sexta-feira, 31 de agosto de 2012

IMAGENS DO JAPÃO NA POESIA MODERNISTA BRASILEIRA



Caros, confiram meu artigo Imagens do Japão na Poesia Modernista Brasileira na nova edição da revista Eutomia, na página http://www.revistaeutomia.com.br/v2/wp-content/uploads/2012/08/Imagens-do-Jap%C3%A3o-na-poesia-modernista-brasileira_p.59-73.pdf

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

GALERIA: RACHEL CORRIE


EM MEMÓRIA DE RACHEL CORRIE: ESTADO DA PALESTINA JÁ


O Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz  –  Cebrapaz –  vem a público repudiar mais uma injustiça perpetrata pelo Estado sionista de Israel.

No último dia 28 de agosto, o Tribunal israelense de Haifa, julgou como inocente o Estado de Israel sobre a morte da ativista Rachel Corrie, morta em 2003, aos 23 anos, quando se colocou diante de uma escavadeira do exercito israelense, tentando impedir o derrubamento de casas palestinas em Gaza.

Para justificar o fato de que o piloto da escavadeira tenha passado três vezes por cima do corpo da ativista, o juiz de Haifa argumentou que o incidente foi ocasionado em um contexto que denominou de uma "situação em tempo de guerra." Buscando cinicamente culpar à própria ativista por sua morte.

Na morte da ativista Rachel Corrie, não é um caso isolado. Situações como a sua se repetem ao cotidiano nos territórios ocupados por Israel. Trata-se de mais um crime dos que lutam em defesa da legitima causa palestina.

O gesto heróico da jovem Rachel Corrie chama a atenção da situação em que vivem os palestinos e dos inúmeros crimes dos quais são vitimas. Expressamos nossa solidariedade a seus familiares e afirmamos que a melhor forma de lembrar sua existência é fortalecendo a luta pelo fim das ocupações e pela constituição do Estado da Palestina Já.

Neste sentido reafirmamos nosso compromisso de construir o Fórum Social Mundial Palestina Livre, momento histórico da solidariedade à causa palestina, que será realizado entre os dias 28 a 30 de novembro da cidade de Porto Alegre, Brasil.

Em memória a Rachel Corrie, seguiremos em luta.

Em defesa do Estado da Palestina Já.

Socorro Gomes

terça-feira, 28 de agosto de 2012


UM DIA INFAME



O tribunal israelense de Haifa determinou hoje que a morte da ativista norte-americana Rachel Corrie em 2003 foi "acidental". Corrie, de 23 anos, morreu atropelada por uma escavadeira do exército de Israel enquanto tentava impedir a destruição de casas de civis palestinos no campo de Rafah, na Faixa de Gaza. A escavadeira passou três vezes em cima de seu corpo. No veredito, o juiz do caso afirmou que a morte de Corrie foi um “acidente lamentável”, e eximiu o Estado de Israel de qualquer culpa no episódio. Os pais da americana, Craig e Cindy, abriram um processo criminal acusando o Estado de Israel de matar Corrie intencionalmente e, depois, de ter falhado em conduzir uma investigação confiável. Em 2003, um relatório do exército israelense também concluiu que a morte da ativista havia sido acidental. Este é mais um crime do regime sionista. Um dia, haverá outro tribunal em Nuremberg, para julgar os novos discípulos de Hitler.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

UM PROJETO DE INCENTIVO À LEITURA E À CRIAÇÃO LITERÁRIA



Jamil Murad, vereador do Partido Comunista do Brasil (PC do B), protocolou neste ano na Câmara Municipal de São Paulo um importante projeto de lei: o Programa Permanente de Incentivo à Leitura. Ao justificar seu projeto, o parlamentar comunista, que considera a literatura essencial para a formação da cultura de um país, defendeu que “ela colabora para o desenvolvimento das capacidades de imaginação, percepção, reflexão e criatividade; mantém vivos o idioma pátrio e os processos comunicativos e promove a formação crítica e histórica do cidadão”. Segundo o vereador, “a literatura de um país é patrimônio valioso de todos os cidadãos. Facilitar o acesso à produção literária é fortalecer um direito da comunidade e contribuir para o desenvolvimento da sociedade”. Num país como o Brasil, onde os índices de alfabetização e de leitura ainda são preocupantes, “é vital que os estados e municípios invistam em políticas públicas para a formação de leitores, incluindo todos os segmentos da cadeia produtiva da literatura e do livro – a saber, autores, editoras, livrarias, bibliotecas, escolas e outras instituições de educação e cultura”, enfatiza (o projeto pode ser lido na íntegra na página http://www.jamilmurad.com.br/site/component/content/article/1-noticias/621-projeto-incentivo-leitura.html). Em apoio à iniciativa do vereador, poetas e escritores se reuniram com o parlamentar em seu gabinete e divulgaram uma petição on line que já soma 125 assinaturas (http://www.peticaopublica.com.br/?pi=PCDOB12). Um dos signatários, Júlio Leocadio Tavares das Chagas, que é diretor de cultura da prefeitura municipal de Diadema, registrou o seguinte comentário: "Estamos desenvolvendo junto com o Sindicato dos Metalúrgicos e o Ministério da Cultura o programa Leitura nas Fábricas, já implantado em mais de 20 fábricas em Diadema, São Bernardo, Ribeirão Pires e Salvador (Bahia). Estamos totalmente de acordo com a proposta apresentada pelo vereador". No Facebook, foi criado um grupo aberto de apoio ao projeto, chamado Movimento Literatura para Todos, com 305 membros, e está sendo organizada uma caravana de escritores para acompanhar a votação do projeto, prevista para acontecer até o final do ano.

sábado, 25 de agosto de 2012

MENSAGEM DO ARMANDO


"Excêntrico. Vicinal. Ímpar. Singular. Ao acabar de ler Cores para cegos, essas quatro palavras vieram instantâneas. Excêntrico porque como todo poeta de verdade você criou a sua língua, desentranhada da linguagem de todo dia. Vicinal porque ao fazer isso inventou um caminho alternativo de grande rendimento, o chamado "caminho das pedras", que faz com que alcance o pretendido mais depressa. Ímpar porque ao se articular assim ganha forte marca autoral. Singular porque com a identidade formada não teme perder-se no caminho novo em folha."

(Mensagem que recebi ontem do poeta Armando Freitas Filho, sobre meu livro Cores para cegos, publicado há pouco pela Lumme Editor.)

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

PROGRAMAÇÃO DE SETEMBRO DA CURADORIA DE LITERATURA E POESIA DO CENTRO CULTURAL SÃO PAULO




Praça Mário Chamie (Bibliotecas) – Menu de Poesia
Sexta-feira, dia 14/09/12, das 20h30 às 22h 
Recital dedicado à obra do poeta brasileiro Haroldo de Campos, um dos iniciadores do movimento da Poesia Concreta, com organização de Maria Alice Vasconcelos e a participação dos poetas Frederico Barbosa (palestrante), Claudio Daniel, Susanna Busato, Beatriz Helena Ramos Amaral, Lelia Maria Romero, Neuza Pommer, Márcia Etelli Coelho, Ethel Naomi, Charles Gentil e dos músicos: Katia Rua, Francisco Benedetti e Joel Costa Mar.

Sala de Debates – Clube de Leitura de Poesia
Quarta-feira, dia 19/09/12, das 19h30 às 21h 
O poeta e dramaturgo Contador Borges conversará com o público sobre a sua carreira literária e fará uma leitura de seus poemas. Em seguida, o público será convidado a fazer perguntas ao poeta, num bate-papo informal.

Praça Mário Chamie (Bibliotecas) – Poemas à Flor da Pele
Sexta-feira, dia 21/09/12, das 20h30 às 22h 
Sarau poético realizado pelo grupo Poemas à Flor da Pele, com a participação de músicos e atores. Haverá também o lançamento de livros de poesia de novos autores.

Paradas em Movimento: Videopoéticas
Mostra de poesia visual, digital e videopoesia, com a curadoria de Elson Fróes, que tem como proposta apresentar trabalhos de poetas brasileiros contemporâneos que exploram as novas linguagens eletrônicas, que permitem a integração entre som, imagem, palavra e movimento. A mostra reúne trabalhos de Arnaldo Antunes, Lenora de Barros, André Vallias, Eduardo Kac, Marcelo Sahea, Gabriela Marcondes, Márcio-André, entre outros poetas.A exposição acontece em telas de plasma distribuídas no espaço das bibliotecas e salas expositivas do CCSP.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

I SEMINÁRIO DE AÇÃO POÉTICA




 O I Seminário de Ação Poética, realizado entre os dias 14 e 17 de agosto, organizado pelo Centro Cultural São Paulo e pela Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, recebeu um público total de 1.350 pessoas, que assistiram aos debates, recitais, shows e performances do evento, transmitido pela TV Web do CCSP em tempo real. Todas as atividades foram gratuitas. Participaram do seminário 50 poetas, professores, jornalistas e críticos literários de vários estados do país, como a carioca Claudia Roquette-Pinto, o mineiro Ricardo Aleixo, os pernambucanos Pedro Américo e Micheliny Verunschk, os paranaenses Ricardo Corona e Rodrigo Garcia Lopes, o gaúcho (radicado na Paraíba) Lau Siqueira e o paulista Claudio Willer. Durante o Seminário, aconteceu uma feira de livros de poesia na Casa das Rosas, com lançamentos de livros e revistas (Coyote e Mallarmargens) e da plaquete Desvio ao vermelho: treze poetas brasileiros contemporâneos, organizada por Marceli Andresa Becker, publicada pela coleção Poesia Viva, editada pelo Centro Cultural São Paulo. O evento contou ainda com shows musicais de Péricles Cavalcante e Rodrigo Garcia Lopes e com uma mostra de videopoesia, com curadoria de Elson Fróes, chamada Videopoéticas, ainda aberta à visitação no CCSP, que inclui trabalhos de poesia eletrônica criados por Arnaldo Antunes, André Vallias, Marcelo Sahea, Lenora de Barros, Márcio-André, entre outros autores. Os debates que aconteceram durante o seminário abordaram as relações entre a poesia e as instituições culturais, as editoras, a universidade e a mídia, além de debates abertos com poetas de diferentes gerações e estilos, como subsídios para a elaboração de um documento em defesa da poesia.

COLEÇÃO POESIA VIVA


Poesia Viva é uma coleção de plaquetes de poesia brasileira contemporânea organizada pela Curadoria de Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo, com o objetivo de divulgar autores de qualidade e representativos de nossa literatura contemporânea, de diversas gerações, tendências e estilos, novos ou consagrados. O conselho editorial da coleção é formado por autores respeitados em nossa crítica literária: Heloísa Buarque de Hollanda, Luiz Costa Lima, Leda Tenório da Mota, Maria Esther Maciel e Antônio Vicente Seraphim Pietroforte. Cada título da coleção Poesia Viva tem tiragem de mil exemplares e a distribuição é gratuita. As plaquetes podem ser retiradas pelo público na recepção da biblioteca, na central de informações e também na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. 

As plaquetes da coleção Poesia Viva também estão disponíveis no site do Centro Cultural São Paulo, na página http://www.centrocultural.sp.gov.br/literatura_colecao_poesia_viva.asp

Títulos já publicados:

Quatro poemas brasileiros, de Horácio Costa

25 Poemas escolhidos pelo autor, Armando Freitas Filho

Matinê, de Marcelo Montenegro

Tempo instável na tarde dos anjos desolados, de Ademir Assunção

Quase duelo de quase amor, de Alice Ruiz e Estrela Leminski

O cinephilo ecletico, de Glauco Mattoso

Alta noite, de Donizete Galvão

Poemas escolhidos, de Rodrigo Garcia Lopes

Desvio para o vermelho, de Marceli Andresa Becker

 
Próximo título:

Lontra corola libido, de Adriana Zapparoli

segunda-feira, 20 de agosto de 2012


UM POEMA DE ADRIANA ZAPPAROLI



batesiano e seus reflexos lentos...
seus hábitos, suas manias,
seus disfarces, suas agonias,
seus alicerces, seu hálito de pinho:  - virulento!


[- não! você nem existia ...é um fruto da poesia ... ]

foi criado entre o mimetismo do rubro e do lírico.
da monotonia. de um comportamento mímico.
sua evolução convergente, seu dente-rústico, seu dedilhar anímico.
um mímico-acústico de autômato em sinais defensivos.
seus ais de mato cromado em estômatos,
em seus gestos agressivos e o estômago
cromado foram, de repente, iludidos ...no reflexo do recuo da presa.
sua vampiresa de aranha mimetizando formiga,
suas pernas longas e finas, suas quelíceras semelhantes as mandíbulas;
era o olho e o f errão pela cutícula... agora, ambiguamente, a libido.

e nisso, enquanto esmagava-lhe a língua,
o crânio, a indisciplina e toda essa lírica,
ainda,
a lontra sorria comigo.

GALERIA: DOMINIC ROUSSE


UM POEMA DE MARCELI ANDRESA BECKER


MEMENTO MORI - III


PRÓLOGO


pesar continuamente.

*

ipsis litteris,

o altíssimo corpo, que gira em torno de si mesmo,
que descobre o seu covil

de sombras.

*

teria visto as mãos do suicida iluminarem-se.
teria visto o eixo do motor.

*

o ponteiro marca nunca mais
no velocímetro.

*

há quem acredite que deus anotou o resultado do cálculo em rpm
nos grandes lábios da mulher.

gozar é uma forma secreta de dizê-lo.


CENA 1


uma boca soprava o seu vestido branco.

era uma boca, um cano
de escapamento?

não sei —

abriu-se no poema subterrâneo, no chão,
entre as pernas de marilyn.


CENA 2


eu no banco de trás,
papai no volante,

(saímos cedo de casa
naquela manhã).

*

na esquina uma puta sonhava em se casar de branco.
"por que não?" —

*

a ideia girou durante anos

em torno de si mesma, deste misterioso deus
que escorre do velocímetro,

que suja o ponteiro com seus
trinta e seis mililitros

de esperma.


CENA 3


marilyn morreu aos trinta e seis anos.

sei que dormia e que minutos antes
um poema abriu-se

no seu sonho.


talvez ninguém seja o bastante
para amar:
para dizer o nome dos eixos
que giram
por dentro do amor,
entre as pernas.
não, talvez nunca encontres a boca
que revelaria
o resultado do cálculo em
"eu te amo".
CENA 4

porque nada conta na hora
de negociar.
*
não pagaria mais pelo programa, infelizmente.
não concederia a imortalidade,
não entregaria as chaves

(do carro)
*
a esta mulher que sonha com a boca de um homem
dentro do seu nome,

dizendo-o,


                              "eu te amo",

enquanto sopra o esmalte
das unhas.


EPÍLOGO

há quem acredite que deus não anotou
o resultado do cálculo.

*
a altíssima ereção,
*
o ponteiro, o silêncio brutal que cresce na cueca
do suicida.

enfiar as mãos, tocá-lo.

*

as luminosas mãos de marilyn, da puta,
de marceli andresa becker.

*

marcar nunca mais.

domingo, 19 de agosto de 2012

CORES PARA CEGOS


Cores para cegos é um livro que reúne minha produção mais recente (os poemas longos Letra Negra, Flor Occipital, Dodecaedro, a prosa poética Gavita, Gavita e um poema breve, que dá título ao volume). Os interessados em adquirir o livro podem encomendá-lo junto à editora pelo e-mail vendas@lummeeditor.com

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

PESSOA NEFASTA


CALÚNIA


Quiseste ofuscar minha fama
E até jogar-me na lama
Só porque eu vivo a brilhar
Sim, mostraste ser invejoso
Viraste até mentiroso
Só para caluniar.

Deixa a calúnia de lado
Se de fato és poeta
Deixa a calúnia de lado
Que ela a mim não afeta

Se me ofendes,tu serás o ofendido
Pois quem com o ferro fere
Com ferro será ferido.


(Canção de Wilson Batista, gravada por Caetano Veloso no CD Totalmente Demais)

quinta-feira, 16 de agosto de 2012


POESIA: QUESTÃO DE FUTURO



Eduardo Milán

A poesia latino-americana de hoje se debate numa clara divisão: regressar de forma acrítica a um passado canônico ou continuar a busca de novos meios de expressão. Em termos gerais, o retorno a um passado canônico (ou seja, aos séculos dourados pela tradição: o XVI e o XVII) implica a fuga de um presente caótico e a tentativa de buscar refúgio naqueles momentos históricos, especialmente em sua aura, que auguravam uma tranquilidade espiritual dependente de um certo estado do mundo. A esse estado do mundo corresponderiam formas poéticas claramente tipificadas: o romance, a lira, o soneto etc., cuja emergência em um tempo preciso supunha o surgimento de uma nova maneira de poetar. Essa novidade, claro, supunha também uma carga crítica em relação ao repertório formal da época.

Bem: a novidade destas formas e sua carga crítica implícita estão agora perdidos para sempre. E como o grau de novidade está perdido, o que tais formas comportam é a possibilidade de retornar transparentes e veicular motivos e temas já altamente codificados na poesia ibero-americana: o amor, a morte, o tempo, temas que supõem uma caligrafia maiúscula. Na verdade, o retorno às formas canônicas do passado, dada a sua perda de atualidade, supõe uma a-formalidade. Uma a-formalidade que só é possível pelo estado atual do mundo: perda da fé na história como motor de mudanças, derrocada das utopias tanto estéticas como históricas, o cessar do devir temporal, motivos caros a uma ideologia dominante que tem seu fundamento no chamado “pensamento débil”, que por sua vez joga na oposição os chamados discursos legitimadores e totalizantes. A a-formalidade, produto por sua vez da intemporalidade que subscreve a presentificação de todos os tempos interagindo agora, último golpe da negação da História, está em conflito direto com a idéia de evolução das formas em arte, idéia muito cara à modernidade, que sustentou o pensamento estético das vanguardas históricas.

Se todas as formas em sua máxima abertura são possíveis é porque cessou o conceito de evolução formal, de não repetição, de mudança. De um ponto de vista teórico, o perigo que alimenta o diálogo atual entre estética e realidade é o retorno à idéia luckacsiana da arte como reflexo da realidade, que tem seu apoio original no conceito aristotélico de mímesis ou norma mediadora, norma que, no diálogo arte — mundo, sustenta uma clara subordinação do primeiro ao segundo. As variantes à norma ficariam assim abolidas e condenadas como degeneração da idéia de “o que está no ar” ou da idéia do “espírito da época”, rumos igualmente totalitários.

Por sua vez, a busca de novos meios de expressão tem, a meu modo de ver, duas possibilidades: o entroncamento com uma tradição libertária, que na lírica hispano-americana foi fundada por Darío e se cristaliza com as vanguardas (Huidobro, Vallejo, o primeiro Neruda, Girondo), ou então o resgate das margens deixadas pela vanguarda em sua tentativa de lançar as bases de um koiné, ou língua única: o detalhe, o matiz, a diferença, a variante dentro da variante, tudo o que, em último caso, não nega uma tradição libertária, senão que, pelo contrário, tende à sua correção, e, ao corrigi-la, amplificá-la. A primeira possibilidade conta com o apoio do repertório formal da vanguarda (fragmento, simultaneidade, colagem etc.). a segunda inclui um elemento muito em voga neste momento e relativamente novo na poesia do século: a narração. À primeira vista, a narração ocupa na poesia o lugar de flanco, da margem, frente ao repertório canônico da vanguarda, daí que a incursão no elemento narrativo na poesia latino-americana atual possa supor, em si mesma, uma alternativa. Porém, vejamos como o elemento narrativo pode ser ideologicamente usado no marco do cânone estético da assim chamada pós-modernidade, termo tentador para nomear os tempos que correm. A narração está ligada diretamente à idéia ou à necessidade de um vínculo com a tradição. E aqui começa o problema, o titubeio, a contradição. Com efeito, ligar-se a quê, a qual passado temos direito, de que tradição se trata?

Se bem que, creio eu, foi a perda da fé nos motivos fundadores da vanguarda que praticamente obrigou muitos poetas latino-americanos atuais a uma incursão narrativa, também é certo que a estética do fragmento, pedra-de-toque do repertório formal vanguardista, cessou de imperar estilisticamente não por falta de coincidência ou de isomorfismo com uma idéia de um mundo estilhaçado (o mundo contemporâneo), senão por um relativo esgotamento preceitual. Porém, este preceito ou cânone segue correspondendo formalmente a um estado do mundo, o qual, é preciso dizer, não mudou muito, além do campo ideológico. Isto parece corroborar a suspeita de que a derrocada das utopias alcançou também o território da arte com força inusitada.

O fragmento ou sua estética parecem haver correspondido a um grau zero cultural, a um pé no limite, depois do qual toda possibilidade de continuação suporia o abismo ou, em termos poéticos, o silêncio. Chegando a esse ponto, algo parece estar claro; o que existe atualmente como problema na poesia é o deslocamento entre uma forma idônea para oferecer o mundo, a fragmentária, e o deslizamento do recheio desta forma, o presente, rumo a outro tempo mais distante, mais seguro e mais canônico: o passado. E o que produziu esse deslocamento, a meu modo de ver, é a evaporação do correlato histórico da forma fragmentária, ou seja, as possibilidades de mudança social. Agora, claro, esse retorno, essa retirada ou esse desejo de unir-se com uma tradição, tudo o que implica voltar ao passado, supõe alguns perigos. Implica um começar de novo ou, ao menos, uma reescritura. Em A imagem histórica da Ilíada, Rudolf Borchardt adverte:

“Não há diferença entre o espírito de uma tradição destruída e o de uma conservada. Toda tradição está destruída. Os motivos decisivos estão sempre perdidos, inclusive quando aparentemente foram transmitidos.”

Esta afirmação de Borchardt povoa de cruzes nosso olhar ao passado e nos coloca, aparentemente, no descampado, na desolação. Como tentar uma dura tarefa de resgate se não se sabem nem sequer o que se vai resgatar? 
A política estética da pós-modernidade absorve essa consciência do passado. Partindo da base que os laços com o passado estão rompidos definitivamente, vai buscar ali os cumes eufóricos desse tempo, os momentos de maior prestígio — não os de maior temperatura estética — e, em um efeito de mímesis atemporal, “recupera” para o presente os momentos de opulência de um tempo que já nada tem a ver com o passado, nem com o presente que derive dele. Deste modo, se des-historiciza o passado e, em conseqüência, também o presente. Se instala assim um novo cânone que dá brilho ao passado em virtude da perda da aura do presente e de uma cega perda da fé no futuro, por considerar este tempo já perfeitamente conhecido em seus distintos graus de erro. O futuro, para esta posição tão precisamente ideológica, corresponde à já provada impossibilidade de uma verdadeira mudança no campo social e, ao mesmo tempo, ao silêncio da escritura. Porém, o que supõe em verdade esta recorrência ao passado prestigioso e seguro é uma abolição temporal e, por isso mesmo, uma estética da simultaneidade (todos os tempos e todas as formas estão aqui etc.). Ocorre algo mais grave ainda: se apaga assim, de um só golpe, o próprio conceito de tradição. A tradição deixa de ser um produto, um devir, um tecido, e a história perde seu efeito narrativo ao transformar-se em “estágios de tempo”, em cristalizações que já não se ligam entre si. Desta maneira o fragmento, desprendido de seu contexto estético, passa a ser a forma da história. Finalmente, aqui aparece a função da narração: ela se torna o recurso para encadear um tempo que não cessa de voltar para si mesmo. o relato, a arte de narrar, passa a adquirir o sentido da história que, por sua vez, se esvazia de significado. A narração poética corre, por último, o risco de ser a forma legitimadora de um discurso histórico vazio.       

Ante esse panorama entrópico que resulta da emergência de todas as formas por considerá-las possíveis neste momento histórico e a utilização ideológica da narração como substituto simulado da história, cabe fazer, pelo menos, uma pergunta: sob que ótica ou sob que padrão crítico pode julgar-se, hoje em dia, um poema? A emergência de todas as formas interagindo, aliada a uma negação do tempo e da história, supõe, à primeira vista, uma forma de inocência que, por sua vez, comporta um tipo de olhar inédito em relação à origem. Porém, uma das características do poeta moderno, isto já se disse mil vezes, é sua situação paradoxal frente à modernidade: ao mesmo tempo que é um agudo crítico da modernidade, recupera para si seu legado mais válido, que é, justamente, a crítica, tanto de sua linguagem como do mundo. É isto que, em última instância, está em jogo agora: o esquecimento ou a permanência da função crítica do poeta. A meu modo de ver, frente ao impasse atual por que atravessa a poesia latino-americana, o poeta deve ser mais lúcido do que nunca. A batalha contra o novo — como gostava de dizer Leminski — é uma guerra perdida. E o novo passa hoje por uma revalorização do passado. Revalorização, não retorno. E revalorização implica uma re-historicização, um dar ao César do passado o que é do César do presente. Quero dizer: a única possibilidade de re-historicizar o passado é vê-lo com os olhos de hoje, posição muito contrária à simulação pós-moderna, que pretende, a pretexto da intemporalidade, ver o passado com os olhos do passado, o que, em última instância, implica o fim da tradição. Esta última posição, no que diz respeito à poesia, tem a ver com a utilização das formas do passado. A utilização de uma forma como o soneto, por exemplo, tal qual era usado por Quevedo ou por Lope de Vega, pode constituir, em algum lugar, uma maneira de homenagear uma forma em seu momento de esplendor. Porém, certamente constitui, sem dúvida, para mim, mais uma maneira de homenagear uma fachada do que uma forma integral. Só posso argumentar em relação ao que foi dito antes com uma pergunta: se a vida é imprevisível, incerta e aleatória, por que deve a poesia representar uma forma de máxima estabilidade?  

Por que a poesia deve tender à cristalização do movimento? Diz Buckminster Fuller: “Eu não trato de imitar a natureza, mas de seguir os mecanismos que a regem”. O que importa aqui é a palavra mecanismo. O que as formas fixas tendem a deter é justamente o mecanismo da vida, que é fluxo e devir. Pretender negar o fluir da vida é mais uma concessão à visão pura sobre a vida, uma negação da consciência e o relegamento do poeta à categoria de ser inocente, concessão ao pior espírito romântico. Por último, o recurso à forma fixa resulta ser, por mais paradoxal que pareça, um privilégio do conteúdo sobre a forma, pela crença de que o conteúdo pode, por si mesmo, modificar a forma. A melhor poesia ocidental indica o contrário.

Tudo o que foi dito anteriormente implica um parti pris. Em suas reflexões sobre o Tractatus, em 1929, Wittgenstein dizia que o ético consistia em “arremeter contra os limites da linguagem”. Arremeter, profanar, transformar. Em termos poéticos isso implica ir além das formas fixas e contra toda pureza tentar a criação de uma mestiçagem formal que só pode nos levar a um conceito da forma como transitória. Nessa transitoriedade estaria situado o entroncamento com a tradição libertária de nossa poesia, a tradição crítica, sem temor ao pretenso esgotamento do repertório formal da vanguarda. Sem temor a esse outro fantasma que percorre a poesia atual: o silêncio. De qualquer maneira, como diz Jabès, “se escreve sempre sobre o fio do nada”. Do contrário, os ventos da intemporalidade que sopram diariamente em nossa poesia podem acabar com ela. Poesia: questão de futuro.

Tradução: Claudio Daniel