quarta-feira, 17 de novembro de 2010

terça-feira, 16 de novembro de 2010

RECITAL DO POETA ÁRABE ADONIS NA CASA DAS ROSAS

No dia 17 de novembro, às 20h, o Instituto da Cultura Árabe (ICArabe), em parceria com a Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura e o apoio da Universidade de São Paulo, Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Cibal Halal e Ateliê Editorial, realiza o “Dîwân dos Poetas lendo Adonis”. O evento contará com apresentação musical e a participação de poetas como os paulistanos Horácio Costa, Moacir Amâncio e Claudio Daniel, o fluminense Marco Lucchesi e os gaúchos Lawrence Flores e Michel Sleiman, que lerão poemas traduzidos ao português. Também será exibido o filme Caminho e atrás de mim caminham as estrelas, de William Farnesi, que traz depoimentos do poeta árabe. Adonis, 80 anos, pseudônimo de Ali Ahmad Said Esber, é nascido na pequena aldeia de Qasabin, na Síria. Em 1957, fundou em Beirute a revista Chi‘r (Poesia), que defendeu, com muito êxito, a renovação da poesia árabe. É autor de vasta obra poética e ensaística, traduzida para diversos idiomas. No Brasil sua poesia está publicada em revistas de literatura e arte. Verteu para o árabe obras da literatura universal, como a de Ovídio, Saint-John Perse e Yves Bonnefoy. Atualmente mora em Paris. Nos últimos anos seu nome tem sido fortemente esperado para o Nobel de Literatura.

“Adonis é a mais importante figura poética do mundo árabe e representante máximo dos chamados ‘poetas tamuzeus’, que revolucionaram a poesia árabe milenar, reinserindo-a nas correntes universais do passado e da contemporaneidade, tanto no campo da literatura como no campo das artes e do pensamento crítico”, explica Michel Sleiman, poeta e presidente do ICArabe. Adonis viria ao Brasil nesse mês de novembro para participar da VI Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), junto a seu tradutor, Michel Sleiman, e o escritor Milton Hatoum. Por problemas de saúde, sua vinda foi adiada.

Dîwân dos Poetas lendo Adonis

Dia 17 de novembro, quarta-feira, às 20h

19h: projeção do filme Caminho e atrás de mim caminham as estrelas (Itália, 2007, 41 min.), de William Farnesi. O filme traz depoimentos do poeta Adonis.

Local: Hall da Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura - Avenida Paulista, 37. F.: 3285.6986 / 3288.9447

A CRÍTICA LITERÁRIA E A POESIA


REVISTA COYOTE 21

Poemas do espanhol Leopoldo María Panero, um conto de João Gilberto Noll, textos inéditos de Wilson Bueno, aforismos de Franz Kafka e um ensaio de Jair Ferreira dos Santos são os destaques da revista Coyote 21. “A poesia contorna a Economia. É criação improdutiva como a Festa, o Amor. Não é mercadoria, ignora o interesse, está à margem do calculo” - escreve Jair Ferreira dos Santos em seu ensaio O Pavão é uma Galinha em Flor, publicado no novo número da revista Coyote que ganha as livrarias do Brasil esta semana. Editada em Londrina (PR), Coyote traz uma entrevista com a crítica norte-americana Marjorie Perloff. Julgando boa parte da poesia escrita hoje de "prosa preguiçosa", Perloff dispara: "Minha principal crítica hoje é em relação a falta de interesse no aspecto sonoro e visual da maior parte da poesia que aparece sobre minha mesa". Coyote 21 apresenta ao público brasileiro a poesia radical do espanhol Leopoldo María Panero, traduzido por Vinícius Lima, e aforismos de Franz Kakfa, traduzidos por Silveira de Souza. A revista traz também a literatura de Ivan Justen Santana e Mario Domingues, dois novos talentos da poesia paranaense, além de um conto do londrinense Marco Fabiani. Fotografias da série Autodesconstrução, da artista pernambucana Priscilla Buhr, complementam a edição. A revista Coyote prossegue abrindo espaço para novos autores, resgatando e apresentando nomes importantes das letras e das artes, de épocas e lugares diferentes, instigando a reflexão e a criação literária.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

ÚLTIMAS NOTÍCIAS (ANTES DE PEGAR O AVIÃO...







Armando Freitas Filho recebeu o prêmio Portugal Telecom. Desta vez, foi feita justiça à poesia brasileira.

ARTIMANHAS LITERÁRIAS 2010


DIÁRIO DE UM VIAJANTE

Caros, entre hoje e segunda-feira da próxima semana estarei em Brasília e no Rio de Janeiro, participado de eventos literários. Até lá, não poderei atualizar a Pele de Lontra, mas aguardem novos poemas em prosa e reflexões teóricas sobre o gênero após o meu retorno, ok? Enquanto isso, leiam a Letra Negra antes de dormir...
Há braços,
CD

terça-feira, 9 de novembro de 2010

GALERIA: CRUZ E SOUSA


POEMAS EM PROSA (VII)

UMBRA

Volto da rua.

Noite glacial e melancólica.

Não há nem a mais leve nitidez de aspectos, porque nem a lua, nem as estrelas, ao menos fulgem no firmamento.

Há apenas uma noite escura, cerrada, que lembra o mistério.

Faz frio…

Cai uma chuva miúda e persistente, como fina prata fosca moída e esfarelada do alto…

À turva luz oscilante dos lampiões de petróleo, em linha, dando à noite lúgubres pavores de enterros, vêem-se fundas e extensas valas cavadas de fresco, onde alguns homens ásperos, rudes, com o tom soturno dos mineiros, andam colocando largos tubos de barro para o encanamento das águas da cidade.

A terra, em torno dos formidáveis ventres abertos, revolta e calcária, com imensa quantidade de pedras brutas sobrepostas, dá idéia da derrocada de terrenos abalados por bruscas convulsões subterrâneas.

Instintivamente, diante dessas enormes bocas escancaradas na treva, ali, na rigidez do solo, sentindo na espinha dorsal, como uma tecla elétrica onde se calca de repente a mão, um desconhecido tremor nervoso, que impressiona e gela, pensa-se fatalmente na morte…

ORAÇÃO AO MAR

Ó mar! Estranho Leviatã verde! Formidável pássaro selvagem, que levas nas tuas asas imensas, através do mundo, turbilhões de pérolas e turbilhões de músicas!

Órgão maravilhoso de todos os nostalgismos, de todas as plangências e dolências…

Mar! Mar azul! Mar de ouro! Mar glacial!

Mar das luas trágicas e das luas serenas, meigas como castas adolescentes! Mar dos sóis purpurais, sangrentos, dos nababescos ocasos rubros! No teu seio virgem, de onde se originam as correntes cristalinas da Originalidade, de onde procedem os rios largos e claros do supremo vigor, eu quero guardar, vivos, palpitantes, estes Pensamentos, como tu guardas os corais e as algas.

Nessa frescura iodada, nesse acre e ácido salitre vivificante, eles se perpetuarão, sem mácula, à saúde das tuas águas mucilaginosas onde se geram prodígios como de uma luz imortal fecundadora.

Nos mistérios verdes das tuas ondas, dentre os profundos e amargos Salmos luteranos que elas cantam eternamente, estes pensamentos acerbos viverão para sempre, à augusta solenidade dos astros resplandecentes e mudos.

Rogo-te, ó Mar suntuoso e supremo! para que conserves no íntimo da tu’alma heróica e ateniense toda esta dolorosa Via-Láctea de sensações e idéias, estas emoções e formas evangélicas, religiosas, estas rosas exóticas, de aromas tristes, colhidas com enternecido afeto nas infinitas idéias do Ideal, para perfumar e florir, num Abril e Maio perpétuos, as aras imaculadas da Arte.

Em nenhuma outra região, Mar triunfal! ficarão estes pensamentos melhor guardados do que no fundo das tuas vagas cheias de primorosas relíquias de corações gelados, de noivas pulcras, angélicas, mortas no derradeiro espasmo frio das paixões enervantes…

Lá, nessas ignotas e argentadas areias, estas páginas se eternizarão, sempre puras, sempre brancas, sempre inacessíveis a mãos brutais e poluídas, que as manchem, a olhos sem entendimento, indiferentes e desdenhosos, que as vejam, a espíritos sem harmonia e claridade, que as leiam…

Pelas tuas alegrias radiantes e garças; pelas alacridades salgadas, picantes, primaveris e elétricas que os matinais esplendores derramam, alastram sobre o teu dorso, em pompas; pelas confusas e mefistofélicas orquestrações das borrascas; pelo epiléptico chicotear, pelas vergastantes nevroses dos ventos colossais, que te revolvem; pelas nostálgicas sinfonias que violinam e choram nas harpas das cordoalhas dos Navios, ó Mar! guarda nos recônditos Sacrários d’esmeralda as idéias que este Missal encerra, dá-o, pelas noites, a ler, a meditadoras Estrelas, á emoção do Ângelus espiritualizados e, majestosamente, envolve-o, deixa que Ele repouse, calmo, sereno, por entre as raras púrpuras olímpicas dos teus ocasos…


PAISAGEM DE LUAR

Na nitidez do ar frio, de finas vibrações de cristal, as estrelas crepitam…

Há um rendilhamento, uma lavoragem de pedrarias claras, em fios sutis de cintilações palpitantes, na alva estrada esmaltada da Via-Láctea.

Uma serenidade de maio adormecido entre frouxéis de verdura cai do veludo do firmamento, torna a noite mais solitária e profunda.

O Mar, pontilhado dos astros, faísca, fosforesce e rutila, agitando o dorso Glauco.

E, de leve, de manso, um clarão branco, lânguido, lívido vem subindo dos montes, escorrendo fluido nas folhagens, que prateiam-se logo, como se fabuloso artista invisível as prateasse e as polisse.

A lua cheia transborda em rio de neve na paisagem, e, no mar, há pouco apenas fagulhante da iriação das estrelas, a lua jorra do alto.

Por ele afora, pelo vasto mar espelhado, pequenas embarcações se destacam agora, alígeras, lépidas, à pesca da noite, velas brancas serenas, sob a constelação dos espaços.

A água repercute, na amorosa solidão do luar, a barcarola sonora dos pescadores, que, de entre a glacial amplidão da água, mais fresca e sonora, vibra.

Um aspecto de natureza, verde, virgem, que repousa, estende-se nos longes, desce aos prados, sobe às montanhas e infinitamente espalha-se nas mudas praias alvejantes.

E, à proporção que a lua mais vai subindo o páramo, à proporção que ela mais galga a altura, mais as pequenas embarcações de pesca avançam nas vagas resplandecentes, com as asas das velas abertas à salitrosa emanação marinha.

Com o brilho fúlgido, aceso, d’esmeralda facetada, uma estrela parece peregrinamente acompanhar de perto a lua, num ritmo harmonioso…

Perfumes salutares, tonificantes eflúvios exalam-se da frescura nova, imaculada dos campos, como dum viçoso e casto florir de magnólias, na volúpia da natureza adormecida numa alvura de linhos, dentre opulências de Noivados.

(Do livro Missal, de Cruz e Sousa, publicado em 1893, que introduziu o poema em prosa no Brasil.)

domingo, 7 de novembro de 2010

GALERIA: FRANCIS PONGE


POEMAS EM PROSA (VI)

O FOGO

O fogo faz uma classificação: primeiro, as chamas todas vão num sentido qualquer...

(Só pode comparar o andar do fogo ao dos animais: é preciso que deixe um lugar para ocupar um outro; anda ao mesmo tempo como uma ameba e como uma girafa: arriba o pescoço, salta – as patas de rojo)...

Depois, enquanto as massas contaminadas com método se desmoronam, os gases que escapam vão sendo transformados pouco a pouco numa só ribalta de borboletas.


A VELA

A noite reaviva, às vezes, uma planta singular cujo clarão decompõe os cômodos em maciços de sombra.

Seu fogo impassível se esfolha em ouro no côncavo de uma coluneta de alabastro, preso a um pedúnculo muito negro.

As mariposas maltrapilhas assaltam-na de preferência quando vai alta a lua que vaporiza os bosques. Mas, queimadas no mesmo instante ou peneiradas na refrega, fremem todas à beira de um frenesi vizinho do estupor.

Entretanto, a vela, com as vacilações da claridade, na súbita liberação das fumaças originais, encoraja o leitor – depois, se inclina sobre o seu sustento e se afoga no prato.


A BORBOLETA

Quando o açúcar elaborado nos talos surge no fundo das flores, como xícaras mal lavadas - um grande esforço se produz no solo de onde, súbito, as borboletas alçam voo.

Porém, como cada lagarta teve a cabeça ofuscada e enegrecida, e o torso adelgaçado pela verdadeira explosão de onde as asas simétricas flamejaram,

Desde então, a borboleta errática só pousa ao acaso do percurso, ou quase isso.

Fósforo voejante, sua chama não é contagiosa. E, além do mais, ela chega muito tarde e pode apenas constatar as flores desabrochadas. Não importa: comportando-se como acendedora de lâmpadas, verifica a provisão de óleo de cada uma. Pousa no cimo das flores o farrapo atrofiado que carrega e vinga assim sua longa humilhação amorfa de lagarta ao pé dos caules.

Minúsculo veleiro dos ares maltratado pelo vento como pétala superfetatória, vagabundeia pelo jardim


(Poemas de Francis Ponge, do livro Le parti pris des choses, traduzidos por Adalberto Muller e Carlos Loria)

sábado, 6 de novembro de 2010

GALERIA: HENRI MICHAUX


POEMAS EM PROSA (V)

MAGIA

I

Antigamente eu era muito nervoso. Agora estou num novo caminho:

Coloco uma maçã em cima da mesa. Depois me coloco dentro da maçã. Que tranquilidade!

Isso parece simples. Entretanto, havia vinte anos que tentava; e não teria conseguido, querendo começar por ali. Por que não? Talvez me sentisse humilhado em virtude de seu tamanho diminuto e de sua vida opaca e lenta. É provável. Os pensamentos da camada inferior raramente são belos.

Então comecei de outra forma e me uni ao Escalda.

Em Anvers, onde eu o encontrava, o Escalda é largo e importante e movimenta um grande fluxo. Ele recebe os navios de alto bordo que se aproximam. É um rio, um verdadeiro rio.

Decidi unir-me a ele. Permanecia no cais o dia inteiro. Mas eu me dispersava em numerosas e inúteis perspectivas.

E depois, à minha revelia, olhava as mulheres de vez em quando, e isso não condiz com um rio, nem com uma maçã, nem com nada na natureza.

Então o Escalda e mil sensações. O que fazer? Subitamente, tendo renunciado a tudo, encontrei-me..., não direi em seu lugar, pois, na verdade, nunca foi exatamente assim. Ele corre incessantemente (eis uma grande dificuldade) e desliza em direção à Holanda onde encontrará o mar e a altitude zero.

Retorno à maçã. Lá, novamente, houve tateios, experiências; é uma longa história. Partir é pouco cômodo, assim como falar sobre isso.

Mas, em uma palavra, posso dizer-lhes. Sofrer é a palavra.

Quando cheguei à maçã, estava congelado.


II


Assim que a vi, desejei-a.

De início, para seduzi-la, disseminei planícies e planícies. Planícies saídas do meu olhar estendiam-se doces, amáveis, reconfortantes.

As idéias de planície foram ao encontro dela e, sem o saber, ela as percorria, sentindo-se satisfeita.

Percebendo-a bem segura, eu a possuí.

Isso feito, depois de um pouco de repouso e quietude, voltando ao meu natural, deixei reaparecerem minhas lanças, meus trapos, meus precipícios.

Ela sentiu um grande frio e que tinha se enganado completamente a meu respeito.

Ela foi embora, a fisionomia desfeita e esvaziada, como se tivesse sido roubada.


III

Acho difícil acreditar que isso seja natural e conhecido por todos. Às vezes eu fico tão profundamente entranhado em mim mesmo numa bolha única e densa que, sentado sobre uma cadeira, a menos de dois metros da lâmpada colocada sobre a mesa de trabalho, é com grande dificuldade e após um longo tempo que, apesar dos olhos bem abertos, consigo lançar um olhar até ela.

Uma emoção estranha toma conta de mim quando dou esse depoimento sobre o círculo que me isola.

Parece-me que um obus ou até mesmo um raio não conseguiriam me atingir de tantas camadas de todas as partes que tenho aplicadas sobre mim.

Simplesmente, seria bom que a raiz da angústia estivesse enterrada por algum tempo.

Nesses momentos eu tenho a imobilidade de uma cova.


IV

Este dente da frente cariado me enfiava as suas agulhas muito acima da raiz, quase sob o nariz. Terrível sensação!

E a magia? Talvez, mas então é preciso alojar-se em bloco quase sob o nariz. Que desequilíbrio! E eu hesitava, ocupado com outras coisas, um estudo sobre a linguagem.

Nesse momento uma velha otite, que dormia há cinco anos, despertou com sua fina perfuração no fundo da orelha.

Portanto, eu precisava me decidir. Molhado, melhor lançar-se à água. Abalado em sua posição de equilíbrio, melhor procurar outra.

Abandono então o estudo e me concentro. Em três ou quatro minutos, elimino a dor da otite (eu conhecia o caminho). Quanto ao dente, precisaria do dobro de tempo. Ela ocupava um lugar tão ridículo, quase sob o nariz. Por fim ela desaparece.

É sempre assim; só a primeira vez é uma surpresa. A dificuldade é encontrar o lugar da dor. Assegurado o lugar, é só dirigir-se naquela direção, às apalpadelas na sua noite, procurando circunscrevê-lo (por não terem concentração, os ansiosos sentem a dor em todos os lugares), depois, à medida que é circundado, deve-se observá-lo mais cuidadosamente, pois ele se torna menor, menor, dez vezes menor que uma ponta de agulha; todavia, você o vigia sem descanso, com atenção crescente, projetando nele sua euforia até que não haja diante de você nenhum núcleo de dor. Você realmente o encontrou.

Agora, é preciso permanecer ali sem esforço. Cinco minutos de concentração devem produzir uma hora e meia ou duas horas de calma e insensibilidade. Falo em relação aos homens que não são especialmente fortes ou dotados; por sinal é o “meu tempo”.

(Por causa da inflamação dos tecidos, subsiste uma sensação de pressão, de pequeno volume isolado, como subsiste após a injeção de um líquido anestésico.)


V

Sou tão fraco (eu o era, sobretudo), que se pudesse coincidir em espírito com o que quer que fosse, eu seria imediatamente subjugado e engolido por ele e estaria inteiramente sob sua dependência; mas eu fico de olho, atento, antes aferrado a ser sempre muito exclusivamente eu. Graças a essa disciplina, agora tenho chances cada vez maiores de nunca coincidir com nenhum espírito e de poder circular livremente nesse mundo.

Melhor assim! Tendo me fortalecido a esse ponto, lançarei um desafio ao mais poderoso dos homens. O que a sua vontade me faria? Eu me tornei tão agudo e circunstanciado que, estando diante dele, ele não conseguiria encontrar-me.
(Poemas de Henri Michaux traduzidos por Izabela Leal. Leia mais no link de Tradução da Zunái.)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

GALERIA: LAUTRÉAMONT


POEMAS EM PROSA (IV)

FRAGMENTOS DE OS CANTOS DE MALDOROR

Sou filho do homem e da mulher, ao que me dizem. Isso me espanta... acreditava ser mais! De resto, que me importa de onde venho? Se isso dependesse de minha vontade, teria preferido ser o filho da fêmea do tubarão, cuja fome é amiga das tempestades, e do tigre, cuja crueldade é reconhecida: eu não seria tão mau. Vós que me encarais, afastai-vos de mim, pois meu hálito exala um sopro envenenado. Ninguém viu ainda as rugas verdes do meu rosto; nem os ossos salientes de minha fisionomia magra, semelhantes às espinhas de algum peixe gigante, ou aos rochedos que cobrem a beira-mar, ou às abruptas montanhas alpestres, que percorri muitas vezes quando tinha sobre a cabeça cabelos de outra cor. E, quando rondo as habitações dos homens, durante as noites tempestuosas, de olhos ardentes, cabelos flagelados pelo vento da intempérie, isolado como uma pedra no meio do caminho, cubro meu rosto abatido com um pedaço de veludo, negro como a fuligem que enche o interior das chaminés: não é preciso que os olhos sejam testemunhas da feiúra que o Ser supremo, com um sorriso de ódio poderoso, pôs em mim.

(Do Canto I)

Lá, em um bosque rodeado de flores, repousa o hermafrodita, profundamente adormecido na relva, molhado por seu pranto. A lua separou seu disco da massa de nuvens, e acaricia com seus pálidos raios essa doce fisionomia de adolescente. (...) Cansado da vida, envergonhado por caminhar entre seres que não se assemelham a ele, o desespero tomou conta de sua alma, e prossegue sozinho, como o mendigo do vale. Como obtém meios de subsistência? Almas caridosas velam de perto por ele, que não suspeita dessa vigilância, e não o abandonam: ele é tão bom! Ele é tão resignado! (...) Tomam-no geralmente por louco. Um dia, quatro homens mascarados, que cumpriam ordens, atiraram-se sobre ele, e o amarraram solidamente, de tal modo que só pudesse mexer as pernas. O chicote abateu seus rudes látegos sobre suas costas, e lhe disseram que se dirigisse sem demora para a estrada, que leva a Bicêtre. Ele se pôs a sorrir enquanto recebia os açoites, e lhes falou com tamanho sentimento e inteligência sobre as muitas ciências humanas que havia estudado, demonstrando tamanha instrução (...) que seus guardiões, assustados até a medula pelo ato que haviam cometido, desamarraram seus membros quebrados, prosternaram-se de joelhos, pedindo um perdão que lhes foi concedido, e se afastaram, com os sinais de uma veneração que não se concede ordinariamente aos homens.

(Do Canto II)

(Lautréamont, Os Cantos de Maldoror, in Obras Completas. São Paulo: Iluminuras, 1997. Tradução de Claudio Willer.)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

GALERIA: STÉPHANE MALLARMÉ


POEMAS EM PROSA (III)

FRAGMENTOS DE IGITUR

(INTRODUÇÃO)

Antigo Estudo

Quando os sopros de seus ancestrais querem soprar a vela, (graças à qual, talvez, ainda perduram os caracteres do livro de magia) – ele diz “Ainda não!”

Ele mesmo, no fim, quando os ruídos terão sumido, comprovará a evidência de algo grandioso (nenhum astro? o acaso anulado?) do simples fato de poder ocasionar a sombra, soprando sobre a luz.

Depois – como ele terá falado conforme o absoluto – que nega a imortalidade, o absoluto existirá fora – lua, acima do tempo: e ele erguerá as cortinas em frente.

(ARGUMENTO)

4 PARTES:

1 – A Meia-Noite
2 – A Escada
3 – O lance de dados
4 – O descanso sobre as cinzas, após a vela apagada

Mais ou menos o que se segue:
Meia Noite soa — a Meia Noite em que devem ser lançados os dados. Igitur desce as escadas, do espírito humano, vai ao fundo das coisas: “absoluto” como está. Túmulos – cinzas (nenhum sentimento, nem espírito), neutralidade. Ele invoca a predição e consuma o gesto. Indiferença. Silvos na escada. “Estavas enganado”, nenhuma emoção. O infinito provém do acaso, que negastes. Vós, matemáticos, expirastes – eu projetando absoluto. Devia findar em Infinito. Simplesmente palavra e gesto. Quanto ao que vos digo, para explicar minha vida. Nada restará de vós – o Infinito, enfim, escapa à família que o suportou – velho espaço – a ausência do acaso. Ela teve razão em o negar – sua vida – para que ele tenha sido o Absoluto. Isto devia ocorrer nas combinações do Infinito frente ao Absoluto. Necessário – extrai a Ideia. Loucura útil. Um dos atos do universo vem de ser cometido. Mais nada, restava o sopro, fim de palavra e gesto unidos – sopra a vela do ser, pelo que tudo existiu. Prova.

(Investigar tudo isso)


ELE SE DEITA NO TÚMULO

Sobre as cinzas dos astros, as indivisas da família, estava o pobre personagem, após haver bebido a gota de nada que falta ao mar. (O frasco vazio, visão, loucura, tudo o que resta do castelo?) O Nada tenho partido, resta o castelo da pureza.


(Stéphane Mallarmé, Igitur ou A loucura de Elbehnon. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. Tradução de José Lino Grunewald.)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

GALERIA: ARTHUR RIMBAUD


POEMAS EM PROSA (II)

Fragmentos de Iluminações

III

No bosque há um pássaro, seu canto vos detém e vos faz corar.

Há um relógio que não soa.

Há uma catedral que desce e um lago que sobe.

Há uma pequena carruagem abandonada nas moitas, ou que desce a vereda às carreiras, engalanada.

Há um grupo de pequenos comediantes disfarçados, vistos na estrada pela beira do bosque.


Há, por fim, quando se tem fome e sede, alguém que nos expulse.

IV

Sou o santo, orando no terraço, — como os animais mansos pastam até o mar da Palestina.

Sou o sábio na cátedra sombria. Os ramos e a chuva se arrojam sobre a janela da biblioteca.

Sou o transeunte da grande estrada pelos bosques anões; o rumor das represas abafa meus passos. Vejo, longamente, a melancólica lixívia dourada do poente.

Eu bem seria a criança abandonada no cais que partir para o alto-mar, o pequeno servo que segue a alameda cujo final toca o céu.

As sendas são ásperas. Os montículos se cobrem de giestas. O ar é imóvel. Quão distantes estão os pássaros e as fontes! Isto só pode ser o fim do mundo, avançando.

V

Que me aluguem por fim esta tumba, branca de cal e com as linhas de cimento em relevo — bem fundo na terra.

Apoio meus cotovelos na mesa, a lâmpada ilumina vivamente estes jornais que só releio de idiota, estes livros sem interesse.

Numa distancia enorme acima da minha sala subterrânea, as casas se implantam, as brumas se reúnem. A lama é vermelha ou negra. Cidade monstruosa, noite sem fim!

Menos acima, estão os esgotos. Dos lados, nada senão a espessura do globo. Talvez os abismos de azul, poços de fogo. É nesses planos que talvez se encontrem luas e cometas, mares e fábulas.

Nas horas de amargura, imagino bolas de safira, de metal. Sou senhor do silêncio. Porque uma aparência de clarabóia empalidecerá no canto da abóbada?

Conto

Um Príncipe se envergonhava por jamais haver se dedicado senão à perfeição das generosidades vulgares. Previra espantosas revoluções no amor, e suspeitava que suas mulheres eram capazes de algo melhor que esta tolerância adornada de céu e de luxo. Queria ver a verdade, a hora do desejo e da satisfação essenciais. Fosse ou não uma aberração da piedade, ele o quis. Possuía ao menos um poderio humano suficientemente vasto.

Todas as mulheres que o haviam conhecido foram assassinadas. Que vandalismo no jardim da beleza! Sob o sabre, elas o abençoaram. Ele não encomendou outras novas. — As mulheres reapareceram.

Matou todos que o seguiam, após a caça ou libações. — Todos os seguiam.

Divertiu-se estrangulando os animais de luxo. Fez queimar os palácios. Arrojava-se sobre as gentes e as esquartejava. — A multidão, os tetos de ouro, os belos animais existiam ainda.

Pode alguém extasiar-se na destruição rejuvenescer na crueldade! O povo não murmurou. Ninguém ofereceu a ajuda de seus conselhos.

Galopava altaneiro certa noite. Um Gênio surgiu, de uma beleza inefável, inconfessável mesmo.
De sua fisionomia e de sua postura emanava a promessa de um amor múltiplo e complexo! de uma felicidade indizível, insuportável mesmo! O Príncipe e o Gênio se aniquilaram provavelmente na saúde essencial. Como não teriam podido dela morrer? Morreram juntos então.

Mas este Príncipe morreu, em seu palácio, em uma idade comum. O Príncipe era o gênio. O Gênio era o Príncipe.

A música erudita faz falta a nosso desejo.
(Arthur Rimbaud, Uma temporada no inferno & Iluminações. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982. Tradução: Ledo Ivo.)