quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

GALERIA: A SOMBRA DO LEOPARDO (V)














Foto: Paola Cristiane Schroeder.

O POETA PODÓLATRA

Do lado de dentro das Paredes do Crânio
— Glauco Mattoso

Até
a última carícia
do prazer atípico, longe
dos seios estéreis —
plumas ou punhais, não
músculos enrijecidos
de basalto, suor de metal
libidinoso — assim os jaguares
mastigam iguanas de poliéster
sob o sol. Porém, a lenta
desaparição do olhar
(estranha metamorfose)
faz o tempo esférico
ser menos do que o espaço
indefinido pelo tato
— diálogo mudo
entre as mãos e o vazio.
(Fica o consolo das narinas,
o odor — para ele —
tão sweet love, sweet honey
de pés fortes, grandes e sujos
e a voz das palavras, o mar
interminável das vogais.)

1999

(Do livro A Sombra do Leopardo)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

GALERIA: A SOMBRA DO LEOPARDO (IV)

















Foto: Giovanna Wrubel Brants (capa da segunda edição).

CHUANG-TZU

Breve, o grito do faisão:
— folha (cai)
entre folhas,
água (desfeita)
em água,
de ouro vermelho
o gozo da fera
(pele-de-pétala,
cio de animala,
búfala): de ouro
e verde canto;
de ouro e cinza;
de cinza;
et mutabile,
não a pedra
enfática,
mas metal
— oxidável —
em seu vôo
de peixe-
pássaro;
em seu branco
vôo do olhar,
tudo é dançante.

1999

(Poema do livro A Sombra do Leopardo)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

GALERIA: A SOMBRA DO LEOPARDO (III)

















Foto: Sônia Alves Dias.

DOIS POEMAS

CHINA

NUNCA, olho-
do-mistério,
cauda de pavão.
Larva, nem crisálida;
onde pousa, branca,
em que pétala,
asas em qual flor,
abelha, se o aroma?
O que retine ao sol,
vibra — folha de
peônia —, dedo não
é lua, nem há pó
ou espelho; Cathay,
tudo é vazio, mas
olhe, tanta beleza
e sopra o vento
de outono.

ÍNDIA

SÓ A LOUCURA.
Vem, do púbis
às omoplatas,
canta o antigo
sol, sua face
de flama animal
raiando desejosa.
Flor de sândalo,
diz ao tempo:
agora é sempre,
fecha tua asa,
expira em fumo
e cobre. Vêm,
Lakshmi-Naráyana,
flagelar o medo,
fustigar a sílaba
muda, para o
tempo de cristal.

1999

(Do livro A Sombra do Leopardo)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

GALERIA: A SOMBRA DO LEOPARDO (II)














Foto: Sônia Alves Dias.

VOZES

Fala à sua carne;
ao de dentro.
Voz que ignora
sua música.
Nem um sol
violeta.
Cada nervo soa
em outra
medida de tempo.
Impele
a partituras de faca.
A cor do esterno,
silêncio de medula.
Lá fora, o sol
queima o magro
cinza da cadela.
O táxi pára, desce
um homem
de gravata amarela.
Alguém acende
um e outro cigarro.
E a soprano sueca
canta uma ária
de sucos gástricos.

1999

(Poema do livro A Sombra do Leopardo.)

domingo, 23 de janeiro de 2011

GALERIA: A SOMBRA DO LEOPARDO (I)


Foto: Sônia Alves Dias.

POROS


Um silêncio verde
— Paul Celan

O
verde,
sua pele
ácida. Tocar
os poros
do verde, florir
metálico. Ouvir
sua voz de asa
e sombra.
Olhos, faisões
de cegueira.
Jóias de irada
divindade.
Abelhas e lagostas
amam-se, odeiam-se,
tulipas caem
na goela
do tempo.
Tuas mãos tateiam
a nervura imprecisa
da cicatriz
e não há mar,
nem pão, nem página.
Alucino-te
ao mirar-me
no silêncio
de uma laranja
quadrada.
Aqui, nada mais viceja.
Lacraias afogam-me
em tua lágrima
e se fecha a porta
esquerda. Toda palavra
me fere com sua cor.
Quando cessa
o canto, calados,
ouvimo-nos
em um corte
azul.

1999

(Poema do livro A Sombra do Leopardo. 1ª. edição, Azougue Editorial, 2001; 2ª. edição, Selo Orpheu, da Editora Multifoco, 2010.)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

GALERIA: ALBRECHT DURER


POEMAS DE GOETHE (V)

CANTO NOTURNO DO VIANDANTE

Sobre os picos
paz.
Nos cimos
quase
Nenhum sopro.
Calam aves nos ramos.
Logo, vamos,
virá o repouso.

Tradução: Haroldo de Campos

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

GALERIA: JOHANN W. VON GOETHE (IV)


POEMAS DE GOETHE (IV)

SOBRE FOLHAS DE SEDA

Sobre folhas de seda
Não escrevo já rimas simétricas;
E já não as enlaço
Com ramagens de ouro;
Desenhadas na poeira móvel,
O vento as apaga, mas a força fica
Presa por magia ao solo
Até ao centro da terra.
E o viandante virá,
O Amante. E mal pise
Este sítio, sentirá um arrepio
Por todos os membros.
«Aqui! antes de mim aqui amou o Amante.
Foi Medschnun, o terno?
Ferhad, o poderoso? Dschemil, o imorredouro?
Ou um de entre aqueles mil
Felizes-infelizes?
Ele amou! Como ele eu amo,
Eu adivinho-o!»
- Mas tu, Zuleica, repousas
Sobre o coxim delicado
Que eu pra ti preparei e enfeitei.
Também os teus membros se arrepiam, e acordas.
«É ele que me chama, Hatem!
Também eu te chamo: Ó Hatém! Hatém!»

Tradução: Paulo Quintela.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

GALERIA: JOHANN W. VON GOETHE (III)


POEMAS DE GOETHE (III)

CANÇÃO DA PULGA

Era uma vez um monarca
Que tinha uma pulga imensa,
E com amizade intensa,
Como a um filho estimado
O alfaiate chamou,
Que logo se apresentou
E a medindo com cuidado
Belas calças lhe ofertou!

Vestiu-se, portanto,
De seda e veludo
Com faixas no manto
Uma cruz no escudo.
Tornou-se ministro,
No peito uma estrela,
Parentes, que sorte!
Senhores na corte...

Homens e mulheres
Na corte a sofrer!
A rainha e as criadas
Mordidas, picadas,
Que desprazer!
Não podiam matá-la,
Nem mesmo coçar-se.
Vamos nós esmagá-la,
Se vem a mostrar-se.

Tradução: Sílvio Meira

GALERIA: JOHANN W. VON GOETHE (II)


POEMAS DE GOETHE (II)

CRÍTICO

Eis que me veio uma visita
do tipo (achei) que não me irrita.
O meu jantar não era chique,
mas ele comeu tanto ali que
não sobrou nada em casa, e quando
parou, já quase arrebentando,
o demo o fez sair só para
cuspir no prato em que jantara:
”A sopa estava um arremedo;
a carne, crua; o vinho, azedo.”
Que morra paralítico!
Com mil demônios! Era um crítico!

Tradução: Nelson Ascher

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011