sexta-feira, 19 de novembro de 2010

GALERIA: VLADIMIR MAIAKOVSKI


CÂNONE E ANTICÂNONE


Suzanne Bernard, em seu livro Le poème em prose — de Baudelaire jusqu’a nos jours, remonta a origem desse gênero literário à Idade Média. As traduções de poesia clássica grega e romana (como a Odisseia e a Ilíada, de Homero) para a prosa, com o abandono de sua estrutura métrica e rítmica em favor da narrativa, do “conteúdo”, também estão na gênese dessa modalidade criativa (e podemos recordar aqui a tradução que Mallarmé fez do poema O Corvo, de Edgar Allan Poe, que manteve o enredo, a narração, as imagens e o timbre emocional do poema, ao mesmo tempo em que evitou o exigente labor de recriação dos efeitos sonoros tão peculiares do autor norte-americano).

O poema em prosa se estabeleceu como um gênero poético autônomo, com o mesmo grau de refinamento artístico que o soneto, a elegia, a écloga e outras composições escritas em verso graças ao poeta francês Charles Baudelaire, autor de Pequenos poemas em prosa, publicado postumamente, em 1869. No prefácio à tradução brasileira de Gilson Maurity, publicada pela editora Record em 2006, Ivo Barroso define essa obra como “uma série de peças curtas, não metrificadas nem rimadas, mas de teor poético, que o mesmo Baudelaire começou a escrever concomitantemente com As flores do mal a partir de 1855. Inspirando-se no Gaspar de la nuit, de Aloysius Bertrand, esses fragmentos eram uma combinação de narrativas curtas (diríamos hoje minicontos), diário íntimo, aforismos, tiradas anedóticas, descrições, anotações para futuros poemas etc. feitos para publicação em jornais e revistas”. Mais adiante, Barroso cita uma carta que Baudelaire escreveu a Arsène Houssaye, onde o autor francês diz: “Qual de nós, em seus dias de ambição, não sonhou com o milagre de uma prosa poética musical, sem ritmo e sem rima, bastante maleável e bastante rica de contrastes para se adaptar aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da consciência?”.

Tendo encontrado um modo de realizar esse projeto sonhado, Baudelaire abriu caminho para uma longa tradição da poesia francesa e universal, em que podemos incluir obras tão radicais como Uma temporada no inferno, de Rimbaud, Os cantos de Maldoror, de Lautréamont, Igitur, de Mallarmé, O peixe solúvel, de André Breton, até as Galáxias, de Haroldo de Campos.

O que caracteriza esse gênero literário? O poema em prosa, assim como o verso livre, rompe com as normas de construção métrica e rímica e dá um passo além, abolindo a própria distinção entre poesia e prosa, lirismo e narrativa. Ele utiliza recursos tradicionais da arte poética, como a metáfora, a paronomásia, a aliteração, a escolha de palavras pela sonoridade, e não apenas pelo sentido, e constrói o ritmo não pela sequência fixa de sílabas fracas e fortes, e sim pela livre associação de palavras, não raro rompendo com a sintaxe tradicional pelo uso da elipse e pela ausência de pontuação, ou ainda pela construção de frases sem obedecer à lógica discursiva tradicional, do tipo sujeito-verbo-objeto. Ele pode incorporar elementos ficcionais, como acontece nos Cantos de Maldoror, de Lautréamont, ou na Estação no inferno, de Rimbaud, mas sem obedecer à construção linear de tempo e espaço do romance. Sendo uma forma híbrida, incorpora recursos de todos os gêneros literários, inclusive da crônica e do drama, do ensaio e do drama teatral, reelaborando esses recursos, muitas vezes, de forma paródica. O verso livre e o poema em prosa foram as primeiras manifestações da crise do verso clássico, e apontaram a necessidade de criação de novas estruturas para a linguagem poética, o que atingiu um nível de máxima radicalização com o poema Um lance de dados, de Mallarmé, que criou uma sintaxe visual para o poema, com a adoção de diferentes fontes e corpos de letras, de itálicos e negritos, com as palavras e frases distribuídas de forma geométrica no espaço em branco da página, permitindo diferentes sequências de leitura. O Lance de dados abriu caminho para os Caligramas de Apollinaire, a Poesia Concreta e Visual e as atuais experiências realizadas no campo da poesia digital e eletrônica.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

GALERIA: LUIZA NETO JORGE


POEMAS EM PROSA (VIII)

Subitamente vamos pela rua, com a solidão burocrática dentro dos bolsos.

É certamente pela rua que vou. Golfadas de olhos e cabelos e um oboé silencioso. Desalinho. Vagueia um automóvel onírico. É pela rua. Que vamos. Que somos acometidos pelas costas. Estilhaçados de inércia. Poderosos de sexo. Invariáveis.

Descumpem-nos a liberdade dos suicídios macios nas traseiras dos jardins. Ou os partos dramáticos enterrados na areia. É tão verde o sol que nos rompe as órbitas. A casa deserta rodou três vezes.

Com o travesti nocturno da evsão brincamos facilmente aos pássaros bíblicos. Navio mercante de papel colado - qual o teu rumo de papel colado? Quando a bússola soçobrou no lastro do horizonte.

Gritámos com a ambulância exausta. Acenava, de dentro, um homem morto. E a página de fora de um jornal antigo, do dia anterior, antigo, insustentável, com fotografias perfeitas e um eclipse longínquo, na beira do passeio.

Saí de casa ontem. Vou correr mundo, vou matar-me. Emancipada da noite, livre indoloridamente, minha angústia despediu-se, lambeu-me as mãos. Somente a flor prometeu realizar-se ainda. Então parto. Encontrarei o cão das noites líquidas e, na colcha, um cogumelo letárgico de lua.

Mas a árvore do sol está suspensa, anémona gigante rebentada de cor. Escorre, aquaticamente, entre os seios mais pueris e os tapumes e as sarjetas. A flor irrisória no ventre da rapariga. «violetas, quem quer violetas?» - Meus amigos, sou pela paz (podem rasgar, sim, podem rasgar os corações a rir).

Como os comboios passam, só as árvores arrastadas sabem. Enquanto os comboios passam, as estátuas renascem para a morte. Quando os comboios passam, a desculpa das calhas paralelas, o perdão dos crimes paralelos. Se os comboios passam, as pedras castram a liberdade humana.

Sigo para o cabaré distante. Nasce, ao fundo da sala, qualquer mesa vermelha entornada na música. A noite é em lâminas. Sentem-se vários animais febris suspensos dos telhados a tentarem um equilíbrio nos trapézios eléctricos.

É pela rua que vou. Marinham pelo rio ângulos coalhados de casa afogada (ala-ala-arriba pelo tejo inundado de farrapos de almas). Sobre o lodo do rio a ponte floriu, cortou o horizonte em duas longitudes. De um mastro, a gaivota salpica os homens com sons claros, e despenumbra-os, de súbito.

Afogámo-nos num ciclo de vela e de âncora, no rio que corre sem lemes. Arcas de nomes, sumi-vos: só Rio. Só Homem-Cidade de pedra.

Chove todo o segredo das noites em goteiras de vento; a pedra da ruína não mói já passado, secou a lua a chuva aberta das fendas.

Saímos com um relógio ao vivo em cada artéria. O vento, agudo pássaro sem penas, debicou-nos o cabelo no vago medo de um grito. E em cada pedra, a decorar um passo, o desafio macio e inábil duma madrugada caída - do vento, de nós ou de quem? De quem?

A chuva, para quem a quis embalar, foi ovelha com fala de erva e água, um cacto de sonho sugando-lhe os chifres.

Esquecimento de relógio sem corda. Nascemos a vida antecipada, levámo-la, débil, para casa, ensinámos-lhes a longa geometria dos vértices, dos fios de prumo e oblíquas de dia a ranger na chuva.

Chove todo o segredo dos segredos extintos pela rua. À chuva não acontece o possível.

Acontece.

Sinto que posso subir às árvores e colher os ninhos - tenho mãos líricas de ledrão de luas, mãos crucificadas em palcos de tragédia. Espalhar depois as penas dos pássaros em novelos desfiados. Ser cruel, febrilmente cruel, colher ninhos, abrir crisálidas.

Nasci ontem do meu amanhã, na certeza de que verei todas as luas cheias. E então as outras vazias - e vazios os ninhos.

Na rua, os estames das luzes enferrujam. Quem pensa ainda em árvores?

Se fossem dois pontões a avançar para o mar, seria difícil escolher. Sempre era um mar que se trocava por outro. Assim, fui. Marinheiro bizarro a abraçar-me, o mar era qualquer rosto incógnito. Como podia o mar ser o mar que subia na pedra? Estava maré-cheia.

No pontão, delito pensar, olhar sequer, tomar consciência do mundo. Pelas pernas subiam-me uns pedaços de ondas imprecisas. E então desejei que me arrancassem os olhos e os atirassem à água.

Mais real que a asa sonora da gaivota, tinha ido para estar ali, humanizada como um pontão de pedra.

Chegar ao fim dele podia ser encontrar um começo ao mar. Mas fiquei entregue à violência dos passos intactos. A pureza do medo e a noite baloiçam. Os barcos, de cores sexuais amordaçadas pelo escuro, dão-me vertigens. Chegou um, então, e o pontão de pedra tremeu, sexual também. Doía. Os barcos vivos eram os mortos da morte. Há sempre um outro cais ausente. Se eu agora me voltar e for para o meu dia de vida, como me consolarei da espera inútil? Todas as noites, todas, terei tempo para lá voltar, à mesma hora, esperando por mim, de pé e assustada?

Narro o sorriso de areia na boca dos homens, enquanto o sol é um bidon de óleo, aceso, derramado. À tarde aqueço as mãos nas casas a arder. Na rua, o mesmo incêndio opaco. O vento com laivos de pedra e sangue. Os animais a ruir. E as árvores, primeiras a afogarem-se com os naúfragos.

A mulher a gritar «Os meus braços». A cadeira alta, enigmática, da sala de espera.

A criança a gritar «Os meus olhos». As raízes a apunhalarem o chão, a quebrá-lo, a revolvê-lo, a criá-lo.

O homem a gritar «Os meus dias». Mais solitária a manhã. Irrompendo.

(Poema de Luiza Neto Jorge, do livro 19 Recantos e Outros Poemas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008.)

ARTIMANHAS POÉTICAS 2010


terça-feira, 16 de novembro de 2010

RECITAL DO POETA ÁRABE ADONIS NA CASA DAS ROSAS

No dia 17 de novembro, às 20h, o Instituto da Cultura Árabe (ICArabe), em parceria com a Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura e o apoio da Universidade de São Paulo, Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Cibal Halal e Ateliê Editorial, realiza o “Dîwân dos Poetas lendo Adonis”. O evento contará com apresentação musical e a participação de poetas como os paulistanos Horácio Costa, Moacir Amâncio e Claudio Daniel, o fluminense Marco Lucchesi e os gaúchos Lawrence Flores e Michel Sleiman, que lerão poemas traduzidos ao português. Também será exibido o filme Caminho e atrás de mim caminham as estrelas, de William Farnesi, que traz depoimentos do poeta árabe. Adonis, 80 anos, pseudônimo de Ali Ahmad Said Esber, é nascido na pequena aldeia de Qasabin, na Síria. Em 1957, fundou em Beirute a revista Chi‘r (Poesia), que defendeu, com muito êxito, a renovação da poesia árabe. É autor de vasta obra poética e ensaística, traduzida para diversos idiomas. No Brasil sua poesia está publicada em revistas de literatura e arte. Verteu para o árabe obras da literatura universal, como a de Ovídio, Saint-John Perse e Yves Bonnefoy. Atualmente mora em Paris. Nos últimos anos seu nome tem sido fortemente esperado para o Nobel de Literatura.

“Adonis é a mais importante figura poética do mundo árabe e representante máximo dos chamados ‘poetas tamuzeus’, que revolucionaram a poesia árabe milenar, reinserindo-a nas correntes universais do passado e da contemporaneidade, tanto no campo da literatura como no campo das artes e do pensamento crítico”, explica Michel Sleiman, poeta e presidente do ICArabe. Adonis viria ao Brasil nesse mês de novembro para participar da VI Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), junto a seu tradutor, Michel Sleiman, e o escritor Milton Hatoum. Por problemas de saúde, sua vinda foi adiada.

Dîwân dos Poetas lendo Adonis

Dia 17 de novembro, quarta-feira, às 20h

19h: projeção do filme Caminho e atrás de mim caminham as estrelas (Itália, 2007, 41 min.), de William Farnesi. O filme traz depoimentos do poeta Adonis.

Local: Hall da Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura - Avenida Paulista, 37. F.: 3285.6986 / 3288.9447

A CRÍTICA LITERÁRIA E A POESIA


REVISTA COYOTE 21

Poemas do espanhol Leopoldo María Panero, um conto de João Gilberto Noll, textos inéditos de Wilson Bueno, aforismos de Franz Kafka e um ensaio de Jair Ferreira dos Santos são os destaques da revista Coyote 21. “A poesia contorna a Economia. É criação improdutiva como a Festa, o Amor. Não é mercadoria, ignora o interesse, está à margem do calculo” - escreve Jair Ferreira dos Santos em seu ensaio O Pavão é uma Galinha em Flor, publicado no novo número da revista Coyote que ganha as livrarias do Brasil esta semana. Editada em Londrina (PR), Coyote traz uma entrevista com a crítica norte-americana Marjorie Perloff. Julgando boa parte da poesia escrita hoje de "prosa preguiçosa", Perloff dispara: "Minha principal crítica hoje é em relação a falta de interesse no aspecto sonoro e visual da maior parte da poesia que aparece sobre minha mesa". Coyote 21 apresenta ao público brasileiro a poesia radical do espanhol Leopoldo María Panero, traduzido por Vinícius Lima, e aforismos de Franz Kakfa, traduzidos por Silveira de Souza. A revista traz também a literatura de Ivan Justen Santana e Mario Domingues, dois novos talentos da poesia paranaense, além de um conto do londrinense Marco Fabiani. Fotografias da série Autodesconstrução, da artista pernambucana Priscilla Buhr, complementam a edição. A revista Coyote prossegue abrindo espaço para novos autores, resgatando e apresentando nomes importantes das letras e das artes, de épocas e lugares diferentes, instigando a reflexão e a criação literária.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

ÚLTIMAS NOTÍCIAS (ANTES DE PEGAR O AVIÃO...







Armando Freitas Filho recebeu o prêmio Portugal Telecom. Desta vez, foi feita justiça à poesia brasileira.

ARTIMANHAS LITERÁRIAS 2010


DIÁRIO DE UM VIAJANTE

Caros, entre hoje e segunda-feira da próxima semana estarei em Brasília e no Rio de Janeiro, participado de eventos literários. Até lá, não poderei atualizar a Pele de Lontra, mas aguardem novos poemas em prosa e reflexões teóricas sobre o gênero após o meu retorno, ok? Enquanto isso, leiam a Letra Negra antes de dormir...
Há braços,
CD

terça-feira, 9 de novembro de 2010

GALERIA: CRUZ E SOUSA


POEMAS EM PROSA (VII)

UMBRA

Volto da rua.

Noite glacial e melancólica.

Não há nem a mais leve nitidez de aspectos, porque nem a lua, nem as estrelas, ao menos fulgem no firmamento.

Há apenas uma noite escura, cerrada, que lembra o mistério.

Faz frio…

Cai uma chuva miúda e persistente, como fina prata fosca moída e esfarelada do alto…

À turva luz oscilante dos lampiões de petróleo, em linha, dando à noite lúgubres pavores de enterros, vêem-se fundas e extensas valas cavadas de fresco, onde alguns homens ásperos, rudes, com o tom soturno dos mineiros, andam colocando largos tubos de barro para o encanamento das águas da cidade.

A terra, em torno dos formidáveis ventres abertos, revolta e calcária, com imensa quantidade de pedras brutas sobrepostas, dá idéia da derrocada de terrenos abalados por bruscas convulsões subterrâneas.

Instintivamente, diante dessas enormes bocas escancaradas na treva, ali, na rigidez do solo, sentindo na espinha dorsal, como uma tecla elétrica onde se calca de repente a mão, um desconhecido tremor nervoso, que impressiona e gela, pensa-se fatalmente na morte…

ORAÇÃO AO MAR

Ó mar! Estranho Leviatã verde! Formidável pássaro selvagem, que levas nas tuas asas imensas, através do mundo, turbilhões de pérolas e turbilhões de músicas!

Órgão maravilhoso de todos os nostalgismos, de todas as plangências e dolências…

Mar! Mar azul! Mar de ouro! Mar glacial!

Mar das luas trágicas e das luas serenas, meigas como castas adolescentes! Mar dos sóis purpurais, sangrentos, dos nababescos ocasos rubros! No teu seio virgem, de onde se originam as correntes cristalinas da Originalidade, de onde procedem os rios largos e claros do supremo vigor, eu quero guardar, vivos, palpitantes, estes Pensamentos, como tu guardas os corais e as algas.

Nessa frescura iodada, nesse acre e ácido salitre vivificante, eles se perpetuarão, sem mácula, à saúde das tuas águas mucilaginosas onde se geram prodígios como de uma luz imortal fecundadora.

Nos mistérios verdes das tuas ondas, dentre os profundos e amargos Salmos luteranos que elas cantam eternamente, estes pensamentos acerbos viverão para sempre, à augusta solenidade dos astros resplandecentes e mudos.

Rogo-te, ó Mar suntuoso e supremo! para que conserves no íntimo da tu’alma heróica e ateniense toda esta dolorosa Via-Láctea de sensações e idéias, estas emoções e formas evangélicas, religiosas, estas rosas exóticas, de aromas tristes, colhidas com enternecido afeto nas infinitas idéias do Ideal, para perfumar e florir, num Abril e Maio perpétuos, as aras imaculadas da Arte.

Em nenhuma outra região, Mar triunfal! ficarão estes pensamentos melhor guardados do que no fundo das tuas vagas cheias de primorosas relíquias de corações gelados, de noivas pulcras, angélicas, mortas no derradeiro espasmo frio das paixões enervantes…

Lá, nessas ignotas e argentadas areias, estas páginas se eternizarão, sempre puras, sempre brancas, sempre inacessíveis a mãos brutais e poluídas, que as manchem, a olhos sem entendimento, indiferentes e desdenhosos, que as vejam, a espíritos sem harmonia e claridade, que as leiam…

Pelas tuas alegrias radiantes e garças; pelas alacridades salgadas, picantes, primaveris e elétricas que os matinais esplendores derramam, alastram sobre o teu dorso, em pompas; pelas confusas e mefistofélicas orquestrações das borrascas; pelo epiléptico chicotear, pelas vergastantes nevroses dos ventos colossais, que te revolvem; pelas nostálgicas sinfonias que violinam e choram nas harpas das cordoalhas dos Navios, ó Mar! guarda nos recônditos Sacrários d’esmeralda as idéias que este Missal encerra, dá-o, pelas noites, a ler, a meditadoras Estrelas, á emoção do Ângelus espiritualizados e, majestosamente, envolve-o, deixa que Ele repouse, calmo, sereno, por entre as raras púrpuras olímpicas dos teus ocasos…


PAISAGEM DE LUAR

Na nitidez do ar frio, de finas vibrações de cristal, as estrelas crepitam…

Há um rendilhamento, uma lavoragem de pedrarias claras, em fios sutis de cintilações palpitantes, na alva estrada esmaltada da Via-Láctea.

Uma serenidade de maio adormecido entre frouxéis de verdura cai do veludo do firmamento, torna a noite mais solitária e profunda.

O Mar, pontilhado dos astros, faísca, fosforesce e rutila, agitando o dorso Glauco.

E, de leve, de manso, um clarão branco, lânguido, lívido vem subindo dos montes, escorrendo fluido nas folhagens, que prateiam-se logo, como se fabuloso artista invisível as prateasse e as polisse.

A lua cheia transborda em rio de neve na paisagem, e, no mar, há pouco apenas fagulhante da iriação das estrelas, a lua jorra do alto.

Por ele afora, pelo vasto mar espelhado, pequenas embarcações se destacam agora, alígeras, lépidas, à pesca da noite, velas brancas serenas, sob a constelação dos espaços.

A água repercute, na amorosa solidão do luar, a barcarola sonora dos pescadores, que, de entre a glacial amplidão da água, mais fresca e sonora, vibra.

Um aspecto de natureza, verde, virgem, que repousa, estende-se nos longes, desce aos prados, sobe às montanhas e infinitamente espalha-se nas mudas praias alvejantes.

E, à proporção que a lua mais vai subindo o páramo, à proporção que ela mais galga a altura, mais as pequenas embarcações de pesca avançam nas vagas resplandecentes, com as asas das velas abertas à salitrosa emanação marinha.

Com o brilho fúlgido, aceso, d’esmeralda facetada, uma estrela parece peregrinamente acompanhar de perto a lua, num ritmo harmonioso…

Perfumes salutares, tonificantes eflúvios exalam-se da frescura nova, imaculada dos campos, como dum viçoso e casto florir de magnólias, na volúpia da natureza adormecida numa alvura de linhos, dentre opulências de Noivados.

(Do livro Missal, de Cruz e Sousa, publicado em 1893, que introduziu o poema em prosa no Brasil.)

domingo, 7 de novembro de 2010

GALERIA: FRANCIS PONGE


POEMAS EM PROSA (VI)

O FOGO

O fogo faz uma classificação: primeiro, as chamas todas vão num sentido qualquer...

(Só pode comparar o andar do fogo ao dos animais: é preciso que deixe um lugar para ocupar um outro; anda ao mesmo tempo como uma ameba e como uma girafa: arriba o pescoço, salta – as patas de rojo)...

Depois, enquanto as massas contaminadas com método se desmoronam, os gases que escapam vão sendo transformados pouco a pouco numa só ribalta de borboletas.


A VELA

A noite reaviva, às vezes, uma planta singular cujo clarão decompõe os cômodos em maciços de sombra.

Seu fogo impassível se esfolha em ouro no côncavo de uma coluneta de alabastro, preso a um pedúnculo muito negro.

As mariposas maltrapilhas assaltam-na de preferência quando vai alta a lua que vaporiza os bosques. Mas, queimadas no mesmo instante ou peneiradas na refrega, fremem todas à beira de um frenesi vizinho do estupor.

Entretanto, a vela, com as vacilações da claridade, na súbita liberação das fumaças originais, encoraja o leitor – depois, se inclina sobre o seu sustento e se afoga no prato.


A BORBOLETA

Quando o açúcar elaborado nos talos surge no fundo das flores, como xícaras mal lavadas - um grande esforço se produz no solo de onde, súbito, as borboletas alçam voo.

Porém, como cada lagarta teve a cabeça ofuscada e enegrecida, e o torso adelgaçado pela verdadeira explosão de onde as asas simétricas flamejaram,

Desde então, a borboleta errática só pousa ao acaso do percurso, ou quase isso.

Fósforo voejante, sua chama não é contagiosa. E, além do mais, ela chega muito tarde e pode apenas constatar as flores desabrochadas. Não importa: comportando-se como acendedora de lâmpadas, verifica a provisão de óleo de cada uma. Pousa no cimo das flores o farrapo atrofiado que carrega e vinga assim sua longa humilhação amorfa de lagarta ao pé dos caules.

Minúsculo veleiro dos ares maltratado pelo vento como pétala superfetatória, vagabundeia pelo jardim


(Poemas de Francis Ponge, do livro Le parti pris des choses, traduzidos por Adalberto Muller e Carlos Loria)

sábado, 6 de novembro de 2010

GALERIA: HENRI MICHAUX


POEMAS EM PROSA (V)

MAGIA

I

Antigamente eu era muito nervoso. Agora estou num novo caminho:

Coloco uma maçã em cima da mesa. Depois me coloco dentro da maçã. Que tranquilidade!

Isso parece simples. Entretanto, havia vinte anos que tentava; e não teria conseguido, querendo começar por ali. Por que não? Talvez me sentisse humilhado em virtude de seu tamanho diminuto e de sua vida opaca e lenta. É provável. Os pensamentos da camada inferior raramente são belos.

Então comecei de outra forma e me uni ao Escalda.

Em Anvers, onde eu o encontrava, o Escalda é largo e importante e movimenta um grande fluxo. Ele recebe os navios de alto bordo que se aproximam. É um rio, um verdadeiro rio.

Decidi unir-me a ele. Permanecia no cais o dia inteiro. Mas eu me dispersava em numerosas e inúteis perspectivas.

E depois, à minha revelia, olhava as mulheres de vez em quando, e isso não condiz com um rio, nem com uma maçã, nem com nada na natureza.

Então o Escalda e mil sensações. O que fazer? Subitamente, tendo renunciado a tudo, encontrei-me..., não direi em seu lugar, pois, na verdade, nunca foi exatamente assim. Ele corre incessantemente (eis uma grande dificuldade) e desliza em direção à Holanda onde encontrará o mar e a altitude zero.

Retorno à maçã. Lá, novamente, houve tateios, experiências; é uma longa história. Partir é pouco cômodo, assim como falar sobre isso.

Mas, em uma palavra, posso dizer-lhes. Sofrer é a palavra.

Quando cheguei à maçã, estava congelado.


II


Assim que a vi, desejei-a.

De início, para seduzi-la, disseminei planícies e planícies. Planícies saídas do meu olhar estendiam-se doces, amáveis, reconfortantes.

As idéias de planície foram ao encontro dela e, sem o saber, ela as percorria, sentindo-se satisfeita.

Percebendo-a bem segura, eu a possuí.

Isso feito, depois de um pouco de repouso e quietude, voltando ao meu natural, deixei reaparecerem minhas lanças, meus trapos, meus precipícios.

Ela sentiu um grande frio e que tinha se enganado completamente a meu respeito.

Ela foi embora, a fisionomia desfeita e esvaziada, como se tivesse sido roubada.


III

Acho difícil acreditar que isso seja natural e conhecido por todos. Às vezes eu fico tão profundamente entranhado em mim mesmo numa bolha única e densa que, sentado sobre uma cadeira, a menos de dois metros da lâmpada colocada sobre a mesa de trabalho, é com grande dificuldade e após um longo tempo que, apesar dos olhos bem abertos, consigo lançar um olhar até ela.

Uma emoção estranha toma conta de mim quando dou esse depoimento sobre o círculo que me isola.

Parece-me que um obus ou até mesmo um raio não conseguiriam me atingir de tantas camadas de todas as partes que tenho aplicadas sobre mim.

Simplesmente, seria bom que a raiz da angústia estivesse enterrada por algum tempo.

Nesses momentos eu tenho a imobilidade de uma cova.


IV

Este dente da frente cariado me enfiava as suas agulhas muito acima da raiz, quase sob o nariz. Terrível sensação!

E a magia? Talvez, mas então é preciso alojar-se em bloco quase sob o nariz. Que desequilíbrio! E eu hesitava, ocupado com outras coisas, um estudo sobre a linguagem.

Nesse momento uma velha otite, que dormia há cinco anos, despertou com sua fina perfuração no fundo da orelha.

Portanto, eu precisava me decidir. Molhado, melhor lançar-se à água. Abalado em sua posição de equilíbrio, melhor procurar outra.

Abandono então o estudo e me concentro. Em três ou quatro minutos, elimino a dor da otite (eu conhecia o caminho). Quanto ao dente, precisaria do dobro de tempo. Ela ocupava um lugar tão ridículo, quase sob o nariz. Por fim ela desaparece.

É sempre assim; só a primeira vez é uma surpresa. A dificuldade é encontrar o lugar da dor. Assegurado o lugar, é só dirigir-se naquela direção, às apalpadelas na sua noite, procurando circunscrevê-lo (por não terem concentração, os ansiosos sentem a dor em todos os lugares), depois, à medida que é circundado, deve-se observá-lo mais cuidadosamente, pois ele se torna menor, menor, dez vezes menor que uma ponta de agulha; todavia, você o vigia sem descanso, com atenção crescente, projetando nele sua euforia até que não haja diante de você nenhum núcleo de dor. Você realmente o encontrou.

Agora, é preciso permanecer ali sem esforço. Cinco minutos de concentração devem produzir uma hora e meia ou duas horas de calma e insensibilidade. Falo em relação aos homens que não são especialmente fortes ou dotados; por sinal é o “meu tempo”.

(Por causa da inflamação dos tecidos, subsiste uma sensação de pressão, de pequeno volume isolado, como subsiste após a injeção de um líquido anestésico.)


V

Sou tão fraco (eu o era, sobretudo), que se pudesse coincidir em espírito com o que quer que fosse, eu seria imediatamente subjugado e engolido por ele e estaria inteiramente sob sua dependência; mas eu fico de olho, atento, antes aferrado a ser sempre muito exclusivamente eu. Graças a essa disciplina, agora tenho chances cada vez maiores de nunca coincidir com nenhum espírito e de poder circular livremente nesse mundo.

Melhor assim! Tendo me fortalecido a esse ponto, lançarei um desafio ao mais poderoso dos homens. O que a sua vontade me faria? Eu me tornei tão agudo e circunstanciado que, estando diante dele, ele não conseguiria encontrar-me.
(Poemas de Henri Michaux traduzidos por Izabela Leal. Leia mais no link de Tradução da Zunái.)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

GALERIA: LAUTRÉAMONT


POEMAS EM PROSA (IV)

FRAGMENTOS DE OS CANTOS DE MALDOROR

Sou filho do homem e da mulher, ao que me dizem. Isso me espanta... acreditava ser mais! De resto, que me importa de onde venho? Se isso dependesse de minha vontade, teria preferido ser o filho da fêmea do tubarão, cuja fome é amiga das tempestades, e do tigre, cuja crueldade é reconhecida: eu não seria tão mau. Vós que me encarais, afastai-vos de mim, pois meu hálito exala um sopro envenenado. Ninguém viu ainda as rugas verdes do meu rosto; nem os ossos salientes de minha fisionomia magra, semelhantes às espinhas de algum peixe gigante, ou aos rochedos que cobrem a beira-mar, ou às abruptas montanhas alpestres, que percorri muitas vezes quando tinha sobre a cabeça cabelos de outra cor. E, quando rondo as habitações dos homens, durante as noites tempestuosas, de olhos ardentes, cabelos flagelados pelo vento da intempérie, isolado como uma pedra no meio do caminho, cubro meu rosto abatido com um pedaço de veludo, negro como a fuligem que enche o interior das chaminés: não é preciso que os olhos sejam testemunhas da feiúra que o Ser supremo, com um sorriso de ódio poderoso, pôs em mim.

(Do Canto I)

Lá, em um bosque rodeado de flores, repousa o hermafrodita, profundamente adormecido na relva, molhado por seu pranto. A lua separou seu disco da massa de nuvens, e acaricia com seus pálidos raios essa doce fisionomia de adolescente. (...) Cansado da vida, envergonhado por caminhar entre seres que não se assemelham a ele, o desespero tomou conta de sua alma, e prossegue sozinho, como o mendigo do vale. Como obtém meios de subsistência? Almas caridosas velam de perto por ele, que não suspeita dessa vigilância, e não o abandonam: ele é tão bom! Ele é tão resignado! (...) Tomam-no geralmente por louco. Um dia, quatro homens mascarados, que cumpriam ordens, atiraram-se sobre ele, e o amarraram solidamente, de tal modo que só pudesse mexer as pernas. O chicote abateu seus rudes látegos sobre suas costas, e lhe disseram que se dirigisse sem demora para a estrada, que leva a Bicêtre. Ele se pôs a sorrir enquanto recebia os açoites, e lhes falou com tamanho sentimento e inteligência sobre as muitas ciências humanas que havia estudado, demonstrando tamanha instrução (...) que seus guardiões, assustados até a medula pelo ato que haviam cometido, desamarraram seus membros quebrados, prosternaram-se de joelhos, pedindo um perdão que lhes foi concedido, e se afastaram, com os sinais de uma veneração que não se concede ordinariamente aos homens.

(Do Canto II)

(Lautréamont, Os Cantos de Maldoror, in Obras Completas. São Paulo: Iluminuras, 1997. Tradução de Claudio Willer.)