quarta-feira, 22 de setembro de 2010

POEMAS DE RADOVAN IVSIC

SONHEI

1

Só, completamente só, caminho sobre uma nuvem. Minhas pernas são acariciadas por uma relva tão transparente que não a vejo. Estou maravilhado pelo silêncio. Tomo um pouco d’água escura e transformo a nuvem numa jovem que amo loucamente até a minha morte, na solidão.

2
Estamos sentados na beira de um rio, ela e eu. Ela me fala, e o murmúrio de suas palavras torna-se uma nuvem de cerejas que se pousa sobre meus cílios. Respiro calmamente e penetro nas imagens que ela teria desejado esconder de mim. Ela ri, depois pega uma montanha e a pousa sobre meus lábios, entre nossos beijos.

3

Viro-me, vejo o mar de uma cor indeterminada e três conchas vermelhas. De um cipreste sai um cervo. De seu olhar tranqüilo brotam avencas numa angra. Ajoelho-me para colher um pouco da relva escondida entre os seixos. Espero o cervo adormecer. Quando o vejo chorar lágrima após lágrima, cravo-lhe a relva entre os galhos. Uma jovem azul sai-lhe da cabeça e por inteiro tremo com os beijos nus que ela deposita sobre minhas pálpebras. Com um supremo esforço, abro os olhos para quebrar o segredo, mas uma lâmina de onda negra o arrebata e choro toda a noite no vento, frio.

4

Esta floresta é clara como seda. Um esquilo branco flui caudaloso nas ramagens e me traz a primavera desvairada. Pergunto-me se é preciso esperar até que o amor ecloda o galho morto da esperança ou se não seria preferível partir em direção à praia, entrar furtivamente na água e nadar amplamente até o alto mar, tão novo. Gostaria de andar, mas sinto que não tenho mais pernas. Tornei-me uma árvore e tenho folhas. Estou a ponto de brotar e rio, mas não é mais um riso, é o murmúrio ameaçador da minha nova folhagem. Deveria me preparar para o amor mas torno a me fechar e nado em direção ao sono.
Tradução: Éclair Antonio Almeida Filho
(Leiam mais poemas de Ivsic na edição de outubro da Zunái.)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

UM POEMA VISUAL DE PAULO DE TOLEDO



DOIS POEMAS DE GEORG TRAKL

A NOITE

Com figuras de heróis mortos,
Lua, enches os bosques silenciosos,
Lua crescente –
Com o doce abraço
Dos amantes,
As sombras de tempos gloriosos
Os rochedos podres à volta;
Um azul brilhante
Batia contra a cidade
Onde má e fria
Uma raça apodrecida mora,
E o descendente branco
Prepara o futuro negro .
Ó sombras que a lua engole,
Suspirando no cristal vazio
Do lago da montanha.

GRODEK

Ao entardecer as armas da morte
Ressoam nas florestas outonais, as planícies douradas
E os lagos azuis, por cima, o sol rola, sombrio;
A noite abraça os guerreiros moribundos,
O lamento selvagem de suas bocas quebradas.
Mas o sossego concentra nuvens vermelhas
Entre os salgueiros, onde mora um deus feroz,
O sangue derramado, a frescura lunar;
Todos os caminhos acabam em podridão.
Sob as ramagens douradas da noite e das estrelas
A sombra da irmã cambaleia , através
Do silencioso arvoredo , para saudar os espíritos dos heróis,
As cabeças ensanguentadas;
E, silenciosas, as escuras flautas do outono ressoam no juncal.
Ó orgulhosa tristeza! E vós altares de bronze,
A chama quente do espírito alimenta hoje uma grande
Dor – os netos não nascidos.

Tradução: Luís Costa

(Leiam mais traduções de Georg Trakl na edição de outubro da Zunái.)

domingo, 19 de setembro de 2010

GALERIA: HELMUT NEWTON


POEMAS DE HENRI MICHAUX

MAGIA
(fragmentos)

II

Assim que a vi, desejei-a.
De início, para seduzi-la, disseminei planícies e planícies. Planícies saídas do meu olhar estendiam-se doces, amáveis, reconfortantes.
As idéias de planície foram ao encontro dela e, sem o saber, ela as percorria, sentindo-se satisfeita.
Percebendo-a bem segura, eu a possuí.
Isso feito, depois de um pouco de repouso e quietude, voltando ao meu natural, deixei reaparecerem minhas lanças, meus trapos, meus precipícios.
Ela sentiu um grande frio e que tinha se enganado completamente a meu respeito.
Ela foi embora, a fisionomia desfeita e esvaziada, como se tivesse sido roubada.

III

Acho difícil acreditar que isso seja natural e conhecido por todos. Às vezes eu fico tão profundamente entranhado em mim mesmo numa bolha única e densa que, sentado sobre uma cadeira, a menos de dois metros da lâmpada colocada sobre a mesa de trabalho, é com grande dificuldade e após um longo tempo que, apesar dos olhos bem abertos, consigo lançar um olhar até ela.

Uma emoção estranha toma conta de mim quando dou esse depoimento sobre o círculo que me isola.

Parece-me que um obus ou até mesmo um raio não conseguiriam me atingir de tantas camadas de todas as partes que tenho aplicadas sobre mim.

Simplesmente, seria bom que a raiz da angústia estivesse enterrada por algum tempo.

Nesses momentos eu tenho a imobilidade de uma cova.

Tradução: Izabela Leal.

(Leiam mais poemas de Michaux na edição de outubro da Zunái)

JACQUES CALLOT


sábado, 18 de setembro de 2010

UM POEMA DE ARTHUR RIMBAUD

COCHEIRO BÊBADO

Álacre
Vai:
Nacre
Rei.

Acre
Lei.
Fiacre
Cai!

Dama:
Tombo
Lombo

Dói.
Clama:
Ai!

Tradução: Augusto de Campos

GALERIA: MARCELI ANDRESA BECKER


UM POEMA DE TRISTAN CORBIÈRE

PAISAGEM MÁ

Praias de ossos. A onda estertora
Seus dobres, som a som, na areia.
Palude pálido. O luar devora
Grandes vermes – é a sua ceia.

Torpor de peste: somente a febre
Coze… O duende danado dorme.
A erva que fede vomita a lebre,
Bruxa medrosa que se some.

A lavadeira branca junta os
Trapos surrados dos defuntos,
Ao sol dos lobos… E os sapos. Ei-los,

Anões de vozes melancólicas,
Que envenenam com suas cólicas,
Os cogumelos, seus escabelos.

Tradução: Augusto de Campos

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

GALERIA: CAROL STETSER (IV)


UM POEMA DE JULES LAFORGUE

O CIGARRO

Sim, este mundo é chato e o outro, uma graça.
Eu vou resignado, sem me fiar na sorte,
E pra matar o tempo, enquanto espero a morte,
Lanço ao nariz dos deuses fitas de fumaça.

Ide, esqueletos do futuro, pobre raça.
Eu, o meandro azul que para o céu serpeia,
Mergulho em êxtase sem fim, cabeça cheia
De ópios febris de alguma estranha taça.

Adentro o paraíso, em sonhos todo imerso,
Nos quais se vão mesclar, em fantásticos ritos,
Elefantes em cio a coros de mosquitos.

E quando acordo, meditando no meu verso,
O coração pleno de júbilo, balanço
Meu polegar cozido - uma coxa de ganso.

Tradução: Augusto de Campos.

Leiam mais poemas do autor uruguaio de língua francesa Jules Laforgue, em tradução de André Vallias, na revista eletrônica Errática (ver link ao lado).

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

GALERIA: CAROL STETSER (III)


ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Gabriela Marcondes trabalha com a palavra poética em todas as suas dimensões: plástica, sonora e logopaica. Ela é autora de poemas visuais, poemas-objeto (alguns deles apresentados no festival Artimanhas Poéticas, realizado no Rio de Janeiro em 2009) e desenvolve interessantes pesquisas com as novas tecnologias eletrônicas, ao mesmo tempo em que escreve poemas em verso, com o mesmo rigor e inventividade formal, como os reunidos no livro Depois do vértice da noite, seu segundo título de poesia, publicado há pouco pela 7 Letras (seu primeiro livro, Vide o verso, saiu em 2006). A escrita de Gabriela é concisa, fragmentária, incorpora a visualidade das vanguardas, na disposição de palavras e linhas, ao mesmo tempo em que utiliza elementos tradicionais da arte poética, como a aliteração, a assonância, o trocadilho, relidos sob uma ótica contemporânea e com uma dicção bem pessoal. Gabriela tem um sexto sentido que sabe conjugar a construção formal com o humor, a ironia e a coloquialidade, sem cair no poema-piada ou no poema-crônica-de-jornal, banalizados pela excessiva diluição do Modernismo. Ela consegue obter linhas de alto impacto estético pelas associações entre objetos animados e inanimados, pelo uso da alegoria, do paradoxo, de inusitados adjetivos, entre outros recursos barroquizantes, que ela consegue traduzir em versos de aparente simplicidade, como “a realidade nem sempre trabalha de olhos abertos” ou ainda “fiz as pazes com as sombras”. Gabriela Marcondes é uma poeta para ser lida com a inteligência e os sentidos em estado de alerta.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

GALERIA: CAROL STETSER (II)


UM POEMA DE ANDRÉIA CARVALHO

ENCONTRAI HORTÊNCIA TRANSTORNADA!

Vieram-me aqueles olhos de estação no inferno.
Peles de gamo e urso, café e armas,
escondidas na bagagem mínima.
A rótula sã: uma mentira de acrobata.
Antes de caminhar,
já amputada,
com a estratégia dos peregrinos precocemente mumificados.
Nunca mais me viria,
como um poema para mil escravos.
(de avalon à bruma da abissínia traficante!)

Como são fátuos os versículos infiéis.
Quem resiste?
Santelmo!

E o cigarro suicida,
iludindo o sorriso cênico dos lábios.
Quem resiste?
Estrelas na brasa, tragando a própria fogueira mortuária
como um beato céu.

Quem resiste?

Talvez, uns pés livres de necromante,
de sátiro ou de magritte.
Um esqueleto de bosque negro
na densa hipnose noturna.
Espetáculo na praia para dois fiéis
de si mesmo.

Ah! Vislumbre destas matilhas de paisagens,
uivando pela presa das panteras:
Resista, até que venha a ti
a chuva feiticeira de todas as dádivas escarradas.
(assistidas, assistidas até a última quimera!)

Resista, até que venham a ti
a mimética caligrafia, o oráculo sinestésico de teu sangue,
a voz de tábua ouija.

Uns olhos de barcos bêbados, como o corpo articulado dos escorpiões.

Resisto, vidente. Desfolhada hortência na porta que dá início às ruas.

(Leiam mais poemas de Andréia Carvalho no blog O Hábito Escaralate, http://habitoescarlate.blogspot.com/)

GALERIA: CAROL STETSER (I)


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

CÂNONE E ANTICÂNONE (II)

Mário Faustino escreve sobre Carlos Drummond de Andrade, no ensaio Poeta Maior, incluído no livro De Anchieta aos Concretos:

“Outro aspecto da criação poética que nos parece praticamente ausente na obra de CDA é o da criação de padrões logomelophanopaicos (Pound) ou verbivocovisuais, como diriam Joyce ou os concretistas paulistas. Não há, que saibamos, um só poema seu que represente, nesse sentido, o sucesso atingido, por vezes, por exemplo, em Uma Faca Só Lâmina, de João Cabral de Melo Neto – cuja poesia, entretanto, é bom frisar, teria sido impossível sem a existência prévia de Drummond. Há, todavia, no Fazendeiro do Ar, o mais recente livro de CDA, certo poema que parece indicar um caminhar o poeta neste rumo essencial. Trata-se da Escada, onde lemos:

E mortos, e proscritos
de toda comunhão no século (esta espira
é testemunha, e conta), que restava
das línguas infinitas
que falávamos ou surdas se lambiam,
no céu da boca sempre azul e oco?


Fala-se, de quando em quando, nas chamadas rodas literárias, em uma ‘decadência’ de Carlos Drummond de Andrade. A coisa não nos parece colocada em seus devidos termos. É verdade que o poeta tem publicado, nestes dois últimos anos, alguns poemas, nos suplementos literários, que somente subtraem à sua glória, nada lhe acrescentando. Poemas que não deleitam, não movem, não ensinam, não esclarecem, não criticam, não tomam parte – nem na vida social nem na vida estética – poemas que não criam nem exprimem. Isso, contudo, não significa muito, quando nos lembramos que Carlos Drummond de Andrade há muito publica poemas medíocres nos suplementos, deixando de incluí-los em suas obras completas, quando José Olympio as edita.

Por outro lado, dizem-nos que O Fazendeiro do Ar, o último livro dessas obras reunidas, seria o pior livro de Drummond. Não concordamos. O livro talvez seja um dos menores, em número de páginas. Contém vários maus sonetos (o soneto está longe de ser o forte de CDA). Mas contém obras-primas como o Brinde no Banquete das Musas, a Viagem de Américo Facó – um soneto, aliás – a última parte (Errante) dos Cemitérios, um grande poema em prosa (Morte de Neco Andrade) contém a Escada, que abre, como indicamos, um caminho novo, e, sobretudo, aquela Elegia que é, em nossa opinião, um dos cinco ou seis melhores poemas jamais escritos por Carlos Drummond de Andrade.

(...)

Já apontamos, de outra feita, aquilo que consideramos o seu grande pecado de omissão: o não se ter nunca realmente interessado (e hoje em dia ainda menos) pelo desenvolvimento da poesia brasileira como forma de cultura. O não propagar. O não ensinar, por um de tantos meios. O não lutar abertamente contra os inimigos de nossa poesia: a facilidade, as falsas glórias, a caótica escala de valores, para a qual ele mesmo contribui, às vezes, assinando, ou quase assinando, elogios públicos a poetas que ele mesmo sabe, ou devia saber, estarem longe de merecer tais elogios.

Tudo isso, porém, pouco importa. Como também pouco importa a baixa qualidade dos produtos das outras linhas de montagem da fábrica Drummond: as “crônicas”, por exemplo, em prosa e verso, do canto da página CDA da imprensa diária. O que importa é que temos, mesmo nos 50 Poemas, quanto mais nos 262 de Fazendeiro do Ar & Poesia Até Agora, a mais importante contribuição jamais feita em verso para o aprofundamento, para o aguçamento e para a diversificação da língua portuguesa no Brasil.”

(21 de abril de 1957)

domingo, 12 de setembro de 2010

GALERIA: FLOR GARDUÑO


CÂNONE E ANTICÂNONE (I)


Mário Faustino (1930-1962) foi um dos maiores poetas-críticos de nossa história literária. Na década de 1950, dirigiu a página Poesia-Experiência, no Suplemento Literário do Jornal do Brasil, que é um marco em nosso jornalismo literário. Seus artigos, breves e densos, escritos numa linguagem objetiva, fazem uma releitura inteligente da poesia brasileira, enfocando os seus autores mais inventivos, de Gregório de Matos a Augusto de Campos, além de poetas de outras latitudes que na época ainda eram pouco lidos e estudados no Brasil, como Stefan George, Jules Laforgue e Tristan Corbière. Faustino também foi excelente tradutor, e verteu para o português, entre outros autores, Ezra Pound. Como crítico, Mário Faustino foi sempre parcial, na melhor linhagem baudelairiana: o poeta deve descer do muro, tomar partido, dizer aquilo de que gosta e aquilo de que não gosta, sem meios termos, fiel àquilo em que acredita. É uma questão de sinceridade, não apenas no domínio da ética, mas também no da estética.

Mário Faustino tinha raro domínio das técnicas de versificação e apurada sensibilidade musical, como demonstram os poemas de seu único livro, O Homem e Sua Hora, mas ele foi contemporâneo dos poetas concretistas e estava engajado na saga de renovação das formas poéticas, ainda que não aderindo, integralmente, ao Plano-piloto da Poesia Concreta. Sua atitude em relação a esse movimento foi de respeito e diálogo intelectual, mas ele buscava outras possibilidades de invenção estética, que não chegou a desenvolver plenamente, devido a sua morte prematura, num desastre aéreo (ele foi a Cuba, como jornalista, para entrevistar Fidel Castro). Podemos apenas adivinhar o que ele teria feito se vivesse mais tempo lendo o seu Marginal Poema 15, que ainda hoje soa estranho, dissonante, moderno. Mas o que nos interessa aqui é falarmos, brevemente, do Mário Faustino crítico.

A editora Companhia das Letras teve a ótima idéia de publicar em 2003 as suas obras completas, em três volumes (ou quase completas, porque faltou incluir as traduções): O Homem e Sua Hora (poesia), Artesanatos de Poesia e De Anchieta aos Concretos (crítica literária). Em Artesanatos de Papel, estão reunidos os seus textos sobre poetas estrangeiros, como Edgar Allan Poe, Théophile Gautier, Walt Whitman, Baudelaire, Apollinaire, Tristan Tzara, entre muitos outros, lidos à maneira poundiana, com atenção especial à informação nova que ainda pode ser encontrada nesses autores. Já em De Anchieta aos Concretos, ele faz uma investigação de poetas brasileiros canônicos ou recentes, com o mesmo olhar crítico preciso e implacável. Sobre Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, diz o seguinte:

“3. A poesia de Carlos Drummond de Andrade é documento crítico de um país e de uma época (no futuro, quem quiser conhecer o Geist brasileiro, pelo menos de entre 1930 e 1945, terá que recorrer muito mais a Drummond que a certos historiadores, sociólogos, antropólogos e ‘filósofos’ nossos...) e um documento humano ‘apologético do Homem’. (...) 4. Carlos Drummond de Andrade é um ‘inventor’. Se não o é ao nível universal (é meio incerto encontrar um ‘processo’ seu que já não esteja em Heine, Laforgue, Valéry, Eliot, Auden etc.), sem dúvida o é entre nós: poemas como Soneto da Perdida Esperança, José, A Flor e a Náusea, Os Bens e o Sangue, para não falar de pormenores, trouxeram, ao aparecerem, contribuição quase inteiramente original ao desenvolvimento de nossa poética. (...) Sobre a linguagem de Carlos Drummond de Andrade há muito que estudar, que optar, que decidir. Antes de mais nada, dentro de um conceito contemporâneo de linguagem poética, bem distinto da linguagem prosaica e da linguagem retórica, e da ‘expressão sentimental ou imediata’ (Croce), será essa linguagem realmente poética? A resposta seria, a nosso ver (neste momento, pelo menos, de nossa própria evolução): ocasionalmente, sim; o mais das vezes, não.

Ocasionalmente, sim. A linguagem de Carlos Drummond de Andrade sempre teve momentos indubitavelmente ‘poéticos’ (i. é, linguagem de criação, e não de expressão; meio de doação, e não só de comunicação; apresentação do objeto, e não apenas alusão ou comentário ao objeto), como, por exemplo, Cota Zero, Poema Patético, Bolero de Ravel, (...) ou como o Noturno à Janela do Apartamento (...). No caso de Drummond, entretanto, esse frequente acertar não basta ainda, porque não o define. Não constitui o principal em sua obra. Ele nos surge, neste momento, sobretudo, como o renovador, com seus versos, de nossa linguagem prosaica (...). Como poeta, entretanto, no sentido de Criador de palavras-realidades, somos levados a pensar que um Jorge de Lima – muito menos importante que ele sob qualquer outro aspecto – o vence nesta tarefa, por excelência da linguagem poética, de identificar magicamente sujeito e objeto de conhecimento poético, de recriar a palavra na ocasião do poema, tarefa de criação, repetimos, e não apenas de expressão.”

(CONTINUA)