sábado, 31 de julho de 2010

quinta-feira, 29 de julho de 2010

GALERIA: CHEMA MADOZ (II)




SEBASTIÃO NUNES ESCREVE SOBRE O ROMANCEIRO DE DONA VIRGO

AUTOR EXPLORA OS LIMITES DA LINGUAGEM

A literatura de ficção do século 20 pode ser dividida, grosso modo, em dois grandes grupos de escritores: os contadores de história e os pesquisadores de linguagem. Claro que está longe de mim tentar estabelecer blocos monolíticos de autores de uma ou outra tendência. Temos dezenas de bons e ótimos prosadores transitando com a maior desenvoltura de um lado para o outro, aos saltos e cambalhotas. Talvez os maiores exemplos desses grupos hipotéticos sejam, de um lado, James Joyce e, do outro, Marcel Proust, Thomas Mann ou ainda Franz Kafka. Já nos exemplos fica clara a superioridade numérica dos contadores de história sobre os pesquisadores de linguagem. Também no Brasil a tendência joyceana sempre esteve em minoria, mesmo porque num país de poucos leitores há o esforço natural para atrai-los através de narrativas lineares e de mais fácil assimilação. Não foi, contudo, o que aconteceu na virada de século. Incrivelmente, há uma crescente efervescência de autores voltados para a construção (ou para a desconstrução) da linguagem – e o mais recente deles, e dos mais criativos, originais e instigantes, é Claudio Daniel, com seu Romanceiro de Dona Virgo. Poeta com três ótimos livros publicados, Claudio partiu para uma prosa radical, em que – paradoxalmente – usa como referência e suporte alguns dos principais clássicos da língua, tanto na biografia como na obra. De fato, dos seis textos que compõem o livro, quatro se estruturam em torno de Camões, Gregório de Matos, Cláudio Manuel da Costa e Cruz e Sousa. Um outro toma como mote o romance entre George Sand e Chopin, enquanto o último retorna à época dos trovadores, para entremear à intrincada narrativa poemas em português arcaico, quando a língua se consolidava. Nesse nível de construção, em que a prosa ficcional é pretexto para a exploração ao máximo do potencial da língua e das estruturas narrativas, não se pode esquecer os que o antecederam entre nós, e cujos nomes só o valorizam, especialmente Guimarães Rosa, Haroldo de Campos e Paulo Leminski (via Catatau). É uma vertente riquíssima e da maior importância em nossa literatura. Ao lado de textos que se propõem mais narrativos, como o que conta uma hipotética aventura de Camões em Macau, no capítulo do mesmo título, o leitor vai encontrar textos de invenção radicalíssima, como Gavita, Gavita, em que Daniel mergulha na própria linguagem da loucura, numa construção densa e estranha, “entrecortada de pausas, silêncios e claridades súbitas”, com escreveu no posfácio Maria Esther Maciel. E também de textos em que, como destacou Sérgio Sant’Anna na orelha, “um jovem guerrilheiro, vestido de mulher, se refugia num mosteiro beneditino e vê Deus, e Ele é azul”, numa história que, apropriando-se de trechos de Gregório de Matos e do Padre Antônio Vieira, ecoa os momentos mais violentos da ditadura militar brasileira, séculos depois. O Romanceiro de Dona Virgo é um livro múltiplo e complexo. Desses que exigem tempo, argúcia e experiência na leitura da melhor literatura, e agora não apenas da ocidental, porque o romanceiro de Claudio Daniel nos remete a todos os tempos e a todos os povos, com sua multiplicidade de culturas e costumes, como se neste livro se reedificasse, mais uma vez, a Torre de Babel, em toda a sua extraordinária multiplicidade de linguagens.

(Resenha publicada em 2004 no jornal O Tempo, de Belo Horizonte.)

Em tempo: encontrei um pacote em casa com dez exemplares da primeira edição do Romanceiro. Se alguém estiver interessado em adquiri-lo, escreva para o meu e-mail, claudio.dan@gmail.com.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

GALERIA: CHEMA MADOZ (I)


FANTASMAS NÃO BEBEM COCA-COLA (VI)

(Segunda Ária de Lúcia)

Tia Vânia cuidou de mim. Ela me ensinou a tocar piano e a preparar tortas de palmito, com vago aroma de desolação.

Não tive o gato siamês que pedi de aniversário, pois ela era alérgica a felinos, homens e outros animais.

Estudei biologia, química, geografia e fiz aulas de dança indiana. Gostava de fumar escondido com os meninos.

— Isso não é coisa de menina, falou-me certa vez a professora Maria da Graça.

Eu adorava fumar escondido. Um maço inteiro de Malrboro por dia, uau, cigarro após cigarro. Tossia que nem uma condenada.

Pouco depois, li o Ulisses de Joyce e beijei na boca pela primeira vez. Que nojo! Levei anos para me recuperar, no divã da dra. Elizabeth.

Os anos se passaram e não fui atriz em nenhum filme de Peter Greenaway. Também não fui cantora, videomaker ou webdesigner.

Tia Vânia insistiu para eu conseguir o diploma de secretária. “Isto é para o seu futuro”, ela dizia, com o olhar grave de um arquipélago.

Hoje, sou a boneca mecânica que ela sempre quis. Apodrecendo entre caramujos de plástico e escaravelhos de isopor.


* * *

(Terceira Ária de Lúcia)

Wolf, você sabe qual é o caminho do inferno?

Passar batom maison désespoir a cada manhã, calçar as botas de putinha yuppie e ir ao escritório, mascando o chiclete de menta.

Separar envelopes e holerites como quem disseca vértebras. Arquivar as tripas em pastas.

Atender o telefone com a vez melódica, cardíaca, de um manequim de loja de casacos.

Escrever relatórios como as fezes de uma lagartixa grávida. Engolir a saliva, em vez de dar uma cusparada.

Esconder os seios dos olhares magriços de fúmeos office-boys jamaicanos com corações e crânios tatuados nos antebraços.

Depois, almoçar na sonâmbula cripta nipônica peixes temperados e cenas lacrimais de videokê.

Cortar pedaços de salmão com o asco encurvado do coveiro. Beber com asco o vinho de arroz entre biombos de paisagem descorada.

Ouvir com asco gravatas cardíacas cacarejarem nádegas disformes, em ecos sombrios de grunhidos.

Baby, esses caras são retratos calvos de paletó e marcapasso, suores telúricos nas costas e voz de grampeador coagulado.

I’am lonely in London, London, is far away.

Somos uns fantasmas, e fantasmas não bebem coca-cola.

Baby, este é o meu pequeno círculo da insanidade. Este é o meu fado e minha saga, jornada de febre e muco.


* * *

Sinfonia pulmonar.

Fréderic sonha novamente em verdes partituras de escarro com a estranha irmã que ele chamava de Menina da Fronteira.

Recorda sua voz profunda de contralto. Seu amor pelos pássaros e clavicímbalos, seu temor aos lobos e trompetes.

Houve uma vez, em Varsóvia, uma feira circense de italianos. Depois vieram baionetas e a longa viagem no vagão de trem até Viena.

Por que soldados sempre degolam poetas, estátuas e pianistas?, ele pensou.

Houve a pensão onde ele conheceu o amor de uma cortesã. O mercador judeu que comprou seu relógio de ouro. A catedral neoclássica que inspirou certo prelúdio.

E houve Paris.

Com seus deuses de mármore e pálidas princesas que aplaudiam adocicadas melodias, sonhando com aventuras sob a lua muçulmana.

Com suas vielas escuras de operários maltrapilhos e procissões solenes de velas e de cruzes, panos vermelhos e incensórios.

Com suas fábricas de lágrimas e seus periódicos pontuais, onde colunistas de cavanhaque discorriam sobre o Palais Royal.

Algum dia, haverá ali uma matança, pensa o polonês, deitado na areia junto à sua dama, que apenas o contempla, com olhar doce, terrível, indefinido.

George chupa o pau de Fréderic.


* * *

(Quarta Ária de Lúcia)

Wolf, você já deve imaginar o final da história. Sim, já pensei em brincar de Sylvia Plath, mas não escrevi nenhum poema.

Cortar os cabelos e virar monja budista? Seria uma saída, se eu não fosse tão ninfomaníaca. Além disso, nunca fui muito boa em sânscrito.

Pelo amor de Deus, nem me fale em posar para a Playboy. Eu não teria como pagar os caras, e ainda não fiz lipoaspiração.

Fugir para a Austrália seria lindo, se não tivesse medo de viajar de avião. Wolf, desculpe, nunca fui boa humorista. Talvez só saiba chorar.

Não, não é verdade. Eu sei escrever. Talvez apenas isso tenha me ajudado a suportar essa rotina absurda, epilética, essa vida vazia.

Eu posso sonhar, criar histórias. Foi a Menina da Fronteira que me ensinou. Você também a conhece, não é?

Se não posso mudar a vida, posso escrevê-la do jeito que eu quiser. Tudo é escritura. Nada é mais real que a página de um livro.

Escrevendo-me, posso virar top model, receber a Palma de Ouro em Cannes ou ser a rainha da Inglaterra.

Ou ainda, ser a Dona Virgo das cantigas lusitanas e ter o meu próprio Romanceiro.

Nada disso, porém, seria convincente; estou presa, talvez, a certos princípios de fabulação.

Confesso, não sou muito moderna. Tá legal, sou meio século XIX. Afinal, ninguém é perfeito, não é?

Preferi escrever algo mais simples: retratar minha rotina de animal triste e vencido, mas com uma diferença: você.

Sim, Wolf, você é meu personagem.

Desculpe-me por não dizer isso antes, mas não fique triste. Vamos ficar juntos para sempre, eu prometo.

Sou uma moça romântica.

terça-feira, 27 de julho de 2010

GALERIA: ANÔNIMO


FANTASMAS NÃO BEBEM COCA-COLA (V)

Mar nupcial de árvores e pianos, ninfa submerge na água, escreve mandalas de branca espuma na areia alucinada.

Meninos brincam. Bola vermelha avança no horizonte de pássaros e nuvens com formato de estranhos animais com chifres e corcovas.

A senhora obesa fecha o jornal após beber seu chá do Ceilão, abre as longas asas de harpia e voa num grito único, escuro.

Fréderic sorri com olhos de lua sanguínea.

A moça quase nua mergulha no esmeralda vivo das ondas como serpente do mar, seus braços dissolvem-se na água, os cabelos metálicos viram reflexo do sol e o corpo todo reconverte-se em verde céu.

O polonês tem medo do mar. Ele se afasta do sonoro pugilato das vagas que batem nas rochas com a ferocidade de um mamute.

Prefere pintar sóis de partituras com as mãos de esqueleto, dançar com os meninos na areia ou sonhar com música chinesa e otomanos.

Onde é possível divisar luzes mediterrâneas, perceber o azul que atravessa o verde como espátula e flagrar uns seios molhados.

Este é um quadro de Delacroix, ópera plástica com sopranos em nuances imprecisos e uma orquestra noturna de plantas marinhas.

A felicidade é uma vida medíocre, pensou.

Longe das gazetas e salões, dos cachimbos e monóculos em balcões de teatros apodrecidos, do abade insano e da condessa meretriz.

Longe do próprio vômito.

George emerge entre círculos concêntricos de espuma em uma concha de Botticelli e chama o polonês, que por fim adentra a água.

Súbito, ela afunda a cabeça risonha e brinca de afogar Fréderic, para depois salvá-lo com palavras de melodrama e teatro de bonecos.

O pálido músico contempla num segundo o estranho prelúdio em teclas brancas e negras sob o olhar cabalístico da Morte.

* * *

(Primeira Ária de Lúcia)

— Wolf, eu já te contei os meus pesadelos?

The lunatic is on the grass / The lunatic is on the grass / Remembering games and daisy chains and laughs / Got to keep the loonies on the path.

Eu vejo cenas de minha infância, como num cinema mental.

The lunatic is in the hall / The lunatic are in my hall / The paper holds their folded faces to the floor / And every day the paper boy brings more.

Vejo bonecas de pano sem cabeças. Vasos de violetas e avencas, no jardim. Cacos de vidro e um canário morto, na sala de jantar.

And if the dam breaks open many years too soon / And if there is no room upon the hill.

Ouço vozes nuas, das paredes da casa. Sinto o cheiro da compota de pêssego e do casaco de naftalina. Ouço aquela velha canção de ninar.

And if your head explodes with dark forbodings too / I’ll see you on the dark side of the moon.

A casa estava morrendo, e eu não sabia. Ela apodrecia aos poucos em sua lepra surda, solitária.

The lunatic is in my head / The lunatic is in my head / You raise the blade, you make the change / you re-arrange me ‘till I’m sane.

Eu fugia para o quintal, e brincava com meus jogos de crueldade. Decepava cabeças de lagartos, sorrindo para a líquida explosão verde.

You lock the door / And throw away the key / There’s someone in my head but it’s not me.

Fazia sopas de flores para as fadas, que nunca vieram para o jantar. Olhava o céu e sonhava com futuras tatuagens, uma para cada estrela.

And if the cloud bursts, thunder in your ear.

Gostava de correr na chuva, longe do cheiro de bebida, longe dos gritos amarelos. Um dia, mamãe não gritou mais.

You shout and no one seems to hear.

Eu queria ser estrela de cinema, sabia? Usar aqueles vestidos apertados, colecionar carros de luxo, ter uns olhos verdes de enfeitiçar.

And if the band your’e in starts playing differents tunes.

Depois que papai fugiu, nunca mais perdi um filme de Nastassia Kinski.

I’ll see you on the dark side of the moon.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

GALERIA: ELLEN VON UNWERTH (II)


FANTASMAS NÃO BEBEM COCA-COLA (IV)

(Ária de Wolfram)

Tudo é um livro de viagens.

Com fotografias de meninos e cavalos-marinhos, pássaros e pianos, garrafas de cerveja e pincéis.

Sempre é possível, no pequeno barracão de feira, brincar de marinheiro e esgrimista.

Tatuar o torso da formiga ou masturbar-se em jornais velhos.

Assobiar outro noturno de Chopin. Incendiar uma lágrima.

Jardins e camaleões, pérolas e madrepérolas, tudo são palavras secretas. Vivemos na encantação.

Somos todos peles-vermelhas, girafas sonâmbulas, relógios mecânicos, vagões de metrô.

Quando eu era adolescente, tracei com o canivete círculos na face. O meu nome então era “Eu Sou o Enforcado”.

Usava brincos de ouro nas orelhas e um lenço vermelho sobre a testa. Gostava de calças velhas, blusões de couro e pesados coturnos.

Amava fantasiar-me de cigano, bucaneiro ou tuaregue. Papai não gostava. Implicava com os meus disfarces.

Com o tempo, cansei de imitar esqueletos e motociclistas. Quis ser paisagens. Fiz-me deserto e iceberg, aurora boreal e piscina selvagem.

Certa vez, pintei o rosto de azul e raspei as sobrancelhas. Queria me vestir de “O Mais Profundo Céu”. Papai não gostou nem um pouco.

Ele, que era um diploma afogado em uísque com sorriso de impecável lagartixa e um relógio de pulso derretido dentro do crânio.

Gárgula com frio suor de réptil esmeraldino, papai invocou desolados cenários bíblicos, a foto de mamãe amarelada na gaveta fúnebre.

Ouvi sua voz de tenor enlouquecido, voz de galo azul e alvorada, e senti o peso de sua pata de urso em minhas costas de galápago.

Depois, o telefone trouxe o carro que me levou a um lugar branco com flores do campo, cheiro de iodo e novelas de Franz Kafka.

Fui levado a um quarto escuro onde caras fodidos como lutadores de jiu-jítsu me espetaram com seringas e alfinetes de cenobita.

Eles queriam que eu fosse um roteiro previsível de melodrama, com sorriso de plástico e girassol enfiado na lapela do paletó sombrio.

Sim, eles eram nigromantes e queriam transmutar-me em orquídea, em peixe ornamental de restaurante japonês com afiladas barbatanas.

Eles me trancaram na jaula de um navio holandês no mar imóvel de uma noite africana.

Tatuaram meus olhos com escunas e cetáceos e ataram meus punhos com as tripas de um leão.

Fumaram havanas e apagaram os tocos em meu tronco, incêndio de pequenos sóis, inscrições nas corcovas do camelo.

Unhas manchadas de preto, boca lacerada e tez amarela de defunto, juntei meus ossos e nervos e costurei com a pele da raposa.

Dor metalizada em touro, setas cravadas nas costas, escavei o chão com as patas e o focinho, híbrido animal de pequenos olhos vermelhos.

Assim o tempo vertical de um verde escuro, sinistra arquitetura de braços fluidos que cresciam nos lençóis e agarravam os meus pés.

Vozes ruivas de esfinges e medusas me curravam com cápsulas e haldol, eu era o zumbi da orquestra noturna de espectros e mongóis.

Urrava o azul de minha boca, riscava os pulsos com lascas de vidro e arranhava as paredes do crânio em formol.

Então, Ela, a Menina da Fronteira, sorriu para mim com o desenho de figuras espiraladas em seus lábios, e ouvi sua voz de taumaturga.

Havia uma porta atrás do espelho, com um corredor de mãos que puxavam meus cabelos. Segurei firme a ventosa e bebi a última gota.

Conversei com os mortos, como se fossem vivos, e aceitei sua versão dos fatos. Fiz-me coisa entre coisas, sombra entre muitas sombras.

Menti acreditar no que mentiam. Fingi ser um boneco mecânico, até ser declarado são. Agora, eles não podem mais me machucar.

Certo dia, acordei na manhã esquálida, escovei os cabelos molhados e vesti a camisa dos humanos.

Ela, a Menina da Fronteira, ainda estava sorrindo para mim quando papai assinou a folha do cheque antes de levar-me de volta para casa.

Cinco anos se passaram, levei comigo algumas cicatrizes e o Livro de Sonhos com as páginas em espiral borrifadas de estrelas.

— Estou tentando, estou tentando entender, ela respondeu com a pele e a voz, em timbre vegetal, escuro, quase mudo.

domingo, 25 de julho de 2010

GALERIA: ELLEN VON UNWERTH


FANTASMAS NÃO BEBEM COCA-COLA (III)

Cinema e bombons de licor, olhos pousados em seios, a vontade de ser pele-vermelha e a boca de Lúcia em seus dedos.

Acendem-se as luzes.

Pernas e cortinas se fecham, bocas mudas ergueram-se das poltronas e olham para os cartazes de um novo filme chinês.

Depois, cabelos e corpos ficam ensopados na corrida de touros até o mais próximo ponto de táxi.


* **

A noite tem peitos de esfinge, olhos de coruja, patas de macaco e asas de morcego.

Música de Wagner no CD. O canto de Brunhilde, na voz de Birgit Nilsson, no final do III ato de Siegfried.

A moça tira a lingerie e o céu joga flores brancas, azuis e amarelas nos braços e pernas que se misturam ao som de metais e violoncelos.


* * *

No dia seguinte.

Chá de cidreira matinal, pão preto com ricota, incenso e água para o Buda, regar o canteiro de flores no jardim.

Máscara balinesa na parede, um espelho oval de lupanar, cheiro de banho morno e o jornal espalhado no chão da sala, entre cartas de tarô.

Wolfram ligou a tevê para saber do atentado ao metrô de Paris. Onze mortos, dezenas de feridos, luzes de sirenes, jatos de água, policiais.

Fotógrafos e jornalistas estrangeiros acorrem como formigas, e as valquírias de Alá conduzem o mujahedim ao paraíso do Profeta.

Ele passava geléia em outra fatia de pão e dizia que vão tomar as cidades européias, todos vão ter de ler o Alcorão, jejuar no Ramadã.

Depois de Londres e Moscou, será a vez de Nova York, homens barbudos e mulheres vestindo a burga em frente ao Empire State.

Ela diz, não brinque, há cadáveres nas ruas, entre solidéus, katyushas e minaretes de mesquitas, quando o filme louco vai terminar?

Ele tocou mais uma vez a valsa da loucura, todos são insanos, malucos, kamikases, clones de Ariel Sharon e de George Bush.

Que nunca leram Whitman deitados na grama.

Nem contaram os dedos de suas namoradas ou recitaram fábulas persas para as nuvens, antes de outro ataque de furor genocida.

Baby, eles nunca ouviram Charlie Parker nem recitaram o mantra de Amitaba, pois estavam ocupados matando afegãos nos hospitais.

São eles, os gárgulas da guerra, os gigolôs de uma velha cadela banguela, uma civilização de remendos, uma marafona dos infernos.

Então, ela diz, tá, vem amor, desligue um pouco o Estúdio Realidade, vamos fazer um novo concurso de sonhos, eu deixo você ganhar.

Ela acende outro cigarro e diz, vem, não cansei de ouvir tuas alucinações.

Uma noite, você é o boxeador nigeriano com dentes de ouro.

Outra noite, é o gângster de Pacino com a metralhadora Thompson .45, ou é eleito Papa no Vaticano e canoniza Muamar Khadaffi.

Hoje, quem sabe, será o eunuco do serralho de um turco, com peito de bronze azeviche e uma longa faixa amarela contornando a cintura.

Eu sou apenas a loura com olhar monótono de couve-flor inglesa que atende telefonemas e entrega relatórios ao senhor diretor.

À noite, brinco de puta, e você usa minhas calcinhas coloridas para estrangular os cãezinhos do tédio.

Já de manhã, coloco água-de-colônia, salto alto e volto à rotina de abrir e-mails, receber malotes do correio e conferir falcatruas fiscais.

Wolf, eu não sei o que são os portais-de-pérola.

Sei apenas que um elevador espelhado é a ponte de arco-íris entre a recepção de voz titânica e a sala em carpete marrom do 7º andar.

Digo bom-dia com o olhar opaco da tarântula, sento em minha mesa e ligo o computador, discretíssima como um jornal dobrado.

Depois, abaixo a cabeça de alfinete e cravo as unhas no teclado, ao meio-dia telefono para a junky food e música de girassóis amassados.

À noite, chego em casa como um telegrama. Coloco tofu e sopa de ervilhas na tigela, ouço jazz de Charles Mingus e brinco de me matar.

Antes de beber o coquetel de creolina, pego o controle remoto, ligo a TV, deito nua na cama e ensino o gato a me chamar de Lady Solidão.

Tenho uma lata de salsichas em conserva na geladeira. Você quer?

sexta-feira, 23 de julho de 2010

GALERIA: JOEL PETER WITKIN (VI)


FANTASMAS NÃO BEBEM COCA-COLA (II)

Wolfram pensou no galho florido do ipê no verão, numa manhã sanguínea, na deusa seminua saindo da piscina com olhar celestial.

Porém, orange is the colour of darkness e ele tocou o velho saxofone no maldito antro yuppie, com a alma feito música líquida.

Vozes escuras, ruidosas, somavam-se ali aos odores de água-de-colônia, carneiro desossado e frango com especiarias.

A música nervosa mergulhava numa sequência de olhos vermelhos de lagartos, carecas lustrosas e decotes com enormes tetas brancas.

Bocas cegas dardejavam olhos mudos sobre copos de uísque e gravatas italianas, meias de seda e óculos comprados em Nova York.

O famoso colunista, em impecável terno sweed, discutia com o estagiário magrinho, que estudou na London School of Economics.

O albino obeso refletia na alta da taxa de juros, enquanto a gerente comercial bolinava o diretor financeiro, assobiando um samba-canção.

Impossível pensar em Giotto, aqui; nenhum Fra Angelico; caralho, nenhum Caravaggio entre pratos de arroz com creme de espinafre.

(Temperature’s rising, fever is high, can’t see no future, can’t see no sky.)

Aqui é a prisão da Mente, ele pensou; impossível a poesia neste labirinto de autômatos cocainados, inferno de janelas com vidro fumê.

(My feet are so heavy, so is my head, I wish I was a baby, I wish I was dead.)

Após o último solo de sax, tomou uma dose de sputinik e avançou pela noite vaporosa, rumo à estação do metrô.

(Oh I’ll be a good boy, please make me well, I promise you anything, get me out of this hell).


* * *

No vagão impressionista, rostos da floresta vertical entram com olhos noturnos, pernas de atrizes e guias de televisão.

A mulher morena que vende doces é uma bola quadrada que canta sambas com a orla marítima da boca.

O pescoço de esquimó com gravata amarela afoga o pássaro do medo em suas axilas, embrulhado no pedaço de jornal.

Uma estrela invisível resolve transformar-se em martelo.

O rapaz paranóico grita que não é uma montanha e revira as páginas da revista feminina, lambendo fotos de árvores-anãs japonesas.

Estação Ana Rosa.

O garoto suicida de barracões em lonjuras de azul e cinza toca no walk man aquela canção de navalhas que ele abomina.

Estação Paraíso.

Wolfram desceu como um negro marroquino de seu camelo e foi comprar cogumelos e tofu na última mercearia sayonará iluminada.

Depois, subiu os Alpes até o apartamento da rua Suíça para deitar nos lençóis de relógio mecânico de sua musa workaholic.

Com uma cara fodida de quem viu helicópteros cuspindo rajadas de metralhadora na selva colombiana.

— Seu Lobo Mau, você não tem nenhum romantismo, dizia Lúcia.

— Não me envia flores, não me dá bichos de pelúcia nem diz que me ama, enquanto conta os dedos dos meus pés.

— É, ele respondeu, sonhando com o tapete mágico de Aladim e a Lâmpada Maravilhosa.

A manhã seguinte trouxe uma orquestra de carícias.

Depois, os dois foram ao parque de mãos dadas, pierrot dark & miss colombina prêt-a-porter.
* * *
Parque Lezama.

Trilhas de formigas nos canteiros de azaléias, violetas e jasmins. Sinfonia de barro, pedras e gravetos.

Peixes de vidro, espelhinhos, miçangas cor de água; fósseis de algas, lascas de topázios, cacos de garrafa, em paleta de matizes.

Areia sobre areia, em camadas de cor, e a somatória de incenso em espirais, água de rosas e cheiro de maconha.

Cavalos em relevo de cobre e ilhas sangradas a óleo entre palhaços que choram e a imagem da deusa africana.

Uma ânfora verte água para os cães que se banham com as meninas de olhar verde oxidado.

Som vago de pianos, reflexo de catedrais e os jaguares cegos do desejo.

Moleques mijam na estátua do poeta, e o rabino talmúdico pensa em pastéis de palmito fritos na hora.

A velha senhora pinta aquarelas de pardais, e dá uma gostosa risada ao perceber lábios e braços misturados na grama.

Nuvem-caracol anuncia a chuva que cai, transparente, invisível, como numa tela de Monet.

— Vamos almoçar?

Atrás da banca de doces, sombras de pernas que correm, o maço de aspargos na calçada, alvoroço de olhos e o pisca-pisca de faróis.

Alguém assobia e joga no meio-fio o toco do cigarro.

* * *


No Restaurante Azul.

— Você reparou naquele garçom?, perguntou L.

— Sim. Ele se parece com um chafariz, com o bolor, um peixe, castiçais, tarântulas, um postigo ou uma chave inglesa, respondeu W.

(O diálogo foi ouvido por uma sopa de aspargos.)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

GALERIA: JOEL PETER WITKIN (V)


FANTASMAS NÃO BEBEM COCA-COLA (I)

O sol é música em Palma de Maiorca.

Fréderic sonha com a estranha irmã que lhe trazia doces e narcóticos.

Com a face terrível e angelical da mãe em Varsóvia, num domingo de canhões e baionetas.

George vela o sono do polonês e canta para ele uma pequena ária de concerto, com uma voz infinita de soprano e máquina de costura.

Depois, chama as crianças que faziam pouco das ondas, afundando as cabeças rubras na água como cavalos-do-mar.

Seremos felizes aqui, longe das loucuras de Paris, pensou, com um copo de vinho tinto e o leque de papel-da-china.

Estou aqui para amá-lo e cuidar de você, sou tua cadelinha de seda, teu guarda-chuva, teu pássaro de estimação.

Seremos felizes, longe de Monsieur Méprise e Madame Désespoir.

Viveremos juntos para sempre, eu para você, você para mim, mon petit dieu, mon joyau mélancolique.

As crianças correm de novo para o mar, onde encontram um gigante africano.

Elas olham fascinadas para o ancião, de longa barba e cabeleira, que diz palavras bizarras e agita colares de ossos e guizos.

George grita novamente, Maurice, Solange, voltem para cá, vamos para casa, está na hora do almoço, já é tarde, já é tarde.

Sim, mamãe, elas correm em direção ao guarda-sol, o negro continua as invocações e o sol permanece rútilo sobre as verdes águas espanholas.

Fréderic imagina o seu último recital para a Dama Sem Face.


* * *

Il faut être moderne, pensou Lúcia ao atender o celular, naquela manhã, vestida de tatuagens.

Wolfram dizia coisas obscenas a ela, nessa hora sonolenta em que os jasmins não são coelhos correndo em direção ao arco-íris.

A moça nua ria alto e seu riso misturava-se ao canto cego do jazz singer entre pilhas de revistas e ursinhos de pelúcia degolados.

Com uma touca nos cabelos, segurava o cigarro de canela, tragando devagar; depois, amassou a bituca no cinzeiro em forma de cisne.

Pegou o alicate e o vidro de esmalte para fazer as mãos e os pés, disse tchau amor e começou o jogo estratégico de lay out.

Ela, que sonhava com praias australianas, passou o batom devagar, nos lábios finíssimos, e depois pintou os biquinhos dos mamilos.

Então, escolheu a lingerie mais esperta e menos discreta, sentou-se para o longo ritual das meias e enfim vestiu o conjunto azul-turquesa.

Pronto, agora só faltava a escova nos cabelos e um rápido olhar no espelho antes de pegar o ônibus até a agência de publicidade.

No caminho, o chiclete com sabor de menta e um romance água-com-açúcar para passar o tempo.

Depois de alguns minutos, fechou o livro e olhou pela janela o muro com grafites de mísseis e caveiras, o cemitério, o oceano das ruas.

Pensava em Wolfram. Seu nome, sim, tem algo a ver com lobos, e foi tirado de uma ópera de Wagner.

Ela pensava no seu Lobo Mau como um sonho estranho.

O modo delicado como segurava suas mãos; o olhar de ave de rapina ou esgrimista.


A maneira como a despia, como se lidasse com pincéis e tinta plástica; como se bordasse figuras de triângulos e círculos coloridos.

— Vou ser uma Loba, uma Loba, Lua Negra de Lilith, ela pensava. Então, cuspiu o chiclete e desceu do ônibus, apressada.

Olhou para o relógio, oito horas, e correu como louca, de salto alto, sombrinha cor damasco e bolsa de couro na altura da cintura.

Até a Torre Norte do Paulista Work Station: para nova jornada de doze horas de telefonemas e reuniões com o senhor diretor.

Bater o cartão, retocar o batom, apertar o botão do décimo andar e abrir a porta de vidro da agência, onde alguém de óculos escuros e camisa amarela canta Lucy in the Sky with Diamonds.

(Fragmento inicial do conto Fantasmas não bebem coca-cola, de meu livro Romanceiro de Dona Virgo.)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

GALERIA: JOEL PETER WITKIN (IV)


GAVITA, GAVITA (IV)

ela é tão bonita como um sarcófago etrusco, espada sarracena, bi-ombo japonês. seus pequenos pés, que bocas febris e apaixonadas / purificam, quentes, inflamadas / com o beijo dos adeuses soluçantes. a boca, viçosa, de perfume a lírio, / da límpida frescura da nevada, / boca de pompa grega, purpureada, / da majestade de um damasco assírio. ela foi a minha máscara. ela é o meu fetiche. serei então o teu lacaio, teu pajem e eunuco. renuncio a minha vaidade, narciso despido de narciso. sou agora teu mendigo; serei teu diabo, teu criado, teu cão.

gavita, gavita; minha fada e apsara; agora repousa, negra e magra, como galho seco; a pele tensa, de cervo degolado; os olhos turvos, de noite proscrita. estirada, como massa amorfa, ou bolo vegetal; os braços líquidos, de nereida; a voz desfeita, em careta torpe. esticada, como um animal ou coisa; atirada, não, colocada no caixão, digo, em seu leito de extintas exéquias. meninos, esta é sua mãe; vamos deixá-la em paz, é hora de dizer bonne nuit. venham fazer as orações, no oratório; em nome do pai, do filho, do espírito santo, amém. é preciso fechar bem as portas e janelas; reler um soneto de camões; beber o copo de leite; abocanhar o naco de pão; esquecer um verso no idioma páli; fazer-me treva; guardar o grito ancestral no livro de retratos.

ela está enfeitiçada, e me apavora. eu sorvo sua treva, e afundo em visões de taumaturgo. insano, febril, como quem fuma visões de navios e cetáceos, desenho portais de estranhos labirintos, dragões de esquecida tapeçaria, sinos de catedrais submersas. vejo a noite decapitada. ouço a chuva que cai, tênue como o som de um cravo metafísico, remota sonata para medo e medula, no patíbulo das horas. recordo seus olhos de cravos e cravinas. seus olhos de uma tarde em setembro, quando havia um céu de seda e o apito do trem na estrada de ferro. eu via suas mãos crescendo como ventosas, os lábios de estilete, o corpo querendo voar. meninos morenos corriam na estação, sombrinhas e sobretudos criavam asas, uniformes e tabaco gritavam em cinza, um topázio virava uma estrela. esta foi a tarde azul da metempsicose.

gavita, gavita. foi minha culpa, meu pecado, que invocou esse fado? terei perdido a luz de sua luz por uma absurda, obscura vaidade? eis o que os versos me deram, a ardente areia desolada, o rito absíntico do medo. abyssus abyssum invocat. soa a meia-noite; agora, devo cuidar dela. velar seu sono, na madrugada inquieta. abrir seus punhos mudos, para o repouso; repelir do leito a cabeça do lagarto; pendurar suas vestes, guardar caixinhas e estojos, enxugar sua face. oh, senhor dos caminhos que se bifurcam. penso, mais de uma vez, em fazer-me nada entre nadas; partir rumo à nebulosa, mas não posso. ela está enfeitiçada, e treme toda, torva e turva; é fera e fúria. sim, cuidarei dela, e sempre a amarei. um amor obsessivo e triste, amargo e amarelo.

terça-feira, 20 de julho de 2010

GALERIA: JOEL PETER WITKIN (III)


GAVITA, GAVITA (III)

para as estrelas de cristais gelados / as ânsias e os desejos vão subindo, / galgando azuis e siderais noivados, / de nuvens brancas a amplidão vestindo. mas agora soa apenas a sina da insânia, pretume, pedraria, pesadelo; desnudas deidades descartam os danados, riem dos duendes da demência. (sozinho,) (no rito) (intenso) (da nevrose,) (junto) (minhas cinzas) (no místico) (cinerário,) (ao som) (de brahmânicos) (sonidos.) (shiva,) (shiva) (nataraja,) (onde,) (em que) (lua) (ou pétala) (ofendi) (a memória) (de um deus?). (senhor) (dos dançarinos,) (quando,) (em que era) (noturna) (de infortúnios) (cometi) (os mais terríveis) (enganos?) (estas) (são) (as mãos) (de um) (criminoso,) (turco) (ou judeu.) (apedrejai-me,) (sim,) (apedrejai-me,) (para abreviar) (a minha) (longa) (miséria.)

(vítor,) (houve uma ilha) (em que os homens) (e as mulheres) (andavam nus,) (e as árvores) (geravam) (pomos) (de ouro.) (filetes de água) (escorriam) (pelo verde) (limoso) (das rochas.) (o sol) (de bronze) (festejava) (os ritos) (da primavera). (monolitos) (decorados) (com coroas) (de flores) (pontiagudas.) (oferecia-se) (aos deuses) (música) (de tambores) (e frutas) (saborosas.) (tudo era calma,) (beleza) (e languidez.) (tudo era dança, dança, dança.) (oh senhor) (dos rios) (que se encontram,) (em que distante) (esfera) (perdi) (a minha vida?)

está enfeitiçada, sim, enfeitiçada, triste espectro que vomita estrelas. cega e surda, não escuta clamores; ordena traições e incestos; sorri dos servos fenícios degolados. crianças, esta ainda é a sua mãe. venham. vamos conversar. o nilo banha o egito, terra de escribas e papiros. o sena flui em paris, onde os poetas são jovens tuberculosos. o tâmisa tem o fog londrino como cenário, e abriga as ossadas de um famoso maníaco. o ganges nasce dos pés de lótus de krishna. é preciso lembrar das savanas e das estepes. das matas tropicais e dos desertos. dos míticos vulcões e das geleiras. é preciso conhecer o mundo.

(eu quero sair do mundo.) (habitar outros pórticos.) (aprender) (idiomas) (sem vogais.) (há uma estrela) (de musicais) (estatuarias.) (há um espelho) (que reflete) (apenas) (minaretes) (de mesquitas.) (há uma moeda) (que mesmeriza) (tenores) (e contraltos.) (há uma lesma) (ou plasma) (que abraça) (os meninos,) (sorrindo) (truculenta,) (brutal,) (um riso) (azul) (de agonia.) (certa vez) (sonhei) (um livro) (infinito.) (suas paginas) (eram translúcidas) (como um espelho.) (as palavras) (brotavam) (como gotas) (de chuva) (borradas,) (sangradas) (no vidro) (do papel;) (as letras) (eram arcanjos) (desnudos,) (que cantavam) (em timbre) (agudo,) (numa) (voz) (escura,) (quase) (silêncio.) (eu sou) (talvez) (esse livro.)

gavita, gavita. reclinada em seda e linho, lua minguante, no entressonho. seus caninos nivosos, torneados, como jóias de marfim. suas palmas, de rosácea; os clarões das unhas, e os olhos, corolas de hibisco. ela amava as valsas ingênuas, os realejos e tristes ametistas; o chá servido em baixela; o sabor do vinho branco; passear de braços dados, no largo do coreto. súbito, cai uma flor amarela, no tanque de água; ela sorri, e recorda quando a abracei, no jardim dos moura schiavo, lembra-se do que eu disse em seu ouvido, você é só encanto, encantamento, my love is as a fever, longing still. ela coloca meus dedos em sua boca e diz que eu tenho o olhar cigano de um nômade estrangeiro; e acaricia meus cabelos com os dedos finos, suaves, tão suaves. mas isso foi em outra aurora; agora apenas gira, desorientada, sem rumo nem prumo, sem ver-me ou ouvir-me, dolente e demente, enfeitiçada.