
segunda-feira, 19 de julho de 2010
GAVITA, GAVITA (II)
(na mocidade,) (tomei cerveja) (com vadios,) (provei do tabaco) (e do presunto tostado;) (soube de vênus) (com atrizes) (de má vida.) (se sonhei) (com o sublime?) (sim,) (foi) (numa festa) (de coxos.) (sou um porco,) (como todos) (os homens) (são porcos;) (injuriei,) (conheci) (o escarro,) (o tabefe.) (porque sei,) (sou duende;) (vejam) (minhas unhas;) (sou inferior,) (como um pedaço) (de ferro;) (um saco) (de farelo;) (migalhas) (de ração.) (por que li) (o teu livro,) (charles baudelaire?) (acreditei-me um deus.)
está enfeitiçada, pobre leoa devassa; onde estão teus filhotes? devo banhá-la, com a água que eu mesmo fervi. ergo seu braço, para a assepsia; depois outro, e as pernas, o pescoço, as nádegas, sem nenhum erotismo: como se prepara um morto para o caixão. vesti-la, peça por peça, com as cores discretas da pobreza. assobiar talvez uma valsa, um minueto, para dar requinte a nossa sopa. por fim, velar o sono da vestal, para só depois escrever os versos que ninguém escreveu jamais. torva, febril, torcicolosamente, / numa espiral de elétricos volteios, / na cabeça, nos olhos e nos seios / fluíam-lhe os venenos da serpente.
(arquivista, sim,) (da estrada) (de ferro,) (ninho) (de covas) (e coveiros;) (onde) (sou corvo) (entre corvos,) (negro) (entre negros,) (porque os versos) (não compram pão.) (recolher as sobras,) (para o azeite) (e as verduras.) (desviar do cuspe;) (oferecer a outra mão.) (exilado) (de mim,) (despido) (de qualquer) (delicadeza) (sou coisa) (entre coisas.) (vítor,) (o que) (fazer,) (sozinho,) (em terra desolada?)
(houve) (um tempo) (em paris) (em que fui) (o rei) (do haxixe.) (todas) (as moças) (amavam) (minha face) (de príncipe) (etíope,) (atlante) (ou cenobita.) (eu usava) (uma gravata) (vermelha,) (flor) (de cardo) (na lapela) (e bigodes) (espessos) (de mongol.) (é tão distinto) (ser) (um poeta) (maldito.) (meus versos) (encantavam) (insólitas) (platéias) (ao som) (monótono) (do piano) (estrangulado.) (alguém) (de suíças) (platinadas) (desenhava) (haréns) (de divas) (marroquinas.) (um outro) (de denso) (cavanhaque) (e nariz) (encurvado) (discutia) (platão) (e plotino.) (mulheres) (de seios) (rosados) (entoavam) (árias) (de concerto.) (havia) (pratos) (refinados) (de atum) (e salmão,) (garrafas) (de vinho) (espanhol) (e cheiro) (forte) (de fumo) (africano.) (eu era) (o rei) (do haxixe,) (até) (certo dia,) (quando) (fui surrado,) (como) (um) (escravo,) (cuspido) (e) (atirado) (para fora) (dos salões,) (como) (um corcunda,) (leproso,) (bufão.) (senhores,) (vejam,) (ali) (vai,) (célere,) (espavorido,) (o) (macaco) (cantante.)
gavita, gavita. sim, está enfeitiçada, e fala ganidos. ela, minha bela, dona e dânae, minha flor amarela, meu bicho-da-seda, minha floresta. eu sou o teu dervixe, tua chuva de ouro, teu apache, teu urso polar. vem, deusa de tetas verdes, vem aos meus braços, como no tempo em que te conheci, na terra do gelo. você me dizia de países distantes, em que são servidos licores de pétalas de rosa. onde há carros floridos movidos pela mente, e macacos que entoam devotadas preces. eu enlaçava tua cintura delgada, e recitava o mantra dos jogos nupciais.
está enfeitiçada, pobre leoa devassa; onde estão teus filhotes? devo banhá-la, com a água que eu mesmo fervi. ergo seu braço, para a assepsia; depois outro, e as pernas, o pescoço, as nádegas, sem nenhum erotismo: como se prepara um morto para o caixão. vesti-la, peça por peça, com as cores discretas da pobreza. assobiar talvez uma valsa, um minueto, para dar requinte a nossa sopa. por fim, velar o sono da vestal, para só depois escrever os versos que ninguém escreveu jamais. torva, febril, torcicolosamente, / numa espiral de elétricos volteios, / na cabeça, nos olhos e nos seios / fluíam-lhe os venenos da serpente.
(arquivista, sim,) (da estrada) (de ferro,) (ninho) (de covas) (e coveiros;) (onde) (sou corvo) (entre corvos,) (negro) (entre negros,) (porque os versos) (não compram pão.) (recolher as sobras,) (para o azeite) (e as verduras.) (desviar do cuspe;) (oferecer a outra mão.) (exilado) (de mim,) (despido) (de qualquer) (delicadeza) (sou coisa) (entre coisas.) (vítor,) (o que) (fazer,) (sozinho,) (em terra desolada?)
(houve) (um tempo) (em paris) (em que fui) (o rei) (do haxixe.) (todas) (as moças) (amavam) (minha face) (de príncipe) (etíope,) (atlante) (ou cenobita.) (eu usava) (uma gravata) (vermelha,) (flor) (de cardo) (na lapela) (e bigodes) (espessos) (de mongol.) (é tão distinto) (ser) (um poeta) (maldito.) (meus versos) (encantavam) (insólitas) (platéias) (ao som) (monótono) (do piano) (estrangulado.) (alguém) (de suíças) (platinadas) (desenhava) (haréns) (de divas) (marroquinas.) (um outro) (de denso) (cavanhaque) (e nariz) (encurvado) (discutia) (platão) (e plotino.) (mulheres) (de seios) (rosados) (entoavam) (árias) (de concerto.) (havia) (pratos) (refinados) (de atum) (e salmão,) (garrafas) (de vinho) (espanhol) (e cheiro) (forte) (de fumo) (africano.) (eu era) (o rei) (do haxixe,) (até) (certo dia,) (quando) (fui surrado,) (como) (um) (escravo,) (cuspido) (e) (atirado) (para fora) (dos salões,) (como) (um corcunda,) (leproso,) (bufão.) (senhores,) (vejam,) (ali) (vai,) (célere,) (espavorido,) (o) (macaco) (cantante.)
gavita, gavita. sim, está enfeitiçada, e fala ganidos. ela, minha bela, dona e dânae, minha flor amarela, meu bicho-da-seda, minha floresta. eu sou o teu dervixe, tua chuva de ouro, teu apache, teu urso polar. vem, deusa de tetas verdes, vem aos meus braços, como no tempo em que te conheci, na terra do gelo. você me dizia de países distantes, em que são servidos licores de pétalas de rosa. onde há carros floridos movidos pela mente, e macacos que entoam devotadas preces. eu enlaçava tua cintura delgada, e recitava o mantra dos jogos nupciais.
domingo, 18 de julho de 2010
GAVITA, GAVITA (I)
escuro, escuro como um uivo — som de sombra — esquálido e fecal — voz miúda, no espaço espesso. gestos surdos, de pele tensionada — mãos fluidas que tateiam o ar. sim, está enfeitiçada. ginga, negra e cega, em vôo tosco. vibra o torso, em vaivém, nas pontas dos pés. ginga e gira, com serpentes nos braços, e treme toda, torva e turva. não tem unhas, só garras; nem lábios, apenas gritos mudos. ela expande os passos, sem volúpia ou cisma, e s’incandesce, crestando o solo. é toda fera e fúria. está enfeitiçada, e me apavora. eu sorvo sua treva, e afundo em visões de salamandra. visitei as páginas de um livro de magia, e invoquei as figuras retorcidas da insânia: vêm, astaroth, asmodeus, sintam a carne que ofereço a seus caninos.
(eu sabia os nomes das flores, quando menino, das estrelas e insetos;) (juntava lagartas numa caixa de sândalo) (e rezava pelas almas das princesas suicidadas.) (um albino ensinava-me latim) (e apertava fortemente meus testículos.) (laos deo, laos deo.) (citações de cícero e da guerra da gália) (até soar a sineta para o desjejum.) (eu gostava dos turíbulos e ostensórios,) (dos saltérios e vitrais) (em que o filho do ho-mem) (sangrava por nossas culpas.) (excitava-me com sua dor.) (amava ícones mal pintados,) (palavras arcanas,) (música de violoncelo) (e sonhava ser marinheiro) (ou alcoólatra.) (certo dia, fugi.) (oh estações, oh castelos.) (açoitei a delicadeza,) (fiz-me barro, besta, bruto;) (um selvagem, sim, selvagem,) (e toquei tambor) (na noite do sabá.)
(minha mãe tinha seios brancos) (e voz branca de medievo místico.) (ela foi a lua cheia,) (angélica e nivosa,) (oh monja da cela constelada.) (meu pai foi um rude fazendeiro,) (igualmente branco,) (cujo olhar tinha odor de antigas armaduras.) (recordo seu rosto de falcão,) (as pequenas mãos trigueiras,) (a voz pesada, de bacamarte.) (eles eram de diversa estirpe,) (mas eu os amei,) (em minha estranha epiderme,) (na nostalgia de outro reino,) (que não sei.) (dizem os juristas) (que no céu) (todos são brancos,) (como as velas dos santos,) (o linho,) (o algodão.) (é verdade que sou um deslocado,) (desbocado,) (excêntrica bizarria,) (rosa cúbica, talvez.) (vejam, aqui está) (o negrinho) (que fala francês,) (membro de uma raça impura,) (turba de pobres diabos,) (ratos depenados,) (pretos amaldiçoados.) (é verdade,) (confesso aos senhores,) (a minha escurez,) (mas guardo comigo) (a música das esferas.)
está enfeitiçada, e canta ladainhas. em nervosa mímica de punhos, move-se como a naja em sua caverna, o peito magro ornado com colares de crânios, os cabelos azuis cobertos de cinzas. ela dança, dança sobre o meu ventre, agitando as armas de suas múltiplas mãos, e beija-me a boca com os acres perfumes do crematório. delírio contorcido, convulsivo / de felinas serpentes, / no silamento e no mover lascivo / das caudas e dos dentes. (não há qualquer caminho) (ou via ideal) (com trigais e monjolos,) (apenas a rua) (tortuosa do grito,) (a vereda) (fantástica) (do absinto.)
(fui o ponto) (dos mais curiosos) (espetáculos,) (cedendo palavras) (aos atores no palco;) (e emprestei silêncio) (a minhas próprias comédias.) (sou talvez essa loucura geométrica,) (nos porões de um teatro abolido.) (mancha de tinta) (no final de cada linha,) (sem dimensões,) (mínima esfera.) (uma pausa entre vozes,) (lugar indefinido,) (porção menor de um plano,) (sinal que abrevia os vocábulos.) numa evaporação de branca espuma / vão diluindo-se as perspectivas claras... / com brilhos crus e fúlgidos de tiaras / as estrelas apagam-se uma a uma.
(eu sabia os nomes das flores, quando menino, das estrelas e insetos;) (juntava lagartas numa caixa de sândalo) (e rezava pelas almas das princesas suicidadas.) (um albino ensinava-me latim) (e apertava fortemente meus testículos.) (laos deo, laos deo.) (citações de cícero e da guerra da gália) (até soar a sineta para o desjejum.) (eu gostava dos turíbulos e ostensórios,) (dos saltérios e vitrais) (em que o filho do ho-mem) (sangrava por nossas culpas.) (excitava-me com sua dor.) (amava ícones mal pintados,) (palavras arcanas,) (música de violoncelo) (e sonhava ser marinheiro) (ou alcoólatra.) (certo dia, fugi.) (oh estações, oh castelos.) (açoitei a delicadeza,) (fiz-me barro, besta, bruto;) (um selvagem, sim, selvagem,) (e toquei tambor) (na noite do sabá.)
(minha mãe tinha seios brancos) (e voz branca de medievo místico.) (ela foi a lua cheia,) (angélica e nivosa,) (oh monja da cela constelada.) (meu pai foi um rude fazendeiro,) (igualmente branco,) (cujo olhar tinha odor de antigas armaduras.) (recordo seu rosto de falcão,) (as pequenas mãos trigueiras,) (a voz pesada, de bacamarte.) (eles eram de diversa estirpe,) (mas eu os amei,) (em minha estranha epiderme,) (na nostalgia de outro reino,) (que não sei.) (dizem os juristas) (que no céu) (todos são brancos,) (como as velas dos santos,) (o linho,) (o algodão.) (é verdade que sou um deslocado,) (desbocado,) (excêntrica bizarria,) (rosa cúbica, talvez.) (vejam, aqui está) (o negrinho) (que fala francês,) (membro de uma raça impura,) (turba de pobres diabos,) (ratos depenados,) (pretos amaldiçoados.) (é verdade,) (confesso aos senhores,) (a minha escurez,) (mas guardo comigo) (a música das esferas.)
está enfeitiçada, e canta ladainhas. em nervosa mímica de punhos, move-se como a naja em sua caverna, o peito magro ornado com colares de crânios, os cabelos azuis cobertos de cinzas. ela dança, dança sobre o meu ventre, agitando as armas de suas múltiplas mãos, e beija-me a boca com os acres perfumes do crematório. delírio contorcido, convulsivo / de felinas serpentes, / no silamento e no mover lascivo / das caudas e dos dentes. (não há qualquer caminho) (ou via ideal) (com trigais e monjolos,) (apenas a rua) (tortuosa do grito,) (a vereda) (fantástica) (do absinto.)
(fui o ponto) (dos mais curiosos) (espetáculos,) (cedendo palavras) (aos atores no palco;) (e emprestei silêncio) (a minhas próprias comédias.) (sou talvez essa loucura geométrica,) (nos porões de um teatro abolido.) (mancha de tinta) (no final de cada linha,) (sem dimensões,) (mínima esfera.) (uma pausa entre vozes,) (lugar indefinido,) (porção menor de um plano,) (sinal que abrevia os vocábulos.) numa evaporação de branca espuma / vão diluindo-se as perspectivas claras... / com brilhos crus e fúlgidos de tiaras / as estrelas apagam-se uma a uma.
(Fragmento inicial do conto Gavita, Gavita, de meu livro Romanceiro de Dona Virgo, publicado em 2004 pela editora Lamparina, do Rio de Janeiro.)
sábado, 17 de julho de 2010
CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS (I)

Parei de fumar há um ano e meio. Confesso que não sinto nenhuma vontade de voltar a acender um cigarro. Nem vontade física, nem mental. Não parei de fumar pensando em ter vida longa, nem por convicção filosófica, religiosa ou por pressão social e publicitária, e não usei nenhuma medicação específica para combater o tabagismo: tive apenas uma forte motivação, a de obter uma condição física mais adequada à prática do Aikidô, arte marcial japonesa criada na primeira metade do século XX por Morihei Ueshiba a partir de antigas técnicas de combate dos samurais. Esta arte me fascina pela beleza, equilíbrio e harmonia dos movimentos, e sobretudo pelo trabalho de sensibilidade, percepção, intuição, consciência corporal e interação com os que estão à sua volta. O colega de treino, ou uke, não é visto como um adversário, mas como alguém que colabora com o seu aprendizado: o Aikidô é o caminho da união da sua energia com a do outro (Ai, unir; Ki, energia; Do, caminho), e desse trabalho advém a eficiência das técnicas (em resumo, usar a força do outro contra ele mesmo). Os verdadeiros inimigos, de acordo com a filosofia dessa arte, são internos: o ódio, a inveja, o ciúme, a cobiça, o medo e outros venenos mentais. Acredito que o Aikidô transcende a prática física, é no fundo um exercício mental e espiritual, que exige talvez o tempo de uma vida para termos um pequeno conhecimento de alguns de seus aspectos.
Já escrevi muitas vezes aqui sobre esta arte fascinante, que hoje me interessa muito mais do que a literatura ou qualquer outro assunto. Minha intenção inicial, ao escrever este relato, era a de falar sobre a “vida após o cigarro”, agora que completei 18 meses de abstinência. Sofri muito nos primeiros três ou quatro meses (o cigarro era um estímulo à minha própria criação literária, inclusive; mas acabei descobrindo que, mais do que inspirar, ele roubava tempo do trabalho criativo, já que eu era obrigado a parar de escrever, a intervalos de tempo, para ir fumar na área de serviço). Cortei o consumo de café, álcool, carnes temperadas, comidas picantes, qualquer coisa que pudesse “chamar” o cigarro, nos primeiros meses. Beber água ajuda? Sim, mas não muito; em meu caso, funcionou mais o truque mental de “mudar de assunto”: deu vontade de fumar? Ótimo, vamos mudar de assunto! Mente, que tal você pensar no segundo ato da ópera Tristão e Isolda, de Wagner? Ou então, naquele artigo sobre a técnica de fabricação tradicional da espada japonesa? Ou num poema de Hoelderlin que reli tantas vezes e nunca consegui entender? Parece algo ingênuo, mas funciona: a mente muda o objeto do pensamento, e em alguns minutos a vontade de fumar desaparece. O curioso é que, nesse tempo todo, por diversas vezes eu sonhei que estava fumando, e os sonhos nunca eram prazerosos: eles traziam um sentimento de culpa, do tipo: “Caralho! Você aguentou tanto tempo, tinha que ceder agora?”. Quando acordava, e sabia que foi apenas um sonho, eu me congratulava por ter mantido a força de vontade, e não recuado em meu propósito. O resultado de todo esse esforço, 18 meses depois? Sim, a respiração melhorou, a disposição física, o paladar, engordei 15 quilos e, o melhor de tudo: a dependência mental desapareceu. Esta, acredito, foi a maior conquista nessa batalha, após 30 anos de uso regular de tabaco.
P.S.: revendo filmes de Bergman e Godard, como Monika e o Desejo e Acossado, sou obrigado a admitir que o cigarro tem um indiscutível charme, criou uma estética própria e talvez uma mitologia.
Já escrevi muitas vezes aqui sobre esta arte fascinante, que hoje me interessa muito mais do que a literatura ou qualquer outro assunto. Minha intenção inicial, ao escrever este relato, era a de falar sobre a “vida após o cigarro”, agora que completei 18 meses de abstinência. Sofri muito nos primeiros três ou quatro meses (o cigarro era um estímulo à minha própria criação literária, inclusive; mas acabei descobrindo que, mais do que inspirar, ele roubava tempo do trabalho criativo, já que eu era obrigado a parar de escrever, a intervalos de tempo, para ir fumar na área de serviço). Cortei o consumo de café, álcool, carnes temperadas, comidas picantes, qualquer coisa que pudesse “chamar” o cigarro, nos primeiros meses. Beber água ajuda? Sim, mas não muito; em meu caso, funcionou mais o truque mental de “mudar de assunto”: deu vontade de fumar? Ótimo, vamos mudar de assunto! Mente, que tal você pensar no segundo ato da ópera Tristão e Isolda, de Wagner? Ou então, naquele artigo sobre a técnica de fabricação tradicional da espada japonesa? Ou num poema de Hoelderlin que reli tantas vezes e nunca consegui entender? Parece algo ingênuo, mas funciona: a mente muda o objeto do pensamento, e em alguns minutos a vontade de fumar desaparece. O curioso é que, nesse tempo todo, por diversas vezes eu sonhei que estava fumando, e os sonhos nunca eram prazerosos: eles traziam um sentimento de culpa, do tipo: “Caralho! Você aguentou tanto tempo, tinha que ceder agora?”. Quando acordava, e sabia que foi apenas um sonho, eu me congratulava por ter mantido a força de vontade, e não recuado em meu propósito. O resultado de todo esse esforço, 18 meses depois? Sim, a respiração melhorou, a disposição física, o paladar, engordei 15 quilos e, o melhor de tudo: a dependência mental desapareceu. Esta, acredito, foi a maior conquista nessa batalha, após 30 anos de uso regular de tabaco.
P.S.: revendo filmes de Bergman e Godard, como Monika e o Desejo e Acossado, sou obrigado a admitir que o cigarro tem um indiscutível charme, criou uma estética própria e talvez uma mitologia.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
DOIS POEMAS DE EMILIO ADOLPHO WESTPHALEN
UMA CABEÇA HUMANA VEM...
Uma cabeça humana vem lenta desde o esquecimento
Tenso se detém o ar
Vem lento o seu olhar
Um lírio traz a noite às costas
Como pesa o esquecimento
A noite é extensa
O lírio uma cabeça humana que sabe o amor
Mais débil não é senão a sombra
Os olhos não negam
O lírio é alto de antiga angústia
Sorriso de antiga angústia
Com díspar sinistro com ímpar
Teus lábios sabem desenhar uma estrela sem equívoco
Retornei dessa atarefada estância e de uma temerosa
Você não tem temor
É alta de várias angústias
Quase alcança o amor teu braço estendido
Eu tenho uma guitarra com sonho de vários séculos
Dor de mãos
Notas truncadas que se calavam podiam dar ao mundo o que faltava
Minha mão se alça mais para baixo
Colhe a última estrela de teu passo e teu silêncio
Nada igualava tua presença com um silêncio esquecido em tua cabeleira
Se falava nascia outro silêncio
Se calava o céu contestava
Fiz de mim uma lembrança de homem para ouvir-te
Recordo de muitos homens
Presença de fogo para ouvir-te
Detida a corrida
Atravessados os corpos e diminuídos
Porém está na glória da eterna noite
A chuva crescia até teus lábios
Não me digas em qual céu você tem a sua morada
Em qual esquecimento tua cabeça humana
Em qual amor meu amor de vários séculos
Conto a noite
Desta vez teus lábios iam com a música
Outra vez a música esqueceu os lábios
Ouve, se me esperasse detrás desse tempo
Quando não fogem os lírios
Nem pesa o corpo de uma garota sobre o relento das horas
Já me dói tua fadiga de não querer voltar
Você sabia que ia se ocultar o silêncio o temor o tempo teu corpo
Que ia ocultar teu corpo
Já não encontro tua lembrança
Outra noite sobe por teu silêncio
Nada para os olhos
Nada para as mãos
Nada para a dor
Nada para o amor
Por que haveria de te ocultar o silêncio
Por que haveria de te perder minhas mãos e meus olhos
Por que haveria de te perder meu amor e meu amor
Outra noite baixa por teu silêncio
UMA ÁRVORE SE ELEVA ATÉ O EXTREMO...
Uma árvore que se eleva até o extremo dos céus que a cobiçam
Golpeia com dispersa voz
A árvore contra o céu contra a árvore
É a chuva encerrada em tão pouco espaço
Golpeia contra a alma
Golpeia com os galhos a voz a dor
Não faças tal força para que te ouçam
Eu te cedo meus dedos meus galhos
Assim poderás raspar arranhar gritar e não apenas chorar
Golpear com a voz
Porém tal leveza me fere
Me desola Não te acreditava de tal ânimo
E que não cabes no espaço
Como golpeia a árvore a árvore a árvore
Água
E navegam os vermelhos galeões pela gota de água
Na gota de água soçobram
Acaso golpeia o tempo
Outra gota
Água
A garganta de fogo água água
Morto pelo fogo
As chamas gigantescas
Maravilhoso final
Morto sem água no fogo
A mão arranhava o fogo
A mão
E nada mais que sangue água
Não sangue fogo último fogo
Definitivo fogo
As gotas contam outra coisa
Ninguém conta as gotas
As lágrimas são de mais perfeita forma
Sua música mais suave apagada
O rosto de uma garota ilumina uma lágrima com sua luz suave apagada
A chuva chora em todo o espaço
Inunda a alma sua música
Golpeia outra ânima suas folhas
As gotas Os galhos
Chora a água
Conta-se o tempo com as gotas o tempo
A música desenha o céu
Caminha sobre a água a música
Golpeia A água
Já não tenho alma já não tenho galhos já não tenho água
Outra gota
Sim
Embora me afogue
Já não tenho alma
Nas gotas se afogaram os valentes cavaleiros
As formosas damas
Os valentes céus
As formosas almas
A música dos tropeços
Nada salva ao céu ou à alma
Nada salva a música a chuva
Já sabia que além do céu da música da chuva
Já
Crescem os galhos
Além
Crescem as damas
As gotas já sabem caminhar
Golpeiam Já sabem falar
As gotas
A alma água falar água caminhar gotas damas galhos água
Outra música alba de água canta música água de alba
Outra gota outra folha
Cresce a árvore
Outra folha Já não cabe a alma na árvore na água
Já não cabe a água na alma no céu no canto na água
Outra alma
E nada de alma
Folhas gotas galhos almas
Água água água água
Morta pela água
Traduções: José Arnaldo Villar
Uma cabeça humana vem lenta desde o esquecimento
Tenso se detém o ar
Vem lento o seu olhar
Um lírio traz a noite às costas
Como pesa o esquecimento
A noite é extensa
O lírio uma cabeça humana que sabe o amor
Mais débil não é senão a sombra
Os olhos não negam
O lírio é alto de antiga angústia
Sorriso de antiga angústia
Com díspar sinistro com ímpar
Teus lábios sabem desenhar uma estrela sem equívoco
Retornei dessa atarefada estância e de uma temerosa
Você não tem temor
É alta de várias angústias
Quase alcança o amor teu braço estendido
Eu tenho uma guitarra com sonho de vários séculos
Dor de mãos
Notas truncadas que se calavam podiam dar ao mundo o que faltava
Minha mão se alça mais para baixo
Colhe a última estrela de teu passo e teu silêncio
Nada igualava tua presença com um silêncio esquecido em tua cabeleira
Se falava nascia outro silêncio
Se calava o céu contestava
Fiz de mim uma lembrança de homem para ouvir-te
Recordo de muitos homens
Presença de fogo para ouvir-te
Detida a corrida
Atravessados os corpos e diminuídos
Porém está na glória da eterna noite
A chuva crescia até teus lábios
Não me digas em qual céu você tem a sua morada
Em qual esquecimento tua cabeça humana
Em qual amor meu amor de vários séculos
Conto a noite
Desta vez teus lábios iam com a música
Outra vez a música esqueceu os lábios
Ouve, se me esperasse detrás desse tempo
Quando não fogem os lírios
Nem pesa o corpo de uma garota sobre o relento das horas
Já me dói tua fadiga de não querer voltar
Você sabia que ia se ocultar o silêncio o temor o tempo teu corpo
Que ia ocultar teu corpo
Já não encontro tua lembrança
Outra noite sobe por teu silêncio
Nada para os olhos
Nada para as mãos
Nada para a dor
Nada para o amor
Por que haveria de te ocultar o silêncio
Por que haveria de te perder minhas mãos e meus olhos
Por que haveria de te perder meu amor e meu amor
Outra noite baixa por teu silêncio
UMA ÁRVORE SE ELEVA ATÉ O EXTREMO...
Uma árvore que se eleva até o extremo dos céus que a cobiçam
Golpeia com dispersa voz
A árvore contra o céu contra a árvore
É a chuva encerrada em tão pouco espaço
Golpeia contra a alma
Golpeia com os galhos a voz a dor
Não faças tal força para que te ouçam
Eu te cedo meus dedos meus galhos
Assim poderás raspar arranhar gritar e não apenas chorar
Golpear com a voz
Porém tal leveza me fere
Me desola Não te acreditava de tal ânimo
E que não cabes no espaço
Como golpeia a árvore a árvore a árvore
Água
E navegam os vermelhos galeões pela gota de água
Na gota de água soçobram
Acaso golpeia o tempo
Outra gota
Água
A garganta de fogo água água
Morto pelo fogo
As chamas gigantescas
Maravilhoso final
Morto sem água no fogo
A mão arranhava o fogo
A mão
E nada mais que sangue água
Não sangue fogo último fogo
Definitivo fogo
As gotas contam outra coisa
Ninguém conta as gotas
As lágrimas são de mais perfeita forma
Sua música mais suave apagada
O rosto de uma garota ilumina uma lágrima com sua luz suave apagada
A chuva chora em todo o espaço
Inunda a alma sua música
Golpeia outra ânima suas folhas
As gotas Os galhos
Chora a água
Conta-se o tempo com as gotas o tempo
A música desenha o céu
Caminha sobre a água a música
Golpeia A água
Já não tenho alma já não tenho galhos já não tenho água
Outra gota
Sim
Embora me afogue
Já não tenho alma
Nas gotas se afogaram os valentes cavaleiros
As formosas damas
Os valentes céus
As formosas almas
A música dos tropeços
Nada salva ao céu ou à alma
Nada salva a música a chuva
Já sabia que além do céu da música da chuva
Já
Crescem os galhos
Além
Crescem as damas
As gotas já sabem caminhar
Golpeiam Já sabem falar
As gotas
A alma água falar água caminhar gotas damas galhos água
Outra música alba de água canta música água de alba
Outra gota outra folha
Cresce a árvore
Outra folha Já não cabe a alma na árvore na água
Já não cabe a água na alma no céu no canto na água
Outra alma
E nada de alma
Folhas gotas galhos almas
Água água água água
Morta pela água
Traduções: José Arnaldo Villar
quinta-feira, 15 de julho de 2010
DOIS POEMAS DE CÉSAR MORO
A ÁGUA LENTA O CAMINHO LENTO
A água lenta o caminho lento os acidentes lentos
Uma queda suspensa no ar o vento lento
O passo lento do tempo lento
A noite não termina e o amor se faz lentamente
As pernas se cruzam e se juntam lentas para deitar raízes
a cabeça cai os braços se levantam
O céu da cama a sombra cai lenta
teu corpo moreno como uma catarata cai lento
No abismo
Giramos lentamente pelo ar quente do quarto cálido
As borboletas noturnas parecem grandes carneiros
Agora seria fácil destroçarmo-nos lentamente
tua cabeça gira tuas pernas me envolvem
tuas axilas brilham na noite com todos teus pêlos
tuas pernas nuas
No ângulo preciso
O cheiro de tuas pernas
A lentidão da percepção
O álcool lentamente me deixa alto
O álcool que brota de teus olhos e que mais tarde
Fará crescer tua sombra
Alisando o cabelo lentamente subo
Até teus lábios de fera
Tradução: Claudio Daniel
VIAGEM ATÉ A NOITE
É minha morada suprema, da qual não se retorna
Krishna, no Bhagavad Gita
Como uma mãe sustentada por galhos fluviais
De espanto e de luz da origem
Como um cavalo esquelético
Radiante de luz crepuscular
Atrás a ramagem densa de árvores e árvores de angústia
Cheio de sol o caminho de estrelas marinhas
O estoque fulgurante
De dados perdidos na noite cabal do passado
Como um ofegar eterno se sai à noite
Ao vento tranqüilo passam os javalis
As hienas fartas de rapina
Rompido ao largo o espetáculo mostra
Faces sangrentas de eclipse lunar
O corpo em labareda oscila
Pelo tempo
Sem espaço cambiante
Pois o eterno é o imóvel
E todas as pedras arrojadas
Ao vendaval aos quatro pontos cardeais
Voltam como pássaros solitários
Devorando lagoas de anos derruídos
Insondáveis teias de aranha de tempo caído e lenhoso
Vacuidades enferrujadas
No silêncio piramidal
Morticínio pestanejante esplendor
Para dizer-me que ainda vivo
Respondendo por cada poro de meu corpo
Ao poderio de teu nome oh poesia
Lima, a horrível, 24 de julho ou agosto de 1949.
Tradução: José Arnaldo Villar.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
UM POEMA DE W. B. YEATS
SEGUNDA TRÓIA
Por que hei de a censurar por ter-me enchido os dias
De miséria, ou por ter em horas não distantes
Ensinado a violência a homens ignorantes
Ou lançado as pequenas ruas contra as grandes,
Tivessem a bravura igual à aspiração?
Como traria ela paz com sua mente
Que a nobreza fez simples, simples como o fogo,
Com uma beleza de arco tenso, uma versão
Que não é natural em tempo como o nosso,
Por isolada e alta e austera e singular?
Que poderia ela ter feito, sendo o que é?
Havia nova Tróia para ela queimar?
Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos
terça-feira, 13 de julho de 2010
UM POEMA DE WILLIAM BLAKE
O ANJO E O LADRÃO
Pedi ao Ladrão que um pêssego roubasse
Ele me virou a cara
Pedi à dócil dama que deitasse
Santa e mansa ela chorou.
Assim que saí um Anjo chegou.
Sorriu à dama e ao Ladrão piscou.
E sem dizer palavra
Teve o pêssego da árvore
E entre grave e grácil
Deleitou a dama
Tradução: Elson Fróes
Pedi ao Ladrão que um pêssego roubasse
Ele me virou a cara
Pedi à dócil dama que deitasse
Santa e mansa ela chorou.
Assim que saí um Anjo chegou.
Sorriu à dama e ao Ladrão piscou.
E sem dizer palavra
Teve o pêssego da árvore
E entre grave e grácil
Deleitou a dama
Tradução: Elson Fróes
segunda-feira, 12 de julho de 2010
UM POEMA DE SYLVIA PLATH
OS MANEQUINS DE MUNIQUE
A perfeição é horrível, ela não pode ter filhos.
Fria como o hálito da neve, ela tapa o útero
Onde os teixos inflam como hidras,
A árvore da vida e a árvore da vida.
Desprendendo suas luas, mês após mês, sem nenhum objetivo.
O jorro de sangue é o jorro do amor,
O sacrifício absoluto.
Quer dizer: mais nenhum ídolo, só eu
Eu e você.
Assim, com sua beleza sulfúrica, com seus sorrisos
Esses manequins se inclinam esta noite
Em Munique, necrotério entre Roma e Paris,
Nus e carecas em seus casacos de pele,
Pirulitos de laranja com hastes de prata
Insuportáveis, sem cérebro.
A neve pinga seus pedaços de escuridão.
Ninguém por perto. Nos hotéis
Mãos vão abrir portas e deixar
Sapatos no chão para uma mão de graxa
Onde dedos largos vão entrar amanhã.
Ah, essas domésticas janelas,
As rendinhas de bebê, as folhas verdes de confeito,
Os alemães dormindo, espessos, no seu insondável desprezo.
E nos ganchos, os telefones pretos
Cintilando
Cintilando e digerindo
A mudez. A neve não tem voz.
Tradução: Claudia Roquette-Pinto
A perfeição é horrível, ela não pode ter filhos.
Fria como o hálito da neve, ela tapa o útero
Onde os teixos inflam como hidras,
A árvore da vida e a árvore da vida.
Desprendendo suas luas, mês após mês, sem nenhum objetivo.
O jorro de sangue é o jorro do amor,
O sacrifício absoluto.
Quer dizer: mais nenhum ídolo, só eu
Eu e você.
Assim, com sua beleza sulfúrica, com seus sorrisos
Esses manequins se inclinam esta noite
Em Munique, necrotério entre Roma e Paris,
Nus e carecas em seus casacos de pele,
Pirulitos de laranja com hastes de prata
Insuportáveis, sem cérebro.
A neve pinga seus pedaços de escuridão.
Ninguém por perto. Nos hotéis
Mãos vão abrir portas e deixar
Sapatos no chão para uma mão de graxa
Onde dedos largos vão entrar amanhã.
Ah, essas domésticas janelas,
As rendinhas de bebê, as folhas verdes de confeito,
Os alemães dormindo, espessos, no seu insondável desprezo.
E nos ganchos, os telefones pretos
Cintilando
Cintilando e digerindo
A mudez. A neve não tem voz.
Tradução: Claudia Roquette-Pinto
domingo, 11 de julho de 2010
UM POEMA DE BERTOLD BRECHT
LISTA DE PREFERÊNCIAS
Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.
Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexeqüíveis.
Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.
Orgamos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.
Domicílios, os temporários.
Adeuses, os bem sumários.
Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.
Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.
Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.
Cores, o rubro.
Meses, outubro.
Elementos, os fogos.
Divindades, o logos.
Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.
Tradução: Paulo César Souza
Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.
Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexeqüíveis.
Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.
Orgamos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.
Domicílios, os temporários.
Adeuses, os bem sumários.
Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.
Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.
Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.
Cores, o rubro.
Meses, outubro.
Elementos, os fogos.
Divindades, o logos.
Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.
Tradução: Paulo César Souza
sexta-feira, 9 de julho de 2010
UMA CONVERSA COM HORÁCIO COSTA (IV)
CD: Você teceu reflexões sobre o ofício poético em diversas composições, como Os Jardins e os Poetas. Em sua opinião, qual é o sentido da criação literária numa época que cultua o monoteísmo do mercado (Garaudy), a tecnologia e os meios de comunicação de massa? Pintar quadros, escrever poemas serão ofícios inúteis, míticos ou semilendários como a falcoaria, a heráldica ou a edificação de câmaras mortuárias piramidais?
Horácio: Não se pode pedir ao poeta que não poetize, ao escritor que não escreva, ao pintor que não pinte, ao escultor que não esculpa, ao artista visual que se cegue, ao realizador de filmes que não filme, ao bailarino que não dance, ao ator que não represente, ao arquiteto que não projete etc. O sentido de produzir arte é o próprio do fazê-lo, não o de agregar sentido a este fazer. Veja bem, não se trata da defesa da arte pela arte dos simbolistas, distante do vulgo e perto de umas musas que hoje estão contando os centavos e os minutos para cobrar o seu cachê. Não se trata de defender, por outro lado, o fazer mecânico, alienado e alienante. Nem do elogio do fazer por mero descarrego hormonal. A arte é um assunto sério, que se justifica sozinho e que acontece há muito tempo, e que não se faz para o futuro nem para um tempo histórico qualquer; é mesmo fora do tempo que se faz dentro dele e para ele, como se para oferecer-lhe um seu trasunto, um seu equivalente, paradoxal: ars longa vita brevis, vaya. Por outro lado, o fragílimo jogo narcísico da produção da arte no mundo monoteísta de mercado, como você diz, é um risco que apenas algum artista que não conheça nada de psicanálise pode cair: hoje em dia, na arte séria, o narcisismo acabou, foi substituído pela crítica, e isto não quer dizer que a exploração da subjetividade, por tanto tempo satanizada, tenha se obnubilado, ela me parece objetivamente mais importante do que nunca. Só os realmente pior preparados diante da linguagem crêem que o Deus-Mercado é algo mais do que um tigre de papel. Acho que até ele, o tão decantado deus de pés de bode, ou o bezerro de ouro, sabe disso, mesmo que odiando esta consciência. Por isso ainda se produz e se recebe e se analisa arte.
O Mercado, que continuamente tenta conspurcá-la para afirmar-se, constantemente termina por respaldá-la, por homenageá-la, por puxar o saco dela, que continuamente lhe diz, você lá eu aqui, eu sei bem qual é a tua, você não me engana, sacana. Claro que seria melhor ter idéias mais assentes, como até há algumas décadas, um corpus cuja centralidade e autoridade fossem referenciais para um grande número de agentes sociais, entre eles os artistas, e melhor seria, em poucas palavras, não ter que lidar com a ameaça ou o fantasma constante do mercado e com a melancolia que isso necessariamente gera, e não ter sequer que continuamente afirmar o óbvio, como o faço agora, e simplesmente esquecer essa bem infeliz conjunção. Mas não é assim. Então, faz-se arte porque sim, e se ela virar ruína, que pena, mas tanto dá; a Biblioteca de Alexandria queimou-se, Pequim foi incendiada por Gêngis Khan, os maias regrediram misteriosamente para a selva, mas nós sabemos de Hipatia e Plotino, e o mundo dos mandarins virou tema para Marco Polo e Matteo Ricci, e hoje já se podem ler as estupendas estelas comemorativas na América Central. Talvez essa empreitada decodificadora não possa continuar indefinidamente devido ao quadro que nos encontramos, mas não temos saída: do bisonte grafado em Lascaux ao livro deixado na Lua, sempre apostamos contra Mammon e suas aparições e tentações. A poesia, pois, tem um lugar e uma dignidade específicos nesta estratégia milenar de resistência, nesta aposta cega. A arte do vento, como a chamo, sempre deu um jeito de ecoar. E segue ecoando. E se depender de nós, pois seguirá enquanto der, não? Se tudo virar pó, enfim, a poesia não sofrerá nada, porque não é material, e uns extraterrestres avançadíssimos e com cabeças parecidas a abóboras de água e com antenas cor-de-rosa, gelatinosamente identificarão nossos sussurros pelas dobras do universo através de seus sensores sensibilíssimos, e como serão tão superiores, saberão como separar o joio da palavra mamônica do trigo da poesia, e talvez venham a dizer que uma surpreendente forma de vida se desenvolveu num planeta polvorento e escasso, uma forma de vida que sabia expressar-se poeticamente.
CD: Em ensaio publicado na revista Coyote, Eduardo Milán comenta o descompasso entre linguagem e realidade. As palavras são insuficientes para a representação do mundo? Cabe ao poeta insistir na tentativa da mímese ou buscar a criação de novas realidades, quer dizer, realidades estéticas (e através delas influir na mudança do mundo atual)?
Horácio: As palavras nunca cobriram a realidade, elas inventam outra, ou outras, que está, ou estão, em contato com a realidade dita tangível pelos nossos pobres e insuficientes sentidos. A correspondência entre realidade e linguagem nunca foi direta, nem simples. Derrida fala disso bem em La Mythologie Blanche, no famoso ensaio La Pharmacie de Platon. Thot pode matar ou curar; depende da dose e do acerto. Não há muitas regras, de fato, para estabelecer a distância entre a criação de linguagem e sua recepção, ou melhor dito: o seu cabimento, num determinado momento histórico. O que pensaram os contemporâneos de Dante sobre a Divina Commedia? Nunca se saberá. Dante era antipático aos gibelinos, foi expulso de Florença, tinha um imaginário pedófilo e seria um cripto-fascista, em termos da ideologia que circulava há cinqüenta anos — preferia o imperador germânico a seus fellow citizens. Mas escreveu, ou melhor: fez, no sentido de realizar, a maquete mais acabada de uma forma mentis, que hoje nós chamamos de medieval. Quantos de seus contemporâneos se reconheceram nela, à época da sua escritura? Nunca se saberá. Então vejamos: há, sim, hoje, uma grande aceleração na superfície do lago, uma turbulência que parece digna de um macroliquidificador de tudo, menos de si mesmo, mas eu quero crer que é só aparencial, embora nós a vivamos como Realidade, ou pelo contrário, essa turbulência é tão estrutural que só a podemos perceber como aparência, por que a nós humanos não é dado o entendimento completo (e por que seria?).
Michio Kaku, um matemático japonês, fala de dez dimensões detectáveis e que quiçá venham a ser mensuráveis (quando?). A turbulência da nossa realidade se somará às de todas as demais, potencializada? E se o "natural" da ordem for a desordem, no sentido da turbulência? Então, se for assim tudo sempre foi e será eminentemente turbulento. O melhor é não se assustar com isso, começar a encarar o caos como fator condicionante daquilo que pensávamos ser ordem, e condicionante para a criação de outras utopias futuras, e tratar de viver a nossa dimensão turbulenta como se fosse — e parece ser — o normal das coisas, ainda que tenhamos momentos de suspensão, alguns deles induzidos pela poesia, ou pela linguagem em função artística, que criam uma outra vertigem, a da arte, que podemos crer ou não que nos compensam desta sina cósmica. Também é importante que incorporemos de vez que só na aparência algumas obras de arte que nos parecem "monumentos", no sentido anterior da palavra, parecem-nos estáveis, uma vez que a crítica já faz tempo que se encarregou de dissecar essas brilhantes superfícies canônicas que eram as obras de arte até o século passado, e hoje a inteligência crítica ensina ao leitor, ao espectador, ao aluno médio que a instabilidade é talvez um dos condimentos mais importantes para a artisticidade da obra de arte, que só pode viver quando recebida por alguém preciso, individual, e daí instável, e não simplesmente fechada por uma interpretação, um valor, um sentido únicos, que almejam à estabilidade, à autoridade, à morte, em resumo.
Horácio: Não se pode pedir ao poeta que não poetize, ao escritor que não escreva, ao pintor que não pinte, ao escultor que não esculpa, ao artista visual que se cegue, ao realizador de filmes que não filme, ao bailarino que não dance, ao ator que não represente, ao arquiteto que não projete etc. O sentido de produzir arte é o próprio do fazê-lo, não o de agregar sentido a este fazer. Veja bem, não se trata da defesa da arte pela arte dos simbolistas, distante do vulgo e perto de umas musas que hoje estão contando os centavos e os minutos para cobrar o seu cachê. Não se trata de defender, por outro lado, o fazer mecânico, alienado e alienante. Nem do elogio do fazer por mero descarrego hormonal. A arte é um assunto sério, que se justifica sozinho e que acontece há muito tempo, e que não se faz para o futuro nem para um tempo histórico qualquer; é mesmo fora do tempo que se faz dentro dele e para ele, como se para oferecer-lhe um seu trasunto, um seu equivalente, paradoxal: ars longa vita brevis, vaya. Por outro lado, o fragílimo jogo narcísico da produção da arte no mundo monoteísta de mercado, como você diz, é um risco que apenas algum artista que não conheça nada de psicanálise pode cair: hoje em dia, na arte séria, o narcisismo acabou, foi substituído pela crítica, e isto não quer dizer que a exploração da subjetividade, por tanto tempo satanizada, tenha se obnubilado, ela me parece objetivamente mais importante do que nunca. Só os realmente pior preparados diante da linguagem crêem que o Deus-Mercado é algo mais do que um tigre de papel. Acho que até ele, o tão decantado deus de pés de bode, ou o bezerro de ouro, sabe disso, mesmo que odiando esta consciência. Por isso ainda se produz e se recebe e se analisa arte.
O Mercado, que continuamente tenta conspurcá-la para afirmar-se, constantemente termina por respaldá-la, por homenageá-la, por puxar o saco dela, que continuamente lhe diz, você lá eu aqui, eu sei bem qual é a tua, você não me engana, sacana. Claro que seria melhor ter idéias mais assentes, como até há algumas décadas, um corpus cuja centralidade e autoridade fossem referenciais para um grande número de agentes sociais, entre eles os artistas, e melhor seria, em poucas palavras, não ter que lidar com a ameaça ou o fantasma constante do mercado e com a melancolia que isso necessariamente gera, e não ter sequer que continuamente afirmar o óbvio, como o faço agora, e simplesmente esquecer essa bem infeliz conjunção. Mas não é assim. Então, faz-se arte porque sim, e se ela virar ruína, que pena, mas tanto dá; a Biblioteca de Alexandria queimou-se, Pequim foi incendiada por Gêngis Khan, os maias regrediram misteriosamente para a selva, mas nós sabemos de Hipatia e Plotino, e o mundo dos mandarins virou tema para Marco Polo e Matteo Ricci, e hoje já se podem ler as estupendas estelas comemorativas na América Central. Talvez essa empreitada decodificadora não possa continuar indefinidamente devido ao quadro que nos encontramos, mas não temos saída: do bisonte grafado em Lascaux ao livro deixado na Lua, sempre apostamos contra Mammon e suas aparições e tentações. A poesia, pois, tem um lugar e uma dignidade específicos nesta estratégia milenar de resistência, nesta aposta cega. A arte do vento, como a chamo, sempre deu um jeito de ecoar. E segue ecoando. E se depender de nós, pois seguirá enquanto der, não? Se tudo virar pó, enfim, a poesia não sofrerá nada, porque não é material, e uns extraterrestres avançadíssimos e com cabeças parecidas a abóboras de água e com antenas cor-de-rosa, gelatinosamente identificarão nossos sussurros pelas dobras do universo através de seus sensores sensibilíssimos, e como serão tão superiores, saberão como separar o joio da palavra mamônica do trigo da poesia, e talvez venham a dizer que uma surpreendente forma de vida se desenvolveu num planeta polvorento e escasso, uma forma de vida que sabia expressar-se poeticamente.
CD: Em ensaio publicado na revista Coyote, Eduardo Milán comenta o descompasso entre linguagem e realidade. As palavras são insuficientes para a representação do mundo? Cabe ao poeta insistir na tentativa da mímese ou buscar a criação de novas realidades, quer dizer, realidades estéticas (e através delas influir na mudança do mundo atual)?
Horácio: As palavras nunca cobriram a realidade, elas inventam outra, ou outras, que está, ou estão, em contato com a realidade dita tangível pelos nossos pobres e insuficientes sentidos. A correspondência entre realidade e linguagem nunca foi direta, nem simples. Derrida fala disso bem em La Mythologie Blanche, no famoso ensaio La Pharmacie de Platon. Thot pode matar ou curar; depende da dose e do acerto. Não há muitas regras, de fato, para estabelecer a distância entre a criação de linguagem e sua recepção, ou melhor dito: o seu cabimento, num determinado momento histórico. O que pensaram os contemporâneos de Dante sobre a Divina Commedia? Nunca se saberá. Dante era antipático aos gibelinos, foi expulso de Florença, tinha um imaginário pedófilo e seria um cripto-fascista, em termos da ideologia que circulava há cinqüenta anos — preferia o imperador germânico a seus fellow citizens. Mas escreveu, ou melhor: fez, no sentido de realizar, a maquete mais acabada de uma forma mentis, que hoje nós chamamos de medieval. Quantos de seus contemporâneos se reconheceram nela, à época da sua escritura? Nunca se saberá. Então vejamos: há, sim, hoje, uma grande aceleração na superfície do lago, uma turbulência que parece digna de um macroliquidificador de tudo, menos de si mesmo, mas eu quero crer que é só aparencial, embora nós a vivamos como Realidade, ou pelo contrário, essa turbulência é tão estrutural que só a podemos perceber como aparência, por que a nós humanos não é dado o entendimento completo (e por que seria?).
Michio Kaku, um matemático japonês, fala de dez dimensões detectáveis e que quiçá venham a ser mensuráveis (quando?). A turbulência da nossa realidade se somará às de todas as demais, potencializada? E se o "natural" da ordem for a desordem, no sentido da turbulência? Então, se for assim tudo sempre foi e será eminentemente turbulento. O melhor é não se assustar com isso, começar a encarar o caos como fator condicionante daquilo que pensávamos ser ordem, e condicionante para a criação de outras utopias futuras, e tratar de viver a nossa dimensão turbulenta como se fosse — e parece ser — o normal das coisas, ainda que tenhamos momentos de suspensão, alguns deles induzidos pela poesia, ou pela linguagem em função artística, que criam uma outra vertigem, a da arte, que podemos crer ou não que nos compensam desta sina cósmica. Também é importante que incorporemos de vez que só na aparência algumas obras de arte que nos parecem "monumentos", no sentido anterior da palavra, parecem-nos estáveis, uma vez que a crítica já faz tempo que se encarregou de dissecar essas brilhantes superfícies canônicas que eram as obras de arte até o século passado, e hoje a inteligência crítica ensina ao leitor, ao espectador, ao aluno médio que a instabilidade é talvez um dos condimentos mais importantes para a artisticidade da obra de arte, que só pode viver quando recebida por alguém preciso, individual, e daí instável, e não simplesmente fechada por uma interpretação, um valor, um sentido únicos, que almejam à estabilidade, à autoridade, à morte, em resumo.
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