e Todo começo é involuntário: a poesia brasileira no início do século XXI (2010), ambas organizadas por Claudio Daniel. Sua poesia se caracteriza pela presença de elementos mitológicos de diversas culturas, mesclados a referências da flora e da fauna e à temática erótica, trabalhados numa linguagem densa, que dissolve as fronteiras entre a prosa e a poesia. O vocabulário é rico em palavras extraídas da biologia, do sânscrito, da fala coloquial, exploradas em sua dimensão sonora e imagética, sem hierarquia de valores entre a norma culta e popular. O trabalho de Adriana Zapparoli é um dos mais inventivos realizados hoje no Brasil. A página da autora na Internet é http://zeniteblog.zip.net.
POEMAS DE ADRIANA ZAPPAROLI
: BEATRIZ AIRADA
I
viagem ao congo no rosto de quem
---
há 7 molares.
há 7 escaras.
há 7 haras e cavalos-marinhos.
há 7 picadas de toxina botulínica
e uma melancolia que se arrasta
entre a congada...
que, muitas vezes, nem descreve
nada além do que passa
em conflito,
além da malhada, poesia, além dessa mutilada lírica;
dentro de órgãos complexos
-- olhos, ouvidos,
mãos e cérebros –
há 7 molares.
há 7 escaras.
há 7 haras e cavalos-marinhos.
há 7 picadas de toxina botulínica
e uma melancolia que se arrasta
entre a congada...
que, muitas vezes, nem descreve
nada além do que passa
em conflito,
além da malhada, poesia, além dessa mutilada lírica;
dentro de órgãos complexos
-- olhos, ouvidos,
mãos e cérebros –
II
penumbra, que intersilencia
o estreito, em cama
profunda.
no peito, esse medo, a
pleura e um osso.
ser balanço, cabeça
e pescoço.
o esteio do pescoço... um
toc.
o pânico perseguitório:
- até quando?
III
varizes em taças
dê sorvetes.
fachadas estreitas, de um mundo
em conta-gotas,
de orvalho, florais e floreiras.
as olheiras do alho
desconectam esse dharma.
o convívio com o pensamento
alheio:
rótula, mágoa e mandala.
a tacha em pássaro revolto:
- sua membrana celular...
IV
doenças e cabeça,
entre meadas, em casta de leite.
a cidra, pela manhã, bem cedo,
sussurra um sono ineficiente.
a mesma cisma, o aviso,
quase um apelo: - tente
V.
se o copo de vinho tinto:
energético em aversão
inibidores de recaptação
são serotoninérgicos.
os efeitos do insucesso,
o abuso, da opção: o risco.
VI
sibutramina, constipação,
taquicardia
o aumento da pressão arterial.
na cortina de voal, um
duplo-cego,
multicêntrico, um eco
redigindo os pensamentos
temporários.
VII
medicamentoso:
o surto randomizado
cefaléia, o susto.
na esteatorréia das vozes
abrindo o ovo
de páscoa.
IX
ocupam-se dos neurônios
a noite, a boca seca
e o furo na parede.
ocultos, os vômitos
habitam a tinta,
a textura laranja,
a janela.
X
insônia, a influência estranha
da anfepramona em verso.
obteve êxito,
as paisagens em colchas,
o desenho do nariz
as entranhas de beatriz-
a louca airada,
num copo de suco.
COCATRIZ
enquanto, isto do outono por
todo, lado-outro,
passiflórea, a menina
fazia a pergunta sobre a história, escrita em platibanda. ela trazia o
terror em cócoras,
perseguido por orbiculares de Spathodea (campanulata)
do rosto-balaustre
de lugares, bem distantes ou por lá, isto do outono do
lado-outro, onde a mente em cascata, é decoro é queixume em
palavra,
onde o mítico vem carreado de
flores e hiatos
do fundo do seu anonimato, dum
constante híbrido,
apesar do sincero tempo real em
limbo, lâmina e pecíolo
na petrificação do basilisco...
entre em pessoa semente a
olhando,
não.
tumultue o ambiente, regado a
suco de flores,
e saia da frente do amontoado de
unhas do polvo-gestante
de colmo de fruta,
açafrão-de-outono e coleção de zumu de
um mundo impiedoso... e da pleura
vista por dentro
e pelo entorno, escarra-ouro;
não... ainda que se sin-
ta náusea, logo na curva, entre pérola e safira
reflita...
(Fragmento de Cocatriz, de Adriana Zapparoli)
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
POEMAS DE GOTTFRIED BENN (III)
TR
TREM RÁPIDO
Marrom de conhaque. Marrom de folhagem. Marrom avermelhado.
[Amarelo malaio.
Trem rápido Berlim-Trelleborg e
estâncias no mar Báltico.
Carne que ia nua:
Até a boca queimada do mar.
Maduramente mergulhada. Para a felicidade grega.
Em saudade-crescente: quão longe está o
verão!
Já é o penúltimo dia do nono mês!
Restolho e última amêndoa são nossos
desejos.
Ostentações, o sangue, as fadigas.
A proximidade das dálias entorpece.
Marrom-de-homem atira-se em
marrom-de-mulher:
Uma mulher é algo para a noite.
E se foi bom, ainda para a próxima!
Ah! e então de novo aquele
estar-consigo-próprio!
Esses mutismos! Esse ser-levado!
Uma mulher é algo com cheiro.
Indizível! Agonize! Resedá.
Para lá é Sul, pastor e mar.
Em cada declive se encosta uma sorte.
Marrom-claro-de-mulher cambaleia em
marrom-escuro-de-homem:
Pare-me! ei, estou caindo!
Sinto a nuca tão cansada.
Ah, este febril doce
último cheiro dos jardins.
Tradução: Claudia Cavalcanti
POEMAS DE GOTTFRIED BENN (II)
|
HOMEM E MULHER
PASSEIAM NO PAVILHÃO DO CÂNCER
O homem:
Nesta fila aqui estão ventres apodrecidos e nesta está o peito apodrecido. Lado a lado camas malcheirosas. As enfermeiras revezam-se a cada hora. Vem, levanta sem medo esta coberta. Vê, esse monte de gordura e sumos putrefatos para um homem um dia já foi tudo, também foi êxtase, lar. Vem, olha esta cicatriz no peito. Sentes o rosário de pontos moles? Toca, sem medo. A carne é mole e não dói. Esta aqui sangra como se de trinta corpos. Ninguém tem tanto sangue. Desta aqui ainda tiraram um filho do ventre canceroso. Deixa-se que durmam. Dia e noite. - Aos novos diz-se: aqui o sono cura. - Só aos domingos para as visitas podem estar mais despertos. Já se come pouco. As costas são feridas. Vês as moscas. Às vezes a enfermeira lava. Como se lavam bancos. Aqui o solo já incha em torno de cada leito. Carne nivela-se à terra. Brasa vai-se embora. Sumo começa a correr. Terra chama. |
terça-feira, 30 de outubro de 2012
POEMAS DE GOTTFRIED BENN (I)
FLORZINHA
Um afogado carregador de cervejas foi fincado sobre a mesa.
Alguém havia entalado uma sécia de lilás claro-escuro
entre seus dentes.
Quando recortei fundo
desde o peito
língua e palatino
com uma longa faca,
devo tê-la empurrado, pois escorregou
para o cérebro, que estava ao lado.
Enfiei-a na cavidade torácica
entre os fios
que o costuravam.
Embeba-se no seu vaso!
descanse em paz,
florzinha!
Tradução: Claudia Cavalcanti
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