Não te queria quebrada pelos quatro elementos.
Nem apanhada apenas pelo tacto;
ou no aroma;
ou pela carne ouvida, aos trabalhos das luas
na funda malha de água.
Ou ver-te entre os braços a operação de uma estrela.
Nem que só a falcoaria me escurecesse como um golpe,
trêmulo alimento entre roupa
alta,
nas camas.
Magnificência.
Levantava-te
em música, em ferida -
aterrada pela riqueza -
a negra jubilação. Levantava-te em mim como uma coroa.
Fazia tremer o mundo.
E queimavas-me a boca, pura
colher de ouro tragada
viva. Brilhava-te a língua.
Eu brilhava.
Ou que então, entrecravados num só contínuo nexo,
nascesse da carne única
uma cana de mármore.
E alguém, passando, cortasse o sopro
de uma morte trançada. Lábios anônimos, no hausto
de árdua fêmea e macho
anelados em si, criassem um órgão novo entre a ordem.
Modulassem.
E a pontadas de fogo, pulsavam os rostos, emplumavam-se.
Os animais bebiam, ficavam cheios da rapidez da água.
Os planetas fechavam-se nessa
floresta de som unânime
pedra. E éramos, nós, o fausto violento, transformador
da terra
Nome do mundo, diadema.
* * *
A oferenda pode ser um chifre ou um crânio claro ou
uma pele de onça
deixem-me com as minhas armas
deixem-me entoar as onomatopéias, a minha canção de glória.
À noite o cabelo frio
de dia caminho por entre a fábula das corolas
sim, eu sei, queimam-se de olho a olho selvagem mas não se movem
mais altas que eu, mais soberanas, amarelas.
Escuto a travessia cantora dos rios no mundo
depois aparece a longa frase cheia de água.
Guio-me pelas luas no ar desfraldado e
grito de água para água levanto as armas
gritando
enquanto danço o algodão cresce fica maduro o tabaco.
Ninguém fez uma guerra maior. Corno chumbado em sangue e osso,
crânio com luz própria pousando na sua luz,
na pele
as pálpebras abrindo e fechando quem se exaltava
vestido com elas?
Meti na boca um punhado de diamantes - e
respirei com toda a força. E tremi ao ver como eu era inocente, assim
com dedos e língua calcinados; e
levando a mão à boca entoei a canção inteira das onomatopéias;
era a guerra. Como se caça uma fêmea com tanto sangue entre as ancas?
A ouro rude. Boca na boca
enchê-la de diamantes. Que fique a brilhar nos sítios
violentos. Doce, que seja doce, acre
mexida na sua curva de argila sombria andando coberta de olhos,
onça pintada no meio de flores que expiram.
Quem ergue o hemisfério a mãos ambas acima da testa?
quem morre porque a testa é negra?
quem entra pela porta com a testa saindo da fornalha?
O animal cerrado que se toca a medo:
o braço estremece, o coração estremece até à raiz do braço
entre carmesim e carmesim
bárbaro, estremecem
a memória e a sua palavra. Tocar na coluna
vertebral o continente todotoda a pessoa -
transformam-se numa imagem trabalhada a poder
de estrela. Quando se agarra numa ponta e a imagem
devora quem a agarra.No chão o buraco. da estrela -
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
domingo, 12 de dezembro de 2010
CÂNONE E ANTICÂNONE: HELDER E CELAN
Celan está embebido de história, geografia e da saga do povo judeu; Helder movimenta-se fora de planos reconhecíveis de espaço e tempo, erguendo fronteiras imaginárias (fazendo lembrar o Rimbaud de Uma Estação no Inferno: “Jamais pertenci a este povo; jamais fui cristão; sou da raça que cantava no suplício”, na tradução de Ledo Ivo). Se há uma religiosidade ou mitologia em Helder, ela está mais próxima do orfismo, da jornada simbólica ao Hades em busca de Eurídice (“Beberei sua boca, para depois cantar a morte / e a alegria da morte”). No campo semântico, porém, é possível traçarmos um paralelo entre os dois poetas, começando pela similaridade de temas ou palavras-chave, extraídas da tradição romântica: noite, cegueira, loucura, sangue, morte. O uso da analogia e das imagens poéticas (compreendidas aqui conforme o conceito de Réverdy) também é nítido, especialmente, na primeira fase de ambos (Papoula e Memória, de Celan, e O Amor em Visita, de Helder). Objetos retirados do cotidiano, elementos da natureza, instrumentos musicais, estados de espírito, partes do corpo humano ou substâncias orgânicas são combinados de maneira inusitada com outros materiais, concretos ou abstratos, em versos de deliberada alquimia: “crê no escaravelho dentro do feto”; “amamo-nos como papoila e memória” (Celan, em tradução de João Barrento); “a morte sobe pelos dedos, navega o sangue”; “a paisagem regressa ao ventre, o tempo / se desfibra” (Helder). Apesar dessa convergência, é preciso traçar uma distinção fundamental entre as duas poéticas: em Celan, a imagem é um dos elementos constitutivos do discurso, que tem uma respiração meditativa, um andamento quase litúrgico (ecoando, não raro, o hino bíblico); em Helder, ela é a base estrutural; todo o poema se desencasula a partir de entrecruzamentos de símbolos. A evolução posterior de ambos irá evidenciar outras diferenças essenciais: enquanto no português há um crescente desregramento, um fluxo incessante de figuras e percepções, no romeno revela-se maior equilíbrio, síntese e concentração; essa disciplina severa é responsável por linhas lacunares, de teor quase oracular, pela concisão e obscuridade.
A experiência imagética é mais evidente na lírica erótico-amorosa destes poetas, onde a mulher assume dimensão sobrenatural, ela é a origem da Criação, o Universo e cada uma de suas manifestações: “As coisas nascem de ti / como as luas nascem dos campos fecundos, / os instantes começam da tua oferenda / como as guitarras tiram seu início da música nocturna” (Helder); “Projecta a sua luz ao longe sobre o mar, / desperta as luas no estreito e ergue-as sobre mesas de espuma” (Celan, traduzido por João Barrento). (Leia mais na página http://www.revistazunai.com/ensaios/claudio_daniel_apontamentos.htm)
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
DIÁRIO DE UM VIAJANTE
Caros, estive em Brasília nos dias 08 e 09 de dezembro, a convite do Ministério da Educação. Ontem, participei de um debate na UnB com Maria Esther Maciel, José Eduardo Agualusa, Luiz Ruffatto e Ronaldo Correias de Brito sobre a literatura brasileira contemporânea. O auditório estava lotado e as conversas foram muito boas. Gostei do resultado do evento.
POEMAS DE PAUL CELAN (VII)
Verde-bolor é a casa do esquecimento.
Diante de cada portão flutuante azuleia o teu músico decapitado.
Bate o tambor feito de musgo e amargo pêlo púbico;
Com o dedo do pé ulcerado desenha a tua sobrancelha na areia.
Desenha-a, maior do que era, e o vermelho dos teus lábios.
Tu enches aqui as urnas e alimentas o teu coração.
Tradução: João Barrento
(Do livro Sete Rosas mais Tarde. Lisboa: Cotovia, 1993)
Diante de cada portão flutuante azuleia o teu músico decapitado.
Bate o tambor feito de musgo e amargo pêlo púbico;
Com o dedo do pé ulcerado desenha a tua sobrancelha na areia.
Desenha-a, maior do que era, e o vermelho dos teus lábios.
Tu enches aqui as urnas e alimentas o teu coração.
Tradução: João Barrento
(Do livro Sete Rosas mais Tarde. Lisboa: Cotovia, 1993)
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
POEMAS DE PAUL CELAN (VI)
RETRATO DE UMA SOMBRA
Os teus olhos, rastro de luz dos meus passos;
a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
a tua sobrancelha, orla pelo caminho da tragédia;
as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;
as tuas faces, campos de armas da madrugada;
os teus lábios, hóspedes tardios;
os teus ombros, estátua do esquecimento;
os teus seios, amigos das minhas serpentes;
os teus braços, alámos à porta do castelo;
as tuas mãos, tábuas de juras mortas;
as tuas ancas, pão e esperança;
o teu sexo, lei do fogo na floresta;
as tuas coxas, asas no abismo;
os teus joelhos, máscaras da tua altivez;
os teus pés, campos de batalha dos pensamentos;
as tuas solas, criptas em chamas;
as tuas pegadas, olho da nossa despedida.
Tradução: João Barrento.
(Do livro A morte é uma flor. Lisboa: Cotovia, 1998.)
Os teus olhos, rastro de luz dos meus passos;
a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
a tua sobrancelha, orla pelo caminho da tragédia;
as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;
as tuas faces, campos de armas da madrugada;
os teus lábios, hóspedes tardios;
os teus ombros, estátua do esquecimento;
os teus seios, amigos das minhas serpentes;
os teus braços, alámos à porta do castelo;
as tuas mãos, tábuas de juras mortas;
as tuas ancas, pão e esperança;
o teu sexo, lei do fogo na floresta;
as tuas coxas, asas no abismo;
os teus joelhos, máscaras da tua altivez;
os teus pés, campos de batalha dos pensamentos;
as tuas solas, criptas em chamas;
as tuas pegadas, olho da nossa despedida.
Tradução: João Barrento.
(Do livro A morte é uma flor. Lisboa: Cotovia, 1998.)
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
POEMAS DE PAUL CELAN (V)
A pequena realidade
duplicada
manda a sua loucura
cercar-te,
ora uma, ora outra,
amanhã
tudo isso recolherá a si,
e as palavras, sem disfarce,
nascem,
as primeiras.
***
Poema-fechado, poema-aberto:
aqui as cores correm
para o desabrigado,
o da fronte nua,
o judeu.
Aqui levita
o mais pesado.
Aqui estou eu.
***
No inclarável
abre-se uma porta,
dela
caem em escamas as manchas da camuflagem,
repassadas de verdade.
***
Na selva do sangue, aí
está a despedida, de dedos
finos, em
cada ponta, em forma de
coração, uma
lente, aí
os tigres caçam
o dia.
Tradução: João Barrento.
duplicada
manda a sua loucura
cercar-te,
ora uma, ora outra,
amanhã
tudo isso recolherá a si,
e as palavras, sem disfarce,
nascem,
as primeiras.
***
Poema-fechado, poema-aberto:
aqui as cores correm
para o desabrigado,
o da fronte nua,
o judeu.
Aqui levita
o mais pesado.
Aqui estou eu.
***
No inclarável
abre-se uma porta,
dela
caem em escamas as manchas da camuflagem,
repassadas de verdade.
***
Na selva do sangue, aí
está a despedida, de dedos
finos, em
cada ponta, em forma de
coração, uma
lente, aí
os tigres caçam
o dia.
Tradução: João Barrento.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
POEMAS DE PAUL CELAN (IV)
Este é o momento em que
os lobisomens se
ficam pelo caminho.
Nenhum
esbirro vive
já.
O Homem, verdadeiro e solitário,
passeia o porte íntegro por entre
os Homens.
Tradução: João Barrento
os lobisomens se
ficam pelo caminho.
Nenhum
esbirro vive
já.
O Homem, verdadeiro e solitário,
passeia o porte íntegro por entre
os Homens.
Tradução: João Barrento
POEMAS DE PAUL CELAN (III)
O OUTRO
Feridas mais fundas do que em mim
abriu em ti o silêncio,
estrelas maiores
enredam-se na rede dos seus olhares,
cinza mais branca
repousa sobre a palavra em que acreditaste.
Tradução: João Barrento
Feridas mais fundas do que em mim
abriu em ti o silêncio,
estrelas maiores
enredam-se na rede dos seus olhares,
cinza mais branca
repousa sobre a palavra em que acreditaste.
Tradução: João Barrento
domingo, 5 de dezembro de 2010
POEMAS DE PAUL CELAN (II)
Conversas com cascas de árvore. Tu,
tira a casca, anda,
tira-me, feito casca, da minha palavra.
É tarde já, mas nós
queremos estar nus e à beira
da navalha.
Tradução: João Barrento.
tira a casca, anda,
tira-me, feito casca, da minha palavra.
É tarde já, mas nós
queremos estar nus e à beira
da navalha.
Tradução: João Barrento.
POEMAS DE PAUL CELAN (I)
A MORTE
Para Yvan Goll
A morte é uma flor que só abre uma vez.
Mas quando abre, nada se abre com ela.
Abre sempre que quer, e fora de estação.
E vem, grande mariposa, adornando caules ondulantes.
Deixa-me ser o caule forte da sua alegria.
Tradução: João Barrento.
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