terça-feira, 31 de agosto de 2010

GALERIA: ISABELLE ADJANI


RELENDO AL BERTO (V)

CROMO

andamos pelo mundo
experimentando a morte
dos brancos cabelos das palavras
atravessamos a vida com o nome do medo
e o consolo dalgum vinho que nos sustém
a urgência de escrever
não se sabe para quem

o fogo a seiva das plantas eivada de astros
a vida policopiada e distribuída assim
através da língua... gratuitamente
o amargo sabor deste país contaminado
as manchas de tinta na boca ferida dos tigres de papel

enquanto durmo à velocidade dos pipelines
esboço cromos para uma colecção de sonhos lunares
e ao acordar... a incoerente cidade odeia
quem deveria amar

o tempo escoa-se na música silente deste mar
ah meu amigo... como invejo essa tarde de fogo
em que apetecia morrer e voltar

(Do livro Salsugem, 1984)

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

GALERIA: YAMAMOTO SHIHAN (II)













Yamamoto Shihan, um dos últimos mestres japoneses de Aikidô que foram discípulos diretos de Morihei Ueshiba, também é expert na arte da caligrafia, ou shodo.

RELENDO AL BERTO (IV)

A SEGUIR O DESERTO
(fragmento)

lua gelada osso branco sinalização nocturna da cidade
desolação de todos os quartos
ainda entesado olho-me no espelho da noite
envolve as enxárcias húmidas deste navio-cama
odores mornos de urina
o jornal onde acabo de ler uma infindável e confusa aventura de gatos assassinos
levanto-me pela janela apercebo o mar
amanhece
como sempre acontece assim que pressinto o mar
tenho a cara manchada de sal
um gemido sobe cola-se ao espelho à pele do rosto
grito
penso que foi um grito a escorregar atrás doa andaimes
havia lama duma ponta à outra da cidade
Lulu la Balle contorcia-se num espasmo de néon metalizado
lama
havia lama quando o lisérgico astro se atreveu a descer à boca
cores de pêssegos vermelhos troncos de árvores azuis queimados sobre o relvado
um centauro de fogo cobre os telhados com guinchos num derradeiroa pelo à chuva
eu sei
naquele instante ainda sem memória poderia iniciar a fuga
mas elaboro circuitos movo-me por entreportas
atravesso o escuro sono de aves petrificadas
o sonho dos dedos estende-se luminescente
e a noite enfurece-se onde escavo a pele imensa das cassiopeias
imemoriais subterrâneos do pesadelo paralelos corpos
ruídos de insectos marcando as horas
a casa expele vibrações de água cheira a metal enferrujado
desço pelo interior rugoso das paredes
a viagem devora-me
cega-me o brilho dos alicerces ainda sólidos da casa
ultrapasso-os por fim atinjo o lodo
as ardósias onde o cuspo dos deuses inscreveu a memória daquele que foge
pressente-se já a pequenez do país submerso
quando atei a minha idade ao coração da terra era porque a morte se aproximara
suicidei-me há muito se era isso que desejavam saber
enrolei-me nos fios eléctricos
comi as estrias dos discos para possuir em mim a música possível
depois mordi a mesa a caneta e os lápis
os objectos que me cercavam
conheço bem as suas consistências texturas e dimensões
irradio luz
naquela fotografia ainda podem ver o enigmático sorriso
o visco cor de sépia do rosto meigo em cima do musgo ensanguentado
e o lugar secreto onde ressoa a respiração dum outro corpo
toco com a ponta da língua as primeiras camadas de barro
ouço uma voz: lost in a labyrinth of future mystery
entro em estado de hibernação
a eternidade

(Do livro A seguir o deserto, 1983/84, incluído na edição das obras completas do autor português, intitulada O medo.)

domingo, 29 de agosto de 2010

GALERIA: YAMAMOTO SHIHAN


CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS

Retrato Completo de um Domingo. Pratiquei espada de Tai Chi no Parque do Ibirapuera, de manhã; depois, li algumas páginas da História do Cerco de Lisboa, de Saramago, e almocei no Chico Hambúrguer. À tarde, assisti seriados policiais na TV a cabo, com Regina e o meu gato siamês. Revisei algumas aulas que darei a meus alunos de criação literária, separei os textos críticos sobre Fernando Pessoa que preciso ler na próxima semana, respondi a mensagens atrasadas de e-mail e por fim lerei alguns poemas de Al Berto, bebendo um bom vinho francês (afinal de contas, eu mereço isso), para depois assistir a algum clássico do cinema japonês do anos 1950, dormir e quem sabe sonhar que sou um gângster da quadrilha de Al Capone, um contrabandista inglês do século XVII ou um samurai do período Tokugawa.

sábado, 28 de agosto de 2010

GALERIA: TARÔ ETRUSCO


UM POEMA DE MURILO MENDES

GRAFITO A VLADIMIR MAIAKOVSKI

Um cosmonauta cantando dá volta ao cosmo
enquanto eu desfaço a barba.

Constrói-se a décima musa
economia dirigida Unatotal
que deverá mover o homem novo

Planifica-se nos laboratórios
a futura direção dos ventos
extraí-se energia das algas
opera-se o sol

Eletrifica-se a eternidade
reversível

Entretanto

O PLANETA NÃO ESTÁ MADURO
PARA A ALEGRIA.

GALERIA: AL BERTO (IV)


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A POÉTICA DIONISÍACA DE AL BERTO

Rodrigo da Costa Araújo

A impressão digital estampada, em close, na capa do livro O Medo, de Al Berto, nome literário de Alberto Raposo Pidwell Tavares (1948-1997) e as epígrafes postas acima, emblematizam a escritura al bertiana picada pela paixão do múltiplo, do fragmento e pela perda do toque da identidade. O corpo em cena, ora revelando-se, velando-se, lido como receptáculo nessa apresentação, sensível e carregado de disfarces, entrega-se ao olhar hipnótico e sedutor do leitor, que o induz a visualizar e descrever o delírio.

Esse corpo de mistérios, ele mesmo jogo entre l’obvie et l’obtus, entre o visível e o invisível que, a luz da interpretação ou pelo olhar atento do leitor/espectador, torna-se, agora, a enunciação ou território, numa estrutura opaca, sombria e enigmática. Quem lê os poemas de Al Berto percebe, além desses recursos estilísticos das capas de seus livros, - corpo-imagem, corpo-texto -, as relações de sua produção com as outras artes, outras linguagens, entende-se o sentimento narcísico e desesperador por um desejo de se converter em poema. Sua gestualidade, à feição de um texto a ser decifrado, de um corpo que trama as suas vias e desvios, compõem-se igualmente de nomes falsos, troca de identidades, operação de truques e espelhamentos de mundos, reduplicando metaforicamente a produção artística. Suas poesias instauram o complô: o escritor, ao agir como criminoso, no roubo das citações de textos alheios, forja, ainda identidades, e se esconde atrás de máscaras; o leitor-crítico, por sua vez, ao destrinchar essas pistas, dirige seu olhar para tudo que inspira suspeita e conspiração.

Esgarçando os limites entre Alberto e Al Berto sua poesia é fruto de um narcisismo - como também fez Oscar Wilde, em O Retrato de Dorian Gray - de uma elaboração dramática perceptível em seus versos. Al Berto, nesse sentido, e ao gosto do Decadentismo, assume-se como imagem para ser contemplada, como esteta e função pública, como pose esgarçada ao limite. Suas fotografias, tomadas como parâmetro, paratextos e recompiladas nas capas de sua obra representam visualmente o texto como recurso e encenação de sua produção artística, escondem ou revelam o corpo integrando-o como temática.


(Leiam o texto integral deste ensaio na Zunái, na página http://www.revistazunai.com/ensaios/rodrigo_da_costa_araujo_poetica_dionisiaca.htm)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

GALERIA: AL BERTO (III)


RELENDO AL BERTO (III)

OFÍCIO DO JADE

por vezes corre-me pelas mãos uma morte
um olhar indefinido
separado do seu rosto mais nítido, um lago de nácar embutido na indelével paisagem
sou capaz de me desprender desse rosto, desse olhar
dessas mãos que adquiriram a sageza fria das fontes e a nobreza do dragão

na verdade, os ritos do suicídio sempre me perturbam o sono, perdem-se
na milenar memória doutro corpo-meu

transparentes paisagens tecem-se em mim
balbucio um desejo
o tempo ensinou-me como deve ser procedido de recolhimento e preces
o mágico ofício do barro

a obra, é em seguida submetida à vida fértil do fogo
onde irrompe a escrita e se aperfeiçoa o jade

OFÍCIO DE VIAJANTE

procurei dentro de ti o repercutido som do mar
a voz exacta das plantas e um naufrágio
o deslizar das aves, o amor obsessivo pelos espelhos
o rumor latejante dos sonhos, as cores dum astro explodindo
o cume nevado de cada montanha
difíceis rios, os dias

vivi em Roma
no tempo em que ali chegavam os trigos da Sicília e os vinhos raros das ilhas
a fama remota dos ladrões de Nuoro

todo o meu corpo estremeceu ao mudar de voz
cresci com o rapaz, embora nunca tivéssemos sido irmãos
e quando ficamos adultos para sempre
alguém lhe ofereceu o ofício de viajante

eu morri perto de Veneza
e quando atirava pedras aos pássaros sempre me ia lembrando de ti

(Poemas de Trabalhos do Olhar. 1976/82.)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

GALERIA: AL BERTO (II)


RELENDO AL BERTO (II)

eu vi
a sereia de plástico esfacelar-se no rubro sal das marés portuguesas
seios tolhidos no sange de um lápis de cor
na boca a fúria das viagens: europas américas arábias
mares estreitos onde é possível morrer
novos países novas profundidades delirantes visões
por entre o coral de teu corpo nómada
vestido de neblina e de rios
breves lâminas sulcam a memória de pequenos espectáculos
e tua mão abre-se para nos oferecer um ovo
ou seria o mundo pintado de branco e amarelo?
eu vi
a sereia do sonho cansado levantar-se luminescente
caminhar incerta pela noite adiante
olhos vibráteis captando a fragrância preciosa dos distantes marinheiros em cio
os dedos por cima doutros sexos lisos como os limos que escorregam para dentro
dos sonhos
inocência calcária dos dias
medusas mortas
o corpo enchendo-se com os despojos de um mar
eu vi
a sereia em plástico português
crescer das pérolas insones de uma ostra
e vergar o corpo sobre a folha de papel
fascinada
abria os lábios húmidos para sugar o sexo do marinheiro desenhado
escondia-se depois numa fresta penumbrosa do cais
prolongava a vigília do corpo na observação dos astros
enquanto tu continuaste a desenhar
eu vi
sua transparência de saliva pura atravessar corpos e estrelas
sem que teu corpo sofresse
ou sua transparência diminuísse
até que a noite sequiosa abria caminha às facas adivinhadas
e ao sexo em prazer vigoroso
onde peixes luminosos traçam na água as linhas da palma da mão
eu vi
a sereia de plástico construir um país
e um veleiro para se evadir na direcção doutras ilhas
levando por bagagem os detritos dados-à-costa: garrafas brancas de gin nocturno
sapatos inchados panos preservativos usados cacos de louça embalagens
carcomidas cartões de caixas ao vento velas da imensa jangada vestígios de
comida rápida pentes vidros filmes madeiras fotografias que o tempo recusou
morder
e navegou
navegou demoradamente conheceu a sede e a fome
o frio a neve de flutuantes ilhas a alucinação
eu via
sereia embriagada abrir garrafas de cerveja com os dentes
e oferecer flores envenenadas aos amantes
dobrada sobre as flores da velhice deixava-as cair
na vertigem fortíssima da aguardente
roía as unhas e a ferrugem dos brinquedos
desenterrava da memória colheres delirantes
restos de rostos carbonizados
areias cobertas de ouro e de peçonha
eu vi
a sereia fender seu próprio coração a golpes de sílex
e tatuar perto do antigo coração um rosto um cereal doente
nas veias rasgadas por monstros marinhos e pelo medo
o imenso medo do fim da adolescência
eu vi
a sereia em plástico português abrir um sulco de solidão
o precipício
e renegar o falso mel da terra debruçada sobre o esquecimento
rectângulo da monotomia donde soçobra o vómito
tudo enlouquece na ponta do lancinante lápis
as lágrimas o grito
eu vi
a sereia soltar das suas mãos a última paisagem viva
a papuola opiácea da morte envolvendo os corpos
antes de mergulhar para sempre na escuridão contínua do mar
eu vi
avermelhadas planícies
onde minúsculos animais fluorescentes semeiam olhos muito abertos
rasgando o confuso orvalho com suas caudas peludas
enroscando-se no doloroso pulso
transformam-se em pulseiras de sangue
a serpente mineral estrangulando o dedo
e no ombro do mar o adolescente nu reclina o corpo de água
dentro do emaranhado de libélulas enfurecdas voando
voando voando
eu vi

(Do livro O Mito da Sereia em Plástico Português, 1979)

GALERIA: AL BERTO


RELENDO AL BERTO (I)

no sábio jardim d’agosto floresce cor de malva o adocicado dos musgos opiáceos. ventos de fumo azulíneo tingem o melancólico corpo. a manhã costura um lírio de lume, ao inevitável vômito. a pele fica molhada no fresco orvalho da terra, um pássaro move-se no interior marulhar das vozes. os cabelos fibrosos agitam-se em tuas mãos, dentro de mim. acariciam o precário destino do sangue. o ar estrangula-nos com doçura. corto um dedo. corto-o porque está a mais numa das mãos anjauladas na alba. há caminhos que nos conduzem para além da paisagem de papel. estátuas de areia molhada deitadas na relva sequiosa de sono. felpudos antirrinos em murmúrios de saliva. despertam com lentidão pelos nervos repletos de lume. nos lagos da memória reflete-se o silencioso rosto do homem-vegetal. subitamente expande-se no sexo o espesso líquido da alucinação. a droga purifica. a memória projeta-se para lugares inacessíveis. turva-se de pássaros cortantes pontes dilaceradas corpos que pernoitam no estremecer laminar dos neons. acocorados olhamos para a noite em quatro dimensões. do corpo insone irradia o crime. um ninho de vespas enlouquecidas contamina o sangue. luz negra quase solar. o coração atingido.

(Do livro À procura do vento num jardim d’agosto, 1975, incluído no volume O Medo, que reúne a poesia completa do autor. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009.)

domingo, 22 de agosto de 2010


DOIS POEMAS DE PHILIP LARKIN


QUE ASSIM SEJA O VERSO

Eles te fodem, teus dignos pais.
Podem dizer que não, mas remanescem.
Te legam seus defeitos pessoais
E alguns extras, só para ti, acrescem.

Mas a seu tempo foram fodidos nos zeros
Por idiotas de velhos chapéus e churras,
Que metade do tempo eram austeros
E outra metade viviam às turras.

O homem a desgraça passa ao homem.
E ela aprofunda-se como uma gamboa.
Anda, sai logo dessa, vê se some,
E não pensa que ter filhos é uma boa.


DINHEIRO

Quinzenalmente, será, o dinheiro me reprova:
'Por que me deixar mofando aqui na cova?
Sou tudo que você não teve de sexo e pileques
E ainda pode tê-los preenchendo uns cheques'.

O que outros fazem dele, é questão curiosa:
Já têm uma segunda casa, carro e esposa.
Decerto, não o mantêm no sótão, feito jazida:
Líquido, dinheiro tem algo a ver com vida.

Ambos têm muito em comum quando se pesquisa:
Mas se você banca a sovinice, acumula divisas,
E, de jovem, desanda a poupá-lo até se aposentar,
Não te paga no fim muito além de um barbear.

Ouço o canto do dinheiro. É mirar do piso superior
Por amplas janelas, numa cidadezinha do interior,
Os casebres, o canal, os brocados da igreja em riste,
Doidos, ao entardecer. É intensamente triste.

Tradução: Ruy Vasconcelos

sexta-feira, 20 de agosto de 2010