sexta-feira, 18 de junho de 2010

UMA CONVERSA COM CLAUDIO WILLER (II)


CD: Acredita que a poesia tenha relação com estados alterados de consciência, com a experiência visionária?

CW: A questão não é “acreditar” — a questão é aquilo que é. Baudelaire escreveu aquela quantidade de paginas sobre haxixe, a troco de quê? Falava de um meio de passar o tempo, só? Experiências visionárias? E Mallarmé, aquelas enormes crises, ele ouvindo o refrão, la penultiéme est morte, e aí escrevendo, ou melhor, transcrevendo O Demônio da Analogia, obviamente o tipo do texto que, digamos assim, baixou, que certamente nem ele conseguiu entender o que significava, como traduzir, decodificar, e que até hoje é tido como obscuro, hermético. E Ginsberg ouvindo a voz de William Blake? E o próprio Blake? E...? Podia escrever páginas e páginas sobre episódios de criação poética como revelação, êxtase, algo baixando. É claro que não estou fazendo nenhuma condenação a priori da escrita a frio, pensada. Apenas estou dizendo como as coisas são, ou foram, ou têm sido, historicamente, e não só para mim.

CD: Mircea Eliade, autor de Técnicas Arcaicas do Êxtase, foi uma influência intelectual marcante entre os poetas de seu círculo literário? Você tem interesse pelo esoterismo e por tradições iniciáticas?

CW: Sim e sim, as duas partes da sua pergunta. Com tudo o que se escreveu depois sobre mito e sobre xamanismo, Mircea Eliade me parece ainda insuperado. Há, nele, um fundamento filosófico, ontológico, que é a idéia da relação entre o homem e o mundo como algo vivo, animado e sagrado, nas sociedades tribais, no mundo arcaico. Quanto a esoterismo e tradições iniciáticas, trato disso em minha narrativa em prosa, Volta. Nunca fui adepto, de fazer parte de uma seita ou grupo, a exemplo, digamos, de Yeats e a Ordem da Aurora Dourada. Interessa-me o movimento oposto, da experiência poética se tornar mágica, de, no contexto da criação poética, acontecerem antevisões, revelações, o acaso objetivo. Esoterismo e poesia se aproximam por ambos terem como fundamento um modo de pensar analógico, oposto à razão da herança cartesiana ou aristotélica.

CD: Fale um pouco sobre o seu livro de estréia, Anotações para um Apocalipse (1964). Como ele foi recebido na época?

CW: É uma série de poemas em prosa, escritos automaticamente, e um manifesto, em um tom bretoniano, mas que vale, penso, por antecipar o que vinha pela frente, a rebelião contracultural, e mais coisas, e falar de Ginsberg e outros em primeira mão, aqui no Brasil. Recepção? Amigos gostaram. Tanto o meu livro, Anotações para um Apocalipse, quanto os do Piva, Paranóia e Piazzas, fora daquele ambiente, ninguém entendeu nada, silêncio total. Crítica, nem pensar. Levamos uns 15 ou 20 anos para ser lidos.

CD: Como os poetas do modernismo receberam a tua poesia? Tomaram posição a respeito? Faço essa pergunta porque, em minha opinião, o teu trabalho, como o de Piva, não tem nada a ver com o modernismo dos anos 30 e 40... Claro, há certos paralelos com Murilo Mendes e Jorge de Lima, na imagética, em especial. Mas a impressão que eu tenho é que a poesia de vocês existiria mesmo sem o modernismo, pois descende de outras fontes, do romantismo, do simbolismo, de Breton, dos beats, da contracultura dos anos 60... o que você pensa a respeito?

CW: Penso um monte de coisas! Modernista, remanescente da semana de 22, havia Sérgio Milliet, bela figura, mas, no início dos anos 60, não tomamos conhecimento, freqüentava o bar ao lado (ele e a turma dele no Paribar, eu e minha turma mais no Leco ou La Crémerie, lugar mais agitado), mas ainda assim era muito burguês, muito establishment para nosso gosto. Não nos interessou qualquer interlocução pessoal com modernistas e afins, embora não tivéssemos dúvidas quanto à importância de Drummond e admirássemos Murilo. Bandeira, nunca gostei, simplesinho demais. Guilherme de Almeida, o então Príncipe dos Poetas Brasileiros, de enorme prestígio, nem chegar perto, de jeito nenhum, representava tudo o que não suportávamos, oficialismo, academicismo, restauração do beletrismo etc. Idem os demais corifeus do retorno dos modernistas ao academicismo, Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo. O contexto literário imediato era dado pela Geração de 45. Nem foi preciso romper, nos afastarmos, tomar posição contra, bastou saírem Paranóia e Piazzas do Piva, e o meu Anotações para um Apocalipse, e eles imediatamente esfriaram conosco.

Agora, você tocou em uma questão importantíssima ao falar em simbolismo. Pelo seguinte — na França, em especial, modernismo estava dentro do simbolismo! Houve aquilo que Breton denominou de correia de transmissão entre simbolismo e surrealismo. Vanguardas recolheram um legado simbolista. Veja bem: Jarry (e Jarry já é tudo, em sua obra colossal, está tudo lá, ele produziu século XX como ninguém) era simbolista, freqüentava Mallarmé e os outros, foi quem proclamou como fundamentos da nova literatura Rimbaud, Lautréamont, Mallarmé. O primeiro tradutor de Jarry, para o italiano, foi Marinetti... Apollinaire, o ideólogo do novo, idem, freqüentava Jarry, o admirava. Os surreais adotaram como referências, a exemplo de Jarry, a Lautréamont e Rimbaud. Os formalistas, Eliot e Pound inclusive, a Corbière e Laforgue. Linha direta, conexão, em todos esses casos, e em outros.

Aqui não, o pessoal de 22 maravilhou-se com futurismo e vanguardismo, mas não reparou em nosso próprio simbolismo, no que havia de moderno em Kilkerry, na poesia em prosa de Cruz e Souza. Não sabiam de Sousândrade, e olha que em seus momentos simultaneístas, em muito de Oswald, até lembram Sousândrade. Não perceberam o anti-beletrismo de Lima Barreto. Nacionalistas que não souberam olhar a seu redor, algo muito estranho, que associo a uma certa caretice modernista, especialmente em Mário de Andrade, um discurso como: sim, vamos inovar, mas espere aí, até certo ponto, devagar, loucura, isso não, como ele diz em seus primeiros textos críticos. Isso posto, muito do que Mário fez, gostamos. E, sem dúvida, Oswald, o mais inquieto e criativo de 22.
(Continua)

GALERIA: PIN UPS DA PELE DE LONTRA (II)


UMA CONVERSA COM CLAUDIO WILLER (I)

Poesia como vertigem, experiência visionária, no limite entre vida e linguagem. A escritura não como reflexo do cotidiano imediato, em sua banalidade autoritária, mas como construção de uma realidade com sua própria morfologia do desejo, que não se distingue do sonho ou de estados alterados da consciência. A poesia surrealista é um território onde a lógica habitual, no campo do discurso e da ação, cede lugar à multiplicidade de outras formas possíveis de composição de cor e som, idéia, forma e movimento. Nesta entrevista, o poeta, tradutor e ensaísta Claudio Willer, um dos principais nomes do surrealismo no Brasil, comenta sua trajetória poética, sua visão de um mundo fragmentado e faz a defesa dessa estética alucinada que não distingue a arte da magia, o sonho construído da fugaz realidade.

Claudio Daniel: Qual é o sentido de escrever poesia hoje, numa sociedade regida pela mídia e pelo mercado?

Claudio Willer: Precisamos ser claros ao usar a expressão “hoje”. Hoje é quando? Há 150 anos, Baudelaire já transmitia a idéia do poeta como ser à parte, isolado e marginalizado na sociedade de massas, o albatroz obrigado a levar vida pedestre, como naquele poema de As Flores do Mal, e em tudo o que ele escreveu sobre a vida na metrópole. A contradição poesia/sociedade (sociedade burguesa, industrial, pós-industrial, de massas, de mercado, midiática, o que for), já foi claramente estabelecida no Romantismo, e não mudou em sua essência, a não ser pelo fato de a sociedade burguesa, hoje, ser menos fechada, mais permeável. Por exemplo, você não tem censura direta, não toma processos por escrever poemas — e este é um avanço recente. Aliás, sempre houve, na civilização ocidental, tensão entre poesia, descontado o beletrismo eloqüente, e sociedade — basta lembrar que Camões foi em seu tempo criticado, excluído, visto com desconfiança por suas inovações, e só depois convertido em nosso autor mais canônico. Isso, entre tantos outros exemplos.

CD: Sim, podemos considerar que esse “hoje” começou em 1789, quando o Bispo e o Rei cederam o assento ao fabricante de vinhos ou cortiça e aos futuros especuladores financeiros. Nesse período, que evoluiu da guilhotina à internet, surgiram diferentes idéias sobre por que fazer poesia. Para alguns, ela é uma ferramenta para mudar o mundo; para outros, é um severo exercício estético, que se justifica na própria escritura; alguns querem que a poesia altere o comportamento social, influencie outras mídias ou o idioma, e outros acham que a poesia, realmente, não serve para nada. Em sua opinião, por que escrevemos poesia, atividade que consome tempo, inteligência, esforço e que não interessa a quase ninguém, além de nós mesmos?

CW: Exatamente. Romantismo é um produto da mesma configuração de que faz parte o Iluminismo. Um de seus componentes. Possível a partir do momento em que destamparam a panela – que aliás continua sendo destampada, o processo não se encerrou, e nele a rebelião individual desempenha um papel decisivo — com a queda dos absolutismos e do poder temporal da Igreja. Queda dos absolutismos, não — redução considerável, não simplifiquemos as coisas. Poesia consome tempo? Pois então, é um bom modo, bem prazeroso, de consumir tempo. Olha, se poesia não me proporcionasse um certo nível de prazer, de satisfação pessoal independente de resultados como a repercussão, eu não mexia um dedo sobre o teclado ou segurando a caneta para fazer isso. Em segundo lugar, “nós mesmos” é bastante gente. Dirigimo-nos a pessoas que partilham um código, ou um mesmo repertório, sei lá. E, é evidente, a poesia se projeta, tem um resultado exterior à subjetividade do autor, embora saia de dentro dela. Em caso contrário, seria um solipsismo, escrever para o próprio umbigo, para sua imagem no espelho. Seria paranóia aguda, galopante, alguém se pôr a escrever para ser Dante, Camões ou Baudelaire, isso, citando exemplos mais evidentes de autores cuja poesia se projetou, constituiu cultura, portanto, produziu realidade. No entanto, concordo, tanto quanto concordava a primeira vez que o li, décadas atrás, com o trecho de Octavio Paz, em O Arco e a Lira, em que ele diz que a poesia, sendo histórica, produz história.

CD: Como é o seu processo criativo? A escrita automática, método de composição do surrealismo, ainda é válida?

CW: Claro. Com a ressalva que Aragon já havia feito no Traité du Style, nos anos 20, de que um imbecil, se fizer escrita automática, irá escrever imbecilidades. Procedimento algum, em si, garante nada. Mesma coisa que com alucinógenos, conforme já repeti inúmeras vezes: o fato de Henri Michaux ter produzido obra importante sob efeito de mescalina não significa que alguém, por tomar mescalina, vá escrever Miserable Miracle. Quanto a meu processo criativo, é mesmo espontâneo. A frio, do tipo “vou escrever um poema”, não dá, não sai nada. Tem que haver entusiasmo, no sentido grego da palavra, como embriaguez ou possessão, ou, no mínimo, inspiração. Um dos poemas que saíram publicados naquela edição de Azougue em que figuro, Ruínas Romanas, eu estava lá, e me vi impelido pela emoção a tirar um bloquinho do bolso e ir escrevendo. Nem reparei, mas estava fazendo um comentário à quantidade de autores, de grandes poetas, que já haviam estado lá e escrito sobre essas ruínas — alguns, eu nem conhecia então. Aliás, tudo o que fiz em poesia saiu mais ou menos assim, de impulso. Note bem, não se trata de adesão a “escolas” ou cartilhas, mas do seguinte: aquilo de que André Breton fala no Primeiro Manifesto, das imagens poéticas que batiam na janela, comigo é assim, uma frase, no caso desse poema de que estou falando, a frase “quantos poetas já não estiveram aqui?”, daí para a frente, o texto vai saindo espontaneamente, quase por si só, por sua conta. Aliás, essa experiência, poesia como voz do outro, nem é patrimônio exclusivo do surrealismo, basta ver o que, por exemplo, Derrida escreve a respeito naquele seu ensaio sobre Edmond Jabés em A Escritura e a Diferença.

(Continua)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

GALERIA: PIN UPS DA PELE DE LONTRA (I)


CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS

Há muito tempo não existe jornalismo literário no Brasil. Houve o jornal Nicolau, nas décadas de 1980-90, editado por Wilson Bueno; o caderno Folhetim, da Folha de S. Paulo, no mesmo período; o Suplemento Literário de Minas Gerais, que teve sua melhor fase no final da década de 1990, sob a direção de Carlos Ávila, mas que sobrevive até hoje, e por vezes surpreende com bons textos e autores; a revista CULT, mais recente, que apesar de sua explícita parcialidade, divulgou muita coisa da poesia contemporânea; e hoje, o que há? Os cadernos ditos culturais da imprensa diária estão comprometidos com os lançamentos das grandes editoras, que muitas vezes são anunciantes nesses mesmos veículos. O espaço dado a livros lançados nos EUA ou na Europa não raro é maior que o espaço dedicado a escritores brasileiros. E, claro, a prosa de ficção (o romance, em especial) tem muito mais destaque do que a poesia, não por qualquer critério de qualidade estética, mas apenas porque vende mais. Não se trata de jornalismo literário, mas de um serviço de assessoria de imprensa para as grandes editoras. Quem é do ramo sabe disso. Felizmente, para me atualizar e saber o que está acontecendo de interessante na poesia e na prosa de hoje, eu não preciso consultar a lista de “mais vendidos” da VEJA (uma piada de péssimo gosto), nem ir à FNAC com uma lente de aumento, para descobrir algum volume de poesia excêntrica e invendável, escondido entre pilhas de romances sentimentais e livros de auto-ajuda. Afaste-se de mim, Satanás! Eu sei o que acontece hoje acessando blogues e sites de literatura, como Cronópios e Germina, além de receber, todos os dias, pelo correio, livros enviados a mim por autores dos quatro cantos do país, que é claro eu demoro um pouco para ler. Entre esses livros recebidos, gostaria de citar alguns, inclusive para indicá-los a vocês: Saber o sol do esquecimento, de Casé Lontra Marques (Vitória: Aves de Água, 2010), um poeta jovem do Espírito Santo com um trabalho de linguagem muito refinado; A sombra da ausência, quarto livro de poemas de Antônio Moura (Bauru: Lumme Editor, 2009), sem dúvida um dos mais talentosos autores brasileiros; e o volume de ensaios As ironias da ordem, de Maria Esther Maciel (Belo Horizonte: editora da UFMG, 2010), a crítica literária e pesquisadora mais inteligente e bem-informada que temos hoje na universidade, em minha não-modesta opinião. Recebi também alguns livros instigantes da Gran Cualquierparte: Charles Perrone, o embaixador da poesia brasileira nos EUA, enviou-me o seu livro Brazil, lyric, and the Americas (University Press of Florida, 2010); Armando Roa Vial, da nova geração de poetas chilenos, mandou-me um exemplar de Ejercicios de filiación – Poesía (1998-2008) (Santiago de Chile: Editorial Universitária, 2010); e Casimiro de Brito, um nome histórico da poesia portuguesa, expoente da Geração 61, enviou-me Na Via do Mestre (Coimbra: ed. Temas Originais, 2010), em que ele faz um diálogo/paródia com os textos do Tao Te King, de Lao Tzu (uma das afinidades que temos em comum é o interesse pelo haicai, pela poesia e filosofia da China e do Japão). Outra grata surpresa foi o livro Como un proyecto del que nadie habla, do uruguaio Roberto Echavarren, que é uma tradução para o espanhol de Like a project of which no one tells, de John Ashbery (Montevidéu: La Flauta Mágica, 2009). Com amigos assim, que me enviam livros fascinantes, quem precisa da VEJA e da Folha de S. Paulo?

quarta-feira, 16 de junho de 2010

GALERIA: SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


UMA ENTREVISTA COM SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Maria: Quando a senhora começou a escrever?

Sophia: Quando comecei a escrever eu não sabia escrever. Eu tinha uma pena enorme (rindo). Eu pedi a minha mãe papel e caneta. Escrevia uma grafia que eu tinha imaginado, imagine você... Uns desenhos de umas letras inventadas por mim. Eu contava em voz alta.

Maria: Muito criança ainda, antes de ser alfabetizada?

Sophia: É. Foi. E depois aprendi a ler e a escrever. Comecei a escrever cedo, sim, 14 anos, 12 anos. Primeiro mal, depois melhor, não é?

Maria: E publicou com uns vinte e poucos anos.

Sophia: 23 ou 24, já não lembro mais. Primeiro livro, sim. (pausa. Retoma decidida). Não, publiquei antes. Em revistas e coisas assim. Depois publiquei um livro. Creio que aos 24 anos.

Maria: Isso em 44. O livro Poesias, não é?

Sophia: Poesia. No singular.

Maria: Poesia. É. Depois então em 64 ganhou um prêmio importante aqui em Portugal.

Sophia: Um prêmio importante? Sim, foi no ano passado.

Maria: O Prêmio Camões, no ano passado. Mas em 1964 um livro de poesia da senhora já tinha sido premiado.

Sophia: Sim.

Maria: E sua relação com a poesia brasileira, conheceu poetas brasileiros?

Sophia: Bem, eu acho que tive uma relação muito profunda com o João Cabral e com as coisas que ele procurava (pausa ). Eu não pensava muito nisso. Nuca tive muita teoria. Fui sempre uma pessoa muito antiteórica. Mas encontrei muita coisa. Quando encontrei João Cabral ele disse-me assim: eu tenho muita admiração por si...que é que ele disse? (pausa) como é que foi que ele disse? (procurando na memória) ... porque você é uma poeta que usa muito substantivo concreto. (ri). Eu pensei: é? Mas é verdade, não é? Nos encontramos em Sevilha. Nós fomos com uns amigos brasileiros que iam lá convidados pelo João, para a casa dele. E o João disse: por que vocês não vêm e ficam no hotel? E fomos e ficamos num hotel lindo que o João descobriu. Era lindo, era um antigo palácio de uma família sevilhana. Já não existe, sabe? ( dando um trago no cigarro). Já destruíram ( jogando as cinzas no cinzeiro). O turismo é uma desgraça em toda parte do mundo, não é?

Maria: Vai acabando tudo, nivelando, pasteurizando... O encontro com João Cabral foi quando ele era cônsul em Barcelona, não? E a partir daí a senhora entrou em contato com a poesia brasileira?

Sophia: Não. Eu já tinha lido o Manuel Bandeira. Já tinha lido vários poetas brasileiros. É que nesse tempo havia uma relação muito mais próxima, sabe? Porque o mundo não estava tão confuso como agora. Sai tanto livro. Sai tanta confusão. Agora um poeta se projeta, fala-se de sua obra, não é porque escreveu livros bons. É porque tem uma boa pessoa encarregada de sua propaganda.

Maria: De preparação na mídia, nos jornais. É verdade.

Sophia: Naquele tempo não. Vinha um amigo que dizia assim: - "Li ontem um poeta brasileiro extraordinário". Ele não tinha nada a ver com propaganda alguma. Mas a gente, se queria, lia o livro.

Maria: E a senhora considera importante esta relação entre a poesia portuguesa e brasileira?

Sophia: Bem, eu considero importante a relação entre toda a poesia. A portuguesa com a brasileira é importante, como é importante a relação com a poesia africana. A poesia moçambicana é ótima, não é? Porque são países que falam português. Quer dizer, tem uma experiência de linguagem falada, de uma língua só.

(...)

Maria: E o sentido do trágico? A sua poesia é trágica, no sentido grego... A senhora se considera da mesma tradição de Fernando Pessoa?

Sophia: Não acho muito parecido com a tradição do Pessoa não. (pausa longa) O pessoa é um homem que para escrever renunciou a viver. Isso não se parece comigo nem com o João Cabral, não é?

Maria: A sua é uma poesia de quem vive, não é?

Sophia: Sim. É uma poesia de quem vive.

Maria: A senhora tem um artigo, um ensaio, sobre a Cecília Meirelles.

Sophia: Tenho. Foi o primeiro artigo que fiz na minha vida, não é mesmo? Porque eu não gostava nada de artigos. Mesmo hoje em dia não gosto nada. Mas naquela época eu gostava menos, sabe?

Maria: E por que escreveu sobre a Cecília?

Sophia: Porque havia uma homenagem à Cecília e me convidaram para ir. Então eu fiz o artigo. Correu bem. Houve muita palma na minha intervenção. Mas a Cecília não foi, você sabe? Então aconteceu uma coisa, uma história engraçada. Ela não foi porque tinha uma amiga - agora se pode dizer porque a Cecília já morreu e a amiga também. E a amiga dela era uma mulher feia, fazia muita intriga. E disse à Cecília que éramos comunistas. A Cecília teve medo. Tratou a sério e não veio. Eu fui e também li os poemas dela. Depois ela ficou um bocado escandalizada, não é? Então a Cecília no Natal mandou uma grande caixa com frutos de natal, sabe? Frutas secas, nozes, essas coisas de natal. Você sabe que todos os natais eu ponho na árvore de natal ainda hoje? Mas eu nunca agradeci à Cecília.

Maria: Foi um equívoco que aconteceu entre vocês. Lamentável.

Sophia: (levantando-se para pegar o segundo cigarro). Foi pateta. Mas é melhor perdoar, não? (longo silêncio. Sophia levanta-se, pega a carteira de cigarros na mesa em frente ao sofá e leva para o seu escritório, contíguo à sala onde estamos sentadas). Vou guardar para não fumar mais. Fumo muito pouco. Eu tenho muito pouco cigarro. É uma coisa terrível, porque não se vendem cá estes cigarros. Então quando vem um amigo, me traz.

(...)

Maria: A fonte de sua poesia é Portugal, o mundo ou é interior?

Sophia: Daí eu não sei a diferença entre interior e exterior. Eu vejo com os olhos, ouço com os ouvidos, como com os dentes, sinto com o nariz. Quanto a minha poesia, é Portugal, é interior e é exterior. Tenho uma parte intelectual, evidentemente. Tem uma parte de cultura, tem uma parte intelectual. Mas tem uma parte vivida, não é?

(Entrevista concedida a Maria Maia, em Lisboa, maio de 2000.)

GALERIA: O SILÊNCIO, DE BERGMAN (II)


UM POEMA DE CASÉ LONTRA MARQUES

FALA BREVE

Sou o corpo que faz sombra sobre o homem que morre,
o homem não emudecido?
Sou o corpo que o conclui, no momento
de sua extinção,
sou o corpo que o conclui, apesar
de incapaz
de alcançar a precisão?
Saberei seguir o eco que nos contorna, no topo
de uma noite
instalada nas têmporas?
Recusarei, ainda que jamais persistente,
o que descrevemos
como esquecimento receando, no entanto,
assimilar
sua lucidez?
Recusarei a raiva – quase nomeada –
que o sono
– quando refeito – sequer empalideceu?
Poderei repousar
no chão de sua asfixia?
Como delinear
seu incêndio, dedilhar sua hora?
Como preparar
a manhã para uma morte já remota?

(Do livro Saber o sol do esquecimento. Vitória: Aves de Água, 2010)

terça-feira, 15 de junho de 2010

GALERIA: O SILÊNCIO, DE BERGMAN


RELENDO FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO (VI)

17

Escrevo como um animal, mas com menor
perfeição alucinatória. Não sei imprimir as três linhas
convergentes do pé da gaivota, nem os pomos
leves da pata dos felinos. Só de uma forma rudimentar
escrevo, e estou a predestinar-me ao fim.
Depois de tantos séculos posso afirmar
que a escrita é uma escravidão dura.
Sei que é inútil e desumano mover as mãos
assim. Nem estou convicta de que seja digno
escrever desta maneira; é uma manufatura triste,
quando as mãos podiam apenas escarvar
na terra ou no corpo. Podem ficar as palavras
somente na fita magnética como nas cabeças loiras.
Nada na infância nos deveria obrigar
a traçar as patas dos roedores repelentes
que são letras. O som da boca deve escrever-se
no écran, com a nova razão da nova máquina
da realidade. Na areia, porém, ou no mosaico molhado
terei de aperfeiçoar a minha pegada. Aproximar
dela a mão até alcançar a harmonia do trilho
do escaravelho. Uma fieira de montículos
e ranhuras até o infinito que para ele é o mar.
Há quantos séculos os seres humanos me aprisionaram
no mito da caligrafia. Como tem sido penoso esse gesto,
há tanto tempo, e só eu o renego, porque sinto
a opressão com que alguém o tornou mais nobre
do que a minha fala ou a minha visão, únicas
propensões inatas. Prefiro aprender pormenorizadamente
a conservar uma impressão digital. Há um pensamento
abstrato e maquinal que decora a História com inteligência
mecânica, e por isso é supérfluo escrever. Só alguns
raros escribas, como os desenhadores de máquinas,
seriam necessários. E poderia descansar a cabeça
no regaço da lama.

Ensinaria à infância a gravar
no pó de talco a palma das mãos e a considerar as palavras
modulações da voz pura, sem a mancha embaciada
compacta que paira diante dos olhos sempre
que se fala. A mancha que se desloca no raio de visão
e desbota qualquer imagem como a chama de uma vela
com a fuligem constante a torná-la opaca.

(Do livro Área Branca, 1978)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O SAMURAI





“Aos treze anos, Miyamoto Musashi matou um adversário no que seria o primeiro de uma série de célebres combates de espada. Aos trinta, já tinha despachado mais de sessenta lutas sem perder nenhuma. Ele viveria outros trinta anos sem liquidar mais ninguém. Continuaria a participar de combates, mas agora simplesmente neutralizando os ataques dos adversários até eles reconhecerem suas habilidades nas mais diversas técnicas.

Musashi foi uma lenda em seu tempo. Ignorando as convenções, ele preferia uma espada de madeira e em seus anos de maturidade quase nunca lutou com uma arma autêntica. Era mestre em pegar seus oponentes no contrapé com recursos psicológicos exaustivamente estudados. No auge de seus poderes, começou a se preparar artística e espiritualmente, transformando-se num dos mais respeitados pintores a nanquim e notável praticante de caligrafia tradicional, da poesia e da cerimônia do chá. Ele orientava seus estudos tão arduamente conquistados sobre as artes combatentes para metas espirituais zen-budistas.”

(William Scott Wilson, in O Samurai — A Vida de Miyamoto Musashi. São Paulo: Estação Liberdade, 2004.)

sábado, 12 de junho de 2010

GALERIA: ALBERTUS PICTUR


















A morte disputando uma partida de xadrez, diocese de Estocolmo.

RELENDO FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO (V)

49

Passa no coração uma agulha
o que é uma elipse antiga.
Algo que poisasse os pés junto
a mim. Túmulo que se fechasse.
Os trinados no fim do canto.

Um choro mais terrível
do que a morte. Corre em espiral.
Cai como um tampo. Não é líquido.
São torrões de terra. Um após

o outro. Não suporto esta imagem
transposta. Quero ser real.
Molhar os olhos em vez de
os transformar. Desconhecer
para sempre o pensamento.

Ignorar as pedras que me fazem
assemelhar a si lágrimas.
Passam as esporas das aves
à superfície. Linhas
de que não tolero a dor.

Estar a ser algo no chão.
Pisar-me. Não saber quem
é o sujeito. Destruição breve.
Dou as palavras que conheço.

(Do livro Área Branca, 1978)

GALERIA: O SÉTIMO SELO, DE BERGMAN


RELENDO FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO (IV)

ANTE-IMAGEM

Espelho de um espelho, o líquido olhar turva-se:
o amianto, hiato entre o momento e o longe.
Estou como ali, confronto o quê, ou quando: o anterior,
érebro, a noite (invoco a prata, que iluminasse);
O que sabia hesíodo ante seu vidro, os dias?
Retomo o ovo (um astro) em meu espaço;
olhos da imagem, antes do óxido, como a invocariam?

(Do livro Era, 1974)


MARVÃO

Se eu descer a encosta para a proximidade,
ouvir o corvo, defini-lo e comover-me
com o sussurro, e as vozes
humanas forem inesquecíveis.


LOUSÃ II

Aquela mulher começa a ser objeto
da escrita. Desloco-a.


ZONA DAS METÁFORAS

Estou só, na zona das metáforas
(que é todo o pensamento),
em nenhum resíduo nada exprimo
(mas sempre metaforizo).
Não sinto a solidão total
dos poemas, talvez grutas,
o mar quieto, nem silêncio.
Apenas espero o outro,
um amor esplêndido,
alheio e desejável.

(Do livro Visões Mínimas, 1968-1974)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

UMA CONVERSA COM WILSON BUENO








Sua prosa utiliza recursos do texto poético, como os jogos sonoros, imagens de alto impacto, invenções de linguagem, resultando em esmeraldas vivas. Qual é a fronteira entre prosa e poesia?


Bueno — Tudo é a arte da poética, a meu ver. Escrevo assim, sempre escrevi assim. Não sei escrever sem ser íntimo. A prosa retém a poesia e é por ela gerada, num processo que aspira, antes de tudo, a ser livre. Acho que a literatura pode ser o máximo de liberdade que desfrutamos sobre a Terra — e eu quero amar o amor da escrita, o gozo epifânico de sua irradiação. Eu não consigo escrever dividido, amarrado pelo cânone e pela norma. Ora, se aquilo ali é o meu mais exasperado espaço de liberdade, é nele que devo me pôr a vigir. E tudo é a poesia das coisas. Viver já é um ato poético em si, para lembrar Hölderlin. E, dos atos poéticos, o que, convenhamos, requer de nós mais coragem, bravura, heroísmo – chame do que se quiser chamar ao desassombro. Indispensável para que sobrevivamos à perplexidade de nos flagrarmos vivos.

Em várias de suas novelas, há citações da língua e do imaginário guarani, não raro mesclados ou transfigurados por sua própria criação fabulatória. Quando começou o seu interesse pelas culturas dos índios? Você é um estudioso do folclore das nações indígenas?

Bueno — Não, não me considero um expert indigenista, digamos assim. Minha curiosidade com relação ao tema às vezes penso que seja anterior a mim mesmo... Nasci no sertão, aquele tempo, — e nem faz tanto tempo assim —, que o Paraná tinha sertão — a floresta virgem, a fauna nativa quase intocada. Sou bisneto de índia guarani com alemão. Imagina a mistura... Minha bisavó, (mãe de minha avó materna, esta uma bugra de olhos azuis e que comia com as mãos), foi caçada a laço no interior paulista por um germano de fuzilantes olhos azuis. Faço uma pequena homenagem a este meu bisavô em Tio Roseno e claro, bem mais evidente, à minha bisavó índia. A coisa índia está em mim quase como uma segunda pele, sou um bugre angustiado, perplexo olhando as árvores da rua, os automóveis, o trânsito vertiginoso.

Como é o seu processo criativo? Você escreve todos os dias? Elabora o enredo antes de escrever, ou desenvolve a narrativa durante o ato da escritura? Como surgem os personagens? A linguagem molda a elaboração fabulatória, ou as palavras seguem o ritmo da história?

Bueno — Curioso, penso que não escrevo nunca... Estou o tempo inteiro me culpando e me cobrando, mas estou ali escrevendo, escrevendo, escrevendo... São caderninhos, cadernões, agendas, folhas soltas, guardanapos.... E quando não estou literalmente grafando estou pensando no que grafar, como grafar, de que modo grafar. E entre uma coisa e outra estou sempre numa festa constante com as poucas pessoas que me são íntimas, esquecido de que exista a Literatura, e me culpando de que não esteja escrevendo... Sou um preguiçoso olímpico, desses que mourejam noite e dia... Mas acho que é porque encontrei um modo mais leve de exercer o ofício — vou escrevendo sem grandes pretensões a não ser a de fazer coisas que me dêem a satisfação plena de que eu esteja, quem sabe, capturando o improvável...

(Leiam a íntegra da entrevista que fiz com Wilson Bueno no site Cronópios.)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

HOMENAGEM A WILSON BUENO








A Casa das Rosas, Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, realizará no dia 15 de junho, terça-feira, a partir das 19h30, um evento em homenagem a Wilson Bueno, um dos mais inventivos autores da literatura brasileira contemporânea, morto recentemente em Curitiba, aos 61 anos de idade. Autor de Mar paraguayo, livro escrito em portunhol (mescla do português, do espanhol e do guarani), Cristal, Jardim Zoológico, Meu tio Roseno, a cavalo, A copista de Kafka e Pincel de Kyoto, entre outros títulos, Wilson Bueno recebeu o prêmio da APCA, foi finalista do Portugal Telecom e teve obras publicadas em vários países da América Latina. Editor por oito anos do jornal literário Nicolau, um marco na história do jornalismo cultural brasileiro, o escritor também colaborou no jornal O Estado de S. Paulo, como crítico literário. Na homenagem a Wilson Bueno, com curadoria de Claudio Daniel, serão realizadas leituras de contos, poemas e trechos de romances do escritor paranaense por autores convidados, como Frederico Barbosa, Horácio Costa, Maria Esther Maciel, Rodrigo Garcia Lopes, Alfredo Fressia, André Dick, Micheliny Verunschk, Eduardo Jorge e Virna Teixeira. Em tempo: confiram, no site Cronópios, uma entrevista que fiz com o Wilson, publicada pela primeira vez, há alguns anos, no Suplemento Literário de Minas Gerais.