sábado, 27 de novembro de 2010

POEMAS DE ADONIS (IV)

ÁRVORE DA MANHÃ

Encontra-me ó manhã no campo do nosso desespero

no caminho ao nosso campo de desespero

árvores secas quantas vezes prometemos

tornarmo-nos dois leitos duas crianças à sombra seca das árvores secas

encontra-me viste os ramos? ouviste o apelo dos ramos

ao deixarem palavras à sua seiva?

palavras-reforço aos olhos

palavras-força a fender rochas

encontra-me encontra-me

como se nos encontrássemos e tecessemos a treva

e nos vestissemos e viessemos batessemos à sua porta

soerguessemos a cortina e abrissemos suas janelas

e nos recolhessemos nas entranhas

dos troncos e implorassemos com nossas pálpebras

e escanceassemos

a ânfora do sonho e das lágrimas

como se ficassemos

no país dos ramos e perdessemos o caminho

da volta

Tradução: Michel Sleiman

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

ROMANCEIRO DE DONA VIRGO (III)


Foto: Sônia Alves Dias

POEMAS DE ADONIS (III)

CANÇÃO DO ORIENTE

Fiz-me espelho

rebati tudo

mudei em teu fogo a cerimônia da água e da vegetação

mudei voz e apelo

Passei a ver-te em dois

tu e esta pérola que nada em meus olhos

eu e a água nos fizemos amantes

nasço em nome da água

nasce em mim a água

eu

e a água

nos replicamos


ÁRVORE DOS CÍLIOS

... e quando resignei-me na ilha das pálpebras

em ser hóspede das conchas e dos rastros

vi que o destino é um frasco

com águas e fagulhas

pronto a fazer do homem

mito ou fogo lendário


e eu ia carregado sobre os ramos

num bosque lácteo enfeitiçado

o seu dia consagrado à loucura era

minha cidade e a noite recinto íntimo

Tradução: Michel Sleiman

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

ROMANCEIRO DE DONA VIRGO (II)


Foto: Sônia Alves Dias

POEMAS DE ADONIS (II)

ASSOMBRO CATIVO

Vou em busca da sombra entre os brotos e a erva ergo uma ilha

ligo a ramagem à beira-mar

e quando se perdem os portos e enegrecem os caminhos

visto-me do assombro cativo

nas asas da borboleta

atrás do reino das espigas e da luz e na

morada da doçura

Tradução: Michel Sleiman

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

ROMANCEIRO DE DONA VIRGO (I)


Foto: Sônia Alves Dias.

POEMAS DE ADONIS (I)

FLOR DA ALQUIMIA

Preciso viajar no bosque das cinzas

entre as árvores ocultas

na cinza estão as fábulas o diamante o velocino de ouro

preciso viajar na fome na rosa rumo às colheitas

preciso viajar descansar

sob o arco dos lábios órfãos

nos lábios órfãos em sua sombra ferida

está a antiga flor da

alquimia

Tradução: Michel Sleiman

O TIBETE NÃO É PARTE DA CHINA






O Tibete é um país com história, formação cultural, étnica e linguística próprias, que pouco têm em comum com a civilização chinesa. O alfabeto tibetano, por exemplo, é derivado do sânscrito, não da escrita ideográfica chinesa, e a população tibetana não tem parentesco com a etnia han, majoritária na China. O governo tibetano possuía moeda própria, bandeira nacional, serviço de correios e forças armadas e a sua independência política era reconhecida por países como a Índia e o Nepal. Nos primeiros anos do século XX, o Tibete concedeu à China o direito de estabelecer uma missão em sua capital, Lhasa, e manteve relações comerciais com esse país. Após a revolução de 1949 e o surgimento da República Popular da China, o governo tibetano, prevendo a política expansionista de Mao Tsé Tung, rompeu relações com o país vizinho e solicitou a saída do embaixador chinês de sua capital. As relações entre os dois países ficaram tensas e os soldados chineses atravessaram a fronteira tibetana em 7 de outubro de 1950. O Tibete era um país organizado em torno da cultura religiosa e monástica, que cultivava a paz e não estava preparado para enfrentar uma guerra moderna; seu exército era pouco numeroso e contava com armas e estratégias antiquadas, não resistindo à força militar do invasor. Nos primeiros anos da ocupação, houve tentativas de diálogo e negociações entre o Dalai Lama e a liderança chinesa, mas a crescente intolerância religiosa e opressão ao povo tibetano levaram a uma rebelião, em 1959, brutalmente sufocada pela China. O Dalai Lama partiu para o exílio, assim como cerca de 43 mil tibetanos, e foi estabelecido um governo no exílio em Dharamsala, na Índia. A agressão militar chinesa, agravada em 1967 com a Revolução Cultural, causou a morte de um milhão de tibetanos, além da destruição de importantes mosteiros, monumentos históricos e danos irreparáveis ao meio ambiente. Com a imigração massiva de chineses da etnia han para o Tibete, hoje os tibetanos são minoria em seu próprio país. A tragédia do povo tibetano não pode ser minimizada: este é um caso de genocídio humano e cultural praticado por uma das ditaduras mais brutais do planeta.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

NAZISMO MODERNO: O CAMPO DE SUJIATUN


CHINA CRIA CAMPO DE CONCENTRAÇÃO PARA DISSIDENTES

Por Shizhong Chen

Por favor, lembre-se do nome: Sujiatun. Um dia, ele será tão infame como Auschwitz e Dachau.

O Centro Nacional de Tratamento de Trombose em Medicina Tradicional Chinesa na cidade de Shenyang. De acordo com uma enfermeira que trabalhava lá, o campo de extermínio de Sujiatun está localizado em um complexo subterrâneo conectado a esse hospital.

A unidade da fornalha, no lado sudoeste do hospital. Há duas portas conduzindo ao complexo subterrâneo do campo de extermínio de Sujiatun. De acordo com testemunhas, os restos mortais dos praticantes de Falun Gong são incinerados aqui, após seus órgãos serem extraídos. Em 8 de março de 2006, um jornalista chinês, fugindo do regime comunista da China, revelou aos praticantes de Falun Gong dos Estados Unidos uma terrível notícia: um campo de extermínio secreto, em Sujiatun, cidade de Shenyang, na província de Liaoning na China.

De acordo com este jornalista, mais de 6000 praticantes de Falun Gong estão detidos em Sujiatun. "Eu acredito que, uma vez lá dentro, há 100% de chance que não poderão sair", diz o jornalista. Ele também revelou que há câmaras de incineração e um grande número de médicos. "Por que há câmaras de incineração lá? Por que há tantos médicos lá dentro? Certamente, não é para o tratamento benevolente dos prisioneiros. É algo que vocês simplesmente não podem imaginar..."

"É certo que o Partido Comunista não permitirá que os prisioneiros que lá se encontram comam por comer. Por que eles estão lá então? ... Eles serão todos assassinados, e todos os seus órgãos serão retirados e distribuídos a hospitais. A venda de órgãos humanos é uma atividade extremamente lucrativa na China."

Os praticantes de Falun Gong não são as únicas vítimas desse tipo de crime. Uma semana depois da revelação do jornalista, uma enfermeira, cujo marido participou na coleta dos órgãos dos praticantes de Falun Gong, também se apresentou para testemunhar:

"Eu costumava trabalhar no Centro de Tratamento para Trombose de Liaoning, que era próximo do campo de concentração. Meu marido tinha participado na remoção das córneas de praticantes de Falun Gong. Isso foi uma desgraça para minha família."

"No começo de 2001, meu marido foi designado pelo hospital para, secretamente, remover as córneas de praticantes de Falun Gong. Ele escondeu isso de mim no início, mas lentamente eu senti que ele estava em grande agonia, ele tinha pesadelos freqüentemente, e estava sempre estressado. Depois de insistentes perguntas, ele me contou a verdade em 2003."

"Ele sabia que eles eram praticantes de Falun Gong. Todos os médicos que participaram, sabiam. Foi-lhes dito que eliminar o Falun Gong não era um crime, mas uma contribuição para a 'limpeza' levada a cabo pelo Partido Comunista. Aqueles que iam para a mesa de operações eram anestesiados. Pessoas idosas e crianças eram geralmente usadas para a remoção das córneas."

"No momento em que meu marido me contou isso, ele não podia mais suportar o tormento de colaborar em horrores, e decidiu sair da China e escapar do horror. Ele me disse: você não pode imaginar meu desespero, porque aqueles praticantes de Falun Gong ainda estavam vivos. É diferente de remover órgãos de pessoas mortas – eles estavam vivos."

"Por causa disso, eu me divorciei dele. Eu disse a ele: sua carreira está acabada, você não será capaz de segurar um bisturi no futuro."

"Eu sei que ainda há praticantes de Falun Gong naquele hospital", disse a enfermeira por fim. "Eu espero que estes crimes sejam expostos à sociedade internacional o mais rápido possível, para que suas vidas possam ser salvas. Eu também espero, por meio de minha revelação, reparar os crimes de meu marido."

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

MINHA ESTANTE









Céu acima (para um tombeau de Haroldo de Campos), organizado por Leda Tenório da Mota (São Paulo: Perspectiva, 2005). O livro contém poemas e ensaios dedicados a Haroldo, incluindo textos de Benedito Nunes, Celso Lafer, Luiz Costa Lima, Olgária Matos, Lúcia Santaella, Affonso Ávila, Horácio Costa, Josely Vianna Baptista, José Kozer, Eduardo Milán, entre outros. É uma obra de referência para quem estuda a obra do titã concreto.

sábado, 20 de novembro de 2010

NO EXÍLIO


Dos nove milhões de palestinos, cerca de quatro milhões vivem na Palestina, outros quatro milhões estão em difícil situação, em campos de refugiados pelo Oriente Médio, e um milhão vive no exílio em outras regiões do planeta.

ISRAEL NÃO RESPEITA DIREITOS DO POVO PALESTINO

Arlene Clemesha e Bernadette Siqueira Abrão

País tem em seus presídios mais de 6.000 civis palestinos (incluindo crianças), a maioria deles sem acusação formal ou mesmo processo judicial.

Em artigo nesta Folha (“Direitos humanos em mãos erradas“, “Tendências/Debates”, 10/10), o embaixador israelense queixou-se do Conselho de Direitos Humanos (CDH) da ONU, em que relatórios têm sido aprovados, denunciando graves violações de direitos humanos por parte do governo israelense nos territórios palestinos ocupados da Cisjordânia e da faixa de Gaza.

De fato, apenas nos primeiros seis meses de 2010, foram registradas na Cisjordânia a demolição de 223 edifícios e a expulsão de 338 palestinos de suas casas.

Quinhentas e cinco barreiras violam o direito de ir e vir, impedindo o acesso da população a escolas, a locais de trabalho e a hospitais, para procedimentos vitais como diálise, cirurgias do coração e cuidado neonatal intensivo.

Seguindo a lógica de anexar o máximo de terras com o mínimo de palestinos, o trajeto tortuoso do muro enclausurou Belém e Qalqilia, expulsou 50 mil palestinos de Jerusalém Oriental e anexou 10% das terras mais férteis da Cisjordânia. As colônias israelenses, também ilegais, expandem-se a todo vapor sobre territórios palestinos.

A justificativa de Israel para a violação de direitos humanos -zelar pela “segurança” de seus cidadãos- não se sustenta, sendo tais atos a própria origem da revolta palestina.

Os “mísseis” citados pelo artigo do embaixador são armas de fabricação caseira, usadas em desespero por um povo sem Estado, que sofre a mais longa ocupação militar da história moderna, submetido a bombardeios, a incursões militares, a assassinatos dirigidos e a toques de recolher.

O artigo também cita um prisioneiro militar israelense, omitindo o fato de que Israel tem em seus presídios mais de 6.000 civis palestinos (incluindo crianças), a maioria deles sem acusação formal, processo judicial ou direito de defesa.

Alega-se que Israel estaria sendo alvo de injustiças por parte do CDH em consequência do relatório do juiz Richard Goldstone sobre os crimes de guerra cometidos durante o bombardeio que massacrou 1.397 pessoas em Gaza (incluindo 320 crianças e 109 mulheres).

Assim, deturpa-se o caráter heroico da flotilha de ativistas humanitários do mundo todo, incluindo israelenses e uma mulher sobrevivente do Holocausto, que arriscaram suas vidas para quebrar o bloqueio ilegal a Gaza.

O objetivo da flotilha era chamar a atenção do mundo para o problema? Sim. Era e continuará sendo uma provocação? Apenas se considerarmos o termo um desafio aberto, para que a humanidade impeça a continuidade do cerco a Gaza, onde 80% da população sofre de má nutrição crônica, as crianças apresentam estresse e distúrbios psicológicos causados pelos ataques, pelo sofrimento e pelas constantes bombas sonoras lançadas por Israel sobre a pequena faixa costeira.

O mesmo governo israelense que se queixa do CDH emitiu, no dia 10/ 10, um projeto de lei que, se aprovado, exigirá de todo não judeu de Israel um juramento de “lealdade ao caráter judeu do Estado”.

Cerca de 20% da população, de origem palestina cristã, muçulmana ou outra, terá de aceitar o caráter judeu do Estado de Israel ou emigrar, aumentando o número de refugiados, que ultrapassa 9 milhões. As consequências disso, para a Palestina e para o mundo, não valem um debate no Conselho de Direitos Humanos da ONU?

ARLENE CLEMESHA, professora de história árabe na USP e diretora do Centro de Estudos Árabes da mesma universidade, é representante da sociedade civil do Brasil no Comitê da ONU pelos Direitos do Povo Palestino.

BERNADETTE SIQUEIRA ABRÃO, jornalista, formada em filosofia pela USP, é pesquisadora da questão palestina, ativista de direitos humanos e autora, entre outros livros, de “História da Filosofia” editora Moderna).

(Artigo publicado em 19/11/2010 no jornal Folha de S. Paulo)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

GALERIA: VLADIMIR MAIAKOVSKI


CÂNONE E ANTICÂNONE


Suzanne Bernard, em seu livro Le poème em prose — de Baudelaire jusqu’a nos jours, remonta a origem desse gênero literário à Idade Média. As traduções de poesia clássica grega e romana (como a Odisseia e a Ilíada, de Homero) para a prosa, com o abandono de sua estrutura métrica e rítmica em favor da narrativa, do “conteúdo”, também estão na gênese dessa modalidade criativa (e podemos recordar aqui a tradução que Mallarmé fez do poema O Corvo, de Edgar Allan Poe, que manteve o enredo, a narração, as imagens e o timbre emocional do poema, ao mesmo tempo em que evitou o exigente labor de recriação dos efeitos sonoros tão peculiares do autor norte-americano).

O poema em prosa se estabeleceu como um gênero poético autônomo, com o mesmo grau de refinamento artístico que o soneto, a elegia, a écloga e outras composições escritas em verso graças ao poeta francês Charles Baudelaire, autor de Pequenos poemas em prosa, publicado postumamente, em 1869. No prefácio à tradução brasileira de Gilson Maurity, publicada pela editora Record em 2006, Ivo Barroso define essa obra como “uma série de peças curtas, não metrificadas nem rimadas, mas de teor poético, que o mesmo Baudelaire começou a escrever concomitantemente com As flores do mal a partir de 1855. Inspirando-se no Gaspar de la nuit, de Aloysius Bertrand, esses fragmentos eram uma combinação de narrativas curtas (diríamos hoje minicontos), diário íntimo, aforismos, tiradas anedóticas, descrições, anotações para futuros poemas etc. feitos para publicação em jornais e revistas”. Mais adiante, Barroso cita uma carta que Baudelaire escreveu a Arsène Houssaye, onde o autor francês diz: “Qual de nós, em seus dias de ambição, não sonhou com o milagre de uma prosa poética musical, sem ritmo e sem rima, bastante maleável e bastante rica de contrastes para se adaptar aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da consciência?”.

Tendo encontrado um modo de realizar esse projeto sonhado, Baudelaire abriu caminho para uma longa tradição da poesia francesa e universal, em que podemos incluir obras tão radicais como Uma temporada no inferno, de Rimbaud, Os cantos de Maldoror, de Lautréamont, Igitur, de Mallarmé, O peixe solúvel, de André Breton, até as Galáxias, de Haroldo de Campos.

O que caracteriza esse gênero literário? O poema em prosa, assim como o verso livre, rompe com as normas de construção métrica e rímica e dá um passo além, abolindo a própria distinção entre poesia e prosa, lirismo e narrativa. Ele utiliza recursos tradicionais da arte poética, como a metáfora, a paronomásia, a aliteração, a escolha de palavras pela sonoridade, e não apenas pelo sentido, e constrói o ritmo não pela sequência fixa de sílabas fracas e fortes, e sim pela livre associação de palavras, não raro rompendo com a sintaxe tradicional pelo uso da elipse e pela ausência de pontuação, ou ainda pela construção de frases sem obedecer à lógica discursiva tradicional, do tipo sujeito-verbo-objeto. Ele pode incorporar elementos ficcionais, como acontece nos Cantos de Maldoror, de Lautréamont, ou na Estação no inferno, de Rimbaud, mas sem obedecer à construção linear de tempo e espaço do romance. Sendo uma forma híbrida, incorpora recursos de todos os gêneros literários, inclusive da crônica e do drama, do ensaio e do drama teatral, reelaborando esses recursos, muitas vezes, de forma paródica. O verso livre e o poema em prosa foram as primeiras manifestações da crise do verso clássico, e apontaram a necessidade de criação de novas estruturas para a linguagem poética, o que atingiu um nível de máxima radicalização com o poema Um lance de dados, de Mallarmé, que criou uma sintaxe visual para o poema, com a adoção de diferentes fontes e corpos de letras, de itálicos e negritos, com as palavras e frases distribuídas de forma geométrica no espaço em branco da página, permitindo diferentes sequências de leitura. O Lance de dados abriu caminho para os Caligramas de Apollinaire, a Poesia Concreta e Visual e as atuais experiências realizadas no campo da poesia digital e eletrônica.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

GALERIA: LUIZA NETO JORGE


POEMAS EM PROSA (VIII)

Subitamente vamos pela rua, com a solidão burocrática dentro dos bolsos.

É certamente pela rua que vou. Golfadas de olhos e cabelos e um oboé silencioso. Desalinho. Vagueia um automóvel onírico. É pela rua. Que vamos. Que somos acometidos pelas costas. Estilhaçados de inércia. Poderosos de sexo. Invariáveis.

Descumpem-nos a liberdade dos suicídios macios nas traseiras dos jardins. Ou os partos dramáticos enterrados na areia. É tão verde o sol que nos rompe as órbitas. A casa deserta rodou três vezes.

Com o travesti nocturno da evsão brincamos facilmente aos pássaros bíblicos. Navio mercante de papel colado - qual o teu rumo de papel colado? Quando a bússola soçobrou no lastro do horizonte.

Gritámos com a ambulância exausta. Acenava, de dentro, um homem morto. E a página de fora de um jornal antigo, do dia anterior, antigo, insustentável, com fotografias perfeitas e um eclipse longínquo, na beira do passeio.

Saí de casa ontem. Vou correr mundo, vou matar-me. Emancipada da noite, livre indoloridamente, minha angústia despediu-se, lambeu-me as mãos. Somente a flor prometeu realizar-se ainda. Então parto. Encontrarei o cão das noites líquidas e, na colcha, um cogumelo letárgico de lua.

Mas a árvore do sol está suspensa, anémona gigante rebentada de cor. Escorre, aquaticamente, entre os seios mais pueris e os tapumes e as sarjetas. A flor irrisória no ventre da rapariga. «violetas, quem quer violetas?» - Meus amigos, sou pela paz (podem rasgar, sim, podem rasgar os corações a rir).

Como os comboios passam, só as árvores arrastadas sabem. Enquanto os comboios passam, as estátuas renascem para a morte. Quando os comboios passam, a desculpa das calhas paralelas, o perdão dos crimes paralelos. Se os comboios passam, as pedras castram a liberdade humana.

Sigo para o cabaré distante. Nasce, ao fundo da sala, qualquer mesa vermelha entornada na música. A noite é em lâminas. Sentem-se vários animais febris suspensos dos telhados a tentarem um equilíbrio nos trapézios eléctricos.

É pela rua que vou. Marinham pelo rio ângulos coalhados de casa afogada (ala-ala-arriba pelo tejo inundado de farrapos de almas). Sobre o lodo do rio a ponte floriu, cortou o horizonte em duas longitudes. De um mastro, a gaivota salpica os homens com sons claros, e despenumbra-os, de súbito.

Afogámo-nos num ciclo de vela e de âncora, no rio que corre sem lemes. Arcas de nomes, sumi-vos: só Rio. Só Homem-Cidade de pedra.

Chove todo o segredo das noites em goteiras de vento; a pedra da ruína não mói já passado, secou a lua a chuva aberta das fendas.

Saímos com um relógio ao vivo em cada artéria. O vento, agudo pássaro sem penas, debicou-nos o cabelo no vago medo de um grito. E em cada pedra, a decorar um passo, o desafio macio e inábil duma madrugada caída - do vento, de nós ou de quem? De quem?

A chuva, para quem a quis embalar, foi ovelha com fala de erva e água, um cacto de sonho sugando-lhe os chifres.

Esquecimento de relógio sem corda. Nascemos a vida antecipada, levámo-la, débil, para casa, ensinámos-lhes a longa geometria dos vértices, dos fios de prumo e oblíquas de dia a ranger na chuva.

Chove todo o segredo dos segredos extintos pela rua. À chuva não acontece o possível.

Acontece.

Sinto que posso subir às árvores e colher os ninhos - tenho mãos líricas de ledrão de luas, mãos crucificadas em palcos de tragédia. Espalhar depois as penas dos pássaros em novelos desfiados. Ser cruel, febrilmente cruel, colher ninhos, abrir crisálidas.

Nasci ontem do meu amanhã, na certeza de que verei todas as luas cheias. E então as outras vazias - e vazios os ninhos.

Na rua, os estames das luzes enferrujam. Quem pensa ainda em árvores?

Se fossem dois pontões a avançar para o mar, seria difícil escolher. Sempre era um mar que se trocava por outro. Assim, fui. Marinheiro bizarro a abraçar-me, o mar era qualquer rosto incógnito. Como podia o mar ser o mar que subia na pedra? Estava maré-cheia.

No pontão, delito pensar, olhar sequer, tomar consciência do mundo. Pelas pernas subiam-me uns pedaços de ondas imprecisas. E então desejei que me arrancassem os olhos e os atirassem à água.

Mais real que a asa sonora da gaivota, tinha ido para estar ali, humanizada como um pontão de pedra.

Chegar ao fim dele podia ser encontrar um começo ao mar. Mas fiquei entregue à violência dos passos intactos. A pureza do medo e a noite baloiçam. Os barcos, de cores sexuais amordaçadas pelo escuro, dão-me vertigens. Chegou um, então, e o pontão de pedra tremeu, sexual também. Doía. Os barcos vivos eram os mortos da morte. Há sempre um outro cais ausente. Se eu agora me voltar e for para o meu dia de vida, como me consolarei da espera inútil? Todas as noites, todas, terei tempo para lá voltar, à mesma hora, esperando por mim, de pé e assustada?

Narro o sorriso de areia na boca dos homens, enquanto o sol é um bidon de óleo, aceso, derramado. À tarde aqueço as mãos nas casas a arder. Na rua, o mesmo incêndio opaco. O vento com laivos de pedra e sangue. Os animais a ruir. E as árvores, primeiras a afogarem-se com os naúfragos.

A mulher a gritar «Os meus braços». A cadeira alta, enigmática, da sala de espera.

A criança a gritar «Os meus olhos». As raízes a apunhalarem o chão, a quebrá-lo, a revolvê-lo, a criá-lo.

O homem a gritar «Os meus dias». Mais solitária a manhã. Irrompendo.

(Poema de Luiza Neto Jorge, do livro 19 Recantos e Outros Poemas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008.)

ARTIMANHAS POÉTICAS 2010


terça-feira, 16 de novembro de 2010

RECITAL DO POETA ÁRABE ADONIS NA CASA DAS ROSAS

No dia 17 de novembro, às 20h, o Instituto da Cultura Árabe (ICArabe), em parceria com a Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura e o apoio da Universidade de São Paulo, Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Cibal Halal e Ateliê Editorial, realiza o “Dîwân dos Poetas lendo Adonis”. O evento contará com apresentação musical e a participação de poetas como os paulistanos Horácio Costa, Moacir Amâncio e Claudio Daniel, o fluminense Marco Lucchesi e os gaúchos Lawrence Flores e Michel Sleiman, que lerão poemas traduzidos ao português. Também será exibido o filme Caminho e atrás de mim caminham as estrelas, de William Farnesi, que traz depoimentos do poeta árabe. Adonis, 80 anos, pseudônimo de Ali Ahmad Said Esber, é nascido na pequena aldeia de Qasabin, na Síria. Em 1957, fundou em Beirute a revista Chi‘r (Poesia), que defendeu, com muito êxito, a renovação da poesia árabe. É autor de vasta obra poética e ensaística, traduzida para diversos idiomas. No Brasil sua poesia está publicada em revistas de literatura e arte. Verteu para o árabe obras da literatura universal, como a de Ovídio, Saint-John Perse e Yves Bonnefoy. Atualmente mora em Paris. Nos últimos anos seu nome tem sido fortemente esperado para o Nobel de Literatura.

“Adonis é a mais importante figura poética do mundo árabe e representante máximo dos chamados ‘poetas tamuzeus’, que revolucionaram a poesia árabe milenar, reinserindo-a nas correntes universais do passado e da contemporaneidade, tanto no campo da literatura como no campo das artes e do pensamento crítico”, explica Michel Sleiman, poeta e presidente do ICArabe. Adonis viria ao Brasil nesse mês de novembro para participar da VI Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), junto a seu tradutor, Michel Sleiman, e o escritor Milton Hatoum. Por problemas de saúde, sua vinda foi adiada.

Dîwân dos Poetas lendo Adonis

Dia 17 de novembro, quarta-feira, às 20h

19h: projeção do filme Caminho e atrás de mim caminham as estrelas (Itália, 2007, 41 min.), de William Farnesi. O filme traz depoimentos do poeta Adonis.

Local: Hall da Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura - Avenida Paulista, 37. F.: 3285.6986 / 3288.9447