quarta-feira, 30 de junho de 2010

MÚSICA CLÁSSICA JAPONESA (II)

GALERIA: AUBREY BEARDSLEY (VIII)


DONA VIRGO (FINAL)

O mund’ é torvado e, de pran, cuidamos que quer fiir. Tudo treva, pó, tudo triste treva, só o solo seco, chão sem erva; estou só, sem Deus, sem dom, sem nada. Eu, Gil Eanes, em Finisterre tendo chegado, findo o canto, digo adeus, sem pranto. Vem, esposa-irmã, filha-esposa-irmã, ama de minha alma, agora é o começo do fim: noite em noite dissolvida, consumida, fado todo consumado, saga contada, fava masca-da, sabre partido, dados lançados, ciclo cumprido, caso encerrado: o fim da picada. Aqui é o fim do mundo, Fisterre, Finis Terrae. E agora, o que dizer de mim, de nós, do irado sultão otomano e sua airada odalisca, airosa corista, toda ajaezada, flores de amaranto nos cabelos, escura écharpe de zibelina no pescoço de passarinha? O que dizer do tempo passado, escuna azinhavre no mar de marfim, tempo de pletora, de carmim, de índigo gozo em leito alecrim? O que falar daquilo que foi flor, fera, faca, e hoje é fezes, menos que fezes, reles nada? O que pensar, após tanto pesar? O que dizer do que em mim fizeste, de como me feriste, e sugaste, sem lagunas de lágrimas, escumas na face, como algures o orvalho na nervura das folhas?

Os óio da cobra verde, hoje só que arreparei, se arreparasse há mais tempo, não amava a quem amei. Mas agora, pelo sim, pelo não, tanto faz, tanto fez, que não vales um conto de réis, um vintém, valete de ouros ou sete de paus, e sei de outras cem, ali além, que valem mais. E não cortarei os pulsos, e não beberei veneno, e não poderei apertar contra as têmporas o gatilho. Aqui é o fim do suplício, James Finícius, e voltarei ao velho lar, ao início, livre do vero vício, do pubendo precipício. Sim, santa, voltarei a Sampa, de cara lavada, barba cortada, de terno e gravata, e, new yuppie third world, poderei abrir um bingo, bordel ou boteco, e gastar a grana na gruta da Greta Garbo de plantão: Sharon Stone, Demi Moore, Winona Ryder, ok, gurias, podem vir, façam fila, uma por vez, a meus braços amargos. Que tal? Poderei, ainda, talvez, virar um boêmio francês, ou bardo inglês, ou sábio chinês, usar saiote escocês, beber minha urina, fazer-me de poeta, de profeta, declarar-me o messias, virar-me do avesso, até tornar-me a sombra de mim. O que achas? Em nada mais creio: de tudo e de todos me despeço, e digo apenas isto, epitáfio do que fui: um homem sincero, de poucos amigos, que escreveu seu nome nas areias de Vigo. Sim, é o fim. Réquiem. Descanse em paz. toquem os sinos. Close, ação!


* * *
Intermezzo: E depois, ah, sim, meu amigo, e depois, o que houve em nossa história? Onde eu estava? Já perdi o fio da moela, da medula, da medusa, da meada, fio de Ariadne no labirinto do minotáurico racconto, texto bestial de autor animálico olímpico. Mas logo eu me acho, e junto os meus cacos, lascas, trapos, tragos e trecos e retomo o conto porque eu quero contar. O conto é o osso da prosa, é osso e sangue, carne e sangue, é só sangue, célere no corpo da prosa, irrigando as palavras-células, suas inervações. O conto é o canto que não se canta, que só se ouve sem ouvir, música de papel que encanta sem cantar. Sim, Don Pelegrin, pouco fiquei em Finisterre; nem quis ver o farol, as altas dunas e a pedra de abalar. Entejado com tudo, de tudo enojado, segui para Madri, de carro, com o amigo Arnaldo Gandolfi, que encontrei por acaso e me ofereceu carona, para por fim ao caso. Lá chegando, comprei passagem para o Brasil, terra de palmeiras e papagaios, de tristes heróis e larápios. Antes de embarcar, porém, fui a um cibercafé, próximo ao aeroporto, tomar uma boa cerveja irlandesa, e, por um cômodo vício de recirculação, acessei a internet e abri a minha caixa postal, onde li um e-mail da beladona, que por mim esperava em vicus sacorumdixit a diva — por astúcia de Carlos Cazali, diabos o levem ao décimo círculo do Hades.

Arrenego de quem diz que o nosso amor se acabou, ele hoje está mais firme do que quando começou. It’s a long way. Só vi o avião decolar após a quarta dose, meu amigo, da janela oval da taberna, e pensei em suas asas flamejantes de sol, em seu caudaloso rastro no céu, no denso cortejo das nuvens. Paguei a garçonete, deixei o jornal amassado sobre a mesa e corri para chamar um táxi. Já no centro de Madri, fiquei só o tempo preciso para alugar um carro, comprar comida e um par de brincos de prata, mimo para a mina mimada. Tomei a estrada, em seguida, e, caminho inverso, reverso da moeda, avesso do vento, pensei: aquele que ama, na face da amada vê o divino, e, em amá-la, ama o divo, Odin-Osíris-Krishna-Oxalá, e se diviniza. Deus é tudo só amor. E assim me guardei.


* * *

Gran prazer viron os olhos meus. O ponto de partida é o ponto de chegada. Voltei a Vigo, meu amigo, e lá vi Vera, a moçela alvura-densa-escura, olhos vivos de gazela, seu tênue torso em fulvo quimono sobre a tanga. Ah, moça-mel, dama das miçangas, dos muiraquitãs, mascando mariscos na praia cor de prata sob o céu nimboso. E nós olhamo-nos, olhar molhado, e éramos olhos sem pés nem bocas, depois fomos mãos e braços sem olhos, e, por fim, fomos apenas lábios. Ao rugir da procela, caminhamos pela orla, e segui a leona hermosa, de longa sedosa cabeleira, até o seu chalé perfumado a almíscar, máscara balinesa na porta, luminária de crochê no teto e largo leito acolchoado. Ali entrelaçados, as cortinas cerradas, o quimono no biombo de treliças, eu e ela fomos uma só carne, um só espírito, ao som das ondas do mar de Vigo.

terça-feira, 29 de junho de 2010

MÚSICA CLÁSSICA JAPONESA (I)

Dueto instrumental de shamizen (viola clássica japonesa) e shakuhachi (flauta de bambu).

GALERIA: AUBREY BEARDSLEY (VII)


DONA VIRGO (V)

Quand’eu un dia fui en Compostela en romaria. Vaguei por veredas e várzeas seguindo a concha vieira, e vi mantos de verde relva, rebanhos e alvoradas, ora um riacho, um lagarto, um cão, os olhos prenhes de beleza e beleza. Após muito vagar, o corpo exaurido, cheguei à terra da Via Láctea, São Tiago do Campo da Estrela; e só então chorei, Don Pelegrin. Recordei a saga do apóstolo, decapitado por Herodes Agripa; seu corpo foi levado da Palestina para as terras da Ibéria, em barca marmórea, por Atanásio e Teodoro, e sepultado no bosque Libredón. Ali restou oculto, até que uma chuva de estrelas guiou Pelayo, o eremita, ao sacro túmulo, no século oitavo. Sim, chorei, mas logo senti estranha felicidade, feita de matéria sem tempo, impalpável; e assim fiquei, por alguns minutos, estático e mudo. Depois, fiz uma pequena refeição, e segui até a Praça do Obradoiro, onde avistei a catedral, o verbo feito carne feito pedra, o eterno em rocha temporal manifestado. Entrei pelo alto pórtico, sentei-me no banco, e era meio-dia; o botafumeiro incensava o ar com um odor de beatitude e martírio, enquanto o padre, em voz monótona e turva, recitava, em vernáculo, a missa dos peregrinos. Pensei no Codex Calixtinus, de Aimeric Picaud; numa das páginas proféticas do Apocalipse; nas manhãs de Pontevedra; nas ondas do mar de Vigo; no rosto oval da núbil núbia; numa fuga de Bach; e nas linhas finais do Fédon de Platão. Eu já sabia, em meu coraçon, que não haveria paz para minha alma, e que tudo fora em vão. Pouco depois, ao falar com padre Guedes, tive a certeza: Vera nunca estivera em Campus Stelle. Tudo reles nada, noves fora, zero. Andei pela cidade por horas, vendo sem ver o Palácio do Ayuntamento, o Hospital de los Reyes Caóticos, hoje um parador, as pequenas casas baixas, as pombas e os niños rosados de largas bochechas. Sabe o que penso, Don Pelegrin, amigo João Airas? Tutti é burla nel mondo. Tudo é sonho. Somos cegos e loucos, tolos mancebos sem siso, sem eira nem beira. Vivemos de lucro em logro, de mágoa em malogro. Só a dor é real. Deus? Não creio. Só no demo. Que está aqui, na rua, no meio do redemunho.

En santiago, seend’ albergado en mia pousada, chegaron romeus, preguntei-os e disseron: — par Deus, muito levade-lo caminh’ errado, ca, se verdade quiserdes achar, outro caminho conven a buscar, ca non saben aqui dela mandado.

Onde está o teu paradiso, jardim edênico, Shamballa, Vrajabhumi, Vrajadhama? Onde está o teu Brahma, em que lótus de áurea flama? Som de búzios, luz de prata em prata refletida, seda rara em seda entretecida, o mais puro branco em rosa infinita; onde está a tua terra prometida? Que rios a banham? Qual Nilo, Ganges, Tigre ou Eufrates? Em que prística era primeva estão o tonto Adão e sua velha Eva, Noé, sua barca e a arca da aliança? Onde as ninfas do céu e suas danças? Tua aérea Meca diamantina está na mente de Deus: Qual Deus? E se o divino não há? Nele já não creio, pois negou-me a minha dona:

Deus nunca mi a mi nada deu e tolhe-me bõa senhor: por esto, non creo en el eu nen me tenh’ en pecador, ca me fez mia senhor perder. Catad’o que mi foi fazer, confiand’ eu no seu amor!

Tudo é névoa, nébula, néquia de nadas, nicas de nuncas, fábula, fumaça de fervura ou coisa alguma. E você, o que me diz, Don Pelegrin? O quê? ahn? êee... ah, louco, o que ouço! O que é isso? Esse dizer entre o roxo cetim, o ouro fosco e o açafrão merino? Esse falar de fábula, tão mascavo, tão melaço de cana? Sua língua é polpa de fruta, gomo de tangerina, mar de Sargaço onde me perco. Mas eu insisto, resisto e recuso teu canto-de-engano, sereia-só-escamas! Teus sofismas? Inumeráveis; não estrelas trêmulas, mas negras listras em pele brônzea de fera. E não tens o rubor violeta nas faces, nem sulcos no rosto albino que me olha. não, não creio em tua fala, amigo João Airas, Don Pelegrin! Ah, encantador de serpentes! Olhos-de-flama-e-gume! Mas vá em paz, irmão. Dei gratia. Salam, shalon, shante. Se Deus não me der a parda leoparda, gata galatéia de lácteos túmidos mamilos, metade da minha alma, nele não crerei. E mais não digo. Vou seguir, danado, penado, condenado, até o limite da terra, que, diziam, é plana como um prato, circundada de águas por todos os lados. Na manhã seguinte, caminhei, e caminhei por dias e dias, até Finisterre, a fronteira do abismo, para olvidar quem me olvidou (e como me olvidaste!).

segunda-feira, 28 de junho de 2010

GALERIA: AUBREY BEARDSLEY (VI)




DONA VIRGO (IV)

Céu pavão-alvura-esperma. Casas baixas e antigas ao longo do caminho. Moças galegas de xales e lenços sobre as madeixas, manadas de bois, pedras, arbustos, um pássaro azul-safira, odor de estrume, não toca um sino. Aqui é Pontevedra, meu amigo, lugar de maravilhas várias, valha-me a virgem, milagres ou miragens, tão belas e raras como a pena do faisão, o reflexo da lua em espátula de prata ou máscara chinesa em verde jade esculpida. Após léguas, a língua já seca, o corpo à míngua, cheguei à Vila Vasco, mio caro fratello, onde vi um velho cego tocando mudo violino, seus olhos brancos, em pele negra rugosa, plenos de solfejos e melancolia; crianças viçosas de rubor violeta e longos cachos corriam atrás de um porco em latão coroado; e um rapaz sandeu, quase nu, com tonel-capacete e vassoura-alabarda, terçava armas com sua sombra. Ninguém dizia meia palavra, e eu, mudo fingido, não disse patavim. Tendo encontrado — Cristo louvado! — um bom albergue, por puro acaso, fiz menção, com sinais, do que queria: e recebi, para o almoço, um prato de feijões e legumes com forte pimenta, grossa fatia de pão e vinho. depois, deitei-me na dura cama de ferro e li mais alguns trechos da Imitação de Cristo, até a hora de dormir:

O verdadeiro sinal de virtude sólida e de grande merecimento é combater os movimentos desordenados da alma, e desprezar as sugestões do demônio. Não te perturbem as imaginações que te ocorrem de qualquer espécie que sejam.

No dia seguinte, fui à praça, e lá vi mulheres que bailavam como loucas no gramado; um palhaço vestido de frade com peruca de mulher que virava cambalhotas; e um pipoqueiro ruivo que imitava um macaco. Nos degraus da igrejinha, velhas beatas surdas e mudas recitavam sem voz suas preces, e num banco de pedra da praça um senhor inglês de terno xadrez, bigodes pequinês e cachimbo sherloquês lia o jornal em branco com o seu pince-nez. E eu pensei: sim, pirei, estou maluco, doidão, gira, dedéu, insano. o que é isso tudo? Que diabos!? Nisso, um fox terrier mordeu a batata da perna do velho cego, que o espancou com o violino; Sherlock Holmes fez strep-tease, ficou nu para as beatas, o palhaço vestido de frade foi dançar com as moças e o pipoqueiro de repente ficou com os olhos serenos de quem alcançou a iluminação. Levantei-me para voltar ao albergue quando a niña judia de Tétuan passou por mim, numa metálica Yamaha verde-escura, e fez sinais para que eu sentasse na garupa. Fiz isso, sem saber por quê, e ela voou na estrada, como o arcanjo da trombeta do juízo final.

Ah, maga magana, mana marrana, onde me levas, madre magriça, mina macanja, onde me levas, mirrada morgana? Vais a Belém, a Jerusalém? Talvez a Jafa, Haifa, Arava, Mizpe Ramon? Baruj ata Adonai, eloheinu melech aulam, acher quidechanu vemits votab, benatanlam Torat hemed, baruj ata Adonai, Adonai ehad. Ah, meraviglia! Miraculo! Estamos chegando, enfim, signorina? Diga para mim, moça-de-jasmim! Seus longos cabelos, como revoam ao vento! Baruj elohenu, baruj adonenu, baruj malkenu, baruj moshienu, atau elohenu, atau adonenu, atau malkenu, atau moshienu, atau sheiktidu, abotenu lefaneha, ektoret azamim. Ah, morena macabéia, meninha da Judéia, herética hebréia, levas-me ao Jordão? Ou ainda, quem sabe, ao rei Salomão? Salame, salaminho, salmão, Josafá, Josafá, e a rainha de Sabá! há, há, há! Seu cavalo fogo-fátuo, faceira-fogosa-feiticeira, vai ao reino de Judá? Shema Israel, Adonai eloheinu, Adonai ehad. Então, mio caro fratello, ela parou sua macchina malva móbil, bem em frente a uma velha capela. Apeei, o sol a pino, e entrei no lugar santo, na pedra viva de São Roque, Kyrie eleison, Chryste eleison, Kyrie eleison. Mal pude ver suas imagens e vitrais, amigo romeiro, e digo de boa fé: ao fundo, sobre o altar, per nostro senhor, vi a cabeça do Salvador, lacerada de espinhos, inclinar-se à direita. Pater noster qui est in coelis, santificetur nomem tuum. Caminhei nessa direção, o coração tumultuado, os membros trêmulos, e encontrei, numa meseta de mogno, um arcaico Macintosh, que irradiava rubra luciferina auréola. sentei-me em frente ao mefistofélico bruxedo, inicializei, e, para meu espanto, surgiu a seguinte mensagem, na tela de cristal líquido:
o G r Q n D z

Estava em sonho? Bêbado sorumbático, sonâmbulo lunático? Num átimo, sem pensar, apenas abri o envelope, prenda cabalística da ninã de Tétuan e retirei o talismânico CD; coloquei-o no drive e comecei a limpar a winchester do vírus. And has thou slain the jabberwock! Come to my arms, my beamish boy! O frabjous day! Callooh! callay!

— Ah, júbilo de júbilos, alegria-oh-aleluia, está morto o Ogre-que-Não-Diz!

— Foi você, meu rapaz?

— O quê?

— Ah, não! ele?

— É, sim, ah, esse tem culhão!

— Parabéns, querido! Vá com Deus. Passe bem.

— Esse é o herói? Duvido.

— Não foi, não.

— Esse João-ninguém, brasileño, fracote, Zé-bosta, borra-botas?

— Não foi, não!

— Foi, eu vi!

— Fui eu, eu, eu, que matei o Ogre-que-Não Diz!, disse um garoto imberbe.

— Meu filho, ah, filho meu!

E todos falavam, gesticulavam, cantavam e rezavam, e muitos agradeciam a São Roque e a São Tiago. Quando pude ver-me livre da turba, de seus dentes amarelos, de seus olhos baços e bocas tortas, de suas toucas, lenços e cachimbos, de seus grossos dedos que tocavam em minhas roupas, como quem toca um grifo, elfo, silfo ou basilisco, saí correndo, o mais célere que pude. foi então que aconteceu uma aventura de maravilha, mas isso eu não vou contar. Digo apenas que parti de Pontevedra, e voltei a pôr o pé na estrada, rumo a Compostela.

domingo, 27 de junho de 2010

CONVITE À VIAGEM

Poema de Charles Baudelaire, Invitation au voyage foi musicado por Henri Duparc, compositor francês da segunda metade do século XIX. Há uma bela tradução desse poema por Guilherme de Almeida, incluída no livro Flores das flores do mal.

sábado, 26 de junho de 2010

GALERIA: AUBREY BEARDSLEY (V)


DONA VIRGO (III)

Non me posso pagar tanto do canto das aves nen de seu son, nen d’amor nen de mixon, nen d’armas. Ah, Afonso X, que bem sabia trobar! Cantigas compôs à Santa Maria, Don Pelegrin, a la Madona col bambino, mulier vestida de sol, coroada d’estrelas; e, por sua fé, do mouro tomou Granada. Eu não sei mais cantar, meu amigo, e por que cantaria? Já eu non ei por quen trobar e já non ei en coraçon, por que non sei já quen amar. Sem a fremosa dama louçana que me doma, zero a soma, perco tudo e resto mudo. Pensei: que fazer para limpar o coraçon, para merecer o amor da núbia, o nímio dulce amor da minha núbil fada? E, per Nostro Senhor, resolvi caminhar até Santiago, seguir a ninféia ribeirinha, madona oriana négresse, com sincera devoção, com délicatesse, pois nada mais desejo, digo em minha prece, além do olhar da bela, que bailou entre as flores. Com’ antr’ as pedras bon rubí sodes antre quantas eu vi. No dia seguinte, pus-me na estrada, em direção a Pontevedra; e lá aconteceu algo estranho e raro, que non direi, que non direi, que non direi.

* * *

Peç’eu tant’a nostro senhor que mud’êsse coraçon. E caminhei sobre pó, paus, pedras, galhos, folhas, fezes, orando, cantando e meditando, assim: Pater noster qui est in coelis, santificetur nomem tuum, adveniat regnum tuum, fiat voluntas tua, sicut in coelo et in terra, pelo bem de minha alma, para o perdão de meus pecados. Após muito andar, Don Pelegrin, fui ter a uma aldeia curiosa, cujos moradores eram surdos ou mudos, pois dizer nada diziam, nem pá nem bá, e, parece, não ouviam, nem sequer me viam; só me restava conversar com as árvores altas. Então continuei a viagem, meu amigo, e, na estrada enlameada, ouvi um som atrás de mim; virei-me, e vi um cervo com chifres de prata correr atrás da moita. Segui o animal, mas, em seu lugar, achei um eremita, Matusalém em rugas, trapos em nesgas de tufos, de finos cabelos brancos, a coxa esquerda chagada, e ele me olhou sem dizer nada. Sem saber o seu nome, abri minha sacola, para fazer-lhe um curativo, quando o anacoreta desapareceu, e, em seu lugar, surgiu uma senhora linda, de loura e longa cabeleira, angélica aparição de nívea face, que me disse assim:

— Dom Gil, vá em paz, que o abençoe Nosso Senhor. Evite o Ogre-que-Não-Diz, a fera-oh-fúria.

Dizendo isso, a alva dama anja sumiu, e deixou-me assombrado. Por dias e noites, em veredas várias, andei e andei, sem nada encontrar, às vezes dormindo sobre o ventre da terra. Certa manhã, após lavar-me no riacho, encontrei uma niña judia de Tetuán, que assim cantava:

Desde hoy la mi madre, la del cuerpo lozano, tomeris vos las llaves, las del pan y del vino. Que yo irme queria a servir buen velado, a ponerle la mesa, la del pan y del claro. Para hacerle la cama, y para echarle a mi lado, y atana y tanaora que sea en buena hora. Y atana Y tanataile que sea en buen simane.

Interpelei a dona hebréia, dama macabéia, sobre o seu triste cantar em tão bela modinha, e ela me respondeu:

— Eu sou Rebeca, a que casou com Salomon, o cantor, filho de Natanael; a niña lozana de longas tranças, que sabe fiar e cozer. Ai, caro senhor, o meu marido está mudo! Ele não mais pode cantar os meus olhos, os meus cabelos, ao som de guitarra e tambor, nem sussurrar em meus ouvidos, à noite, doces palavras, enquanto aperta os meus seios, nem pode ouvir o que lhe digo, nem sequer ler a Torá, na sinagoga, nos shabats; ai, meu senhor! Não vá ao bairro Moureira, à capela de São Roque, pois esse lugar é o covil da besta olhos-de-chama, do Ogre-que-Não-Diz, que a todos encanta e engana. Por onde ele passa, os homens ficam mudos, as palavras somem dos livros, páginas e páginas em branco; os cães não ladram, os pardais não chiam, os corvos não crocitam, os burros não zurram, as ovelhas perdem o balir. Tome seu caminho, se és judeu ou gentio, e vá para longe, pelo seu bem e de sua amiga. Dito isso, ela voltou a cantar sua toada, depois lavou os seus cabelos, e, sem me dizer outra palavra, partiu, como se não houvera nada. Tentei chamar a moça judia marroquina, pois ela esquecera, ou deixara, uma carta quadrada sobre a pedra em que se lavara; como não me ouvisse, guardei a prenda, caso a visse novamente, e voltei a caminhar pela estrada. O sol arde, arde como viva brasa, os pés e as costas dóem, e, para me distrair, e alimentar a alma, tirei do bolso a Imitação de Cristo, de Kempis, o cônego regrante de Santo Agostinho, e fui lendo ao acaso, em voz alta, enquanto andava.

Considera o que te dizem, sem se importar com quem o diz. Os homens passam, mas a verdade do senhor permanece para sempre (Sl 38,7; 116,2). Deus fala-nos de diversas maneiras, e por mui diferentes pessoas. (...) Pergunta de boa vontade e ouve em silêncio as palavras dos santos; e não desprezes as sentenças dos velhos, porque não as dizem sem causa.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

GALERIA: AUBREY BEARDSLEY (IV)


DONA VIRGO (II)

Bernaldo, Bernaldo de Bonaval, o segrel, já senil, louvara em verso dama de má fama: a dona que eu am’ e tenho por senhor amos-trade-mh-a deus, se vos en prazer for, se non dade-mh-a morte. Quem ama a alma evita a lama, mas, no amor às donas, tudo é cegueira, loucura, pandemônio. Só o coraçon pensa, mal de Provença, e o dom da dor assoma, purga e adensa. Pera que demo queredes puta que non á mester?, cantou em escárnio Pero da Ponte, o infançon, que aprendera a arte de Bernaldo, mestre do bom cantar. Pero da Ponte, êh, ah!, o bardo bastardo, bebum blasfemo, femeeiro, faminto, fementido, Pero pervertido, é dele que fala Afonso X, o sábio, que o expulsou de sua corte por ser (segundo se dizia) mau poeta, ladrão, bêbado e assassino: En mao ponto vós tanto bevestes. Mas, quê! O senhor acredita? Pero, puro, não, mas poeta, sim, e dos bons: abusava do copo? Não sei dizer, mas ele assim trobava, meu amigo: senhor do corpo delgado, en forte pont’ eu fuy nado! que nunca perdi cuydado nen afan, des que vos vi. En forte pont’ eu fuy nado, senhor, por vós e por mi!

Enfim cheguei ao hotel, Chastel D’Avignon, mon chévalier, todo nanquim-espelhado, em modern style, o luminoso alumínio e o opaco acrílico em sua entrada, sauna-piscina-american bar. Fui ao restaurante, La Cuisine de Lacan, e pedi arroz integral, sopa de legumes, torta de queijo e um suco de uva espumoso. No salão, adocicado por Vivaldi, vi turistas suecos, japoneses, brasileiros, eslovacos, poloneses e uma alemã de seios pontudos em saia de couro dark e cabelos cor-de-rosa que lia Schopenhauer. Depois de jantar, sem sono, resolvi dar uma volta pela cidade. Fui à Taberna Montemor, meu senhor, branca casa de pedra erma do tempo de el-rey Dom Afonso, onde se bebe boa cerveja em mesetas toscas circundadas por azulejos azuis, decorados com motivos de marinheiros e monstros do mar. Ali encontrei Carlos Cazali, o fotógrafo, e perguntei a ele se vira a moçela, a meninha de olhos verdes:

Digas-me mandado de mia senhor, ca se eu seu mandado non vir’, trist’ e coitado serei; e gran pecado fará; se me non val. Ca en tal ora nado foi que mao-pecado! Amo-a endõado, e nunca end’ ouvi al!

Ele me respondeu assim:

— Vera? Oh, sim, Vera Veiga, a irmã siamesa de Veneza, top model da Stylus, ela tirou fotos em Vigo, para uma revista, mas isso foi há dois dias, e já foi embora, meu caro.

— Ah, dame sans merci, magra maga mulata, maja naja noir em boá de marabu, em popeline, cambraia, musselina; dama em adamascado, dalmático, debrum, merino, gonflé, godet, matelassé; seminua em papel couché, formato tablóide, o rosto ovalino na capa, suas pálpebras cetinosas, os olhos manhosos, a tez de anoitecer em Marrakesh.

— Ela ia a Pontevedra, e de lá para Compostela, você sabe, a Via de Santiago. Tome conosco um copo de cerveja, e mais um, e mais outro! E eu disse para mim, ao meu coraçon: vai, esquece essa nega galega, niña nagô, núbia dúbia, boca-de-mandinga, e vamos encher a cara! E depois, ah, depois? Posso sair, dizer alô a um poço, ficar de quatro, roer um osso. É isso, seu moço?

Frei Leonardo, o goliardo, o glutão, o gargalo-de-garrafa, per nostro senhor, falou assim para mim:

— Ora, pois! deixe essa mera megera, o amigo deve é sair com uma boa putana, com uma fulana de olhos sacanas, loura ou preta, de fartas tetas!, e cantou, em bom latim: Veni, domicella, cum gaudio, veni, veni, pulchra, iam pereo! Oh, oh, oh!, e cantou, também: Ave, formosissima, gemma pretiosa, ave, decus virginum, virgo gloriosa, ave, mundi rosa, branziflor et helena, Venus generosa.

E celebrou sua eucaristia, o monachus maroto: do vinho madeira, fez sangue de Cristo, do pão italiano, carne de Madalena, púbicas melenas, madeixas de morena, in nomine pater, filius et espírito de porco, amém.

Nós três comemos, bebemos e cantamos até a madrugada, a nossa mesa sempre cheia de grossas fatias de pão, queijos, carne de carneiro, cerveja e vinho, meu amigo. Éramos a tríade do érebo, da glacial geena. Frei Leonardo, o pândego infançon, contou-nos seus amores por uma nívea-blonde-meninha, moça-flor carismática, fremosinha de sacristia, em seus lácteo-nectáreos quinze anos, que muito ofereceu e pouco cedeu, entre cantos de salmos e contas do rosário. O caso valeu ao réprobo frade censura episcopal e ameaça de expulsão da ordem; o cônico conego blasfemou conosco a genealogia do bispo geriátrico, e, de ofensa em ofensa, cantou: Nunca se Deus mig’averrá, se mi non der mia senhora; mais como mi o corregerá? destroia-m’, ante ca morra. om’é: tod’aqueste mal faz, como fez já, o gran malvaz, en Sodoma e Gomorra. Ei-lo agora ante nós, libertino sem batina, bonachão sem credo. Carlos-Cazzo-Cazali, o viúvo das esposas que não teve, Dom Juan imperito de mucamas de madamas, é o colecionador de nomes para o albergue-de-vênus de suas mimosas moçoilas: paqueta, pagode, pandora, viola, violinha, violeta d’amore. Carlos, mercenário de kodak, longa barba alaranjada, jaqueta de brim, óculos escuros, foi fotógrafo de moda, cobriu a guerra da Bósnia, clicou defuntos em tiroteio e piranhas do meretrício. Eu o achava vulgar, mas ele fez fotos para a Stylus, e o suportei pela dica da sina de mia dona. Saímos da taberna, às cinco horas da manhã, sob chuva finíssima, e fomos à praça Dom Dinis; sentamos num banco de pedra, em frente ao chafariz netúnico-ninfático, e a garrafa passou de mão em mão, entre risadas e piadas obscenas, até que Carlos Cazali fez um desafio, propôs uma tençon, e aceitei a contenda. O vilão começou, cantando:

Gil Eanes Brás morreu con amor en seus cantares, par Santa Maria, por ua dona que gran ben queria; e, por se meter por mais trobador, por que lh’ ela non quis (o) ben fazer, feze-s’ el en seus cantares morrer; mais resurgiu depois ao tercer dia.

O frei riu, o gajo riu, os dois riram, riram de prazer de pilhéria, mas eu, Gil Eanes, respondo bá com bá, e bi com bi, e respondi:

Carlos Cazali, parou-se-vos mal: per ante o demo do fogo infernal, por que con Deus, o padre spirital, minguar quisestes, mal per descreestes? E ben vej’ ora que trobar vos fal, pois vós tan louca razon cometestes.

E o tzigano mundano disse-me então:

Esto fez el por ua sa senhor que quer gran ben; e mais vos en diria: por que cuida que faz i maestria, enos cantares que fez, á sabor de morrer i e des d’ar viver. Esto faz el, que x’o pode fazer, mais outr’ omen per ren nono faria.

Ah, Carlos-sabugo, rebento-refugo, digo-lhe isso:

— E pois razon a tan descomunal fostes filhar, e que tan pouco val, pesar-mi-á en, se vos pois a ben sal ante o diaboo, a que obedeecestes. E ben vej’ ora que trobar vos fal, pois vós tan louca razon cometestes.

O gaiteiro, então, ao final da tençon, sacou navalha escocesa; não sou adamado, meu bom amigo, peguei a garrafa, quebrei-a, encarei o canalha; mas frei Leonardo, acordado do porre, num salto pôs-se entre nós, e tudo ficou acabado. Após o embate, voltei ao Chastel, sem prez nem joy, sem Deus, dom ou dona; e enojei-me de Gil, o porco, traedor, imigo de mim, per mia malaventura.

(Continua)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

quarta-feira, 23 de junho de 2010

DONA VIRGO (I)

Ondas do mar de Vigo, verde mar, musgo, mofo, muco; verde malva, jaspe, jade ou junco. Vera viçosa, fremosa, velida, tecido sem vinco; negra ninfa, niña de Mama África, de São Salvador, filha de Oxum, en las calles de vieja España, onde os teus olhos, onde os teus peitos, moça de virgo? Vera olhos verdes, vê-la é vício, não vê-la é vírus, seu cheiro: folha de ipê, folha de figo, só folhas; aloés, baobá, broto de bambu, begônia, branco alecrim, visgo. Penso em tua pele, não prata, aljôfar ou espuma, mas seda azeviche, seda escura, de brancaflor noturna , em tua voz, que sussurra ao coraçon, e em teus olhos, que falam para a alma. Praza-vos já que vos veja no an, hua vez d’un dia! Só ela, a moura moçela, faz o meu sangue ferver: a que partiu sem me ver, sem se dar. Eu me lancei à viagem, sem temer a voragem, cruzei terras e mares, atrás dessa dona de mim, que me fez danado, e nulhas guardas migo non trago, ergas meus olhos que choran ambos. Estou aqui, em Vigo, Vicus Sacorum, nas encostas de Cerro Castelo, na Galícia, há três dias já, e esta cidade é todo lugar, é lugar nenhum, sua estranha beleza: escamas argênteas de peixe ao sol. Sigo e persigo essa molher em vilas, vales, vielas, como a seta persegue a caça, mas, esforço inútil, de todo fútil: ela se evola, de viés, desvanece, dissolvida no ar do ar. Jogo de esconde entre o nada, o nenhures e o coisa alguma, que começa em qualquer parte e termina, talvez, além-alhures, dois passos à esquerda de lugar algum. Ela, a moçelinha, dona de mui ben parecer, apartada de mim, por quê, para quê?, pergunto a São Simeão, em sua ermida. Quand’ eu vejo las ondas e las muyt’ altas ribas, logo mi veen ondas al cor pola velyda: maldito sea l’ mare, que mi faz tanto male! Sou Gil Eanes Brás, o gatuno, garanhão, desgrenhado, deserdado, desconjunto, bebum sem ofício, poeta sem arte. Sigo e persigo Brancaflor, a louçana de doces garcetas, e pergunto a São Simeão: por quê, para quê?, em sua ermida. Molher tão sem amor: sem você, já sandeu, não sou homem: sou lagarto, locusta, lagostim, látego, ladrilho, sou menos que tudo, uma coisa, uma cousa.

* * *

Eno sagrado, en Vigo, bailava corpo velido: amor ei, cantou Martim Codax, o jogral, cortesão de Fernando terceiro, rei de Castela. Sim, ele padeceu de coita por uma dona de corpo delgado, por uma dama fremosa, que bailava junto à fonte dos cervos, com suas amigas. Também ele viu a lua em um poço, e perguntou, na hora da alvorada, onde estava a sua amada. Martim Codax, o trovador? Sim, Don Pelegrin, apenas sete canções nos deixou, descobertas por Pedro Vindel, livreiro em Madri. Jamais saberemos quantas outras escreveu. Mia irmana fremosa, treides comigo a la igreja de Vigo, u é o mar salido: e miraremos las ondas. Alba, água, areia, onde está a minha sereia? Só vejo o céu alvo, algo de algas, mágoa de mágoas. Vera, Vênus de Vigo, molher marinha, eu a sonhei saindo das águas, nudez até o umbigo, nascendo da espuma-esperma do mar de vidro. E caminhei ao longo da praia, nesta manhã, praia de pedras e areia, de escuro mar piscoso sem gaivotas, e só vi a alta grama, areia, musgo, lama, areia. Sem ela, tudo é treva, pó, tudo triste treva, noite em noite dissolvida. Amigos, non poss’eu negar a gran coita que d’amor hei, ca me vejo sandeu andar, e com sandece o direi: os olhos verdes que eu vi me fazen andar assi. Fui à igreja de São Marcos, meu amigo, no escarpado vicariato, fazer uma oração à Virgem Santa Maria. O sol carmim crestava a pele e a longa ladeira ensejava ladainhas de romeiros de passagem para Compostela. A igreja é velha, grave, austera, lascas e vincos em pedra e madeira; suas lajes e vigas, capitéis e colunas, seus altos arcos alvos, já desgastados, como a fé dos mundanos, digo ao senhor, meu bom amigo. Ao fundo, na nave escura, em delicado nicho, sob o alvadio baldaquim, vi a imagem da Virgem Santa, Dona Mística, em seu manto azul: os olhos tristes de coração trespassado, o rosário que quase escorrega das mãos, a coroa de estrelas. Cantei ora pro nobis, ora pro nobis, e passei o dia todo a rezar em ladainha, a rezar em ladainha, a rezar em ladainha, à Celeste Regina, pela paz de minha alma, pelo sossego de meu coraçon. Com’ ome que ensandeceu, senhor, con gran pesar que viu, e non foi ledo nen dormiu depois, mia senhor, e morreu: ay mia senhor, assi moir’eu! A noite é negra como o ébano, a graúna, é negra como o ônix, a perla escura, é negra como a pele de minha amiga, a malvada mourisca, a ladina saladina, sarracena, mas amo-a endõado. E caminhei de volta para a cidade, Don Pelegrin. E que farei eu, pois non vir’ o vosso mui bon parecer? Non poderei eu mais viver, se me deus contra vos non val. Mais ar dizede-me vos al: senhor fremosa, que farei?
(Fragmento inicial do conto Dona Virgo, que publiquei no livro Romanceiro de Dona Virgo. Rio de Janeiro: ed. Lamparina, 2004.)

QUE SAUDADE, POETA-IRMÃO...





Caros, a revista eletrônica Germina publicou um caderno em homenagem ao escritor Wilson Bueno, com a colaboração de Cronópios e da Zunái. Estão disponíveis ali três entrevistas com o escritor, contos, fragmentos do Mar Paraguayo e do romance Amar-te a ti nem sei se com carícias, além de depoimentos de autores como José Kozer, Victor Sosa, Reynaldo Jiménez, Andrés Ajéns, Charles Perrone, Christopher Larkosh e um artigo de José Castello. Confiram na página http://www.germinaliteratura.com.br/

terça-feira, 22 de junho de 2010

GALERIA: AUBREY BEARDSLEY (II)


DO CADERNO DE ESTUDOS (II)

Somos dementes como a fera —
esqueléticas figuras musicais
que se entreespelham.

Ruídos ásperos
perseguem o tempo;
somos apenas figuras rotas,
moídas pelo medo.

* * *

Com a brutalidade
de uma caveira cantante.
Com um morto em cada linha,
e uma rosa para cada morto,
ela pergunta aos seus lagartos:
o que existe além da pele?

Mistério algum além da verde céspede numerável até o infinito.

(Esboços imaturos para um futuro poema)

segunda-feira, 21 de junho de 2010