quarta-feira, 2 de junho de 2010

UMA PROSA DE WILSON BUENO


VAGA-LUMES

Chegam pelas noites de verão - miríades deles num revôo de faíscas contra o azul profundo. Se um se ausenta, outro se assanha, abaixo, acima, de lado e a celacanto - assim tão sucessivamente que parece chovem sobre o quintal, entre os arbustos, os cactos e os eucaliptos.

Rever em vós o nítido contorno, a dura escorregadia couraça com que o corpo trincas (faíscas?) ao meio, a movimentos sincopados - o modo como escapas de meus dedos ávidos, e o sombrio gozo no coração do sinistro.
Desejar-vos a luminosa cola túrgida feito um veneno de iridescente apelo, e aprender à margem dos meus escombros de mim o quanto falhos fomos; e velhos em nossas luzes. Luzes?

Mais vale a alma sucinta do besouro para sempre condenado à uma morte de bruços, e cheia de pernas.

Perdoa o que fui de vosso látego e anátema; perdoa.

Então, amor, é que acendes, de inopino, toda uma floresta no escuro.
(Texto de Wilson Bueno publicado originalmente na Zunái e não recolhido em livro.)

terça-feira, 1 de junho de 2010

GALERIA: WILSON BUENO


UMA NOTÍCIA DOLOROSA

"O escritor Wilson Pinto Bueno, de 61 anos, foi encontrado morto dentro de sua residência, no bairro Santa Cândida, em Curitiba, por volta das 19h30 desta segunda-feira (31). Segundo o perito do Instituto de Criminalística, Edmar Cunico, Wilson teria sido ferido por uma arma branca no pescoço. Teria havido resistência após levar o golpe. O corpo do escritor estava em total estado de rigidez, o que indica que estava morto há pelo menos 12 horas.

Ainda segundo o perito, não havia sinais de arrombamento. O escritório estava todo revirado e havia ainda vários sacos de lixo vazios abertos espalhados pelo chão, o que leva a crer que objetos da casa seriam levados, mas por alguma razão, não foram retirados.

A diarista Jacinta Breck, que trabalhava há sete anos na casa do escritor, chegou ao sobrado onde Bueno morava por volta das 9h30. Ela notou que o portão estava sem o cadeado e que a porta estava aberta. Segundo Jacinta, um computador que sempre ficava no escritório, no segundo andar, estava na sala.

Por recomendação de Bueno, Jacinta só teria acesso ao segundo piso da casa depois que ele acordasse e lhe desse bom dia. Por conta dessa exigência, a diarista trabalhou normalmente no primeiro piso da casa. O escritor costumava levantar entre 15 e 16 horas, porque gostava de trabalhar de madrugada. Por volta das 17 horas, a diarista estranhou a ausência do patrão e decidiu ligar para um amigo dele, que foi até a casa e encontrou o corpo de Bueno no escritório.

De acordo com o primo do escritor Emídio Bueno Marques, Wilson Bueno estava caído na escrivaninha do escritório e havia muito sangue no local. Marques afirma que o local estava bastante bagunçado. “A paixão da vida dele era escrever, ser jornalista e ser escritor. Ele era um ícone da literatura do Paraná”, diz. Segundo o primo, Bueno estava editando seu 13º livro.

Abigail Schambeck, vizinha de Bueno, o conhecia há pelo menos 30 anos. Ele era morador do bairro e estava naquele sobrado há dez anos. A vizinha afirma que não percebeu nenhuma movimentação estranha na casa do escritor durante o fim de semana. Ela conta que Bueno tinha muitos conhecidos e recebia muitas pessoas.

O corpo do escritor foi retirado do local por volta das 23h e encaminhado ao Instituto Médico Legal.

domingo, 30 de maio de 2010

POESIA EM REVISTA (III)







ZUNÁI, REVISTA DE POESIA E DEBATES
Ano VI, edição XX.


Flores de cerejeira: breves considerações sobre o haicai no Brasil, de Gustavo Felicíssimo.

Luigi Russolo e a arte dos ruídos: uma introdução à música futurista, de Sérgio Medeiros.

Cartas de Luanda: O dinheiro nas marcas simbólicas da água, de Abreu Paxe.

“Uma poesia solar: aquela que dialoga com o mistério da semente.” Uma conversa com o poeta angolano João Maimona.

Galeria: exposição virtual de Francisco Faria.

Depoimentos e Debates: É possível mudar o cânone literário?

Alguns contos: onze novos narradores, apresentados por Marcelino Freire.

Poemas de Wilson Bueno, Horácio Costa, Virna Teixeira, Micheliny Verunschk, Yao Feng, Fernanda Dias.

Traduções de Joyce Mansour (Inglaterra), Malcolm de Chazal (Ilhas Maurício), Norma Cole (EUA), Edmond Jabès (Egito), Adonis (Líbano), Shu Wang (Macau), Sohrab Sepehri (Irã).

Zunái, Revista de Poesia & Debates: www.revistazunai.com.

Preço: Inefável; inconcebível.

Onde encontrar: no ciberespaço, essa “Gran Cualquierparte” (Vallejo).

sábado, 29 de maio de 2010

POESIA EM REVISTA (II)





A revista Coyote, em sua edição n. 20, publicou um caderno dedicado a Ana Hatherly, um nome histórico da vanguarda literária da segunda metade do século XX e integrante do grupo da PO-EX (Poesia Experimental Portuguesa). Além de fragmentos de seu diário de sonhos Anacrusa, que acaba de ser publicado pela editora Cosmorama, o caderno traz um ensaio de minha autoria, intitulado Ana Hatherly em seu jardim feito de tinta, em que analiso as relações entre sonho, mito, cinema e escritura na obra da poeta portuguesa. A revista, editada em Londrina e em São Paulo por Marcos Losnak, Ademir Assunção e Rodrigo Garcia Lopes, traz ainda uma entrevista com Rodrigo de Haro, poeta catarinense que pratica uma escrita de estilo surrealista rara e refinada, traduções de Delmo Schwartz por Virna Teixeira, de Mityo Sugimoto por Maurício Arruda Mendonça e de Bob Kaufman por Eclair Antônio de Almeida, entre outros quitutes. Vale a pena destacar também a capa desta edição, assinada pelo fotógrafo Egberto Nogueira. A revista pode ser encontrada em livrarias ou encomendada pelo site da Iluminuras, http://www.iluminuras.com.br/

quinta-feira, 27 de maio de 2010

POESIA EM REVISTA (I)







Caros, tive uma ótima surpresa com a Revista Poiesis, cujo lançamento aconteceu na Casa das Rosas, poucos dias antes de minha viagem a Lisboa. A revista traz artigos sobre o escritor tcheco Franz Kafka, poemas inéditos de Augusto de Campos e Horácio Costa, traduções de Novalis e Apollinaire, uma entrevista com Virna Teixeira e resenhas de livros de poetas brasileiros contemporâneos, entre várias outras matérias de interesse. A direção editorial é do poeta André Dick, que também vem se destacando como crítico literário e ensaísta, e a direção de arte é de Angela Kina. A Revista Poiesis é uma publicação bimestral da Poiesis, Organização Social de Cultura, entidade responsável pela gestão da Casa das Rosas, Casa Guilherme de Almeida, Biblioteca São Paulo e Museu da Língua Portuguesa. Os interessados em adquirir a publicação podem escrever para o e-mail revistapoiesis@poiesis.org.br.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

GALERIA: ANTÔNIO MOURA


A SOMBRA DA AUSÊNCIA

ASSIM RESPIRO

É quando as nuvens migram aves através
do meu pensamento
É quando o relâmpago centelha azul através
de meus olhos
É quando o trovão atroa tambor através
do meu silêncio
É quando o aroma da aurora sobe rosa através
de minhas narinas
É quando o sol e a lua fundem-se através
de minha face
É quando o rio ri correndo através
de minhas lágrimas
É quando o mar onda e se areia através
dos meus dedos
É quando o vento redemoinha e uiva através
de minha dor
É quando um buraco negro abre a boca através
de minha sombra
É quando as estrelas nascem e morrem através
de minha luz
É quando a chuva cristalina através
de minha melancolia
É quando a noite e o dia se abraçam através
do meu peito
É quando o amor garça suas asas brancas através
de meus braços negros
É quando a árvore se eleva solitária através
de meu trono
É quando as raízes unem-se à terra através
dos meus pés
É quando o sopro divino vibra o invisível através
de minha voz

(Do livro A sombra da ausência, de Antônio Moura. Bauru: Lumme Editor, 2010.)

terça-feira, 25 de maio de 2010

GALERIA: WHISNER FRAGA


O LIVRO DA CARNE

AO REVELAR PARA-SEMPRES

Cabe-me a tutela dos répteis
Entrelaçar aços e trigos
Percorrer tranças
E anelos sustenidos
Metamorfosear garatujas
(amor delineia esconderijos)
Palpebrar lábios
Sibilar madrugadas
Quando porém ceder.

VISÃO

Reconhecer o nada imerso no nada
O talhe branco no branco
A palavra escondida na palavra
A gota submersa no rio
Os contornos são a memória dos cegos.

(Poemas de O Livro da Carne, de Whisner Fraga. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2010.)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

GALERIA: MARIA ESTHER MACIEL


O ANIMAL ESCRITO

“Uma incursão na história da literatura ocidental permite-nos também rastrear uma possível história literária dos animais. De Esopo (620-560 a. C.), Aristóteles (384 - 322 a. C.) e Plínio o Velho (23-79 d. C.), passando por Isidoro de Sevilha (560 – 636 d. C.) e os bestiários medievais, até os relatos de viajantes do século XVI e os inúmeros bestiários modernos e contemporâneos de distintas nacionalidades, os animais nunca deixaram de se inscrever de maneira incisiva no imaginário poético do Ocidente tomados geralmente como o estranho por excelência, como o que só pode ser apreendido a partir de sua relação com o humano, os animais sofreram, ao longo dos séculos e milênios, múltiplas representações e interpretações, convertendo-se não apenas em signos vivos daquilo que sempre escapa a nossa compreensão, mas também no nosso ‘possível ilimitado’, visto que assumem inúmeros registros, formas, intensidades e papéis em nossa imaginação.

Se, na Antiguidade clássica, coube a Esopo, com suas fábulas moralizantes, a tarefa de levar os animais (convertidos em metáforas do humano) para o campo exclusivo da ficção, inaugurando uma vertente zooliterária que atravessará os séculos com seu tom sentencioso e proverbial, foi A história dos animais, de Aristóteles, o primeiro grande compêndio científico-literário sobre o reino zoológico, no qual os animais foram tratados como animais, a partir de uma abordagem minuciosa que conjuga pesquisa, esforço taxonômico e imaginação criadora. Pode-se dizer que Aristóteles inaugura, assim, não apenas a tradição enciclopédica a que se filiarão Plínio, o Velho, Santo Isidoro e Lineu, como também a dos catálogos descritivos de animais reais e fantásticos, conhecidos como bestiários, que proliferarão na Europa a partir da Idade Média.”

(Do livro O animal escrito — Um olhar sobre a zooliteratura contemporânea, de Maria Esther Maciel. Bauru: Lumme Editor, 2008.)

domingo, 23 de maio de 2010

GALERIA: ALFREDO FRESSIA


UM POEMA DE ALFREDO FRESSIA


HORA DE SAL

Esta é a hora amarela dos lobos.
Esta é a hora dos ossos incendiados
como colunas ocas ao pé de sua queda.
(Há duas mil pistas de sabujos
até as unhas profanadas de todas as estátuas.)
Esta é a hora composta em que o ator suado
grita seu penúltimo monólogo
— e na praia a rocha não resiste sua horrível nudez,
a areia assobia seu delírio
na boca esquelética do peixe morto e seco.
O grito do ator cava um túnel de medo
porque esta é a hora dos lobos,
porque esta é a hora do sal ameaçando
as costas esgotadas das cruzes.
Esta é a hora em que viram de costas os relógios.
Esta é a hora em que o osso não resiste seu desvario de séculos.
Aqui já não suporta o pó suas colunas.
Derrubam-se as torres em sal e dinamite
para romper o último grito da estátua.
Aqui a boca quebrada das pedras.

Tradução: Fábio Aristimunho Vargas.

(Do livro Canto desalojado, de Alfredo Fressia. Bauru: Lumme Editor, 2010.)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

quarta-feira, 19 de maio de 2010

FESTIVAL TORDESILHAS: O DIÁLOGO LITERÁRIO ENTRE BRASIL E PORTUGAL

A primeira edição do Tordesilhas aconteceu em 2007, na cidade de São Paulo, com curadoria minha e da poeta Virna Teixeira, e reuniu cerca de 70 autores do Brasil, Portugal, Espanha e América Latina, desde autores jovens, ainda inéditos em livro, até nomes consagrados no plano internacional, como a mexicana Coral Bracho, o uruguaio Roberto Echavarren, o espanhol Joan Navarro e a argentina Tamara Kamenszain, entre outros participantes. Foi um evento histórico, que muito colaborou para a aproximação entre os poetas dos dois idiomas. Esta aproximação resultou no intercâmbio intelectual, na amizade, no conhecimento da produção poética de nossos vizinhos e também em iniciativas práticas, como a tradução de poetas de língua espanhola para o português e a tradução de autores brasileiros para o espanhol, com publicação em revistas literárias, sites e antologias. Para citar um exemplo, a coletânea Todo Começo é Involuntário, que reúne poetas brasileiros da novíssima geração, organizada por mim e traduzida ao castelhano pelo poeta chileno Leo Lobos, foi publicada na revista chilena El Navegante, e depois reproduzida em numerosas publicações eletrônicas na Espanha, Peru, México e outros países. Revistas brasileiras como a Zunái, Et Cetera, Coyote e Oroboro também publicaram autores da Venezuela, Equador, Chile e de outros países do continente. Houve ainda a circulação de artigos de análise crítica da poesia contemporânea brasileira e latino-americana nessas publicações, numa época em que a reflexão analítica sobre o fazer literário encontra pouco espaço fora do âmbito acadêmico. Por outro lado, a experiência do I Festival Tordesilhas indicou que, se foi possível ampliar a comunicação com a América Latina, ainda havia um diálogo escasso com os poetas de nosso próprio idioma, nos países da comunidade de língua portuguesa. A poesia portuguesa da segunda metade do século XX para cá ainda é pouco conhecida pelo público leitor brasileiro, fora do circuito universitário. Há poucos anos apenas saíram no Brasil livros de autores seminais como Herberto Helder, Ana Hatherly, Luiza Neto Jorge, e outros permanecem ainda inéditos em nosso país, como Salette Tavares ou Fiama Hasse Pais Brandão. Isto sem falar dos poetas que estrearam a partir dos anos 80-90. A poesia produzida em Angola, Moçambique, Macau, Goa ou Timor Leste, então, é praticamente desconhecida, fora ou mesmo dentro da universidade. Circula alguma coisa dessa produção em blogues e sites de literatura, mas não há livros disponíveis no mercado editorial brasileiro, com exceção de uma antologia africana lusófona organizada por Arlindo Barbeitos e do livro Ovi-sungo, Treze Poetas de Angola, este último organizado por mim e publicado pela Lumme Editor. De Moçambique, temos os romances de Mia Couto, e de Goa e Macau, apenas ensaios publicados por especialistas, como a professora Mônica Simas, da Universidade de São Paulo, que aliás publicou um artigo sobre a poesia de Macau no último número da revista Zunái.

Ou seja, o cenário é desolador, e não acredito que a poesia brasileira tenha divulgação melhor em Angola, Goa ou Timor Leste. Ainda somos ilustres desconhecidos para nós mesmos, apesar de falarmos o mesmo idioma e de termos tantos vínculos históricos e culturais. Dessa triste constatação, surgiram vários projetos com a mesma estratégia de borrar a linha divisória de Tordesilhas entre os nossos países. A revista Zunái, que circula na internet, publicou autores angolanos como Abreu Paxe e João Maimona, moçambicanos como Luís Carlos Patraquim, portugueses como Ana Hatherly e Casimiro de Brito, e no próximo número deve publicar poetas de Macau. A revista Et Cetera, editada em Curitiba até 2008, também publicou poetas africanos e portugueses, e a Coyote, em sua edição mais recente, publicada agora em maio, publicou um caderno especial dedicado a Anacrusa, de Ana Hatherly. No campo editorial brasileiro, a Escrituras tem publicado livros de autores portugueses contemporâneos, e a Lumme tem se interessado por projetos de divulgação de autores da lusofonia, como a citada antologia de poesia angolana e uma outra, prevista para futuro breve, de poesia moçambicana. Merece atenção especial as atividades desenvolvidas pelo poeta português Luís Serguilha, que tem sido um eficiente embaixador das letras brasileiras em Portugal. Ele é um leitor culto e atento da poesia brasileira mais recente, que tem divulgado com rara dedicação e empenho. Foi Luís Serguilha que me apresentou ao poeta e editor português André Sebastião, um dos responsáveis pela publicação da Antologia da Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milênio, organizada por mim e editada pela 07 Dias 06 Noites. Ele também me apresentou a Jorge Melícias, poeta e editor da Cosmorama, que tem publicado livros de vários autores brasileiros contemporâneos de qualidade, como Ricardo Corona, Horácio Costa e Rodrigo Garcia Lopes. Luís Serguilha apoiou a realização do festival Portuguesia, organizado pelo poeta brasileiro Wilmar Silva em Vila Nova de Famalicão, e tem publicado periodicamente textos sobre poesia brasileira em sites como Cronópios. Todas estas iniciativas, a meu ver, são passos importantes para um intercâmbio que pode crescer ainda mais nos próximos anos, e a proposta do Festival Tordesilhas é justamente a de impulsionar novas ações neste sentido. Precisamos conhecer e divulgar o que se faz de mais inventivo hoje na poesia de Moçambique, Timor Leste, Brasil, Portugal, Goa, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné Bissau, enfim, em todos os países e territórios da comunidade de língua portuguesa, pois este é um legado cultural que pertence a todos nós. É a nossa riqueza cultural. Grato a todos pela presença!
(Comunicação que apresentei na mesa de abertura do Festival Tordesilhas, sobre o tema "O diálogo literário entre Brasil e Portugal".)

GALERIA: MUSEU DO ORIENTE


CRÔNICAS DE LISBOA (VII)

Após almoçar no restaurante indiano, aceitei a sugestão de Horácio Costa e fui visitar o Museu do Oriente, que traz coleções de objetos de arte da China, Índia, Japão, Coréia e principalmente dos territórios que fizeram parte do império português no continente asiático: Goa, Macau, Timor Leste. Fiquei encantando com as gravuras chinesas que fizeram parte da coleção pessoal de Camilo Pessanha, as esculturas que representam Kwanin (o Buda feminino da Compaixão), os biombos japoneses dos séculos XVII e XVIII, as armaduras e espadas de samurais do período Meiji (1868-1912) e um rico acervo com obras de Timor Leste. Na loja do museu, comprei, entre outras coisas, as Cartas do Extremo Oriente, de Wenceslau de Moraes, escritor português que viveu em Macau e no Japão no final do século XIX, converteu-se ao budismo e vestia-se com roupas tradicionais japonesas. Assim como Camilo Pessanha, ele foi um dos primeiros intelectuais portugueses que estudaram com seriedade a arte e a filosofia orientais. No final da tarde, visitei o Museu Nacional de Arte Antiga, na rua das Janelas Verdes, que possui uma coleção de pinturas de mestres como Albrecht Dürer e Cranach, o Velho, além do tríptico As Tentações de Santo Antão, de Hieronymus Bosch. O museu apresenta ainda peças de ourivesaria e joalheria portuguesas, obras em cerâmica da China e do Japão e uma sala decorada com mobiliário português do século XVIII. É preciso percorrer, por várias horas, as salas desse museu, para saborear aos poucos o seu acervo. À noite, como despedida, fui jantar em um excelente restaurante francês, onde comi um prato de carneiro inesquecível. No dia seguinte, eu deveria voltar a São Paulo, se não perdesse o avião, mas já contei essa história a vocês...

terça-feira, 18 de maio de 2010