terça-feira, 26 de outubro de 2010

GALERIA: PABLO PICASSO (II)


MAIS KOZER

A MORTE SE VESTE DE CORAL

Desce dois degraus de cimento.
E logo outros dois degraus de limo.
Refulge em redor seu dente de ouro.
Por um motete antigo, sei que é ruiva.
Senta-se em seu trono de cipó, pousa a planta dos pés em uma esteira de palma-real.
É imutável o trono, indestrutível a palma-real.
Exige as Vésperas marianas de Monteverdi, solícitos executam-nas.
Aplaude, aplaude bêbada, golpeia-se nas coxas, pó de ossos derramam.
Majestosa, ajusta a peruca ruiva em um espelho oval de brilho impenetrável.
Ei-la aí, toda de coral, na verdade do azougue.


A MORTE SE REVOLVE EM SUA POCILGA DE OSTEOPOROSE

Em cada omoplata o ideograma que a prefigura.
No púbis uma rosácea de ouro em fibra de vidro.
No fêmur a rotação (mocho) das duas veletas.
Gema de ovo as falanges, tendões, rótulas.
O úmero puro padecimento do peixe boquiaberto
ao sol: chuva de estrelas meteoritos a coluna
vertebral ao se estrelarem as duas pupilas atônitas
contra a muralha do bastião: o grito cravado
de Ícaro na queda: parietal esfenóides arco
zigomático e vômer de súbito na pá de lixo.
Um escapulário. Um crucifixo. Hissope e cíngulo.
Mitra de cálcio e fósforo; capa fluvial de magnésio.
Útero de alumínio, tabela periódica o coração.
Num piscar de olhos com vaselina nos penetra (com)
seu vocabulário (exíguo) e uma ou outra frase-feita:
utópico, ilusório; esquece o tango e canta bolero.
O quadro, viva efeméride, é completado por um cavalo
matungo: anca que exibe o Santo Graal, anca que
exibe o selo chamejante do Averno: e justo no
meio o Unigênito ginete da foice.


A MORTE RETIRA A MÁSCARA, A CARA,
O CRÂNIO, O NADA, E SURGE O BOM DEUS


Entrego-lhe
a moeda
de cobre
que trago
debaixo da
língua.
O Bom
Deus
põe-se
a rir e
me tira
a folharada
que tenho
na cabeça,
umas lianas
no olhar,
um resto
de barro
na fronte,
o esterno,
e dos
mamilos
aos lábios.


Traduções: Claudio Daniel e Luiz Roberto Guedes

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

GALERIA: PABLO PICASSO


UM POEMA DE JOSÉ KOZER

A MORTE SE DISFARÇA DE MORTE

É hipotética. Provável que não existam nem seu disfarce nem sua figura. Nunca nasceu. Outra de
tantas configurações do desconhecimento: com o
traje de bailarina as pernas longas (dois
caniços) de fuligem; gira e gira sua inexistência
desfazendo inexistência ao redor: vede, duas gotas
de piche (duas pupilas) no cenário. Vede-a,
com seu lenço de erva (beldroega) de nada; seu
chapéu de areia (guirlanda de fuligem) fará crescer uma
planta espessa no meio do nada. Artifício. Biombo.
Colo desnudo; gira, libélulas ósseas. Gira, panegíricos
ao ósseo microorganismo. A letra do desconhecimento
atrás da qual um orifício azul conduz a uma porta
inexistente de azuis desmoronados que se abre a um
corredor gris de pêndulos entrechocando, chispa, brasa,
sujeira (nada) do rastro de uma poeira que
aspira a ser (gris): vede, oráculo da cinza o Disfarce.
Vede, a farinha do outro saco, cinza; o proceloso mar
dos poetas, brasa onde se extingue a inexistência
da noctiluca encharcada em seu nada: velha parelha a
água estagnada e a morte; velho disfarce do fogo essa
velha parelha. Provável que não exista o cravo de papel
da China que adorna sua lapela, a nuvenzinha (fuligem) do
olho mais que provável que não exista: seu olho desatento,
olho da Desouvinte. Clama, e verás. Implora, e o que ouves?
Tira-o da manga de sua túnica com jarreteiras de urina
e verá cair escória de vermes fornicando no meio do
ar sua inexistência: Generala, seu nome. Úvula; ouve seu
silêncio. Parturiente, vede brotar dela por partenogênese
o fio extremo de uma saliva semeada de cinza: boa a
floração (verás). Levanta a cabeça, tira a máscara, rasgue
a teia do olhar, o véu que recobre o órgão real da
visão, e verás: mata o olfato tapa os ouvidos guarda
essas mãos nos bolsos (se não pode contê-las, corte-as):
e o olho só o olho então fixo a olhar (vejas) (e verás)
in extremis, atrás do ícone, a idéia do ícone, e atrás da idéia a
mistura da cinza. Desce à gruta, tua gota com a língua
raspando, deposita: seiva tornada saliva retornada por ação já
atenuada do fogo um alvor de cinza retornado por elaboração
do nada outra poeira de inexistência, verás brotar. Já a vês?
Com seu disfarce de idade inexistente, vestígio indeterminado da
lâmina de relva, fosso para o corpúsculo esvaziado de seu nada, migalha
semeando migalhas de inexistência. Aparece, pijama listrado,
a barba de três dias, o soro gotejando outra obstrução de
urina, outra gama de nada desaparece.

Tradução: Claudio Daniel

domingo, 24 de outubro de 2010

GALERIA: REMY DE GOURMONT


UM POEMA DE REMY DE GOURMONT

LITANIES DE LA ROSE

A Henry de Groux

Fleur hypocrite,

Fleur du silence.

Rose couleur de cuivre, plus frauduleuse que nos joies,
rose couleur de cuivre, embaume-nous dans tes men-
songes, fleur hypocrite, fleur du silence.

Rose au visage peint comme une fille d'amour, rose au
coeur prostitue, rose au visage peint, fais semblant d'etre
pitoyable, fleur hypocrite, fleur du silence.

Rose a la joue puerile, 6 vierges des futures trahisons,
rose a la joue puerile, innocente et rouge, ouvre les rets
de tes yeux clairs, fleur hypocrite, fleur du silence.

Rose aux yeux noirs, miroir de ton neant, rose aux
yeux noirs, fais-nous croire au mystere, fleur hypocrite,
fleur du silence.

Rose couleur d'or pur, 6 coffre-fort de 1'ideal, rose
couleur d'or pur, donne-nous la clef de ton ventre, fleur
hypocrite, fleur du silence.

Rose couleur d'argent, 'encensoir de nos reves, rose
couleur d'argent prends notre coeur et fais-en de la
fumee, fleur hypocrite, fleur du silence.

Rose au regard saphique, plus pale que les lys, rose au
regard saphique, offre-nous le parfum de ton illusoire
virginite, fleur hypocrite, fleur du silence.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

COMO SERIA A CAPA DA VEJA EM 1888?




Mr. Serra: violência é isto, bombas de gás lacrimogênio e cassetetes, não bolinha de papel e fita crepe...

MINHA ESTANTE (IV)









Caros, gostaria de recomendar a vocês a leitura do livro Sobre a Crítica Literária Brasileira no Último Meio Século, de Leda Tenório da Motta, que saiu pela editora Imago, em 2002. Leda faz uma avaliação brilhante das duas principais tendências de nossa crítica, a sociológica, de Antonio Candido, e a sincrônica, de Haroldo de Campos, buscando seus antecessores históricos e fazendo uma avaliação de seus pressupostos, escolhas e formas de atuação. In my opinion, é leitura obrigatória para se entender o que ocorre, ainda hoje, na crítica literária e nas discussões teóricas sobre poesia e literatura, dentro e fora do âmbito universitário.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

MINHA ESTANTE (III)





O Cinema Enciclopédico de Peter Greenaway, coletânea de ensaios organizada por Maria Esther Maciel (São Paulo: Unimarco Editora, 2004), traz textos de estudiosos da obra do cineasta inglês, que dirigiu filmes como O Livro de cabeceira, O Bebê Santo de Macon e A Última Tempestade. O livro inclui um ensaio polêmico do próprio Greenaway intitulado Cinema: 105 anos de texto ilustrado. Livro MUITO INTERESSANTE.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

ZUNÁI, URGENTE









Caros, a revista Zunái está fora do ar, momentaneamente, por motivos técnicos, mas até o final da semana estará on line novamente. A edição de outubro terá a bordo Arnaldo Antunes, Leda Catunda, Aurora Bernardini, Horácio Costa, Leda Tenório da Mota, inéditos de Wilson Bueno e muita coisa mais, aguardem...

MINHA ESTANTE (II)




Ideograma: Lógica, Poesia e Linguagem, livro organizado por Haroldo de Campos (São Paulo: Edusp, 2000), reúne ensaios de Ernst Fenollosa (Os caracteres da escrita chinesa como instrumento para a poesia, texto essencial para as formulações teóricas de Ezra Pound), Sergei Eisenstein (O princípio cinematográfico e o ideograma), de Chang Tung-Sun (A teoria do conhecimento de um filósofo chinês) e do próprio Haroldo de Campos. É um livro indispensável para quem deseja estudar a estrutura do ideograma e suas relações com a poesia e o cinema.

MINHA ESTANTE





Artesanatos de Poesia, de Mário Faustino (São Paulo: Companhia das Letras, 2004), traz ensaios preciosos sobre Edgar Allan Poe, Baudelaire, Rimbaud, Yeats, Corbière, Laforgue e outros poetas, além de ótimas traduções desses autores, feitas pelo próprio Faustino. Estes textos foram publicados originalmente no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, na página Poesia-Experiência, entre 1956 e 1959. Faustino foi um de nossos melhores poetas-críticos. Um ensaio fundamental desse volume é o dedicado a Ezra Pound, com quase cem páginas. O melhor trabalho sobre Pound escrito por um autor brasileiro, em minha opinião.

domingo, 17 de outubro de 2010

GALERIA: MORIHEI UESHIBA


PORTAL SIETE

(fragmentos)

* * *

Con la brutalidad
de una calavera cantante.
Con un muerto en cada línea,
y una rosa para cada muerto,
ella pregunta a sus lagartos:
¿qué existe más allá de la piel?

Ningún misterio más allá del verde césped numerable hasta el infinito.

* * *

Números delinean las esquinas de la eternidad.
Muertos beben de los pulsos
de nuestras manos.

* * *

Ninguna lengua es la mía;
éste es el motivo de mi desprecio
a los que simulan sinceridad.

* * *

Serpiente cambia de piel con el pez transmutado en gallo,
en sueño, en sombra, en nada.

(Poema em processo de Claudio Daniel, traduzido ao espanhol por Joan Navarro.)

sábado, 16 de outubro de 2010

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

GALERIA: IMAGENS DO JAPÃO (III)


QUATRO HAICAIS

Ervas de Verão!
Eis o que resta do sonho
dos guerreiros mortos.

(Bashô)

As folhas da ameixeira
sob a chuva de verão
têm a cor do vento

(Saimaro)

A fêmea do grilo
comido pelo gato
canta o seu lamento.

(Kikaku)

A sombra das árvores!
Também a minha se move
sob o luar de inverno.

(Shiki)

Traduções: Casimiro de Brito.