terça-feira, 8 de junho de 2010

RELENDO FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO (III)

PEDRA EM EXPANSÃO

Diz não são os anos que passam
é a pedra

Não o tempo
o que por mim passa
mas ela
que somente acompanha

Diz que passam anos
para a minha idade
só uma pedra está


AS CORRENTES NOS POEMAS

Jazentes
as correntes
têm um sinuoso modo
de correr

Percurso
que não retorna
depois usa-o
a memória

As correntes
jazem
com o seu passado
ou nosso

Tumultuosas
representam
nos poemas
penas
e modos
de sofrer


PEQUENO USO PARA A DOR

Até a dor
já tem palavras certas
expressão pequena
seja ou não seja breve

Seja ou não
por mais palavras
postas
não cede a dor
ao som

Mas dizem-me palavras
uma expressão pequena
a dor não sendo já
ou até deixa de ser

(Do livro Nome lírico, 1967)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

GALERIA: MONIKA E O DESEJO, DE BERGMAN (II)


RELENDO FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO (II)


GRAFIA 1


Água significa ave

se

a sílaba é uma pedra álgida
sobre o equilíbrio dos olhos

se

as palavras são densas de sangue
e despem objectos

se

o tamanho deste vento é um triângulo na água
o tamanho da ave é um rio demorado

onde

as mãos derrubam arestas
a palavra principia

GRAFIA 2

Está no rio
o embrião da noite
O rio livre
com apenas o princípio evidente
de todas as formas
A água íntima dos lábios

TEMA 1

Nenhuma ave é central
Multiplico
teus límpios meteoros
nas esplanadas
e sono
denso ventre com febre túneis
cidade úbere de flancos intermináveis
Sequer uma ave subterrânea
em teus olhos rectilíneos
tuas vidraças com pausas para a morte
tuas mãos demolidas
teu vasto sexo desvendado de alicerces

TEMA 4

Nenhum sinal nos calcina as órbitas
Voluntários
somos de frente com a imagem
na grafia dos espelhos
Um teorema de pálpebras nos situa
imunes
à cicatriz dos limites
que bebemos
Um sismo incontém nossos ombros fechados
Limítrofes
os nossos pés anfíbios
invocam o rio

(Do livro Morfismos, 1961.)

domingo, 6 de junho de 2010

GALERIA: MONIKA E O DESEJO, DE BERGMAN (I)


RELENDO FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO (I)

SINCRONIA 1

As palavras multipliquem a flor invertida

Sonho
Invertido o barco
não apenas a âncora
Dormente o gesto
do afogado sem estames
repentino
que trouxe o mar nos ombros
demasiadamente só

Corpo
invertida a aresta
Cúbica a face das coisas
no quadrado
Divergente nos olhos
a corola
os pés submarinos da água
Aqueduto
que é transversal no tempo

Ritmo
Invertido o diálogo
trazer marés
e glóbulos
fertilizar
a sintaxe das mãos
unindo o sêmen ao mar
nascida na boca a alga

Todavia a flor múltipla inverteu as palavras

(Do livro Morfismos, 1961.)

sábado, 5 de junho de 2010

GALERIA: MARIA ANGELA BISCAIA (III)


REYNALDO JIMÉNEZ E ANDRÉS AJENS ESCREVEM SOBRE WILSON BUENO

Wilson Bueno nos habrá legado no pocos textos marcantes, innecesario aquí subrayarlos. ¿A quiénes, nos/as? Cuestión abierta. Por de pronto, para algunos/as, que, en la experiencia de la amistad –no exenta, a ratos, de filosas discordancias–, habremos vislumbrado la móvil radicalidad de su escritura. Textos marcantes no sólo o no tanto en contexto curitibano o brasilero o aun latino- y/o ladinoamericano. Textos marcantes abiertos al descontexto o al contexto por venir en cada textura en que sus marcas marafas se entrelacen, confluyan y vuelvan inéditamente a desarmar todo contexto predeterminado. Otra vez: Wilson Bueno nos habrá legado no pocos textos marcantes, innecesario aquí subrayarlos. Allende la necesidad y la innecesidad del caso, con todo (y nada), cómo no hoy subrayarlos, económica y/o dispendiosamente, cómo no saludarlos.

Bueno, la incitación alias invitación tá pues lanzada: a enviar/nos, en el plazo de dos semanas un texto, o más de uno, en saludo a Wilson (los envíos, ayuntados en una suerte de ‘dossier Wilson Bueno’, serán colgados en el diario mural planetario alias ciberespacio).

GALERIA: MARIA ANGELA BISCAIA (II)


DOIS POEMAS DE WILSON BUENO

SILÊNCIOS
para Fernando Paixão
1
há um Deus de luto
no demasiado rútilo
que se liquida ao norte
por uma estrela-de-gelo
e a lua simples nos olmos
carrega em impuro siena
pelas mãos do Deus abrupto
acre oficina de sustos

2

há um Deus bem gaiato
na sarabanda do outono
que daqui se vê todo ano
o mesmíssimo outono
de há quatro mil anos
com Deus pelos cantos
pondo branco no agapanto
e amanhecendo paineiras

3

há um Deus silente
na tinta incendiada
de sonetos e poentes
manhã de ouro encardida
cincerros de madrugada
sussurro de Deus com pluma
no andado quase ar voante
de chá e voal o vento

4

diante de tanto quanto Deus
dá-me que entenda
pelo juízo da veia
a via tácita ou láctea
de víscera expectante
pelo que Deus põe de tarde
numa abelha azul-da-prússia
e vos faz de céu a senha

CADA CABEÇA, UMA SENTENÇA
A cabeça fervendo
de serpentes, eu sou a bela,
a pérfida, a contracorrente,
a vagabunda de Netuno,
a escorraçada do templo.
Eu sou a que vos convoca
em pedra e vos come a nojo
a vida que em nojo vestes.
Digam de Perseu os ouros
de caçar-me pela Floresta,
eu que sou continuadamente
só uma cabeça em suspenso
que a vêm devorando os séculos
— cada cabeça, uma sentença.
Esta, a minha vingança.

(Poemas incluídos na antologia Jardim de Camaleões, que publiquei em 2004 pela Iluminuras.)

GALERIA: MARIA ANGELA BISCAIA (I)


sexta-feira, 4 de junho de 2010

VICTOR SOSA ESCREVE SOBRE WILSON BUENO

SEGUIR SOÑANDO

Conocí a Wilson Bueno en Sao Paulo, en el Encuentro de Poetas del Festival Tordesilhas, organizado por Claudio Daniel y Virna Teixeira en 2007. Hablar con él y luego oírlo leer sus poemas –con ese magnífico humor que lo caracterizaba– fue confirmar el admirable talento que ya había descubierto a través de su obra, sobre todo en Mar paraguayo, ese híbrido de idiomas y texturas, de antropofagia lingüística, de espeso neobarroco donde el poeta ganó espacios antes impensables para la poesía latinoamericana.

Porque además de ser uno de los mayores poetas de su generación en Brasil, fue, y es, uno de los mayores de América Latina: una referencia insoslayable, una influencia saludable, un ejemplo de cómo la creación poética carece de límites.

El mejor homenaje que podemos brindarle hoy a Wilson Bueno, es leerlo.

Leerlo con esa erótica alegría, con esa irreverencia admirativa que él tenía por la(s) lengua(s), por esa locura que imponía en los vocablos, en las palabras: ”la palabra ilusao –como dice en Mar paraguayo– artificio que cultivamos también para que uno no deje así subitamente de sonhar”.

Wilson Bueno ha dejado súbitamente de soñar, por causa de un violento, por causa de la violencia intrínseca del ser humano, por causas que se contraponen a las causas de la poesía.

Sin embargo, nosotros, los que continuamos en este cauce karmico y en estas causas poéticas, tenemos la obligación y el compromiso moral de seguir cultivando la palabra ilusión y de –como lo hizo en vida Wilson Bueno– seguir soñando.

GALERIA: RICARDO HUMBERTO (III)


CHARLES PERRONE ESCREVE SOBRE WILSON BUENO

Boleros Bares Mapas e Mares
Nestes mais de trinta anos de andanças pelos Brasis afora tenho conhecido muitas pessoas legais, criativas, ecumênicas, mas nenhuma que incorporasse tais qualidades admiráveis mais cabalmente que Wilson Bueno. Só uma vez tive o prazer de jantar com ele e conversar pessoalmente, porém, desde aquele tão agradável encontro o contato foi ininterrupto. No final dos anos 80 mandaram-me os números de Nicolau, merecidamente premiado periódico do Paraná bolado pelo Wilson. Maravilha da Ilha Brasil se des-insularizando via um Homem Bom. Devido a minha pesquisa de música e literatura, chamou-me a atenção o primeiro livro dele, Bolero’s Bar, aquele que Paulo Leminski apelidou de “contos-blues.” O titulo anglo-hispânico para um livro em português expressa o mesmo espírito interamericano do próprio nome do autor, English mais Español, mas com um jeito brasílico único e divertido. Acrescentar guarani, portunhol, brasiguayo e metalinguagem e brilha a obra novo-mundista Mar Paraguayo, jóia neobarroca que atrai olhares diversos do planeta. (...) Agora, resta-nos dedicar as nossas sessões à memória de uma das mais contundentes vozes das letras brasileiras dos últimos 30 anos. Pan-americano, Merco-sulista, paranaense, brasileiro com um coração maior que nenhum reduto e uma alma policontinental. Peace and Love. Paz y Amor. Paz e Amor. Later. Hasta. Até.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

GALERIA: RICARDO HUMBERTO (II)


JOSÉ KOZER ESCREVE SOBRE WILSON BUENO

En este último año intercambié libros y correos electrónicos con Wilson Bueno: cada libro, cada correo recibido, eran parte de una misma presencia luminosa, seria y a la vez risueña: surgían desde el sostén de lo abierto que hurga y busca en continuo aprendizaje hecho de aciertos. Eran módulos de la pugna ígnea, feraz, con el misterio de la escritura: y fuese un libro o fuese un email lo que me llegara, sentía de cerca la fuerza cordial y radical de una escritura propia y distinta, aglutinadora y futura, una escritura configurada con piezas naturalmente organizadas y reorganizadas, desde la propia experiencia (múltiple) (multiplicadora) que fundamentaba la existencia de Wilson Bueno. El amigo ha muerto, lo han matado. Han muerto al buen amigo Bueno, y ante su muerte, con consternación, con sentido de pérdida y de inutilidad, sólo se puede desear que todos los que lo respetamos y amamos, hagamos el esfuerzo y dediquemos nuestra inteligencia para preservar tan valiosa obra: una obra que está a la altura de lo astral, compartiendo galaxias con otros grandes escritores de Brasil. No puedo evitar expresar una violencia. El canalla que asesinó a Wilson Bueno se equivocó de cuello. La negra arma blanca que empleó contra Wilson debió emplearla contra quienes en el mundo actual nos ensucian el planeta, nos niegan la alegría del pan compartido, anulan la visión y la poesía: debió haber hundido ese puñal en el cuello de algún político o de algún directivo de multinacional, para luego, a la japonesa, haberse suicidado.
José Kozer

GALERIA: RICARDO HUMBERTO


UMA PROSA DE WILSON BUENO


VAGA-LUMES

Chegam pelas noites de verão - miríades deles num revôo de faíscas contra o azul profundo. Se um se ausenta, outro se assanha, abaixo, acima, de lado e a celacanto - assim tão sucessivamente que parece chovem sobre o quintal, entre os arbustos, os cactos e os eucaliptos.

Rever em vós o nítido contorno, a dura escorregadia couraça com que o corpo trincas (faíscas?) ao meio, a movimentos sincopados - o modo como escapas de meus dedos ávidos, e o sombrio gozo no coração do sinistro.
Desejar-vos a luminosa cola túrgida feito um veneno de iridescente apelo, e aprender à margem dos meus escombros de mim o quanto falhos fomos; e velhos em nossas luzes. Luzes?

Mais vale a alma sucinta do besouro para sempre condenado à uma morte de bruços, e cheia de pernas.

Perdoa o que fui de vosso látego e anátema; perdoa.

Então, amor, é que acendes, de inopino, toda uma floresta no escuro.
(Texto de Wilson Bueno publicado originalmente na Zunái e não recolhido em livro.)

terça-feira, 1 de junho de 2010

GALERIA: WILSON BUENO


UMA NOTÍCIA DOLOROSA

"O escritor Wilson Pinto Bueno, de 61 anos, foi encontrado morto dentro de sua residência, no bairro Santa Cândida, em Curitiba, por volta das 19h30 desta segunda-feira (31). Segundo o perito do Instituto de Criminalística, Edmar Cunico, Wilson teria sido ferido por uma arma branca no pescoço. Teria havido resistência após levar o golpe. O corpo do escritor estava em total estado de rigidez, o que indica que estava morto há pelo menos 12 horas.

Ainda segundo o perito, não havia sinais de arrombamento. O escritório estava todo revirado e havia ainda vários sacos de lixo vazios abertos espalhados pelo chão, o que leva a crer que objetos da casa seriam levados, mas por alguma razão, não foram retirados.

A diarista Jacinta Breck, que trabalhava há sete anos na casa do escritor, chegou ao sobrado onde Bueno morava por volta das 9h30. Ela notou que o portão estava sem o cadeado e que a porta estava aberta. Segundo Jacinta, um computador que sempre ficava no escritório, no segundo andar, estava na sala.

Por recomendação de Bueno, Jacinta só teria acesso ao segundo piso da casa depois que ele acordasse e lhe desse bom dia. Por conta dessa exigência, a diarista trabalhou normalmente no primeiro piso da casa. O escritor costumava levantar entre 15 e 16 horas, porque gostava de trabalhar de madrugada. Por volta das 17 horas, a diarista estranhou a ausência do patrão e decidiu ligar para um amigo dele, que foi até a casa e encontrou o corpo de Bueno no escritório.

De acordo com o primo do escritor Emídio Bueno Marques, Wilson Bueno estava caído na escrivaninha do escritório e havia muito sangue no local. Marques afirma que o local estava bastante bagunçado. “A paixão da vida dele era escrever, ser jornalista e ser escritor. Ele era um ícone da literatura do Paraná”, diz. Segundo o primo, Bueno estava editando seu 13º livro.

Abigail Schambeck, vizinha de Bueno, o conhecia há pelo menos 30 anos. Ele era morador do bairro e estava naquele sobrado há dez anos. A vizinha afirma que não percebeu nenhuma movimentação estranha na casa do escritor durante o fim de semana. Ela conta que Bueno tinha muitos conhecidos e recebia muitas pessoas.

O corpo do escritor foi retirado do local por volta das 23h e encaminhado ao Instituto Médico Legal.