quarta-feira, 26 de maio de 2010

GALERIA: ANTÔNIO MOURA


A SOMBRA DA AUSÊNCIA

ASSIM RESPIRO

É quando as nuvens migram aves através
do meu pensamento
É quando o relâmpago centelha azul através
de meus olhos
É quando o trovão atroa tambor através
do meu silêncio
É quando o aroma da aurora sobe rosa através
de minhas narinas
É quando o sol e a lua fundem-se através
de minha face
É quando o rio ri correndo através
de minhas lágrimas
É quando o mar onda e se areia através
dos meus dedos
É quando o vento redemoinha e uiva através
de minha dor
É quando um buraco negro abre a boca através
de minha sombra
É quando as estrelas nascem e morrem através
de minha luz
É quando a chuva cristalina através
de minha melancolia
É quando a noite e o dia se abraçam através
do meu peito
É quando o amor garça suas asas brancas através
de meus braços negros
É quando a árvore se eleva solitária através
de meu trono
É quando as raízes unem-se à terra através
dos meus pés
É quando o sopro divino vibra o invisível através
de minha voz

(Do livro A sombra da ausência, de Antônio Moura. Bauru: Lumme Editor, 2010.)

terça-feira, 25 de maio de 2010

GALERIA: WHISNER FRAGA


O LIVRO DA CARNE

AO REVELAR PARA-SEMPRES

Cabe-me a tutela dos répteis
Entrelaçar aços e trigos
Percorrer tranças
E anelos sustenidos
Metamorfosear garatujas
(amor delineia esconderijos)
Palpebrar lábios
Sibilar madrugadas
Quando porém ceder.

VISÃO

Reconhecer o nada imerso no nada
O talhe branco no branco
A palavra escondida na palavra
A gota submersa no rio
Os contornos são a memória dos cegos.

(Poemas de O Livro da Carne, de Whisner Fraga. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2010.)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

GALERIA: MARIA ESTHER MACIEL


O ANIMAL ESCRITO

“Uma incursão na história da literatura ocidental permite-nos também rastrear uma possível história literária dos animais. De Esopo (620-560 a. C.), Aristóteles (384 - 322 a. C.) e Plínio o Velho (23-79 d. C.), passando por Isidoro de Sevilha (560 – 636 d. C.) e os bestiários medievais, até os relatos de viajantes do século XVI e os inúmeros bestiários modernos e contemporâneos de distintas nacionalidades, os animais nunca deixaram de se inscrever de maneira incisiva no imaginário poético do Ocidente tomados geralmente como o estranho por excelência, como o que só pode ser apreendido a partir de sua relação com o humano, os animais sofreram, ao longo dos séculos e milênios, múltiplas representações e interpretações, convertendo-se não apenas em signos vivos daquilo que sempre escapa a nossa compreensão, mas também no nosso ‘possível ilimitado’, visto que assumem inúmeros registros, formas, intensidades e papéis em nossa imaginação.

Se, na Antiguidade clássica, coube a Esopo, com suas fábulas moralizantes, a tarefa de levar os animais (convertidos em metáforas do humano) para o campo exclusivo da ficção, inaugurando uma vertente zooliterária que atravessará os séculos com seu tom sentencioso e proverbial, foi A história dos animais, de Aristóteles, o primeiro grande compêndio científico-literário sobre o reino zoológico, no qual os animais foram tratados como animais, a partir de uma abordagem minuciosa que conjuga pesquisa, esforço taxonômico e imaginação criadora. Pode-se dizer que Aristóteles inaugura, assim, não apenas a tradição enciclopédica a que se filiarão Plínio, o Velho, Santo Isidoro e Lineu, como também a dos catálogos descritivos de animais reais e fantásticos, conhecidos como bestiários, que proliferarão na Europa a partir da Idade Média.”

(Do livro O animal escrito — Um olhar sobre a zooliteratura contemporânea, de Maria Esther Maciel. Bauru: Lumme Editor, 2008.)

domingo, 23 de maio de 2010

GALERIA: ALFREDO FRESSIA


UM POEMA DE ALFREDO FRESSIA


HORA DE SAL

Esta é a hora amarela dos lobos.
Esta é a hora dos ossos incendiados
como colunas ocas ao pé de sua queda.
(Há duas mil pistas de sabujos
até as unhas profanadas de todas as estátuas.)
Esta é a hora composta em que o ator suado
grita seu penúltimo monólogo
— e na praia a rocha não resiste sua horrível nudez,
a areia assobia seu delírio
na boca esquelética do peixe morto e seco.
O grito do ator cava um túnel de medo
porque esta é a hora dos lobos,
porque esta é a hora do sal ameaçando
as costas esgotadas das cruzes.
Esta é a hora em que viram de costas os relógios.
Esta é a hora em que o osso não resiste seu desvario de séculos.
Aqui já não suporta o pó suas colunas.
Derrubam-se as torres em sal e dinamite
para romper o último grito da estátua.
Aqui a boca quebrada das pedras.

Tradução: Fábio Aristimunho Vargas.

(Do livro Canto desalojado, de Alfredo Fressia. Bauru: Lumme Editor, 2010.)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

quarta-feira, 19 de maio de 2010

FESTIVAL TORDESILHAS: O DIÁLOGO LITERÁRIO ENTRE BRASIL E PORTUGAL

A primeira edição do Tordesilhas aconteceu em 2007, na cidade de São Paulo, com curadoria minha e da poeta Virna Teixeira, e reuniu cerca de 70 autores do Brasil, Portugal, Espanha e América Latina, desde autores jovens, ainda inéditos em livro, até nomes consagrados no plano internacional, como a mexicana Coral Bracho, o uruguaio Roberto Echavarren, o espanhol Joan Navarro e a argentina Tamara Kamenszain, entre outros participantes. Foi um evento histórico, que muito colaborou para a aproximação entre os poetas dos dois idiomas. Esta aproximação resultou no intercâmbio intelectual, na amizade, no conhecimento da produção poética de nossos vizinhos e também em iniciativas práticas, como a tradução de poetas de língua espanhola para o português e a tradução de autores brasileiros para o espanhol, com publicação em revistas literárias, sites e antologias. Para citar um exemplo, a coletânea Todo Começo é Involuntário, que reúne poetas brasileiros da novíssima geração, organizada por mim e traduzida ao castelhano pelo poeta chileno Leo Lobos, foi publicada na revista chilena El Navegante, e depois reproduzida em numerosas publicações eletrônicas na Espanha, Peru, México e outros países. Revistas brasileiras como a Zunái, Et Cetera, Coyote e Oroboro também publicaram autores da Venezuela, Equador, Chile e de outros países do continente. Houve ainda a circulação de artigos de análise crítica da poesia contemporânea brasileira e latino-americana nessas publicações, numa época em que a reflexão analítica sobre o fazer literário encontra pouco espaço fora do âmbito acadêmico. Por outro lado, a experiência do I Festival Tordesilhas indicou que, se foi possível ampliar a comunicação com a América Latina, ainda havia um diálogo escasso com os poetas de nosso próprio idioma, nos países da comunidade de língua portuguesa. A poesia portuguesa da segunda metade do século XX para cá ainda é pouco conhecida pelo público leitor brasileiro, fora do circuito universitário. Há poucos anos apenas saíram no Brasil livros de autores seminais como Herberto Helder, Ana Hatherly, Luiza Neto Jorge, e outros permanecem ainda inéditos em nosso país, como Salette Tavares ou Fiama Hasse Pais Brandão. Isto sem falar dos poetas que estrearam a partir dos anos 80-90. A poesia produzida em Angola, Moçambique, Macau, Goa ou Timor Leste, então, é praticamente desconhecida, fora ou mesmo dentro da universidade. Circula alguma coisa dessa produção em blogues e sites de literatura, mas não há livros disponíveis no mercado editorial brasileiro, com exceção de uma antologia africana lusófona organizada por Arlindo Barbeitos e do livro Ovi-sungo, Treze Poetas de Angola, este último organizado por mim e publicado pela Lumme Editor. De Moçambique, temos os romances de Mia Couto, e de Goa e Macau, apenas ensaios publicados por especialistas, como a professora Mônica Simas, da Universidade de São Paulo, que aliás publicou um artigo sobre a poesia de Macau no último número da revista Zunái.

Ou seja, o cenário é desolador, e não acredito que a poesia brasileira tenha divulgação melhor em Angola, Goa ou Timor Leste. Ainda somos ilustres desconhecidos para nós mesmos, apesar de falarmos o mesmo idioma e de termos tantos vínculos históricos e culturais. Dessa triste constatação, surgiram vários projetos com a mesma estratégia de borrar a linha divisória de Tordesilhas entre os nossos países. A revista Zunái, que circula na internet, publicou autores angolanos como Abreu Paxe e João Maimona, moçambicanos como Luís Carlos Patraquim, portugueses como Ana Hatherly e Casimiro de Brito, e no próximo número deve publicar poetas de Macau. A revista Et Cetera, editada em Curitiba até 2008, também publicou poetas africanos e portugueses, e a Coyote, em sua edição mais recente, publicada agora em maio, publicou um caderno especial dedicado a Anacrusa, de Ana Hatherly. No campo editorial brasileiro, a Escrituras tem publicado livros de autores portugueses contemporâneos, e a Lumme tem se interessado por projetos de divulgação de autores da lusofonia, como a citada antologia de poesia angolana e uma outra, prevista para futuro breve, de poesia moçambicana. Merece atenção especial as atividades desenvolvidas pelo poeta português Luís Serguilha, que tem sido um eficiente embaixador das letras brasileiras em Portugal. Ele é um leitor culto e atento da poesia brasileira mais recente, que tem divulgado com rara dedicação e empenho. Foi Luís Serguilha que me apresentou ao poeta e editor português André Sebastião, um dos responsáveis pela publicação da Antologia da Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milênio, organizada por mim e editada pela 07 Dias 06 Noites. Ele também me apresentou a Jorge Melícias, poeta e editor da Cosmorama, que tem publicado livros de vários autores brasileiros contemporâneos de qualidade, como Ricardo Corona, Horácio Costa e Rodrigo Garcia Lopes. Luís Serguilha apoiou a realização do festival Portuguesia, organizado pelo poeta brasileiro Wilmar Silva em Vila Nova de Famalicão, e tem publicado periodicamente textos sobre poesia brasileira em sites como Cronópios. Todas estas iniciativas, a meu ver, são passos importantes para um intercâmbio que pode crescer ainda mais nos próximos anos, e a proposta do Festival Tordesilhas é justamente a de impulsionar novas ações neste sentido. Precisamos conhecer e divulgar o que se faz de mais inventivo hoje na poesia de Moçambique, Timor Leste, Brasil, Portugal, Goa, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné Bissau, enfim, em todos os países e territórios da comunidade de língua portuguesa, pois este é um legado cultural que pertence a todos nós. É a nossa riqueza cultural. Grato a todos pela presença!
(Comunicação que apresentei na mesa de abertura do Festival Tordesilhas, sobre o tema "O diálogo literário entre Brasil e Portugal".)

GALERIA: MUSEU DO ORIENTE


CRÔNICAS DE LISBOA (VII)

Após almoçar no restaurante indiano, aceitei a sugestão de Horácio Costa e fui visitar o Museu do Oriente, que traz coleções de objetos de arte da China, Índia, Japão, Coréia e principalmente dos territórios que fizeram parte do império português no continente asiático: Goa, Macau, Timor Leste. Fiquei encantando com as gravuras chinesas que fizeram parte da coleção pessoal de Camilo Pessanha, as esculturas que representam Kwanin (o Buda feminino da Compaixão), os biombos japoneses dos séculos XVII e XVIII, as armaduras e espadas de samurais do período Meiji (1868-1912) e um rico acervo com obras de Timor Leste. Na loja do museu, comprei, entre outras coisas, as Cartas do Extremo Oriente, de Wenceslau de Moraes, escritor português que viveu em Macau e no Japão no final do século XIX, converteu-se ao budismo e vestia-se com roupas tradicionais japonesas. Assim como Camilo Pessanha, ele foi um dos primeiros intelectuais portugueses que estudaram com seriedade a arte e a filosofia orientais. No final da tarde, visitei o Museu Nacional de Arte Antiga, na rua das Janelas Verdes, que possui uma coleção de pinturas de mestres como Albrecht Dürer e Cranach, o Velho, além do tríptico As Tentações de Santo Antão, de Hieronymus Bosch. O museu apresenta ainda peças de ourivesaria e joalheria portuguesas, obras em cerâmica da China e do Japão e uma sala decorada com mobiliário português do século XVIII. É preciso percorrer, por várias horas, as salas desse museu, para saborear aos poucos o seu acervo. À noite, como despedida, fui jantar em um excelente restaurante francês, onde comi um prato de carneiro inesquecível. No dia seguinte, eu deveria voltar a São Paulo, se não perdesse o avião, mas já contei essa história a vocês...

terça-feira, 18 de maio de 2010

GALERIA: CASTELO DE SÃO JORGE


CRÔNICAS DE LISBOA (VI)

No dia 08 de maio, apesar da forte chuva, fui visitar o Castelo de São Jorge, localizado sobre a mais alta colina do centro histórico da cidade. Esta fortificação foi construída no século XI pelos árabes, que chamavam Lisboa de Al-Ushbuna. O castelo foi tomado pelas forças cristãs lideradas por D. Afonso Henriques em 1147, e recebeu o nome do santo de devoção dos cavaleiros medievais portugueses. Percorrer as salas, pátios e escadarias desse castelo tão impregnado de história é uma experiência que nos faz pensar na brevidade dos impérios e da ambição humana: esse local, hoje reduzido a ruínas, já foi habitado por fenícios, romanos, árabes, portugueses, ao longo de 25 séculos. Foi ali, no Paço Real, que aconteceu a recepção a Vasco da Gama, para comemorar a descoberta do caminho marítimo para as Índias; foi ali que Gil Vicente representou a sua primeira peça teatral, o Auto do Vaqueiro, para a família real portuguesa; foi ali que se travaram batalhas entre os mouros e a cristandade, que disputavam o domínio da Europa. Caminhar por corredores antes percorridos por monges e soldados, príncipes e cortesãs, prisioneiros e poetas, era como participar, simbolicamente, dos fatos históricos gravados naquele chão, naquelas torres e muralhas. Saindo do castelo, e ainda sob forte chuva, fui visitar a Catedral da Sé de Lisboa, erguida em 1150 por D. Afonso Henriques, em local onde antes havia uma mesquita. O estilo arquitetônico dessa igreja escura, de altas colunas, arcos austeros e poucos ornamentos, como o vitral em forma de rosácea, combina elementos góticos e românicos que nos falam de uma época em que o mundo era visto como um teatro demoníaco, um antro de tentações do qual deveríamos escapar pela vida virtuosa, pela prece contínua, pela modéstia e despojamento de qualquer ambição mundana ou sensualidade. É um espírito próximo ao da Contra-Reforma, mas, em sua manifestação estética, é o extremo oposto: severidade em vez de encantamento, humilhação das formas, em vez de sua vertigem alucinatória. A sensação de estar ali é um pouco sufocante. Após essa experiência, nada mais agradável do que ver a paisagem de Lisboa pelo miradouro de Santa Lúcia, caminhar pelas ruas e descobrir um restaurante indiano, onde comi um delicioso samosa, nan e um prato de carneiro com curry. O restante do dia foi dedicado a visitas a alguns museus, mas sobre isso escreverei na próxima crônica.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

GALERIA: IGREJA DE SÃO ROQUE


CRÔNICAS DE LISBOA (V)

No dia 07 de maio, visitei a igreja de São Roque, uma construção do século XVI, localizada no Chiado. A igreja, uma das mais belas de Lisboa, começou como uma simples ermida, que D. Manuel I mandou erigir para abrigar uma relíquia do santo, trazida de Veneza após um surto de peste, em 1505. Quando a Companhia de Jesus chegou a Portugal, em 1540, a ermida foi transformada em igreja, e nos anos seguintes passou por diversas modificações, que podem ser percebidas na mescla de elementos arquitetônicos renascentistas e barrocos. A Capela de Nossa Senhora da Doutrina, decorada com talhas douradas e mármores de influência italiana, recorda algumas igrejas barrocas brasileiras, como as de Recife e Olinda. O excesso visual, a dramaticidade das imagens, toda a atmosfera do lugar parece nos transportar a uma outra dimensão, que seduz os sentidos do espectador pela festa de cores e formas. A estratégia da arte barroca, aliás, era exatamente esta, levar a mensagem da Contra-Reforma aos fiéis apelando para as sensações visuais, auditivas e olfativas (a missa barroca era um verdadeiro teatro, que de certo modo antecipou a "obra de arte total" de Wagner, somando a arquitetura, a música, as artes visuais e outras formas de expressão no ritual de encenação da saga de Cristo). No Museu de São Roque, além de um acervo com peças de arte religiosa, em que se destacam obras como as esculturas de Santo Inácio de Loyola e São Francisco Xavier em madeira policromada (que chamaram a minha atenção pela vivacidade dos rostos e pelos detalhes das vestes, que simulam movimentos espiralados), é possível ver obras de arte oriental, como uma arca de Macau datada do século XVIII, construída em madeira com incrustações de madrepérola e ferragens metálicas, detalhes com figuras de serpentes e dragões. Uma peça fascinante, que me deixou perturbado por sua beleza. Saindo do museu, perambulei sem rumo pelas ruas do Chiado, e encontrei uma livraria especializada em gravuras e livros antigos. Uma pena eu estar com poucos euros no bolso! À noite, voltei à Casa Fernando Pessoa, para o encerramento do Festival Tordesilhas, com o debate "A poesia de língua portuguesa na era da globalização", com João Miguel Henriques (Portugal), Virna Teixeira e Eduardo Jorge (Brasil). Em seguida, houve um recital com esses poetas e o português Ruy Ventura, e por fim o lançamento do livro Ravenalas, de Horácio Costa, que saiu pela Demônio Negro, e da plaquete Entulho, de João Miguel Henriques, que saiu pela Arqueria Editorial. O final do evento mereceu comemoração em alto estilo, num ótimo restaurante português, com direito a bacalhau, queijos e vinhos.

sábado, 15 de maio de 2010

GALERIA: O RIO TEJO







CRÔNICAS DE LISBOA (IV)

No dia 06 de maio, acordei cedo, peguei o metrô até o Cais do Sodré e fiz um passeio de barco sobre o rio Tejo. Após chegar à outra margem, desci para tomar uma cerveja e fiquei observando as placas com os nomes curiosos de alguns bares: “Atira-te ao rio” e “Ponto final”. Descobri um elevador que conduzia até o alto de um mirante, chamado “Boca do Vento”, e não resisti à tentação de subir, para contemplar bem do alto a paisagem portuária. Depois, caminhei sem destino até chegar ao bairro da Almada, com suas ruas estreitas, casas antigas com ladrilhos nas paredes e sacadas nas janelas. Encontrei um cinema chamado “Cine Incrível”, a sede da “Sociedade Filarmônica Incrível Almadense” e um pequeno museu dedicado à Revolução dos Cravos, que ostentava na fachada a frase “O povo é quem mais ordena”, extraída da canção Grândola Vila Morena. Era um dia de sol, e caminhar de modo aleatório por aquelas ruas, notando estas cenas cotidianas, mas inusitadas para mim, parecia uma aventura fascinante. Consegui, não sei como, chegar até uma estação de metrô, que levou-me até a Praça Marquês de Pombal. Fiz nova visita à feira de livros, onde comprei A Ampola Miraculosa, romance visual do poeta surrealista português Alexandre O'Neill, que recorda um pouco as experiências de narrativa visual de Valêncio Xavier (O Mez da Grippe) e de Sebastião Nunes (Antologias Mamalucas) e ainda outra obra bem singular, Acaba de Aparecer o Quadrado Azul, de Almada Negreiros, o mais construtivista dos poetas da geração de Orpheu. Por fim, voltei ao hotel e descansei por algumas horas antes de ir para o Festival Tordesilhas, na Casa Fernando Pessoa, onde fui mediador num debate sobre o tema “A poesia contemporânea de língua portuguesa na África”, com os poetas Jorge Arrimar (Angola), Jorge Viegas e Delmar Maia Gonçalves (Moçambique). Após o debate, aconteceu uma breve leitura da poeta portuguesa Catarina Nunes de Almeida, a exibição de um vídeo de Eduardo Jorge e a apresentação de meu livro Escrito em Osso, publicado em Portugal pela editora Cosmorama. No final do evento, saí com Eduardo Jorge, Virna Teixeira e João Henriques para uma noitada num bar da rua das Salgadeiras, frequentado por jovens que se vestem de preto, gostam de botas de cano longo, piercings e fumam excessivamente. A coisa toda foi até as duas horas da madrugada; confesso que já estou meio velho para baladas.

sexta-feira, 14 de maio de 2010