sexta-feira, 20 de agosto de 2010

SONETO DO BURACO DO CU

por Arthur Rimbaud e Paul Verlaine

Paul Verlaine fecit

Franzido e escuro como um cravo violeta,
Ele suspira humilde, oculto sob a espuma
Ainda úmida do amor que escorre numa
Esfera glútea até que ao fundo se intrometa.

Alguns filetes, feito lágrimas de leite,
Choraram sob o irado austro que os arrasta
Pelos calhaus de marga vermelhosa e gasta,
Para sumirem na voragem do deleite.

Arthur Rimbaud invenit

Amiúde acoplo a minha boca na ventosa
Minha alma, da corpórea cópula invejosa,
Fez ninho de soluços no bueiro rubro

É o tubo de onde desce a ambrósia do delubro
É flauta carinhosa, é intumescida oliva
É fêmeo Canaã que eclode na saliva.

Tradução: André Vallias


Nota do tradutor: poema em forma de paródia a um livro de Albert Mérat, intitulado O Ídolo, onde se detalham todas as belezas de uma dama: soneto da face, soneto dos olhos, soneto das nádegas, soneto do... último soneto.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

GALERIA: LORD VOLDEMORT


DESASSOMBRO

Severo Snape lê a poesia completa de Bruno Tolentino em aramaico

entre um gole de suco de abóbora

e um gesto teatral com sua capa preta.

Lord Voldemort bebe sangue de unicórnio,

escreve 65 sonetos neoclassicistas

e faz anotações em seu blog sobre a crise da poesia

na pós-modernidade.

Bombas de fósforo branco caem sobre Gaza, Bagdá, Beirute,

minas terrestres explodem em Luanda e Maputo,

indiferentes a discussões estéticas sobre Manuel Bandeira

ou o último desfile da São Paulo Fashion Week.

Poetas brasileiros imitam limitações de Drummond,

falam de lirismo e subjetividade,

e vão empilhando diminutivos e palavras singelas

no jazigo de CDA, como ex-votos.

Lucius Malfoy tem uma coleção de bonecas lésbicas estranguladas

em sua casa mal-assombrada;

aqui, poetas brincam de boneca, em total desassombro.

Die Narbe der Zeit

tut sich auf

und sezt das Land unter Blut -

Die Doggen der Wortnacht, die Doggen

shlagen nun an

mitten in dir.

("a cicatriz do tempo

abre-se

e afoga a terra em sangue -

Os dogues da noite das palavras, os dogues

atacam agora

bem dentro de ti").

Paul Celan acordou do pesadelo da história nas águas do rio Sena

sem nenhum desassombro.

Poesia é algo que faz as palavras cantarem

- não como alaúdes (ataúdes)

mas como nervos expostos da linguagem.

(Editorial do n. 10 da Zunái, publicado em agosto de 2006.)

JULES LAFORGUE, 150 ANOS









Caros, confiram a nova edição da revista eletrônica Errática, editada por André Vallias, com traduções de Júlio Laforgue, em edição comemorativa dos 150 anos do poeta uruguaio de língua francesa. A revista pode ser acessada no endereço http://www.erratica.com.br/

terça-feira, 17 de agosto de 2010

GALERIA: JACK VETTRIANO


ÚLTIMAS NOTÍCIAS


Caros, li a seguinte notícia no jornal Folha de S. Paulo (14 de agosto, caderno Folha Ilustrada):

“As diretorias dos sindicatos dos jornalistas e dos radialistas de SP lançaram na quinta à noite, em reunião de que participaram cem pessoas, o movimento ‘Salve a Rádio e a TV Cultura’. É a primeira tentativa de reação às mudanças que João Sayad, presidente da Fundação Padre Anchieta (mantenedora da TV Cultura), pretende implantar. Sayad já anunciou o término do programa ‘Manos e minas’ e do ‘Login’, focados em jovens. Para a diretora do sindicato dos jornalistas, Rose Nogueira, o movimento ‘não visa apenas defender o emprego dos funcionários da emissora, ameaçados de demissão em massa, mas também defender um patrimônio cultural do povo paulista’. Sayad assegurou anteontem a representantes dos radialistas e dos jornalistas que não tem a intenção de demitir 1.400 funcionários, como chegou a ser veiculado. Segundo o presidente da Fundação Padre Anchieta, as dispensas devem atingir no máximo 450 trabalhadores responsáveis pela realização de programas que a Cultura prepara para veiculação na TV Justiça e TV Assembléia, entre outros (...). Aos sindicalistas, Sayad disse que essas demissões devem acontecer até dezembro deste ano”. Ou seja, as demissões vão ocorrer após as eleições estaduais. Mera coincidência, não é? Continuando a matéria, diz José Augusto de Oliveira Camargo, presidente do sindicato dos jornalistas: “Temos que discutir o que deve ser uma TV pública. O Sayad já disse que quer fechar várias unidades de produção de programas e passar a comprar conteúdos de produtoras independentes. Para isso não precisa uma TV Cultura. Basta uma antena”.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

GALERIA: ANDRÉIA CARVALHO


UM POEMA DE JORGE LÚCIO DE CAMPOS

A AULA DE GUITARRA

a Balthus

1
Não me lanço
à vida
por acaso:
não existo, resplandeço. Não celebro
o pranto que me oprime
e esgota meus recursos
Por acaso
um dinossauro, uma baleia
– uma impressão de poucos dígitos
Num rappel à l'ordre faço a luz
e o espaço
constitui minha colagem
– me acolhe num espelho
incoerente

2
Paraliso minhas
folhas de papel
e o poema perde o cálculo, o metal, a
urgência que o acordoa
e meu corpo se desfaz
– velado extrato
a raptar o mundo
O que me resta
rumoreja
me leva pra fora
despe
agride
sodomiza

3
Excluo apegos
e de vez
me torno em
torno de mim
Se me falam
não respondo
Se me tocam
me desvaio, devoro
a língua –
sujo a tábua rasa
de minha alma
– pinto um pôr-do-sol
e então fujo –
finjo que
não ouço
minha aula
de guitarra

GALERIA: PAVEL MIRCHUK (VII)


UM POEMA DE CLAUDIO NUNES DE MORAIS

ALGUNS GUITARRISTAS

Ouvi Manolo Sanlúcar
e Isidro, o mano fiel:
de suas cañas, o açúcar

por entre os caules de fel.
Ouvi também, no Brasil,
Cañizares (Juan Manuel):

ciência, vasta e não fácil,
mas espontânea, apresenta.
Ouvi depois esse anil

das mãos de Amigo (Vicente),
que apresenta em outro tom
Córdoba: explosivamente.

E antes Solera (Antonio)
- ouvi (ou vi) bem de perto
(e revi)–, em Carmen: dom,

Bodas de Sangre em concerto.
Mas ouvi Francisco Sánchez
Gómez, Paco (o mais deserto

da história: numa avalanche
de toques que invade e muda
o toque, como revanche:

a guitarra mais aguda,
mais musical, a fronteira
também do grave, sisudo):

“o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra”,
o que calcula as maneiras

de cada corda que vibra
e acorda em toda a magia
do “fluido aceiro da vida”

a frágua, a gitanería,
sim, ouvi Francisco Sánchez
Gómez, Paco de Lucía:

cultivando uma avalanche
de toques, mas com mão certa,
não deixa que se desmanche

o toque que se completa
com o elenco dos tablaos
e das peñas mais secretas,

pois tal guitarra, ou granada
que explode à frente do elenco,
sempre renasce – extremada –

dos pés, da voz do flamenco.

domingo, 15 de agosto de 2010

GALERIA: PAVEL MIRCHUK (VI)


UM POEMA DE RAINER MARIA RILKE

DANÇARINA ESPANHOLA

Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.

E logo ela é só flama, inteiramente.

Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com a arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.

Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.

Tradução: Augusto de Campos

sábado, 14 de agosto de 2010

GALERIA: PAVEL MIRCHUK (V)


ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Caros, recebi a notícia abaixo do poeta e amigo Abreu Paxe. Para quem não sabe, Ruy Duarte de Carvalho foi um dos autores mais representativos da poesia africana de língua portuguesa do século XX. Agora, ele está em outra dimensão, ouvindo a música das esferas.

Morreu o escritor e membro da UEA Ruy Duarte de Carvalho

A União dos Escritores Angolanos soube nesta quinta-feira (12 de agosto) e leva ao conhecimento do público o falecimento do escritor e membro desta instituição Ruy Duarte Carvalho. Segundo fonte familiar, depois de alguns dias sem dar notícias, o mesmo foi encontrado sem vida na sua casa em Swakopmund, na Nabímibia, para onde foi viver depois da reforma.

Ainda não se conhece a causa de morte do escritor de 69 anos, que também se dedicava ao cinema, artes plásticas e era doutorado em Antropologia, pela École de Hautes Études en Sciences de Paris, exerceu a actividade docente de professor na Universidade Agostinho Neto e foi professor convidado na universidade de Coimbra e na Universidade de São Paulo (Brasil), além de ter sido professor convidado da Universidade de Berkeley, na Califórnia, e realizou dois filmes Nelisita: narrativas nyaneka (1982) e Moia: o recado das ilhas (1989).

Nascido em Portugal, naturalizou-se angolano em 1983 por motivos que, como explica no catálogo do ciclo que o Centro Cultural de Belém lhe dedicou em 2008, se prendem com o sentimento, de que teve consciência aos 12 anos, depois de a sua família ter emigrado para Moçâmedes (Angola), de que tinha ali a sua "matriz geográfica"

No mesmo texto, reproduzido na página da sua editora de sempre, Livros Cotovia, explica: "Lembro-me de ter nascido, ou então de ter mudado inteiramente tanto de alma como de pele, pelo menos uma meia dúzia de vezes ao longo da vida e nenhuma delas foi lá onde terei, pela primeira vez, dado conta da luz do mundo. De que havia uma matriz geográfica que essa é que me dizia de facto muito intimamente respeito pela via quem sabe de uma qualquer memória genética, dei conta aos doze anos - lembro-me sempre de cada vez que ainda por lá passo e se calhar é para isso que ando sempre a ver se passo por lá – a comer pão e com um ataque de soluços no meio do deserto de Moçâmedes, por alturas do Pico do Azevedo. E de que havia uma razão de Angola que colidia com a razão de Portugal, disso dei definitivamente conta já a trabalhar nas matas do Uíje quando, em março de 1961, eclodiu a sublevação nacionalista no norte de Angola.”

No mesmo texto, o escritor e ensaísta explica a sua experiência da independência de Angola: "Acabei por voltar a Angola em 1974 e por passar a noite de 10 para 11 de Novembro de 1975 no município do Prenda, em Luanda, a filmar às zero horas, que foi uma hora zero, a bandeira portuguesa a ser arreada e a de Angola a subir no mastro".

Em 1989 recebeu o Prémio Nacional de Literatura e o seu Desmedida Luanda, São Paulo, São Francisco e Volta, Crónicas do Brasil (Livros Cotovia), recebeu o Prémio Literário Casino da Póvoa, atribuído no âmbito do encontro Correntes d'Escritas na Póvoa de Varzim, em 2008

A sua formação passou pela Escola de Regentes Agrícolas de Santarém, pelo curso de realização de cinema e televisão em Londres (realizou filmes para a TV angolana e para o Instituto do Cinema de Angola) e pelo doutoramento pela École de Hautes Études en Sciences Sociales de Paris com uma tese dedicada aos pescadores da costa de Luanda, com o título Ana a Manda (1989).

É autor de Vou lá visitar pastores (1999), da poesia de Chão de Oferta (1972) ou A Decisão da Idade (1976) - a sua poesia está reunida em Lavra (2005). Assinou ainda os diferentes estilos de A Câmara, a Escrita e a Coisa Dita... Fitas, Textos e Palestras (2008), Actas da Maianga (2003), Os Papéis do Inglês, As Paisagens Propícias (2005) e descrevia a sua obra como "meia-ficção-erudito-poéticoviajeira".

Em 2008, Rui Guilherme Lopes adaptou a obra Vou lá visitar pastores (1988), sobre os Kuvale, uma sociedade pastoril do sudoeste de Angola, encenada e interpretada por Manuel Wiborg e que esteve em cena noTeatro A Barraca, na Culturgest, no FITEI (Porto), no Festival de Almada e no Festival de Agosto em Maputo, Moçambique.

De acordo com a sua editora de sempre em Portugal, a Cotovia, a sua obra Vou lá visitar pastores está editada no Brasil pela Gryphus, As actas da Maianga foi editado em Angola pela Chá de Caxinde, que também editou Os Papéis do Inglês, obra que chegou ao Brasil pela Companhia das Letras de São Paulo e a Itália pela La Nuova Frontiera.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

terça-feira, 10 de agosto de 2010

GALERIA: PAVEL MIRCHUK (IV)


DIÁRIO DE UM VIAJANTE

Caros, no dia 11 de agosto, quarta-feira, às 20h, estarei em Itajaí (Santa Catarina) participando do evento Folias da Fala, promovido pelo Sesc. Vou debater o tema "Poesia e Novos Suportes" com a Clarah Averbuck e o Alckmar dos Santos. O evento acontecerá no Celio's Restaurante. Outra coisa: saiu a segunda edição de meu livro A Sombra do Leopardo, pelo selo Orpheu, da editora Multifoco. O livro, que recebeu em 2001 o prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, oferecido pela revista CULT, pode ser solicitado junto à editora, no site http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-selos-detalhes.php?idMidia=29&idSelo=17

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

GALERIA: PAVEL MIRCHUK (III)


UM CONTO INÉDITO DE WILSON BUENO

SOMBRUS

Perde-se na noite dos tempos a memória do primeiro navegador que desembarcou na ilha de Sombrus. Não se sabe quando isso se deu nem a nossa humanidade foi capaz de buscar mesmo a data aproximada da arriscada façanha.

É que em Sombrus vivem e latem, noite e dia, os cães selvagens do Arquipélago, que ali fizeram morada não se sabe igualmente como e muito menos por meio de quem. Aliás, pouco se sabe da história primeira de Sombrus, suja, sem dúvida, de lendas sinistras e ainda mais sinistros eventos de sangue e mar, sal e insistência.

Não convém, de nenhum modo, entretanto, ficar aqui lembrando a história pregressa de uma ilha que emergiu das águas do Pacífico feito uma flor monstruosa e triste. O que vale anotar é o presente. Este se dá, em Sombrus, de forma sumamente enigmática – as horas passam não em direção ao futuro, mas num lentíssimo escoar-se passado e saudade afora. Herança, odores, perfumes – esvaídos nas dobras dos dias, puro reverso, notícias longínquas, ecos de tardes soterradas pelo Tempo.

Em Sombrus, primeiro vêm as noites e depois delas o entardecer e, na sequência, a própria tarde, a manhã, o alvorecer, a madrugada inteira, para só então sobrevir de novo a noite antes da meia-noite, a lua e as estrelas.

É sempre assim. Conosco também retornam as faces que a mó dos anos puiu e gastou, e, tudo o que era sulcos e rugas reverte, o que é ainda mais inquietante, até uma temida infância que ameaça as gentes com o retorno ao útero e do útero ao aéreo nada de que fomos feitos um dia. A morte de não haver?

Contudo, os cães de Sombrus são os únicos seres que alcançam vencer a marcha à ré do Tempo. Nascem, crescem, procriam e morrem – os alvos ossos nas praias desertas; cada vez mais desertas.

Ninguém até hoje conseguiu explicar porque de toda ilha são os únicos seres vivos capazes do que chamamos, em Sombrus, ou fora dela, escassamente, de futuro.

Então é que se dá de Sombrus o inenarrável encanto – os cães, diz a lenda, são os testemunhos fiéis de que, mesmo ao contrário, os anos andam e andam, consumindo seres e coisas, vegetais e pedras.

Por isso, aturdidos, os cães latem, tarde da noite, e vão aos bandos pelas praias da ilha, como se sentissem a dor do Tempo atravessada na garganta.

Isso um dia vimos e ouvimos, nós, os navegadores de Hérida, há muitos e muitos séculos. Desconhecemos apenas se, pelos indizíveis meses que passamos ao mar, e o nenhum calendário, eles, os séculos, se encontravam ou não ao revés.
(Do livro de contos Ilhas, ainda inédito, que o pintor das tardes da floresta enviou para mim, semanas antes de virar constelação. Saudades, mano velho!)