terça-feira, 30 de novembro de 2010
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
sábado, 27 de novembro de 2010
POEMAS DE ADONIS (IV)
Encontra-me ó manhã no campo do nosso desespero
no caminho ao nosso campo de desespero
árvores secas quantas vezes prometemos
tornarmo-nos dois leitos duas crianças à sombra seca das árvores secas
encontra-me viste os ramos? ouviste o apelo dos ramos
ao deixarem palavras à sua seiva?
palavras-reforço aos olhos
palavras-força a fender rochas
encontra-me encontra-me
como se nos encontrássemos e tecessemos a treva
e nos vestissemos e viessemos batessemos à sua porta
soerguessemos a cortina e abrissemos suas janelas
e nos recolhessemos nas entranhas
dos troncos e implorassemos com nossas pálpebras
e escanceassemos
a ânfora do sonho e das lágrimas
como se ficassemos
no país dos ramos e perdessemos o caminho
da volta
Tradução: Michel Sleiman
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
POEMAS DE ADONIS (III)
Fiz-me espelho
rebati tudo
mudei em teu fogo a cerimônia da água e da vegetação
mudei voz e apelo
Passei a ver-te em dois
tu e esta pérola que nada em meus olhos
eu e a água nos fizemos amantes
nasço em nome da água
nasce em mim a água
eu
e a água
nos replicamos
ÁRVORE DOS CÍLIOS
... e quando resignei-me na ilha das pálpebras
em ser hóspede das conchas e dos rastros
vi que o destino é um frasco
com águas e fagulhas
pronto a fazer do homem
mito ou fogo lendário
e eu ia carregado sobre os ramos
num bosque lácteo enfeitiçado
o seu dia consagrado à loucura era
minha cidade e a noite recinto íntimo
Tradução: Michel Sleiman
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
POEMAS DE ADONIS (II)
Vou em busca da sombra entre os brotos e a erva ergo uma ilha
ligo a ramagem à beira-mar
e quando se perdem os portos e enegrecem os caminhos
visto-me do assombro cativo
nas asas da borboleta
atrás do reino das espigas e da luz e na
morada da doçura
Tradução: Michel Sleiman
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
POEMAS DE ADONIS (I)
Preciso viajar no bosque das cinzas
entre as árvores ocultas
na cinza estão as fábulas o diamante o velocino de ouro
preciso viajar na fome na rosa rumo às colheitas
preciso viajar descansar
sob o arco dos lábios órfãos
nos lábios órfãos em sua sombra ferida
está a antiga flor da
alquimia
Tradução: Michel Sleiman
O TIBETE NÃO É PARTE DA CHINA

terça-feira, 23 de novembro de 2010
CHINA CRIA CAMPO DE CONCENTRAÇÃO PARA DISSIDENTES
Por favor, lembre-se do nome: Sujiatun. Um dia, ele será tão infame como Auschwitz e Dachau.
O Centro Nacional de Tratamento de Trombose em Medicina Tradicional Chinesa na cidade de Shenyang. De acordo com uma enfermeira que trabalhava lá, o campo de extermínio de Sujiatun está localizado em um complexo subterrâneo conectado a esse hospital.
A unidade da fornalha, no lado sudoeste do hospital. Há duas portas conduzindo ao complexo subterrâneo do campo de extermínio de Sujiatun. De acordo com testemunhas, os restos mortais dos praticantes de Falun Gong são incinerados aqui, após seus órgãos serem extraídos. Em 8 de março de 2006, um jornalista chinês, fugindo do regime comunista da China, revelou aos praticantes de Falun Gong dos Estados Unidos uma terrível notícia: um campo de extermínio secreto, em Sujiatun, cidade de Shenyang, na província de Liaoning na China.
De acordo com este jornalista, mais de 6000 praticantes de Falun Gong estão detidos em Sujiatun. "Eu acredito que, uma vez lá dentro, há 100% de chance que não poderão sair", diz o jornalista. Ele também revelou que há câmaras de incineração e um grande número de médicos. "Por que há câmaras de incineração lá? Por que há tantos médicos lá dentro? Certamente, não é para o tratamento benevolente dos prisioneiros. É algo que vocês simplesmente não podem imaginar..."
"É certo que o Partido Comunista não permitirá que os prisioneiros que lá se encontram comam por comer. Por que eles estão lá então? ... Eles serão todos assassinados, e todos os seus órgãos serão retirados e distribuídos a hospitais. A venda de órgãos humanos é uma atividade extremamente lucrativa na China."
Os praticantes de Falun Gong não são as únicas vítimas desse tipo de crime. Uma semana depois da revelação do jornalista, uma enfermeira, cujo marido participou na coleta dos órgãos dos praticantes de Falun Gong, também se apresentou para testemunhar:
"Eu costumava trabalhar no Centro de Tratamento para Trombose de Liaoning, que era próximo do campo de concentração. Meu marido tinha participado na remoção das córneas de praticantes de Falun Gong. Isso foi uma desgraça para minha família."
"No começo de 2001, meu marido foi designado pelo hospital para, secretamente, remover as córneas de praticantes de Falun Gong. Ele escondeu isso de mim no início, mas lentamente eu senti que ele estava em grande agonia, ele tinha pesadelos freqüentemente, e estava sempre estressado. Depois de insistentes perguntas, ele me contou a verdade em 2003."
"Ele sabia que eles eram praticantes de Falun Gong. Todos os médicos que participaram, sabiam. Foi-lhes dito que eliminar o Falun Gong não era um crime, mas uma contribuição para a 'limpeza' levada a cabo pelo Partido Comunista. Aqueles que iam para a mesa de operações eram anestesiados. Pessoas idosas e crianças eram geralmente usadas para a remoção das córneas."
"No momento em que meu marido me contou isso, ele não podia mais suportar o tormento de colaborar em horrores, e decidiu sair da China e escapar do horror. Ele me disse: você não pode imaginar meu desespero, porque aqueles praticantes de Falun Gong ainda estavam vivos. É diferente de remover órgãos de pessoas mortas – eles estavam vivos."
"Por causa disso, eu me divorciei dele. Eu disse a ele: sua carreira está acabada, você não será capaz de segurar um bisturi no futuro."
"Eu sei que ainda há praticantes de Falun Gong naquele hospital", disse a enfermeira por fim. "Eu espero que estes crimes sejam expostos à sociedade internacional o mais rápido possível, para que suas vidas possam ser salvas. Eu também espero, por meio de minha revelação, reparar os crimes de meu marido."
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
MINHA ESTANTE

sábado, 20 de novembro de 2010
NO EXÍLIO
ISRAEL NÃO RESPEITA DIREITOS DO POVO PALESTINO
País tem em seus presídios mais de 6.000 civis palestinos (incluindo crianças), a maioria deles sem acusação formal ou mesmo processo judicial.
Em artigo nesta Folha (“Direitos humanos em mãos erradas“, “Tendências/Debates”, 10/10), o embaixador israelense queixou-se do Conselho de Direitos Humanos (CDH) da ONU, em que relatórios têm sido aprovados, denunciando graves violações de direitos humanos por parte do governo israelense nos territórios palestinos ocupados da Cisjordânia e da faixa de Gaza.
De fato, apenas nos primeiros seis meses de 2010, foram registradas na Cisjordânia a demolição de 223 edifícios e a expulsão de 338 palestinos de suas casas.
Quinhentas e cinco barreiras violam o direito de ir e vir, impedindo o acesso da população a escolas, a locais de trabalho e a hospitais, para procedimentos vitais como diálise, cirurgias do coração e cuidado neonatal intensivo.
Seguindo a lógica de anexar o máximo de terras com o mínimo de palestinos, o trajeto tortuoso do muro enclausurou Belém e Qalqilia, expulsou 50 mil palestinos de Jerusalém Oriental e anexou 10% das terras mais férteis da Cisjordânia. As colônias israelenses, também ilegais, expandem-se a todo vapor sobre territórios palestinos.
A justificativa de Israel para a violação de direitos humanos -zelar pela “segurança” de seus cidadãos- não se sustenta, sendo tais atos a própria origem da revolta palestina.
Os “mísseis” citados pelo artigo do embaixador são armas de fabricação caseira, usadas em desespero por um povo sem Estado, que sofre a mais longa ocupação militar da história moderna, submetido a bombardeios, a incursões militares, a assassinatos dirigidos e a toques de recolher.
O artigo também cita um prisioneiro militar israelense, omitindo o fato de que Israel tem em seus presídios mais de 6.000 civis palestinos (incluindo crianças), a maioria deles sem acusação formal, processo judicial ou direito de defesa.
Alega-se que Israel estaria sendo alvo de injustiças por parte do CDH em consequência do relatório do juiz Richard Goldstone sobre os crimes de guerra cometidos durante o bombardeio que massacrou 1.397 pessoas em Gaza (incluindo 320 crianças e 109 mulheres).
Assim, deturpa-se o caráter heroico da flotilha de ativistas humanitários do mundo todo, incluindo israelenses e uma mulher sobrevivente do Holocausto, que arriscaram suas vidas para quebrar o bloqueio ilegal a Gaza.
O objetivo da flotilha era chamar a atenção do mundo para o problema? Sim. Era e continuará sendo uma provocação? Apenas se considerarmos o termo um desafio aberto, para que a humanidade impeça a continuidade do cerco a Gaza, onde 80% da população sofre de má nutrição crônica, as crianças apresentam estresse e distúrbios psicológicos causados pelos ataques, pelo sofrimento e pelas constantes bombas sonoras lançadas por Israel sobre a pequena faixa costeira.
O mesmo governo israelense que se queixa do CDH emitiu, no dia 10/ 10, um projeto de lei que, se aprovado, exigirá de todo não judeu de Israel um juramento de “lealdade ao caráter judeu do Estado”.
Cerca de 20% da população, de origem palestina cristã, muçulmana ou outra, terá de aceitar o caráter judeu do Estado de Israel ou emigrar, aumentando o número de refugiados, que ultrapassa 9 milhões. As consequências disso, para a Palestina e para o mundo, não valem um debate no Conselho de Direitos Humanos da ONU?
ARLENE CLEMESHA, professora de história árabe na USP e diretora do Centro de Estudos Árabes da mesma universidade, é representante da sociedade civil do Brasil no Comitê da ONU pelos Direitos do Povo Palestino.
BERNADETTE SIQUEIRA ABRÃO, jornalista, formada em filosofia pela USP, é pesquisadora da questão palestina, ativista de direitos humanos e autora, entre outros livros, de “História da Filosofia” editora Moderna).
(Artigo publicado em 19/11/2010 no jornal Folha de S. Paulo)
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
CÂNONE E ANTICÂNONE
Suzanne Bernard, em seu livro Le poème em prose — de Baudelaire jusqu’a nos jours, remonta a origem desse gênero literário à Idade Média. As traduções de poesia clássica grega e romana (como a Odisseia e a Ilíada, de Homero) para a prosa, com o abandono de sua estrutura métrica e rítmica em favor da narrativa, do “conteúdo”, também estão na gênese dessa modalidade criativa (e podemos recordar aqui a tradução que Mallarmé fez do poema O Corvo, de Edgar Allan Poe, que manteve o enredo, a narração, as imagens e o timbre emocional do poema, ao mesmo tempo em que evitou o exigente labor de recriação dos efeitos sonoros tão peculiares do autor norte-americano).
O poema em prosa se estabeleceu como um gênero poético autônomo, com o mesmo grau de refinamento artístico que o soneto, a elegia, a écloga e outras composições escritas em verso graças ao poeta francês Charles Baudelaire, autor de Pequenos poemas em prosa, publicado postumamente, em 1869. No prefácio à tradução brasileira de Gilson Maurity, publicada pela editora Record em 2006, Ivo Barroso define essa obra como “uma série de peças curtas, não metrificadas nem rimadas, mas de teor poético, que o mesmo Baudelaire começou a escrever concomitantemente com As flores do mal a partir de 1855. Inspirando-se no Gaspar de la nuit, de Aloysius Bertrand, esses fragmentos eram uma combinação de narrativas curtas (diríamos hoje minicontos), diário íntimo, aforismos, tiradas anedóticas, descrições, anotações para futuros poemas etc. feitos para publicação em jornais e revistas”. Mais adiante, Barroso cita uma carta que Baudelaire escreveu a Arsène Houssaye, onde o autor francês diz: “Qual de nós, em seus dias de ambição, não sonhou com o milagre de uma prosa poética musical, sem ritmo e sem rima, bastante maleável e bastante rica de contrastes para se adaptar aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da consciência?”.
Tendo encontrado um modo de realizar esse projeto sonhado, Baudelaire abriu caminho para uma longa tradição da poesia francesa e universal, em que podemos incluir obras tão radicais como Uma temporada no inferno, de Rimbaud, Os cantos de Maldoror, de Lautréamont, Igitur, de Mallarmé, O peixe solúvel, de André Breton, até as Galáxias, de Haroldo de Campos.
O que caracteriza esse gênero literário? O poema em prosa, assim como o verso livre, rompe com as normas de construção métrica e rímica e dá um passo além, abolindo a própria distinção entre poesia e prosa, lirismo e narrativa. Ele utiliza recursos tradicionais da arte poética, como a metáfora, a paronomásia, a aliteração, a escolha de palavras pela sonoridade, e não apenas pelo sentido, e constrói o ritmo não pela sequência fixa de sílabas fracas e fortes, e sim pela livre associação de palavras, não raro rompendo com a sintaxe tradicional pelo uso da elipse e pela ausência de pontuação, ou ainda pela construção de frases sem obedecer à lógica discursiva tradicional, do tipo sujeito-verbo-objeto. Ele pode incorporar elementos ficcionais, como acontece nos Cantos de Maldoror, de Lautréamont, ou na Estação no inferno, de Rimbaud, mas sem obedecer à construção linear de tempo e espaço do romance. Sendo uma forma híbrida, incorpora recursos de todos os gêneros literários, inclusive da crônica e do drama, do ensaio e do drama teatral, reelaborando esses recursos, muitas vezes, de forma paródica. O verso livre e o poema em prosa foram as primeiras manifestações da crise do verso clássico, e apontaram a necessidade de criação de novas estruturas para a linguagem poética, o que atingiu um nível de máxima radicalização com o poema Um lance de dados, de Mallarmé, que criou uma sintaxe visual para o poema, com a adoção de diferentes fontes e corpos de letras, de itálicos e negritos, com as palavras e frases distribuídas de forma geométrica no espaço em branco da página, permitindo diferentes sequências de leitura. O Lance de dados abriu caminho para os Caligramas de Apollinaire, a Poesia Concreta e Visual e as atuais experiências realizadas no campo da poesia digital e eletrônica.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
POEMAS EM PROSA (VIII)
É certamente pela rua que vou. Golfadas de olhos e cabelos e um oboé silencioso. Desalinho. Vagueia um automóvel onírico. É pela rua. Que vamos. Que somos acometidos pelas costas. Estilhaçados de inércia. Poderosos de sexo. Invariáveis.
Descumpem-nos a liberdade dos suicídios macios nas traseiras dos jardins. Ou os partos dramáticos enterrados na areia. É tão verde o sol que nos rompe as órbitas. A casa deserta rodou três vezes.
Com o travesti nocturno da evsão brincamos facilmente aos pássaros bíblicos. Navio mercante de papel colado - qual o teu rumo de papel colado? Quando a bússola soçobrou no lastro do horizonte.
Gritámos com a ambulância exausta. Acenava, de dentro, um homem morto. E a página de fora de um jornal antigo, do dia anterior, antigo, insustentável, com fotografias perfeitas e um eclipse longínquo, na beira do passeio.
Saí de casa ontem. Vou correr mundo, vou matar-me. Emancipada da noite, livre indoloridamente, minha angústia despediu-se, lambeu-me as mãos. Somente a flor prometeu realizar-se ainda. Então parto. Encontrarei o cão das noites líquidas e, na colcha, um cogumelo letárgico de lua.
Mas a árvore do sol está suspensa, anémona gigante rebentada de cor. Escorre, aquaticamente, entre os seios mais pueris e os tapumes e as sarjetas. A flor irrisória no ventre da rapariga. «violetas, quem quer violetas?» - Meus amigos, sou pela paz (podem rasgar, sim, podem rasgar os corações a rir).
Como os comboios passam, só as árvores arrastadas sabem. Enquanto os comboios passam, as estátuas renascem para a morte. Quando os comboios passam, a desculpa das calhas paralelas, o perdão dos crimes paralelos. Se os comboios passam, as pedras castram a liberdade humana.
Sigo para o cabaré distante. Nasce, ao fundo da sala, qualquer mesa vermelha entornada na música. A noite é em lâminas. Sentem-se vários animais febris suspensos dos telhados a tentarem um equilíbrio nos trapézios eléctricos.
É pela rua que vou. Marinham pelo rio ângulos coalhados de casa afogada (ala-ala-arriba pelo tejo inundado de farrapos de almas). Sobre o lodo do rio a ponte floriu, cortou o horizonte em duas longitudes. De um mastro, a gaivota salpica os homens com sons claros, e despenumbra-os, de súbito.
Afogámo-nos num ciclo de vela e de âncora, no rio que corre sem lemes. Arcas de nomes, sumi-vos: só Rio. Só Homem-Cidade de pedra.
Chove todo o segredo das noites em goteiras de vento; a pedra da ruína não mói já passado, secou a lua a chuva aberta das fendas.
Saímos com um relógio ao vivo em cada artéria. O vento, agudo pássaro sem penas, debicou-nos o cabelo no vago medo de um grito. E em cada pedra, a decorar um passo, o desafio macio e inábil duma madrugada caída - do vento, de nós ou de quem? De quem?
A chuva, para quem a quis embalar, foi ovelha com fala de erva e água, um cacto de sonho sugando-lhe os chifres.
Esquecimento de relógio sem corda. Nascemos a vida antecipada, levámo-la, débil, para casa, ensinámos-lhes a longa geometria dos vértices, dos fios de prumo e oblíquas de dia a ranger na chuva.
Chove todo o segredo dos segredos extintos pela rua. À chuva não acontece o possível.
Acontece.
Sinto que posso subir às árvores e colher os ninhos - tenho mãos líricas de ledrão de luas, mãos crucificadas em palcos de tragédia. Espalhar depois as penas dos pássaros em novelos desfiados. Ser cruel, febrilmente cruel, colher ninhos, abrir crisálidas.
Nasci ontem do meu amanhã, na certeza de que verei todas as luas cheias. E então as outras vazias - e vazios os ninhos.
Na rua, os estames das luzes enferrujam. Quem pensa ainda em árvores?
Se fossem dois pontões a avançar para o mar, seria difícil escolher. Sempre era um mar que se trocava por outro. Assim, fui. Marinheiro bizarro a abraçar-me, o mar era qualquer rosto incógnito. Como podia o mar ser o mar que subia na pedra? Estava maré-cheia.
No pontão, delito pensar, olhar sequer, tomar consciência do mundo. Pelas pernas subiam-me uns pedaços de ondas imprecisas. E então desejei que me arrancassem os olhos e os atirassem à água.
Mais real que a asa sonora da gaivota, tinha ido para estar ali, humanizada como um pontão de pedra.
Chegar ao fim dele podia ser encontrar um começo ao mar. Mas fiquei entregue à violência dos passos intactos. A pureza do medo e a noite baloiçam. Os barcos, de cores sexuais amordaçadas pelo escuro, dão-me vertigens. Chegou um, então, e o pontão de pedra tremeu, sexual também. Doía. Os barcos vivos eram os mortos da morte. Há sempre um outro cais ausente. Se eu agora me voltar e for para o meu dia de vida, como me consolarei da espera inútil? Todas as noites, todas, terei tempo para lá voltar, à mesma hora, esperando por mim, de pé e assustada?
Narro o sorriso de areia na boca dos homens, enquanto o sol é um bidon de óleo, aceso, derramado. À tarde aqueço as mãos nas casas a arder. Na rua, o mesmo incêndio opaco. O vento com laivos de pedra e sangue. Os animais a ruir. E as árvores, primeiras a afogarem-se com os naúfragos.
A mulher a gritar «Os meus braços». A cadeira alta, enigmática, da sala de espera.
A criança a gritar «Os meus olhos». As raízes a apunhalarem o chão, a quebrá-lo, a revolvê-lo, a criá-lo.
O homem a gritar «Os meus dias». Mais solitária a manhã. Irrompendo.
(Poema de Luiza Neto Jorge, do livro 19 Recantos e Outros Poemas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008.)








