domingo, 27 de junho de 2010

CONVITE À VIAGEM

Poema de Charles Baudelaire, Invitation au voyage foi musicado por Henri Duparc, compositor francês da segunda metade do século XIX. Há uma bela tradução desse poema por Guilherme de Almeida, incluída no livro Flores das flores do mal.

sábado, 26 de junho de 2010

GALERIA: AUBREY BEARDSLEY (V)


DONA VIRGO (III)

Non me posso pagar tanto do canto das aves nen de seu son, nen d’amor nen de mixon, nen d’armas. Ah, Afonso X, que bem sabia trobar! Cantigas compôs à Santa Maria, Don Pelegrin, a la Madona col bambino, mulier vestida de sol, coroada d’estrelas; e, por sua fé, do mouro tomou Granada. Eu não sei mais cantar, meu amigo, e por que cantaria? Já eu non ei por quen trobar e já non ei en coraçon, por que non sei já quen amar. Sem a fremosa dama louçana que me doma, zero a soma, perco tudo e resto mudo. Pensei: que fazer para limpar o coraçon, para merecer o amor da núbia, o nímio dulce amor da minha núbil fada? E, per Nostro Senhor, resolvi caminhar até Santiago, seguir a ninféia ribeirinha, madona oriana négresse, com sincera devoção, com délicatesse, pois nada mais desejo, digo em minha prece, além do olhar da bela, que bailou entre as flores. Com’ antr’ as pedras bon rubí sodes antre quantas eu vi. No dia seguinte, pus-me na estrada, em direção a Pontevedra; e lá aconteceu algo estranho e raro, que non direi, que non direi, que non direi.

* * *

Peç’eu tant’a nostro senhor que mud’êsse coraçon. E caminhei sobre pó, paus, pedras, galhos, folhas, fezes, orando, cantando e meditando, assim: Pater noster qui est in coelis, santificetur nomem tuum, adveniat regnum tuum, fiat voluntas tua, sicut in coelo et in terra, pelo bem de minha alma, para o perdão de meus pecados. Após muito andar, Don Pelegrin, fui ter a uma aldeia curiosa, cujos moradores eram surdos ou mudos, pois dizer nada diziam, nem pá nem bá, e, parece, não ouviam, nem sequer me viam; só me restava conversar com as árvores altas. Então continuei a viagem, meu amigo, e, na estrada enlameada, ouvi um som atrás de mim; virei-me, e vi um cervo com chifres de prata correr atrás da moita. Segui o animal, mas, em seu lugar, achei um eremita, Matusalém em rugas, trapos em nesgas de tufos, de finos cabelos brancos, a coxa esquerda chagada, e ele me olhou sem dizer nada. Sem saber o seu nome, abri minha sacola, para fazer-lhe um curativo, quando o anacoreta desapareceu, e, em seu lugar, surgiu uma senhora linda, de loura e longa cabeleira, angélica aparição de nívea face, que me disse assim:

— Dom Gil, vá em paz, que o abençoe Nosso Senhor. Evite o Ogre-que-Não-Diz, a fera-oh-fúria.

Dizendo isso, a alva dama anja sumiu, e deixou-me assombrado. Por dias e noites, em veredas várias, andei e andei, sem nada encontrar, às vezes dormindo sobre o ventre da terra. Certa manhã, após lavar-me no riacho, encontrei uma niña judia de Tetuán, que assim cantava:

Desde hoy la mi madre, la del cuerpo lozano, tomeris vos las llaves, las del pan y del vino. Que yo irme queria a servir buen velado, a ponerle la mesa, la del pan y del claro. Para hacerle la cama, y para echarle a mi lado, y atana y tanaora que sea en buena hora. Y atana Y tanataile que sea en buen simane.

Interpelei a dona hebréia, dama macabéia, sobre o seu triste cantar em tão bela modinha, e ela me respondeu:

— Eu sou Rebeca, a que casou com Salomon, o cantor, filho de Natanael; a niña lozana de longas tranças, que sabe fiar e cozer. Ai, caro senhor, o meu marido está mudo! Ele não mais pode cantar os meus olhos, os meus cabelos, ao som de guitarra e tambor, nem sussurrar em meus ouvidos, à noite, doces palavras, enquanto aperta os meus seios, nem pode ouvir o que lhe digo, nem sequer ler a Torá, na sinagoga, nos shabats; ai, meu senhor! Não vá ao bairro Moureira, à capela de São Roque, pois esse lugar é o covil da besta olhos-de-chama, do Ogre-que-Não-Diz, que a todos encanta e engana. Por onde ele passa, os homens ficam mudos, as palavras somem dos livros, páginas e páginas em branco; os cães não ladram, os pardais não chiam, os corvos não crocitam, os burros não zurram, as ovelhas perdem o balir. Tome seu caminho, se és judeu ou gentio, e vá para longe, pelo seu bem e de sua amiga. Dito isso, ela voltou a cantar sua toada, depois lavou os seus cabelos, e, sem me dizer outra palavra, partiu, como se não houvera nada. Tentei chamar a moça judia marroquina, pois ela esquecera, ou deixara, uma carta quadrada sobre a pedra em que se lavara; como não me ouvisse, guardei a prenda, caso a visse novamente, e voltei a caminhar pela estrada. O sol arde, arde como viva brasa, os pés e as costas dóem, e, para me distrair, e alimentar a alma, tirei do bolso a Imitação de Cristo, de Kempis, o cônego regrante de Santo Agostinho, e fui lendo ao acaso, em voz alta, enquanto andava.

Considera o que te dizem, sem se importar com quem o diz. Os homens passam, mas a verdade do senhor permanece para sempre (Sl 38,7; 116,2). Deus fala-nos de diversas maneiras, e por mui diferentes pessoas. (...) Pergunta de boa vontade e ouve em silêncio as palavras dos santos; e não desprezes as sentenças dos velhos, porque não as dizem sem causa.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

GALERIA: AUBREY BEARDSLEY (IV)


DONA VIRGO (II)

Bernaldo, Bernaldo de Bonaval, o segrel, já senil, louvara em verso dama de má fama: a dona que eu am’ e tenho por senhor amos-trade-mh-a deus, se vos en prazer for, se non dade-mh-a morte. Quem ama a alma evita a lama, mas, no amor às donas, tudo é cegueira, loucura, pandemônio. Só o coraçon pensa, mal de Provença, e o dom da dor assoma, purga e adensa. Pera que demo queredes puta que non á mester?, cantou em escárnio Pero da Ponte, o infançon, que aprendera a arte de Bernaldo, mestre do bom cantar. Pero da Ponte, êh, ah!, o bardo bastardo, bebum blasfemo, femeeiro, faminto, fementido, Pero pervertido, é dele que fala Afonso X, o sábio, que o expulsou de sua corte por ser (segundo se dizia) mau poeta, ladrão, bêbado e assassino: En mao ponto vós tanto bevestes. Mas, quê! O senhor acredita? Pero, puro, não, mas poeta, sim, e dos bons: abusava do copo? Não sei dizer, mas ele assim trobava, meu amigo: senhor do corpo delgado, en forte pont’ eu fuy nado! que nunca perdi cuydado nen afan, des que vos vi. En forte pont’ eu fuy nado, senhor, por vós e por mi!

Enfim cheguei ao hotel, Chastel D’Avignon, mon chévalier, todo nanquim-espelhado, em modern style, o luminoso alumínio e o opaco acrílico em sua entrada, sauna-piscina-american bar. Fui ao restaurante, La Cuisine de Lacan, e pedi arroz integral, sopa de legumes, torta de queijo e um suco de uva espumoso. No salão, adocicado por Vivaldi, vi turistas suecos, japoneses, brasileiros, eslovacos, poloneses e uma alemã de seios pontudos em saia de couro dark e cabelos cor-de-rosa que lia Schopenhauer. Depois de jantar, sem sono, resolvi dar uma volta pela cidade. Fui à Taberna Montemor, meu senhor, branca casa de pedra erma do tempo de el-rey Dom Afonso, onde se bebe boa cerveja em mesetas toscas circundadas por azulejos azuis, decorados com motivos de marinheiros e monstros do mar. Ali encontrei Carlos Cazali, o fotógrafo, e perguntei a ele se vira a moçela, a meninha de olhos verdes:

Digas-me mandado de mia senhor, ca se eu seu mandado non vir’, trist’ e coitado serei; e gran pecado fará; se me non val. Ca en tal ora nado foi que mao-pecado! Amo-a endõado, e nunca end’ ouvi al!

Ele me respondeu assim:

— Vera? Oh, sim, Vera Veiga, a irmã siamesa de Veneza, top model da Stylus, ela tirou fotos em Vigo, para uma revista, mas isso foi há dois dias, e já foi embora, meu caro.

— Ah, dame sans merci, magra maga mulata, maja naja noir em boá de marabu, em popeline, cambraia, musselina; dama em adamascado, dalmático, debrum, merino, gonflé, godet, matelassé; seminua em papel couché, formato tablóide, o rosto ovalino na capa, suas pálpebras cetinosas, os olhos manhosos, a tez de anoitecer em Marrakesh.

— Ela ia a Pontevedra, e de lá para Compostela, você sabe, a Via de Santiago. Tome conosco um copo de cerveja, e mais um, e mais outro! E eu disse para mim, ao meu coraçon: vai, esquece essa nega galega, niña nagô, núbia dúbia, boca-de-mandinga, e vamos encher a cara! E depois, ah, depois? Posso sair, dizer alô a um poço, ficar de quatro, roer um osso. É isso, seu moço?

Frei Leonardo, o goliardo, o glutão, o gargalo-de-garrafa, per nostro senhor, falou assim para mim:

— Ora, pois! deixe essa mera megera, o amigo deve é sair com uma boa putana, com uma fulana de olhos sacanas, loura ou preta, de fartas tetas!, e cantou, em bom latim: Veni, domicella, cum gaudio, veni, veni, pulchra, iam pereo! Oh, oh, oh!, e cantou, também: Ave, formosissima, gemma pretiosa, ave, decus virginum, virgo gloriosa, ave, mundi rosa, branziflor et helena, Venus generosa.

E celebrou sua eucaristia, o monachus maroto: do vinho madeira, fez sangue de Cristo, do pão italiano, carne de Madalena, púbicas melenas, madeixas de morena, in nomine pater, filius et espírito de porco, amém.

Nós três comemos, bebemos e cantamos até a madrugada, a nossa mesa sempre cheia de grossas fatias de pão, queijos, carne de carneiro, cerveja e vinho, meu amigo. Éramos a tríade do érebo, da glacial geena. Frei Leonardo, o pândego infançon, contou-nos seus amores por uma nívea-blonde-meninha, moça-flor carismática, fremosinha de sacristia, em seus lácteo-nectáreos quinze anos, que muito ofereceu e pouco cedeu, entre cantos de salmos e contas do rosário. O caso valeu ao réprobo frade censura episcopal e ameaça de expulsão da ordem; o cônico conego blasfemou conosco a genealogia do bispo geriátrico, e, de ofensa em ofensa, cantou: Nunca se Deus mig’averrá, se mi non der mia senhora; mais como mi o corregerá? destroia-m’, ante ca morra. om’é: tod’aqueste mal faz, como fez já, o gran malvaz, en Sodoma e Gomorra. Ei-lo agora ante nós, libertino sem batina, bonachão sem credo. Carlos-Cazzo-Cazali, o viúvo das esposas que não teve, Dom Juan imperito de mucamas de madamas, é o colecionador de nomes para o albergue-de-vênus de suas mimosas moçoilas: paqueta, pagode, pandora, viola, violinha, violeta d’amore. Carlos, mercenário de kodak, longa barba alaranjada, jaqueta de brim, óculos escuros, foi fotógrafo de moda, cobriu a guerra da Bósnia, clicou defuntos em tiroteio e piranhas do meretrício. Eu o achava vulgar, mas ele fez fotos para a Stylus, e o suportei pela dica da sina de mia dona. Saímos da taberna, às cinco horas da manhã, sob chuva finíssima, e fomos à praça Dom Dinis; sentamos num banco de pedra, em frente ao chafariz netúnico-ninfático, e a garrafa passou de mão em mão, entre risadas e piadas obscenas, até que Carlos Cazali fez um desafio, propôs uma tençon, e aceitei a contenda. O vilão começou, cantando:

Gil Eanes Brás morreu con amor en seus cantares, par Santa Maria, por ua dona que gran ben queria; e, por se meter por mais trobador, por que lh’ ela non quis (o) ben fazer, feze-s’ el en seus cantares morrer; mais resurgiu depois ao tercer dia.

O frei riu, o gajo riu, os dois riram, riram de prazer de pilhéria, mas eu, Gil Eanes, respondo bá com bá, e bi com bi, e respondi:

Carlos Cazali, parou-se-vos mal: per ante o demo do fogo infernal, por que con Deus, o padre spirital, minguar quisestes, mal per descreestes? E ben vej’ ora que trobar vos fal, pois vós tan louca razon cometestes.

E o tzigano mundano disse-me então:

Esto fez el por ua sa senhor que quer gran ben; e mais vos en diria: por que cuida que faz i maestria, enos cantares que fez, á sabor de morrer i e des d’ar viver. Esto faz el, que x’o pode fazer, mais outr’ omen per ren nono faria.

Ah, Carlos-sabugo, rebento-refugo, digo-lhe isso:

— E pois razon a tan descomunal fostes filhar, e que tan pouco val, pesar-mi-á en, se vos pois a ben sal ante o diaboo, a que obedeecestes. E ben vej’ ora que trobar vos fal, pois vós tan louca razon cometestes.

O gaiteiro, então, ao final da tençon, sacou navalha escocesa; não sou adamado, meu bom amigo, peguei a garrafa, quebrei-a, encarei o canalha; mas frei Leonardo, acordado do porre, num salto pôs-se entre nós, e tudo ficou acabado. Após o embate, voltei ao Chastel, sem prez nem joy, sem Deus, dom ou dona; e enojei-me de Gil, o porco, traedor, imigo de mim, per mia malaventura.

(Continua)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

quarta-feira, 23 de junho de 2010

DONA VIRGO (I)

Ondas do mar de Vigo, verde mar, musgo, mofo, muco; verde malva, jaspe, jade ou junco. Vera viçosa, fremosa, velida, tecido sem vinco; negra ninfa, niña de Mama África, de São Salvador, filha de Oxum, en las calles de vieja España, onde os teus olhos, onde os teus peitos, moça de virgo? Vera olhos verdes, vê-la é vício, não vê-la é vírus, seu cheiro: folha de ipê, folha de figo, só folhas; aloés, baobá, broto de bambu, begônia, branco alecrim, visgo. Penso em tua pele, não prata, aljôfar ou espuma, mas seda azeviche, seda escura, de brancaflor noturna , em tua voz, que sussurra ao coraçon, e em teus olhos, que falam para a alma. Praza-vos já que vos veja no an, hua vez d’un dia! Só ela, a moura moçela, faz o meu sangue ferver: a que partiu sem me ver, sem se dar. Eu me lancei à viagem, sem temer a voragem, cruzei terras e mares, atrás dessa dona de mim, que me fez danado, e nulhas guardas migo non trago, ergas meus olhos que choran ambos. Estou aqui, em Vigo, Vicus Sacorum, nas encostas de Cerro Castelo, na Galícia, há três dias já, e esta cidade é todo lugar, é lugar nenhum, sua estranha beleza: escamas argênteas de peixe ao sol. Sigo e persigo essa molher em vilas, vales, vielas, como a seta persegue a caça, mas, esforço inútil, de todo fútil: ela se evola, de viés, desvanece, dissolvida no ar do ar. Jogo de esconde entre o nada, o nenhures e o coisa alguma, que começa em qualquer parte e termina, talvez, além-alhures, dois passos à esquerda de lugar algum. Ela, a moçelinha, dona de mui ben parecer, apartada de mim, por quê, para quê?, pergunto a São Simeão, em sua ermida. Quand’ eu vejo las ondas e las muyt’ altas ribas, logo mi veen ondas al cor pola velyda: maldito sea l’ mare, que mi faz tanto male! Sou Gil Eanes Brás, o gatuno, garanhão, desgrenhado, deserdado, desconjunto, bebum sem ofício, poeta sem arte. Sigo e persigo Brancaflor, a louçana de doces garcetas, e pergunto a São Simeão: por quê, para quê?, em sua ermida. Molher tão sem amor: sem você, já sandeu, não sou homem: sou lagarto, locusta, lagostim, látego, ladrilho, sou menos que tudo, uma coisa, uma cousa.

* * *

Eno sagrado, en Vigo, bailava corpo velido: amor ei, cantou Martim Codax, o jogral, cortesão de Fernando terceiro, rei de Castela. Sim, ele padeceu de coita por uma dona de corpo delgado, por uma dama fremosa, que bailava junto à fonte dos cervos, com suas amigas. Também ele viu a lua em um poço, e perguntou, na hora da alvorada, onde estava a sua amada. Martim Codax, o trovador? Sim, Don Pelegrin, apenas sete canções nos deixou, descobertas por Pedro Vindel, livreiro em Madri. Jamais saberemos quantas outras escreveu. Mia irmana fremosa, treides comigo a la igreja de Vigo, u é o mar salido: e miraremos las ondas. Alba, água, areia, onde está a minha sereia? Só vejo o céu alvo, algo de algas, mágoa de mágoas. Vera, Vênus de Vigo, molher marinha, eu a sonhei saindo das águas, nudez até o umbigo, nascendo da espuma-esperma do mar de vidro. E caminhei ao longo da praia, nesta manhã, praia de pedras e areia, de escuro mar piscoso sem gaivotas, e só vi a alta grama, areia, musgo, lama, areia. Sem ela, tudo é treva, pó, tudo triste treva, noite em noite dissolvida. Amigos, non poss’eu negar a gran coita que d’amor hei, ca me vejo sandeu andar, e com sandece o direi: os olhos verdes que eu vi me fazen andar assi. Fui à igreja de São Marcos, meu amigo, no escarpado vicariato, fazer uma oração à Virgem Santa Maria. O sol carmim crestava a pele e a longa ladeira ensejava ladainhas de romeiros de passagem para Compostela. A igreja é velha, grave, austera, lascas e vincos em pedra e madeira; suas lajes e vigas, capitéis e colunas, seus altos arcos alvos, já desgastados, como a fé dos mundanos, digo ao senhor, meu bom amigo. Ao fundo, na nave escura, em delicado nicho, sob o alvadio baldaquim, vi a imagem da Virgem Santa, Dona Mística, em seu manto azul: os olhos tristes de coração trespassado, o rosário que quase escorrega das mãos, a coroa de estrelas. Cantei ora pro nobis, ora pro nobis, e passei o dia todo a rezar em ladainha, a rezar em ladainha, a rezar em ladainha, à Celeste Regina, pela paz de minha alma, pelo sossego de meu coraçon. Com’ ome que ensandeceu, senhor, con gran pesar que viu, e non foi ledo nen dormiu depois, mia senhor, e morreu: ay mia senhor, assi moir’eu! A noite é negra como o ébano, a graúna, é negra como o ônix, a perla escura, é negra como a pele de minha amiga, a malvada mourisca, a ladina saladina, sarracena, mas amo-a endõado. E caminhei de volta para a cidade, Don Pelegrin. E que farei eu, pois non vir’ o vosso mui bon parecer? Non poderei eu mais viver, se me deus contra vos non val. Mais ar dizede-me vos al: senhor fremosa, que farei?
(Fragmento inicial do conto Dona Virgo, que publiquei no livro Romanceiro de Dona Virgo. Rio de Janeiro: ed. Lamparina, 2004.)

QUE SAUDADE, POETA-IRMÃO...





Caros, a revista eletrônica Germina publicou um caderno em homenagem ao escritor Wilson Bueno, com a colaboração de Cronópios e da Zunái. Estão disponíveis ali três entrevistas com o escritor, contos, fragmentos do Mar Paraguayo e do romance Amar-te a ti nem sei se com carícias, além de depoimentos de autores como José Kozer, Victor Sosa, Reynaldo Jiménez, Andrés Ajéns, Charles Perrone, Christopher Larkosh e um artigo de José Castello. Confiram na página http://www.germinaliteratura.com.br/

terça-feira, 22 de junho de 2010

GALERIA: AUBREY BEARDSLEY (II)


DO CADERNO DE ESTUDOS (II)

Somos dementes como a fera —
esqueléticas figuras musicais
que se entreespelham.

Ruídos ásperos
perseguem o tempo;
somos apenas figuras rotas,
moídas pelo medo.

* * *

Com a brutalidade
de uma caveira cantante.
Com um morto em cada linha,
e uma rosa para cada morto,
ela pergunta aos seus lagartos:
o que existe além da pele?

Mistério algum além da verde céspede numerável até o infinito.

(Esboços imaturos para um futuro poema)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

GALERIA: AUBREY BEARDSLEY (I)




DO CADERNO DE ESTUDOS (I)

A ferocidade

no limiar da noite,

quando a pele —

desmedida, irremissível,

se projeta em outra pele:

leões minúsculos de ouro,

nenhum destino além do nervo tumultuário.

(Esboço de poema de Claudio Daniel)

GALERIA: PIN UPS DA PELE DE LONTRA (V)


UMA CONVERSA COM CLAUDIO WILLER (IV)

CD: Em seus “poemas da loucura”, o romântico alemão Hoelderlin antecipou recursos da poesia moderna, como a estética do fragmento e o texto não-linear. O psicanalista Isaías Mehlson, a esse respeito, fez um interessante comentário, afirmando que “o inconsciente é uma consciência não-discursiva”. Essa ruptura com a lógica narrativa e sintática está presente em diversos experimentos de vanguarda, como o Lance de Dados de Mallarmé, o futurismo, o dadaísmo. Já a poesia surrealista foi acusada por certos críticos, ligados à poesia concreta, de ser uma tentativa de restabelecer o verso, ou seja, o discurso e a sintaxe. O que você pensa a respeito?

CW: Eu cito essa visão fenomenológica do inconsciente de Isaías Mehlson em alguns lugares. Hölderlin louco e Gérard de Nerval em surto são modernos justamente por produzirem obra não-discursiva. Agora, veja que interessante, com relação a críticas ao surrealismo: há duas vertentes de crítica, dizendo exatamente o contrário. Uma crítica de um marxismo mais soviético, acusando-o de irracionalismo, e (isso até mesmo em um crítico da envergadura de Antonio Candido, e confesso que não entendo como é que pode, ao mesmo tempo ele apontar a importância de Clarice Lispector e, com relação a Rosário Fusco, fazer esse tipo de afirmação) reduzindo-o a sintoma de uma crise burguesa. E a outra crítica, acusando-o justamente do contrário, de racionalismo, em Haroldo de Campos, que o chamava de filho bastardo da lógica, ou em Leila Perrone Moisés, que chegou a indigitar Breton como sendo racionalista ou cartesiano ou algo assim, tempos atrás em um artigo no Jornal da Tarde que eu precisava recuperar).

Pois bem. Então, vamos distinguir entre pensamento lógico, fundado no princípio da identidade, de que, A sendo A, e B sendo B, então, A não pode ser B, e pensamento analógico, enxergando as correspondências (no sentido de Baudelaire, mesmo) entre A e B. Recentemente, em palestra no congresso internacional “O Surrealismo: Atualidade e Subversão”, realizado no campus da Unesp em Araraquara, entre 14 e 16 de agosto, mostrei como a ensaística de Breton recorre muito mais ao pensamento analógico do que lógico (até no Segundo Manifesto, em pleno furor marxista, ele se permite tecer considerações sobre a mesma conjunção planetária que teria presidido ao nascimento dele, de Eluard e de Aragon — olha, se recorrer à astrologia não é pensamento analógico, então não sei o que é). Permiti-me apontar como exemplo de leitura surrealista o capítulo em Volta, a minha narrativa em prosa, sobre Nadja de Breton, mostrando como essa leitura é aberta, ao contrário daquela que utiliza paradigmas, teorias literárias, forçosamente fechadas, pelo modo como vou atrás de sincronias, correspondências, acasos objetivos por sua vez tomados como reais. Quanto à poesia surrealista, ela é plural, inclui muita coisa tendente ao que faziam e viriam a fazer os construtivistas. Agora, é sempre regida pela analogia. Até perguntei, no meu artigo na Cult, por que, então, quando registramos sonhos, eles se parecem com obras surrealistas, enquanto poesia concreta, na sua manifestação mais típica, nem em pesadelos...

CD: Ainda é possível o surrealismo hoje?

CW: Acho que, em primeiro lugar, as pessoas têm que ler surrealismo, aqui no Brasil — tem muita gente dando opiniões as mais disparatadas, sem saber direito do que se trata. O fundamento, a idéia da contradição entre poeta e sociedade, do prosseguimento da rebelião romântica, continua valendo. Movimentos e ações coletivas inspiradas no surrealismo, acho perfeitamente possíveis, e seria muito bom se acontecessem. Percebo, hoje em dia, um tipo de cultura ou de movimentação underground que tende ao surrealismo, incorporando, é claro, a beat e outras tendências rebeldes e marginais. Isso está acontecendo, neste momento, nos Estados Unidos, com o grupo de Chicago. Algo disso, vejo em um projeto como o da revista Azougue — também em nossa revista eletrônica, do Floriano Martins e minha, Agulha, http://www.elsonfroes.com.br/www.agulha.cjb.net , entre outros lugares, os quais vejo como registros, estações retransmissoras, não exclusivamente surreais, é claro. Neste número da revista Cult, que saiu enquanto respondo a suas perguntas, trato de burocratização do conhecimento. Surrealismo continua um grande antídoto, um instrumento de combate.

CD: O sonho das vanguardas era unir o “mudar a vida” de Rimbaud ao “mudar o mundo” de Marx. Como você vê a atual crise das utopias?

CW: Olha, “crise das utopias”, tem muita gente falando nisso pelo encerramento do ciclo dos regimes fechados, burocráticos, de planejamento central, da esfera do “socialismo real”, enfim, do modelo soviético. Mas essa nunca foi minha utopia, nem esta é minha crise, pois jamais esperei qualquer coisa desse tipo de regime, sempre os achei autoritários. Sou anarquista, e minhas utopias estão no mesmo lugar onde sempre estiveram. A rebelião individual, inspirada em Rimbaud e tantos outros, continua um caminho, talvez o caminho pelo qual seja possível seguir.

CD: Além do naufrágio do stalinismo, que colocou em crise as outras propostas de esquerda também, você não vê uma crise mais ampla, no sentido de ausência de uma proposta ética, espiritual ou humanista? Não houve um retrocesso em relação às rebeldias libertárias da década de 60? A sociedade neoliberal, com suas longas jornadas de trabalho e o ideal yuppie não trocou a contestação pelo conformismo, o peiote pela cocaína, droga de executivos que querem produzir mais?

CW: Sim, houve retrocesso. Mas na mesma proporção em que contracultura teve algo de modismo, de cultivo de uma exterioridade, de estereótipo, padronização, massificação, como se puxar um fumo ou tomar um alucinógeno ou escolher um repertório musical fosse, em si, mudar alguma coisa. O retrocesso já estava dentro, contido naquele período. Agora, neste momento, há crise, talvez esgotamento do projeto neoliberal. Mas quero saber o que irão propor em seu lugar. Não pode servir como defesa ou justificativa dos regimes fechados. Propostas éticas, espirituais, humanistas, existem. A questão é se irão adquirir caráter coletivo, como irão se projetar em forma de movimentos, de algum modo de ação.

CD: A opinião de um escritor tem importância, hoje, no Brasil? O que a UBE tem feito no sentido de resgatar o papel do escritor como consciência crítica da sociedade?

CW: Escritor consagrado é formador de opinião, sem dúvida, além de produzir realidade. Jorge Amado, que morreu há pouco — ele produziu Brasil, constituiu identidade. Era sócio da UBE, participou de um congresso de escritores, em Portugal, 89, do qual eu era um dos organizadores. Bela figura. Olha, diante de certas políticas literárias meio mafiosas, acho exemplar o comportamento dele — levar o Campos de Carvalho para ser publicado na Civilização Brasileira, apadrinhá-lo, quase — ele, Jorge, realista, Campos de Carvalho surrealista, ele militante, o outro nem aí...

A UBE procura defender os direitos do autor, políticas culturais democráticas, enfim, age em um plano institucional, além de promover atividades associativas. É uma entidade plural, com um quadro de sócios grande, que abrange uma diversidade de escritores, correspondendo a níveis e registros distintos do que se poderia chamar de consciência crítica da sociedade. Acho que o escritor desempenha esse papel através de sua obra, independentemente de uma entidade tentar resgatá-lo ou não. UBE pode ser um espaço de convivência, de diálogo, e instrumento ou meio para manifestações e tentativas de intervenção política nessas questões que mencionei acima, a começar pela democracia e liberdade de expressão. Sempre foi. Que interessante isso, Jorge Amado e Zélia se conheceram naquele congresso de escritores de 45, da ABDE, entidade da qual a UBE é sucessora... Você vê o que pode rolar (rolou bastante, no que me diz respeito) em entidades de escritores... Quem pensa que é de uma austeridade imitando cerimonial de Academia está enganado. Ao menos, comigo de presidente... Aliás, nesse aspecto, o informal, o não-oficial, o currículo da UBE é bom. Uma hora lhe conto umas histórias.

CD: A poesia é uma forma de sapiência, de loucura ou de retorno à infância?

CW: Tudo isso e muito mais. A imagem do Octavio Paz — a outra voz — acho perfeita.
(FINAL)

domingo, 20 de junho de 2010

PIN UPS DA PELE DE LONTRA (IV)




UMA CONVERSA COM CLAUDIO WILLER (III)

CD: Dentro da tradição da poesia em língua portuguesa, com quais autores você sente mais afinidade?

CW: Comecemos pelos portugueses mesmo. Ah, mas como líamos Fernando Pessoa! E Sá Carneiro. Menos, mas devíamos ter lido mais, Almada Negreiros. Portugal, como tem bons poetas, os surrealistas, António Maria Lisboa, Mário Cesariny. Os de hoje, olha, Herberto Helder, que bom que saiu aqui, coloco-o em um primeiro time mundial. Dos brasileiros, meu poeta é Jorge de Lima, já falei várias vezes, que para Invenção de Orfeu ser reconhecido como monumento literário mundial, tem que ser primeiro lido e reconhecido por nós. Murilo, também. Há uma frase inteligente de Roland Barthes, em O Prazer do Texto, quando ele diz que Proust é uma matexis para ler Flaubert. Ou seja, começar pelos contemporâneos, os mais próximos, para aí remontar aos clássicos. Quanto a mim, já cheguei ao simbolismo, nesse trajeto. Em termos, também não vamos exagerar, pois houve uma primeira formação romântica, para todos nós.

CD: Você trocou cartas com Allen Ginsberg, durante o seu trabalho de tradução de poemas do autor norte-americano, reunidos na coletânea Uivo, Kaddish & Outros Poemas. Fale um pouco sobre esse diálogo.

CW: Quando se acertaram os direitos de tradução, consultei-o sobre algumas dúvidas que tinha, ele foi muito atencioso, respondeu a minhas consultas. Tenho as cartas. Depois que saiu Uivo, Kaddish & Outros poemas, mandei-lhe, e ele me mandou os livros dele que saíram desde então, inclusive essas edições da poesia reunida e diários pela Harper & Collins, com cartões para o dear translator friend. Queria trazê-lo para o Brasil, na época em que estava na Secretaria de Cultura, mas não havia mais condições, ele já estava mal de saúde.

CD: Como tradutor, além de Ginsberg, você publicou os Cantos de Maldoror, de Lautréamont, Escritos de Antonin Artaud, poemas de Octavio Paz. Estes são os poetas que marcaram a sua formação literária?

CW: Os poetas, não — alguns dos poetas — tem muito mais, é claro. Dei sorte, as ocasiões em que me convidaram para traduzir algo, Lautréamont, Artaud, Ginsberg, eram autores com os quais, de algum modo, convivia, que, para mim, tiveram valor de revelação. Foi coincidência, acaso objetivo.

CD: Fale um pouco sobre o processo de criação de seus livros Dias Circulares (1976) e Jardins da Provocação (1981).

CW: Dias Circulares, quando, pela segunda vez, em 1976, o Massao Ohno enunciou o fatídico chamado, “Willer, quero te publicar!”, reuni o que tinha, poemas em prosa e alguns com versos espalhados pela página, fiz um novo manifesto, e apresentei-lhe tudo isso. Em Jardins da Provocação, há poemas temáticos, mas também escritos espontaneamente, direto, que coexistem com os em prosa, assim como no meu próximo livro, Estranhas Experiências. Há, continua havendo, notas da véspera, como as passei.
CD: Em Jardins da Provocação, você incluiu, junto com os poemas, um manifesto em que fala sobre o poder mágico da palavra poética, com o enfoque da semiologia e da teoria literária. Afinal, qual é a relação entre poesia e magia? Concorda com Huidobro, de que a poesia inaugura um mundo próprio, com sua própria fauna e flora?

CW: Concordo. A poesia produz realidade. É possível uma teoria literária aberta, incorporando a magia, o pensamento mágico. É só abrirem-se as cabeças desse pessoal, alguém realmente querer ir além do cientificismo.

CD: Você define sua poesia como lírica, no sentido de expressão do sujeito, do eu lírico, e também quanto à temática amorosa. A vocação subjetiva, herdeira da rebelião romântica, contrapõe-se à materialidade cabralina, centrada na visão objetiva das coisas. Sua opção de mergulhar no mundo interior, nos sonhos e obsessões, afastaram-no da crítica social, sátira política? Acredita ser possível conciliar o mergulho existencial com a reflexão do estar no mundo, ou concorda com Piva de que “todo ato individual é anti-social”?

CW: Concordo, sim. O que Piva diz não é antagônico com estar no mundo. E insisto: eu nunca programei como iria escrever. Lembro a frase famosa de Octavio Paz: o poeta não se serve das palavras; é o seu servidor. Crítica social, sátira, faço mais em meus ensaios. Na criação, na leitura, até na crítica, e muito, muito mesmo no ensino, é preciso recuperar a dimensão da emoção, da magia e encantamento, assim tornando-as (criação, crítica, ensino) menos assépticos, menos burocráticos. O que essa gente faz é desestimular leitores.
(CONTINUA)
P.S.: o livro Estranhas Experiências saiu em 2004, pela editora Lamparina.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

GALERIA: PIN UPS DA PELE DE LONTRA (III)


UMA CONVERSA COM CLAUDIO WILLER (II)


CD: Acredita que a poesia tenha relação com estados alterados de consciência, com a experiência visionária?

CW: A questão não é “acreditar” — a questão é aquilo que é. Baudelaire escreveu aquela quantidade de paginas sobre haxixe, a troco de quê? Falava de um meio de passar o tempo, só? Experiências visionárias? E Mallarmé, aquelas enormes crises, ele ouvindo o refrão, la penultiéme est morte, e aí escrevendo, ou melhor, transcrevendo O Demônio da Analogia, obviamente o tipo do texto que, digamos assim, baixou, que certamente nem ele conseguiu entender o que significava, como traduzir, decodificar, e que até hoje é tido como obscuro, hermético. E Ginsberg ouvindo a voz de William Blake? E o próprio Blake? E...? Podia escrever páginas e páginas sobre episódios de criação poética como revelação, êxtase, algo baixando. É claro que não estou fazendo nenhuma condenação a priori da escrita a frio, pensada. Apenas estou dizendo como as coisas são, ou foram, ou têm sido, historicamente, e não só para mim.

CD: Mircea Eliade, autor de Técnicas Arcaicas do Êxtase, foi uma influência intelectual marcante entre os poetas de seu círculo literário? Você tem interesse pelo esoterismo e por tradições iniciáticas?

CW: Sim e sim, as duas partes da sua pergunta. Com tudo o que se escreveu depois sobre mito e sobre xamanismo, Mircea Eliade me parece ainda insuperado. Há, nele, um fundamento filosófico, ontológico, que é a idéia da relação entre o homem e o mundo como algo vivo, animado e sagrado, nas sociedades tribais, no mundo arcaico. Quanto a esoterismo e tradições iniciáticas, trato disso em minha narrativa em prosa, Volta. Nunca fui adepto, de fazer parte de uma seita ou grupo, a exemplo, digamos, de Yeats e a Ordem da Aurora Dourada. Interessa-me o movimento oposto, da experiência poética se tornar mágica, de, no contexto da criação poética, acontecerem antevisões, revelações, o acaso objetivo. Esoterismo e poesia se aproximam por ambos terem como fundamento um modo de pensar analógico, oposto à razão da herança cartesiana ou aristotélica.

CD: Fale um pouco sobre o seu livro de estréia, Anotações para um Apocalipse (1964). Como ele foi recebido na época?

CW: É uma série de poemas em prosa, escritos automaticamente, e um manifesto, em um tom bretoniano, mas que vale, penso, por antecipar o que vinha pela frente, a rebelião contracultural, e mais coisas, e falar de Ginsberg e outros em primeira mão, aqui no Brasil. Recepção? Amigos gostaram. Tanto o meu livro, Anotações para um Apocalipse, quanto os do Piva, Paranóia e Piazzas, fora daquele ambiente, ninguém entendeu nada, silêncio total. Crítica, nem pensar. Levamos uns 15 ou 20 anos para ser lidos.

CD: Como os poetas do modernismo receberam a tua poesia? Tomaram posição a respeito? Faço essa pergunta porque, em minha opinião, o teu trabalho, como o de Piva, não tem nada a ver com o modernismo dos anos 30 e 40... Claro, há certos paralelos com Murilo Mendes e Jorge de Lima, na imagética, em especial. Mas a impressão que eu tenho é que a poesia de vocês existiria mesmo sem o modernismo, pois descende de outras fontes, do romantismo, do simbolismo, de Breton, dos beats, da contracultura dos anos 60... o que você pensa a respeito?

CW: Penso um monte de coisas! Modernista, remanescente da semana de 22, havia Sérgio Milliet, bela figura, mas, no início dos anos 60, não tomamos conhecimento, freqüentava o bar ao lado (ele e a turma dele no Paribar, eu e minha turma mais no Leco ou La Crémerie, lugar mais agitado), mas ainda assim era muito burguês, muito establishment para nosso gosto. Não nos interessou qualquer interlocução pessoal com modernistas e afins, embora não tivéssemos dúvidas quanto à importância de Drummond e admirássemos Murilo. Bandeira, nunca gostei, simplesinho demais. Guilherme de Almeida, o então Príncipe dos Poetas Brasileiros, de enorme prestígio, nem chegar perto, de jeito nenhum, representava tudo o que não suportávamos, oficialismo, academicismo, restauração do beletrismo etc. Idem os demais corifeus do retorno dos modernistas ao academicismo, Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo. O contexto literário imediato era dado pela Geração de 45. Nem foi preciso romper, nos afastarmos, tomar posição contra, bastou saírem Paranóia e Piazzas do Piva, e o meu Anotações para um Apocalipse, e eles imediatamente esfriaram conosco.

Agora, você tocou em uma questão importantíssima ao falar em simbolismo. Pelo seguinte — na França, em especial, modernismo estava dentro do simbolismo! Houve aquilo que Breton denominou de correia de transmissão entre simbolismo e surrealismo. Vanguardas recolheram um legado simbolista. Veja bem: Jarry (e Jarry já é tudo, em sua obra colossal, está tudo lá, ele produziu século XX como ninguém) era simbolista, freqüentava Mallarmé e os outros, foi quem proclamou como fundamentos da nova literatura Rimbaud, Lautréamont, Mallarmé. O primeiro tradutor de Jarry, para o italiano, foi Marinetti... Apollinaire, o ideólogo do novo, idem, freqüentava Jarry, o admirava. Os surreais adotaram como referências, a exemplo de Jarry, a Lautréamont e Rimbaud. Os formalistas, Eliot e Pound inclusive, a Corbière e Laforgue. Linha direta, conexão, em todos esses casos, e em outros.

Aqui não, o pessoal de 22 maravilhou-se com futurismo e vanguardismo, mas não reparou em nosso próprio simbolismo, no que havia de moderno em Kilkerry, na poesia em prosa de Cruz e Souza. Não sabiam de Sousândrade, e olha que em seus momentos simultaneístas, em muito de Oswald, até lembram Sousândrade. Não perceberam o anti-beletrismo de Lima Barreto. Nacionalistas que não souberam olhar a seu redor, algo muito estranho, que associo a uma certa caretice modernista, especialmente em Mário de Andrade, um discurso como: sim, vamos inovar, mas espere aí, até certo ponto, devagar, loucura, isso não, como ele diz em seus primeiros textos críticos. Isso posto, muito do que Mário fez, gostamos. E, sem dúvida, Oswald, o mais inquieto e criativo de 22.
(Continua)

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