domingo, 19 de setembro de 2010

POEMAS DE HENRI MICHAUX

MAGIA
(fragmentos)

II

Assim que a vi, desejei-a.
De início, para seduzi-la, disseminei planícies e planícies. Planícies saídas do meu olhar estendiam-se doces, amáveis, reconfortantes.
As idéias de planície foram ao encontro dela e, sem o saber, ela as percorria, sentindo-se satisfeita.
Percebendo-a bem segura, eu a possuí.
Isso feito, depois de um pouco de repouso e quietude, voltando ao meu natural, deixei reaparecerem minhas lanças, meus trapos, meus precipícios.
Ela sentiu um grande frio e que tinha se enganado completamente a meu respeito.
Ela foi embora, a fisionomia desfeita e esvaziada, como se tivesse sido roubada.

III

Acho difícil acreditar que isso seja natural e conhecido por todos. Às vezes eu fico tão profundamente entranhado em mim mesmo numa bolha única e densa que, sentado sobre uma cadeira, a menos de dois metros da lâmpada colocada sobre a mesa de trabalho, é com grande dificuldade e após um longo tempo que, apesar dos olhos bem abertos, consigo lançar um olhar até ela.

Uma emoção estranha toma conta de mim quando dou esse depoimento sobre o círculo que me isola.

Parece-me que um obus ou até mesmo um raio não conseguiriam me atingir de tantas camadas de todas as partes que tenho aplicadas sobre mim.

Simplesmente, seria bom que a raiz da angústia estivesse enterrada por algum tempo.

Nesses momentos eu tenho a imobilidade de uma cova.

Tradução: Izabela Leal.

(Leiam mais poemas de Michaux na edição de outubro da Zunái)

JACQUES CALLOT


sábado, 18 de setembro de 2010

UM POEMA DE ARTHUR RIMBAUD

COCHEIRO BÊBADO

Álacre
Vai:
Nacre
Rei.

Acre
Lei.
Fiacre
Cai!

Dama:
Tombo
Lombo

Dói.
Clama:
Ai!

Tradução: Augusto de Campos

GALERIA: MARCELI ANDRESA BECKER


UM POEMA DE TRISTAN CORBIÈRE

PAISAGEM MÁ

Praias de ossos. A onda estertora
Seus dobres, som a som, na areia.
Palude pálido. O luar devora
Grandes vermes – é a sua ceia.

Torpor de peste: somente a febre
Coze… O duende danado dorme.
A erva que fede vomita a lebre,
Bruxa medrosa que se some.

A lavadeira branca junta os
Trapos surrados dos defuntos,
Ao sol dos lobos… E os sapos. Ei-los,

Anões de vozes melancólicas,
Que envenenam com suas cólicas,
Os cogumelos, seus escabelos.

Tradução: Augusto de Campos

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

GALERIA: CAROL STETSER (IV)


UM POEMA DE JULES LAFORGUE

O CIGARRO

Sim, este mundo é chato e o outro, uma graça.
Eu vou resignado, sem me fiar na sorte,
E pra matar o tempo, enquanto espero a morte,
Lanço ao nariz dos deuses fitas de fumaça.

Ide, esqueletos do futuro, pobre raça.
Eu, o meandro azul que para o céu serpeia,
Mergulho em êxtase sem fim, cabeça cheia
De ópios febris de alguma estranha taça.

Adentro o paraíso, em sonhos todo imerso,
Nos quais se vão mesclar, em fantásticos ritos,
Elefantes em cio a coros de mosquitos.

E quando acordo, meditando no meu verso,
O coração pleno de júbilo, balanço
Meu polegar cozido - uma coxa de ganso.

Tradução: Augusto de Campos.

Leiam mais poemas do autor uruguaio de língua francesa Jules Laforgue, em tradução de André Vallias, na revista eletrônica Errática (ver link ao lado).

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

GALERIA: CAROL STETSER (III)


ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Gabriela Marcondes trabalha com a palavra poética em todas as suas dimensões: plástica, sonora e logopaica. Ela é autora de poemas visuais, poemas-objeto (alguns deles apresentados no festival Artimanhas Poéticas, realizado no Rio de Janeiro em 2009) e desenvolve interessantes pesquisas com as novas tecnologias eletrônicas, ao mesmo tempo em que escreve poemas em verso, com o mesmo rigor e inventividade formal, como os reunidos no livro Depois do vértice da noite, seu segundo título de poesia, publicado há pouco pela 7 Letras (seu primeiro livro, Vide o verso, saiu em 2006). A escrita de Gabriela é concisa, fragmentária, incorpora a visualidade das vanguardas, na disposição de palavras e linhas, ao mesmo tempo em que utiliza elementos tradicionais da arte poética, como a aliteração, a assonância, o trocadilho, relidos sob uma ótica contemporânea e com uma dicção bem pessoal. Gabriela tem um sexto sentido que sabe conjugar a construção formal com o humor, a ironia e a coloquialidade, sem cair no poema-piada ou no poema-crônica-de-jornal, banalizados pela excessiva diluição do Modernismo. Ela consegue obter linhas de alto impacto estético pelas associações entre objetos animados e inanimados, pelo uso da alegoria, do paradoxo, de inusitados adjetivos, entre outros recursos barroquizantes, que ela consegue traduzir em versos de aparente simplicidade, como “a realidade nem sempre trabalha de olhos abertos” ou ainda “fiz as pazes com as sombras”. Gabriela Marcondes é uma poeta para ser lida com a inteligência e os sentidos em estado de alerta.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

GALERIA: CAROL STETSER (II)


UM POEMA DE ANDRÉIA CARVALHO

ENCONTRAI HORTÊNCIA TRANSTORNADA!

Vieram-me aqueles olhos de estação no inferno.
Peles de gamo e urso, café e armas,
escondidas na bagagem mínima.
A rótula sã: uma mentira de acrobata.
Antes de caminhar,
já amputada,
com a estratégia dos peregrinos precocemente mumificados.
Nunca mais me viria,
como um poema para mil escravos.
(de avalon à bruma da abissínia traficante!)

Como são fátuos os versículos infiéis.
Quem resiste?
Santelmo!

E o cigarro suicida,
iludindo o sorriso cênico dos lábios.
Quem resiste?
Estrelas na brasa, tragando a própria fogueira mortuária
como um beato céu.

Quem resiste?

Talvez, uns pés livres de necromante,
de sátiro ou de magritte.
Um esqueleto de bosque negro
na densa hipnose noturna.
Espetáculo na praia para dois fiéis
de si mesmo.

Ah! Vislumbre destas matilhas de paisagens,
uivando pela presa das panteras:
Resista, até que venha a ti
a chuva feiticeira de todas as dádivas escarradas.
(assistidas, assistidas até a última quimera!)

Resista, até que venham a ti
a mimética caligrafia, o oráculo sinestésico de teu sangue,
a voz de tábua ouija.

Uns olhos de barcos bêbados, como o corpo articulado dos escorpiões.

Resisto, vidente. Desfolhada hortência na porta que dá início às ruas.

(Leiam mais poemas de Andréia Carvalho no blog O Hábito Escaralate, http://habitoescarlate.blogspot.com/)

GALERIA: CAROL STETSER (I)


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

CÂNONE E ANTICÂNONE (II)

Mário Faustino escreve sobre Carlos Drummond de Andrade, no ensaio Poeta Maior, incluído no livro De Anchieta aos Concretos:

“Outro aspecto da criação poética que nos parece praticamente ausente na obra de CDA é o da criação de padrões logomelophanopaicos (Pound) ou verbivocovisuais, como diriam Joyce ou os concretistas paulistas. Não há, que saibamos, um só poema seu que represente, nesse sentido, o sucesso atingido, por vezes, por exemplo, em Uma Faca Só Lâmina, de João Cabral de Melo Neto – cuja poesia, entretanto, é bom frisar, teria sido impossível sem a existência prévia de Drummond. Há, todavia, no Fazendeiro do Ar, o mais recente livro de CDA, certo poema que parece indicar um caminhar o poeta neste rumo essencial. Trata-se da Escada, onde lemos:

E mortos, e proscritos
de toda comunhão no século (esta espira
é testemunha, e conta), que restava
das línguas infinitas
que falávamos ou surdas se lambiam,
no céu da boca sempre azul e oco?


Fala-se, de quando em quando, nas chamadas rodas literárias, em uma ‘decadência’ de Carlos Drummond de Andrade. A coisa não nos parece colocada em seus devidos termos. É verdade que o poeta tem publicado, nestes dois últimos anos, alguns poemas, nos suplementos literários, que somente subtraem à sua glória, nada lhe acrescentando. Poemas que não deleitam, não movem, não ensinam, não esclarecem, não criticam, não tomam parte – nem na vida social nem na vida estética – poemas que não criam nem exprimem. Isso, contudo, não significa muito, quando nos lembramos que Carlos Drummond de Andrade há muito publica poemas medíocres nos suplementos, deixando de incluí-los em suas obras completas, quando José Olympio as edita.

Por outro lado, dizem-nos que O Fazendeiro do Ar, o último livro dessas obras reunidas, seria o pior livro de Drummond. Não concordamos. O livro talvez seja um dos menores, em número de páginas. Contém vários maus sonetos (o soneto está longe de ser o forte de CDA). Mas contém obras-primas como o Brinde no Banquete das Musas, a Viagem de Américo Facó – um soneto, aliás – a última parte (Errante) dos Cemitérios, um grande poema em prosa (Morte de Neco Andrade) contém a Escada, que abre, como indicamos, um caminho novo, e, sobretudo, aquela Elegia que é, em nossa opinião, um dos cinco ou seis melhores poemas jamais escritos por Carlos Drummond de Andrade.

(...)

Já apontamos, de outra feita, aquilo que consideramos o seu grande pecado de omissão: o não se ter nunca realmente interessado (e hoje em dia ainda menos) pelo desenvolvimento da poesia brasileira como forma de cultura. O não propagar. O não ensinar, por um de tantos meios. O não lutar abertamente contra os inimigos de nossa poesia: a facilidade, as falsas glórias, a caótica escala de valores, para a qual ele mesmo contribui, às vezes, assinando, ou quase assinando, elogios públicos a poetas que ele mesmo sabe, ou devia saber, estarem longe de merecer tais elogios.

Tudo isso, porém, pouco importa. Como também pouco importa a baixa qualidade dos produtos das outras linhas de montagem da fábrica Drummond: as “crônicas”, por exemplo, em prosa e verso, do canto da página CDA da imprensa diária. O que importa é que temos, mesmo nos 50 Poemas, quanto mais nos 262 de Fazendeiro do Ar & Poesia Até Agora, a mais importante contribuição jamais feita em verso para o aprofundamento, para o aguçamento e para a diversificação da língua portuguesa no Brasil.”

(21 de abril de 1957)

domingo, 12 de setembro de 2010

GALERIA: FLOR GARDUÑO


CÂNONE E ANTICÂNONE (I)


Mário Faustino (1930-1962) foi um dos maiores poetas-críticos de nossa história literária. Na década de 1950, dirigiu a página Poesia-Experiência, no Suplemento Literário do Jornal do Brasil, que é um marco em nosso jornalismo literário. Seus artigos, breves e densos, escritos numa linguagem objetiva, fazem uma releitura inteligente da poesia brasileira, enfocando os seus autores mais inventivos, de Gregório de Matos a Augusto de Campos, além de poetas de outras latitudes que na época ainda eram pouco lidos e estudados no Brasil, como Stefan George, Jules Laforgue e Tristan Corbière. Faustino também foi excelente tradutor, e verteu para o português, entre outros autores, Ezra Pound. Como crítico, Mário Faustino foi sempre parcial, na melhor linhagem baudelairiana: o poeta deve descer do muro, tomar partido, dizer aquilo de que gosta e aquilo de que não gosta, sem meios termos, fiel àquilo em que acredita. É uma questão de sinceridade, não apenas no domínio da ética, mas também no da estética.

Mário Faustino tinha raro domínio das técnicas de versificação e apurada sensibilidade musical, como demonstram os poemas de seu único livro, O Homem e Sua Hora, mas ele foi contemporâneo dos poetas concretistas e estava engajado na saga de renovação das formas poéticas, ainda que não aderindo, integralmente, ao Plano-piloto da Poesia Concreta. Sua atitude em relação a esse movimento foi de respeito e diálogo intelectual, mas ele buscava outras possibilidades de invenção estética, que não chegou a desenvolver plenamente, devido a sua morte prematura, num desastre aéreo (ele foi a Cuba, como jornalista, para entrevistar Fidel Castro). Podemos apenas adivinhar o que ele teria feito se vivesse mais tempo lendo o seu Marginal Poema 15, que ainda hoje soa estranho, dissonante, moderno. Mas o que nos interessa aqui é falarmos, brevemente, do Mário Faustino crítico.

A editora Companhia das Letras teve a ótima idéia de publicar em 2003 as suas obras completas, em três volumes (ou quase completas, porque faltou incluir as traduções): O Homem e Sua Hora (poesia), Artesanatos de Poesia e De Anchieta aos Concretos (crítica literária). Em Artesanatos de Papel, estão reunidos os seus textos sobre poetas estrangeiros, como Edgar Allan Poe, Théophile Gautier, Walt Whitman, Baudelaire, Apollinaire, Tristan Tzara, entre muitos outros, lidos à maneira poundiana, com atenção especial à informação nova que ainda pode ser encontrada nesses autores. Já em De Anchieta aos Concretos, ele faz uma investigação de poetas brasileiros canônicos ou recentes, com o mesmo olhar crítico preciso e implacável. Sobre Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, diz o seguinte:

“3. A poesia de Carlos Drummond de Andrade é documento crítico de um país e de uma época (no futuro, quem quiser conhecer o Geist brasileiro, pelo menos de entre 1930 e 1945, terá que recorrer muito mais a Drummond que a certos historiadores, sociólogos, antropólogos e ‘filósofos’ nossos...) e um documento humano ‘apologético do Homem’. (...) 4. Carlos Drummond de Andrade é um ‘inventor’. Se não o é ao nível universal (é meio incerto encontrar um ‘processo’ seu que já não esteja em Heine, Laforgue, Valéry, Eliot, Auden etc.), sem dúvida o é entre nós: poemas como Soneto da Perdida Esperança, José, A Flor e a Náusea, Os Bens e o Sangue, para não falar de pormenores, trouxeram, ao aparecerem, contribuição quase inteiramente original ao desenvolvimento de nossa poética. (...) Sobre a linguagem de Carlos Drummond de Andrade há muito que estudar, que optar, que decidir. Antes de mais nada, dentro de um conceito contemporâneo de linguagem poética, bem distinto da linguagem prosaica e da linguagem retórica, e da ‘expressão sentimental ou imediata’ (Croce), será essa linguagem realmente poética? A resposta seria, a nosso ver (neste momento, pelo menos, de nossa própria evolução): ocasionalmente, sim; o mais das vezes, não.

Ocasionalmente, sim. A linguagem de Carlos Drummond de Andrade sempre teve momentos indubitavelmente ‘poéticos’ (i. é, linguagem de criação, e não de expressão; meio de doação, e não só de comunicação; apresentação do objeto, e não apenas alusão ou comentário ao objeto), como, por exemplo, Cota Zero, Poema Patético, Bolero de Ravel, (...) ou como o Noturno à Janela do Apartamento (...). No caso de Drummond, entretanto, esse frequente acertar não basta ainda, porque não o define. Não constitui o principal em sua obra. Ele nos surge, neste momento, sobretudo, como o renovador, com seus versos, de nossa linguagem prosaica (...). Como poeta, entretanto, no sentido de Criador de palavras-realidades, somos levados a pensar que um Jorge de Lima – muito menos importante que ele sob qualquer outro aspecto – o vence nesta tarefa, por excelência da linguagem poética, de identificar magicamente sujeito e objeto de conhecimento poético, de recriar a palavra na ocasião do poema, tarefa de criação, repetimos, e não apenas de expressão.”

(CONTINUA)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

FEITIÇO DA LUA


BABEL DECIFRADA

A Bíblia é o grande código da literatura ocidental, segundo o estudioso Northrop Frye. É o início de toda a nossa tradição literária. O Cântico dos Cânticos, por exemplo, traduzido por Haroldo de Campos no livro Éden, publicado pela editora Perspectiva, é uma das bases de nossa poesia erótico-amorosa, ao lado da lírica romana e das canções dos trovadores da Idade Média. Já o estilo conciso, obscuro e paradoxal dos livros sapienciais, como os Provérbios e o Eclesiastes marcaram importantes obras de autores românticos e simbolistas, como o Blake do Casamento do Céu com o Inferno, o Nerval de Aurélia e mesmo esse inimigo declarado do cristianismo que foi Lautréamont, nas sentenças paródicas de suas Poésies. Outro adversário contumaz da fé cristã, Friedrich Nietzsche, usou o estilo oratório dos profetas hebreus em seu Assim Falava Zaratustra, e até Marx, em sua obra mais elaborada, do ponto de vista literário, que é o 18 Brumário de Luís Bonaparte, fez várias citações do cânone bíblico, como a conhecida frase “deixemos que os mortos enterrem os seus mortos”. Se fossemos fazer uma lista de todos os autores influenciados, de uma maneira ou outra, pela literatura bíblica, essa lista seria interminável.

Por isso mesmo, traduzir a Bíblia é uma aventura fascinante, que representa um mergulho na fonte primordial de nosso imaginário, de nossa tradição literária e de nossa cultura — ainda que nos afastemos, voluntariamente, da herança judaico-cristã. O que diferencia as traduções de Haroldo de Campos daquelas realizadas por outros estudiosos é que ele não foi movido pela intenção mística ou teológica, mas pelo desejo de recuperar para nós alguns exemplos mais expressivos da poesia bíblica, muito mais elaborada e sofisticada do que poderiam imaginar aqueles que só leram as versões convencionais da escritura.

O resultado do trabalho titânico desenvolvido pelo poeta são três livros notáveis: o Qohélet, tradução do Eclesiastes; Bereshit, com a reimaginação da primeira história da Gênese e da resposta de Deus a Jó; e por fim este Éden, publicado postumamente, que reúne a segunda história da criação, o episódio referente à torre de Babel e o Cântico dos Cânticos, atribuído ao rei Salomão. Nesse conjunto admirável de obras, que formam um tríptico, Haroldo nos mostrou que os textos bíblicos são poemas riquíssimos, não menos complexos, formalmente, do que um poema de Khlébnikov ou Mallarmé. Para revelar as cintilâncias da arte verbal bíblica, Haroldo desprezou a distinção entre prosa e poesia, buscando antes recuperar o ritmo, a respiração prosódica das linhas, valendo-se para isso de sinais gráficos e de recursos de espacialização da poesia moderna. Ele não evitou os jogos paronomásicos, os paralelismos e todos os recursos da função poética que, em geral, são ignorados nas versões tradicionais. Haroldo buscou hebraizar o português, criando uma língua quase híbrida, que ao mesmo tempo nos encanta pela estranheza melódica e apresenta outras possíveis abordagens do texto original, recuperando significados que estão ausentes em muitas versões. Assim, por exemplo, ele traduz shamáyim por fogoágua, em vez de céu, indicando, nesse neologismo, a idéia de uma abóbada celeste formada por uma espécie de magma. Essa tradução nada tem de arbitrária, já que esh significa fogo e máyim, água, como esclarece o tradutor — ou transcriador, como ele preferia ser chamado. O resultado poético pode ser conferido nas linhas iniciais da Primeira História do Bereshit:
No começar Deus criando / O fogoágua e a terra / E a terra era lodo torvo / e a treva sobre o rosto do abismo / E o sopro-Deus / revoa sobre o rosto da água.

A estranheza começa pelo uso do infinitivo, No começar, seguido pelo verbo no gerúndio, Deus criando. É como se o poeta trouxesse até nós o momento inicial da criação, descrevendo o inconcebível cenário de elementos que surgem, interagem e se transformam, na alquimia criadora do cosmo. Esse passado remoto é vivificado também pelo desenho melódico das linhas, com ênfase nas assonâncias (e a terra era lodo torvo) e aliterações (revoa sobre o rosto). Já na Segunda História do Gênesis, presente no livro Éden, ele recupera o jogo semântico entre adam e adamá, que traduz como homem-húmus, coerente com a noção semítica de criação do primeiro humano a partir do pó da terra. Ao mesmo tempo, Haroldo faz outra aproximação paronomásica entre mulher e húmus, recuperando o jogo que em hebraico existe entre ish (homem) e isha (mulher). Não se trata de mero capricho estilístico, mas de uma relação ao mesmo tempo de significante e de significado, já que a aproximação semântica indica uma relação causal: o homem veio do pó, e a mulher da costela do homem. Ou, como diz a Segunda História do Gênesis, na versão haroldiana:
E disse o homem / esta desta vez osso / de meus ossos / e carne de minha carne / A esta chamarei mulher / pois do homem-húmus esta foi tomada.

Outra recriação notável, agora no livro do Qohélet, é a da paronomásia havel havalim, que nós conhecemos, a partir da Vulgata latina, como “vaidade das vaidades”. Esse é um dos versos mais conhecidos da Bíblia. Haroldo interpretou de outra maneira a sentença, traduzindo-a como tudo névoa-nada, sendo que havel, em hebraico, tem o sentido literal de vapor, sopro, e só figurativamente significa vaidade. Não se trata apenas de jogo lingüístico, mas, novamente, uma releitura do sentido, já que a palavra vapor tem um significado mais preciso do que vaidade, e com o conteúdo figurativo adicional de algo impalpável e efêmero. Assim como, na literatura budista, os fenômenos são comparados a bolhas de espuma, que surgem e logo caem na impermanência. Ao optar por tais soluções, Haroldo manteve-se fiel ao sentido literal, muito mais concreto do que abstrato, e com um ganho maior de poeticidade, pelo impacto do inusitado. O que surpreende, no entanto, é o modo como Haroldo fez isso sem abdicar da sonoridade do texto; vale lembrar que ele utilizou diversas gravações, com professores de hebraico lendo esses poemas em voz alta, para trabalhar a partir do impacto sonoro do original. A esse respeito, vale a pena citar um trecho da Primeira História, do Bereshit:
E Deus disse / que as águas esfervilhem / seres fervilhantes / alma-da-vida / E aves voem sobre a terra / face à face / do céufogoágua. / E Deus criou / os grandes monstros do mar / E toda as almas-de-vida rastejantes / que fervilham nas águas / segundo sua espécie / e todas as aves de pena / segundo sua espécie / E Deus viu que era bom.

Esse relato cosmogônico, história cantada do mundo, é um dos vários gêneros literários que integram o cânone bíblico. Em outros capítulos desse livro infinito, encontramos poemas líricos, como o Cântico dos Cânticos (que também integra o Éden), o relato épico, como a história de Josué e as trombetas de Jericó, o discurso filosófico, como os Provérbios e o Qohélet, e ainda esse texto insólito, irônico e enigmático que é a resposta de Deus a Jó, traduzida por Haroldo e incluída no livro Bereshit:
A chuva terá um pai? / Ou quem gerou / as gotas de orvalho? / Do ventre de quem / saiu o gelo? / E a geada do céu / quem a gerou? /; (...) Comandas e os relâmpagos vêm / E te respondem: 'Aqui estamos!' / Quem infundiu / no íbis sabedoria / Ou quem deu ao galo inteligência?

Outro texto de difícil classificação é o episódio da Torre de Babel, incluído no Éden, que é a metáfora arquetípica do surgimento das línguas e das nações (assim como a Primeira História do Gênese trata do nascimento da dualidade e do ego, aquilo que os hindus chamam de mundo do samsara). Novamente, aqui, Haroldo não se contentou com as soluções adocicadas das versões tradicionais, e fez um poema forte e consistente em português, descobrindo novos sentidos para formas novas.

Vale citar o fragmento final:

E disse Ele-O-Nome
um povo uno e uma língua-lábio una para todos
e isto só o começo do seu afazer
E agora nada poderá cerceá-los
no que quer que eles maquinem fazer
Vamos baixemos
e lá babelizemos sua língua-lábio
Que não entenda um
a língua-lábio do outro
E os dispersou Ele-O-Nome de lá
sobre a face de toda a terra
E eles cessaram de construir a cidade
Por isso chamou-se por nome Babel
pois lá babelizou Ele-O-Nome
a língua-lábio de toda a terra
E de lá dispersou-os Ele-O-Nome
sobre a face de toda a terra

Convém ressaltar que Ele-O-Nome é o modo como Haroldo traduz o intraduzível tetragrama que na Bíblia hebraica representa o nome impronunciável de Deus, e que em hebraico safa'ehath significa lábio, com o sentido de idioma; daí a versão haroldiana língua-lábio, que mantém na ambigüidade do neologismo a duplicidade de sentido do termo original. Sobre o Cântico dos Cânticos, pouco há o que dizer: é apenas a melhor tradução em português do mais belo poema de amor da história literária ocidental.

(Resenha que publiquei em 2004 no site Cronópios.)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A IMPORTÂNCIA DA LEITURA


ÚLTIMAS NOTÍCIAS

O programa de rádio Ondas literárias, apresentado por Andréa Catrópa, levou ao ar entrevistas com poetas brasileiros contemporâneos, como Virna Teixeira, Ademir Assunção, Frederico Barbosa, Rodrigo Garcia Lopes, Claudio Daniel, Ronald Polito, entre outros, além de dicas culturais, leituras e adaptações de poemas em áudio dos entrevistados. Agora, as matérias gravadas para esse programa podem ser acessadas na internet, no blog http://ondasliterarias.blogspot.com/