domingo, 4 de novembro de 2012

GALERIA: ADRIANA ZAPPAROLI



Adriana Zapparoli é poeta e doutora em Farmacologia pela Universidade de Campinas (Unicamp). Publicou, entre outros títulos, as plaquetes de poesia A Flor da Abissínia (2007), Cocatriz (2008), Flor de lírio e Lontra corola libido (2012) e o livro de poemas O leão de Nemeia (2010). Colaborou em revistas literárias impressas e eletrônicas como Zunái, Germina, Eutomia, Cronópios, A Cigarra e Et Cetera. Participou do evento literário Tordesilhas, Festival Ibero-Americano de Poesia Contemporânea (2007), e integra a Antologia de poesia brasileira do início do terceiro milénio (2008), publicada em Portugal, e Todo começo é involuntário: a poesia brasileira no início do século XXI (2010), ambas organizadas por Claudio Daniel. Sua poesia se caracteriza pela presença de elementos mitológicos de diversas culturas, mesclados a referências da flora e da fauna e à temática erótica, trabalhados numa linguagem densa, que dissolve as fronteiras entre a prosa e a poesia. O vocabulário é rico em palavras extraídas da biologia, do sânscrito, da fala coloquial, exploradas em sua dimensão sonora e imagética, sem hierarquia de valores entre a norma culta e popular. O trabalho de Adriana Zapparoli é um dos mais inventivos realizados hoje no Brasil. A página da autora na Internet é http://zeniteblog.zip.net.

POEMAS DE ADRIANA ZAPPAROLI



  : BEATRIZ AIRADA


I

viagem ao congo no rosto de quem ---

há 7 molares.
há 7 escaras.
há 7 haras e cavalos-marinhos.
há 7 picadas de toxina botulínica

e uma melancolia que se arrasta
entre a congada...

que, muitas vezes, nem descreve
nada além do que passa
em conflito,

além da malhada, poesia, além dessa mutilada lírica;
dentro de órgãos complexos
--  olhos, ouvidos,
mãos e cérebros –


II
penumbra, que intersilencia
o estreito, em cama profunda.

no peito, esse medo, a pleura e um osso.
ser balanço, cabeça
e pescoço.

o esteio do pescoço... um toc.
o pânico perseguitório:
- até quando?


III
varizes em taças
dê sorvetes.

fachadas estreitas, de um mundo em conta-gotas,
de orvalho, florais e floreiras.

as olheiras do alho
desconectam esse dharma.

o convívio com o pensamento alheio:
rótula, mágoa e mandala.

a tacha em pássaro revolto:
- sua membrana celular...

IV

doenças e cabeça,
entre meadas, em casta de leite.

a cidra, pela manhã, bem cedo,
sussurra um sono ineficiente.

a mesma cisma, o aviso,
quase um apelo: - tente


V.
se o copo de vinho tinto:
energético em aversão

inibidores de recaptação
são serotoninérgicos.

os efeitos do insucesso,
o abuso, da opção: o risco.

VI

sibutramina, constipação, taquicardia
o aumento da pressão arterial.

na cortina de voal, um duplo-cego,
multicêntrico, um eco

redigindo os pensamentos temporários.

VII
medicamentoso:
o surto randomizado
cefaléia, o susto.

na esteatorréia das vozes
abrindo o ovo
de páscoa.

IX
ocupam-se dos neurônios
a noite, a boca seca
e o furo na parede.

ocultos, os vômitos
habitam a tinta,
a textura laranja,
a janela.

X
insônia, a influência estranha
da anfepramona em verso.

obteve êxito,
as paisagens em colchas,
o desenho do nariz

as entranhas de beatriz-
a louca airada,

num copo de suco.



COCATRIZ

enquanto, isto do outono por todo, lado-outro,

passiflórea, a menina  fazia a pergunta sobre a história, escrita em platibanda. ela trazia o terror em cócoras,

perseguido por orbiculares de Spathodea (campanulata) do rosto-balaustre

de lugares,  bem distantes ou por lá, isto do outono do lado-outro, onde a mente em cascata, é decoro é queixume em

palavra,
onde o mítico vem carreado de flores e hiatos

do fundo do seu anonimato, dum constante híbrido,
apesar do sincero tempo real em limbo, lâmina e pecíolo


na petrificação do basilisco...
entre em pessoa semente a olhando,


não.
tumultue o ambiente, regado a suco de flores,

e saia da frente do amontoado de unhas do polvo-gestante
de colmo de fruta, açafrão-de-outono e coleção de zumu de

um mundo impiedoso... e da pleura vista por dentro
e pelo entorno, escarra-ouro; não... ainda que se sin-

ta náusea,  logo na curva,  entre pérola e safira


reflita...

(Fragmento de Cocatriz, de Adriana Zapparoli)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

GALERIA: GOTTFRIED BENN (III)


POEMAS DE GOTTFRIED BENN (III)


 TR
TREM RÁPIDO

Marrom de conhaque.  Marrom de folhagem.  Marrom avermelhado.
                                                                      [Amarelo malaio.
Trem rápido Berlim-Trelleborg e estâncias no mar Báltico.

Carne que ia nua:
Até a boca queimada do mar.
Maduramente mergulhada.  Para a felicidade grega.
Em saudade-crescente: quão longe está o verão!
Já é o penúltimo dia do nono mês!

Restolho e última amêndoa são nossos desejos.
Ostentações, o sangue, as fadigas.
A proximidade das dálias entorpece.

Marrom-de-homem atira-se em marrom-de-mulher:

Uma mulher é algo para a noite.
E se foi bom, ainda para a próxima!
Ah! e então de novo aquele estar-consigo-próprio!
Esses mutismos! Esse ser-levado!
Uma mulher é algo com cheiro.
Indizível! Agonize! Resedá.
Para lá é Sul, pastor e mar.
Em cada declive se encosta uma sorte.

Marrom-claro-de-mulher cambaleia em marrom-escuro-de-homem:

Pare-me! ei, estou caindo!
Sinto a nuca tão cansada.
Ah, este febril doce
último cheiro dos jardins. 

Tradução: Claudia Cavalcanti

GALERIA: GOTTFRIED BENN (II)


POEMAS DE GOTTFRIED BENN (II)


HOMEM E MULHER PASSEIAM NO PAVILHÃO DO CÂNCER

O homem:
Nesta fila aqui estão ventres apodrecidos
e nesta está o peito apodrecido.
Lado a lado camas malcheirosas. As enfermeiras revezam-se a cada hora.

Vem, levanta sem medo esta coberta.
Vê, esse monte de gordura e sumos putrefatos
para um homem um dia já foi tudo,
também foi êxtase, lar.

Vem, olha esta cicatriz no peito.
Sentes o rosário de pontos moles?
Toca, sem medo. A carne é mole e não dói.

Esta aqui sangra como se de trinta corpos.
Ninguém tem tanto sangue.
Desta aqui ainda tiraram
um filho do ventre canceroso.

Deixa-se que durmam. Dia e noite. - Aos novos
diz-se: aqui o sono cura. - Só aos domingos
para as visitas podem estar mais despertos.

Já se come pouco. As costas
são feridas. Vês as moscas. Às vezes
a enfermeira lava. Como se lavam bancos.

Aqui o solo já incha em torno de cada leito.
Carne nivela-se à terra. Brasa vai-se embora.
Sumo começa a correr. Terra chama.

Tradução: Claudia Cavalcanti



terça-feira, 30 de outubro de 2012

GALERIA: GOTTFRIED BENN (I)


POEMAS DE GOTTFRIED BENN (I)



 FLORZINHA

Um afogado carregador de cervejas foi fincado sobre a mesa.
Alguém havia entalado uma sécia de lilás claro-escuro
entre seus dentes.
Quando recortei fundo
desde o peito
língua e palatino
com uma longa faca,
devo tê-la empurrado, pois escorregou
para o cérebro, que estava ao lado.
Enfiei-a na cavidade torácica
entre os fios
que o costuravam.
Embeba-se no seu vaso!
descanse em paz,
florzinha!

 Tradução: Claudia Cavalcanti

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

QUEM PENSA, VOTA HADDAD!


O último ato da campanha de Fernando Haddad aconteceu ontem à noite na Casa de Portugal, reunindo cerca de 500 pessoas, entre estudantes, professores, artistas e intelectuais. Estavam presentes Fernando Moraes, Emir Sader, Olgária Mattos, Alceu Valença, Chico César, Sérgio Mamberti e outras personalidades da cultura brasileira, além de partidos como o PT, o PSB, o PC do B, centrais sindicais, Apeoesp e entidades estudantis.

Um abaixo-assinado em apoio a Haddad contou com os nomes de Marilena Chauí, Antonio Candido, Roberto Schwartz, Alfredo Bosi, Tata Amaral e outros nomes destacados da literatura, do pensamento e das artes.

Claro que a revista ZUNÁI estava presente, e teve o seu nome citado pelo mestre de cerimônias do evento. Rubens Jardim e Paulo Farah, da Bibliaspa / Comitê pelo Estado da Palestina Já, também estavam presentes.

É significativo que o último evento da campanha de Haddad tenha sido um encontro com intelectuais, artistas e professores. A educação e a cultura serão prioridades no governo Haddad, que terá o apoio de Dilma para fazer parcerias em benefício da cidade, seja para a construção de novas creches e escolas, seja para a reforma e ampliação de equipamentos culturais e implantação de programas de qualificação profissional para os professores, entre muitas outras coisas.

Mais importante: o diálogo dos produtores intelectuais com Haddad e o futuro secretário da cultura será muito mais fácil e proveitoso do que com o Coisa Ruim e seus diabos, diabinhos e diabretes. Aliás, um dos slogans entoados no evento foi esse: "Xô, Satanás, xô, Satanás!".

NO DIA 28, VAMOS LIBERTAR SÃO PAULO DO TUCANOFASCISMO! PSDB NUNCA MAIS!




quinta-feira, 25 de outubro de 2012

CANTIGA



 Penso em você eroticamente.
Até a fabulação
de outra margem,
na estranha habitação onde os números,
pares e ímpares, enlouquecem.

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Um minúsculo leão branco habita a sua fenda.


***

A ferocidade
no limiar da noite,
quando a pele —
desmedida, irremissível,
se projeta em outra pele:
nenhum destino além do nervo tumultuário.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

EVENTOS DA CURADORIA DE LITERATURA E POESIA DO CENTRO CUL.TURAL SÃO PAULO EM NOVEMBRO


 
A Poesia Rebelde de Maiakovski 

Debate entre Zoia Prestes e Adalberto Monteiro sobre o poema Lênin, de Maiakovski, publicado pela primeira vez em livro no Brasil pela Editora Anita Garibaldi.  

Quarta-feira, dia 21/11/12, das 19h30 às 21h 

Sala de Debates


Poetas de Cabeceira: Jorge Luis Borges

Julian Fuks fará uma palestra sobre o poeta e ficcionista argentino Jorge Luis Borges, comentando a biografia do autor, sua época, características estéticas e, sobretudo, a sua experiência pessoal como leitor da poesia de Borges, um dos autores mais importantes da língua espanhola do século XX.  

Sexta-feira, dia 23/11/12, das 19h30 às 21h 

Sala de Debates


Poesia dos 4 Cantos: Noite Argentina 

Poesia dos Quatro Cantos é uma atividade mensal dedicada à divulgação da poesia internacional, num formato que inclui a leitura com danças e músicas típicas de cada país, nos intervalos das leituras. Em novembro, será feita a apresentação de uma noite argentina com a poeta Francesca Cricelli, com a participação Carolina Morgado Leão, Fábio Henrique Menezes Evangelista e Edmar Pereira Costa Filho (músicos), André Luis Magro e Andressa de Souza Moraes (dançarinos).

Quinta-feira, dia 28/11/12, das 20h30 às 22h 

Praça Mário Chamie (Bibliotecas)


Poemas à Flor da Pele

Sarau poético realizado pelo grupo Poemas à Flor da Pele, com a participação de músicos e atores. Haverá também o lançamento de livros de poesia de novos autores.

Sexta-feira, dia 30/11/12, das 20h30 às 22h 

Praça das Bibliotecas

GALERIA: BERTOLT BRECHT (VIII)


UM POEMA DE BERTOLT BRECHT


ALGUMAS PERGUNTAS A UM HOMEM BOM

Bom. Para quê?
Você não é corrupto,
Mas o raio que destrói a casa
Também não é corrupto.

Você diz: jamais se desdiz.
Mas o que você diz?
Você é de boa fé
Declara a sua opinião
Mas qual opinião?

Você tem coragem
Contra quem?
Você é um artista
Repleto de sabedoria
Pleno de talento
Para quem?

Você não visa o próprio interesse
O interesse de quem, então?
Você é um bom amigo,
De boa gente?

Então, escuta:
Nós sabemos que você é o nosso inimigo.
Por isso vamos te encostar no paredão.
Mas, em consideração aos seus méritos
E às suas boas qualidades,
Num bom paredão.
E te fuzilar com boas balas
Disparadas por bons fuzis
E te enterrar
Com boa pá
Em terra boa.

Tradução: Maria Alice Vergueiro / Catherine Hirsch

domingo, 21 de outubro de 2012

GALERIA: BERTOLT BRECHT (VII)


REFLEXÕES BRECHTIANAS (VII)


Testemunha dos trágicos acontecimentos da era nacional-socialista, Brecht relata em seus poemas, como se fossem pequenas crônicas ou notas de um historiador, eventos como a queima pública de livros de autores incômodos ao regime, os métodos de intimidação das tropas de assalto, a resistência dos operários alemães nas fábricas, a experiência do exílio de poetas e intelectuais e ainda os conflitos psicológicos de uma nação dominada pelo medo. A crônica política de Brecht, porém, não se resume à narrativa de fatos históricos, aos moldes de um jornalismo poético, orientado pelo espírito militante e pela leitura do materialismo histórico e dialético do pensamento marxista. O poeta, consciente do valor estético do artesanato linguístico e do caráter atemporal da tragédia humana, incorpora em poemas políticos elementos da fábula, da parábola, da alegoria, mistura diferentes referências históricas e repertórios culturais, numa miscigenação universalista, quase barroca. No poema Canção de Salomão, de linguagem coloquial e humor provocativo,os protagonistas são o personagem bíblico que dá título ao poema, a rainha egípcia Cleópatra, Júlio César e o próprio poeta alemão, condenados pelo desejo excessivo de poder, de prazer e de saber:

O indiscreto Brecht quis saber
Escutem suas canções
Como os ricos têm poder
De acumular tantos milhões
Pobre no exílio foi parar
Brecht xereta
Bisbilhoteiro
E com o tempo a correr
Enfim o mundo percebeu
Fuçar demais foi a sua perdição
Melhor viver na discrição...

(Fragmento traduzido por Luiz Roberto Galizia)

O tema do exílio é recorrente no autor, que viveu longe da Alemanha entre 1933 e 1949, quando fixa-se na República Democrática Alemã. No poema A emigração dos poetas, Brecht faz um interessante paralelo entre a sua experiência de fugitivo e a de outros poetas que admirava, usando novamente o procedimento de recorte e montagem de elementos de diferentes épocas, culturas e países:

Homero não tinha morada
E Dante teve que deixar a sua.
Li-Po e Tu-Fu andaram por guerras civis
Que tragaram 30 milhões de pessoas
Eurípedes foi ameaçado com processos
E shakespeare, moribundo, foi impedido de falar.
Não apenas a Musa, também a polícia
Visitou François Villon.
Conhecido como “o Amado”
Lucrécio foi para o exílio
Também Heine, e assim também
Brecht, que buscou refúgio
Sob o teto de palha dinamarquês.

Tradução: Paulo César de Souza

Neste poema, encontramos autores já citados no presente ensaio como precursores da poética brechtiana, entre eles Villon, Heine e os chineses Li-Po e Tu-Fu. A presença chinesa é evidente não apenas nas peças mais breves e concisas traduzidas e comentadas por Haroldo de Campos, em que se destacam a justaposição de imagens e estrofes à maneira do ideograma, mas ainda nas traduções criativas que o autor de  A boa alma de Se-Tzuan realizou de versos clássicos de Po Chu-yi,  Ts’ao Sung e de autores anônimos do cânone tradicional do Império do Meio, não raro escolhendo os poemas por seu viés crítico e temática atemporal. Neste sentido, as traduções de Brecht podem ser comparadas às personae de Ezra Pound, que também vestia a máscara dramática de autores da Antiguidade, da Idade Média ou do Renascimento para manifestar o seu desconforto com o desconcerto do mundo. Assim, por exemplo, nesta breve peça recriada pelo autor alemão:

UM PROTESTO NO SEXTO ANO DE CHIEN FU

Os rios e morros da planície
Transformais em vosso campo de batalha.
Como, pensais, o povo que aqui vive
Poderá se abastecer de “madeira e feno”?
Poupai-me por favor vosso palavreado
De nomeações e títulos.
A reputação de um único general
Significa: dez mil cadáveres

Ts’ao Sung (870-920)  

Tradução: Paulo César de Souza

Reler Brecht é uma experiência rica e de extrema atualidade, que nos faz pensar sobre os aspectos éticos e estéticos da criação literária e, não menos importante, sobre a escolha que o artista tem a liberdade de fazer entre a cooptação pela cultura de mercado e o compromisso com a construção de uma nova realidade.


BIBLIOGRAFIA:

BRECHT, Bertolt. A Santa Joana dos matadouros. Tradução: Roberto Schwartz. São Paulo: Cosacnaif, 2009.

BRECHT, Bertolt. Poemas 1913-1956. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: editora 34, 2001.

CAMPOS, Haroldo de. O arco-íris branco. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

CARPEAUX, Otto Maria. A literatura alemã. São Paulo: Nova Alexandria, 1994.

FAUSTINO, Mário. Artesanatos de poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

JAMESON, Frederic. Método Brecht São Paulo: Vozes, 1999.

PEIXOTO, Fernando. Brecht vida e obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974. 2ª. edição.

ROSENFELD, Anatol. O teatro épico. SP: Editora Perspectiva, 1985.

domingo, 14 de outubro de 2012

GALERIA: BERTOLT BRECHT (VI)


REFLEXÕES BRECHTIANAS (VI)

Notável, nesta reunião de poemas de Brecht, a fusão entre o eu lírico, o eu social e o rigoroso artesanato de linguagem, que se manifesta em versos de alta precisão e objetividade, como na conhecida peça  

Lista de Preferências de Orge

Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.

Casos, os inconcebíveis;
Conselhos, os inexequíveis.

Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.

Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.

Domicílios, os temporários.
Adeuses, os bem sumários.

Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.

Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.

Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.

Cores, o rubro.
Meses, outubro

Elementos, os Fogos
Divindades, o Logos.


Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.

Tradução: Paulo César de Souza

O poema, construído na forma de dísticos rimados, recorda o estilo coloquial-satírico do poeta francês Jules Laforgue (que aliás viveu na Alemanha, onde foi leitor da imperatriz), em especial o da série de litanias da lua, como na peça que apresentamos a seguir:

Litanias dos Quartos
Crescentes da Lua

Lua sublime,
Nos ilumine!

É o medalhão
De Endimião,

Astro de argila
Que tudo exila,

Caixão milenar
De Salambô lunar,

Cais etéreo
Do alto mistério,

Madona e miss,
Diana-Artemis,

Santa vigia
De nossa orgia,

Jetaturá
Do bacará,

Dama tão pálida
Em nossa praça,

Vago perfume
De vaga-lume,

Rosácea calma
Do último salmo,

Olho-de-gata
Que nos resgata,

Seja o auxílio
A nosso delírio!

Seja o edredão
Do Grande Perdão!

Tradução: Claudio Daniel

A intertextualidade é um recurso frequente em Brecht – como vimos em seus diálogos com Villon e Laforgue – e assinalam, mais do que a exibição narcísica da referência erudita, uma tomada de posição, uma filiação poética, junto à estirpe dos poetas malditos, sarcásticos, questionadores das normas vigentes na poesia e na sociedade. O diálogo com Laforgue nos parece bastante natural, sobretudo se recordarmos o comentário feito por Mário Faustino sobre o poeta francês: "Jules Laforgue (1860-87): mais um jovem de gênio (Rimbaud, Corbière...) a explodir na língua francesa para desmoralização de uma rotina ética e estética e para preparar o terreno de um novo mundo (ainda hoje por vir). O processo que deu origem a Laforgue: decadência do mundo capitalista, miséria existencial do homem do fin-de-siècle, falácias e panaceias burguesas (Amor etc.) e a linhagem Heine-Baudelaire-Rimbaud-Corbière" (FAUSTINO, 2004: 184). Curioso observar que nesta breve nota crítica -- mas concentrada e densa, como toda a obra crítica de Faustino -- o autor faz um paralelo entre o francês Laforgue e o alemão Heinrich Heine, seu possível precursor na objetividade, precisão e ironia. Os dois poetas -- assim como Brecht -- limparam a linguagem poética de adornos e ornamentos decadentistas, colocando em primeiro plano os substantivos, as coisas.  Heine é, sem dúvida, um dos precursores de Brecht na língua alemã, inclusive no campo político, se pensarmos em poemas como Os tecelões da Silésia, de 1844, e de seu posicionamento político, de claro perfil socialista, embora sem estar filiado a nenhum dos partidos operários de sua época.

Na poesia política de Brecht, herdeira da lírica inconformista de Heine, predominam quatro temas: o da natureza predatória do capitalismo -- especialmente da especulação financeira --, o elogio da revolução socialista, a denúncia do nazismo e o testemunho dos horrores da II Guerra Mundial. Brecht abandonou a Alemanha logo após ascensão de Hitler, em 1933, e viveu no exílio em diversos países europeus até 1941, partindo depois para os Estados Unidos, onde vive até 1947. Sua produção ao longo dos anos 1930-1940 é fortemente marcada pelos acontecimentos internacionais, assim como ocorreu na obra de Carlos Drummond de Andrade, sobretudo no livro Rosa do Povo, com.o qual também poderíamos traçar um curioso paralelo:

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

(Versos iniciais de O medo, de Carlos Drummond de Andrade)

e:

Um estrangeiro, voltando de uma viagem ao Terceiro Reich
Ao ser perguntado quem realmente governava lá, respondeu:
O medo.

(Versos iniciais do poema Os medos do regime)

Tradução: Paulo César de Souza

A poesia de Brecht, como a de Drummond, nesse período, é uma poesia de resistência e combate, em que o eu lírico não se oculta, mas está presente em sua angústia, em suas dúvidas, em sua fragmentação (que é também a fragmentação do mundo), e ainda no júbilo epifânico que traduz a esperança utópica, em flashes como este:


ORGULHO

Quando o soldado americano me contou
Que as alemãs filhas de burgueses
Vendiam-se por tabaco, e as filhas de pequeno-burgueses por chocolate
As esfomeadas trabalhadoras escravas russas, porém, não se vendiam
Senti orgulho. 


quarta-feira, 10 de outubro de 2012